Cadernos de um enviado especial ao purgatório (40)


Luís Naves,

Em Portugal, o referendo pela independência na Escócia produziu análises diferentes das que encontramos na Imprensa internacional, que pareceu mais preocupada com as consequências da votação na vida dos escoceses e no futuro do Reino Unido. Por aqui choveram as críticas sobre a União Europeia, que estará à beira do colapso. Veja-se este texto de João Miranda, que coloca a questão ao contrário: os eleitores escoceses não votaram pela Escócia ou pelo Reino Unido, mas foram vulneráveis a um suposto interesse exterior. “A União Europeia tem interesse em enfraquecer os grandes Estados”, escreve o autor de Blasfémias, como se os Estados europeus que formam a UE tivessem algum interesse em enfraquecer-se a si próprios.

Neste texto no DN, Viriato Soromenho Marques compara a situação europeia ao império romano e à ex-Jugoslávia. As analogias históricas são sempre interessantes, mas não vejo como será possível usar estas duas. Roma era um império e a ex-Jugoslávia uma federação, a União Europeia não é uma coisa nem outra.

A Escócia pondera ou ponderou sair do Reino Unido, mas não se propõe sair da UE, pelo contrário, deseja permanecer (escrevo quando a votação terminou e o resultado ainda é desconhecido, mas o argumento funciona para os dois lados). A Catalunha quer sair de Espanha, mas não tem qualquer intenção de abandonar a União. O mesmo se pode dizer da Flandres e das outras regiões nacionalistas que em breve serão micro-Estados.

A fragmentação política na Europa está provavelmente no futuro, mas ligada à elevada sensação de segurança dos europeus. Os escoceses não sentem qualquer ameaça externa e acreditam que se podem tornar numa espécie de país escandinavo. Se houvesse uma ameaça, ninguém votaria a favor da separação. Dizer que o problema está na Europa parece ser uma conclusão contrária aos factos. É precisamente o oposto, ninguém quer perder o acesso a um mercado gigantesco e à livre circulação de bens e capitais. Isto também não é uma conspiração de Bruxelas contra o Estado-nação, pelo contrário, as nações europeias podem existir de muitas formas e existem também sob a forma União Europeia, que pertence aos Estados que a compõem.

Canais de Marte (episódio da História do Fracasso)


Luís Naves,

Sabemos hoje que Marte é um planeta inóspito e deserto, com uma superfície avermelhada devido à presença de óxido de ferro e com atmosfera demasiado fina para conseguir captar calor. Distante do Sol em média 50% mais do que a Terra, as suas temperaturas são extremamente baixas e nos pólos chegam a ser inferiores ao ponto de congelação do dióxido de carbono (-190 graus centígrados). A fraca densidade da atmosfera marciana é um mistério, talvez efeito da extinção do campo magnético que permitiu a acção dos ventos solares, havendo a possibilidade de um impacto catastrófico ter arrancado uma fatia da antiga atmosfera.

O quarto planeta do sistema solar tem exercido forte fascínio. Observado já pelos egípcios e gregos, foi baptizado com o nome do deus da guerra dos romanos. Na Era Moderna, houve gerações de astrónomos que tentaram desvendar os seus segredos, mas no final do século XIX uma falsa descoberta excitou a imaginação do mundo científico, contaminando de forma irreversível a cultura popular. Em 1877, houve excelentes condições para a observação do planeta Marte. Foi nesse ano que se descobriram dois pequenos satélites, Deimos e Fobos (Terror e Medo) que serão possivelmente asteróides capturados pela força da gravidade do planeta. Nesse mesmo ano, um eminente astrónomo do Observatório de Milão, Giovanni Schiaparelli, descreveu o que lhe pareciam ser “canais” na superfície marciana. Schiaparelli fez desenhos pouco detalhados onde havia zonas escuras, a que chamou mares, e zonas claras, que denominou continentes. E, entre os dois, aquilo a que chamou “canali”, linhas finas que pareciam ligar as diferentes zonas.

  

Esta observação tornou-se célebre e a palavra italiana canali foi traduzida para o inglês canals, que ao contrário do vocábulo italiano sugeria artificialidade. Este pequeno detalhe bastou para criar um frenesim que rapidamente se converteu numa ideia capaz de concentrar as fantasias da época: a descoberta parecia indicar a existência de vida no planeta vizinho. Bastava olhar por um telescópio e lá estavam as áreas escuras e claras. Ninguém desconfiou da circunstância de não haver dois mapas idênticos ou de ser difícil obter fotografias nítidas das formas.

A observação de Schiaparelli foi popularizada por um matemático e astrónomo americano, o milionário Percival Lowell, que esticou ainda mais o conceito. Onde Schiaparelli vira depressões que podiam ser vales alongados, Lowell encontrou um sistema de irrigação, produzido por uma civilização cuja míngua de água tinha levado a extremos de engenho.

Lowell era uma figura influente e sabia escrever com estilo. O astrónomo americano descreveu com detalhe aspectos “não-naturais” na superfície de Marte, nomeadamente canais construídos para levar água dos pólos para o equador. Viu também oásis, zonas escuras entre canais. Tudo isto sugeria vegetação e inteligência. Estas teses foram discutidas em detalhe pela imprensa e entraram rapidamente no imaginário popular. Entre 1895 e 1908, Lowell escreveu três livros de popularização científica sobre as características artificiais dos canais marcianos e construiu um telescópio que na altura era o mais sofisticado do mundo (na realidade, foi o primeiro edificado a grande altitude), em Flagstaff, no Arizona. Foram feitos mapas detalhados da civilização marciana e especulou-se furiosamente sobre a engenharia em causa.

Nos textos de Lowell os canais e oásis surgiam com sugestivos nomes clássicos. O autor escreveu que havia linhas de vegetação, algumas duplas, e que o fluxo de água das calotes para o equador não podia ser explicado pela gravidade. Origem artificial, água escassa e interferência inteligente foram algumas das expressões que usou. O sistema visava distribuir água e o astrónomo concluía que a forma de vida inteligente era pacífica, pois os povos setentrionais e equatoriais estavam a cooperar para o mesmo fim, tentando travar o declínio do planeta.

Os canais de Marte deram consistência ao género literário hoje conhecido por ficção científica. Em 1898, o escritor britânico H. G. Wells publicou o seu fenomenal A Guerra dos Mundos, livro que descreve uma cruel invasão de marcianos. Em 1912, o americano Edgar Rice Burroughs lançou a sua série de histórias sobre as aventuras marcianas de John Carter, que fez as delícias de mais do que uma geração de jovens. Aliás, o tema da vida inteligente em Marte dominou o género ao longo de todo o século XX, com destaque para clássicos como Crónicas Marcianas, de Ray Bradbury (1951) ou Areias de Marte, de Arthur C. Clarke (1951), onde surgem marcianos inteligentes e os humanos podem respirar na superfície do planeta. Em Martian Time-Slip, de Philip K. Dick ((1964) ou Estranho numa Terra Estranha, de Robert Heinlein (1961), a paisagem já é mais inóspita, uma espécie de deserto, mas as pessoas circulam com respiradores e as temperaturas são aceitáveis. Até há agricultores no livro de Dick.

 

Se estas ideias tinham entrado com força na cultura popular, na comunidade científica havia cépticos que já no início do século XX tinham demolido a tese dos canais e da civilização alienígena. Todas as tentativas de desenhar o tal sistema davam resultados diferentes, conforme o autor da observação ou o dia em que era feita.

Schiaparelli faleceu em 1910 e Lowell em 1916, antes de surgir a explicação da ilusão de óptica. Na realidade, os astrónomos eram enganados pela sua própria visão, pois os seres humanos têm tendência para formar padrões onde estes não existem. Não havia canais, mas uma superfície irregular que a imprecisão dos telescópios, as deformações atmosféricas e a má visão humana transformavam num imaginário sistema de irrigação. Também havia entusiasmo em excesso e alguns autores estavam apenas a encontrar os seus desejos.

O segundo livro de Lowell, Mars and Its Canals, mereceu em 1907 a crítica demolidora de Alfred Russell Wallace (1823-1913), um dos maiores cientistas do seu tempo e que já em 1902 tentara refutar a teoria dos canais. Num livro intitulado Marte É Habitável?, Wallace explicava que não havia vapor de água, que a pressão atmosférica era demasiado débil e a temperatura demasiado baixa para permitir água no estado líquido. Este livro é considerado um percursor de um ramo novo, a astrobiologia. Wallace é uma das figuras mais extraordinárias (e modestas) da história da ciência. Este biólogo fez observações em todo o mundo e concebeu a teoria da evolução na mesma altura em que Charles Darwin a propôs publicamente, embora o seu mecanismo de diversificação das espécies não tenha usado o termo “selecção natural”, que ficou mais famoso. Darwin tem assim a primazia da teoria da evolução, mas deu sempre a Wallace o devido mérito e os dois homens mantiveram uma longa e frutuosa amizade.

 

Apesar destes esforços, a ideia de Lowell sobre os canais em Marte só foi totalmente rejeitada na década de 60 do século XX, quando a NASA enviou as sondas automáticas Mariner. Apesar de tudo, Lowell é uma figura marcante da astronomia e dedicou parte da sua vida à procura do misterioso planeta X, em órbita além de Neptuno, investigação que levou à descoberta de Plutão em 1930. As duas primeiras letras são uma homenagem ao seu nome, Percival Lowell. O nono planeta do sistema solar foi entretanto despromovido a planeta anão, categoria que poderá ter mais de 20 objectos no sistema solar.

Os marcianos reapareceram em 1996, quando foram observadas pequenas estruturas no interior de um meteorito encontrado na Antártida e que um impacto ejectara de Marte num passado remoto. Alguns cientistas viram nessas estruturas micróbios fossilizados, mas a ideia tem sido contestada. Marte foi entretanto estudado por sondas automáticas, sobretudo da NASA, Viking (1976), Mars Pathfinder (1997), Spirit e Opportunity (2004) e a mais recente Curiosity (2012), todas com resultados sensacionais. As sondas demonstraram que no passado do planeta (há milhões de anos) houve água em estado líquido na superfície. Se existir vida, ela será precária e estará enterrada profundamente no solo marciano, ao abrigo dos raios ultravioleta. No entanto, os autênticos marcianos poderão no futuro ser da espécie humana. É muito discutida a ideia de terraformar o planeta vermelho, algo que teria enormes dificuldades e custos, mas que será tecnicamente possível. Uma eventual colonização humana de Marte não começará antes de 2030. Os nomes até já existem: foram sugeridos por Lowell (Elysium, Fons Immortalis, Arcadia, Tharsis). 

 

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (39)


Luís Naves,

A votação sobre a independência da Escócia mostra os perigos do referendo. É fácil que um debate seja captado por populistas, por interesses limitados e por ideias delirantes. Muitos eleitores votarão por não gostarem do governo conservador britânico. Julgando escolher a independência, tentam assim castigar um partido, afectando profundamente a vida de pessoas sem direito a voto.

Num referendo, as duas opções nunca são iguais nas suas consequências: neste caso, o sim à independência será irreversível (nem que seja por um voto), enquanto o “não” pode ser desafiado dentro de cinco a dez anos, sobretudo se houver diferença mínima. As sondagens indicam votação equilibrada, com tendência para o “não” à independência, logo estamos perante um exemplo do poder crescente do populismo e da fragmentação política na Europa.

Há outro aspecto relevante: como é que uma região da UE se transforma num país da UE?  A Escócia terá um óbvio problema de moeda, pois precisa de negociar a permanência na libra ou a adesão ao euro. Quanto tempo levará a transição? Que parte da dívida britânica ficará na Escócia? Os maiores obstáculos estarão na integração europeia, pois a Escócia precisará de negociar a partilha de poder (comissário, eurodeputados, assento no conselho, funcionários, legislação) e isso terá de ser ratificado por cada Estado-membro da UE. Por exemplo, o Reino Unido perde eurodeputados ou haverá aumento no número global e todos perdem? É irónico: os escoceses votam pela independência e terão de iniciar de imediato uma partilha de soberania.

Em caso de acabar o Reino Unido, o referendo será estudado de perto por catalães e flamengos. Caso o futuro corra mal, a votação funcionará como vacina para outros soberanistas. A democracia europeia tem esta evidente vantagem, permitindo que decorram várias experiências em simultâneo, umas servindo de modelo, outras de aviso.

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (38)


Luís Naves,

A comunicação social foi unânime: o representante português na Comissão Europeia, Carlos Moedas, obteve um posto irrelevante numa área onde o Governo tem desinvestido. Segundo esta visão, Moedas terá uma função de segunda linha e houve até notícias a ridicularizar o resultado. O PS chegou a referir que tinha “evitado” a entrega de uma pasta social e surgiu a história delirante de que o presidente da comissão tinha pedido o envio de outra pessoa (como se isso fosse possível). Era crucial demonstrar que a pasta de ciência representa pouco, nomeadamente investigadores que se dedicam a assuntos bizarros e teóricos.

O que a comunicação social não explicou é que Portugal conseguiu um dos bifes do lombo na nova Comissão Europeia. Carlos Moedas vai gerir o Programa Horizonte 2020, o mais ambicioso de sempre na área da ciência e da inovação. Entre 2014 e 2020, terá um orçamento de 80 mil milhões de euros (é o orçamento português durante um ano), sem contar com a parte do investimento privado. Este programa terá implicações nas áreas da saúde, espaço, transportes, energia, visando a criação de emprego e a participação activa de empresas. Na realidade, trata-se de uma pasta vital da área económica, que visa criar a “União da Inovação” e uma política mais integrada, para impedir a duplicação de trabalhos e aumentar a cooperação.

Quando falam de estratégia, os dirigentes europeus mencionam a consolidação orçamental, as reformas estruturais e costumam referir um terceiro elemento: o investimento em investigação e desenvolvimento. O objectivo é conseguir que até 2020 todos os países gastem no sector 3% do PIB. Carlos Moedas estará no centro de uma das políticas mais importantes da UE, mas estão a vender-nos o filme ao contrário e quase se pode prever o circo mediático à volta da confirmação parlamentar do comissário. É a política do quanto pior, melhor, agora ao vivo e a cores também na Europa, onde costumava existir consenso.

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (37)


Luís Naves,

A parte mais difícil de uma crise é sair dela. É esse o conflito a que assistimos: no pós-troika, os grupos de interesses e as corporações tentam não perder doses excessivas do poder que detinham. Para isso, criam um clima de horror, desvalorizando o presente: quem disser que a economia começou a crescer e a criar emprego é acusado de propagandista. O passado é negado ou revisto.

Na primeira década do século, o regime democrático avançou para o desastre em atitude sonâmbula, adiando as reformas que podiam ter evitado a queda. Todos os partidos foram responsáveis, mas os socialistas cometeram erros calamitosos. Em 2011, o País entrou em pré-falência e foi salvo pelos seus parceiros europeus, que impuseram reformas estruturais associadas à redução da despesa pública. Esse programa foi cumprido pelo actual governo, com três anos de duros sacrifícios para a população, empobrecimento, aumento do desemprego, cortes nos salários e pensões, mais impostos e menos consumo, falências, emigração.

Entretanto, finda a tutela, os políticos e os comentadores falam como se isto nunca tivesse acontecido. O País não criou a sua própria dívida, o resgate não tinha condições definidas num memorando difícil (e mal negociado). Até se repete que as exigências externas não foram cumpridas. Assim, o ajustamento foi um absurdo, mero zelo ideológico, teimosia de um governo incompetente ou ao serviço de interesses alheios. A austeridade e o empobrecimento não são sintomas do fracasso, mas as causas do mal.

Talvez o País decida regressar aos desequilíbrios crónicos das contas públicas e à cultura dominante da irresponsabilidade das clientelas partidárias. No último século e meio, foi essa a tendência, as reformas foram sempre demasiado curtas para mudar o essencial. E, no entanto, desta vez parece diferente: os europeus tentarão evitar o regresso da tendência e as nossas paupérrimas elites instaladas, uma das causas do atraso nacional, terão menos poder. Se escolhermos o passado, voltaremos à situação de pedintes ou teremos de sair da Europa desenvolvida. A UE também mudou com esta crise, como demonstram o Tratado Orçamental, a união bancária e a política francesa. Isto é algo que muitos não querem compreender: seremos europeus ou caóticos.

Gordon em Cartum (episódio da História do Fracasso)


Luís Naves,

No início de 1885, no auge do Império Britânico e da Era Vitoriana, ocorreu uma famosa derrota militar que inflamou os jornais do mundo civilizado e o coração de muitos jovens ambiciosos com sonhos de seguir a carreira das armas. O herói desta história, Charles Gordon, foi brutalmente morto e degolado no final do cerco de Cartum, mas o império viria a vingá-lo anos mais tarde, condenando ao esquecimento o vencedor da batalha.

De forma perturbadora, e apesar do contexto ser outro, certos elementos da saga de Gordon são imitados por situações do presente. O general inglês estava ao serviço do governo egípcio, liderado por uma elite de origem otomana, mas na realidade orientado do exterior, pois o Egipto era na época um protectorado inglês, embora tivesse desde 1819 o seu próprio pequeno império africano. A insustentável dívida pública egípcia era gerida pelos credores, os ingleses, que nomeavam o ministro das Finanças egípcio e controlavam todas as despesas. Este protectorado foi alargado ao exército em 1882. O Quediva do Cairo, supostamente tributário do Império Otomano, pertencia na realidade ao Império Britânico.

Entretanto, os interesses egípcios no Sudão estavam a ser contestados por uma rebelião fundamentalista islâmica chefiada por um homem chamado Mohammed Ahmed, que se reclamava descendente do Profeta e dizia ser o Mahdi (as correntes messiânicas sunitas acreditam na profecia de que haverá um enviado, sucessor de Maomé). Os Mahdistas estavam em plena Jihad (guerra santa) e estavam até a vencê-la. O Sudão encontrava-se já sob seu controlo, à excepção da capital, Cartum, cidade criada pelos egípcios na confluência do Nilo Azul e do Nilo Branco, e onde havia uma poderosa guarnição.

O cerco de Cartum, iniciado em 1884, tinha grande importância para as duas partes. As vidas paralelas de Mohammed Ahmed e Charles Gordon convergem na noite de 25 para 26 de Janeiro de 1885, quando, pressionado pela chegada iminente de um exército de resgate, o Mahdi decidiu dar o golpe final na cidade, que resistira 320 dias. Consta que não houve sobreviventes na guarnição egípcia de 7 mil homens, mas talvez essa informação seja propaganda posterior. O general Gordon tinha 52 anos, o Mahdi 44.

 

Neste episódio da História do Fracasso não há muitas versões do vencedor. Pelo contrário, os factos foram contados pelos perdedores, quase sempre de forma tendenciosa, com notáveis excepções, como é o caso de Slatin. Em 1896 foi publicado em Londres um livro, Fire and Sword in the Sudan, escrito por um oficial do exército egípcio, o barão austríaco Rudolf Slatin, que fora durante dez anos prisioneiro dos Mahdistas e que conhecera o próprio Mohammed Ahmed. Conhecido por Slatin Paxá, este oficial escapara do cativeiro com ajuda de um membro dos serviços de inteligência britânicos e conseguira regressar a segurança. As suas aventuras são sensacionais e o livro (disponível na internet) está repleto de pérolas, mas o relato vale sobretudo pela descrição desapaixonada da ascensão do Mahdi.

A rebelião no Sudão começara no início da década de 80. Pressionados pelos ingleses, os egípcios tentavam conter o tráfico de escravos e havia forte repressão das tribos mais envolvidas nesta prática, o que era o grande motivo do forte descontentamento com a péssima administração colonial.

Mohammed Ahmed era um obscuro religioso de origem humilde que, ao revoltar-se contra o seu mentor, afirmou ser descendente do Profeta. Após um período de reclusão e oração, o discípulo desprezado começou a espalhar uma doutrina purificada e fundamentalista, que atraiu numerosos seguidores. A sua mensagem de libertação engrossou o movimento religioso e, após a recusa desta comunidade em pagar impostos, ocorreu uma displicente reacção egípcia, que acabou em desastre militar. Na sequência do combate, em 1881, Mohammed Ahmed, de acordo com as profecias, declarou-se o Mahdi e nomeou quatro califas. O seu exército cresceu rapidamente e conquistou quase todo o Sudão.

Em Novembro de 1883, o Mahdi destruiu um exército considerável, comandado por oficiais europeus. A partir daí, o seu movimento triunfara. Como escreveu Winston Churchill em River War, livro onde relata a campanha do Sudão, “não sei como é que se distingue um profeta genuíno de um falso, a não ser pela medida do seu sucesso. Os triunfos do Mahdi foram, durante a sua vida, bem maiores do que aqueles do fundador da fé maometana. E a principal diferença entre a fé muçulmana ortodoxa e o mahdismo foi que o impulso original se confrontou com sistemas decadentes da governação e da sociedade, enquanto o movimento recente entrou em contacto com a civilização e a maquinaria da ciência” (*). Churchill conhecia o seu tema, pois como jovem oficial de cavalaria participou em 1896 no esmagamento do movimento mahdista ou do Império Dervixe. Este excerto de um livro que tornou famoso o jovem político inglês ainda hoje tem actualidade, podendo ser aplicado a movimentos fundamentalistas islâmicos mais recentes e que se confrontam com a modernidade e a civilização.

 

O general Gordon, representante da civilização da época e da maquinaria da ciência, era um figura lendária, soldado profissional que se distinguira na Guerra da Crimeia e depois seguira uma carreira com momentos de glória durante a rebelião Taiping, na China, ou em anteriores acções no Sudão. Gordon tinha fama comparável à das modernas estrelas rock e era a personificação das virtudes do império britânico. Por isso, estava pouco disposto a receber ordens e esse foi o seu maior problema.

Em plena Guerra Santa, as tribos sudanesas ameaçavam a capital, Cartum. Os ocidentais e a administração egípcia, com as respectivas famílias e elites nativas tinham-se concentrado na única cidade que restava sob controlo ‘civilizado’. A Inglaterra não queria meter-se num conflito tão incerto e Gordon, ao serviço do governo egípcio, mas sempre oficial britânico, foi enviado em Fevereiro de 1884 com instruções para evacuar a cidade, usando uma pequena frota de embarcações que subiam e desciam o Nilo.

Na realidade, o general decidiu desobedecer às instruções que lhe dera o Quediva do Cairo. Procedeu à evacuação de mulheres e crianças, mas ficaram em Cartum 15 mil pessoas, incluindo um forte dispositivo militar, que Gordon rapidamente verificou ser insuficiente para impedir o cerco dos Mahdistas.

O general fortificou Cartum mas não confiava nas suas tropas e recusou converter-se ao Islão (o que Slatin fizera no Darfur, para escândalo de Gordon, mas essa é outra história). Houve assim constantes deserções e traições, o entusiasmo dos soldados era mínimo e os melhores oficiais foram sendo mortos em combates no exterior, que resultaram em derrotas, redução do perímetro e perda de armas. Quase até ao final do cerco, o general Gordon podia ter evacuado Cartum, mas resistiu teimosamente, apesar de também desconfiar da população.

 

Entretanto, em Londres, o governo de William Gladstone estava sob forte pressão para enviar uma força de resgate, mas durante meses foi adiando a decisão. A opinião pública considerava esta atitude escandalosa e a própria rainha Vitória manifestou a sua indignação. Gladstone acabou por ceder. A expedição de socorro tinha dez mil homens, mas as dificuldades logísticas eram tremendas, os barcos tinham de ser operados para lá das cataratas, com correntes fortíssimas, e o contingente que progrediu pelo deserto teve forte oposição.

Os combates para retardar o exército britânico foram ferozes, mas a força que atravessara o deserto conseguiu chegar ao Nilo e um pequeno contingente embarcou em lanchas que Gordon mantinha mais a norte de Cartum. No entanto, esta força chegou à cidade apenas a 27 de Janeiro de 1885, dois depois dos dervixes a terem conquistado. Ainda havia colunas de fumo, mas era demasiado tarde.

Perante a aproximação da expedição de socorro, o Mahdi apressara-se. Cartum fora tomada de assalto em poucos minutos. Gordon ainda tentou resistir, mas em vão. Foi apanhado pelos assaltantes no pátio do palácio. Rodeado por dezenas de homens armados e excitados, perguntou “onde está o vosso chefe?”, mas a tentativa de intimidação era inútil: o general mais famoso do seu tempo foi rapidamente morto e decapitado. Depois, os rebeldes levaram a cabeça de Gordon ao Mahdi.

Os ingleses já não tinham objectivo e retiraram do Sudão, que durante uma década ficou fora do mundo civilizado. O governo Gladstone foi culpado pelo desastre. Por ter abandonado Gordon à sua sorte, o primeiro-ministro teve de se demitir. Mohammed Ahmed tinha criado o Império Dervixe, mas morreu apenas cinco meses depois do seu triunfo, vítima de febre tifóide. Dez anos mais tarde, os ingleses recuperaram o Sudão e destruíram o movimento fundamentalista. Churchill participou nessa campanha e relatou o banho de sangue em páginas memoráveis.

 

*(River War, A Reconquista do Sudão, Winston Churchill, pág. 41) 

 

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (36)


Luís Naves,

O pessimismo não é um exclusivo nacional, mas assenta numa consciência ancorada na cultura contemporânea. Imaginem um romance onde o autor decide casar toda a gente e são todos felizes para o resto da vida. Um livro deste tipo dificilmente veria a luz do dia, pois o editor acharia tanto optimismo um perfeito disparate. Se, passando entre as gotas da chuva, chegasse às livrarias, a história seria ridicularizada. Enfim, isto não se aplica a paródias, havendo ainda outras excepções, mas o ponto é o seguinte: já não há finais felizes.

Imaginem o espanto do público na exposição de pinturas com flores e pessoas contentes e casamentos e alegria e vida e ainda sol e felicidade. Toda a gente diria que o pintor era maluco, sem ter incluído uma referência ao medo de existir, ao destino fatal da condição humana, sem sequer uma crítica tímida à opressão, às injustiças sociais, ao peso do declínio da civilização ou à ameaça existencial. Tendo em conta a crise eterna, o optimismo seria deslocado também numa simples comédia em filme ou no teatro.

Cores bonitas, pessoas lindas? Nem na moda ou na publicidade isso funciona: tem de haver uma pequena crítica, algo de bizarro ou grotesco, uma beleza fria ou indiferente. Numa sociedade obcecada com a visão pessimista de si própria, o final feliz tornou-se numa anomalia antiquada e tola. Pode até surgir como comentário trocista, mas nunca como imagem da realidade. O final feliz precisa de alguma forma de ambiguidade ou será visto como estúpido e infantil.

O mundo é aquilo que vemos dele. As reportagens e os documentários são sobre gente no limite, sobre injustiças e derrotas. Os romances centram-se no fracasso ou na observação do homem trucidado pela História. Os filmes são violentos, a pintura é sombria, a música inquietante.

Verdes contra azuis (episódio da História do Fracasso)


Luís Naves,

Constantinopla, hoje Istambul, era uma cidade esplendorosa e imensamente rica para os padrões do século VI. A capital do Império Bizantino sobrevivera por milagre às invasões bárbaras, que tinham transformado o ocidente da Europa numa zona de devastação. No tempo do imperador Justiniano, Constantinopla fez a derradeira tentativa militar, pelo menos a última considerada séria, para recuperar a metade perdida do velho império romano. As expedições foram lideradas por um general notável, Belisário, mas a maré que arrastava para o fundo era demasiado forte e todos estes esforços deram em pouco. Bizâncio viria a controlar a Itália ainda durante um curto período, mas já não escondia a sua própria fraqueza.

A queda da civilização romana teve motivos complexos, por exemplo, a natureza violenta da época e a fragilidade dos regimes imperiais, elementos que saltam à vista num incidente que ocorreu no início do reinado de Justiniano e ao qual o imperador sobreviveu com  dificuldade. Conhecido por revolta de Nika, este episódio de histeria teve vários protagonistas, incluindo o general Belisário e a imperatriz Teodora. A revolta terminou em banho de sangue e mostrou os efeitos da febre do desporto, neste caso, também dos malefícios do excesso de rivalidade entre duas claques: verdes e azuis.

No Império Bizantino havia uma paixão louca por corridas de cavalos, geralmente quadrigas (carroças de quatro cavalos) associadas a equipas apoiadas por claques que usavam bandeiras de uma determinada cor. As divisões sociais reflectiam-se nos grupos que assistiam às corridas e que ocupavam secções específicas do hipódromo. Originalmente, havia quatro cores, mas no início do século VI os vermelhos e os brancos tinham sido absorvidos pelos verdes e azuis, que se transformaram gradualmente em facções políticas, vagamente ligadas ao povo (verdes) e aos aristocratas (azuis), embora isso não seja assim tão linear. As claques (ou facções) tinham lideranças informais, influência social e estavam frequentemente envolvidas em episódios de violência, a propósito de muitos temas diferentes, incluindo questões teológicas que incluíam ramificações políticas. Verdes e azuis disputavam os favores do imperador, a quem era exigida uma espécie de neutralidade que pairava acima das tradicionais rivalidades.

 

O descontentamento deste período tinha origem sobretudo no nível elevado dos impostos, consequência do custo de guerras prolongadas com a Pérsia mas também da perda mais recente de receitas do comércio, evidente consequência das invasões bárbaras. Na altura, havia um surto de inflação que penalizava as classes sociais mais baixas, bem como escassez de produtos alimentares. Justiniano, que sucedera ao seu tio Justino, tinha cinco anos no cargo e ainda não consolidara o poder. O regime não era popular, pois a repressão de heresias fora especialmente dura no reinado anterior.

Neste contexto, as claques odiavam-se e havia lutas cada vez mais violentas, que o imperador decidiu limitar, após ocorrerem perturbações de invulgar intensidade. Foram assim condenados à morte membros das claques azul e verde, mas alguns condenados fintaram a execução refugiando-se numa igreja. A opinião pública seguiu o caso com emoção, exigindo a absolvição incondicional dos fugitivos, algo que o imperador não estava disposto a conceder. A 13 de Janeiro de 532, a corda partiu-se e o conflito entrou numa fase mais perigosa, quando as claques se uniram para contestar o próprio imperador. Nesse dia, no momento em que Justiniano entrou no hipódromo e ocupou o seu lugar para assistir às corridas, verdes e azuis juntaram-se num grito único, “Nika, Nika”, palavra que em grego significa ‘vitória’. Terá sido espontâneo ou organizado? Não se sabe.

 

Justiniano saiu apressadamente do hipódromo e a multidão lançou-se numa orgia de destruição. Durante cinco dias, Constantinopla mergulhou no caos e os incêndios fora de controlo ateados pelos rebeldes arrasaram muitos edifícios do centro. As elites refugiaram-se no palácio, mesmo ao lado do hipódromo, mas o imperador temia uma conspiração do senado e ponderou abandonar o poder e fugir de barco para um local mais seguro. O tumulto estava tão próximo dele, que deve ter parecido um acontecimento tremendo, mas no momento crucial o imperador foi travado pela sua mulher, Teodora, uma personagem extraordinária para a época, tendo em conta o facto das mulheres terem um papel político menor no Império Bizantino e a origem humilde, até indecente, da imperatriz. Teodora tinha sido actriz (profissão indecorosa) e, segundo algumas crónicas do tempo, na juventude chegou a trabalhar num bordel. Sobreviveram vários relatos sobre ela, ora mostrando uma mulher influente e poderosa, ora uma figura implacável. Na sua velhice, Justiniano tinha um enorme respeito pela memória da mulher. No motim de Nika, a estratégia de repressão parece ter sido concebida pela própria imperatriz, que tomou a palavra num conselho de emergência e convenceu o marido a lutar, usando o argumento de que a abdicação do imperador era impossível. Nesta intervenção decisiva, é atribuída a Teodora uma frase lendária onde alude à cor do manto imperial: “Púrpura é a mortalha mais nobre”.  

A revolta de Nika falhou porque o imperador conseguiu explorar as contradições dos amotinados, dividindo as claques inimigas enquanto elas ocupavam as bancadas do hipódromo, pois o motim consistiu também na ocupação de um espaço emblemático. Enquanto ganhava força, Justiniano expulsou do palácio todos aqueles que podiam ameaçar o seu poder, incluindo dezenas de senadores e o sobrinho do antigo imperador Anastásio, o ex-cônsul Hipácio, que era um dos mais ilustres membros dos verdes. Hipácio foi forçado a regressar à sua casa, onde um grupo de amotinados o procurou, levando-o para o hipódromo. Foi ali proclamado imperador, durante uma assembleia popular onde não teve qualquer escolha, apesar de surgir em alguns relatos deste caso como estando na origem da revolta.

 

No seu contragolpe, o imperador agiu com extrema cautela e aproveitou a inconsequência dos amotinados. Após negociações que duraram dias, fazendo promessas que não tinha intenção de honrar, Justiniano foi dividindo as hostes dos rebeldes, comprando a lealdade de alguns azuis proeminentes. O imperador reclamou-se até adepto da claque azul, lembrando igualmente que o usurpador Hipácio era um destacado membro dos verdes. Usando um eunuco da sua confiança, que conseguia entrar e sair do recinto, Justiniano subornou um número suficiente de amotinados, depois preparou um ataque militar e aguardou: ao fim de cinco dias de motim, a multidão estava cansada e foi neste momento que os azuis, manipulados pelos adeptos que tinham sido comprados, abandonaram ostensivamente o hipódromo, deixando os verdes entregues à sua sorte. Foi o momento escolhido para os militares sufocarem a rebelião. O hipódromo foi invadido por uma força de elite de mercenários godos sem simpatias entre os amotinados. Os soldados, comandados por Belisário, entraram no recinto e não deram quartel.

Os verdes não tinham hipótese contra tropas profissionais. Ainda esboçaram ténue resistência, mas foram massacrados. Segundo Procópio, morreram mais de 30 mil pessoas nesse dia em Constantinopla, incluindo o usurpador Hipácio. Talvez 30 mil seja um número exagerado, mas é provável que tenha havido milhares de vítimas. Segundo narra o historiador bizantino, muitos amotinados morreram esmagados, na fuga em pânico, quando tentavam escapar por uma porta estreita. O massacre criou ódios que levaram tempo a sarar, mas também teve consequências no futuro do império, pois muitas das vítimas eram comerciantes e o seu desaparecimento enfraqueceu a economia. O poder passou a desconfiar destes eventos desportivos, que a igreja já condenava e que foram passando de moda. O fanatismo nas corridas perdeu-se definitivamente e o próprio império bizantino entrou num longo ocaso, que iria durar séculos, mantendo acesa a chama da civilização, mas em equilíbrio precário, alternando o declínio com momentos de breve esperança que as circunstâncias do mundo iam desmentindo. 

 

 

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (35)


Luís Naves,

A formação do Estado Islâmico (EI) no Iraque a Síria resulta do erro americano de invadir o Iraque em 2003 e destruir o regime de Saddam Hussein, decisão da administração de George W. Bush agravada pelos sucessivos erros da ocupação, sobretudo a desmobilização do exército iraquiano e o afastamento dos membros do Baath, o partido da ditadura. Bush acreditava ser possível criar uma democracia no Iraque e prosseguiu uma estratégia míope, desdenhando as dúvidas dos seus aliados. Em suma, os políticos perderam uma guerra iniciada sem motivo válido.

O Estado Islâmico, ou Califado, resulta de uma década de luta constante, que deu origem a uma organização de guerrilha de eficácia nunca vista, capaz de enfrentar exércitos modernos. O Iraque ficou partido em três entidades: curdos, xiitas e jihadistas sunitas. O EI será capaz de resistir a uma coligação de vizinhos (que aliás não parece possível, pois teria de incluir Bachar al-Assad e o Irão) e os aliados ocidentais não tencionam enviar tropas para o terreno. Seria um suicídio político. Combater o EI com objectivos limitados ameaça criar uma década de conflito sangrento e pode incendiar o Médio Oriente.

O fanatismo religioso é uma ideia velha, tão antiga como a civilização. Neste caso, o que parece ser novo é o facto de haver pessoas educadas em sociedades seculares e modernas que aderem às novas brigadas internacionais da jihad islâmica. Os fanáticos da guerra santa querem criar uma teocracia semelhante à que existiu no início do Islão, no século VIII. Esta ideia messiânica representa um recuo de 1200 anos na História da humanidade, a recusa dos direitos humanos, do estado de direito, da república, do espírito científico e da liberdade individual. O que mais surpreende é haver centenas, talvez milhares de jovens educados em sociedades ocidentais que aceitam esta brutalidade. Como explicar os milhares de combatentes islâmicos que foram fanatizados em ruas semelhantes àquelas onde vivemos? Como explicar os jihadistas que saem de famílias quase iguais às nossas? Desta vez é diferente: a teoria do choque de civilizações parece insatisfatória.

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (34)


Luís Naves,

Também ouvi com espanto a frase que João Gonçalves reproduz. Segundo Marques Mendes, em política “não existem lealdades passadas, só há lealdades para o futuro”. Com extrema candura, este oráculo define toda uma elite, toda uma época.

Torna-se penoso assistir a este espectáculo trágico do “segundo apurei”, a política de comunicação governamental mais desastrosa de sempre, na verdade única no mundo. Como refere Sérgio de Almeida Correia, em post anterior, em vez de serem anunciadas pelas autoridades ou aparecerem nos jornais, onde têm a devida credibilidade, as notícias importantes são reveladas por um comentador que é também político activo com ambições próprias e que finge ser jornalista de investigação.

A ligeireza tomou conta da paisagem mediática. Estamos rodeados de falsas narrativas e de omissões, vemos a hipocrisia geral dos que governam e dos que querem governar, assistimos impávidos às distorções da comunicação social transformada em espectáculo e ao radicalismo marciano dos partidos da oposição. A responsabilidade está em declínio, triunfa o oportunismo e a táctica. As elites portuguesas afundaram o país e vivem uma crise sem precedentes, mas para essas elites, sobretudo as políticas, é difícil compreender que o povo deixou de confiar nelas.

 

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (33)


Luís Naves,

O cessar-fogo no leste da Ucrânia tem a virtude de travar o banho de sangue, mas não resolve o conflito, apenas garante que a soberania ucraniana continuará a ser uma ficção. Os Ocidentais evitam o confronto directo com a Rússia, que está perto de conseguir o seu objectivo: a Ucrânia continuará a ser um país domesticado. Para isso, bastará formar uma nova entidade política, habitada por “russos” que serão prontamente auxiliados por Moscovo, antes e depois das negociações. Se Kiev tentar a democracia, terá ali um espinho cravado.

A criação de enclaves hostis é uma ideia testada: a Rússia mantém sob seu controlo territórios em países que se separaram da URSS, por exemplo Transdniéstria (Moldávia) ou Abcásia e Ossétia do Sul (na Geórgia), governados por delinquentes armados que procederam a limpezas étnicas e que se dedicam a diversos tráficos. Qualquer tentativa de recuperar os enclaves suscita a resposta militar imediata da Rússia. Assim, a Ucrânia será um país instável, sem possibilidade de se aproximar demasiado da UE e sem eleições livres na totalidade do seu território, com uma província anexada e outra separatista. A Europa terá escasso incentivo para decretar novas sanções contra a Rússia. A mini-Guerra Fria deverá ficar por aqui, limitada a relações pouco amistosas e retórica inconsequente.

Enfim, na História de 2014, regista-se que Moscovo utiliza tácticas coloniais do século XIX e esse comportamento é aceite pelas democracias ocidentais, sempre ligeiramente hipócritas, sobretudo quando falam de liberdade. Apesar de tudo, a Ucrânia escapa com sorte: não perdeu muito território e receberá  ajudas militares não letais, para a coisa não parecer um Acordo de Munique.

Em arte não há certezas


Luís Naves,

Em post anterior, A mediocridade literária, referi a polémica em torno de um texto sobre George Orwell; o que escrevi suscitou um comentário muito interessante do nosso leitor Luís Miguel Rosa, que podem seguir neste excelente Um Blog Fashionável.

 

Várias questões levantadas no comentário são pertinentes, mas aproveito para explicar que não sou historiador de arte nem perito em literatura. Sobre este assunto, tenho opiniões que resultam do meu trabalho, não passam de observações de um autor que tenta analisar aquilo que faz.

Quem escreve tem preferências. Costumo citar uma fase de Miquel Barceló: “Cada pintor faz a sua própria História de Arte”, que pode ser interpretado como a viabilidade de todas as opções de estilo. O mais importante não é caber num rótulo. Um escritor escreve por ter coisas para dizer e usa determinada forma, quase sempre tirada da tradição e que lhe parece a mais eficaz naquele momento.

Nesse sentido, ninguém escreve para leitores ou críticos. Cada artista usa técnicas e formas adequadas ao objectivo da obra.

Como escreve Luís Miguel Rosa, a escrita literária tem de comportar “dificuldade e complexidade, caso contrário não há motivo para ler um romance em vez de um jornal”. Há ainda a questão do gosto, que é individual (cada leitor tem o seu gosto).

Assim, não existe oposição entre estilos simples e complexos, mas oposição entre eficaz e ineficaz. Entre uma obra que toca nos nervos de uma sociedade e outra que passa ao lado do essencial.

A interpretação que fiz do texto de Will Self sobre George Orwell sugere que o crítico não está a falar de Orwell, mas do seu próprio trabalho. Acrescento que os leitores não querem “este tipo de pós-modernismo” e, neste ponto, posso ter sido menos claro. “Os leitores não querem nada”, escreve Luís Miguel Rosa, mas o facto é que querem provavelmente uma literatura que não seja elitista, artificial ou alheia ao seu mundo, vazia ou politicamente correcta, histérica e autocentrada. Claro que o mundo contemporâneo, sendo mediatizado e financeiro, relega a literatura para plano secundário, perante o triunfo da cultura popular e dos êxitos de vendas. É difícil saber o que querem as pessoas que verdadeiramente gostam de literatura, mas como já escrevi neste blog, os escritores têm cada vez menos importância (até política) e aqui estamos perante o dilema do ovo e da galinha, qual deles nasceu primeiro? Será que os escritores escrevem coisas irrelevantes ou é a sociedade que rejeita a sua relevância?

Em resposta a esta questão, defendo que a escrita deve tentar impedir a imbecilização do público e reconquistar o terreno da legibilidade. Não é escrever jornais em forma de livro, mas simplificar, regressar à sociedade, ter conteúdo. Não sou defensor de frases curtas em vez de frases compridas, sou a favor de frases com sentido e clareza.

Mas estas, repito, são meras opiniões e, no fundo, estou a falar do que faço ou tento fazer. Em arte, felizmente não há certezas.

  

 

A mediocridade literária


Luís Naves,

 

O escritor Will Self define George Orwell como “mediocridade literária”, num texto que pode ser lido aqui (em inglês, transcrição de programa de rádio). Claro que se trata de lançar uma pedrada no charco estagnado das discussões intelectuais: Will Self é um iconoclasta que gosta de chocar, também há aqui estratégias de marketing e circo mediático (é necessário que se fale dos autores que publicam um novo livro), mas o texto é curiosamente contraditório, pois a suposta “mediocridade literária” tem um “estilo que consegue explicar um número de coisas com dolorosa clareza”, o que devia ser um elogio brutal.

No fundo, a crítica a um autor clássico visa contestar uma das características mais importantes de Orwell: a simplicidade. Aliás, a argumentação está centrada no ensaio sobre “Política e a Língua Inglesa”, o que é revelador. A literatura das duas últimas décadas tentou romper com estes processos da clareza e da legibilidade, introduzindo a complexidade da linguagem, o fluxo de consciência que atropela as ideias. Ao atacar a tradição, Self está a defender a sua dama.

Julgo que este pós-modernismo bateu na parede (os leitores já não o querem) e que a literatura contemporânea tem de recuperar a simplicidade da tradição, entretanto perdida em tentativas de experimentalismo e nas histerias autocentradas e preocupadas com a destruição do que se imagina ser a velharia.

As sociedades contemporâneas estão a envelhecer, mas o antigo deixou de contar, os escritores tentam ser aquilo que não são: criam personagens públicas, transformam-se em actores e figuras vagamente divertidas, domesticadas pelos media, em vez de continuarem a ser intelectuais envolvidos no seu mundo. Existe o culto do novo, daí as visões da realidade serem sempre tão negativas, embora inócuas e cuidadosas quando abordam o multiculturalismo ou usam a linguagem do politicamente correcto (digamos, a novilíngua).  

 

George Orwell era o inverso disto, tinha ideias políticas e defendeu-as, rejeitando o conforto do mediatismo ou as hipocrisias do consenso intelectual. Gosto muito deste autor, da sua simplicidade estilística e riqueza de conteúdo. O espantoso romance 1984 teve grande impacto no meu imaginário, mas há outro livro que me impressionou e que nunca vi em português, Coming Up for Air, história de um homem convencional que, fugindo à sua existência conformista, faz uma viagem nostálgica ao passado. Também gosto dos ensaios e de Os Dias da Birmânia, mas em Coming Up for Air, de 1939, o autor antecipa a guerra que se aproxima: a sua personagem imagina a destruição provocada pelos bombardeamentos aéreos (que se tornariam reais dois anos mais tarde).

Orwell combateu em Espanha, experiência que relatou em Homenagem à Catalunha, e tinha vivências preciosas, imaginação, memória e cultura sólida. Em A Filha de um Reitor descreve uma personagem feminina poderosa, coisa rara em autores masculinos. Orwell era um enorme escritor, não haja dúvida, capaz de pensar sobre os conflitos do seu tempo, sobre a luta de classes, sobre pobreza e literatura, sobre jardinagem, colonialismo e mudança, sobre a nostalgia e o futuro.

 

Nem de propósito, tinha isto escrito e surge o post de Sérgio Almeida Correia, onde se refere o risco de ler George Orwell na Tailândia. Mediocridade literária? Só pode ser brincadeira.

 

Um traidor de alto nível (episódio da História do Fracasso)


Luís Naves,

 

Uma das mais extraordinárias histórias de espionagem ocorreu nos pacatos salões vienenses, em vésperas da Primeira Guerra Mundial. A personagem principal do drama, o coronel Alfred Redl, traiu o seu país durante uma década, foi desmascarado e pagou com a vida, mas o fracasso caiu inteiramente sobre o exército traído. É um mistério como este caso foi possível: por vezes, uma estranha teimosia impede as pessoas inteligentes de verem o óbvio.   

O escândalo rebentou em Maio de 1913, devido a uma notícia incómoda sobre o suicídio de um coronel do exército austro-húngaro, Alfred Redl. A informação, que incluía o picante de alusões veladas à homossexualidade da vítima e à sua eventual traição, fora obtida por um jornal regional na Boémia, embora o furo jornalístico fosse consequência de mero acaso: segundo a lenda, o jornalista que redigiu essa primeira notícia era dono de um clube de futebol onde jogava uma das testemunhas acidentais do suicídio do coronel, testemunha essa que foi ameaçada de despedimento se não contasse a história. Apesar de tudo, o jornal falhava no essencial, a verdadeira posição do militar, mas desencadeou o interesse da imprensa de Viena, que conseguiu ligar os fios, lançando um escândalo político de enormes proporções, que enlameava os altos escalões militares austríacos e a própria monarquia.

A razão era simples: até ao ano anterior ao obituário, o coronel Redl tinha sido chefe dos serviços de informação militares austro-húngaros, sendo o responsável máximo pela contra-espionagem, ou seja, pela detecção de eventuais agentes inimigos nas fileiras, além de ter acesso ao conhecimento de redes de espionagem no exterior e planos militares do Estado-maior. Aliás, Redl chefiara a investigação sobre a existência de uma possível toupeira de alto nível, que se verificou ser ele próprio.

  

Anos antes, uma fonte diplomática inglesa em Sampetersburgo garantira ao embaixador austríaco que a Rússia mantinha em Viena um espião com acesso aos maiores segredos militares. Redl concluíra que a informação dos ingleses era falsa e mandou arquivar o caso, mas  a informação era verdadeira, os serviços secretos do Czar, Okhrana, tinham um agente activo, o chefe da espionagem militar austríaca, Alfred Redl. Julga-se que o recrutamento terá ocorrido em 1903, numa altura em que o traidor começou a ostentar sinais de riqueza incompatíveis com a sua patente e que, na época da captura, já incluíam um automóvel e cavalos dispendiosos.

Considerando a natureza meteórica da sua carreira, Redl tinha origem social relativamente modesta. O pai fora oficial do exército, mas forçado a abandonar a sua comissão, embora obtendo uma função civil ao serviço do império, em Lemberg, na Galícia (Lvov, na actual Ucrânia). Dessa forma, enquanto jovem ambicioso, Redl cresceu num ambiente provinciano onde coabitavam várias comunidades (polacos, judeus, alemães e rutenos) e falava fluentemente polaco, tendo mais tarde dominado o russo. O domínio de línguas eslavas deu forte impulso à sua ascensão, feita em ambientes frequentados por generais com influência política.

Em segredo, o coronel Redl era homossexual, o que em caso de exposição seria considerado crime, implicando a desgraça. Este era também o seu ponto mais fraco e os russos descobriram a vulnerabilidade que escapara aos austríacos. O resto foi simples questão de preço.  

 

Mas voltemos à informação diplomática sobre a toupeira de alto nível. O chefe dos espiões austríacos julgou que tinha arquivado o caso, mas isso não acontecera totalmente. A primeira reacção dos líderes militares foi de pura perplexidade. Era impossível tal traição, mas a fonte inglesa garantia que os russos tinham conhecimento detalhado dos planos militares para invadir a Sérvia e essa alegação continha detalhes que a tornavam demasiado credível. Houve um pequeno pânico e foi lançada pelo governo uma investigação policial paralela à militar, para procurar o espião que se infiltrara nos quadros do exército. Entretanto, Redl deixara a chefia da contra-espionagem, sem que houvesse desconfiança em relação aos seus sinais exteriores de riqueza. O coronel era um homem doente, atingido por uma infecção de sífilis, nesse tempo sem cura. 

A polícia centrou o inquérito na correspondência internacional enviada por posta-restante, ou seja, entregue ao destinatário na própria estação de correios. Foi um trabalho de paciência, que acabou por compensar. A certo ponto, nos correios de Viena, foi interceptada uma carta suspeita, proveniente da fronteira russa e que, aberta em segredo, se verificou conter dinheiro para um destinatário de nome desconhecido.

A polícia admitiu que se tratava do pagamento ao traidor e ficou à espera que alguém reclamasse a carta. Isso aconteceu num dia e hora em que, por azar, o polícia de serviço saíra para comer uma bucha matinal. O homem que levantou a carta saiu dos correios à pressa, num fiacre, e foi nesse ponto que a polícia voltou a ter sorte.

Em Viena, os fiacres eram limpos em cada estação de paragem e o empregado que fazia o serviço junto ao edifício dos correios tivera o cuidado de anotar o número da viatura que acabara de sair. Seguiu-se a perseguição. No final, os agentes interrogaram o condutor e conseguiram a descrição do passageiro e o destino final. O espião cometera outro erro, deixando no fiacre uma faca de abrir cartas.

Em resumo, o suspeito dirigira-se para um hotel, onde foi rapidamente identificado. Era o coronel Alfred Redl, ex-chefe da contra-espionagem militar austríaca. Um dos agentes abordou o militar, mostrando-lhe a faca: “O senhor esqueceu-se de alguma coisa”, disse. O traidor podia ter negado, mas rendeu-se.

 

Quando foi apanhado, Redl tinha 49 anos. Os relatórios russos sobre ele eram ingratos, diziam que se tratava de um “cínico”, que apenas queria dinheiro. O traidor vivia no luxo e, portanto, devia ter sido detectado anos antes. É estranho que os austríacos nunca tivessem investigado a vida do seu chefe da espionagem, em busca de fraquezas tão óbvias como preferências sexuais. E de onde viera a riqueza para comprar um automóvel? Parece incrível que ninguém tivesse questionado a vida luxuosa, os cavalos.

Os erros são ainda mais extraordinários após a captura. Em vez de interrogarem o coronel para saberem a extensão dos estragos ou para o usarem como agente duplo, as autoridades militares (que entretanto se tinham apoderado da investigação) deram ao traidor a possibilidade de suicídio. Redl foi colocado dentro de um quarto do hotel e recebeu uma pistola com uma bala na câmara. Passadas algumas horas, os guardas que estavam no exterior ouviram o tiro. A causa da morte era evidente, uma bala na cabeça, mas a autópsia revelou que a sífilis entrara em fase adiantada, já a afectar o cérebro. O espião durara mais de dez anos e, se daquela vez tivesse escapado aos polícias, morreria da doença daí a alguns meses.

A imprensa debateu com escândalo as inconsistências deste caso sensacional, mas ninguém desconfiou da extensão dos estragos. No ano seguinte, sem o saber, a Áustria embarcou numa guerra perdida. O conhecimento dos planos de invasão da vizinha Sérvia permitiram que este pequeno país se preparasse e em 1914 os austríacos sofreram pesadas baixas contra um adversário muito inferior.

Mas o pior efeito foi o de tornar vulneráveis as fortificações na fronteira oriental do império. Ainda hoje são relativamente inexplicáveis as estrondosas derrotas sofridas pelos austríacos nos primeiros meses do conflito. O conhecimento russo da disposição de forças, pontos fracos e planos tácticos pode ter sido decisivo nestes combates.

Os russos também sabiam os nomes dos agentes que trabalhavam para os austríacos, todos ele presos, fuzilados ou forçados a jogo duplo. Por outro lado, Viena possuía informação errada sobre o verdadeiro poderio do exército russo, que era mais forte do que pensava o Estado-maior austríaco. Isso conduziu a uma má avaliação do adversário e à decisão catastrófica de avançar para a guerra em 1914, usando o pretexto do assassinato do arquiduque Francisco Fernando em Sarajevo.

Se Alfred Redl tivesse sido interrogado, os austríacos teriam compreendido os terríveis riscos que corriam. Não se apercebendo que os seus planos estavam comprometidos, não precisavam de tempo para os alterar. Se Redl falasse, a guerra não teria talvez começado em 1914, embora tudo isso seja especulativo, pois nunca saberemos as motivações escondidas neste caso de traição, que envolveu dinheiro, incompetência, sorte, azar, sabe-se lá mais o quê, pequenos detalhes com grandes consequências.

 

 

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (32)


Luís Naves,

Certos intelectuais olham para o País com indisfarçável desprezo. Isso é visível neste texto, do qual destaco a seguinte frase: “A fina película do nosso progresso, cada vez mais fina com a crise das classes ascendentes, revela à transparência todo o nosso ancestral atraso, ignorância, brutalidade, boçalidade, mistura de manha e inveja social”. O ‘nosso’ está ali para disfarçar, pois duvido que o autor, Pacheco Pereira, se reveja nestas linhas, que pretendem ser o retrato fiel do povo português, tal como é visto pelas elites. 

E, no entanto, a frase é falsa, não há outra maneira de a caracterizar. O autor descreve um Portugal inexistente, puramente imaginário, povoado por criaturas grotescas e meio debilóides, incapazes de um pensamento estruturado, portanto necessitando da condução esclarecida de uma vanguarda intelectual com ideias e leituras cosmopolitas.

Para o autor, o povo português não vive em cidades e subúrbios, não se concentra no terço litoral do território, não está a envelhecer depressa nem enriqueceu, não é europeu nas suas preferências nem evoluiu um milímetro em matéria de instrução. A frase parece tirada de um romance neo-realista dos anos 40, descrevendo um país de cavadores depauperados, com gosto folclórico e nenhum conhecimento do que se faz lá fora.

Os jovens são drogados e vazios, os velhos não existem, como não existem mulheres independentes. Os portugueses são invejosos e manhosos, brutais (esta ideia nem percebo de onde vem) e as classes em ascensão estão em crise (suponho que o autor fala da classe média, que nunca foi tão alargada e tão influente).

O pior é que este tipo de comentário conquistou as discussões públicas; Portugal acabou, está morto e enterrado. E, no entanto, a visão de hecatombe não é apenas míope em relação ao povo que descreve, mas exibe desconhecimento profundo da realidade sobre esse povo. As elites intelectuais assistem à mudança da sociedade portuguesa sem perceberem patavina do que está a suceder, aplicando uma grelha de análise que talvez fizesse sentido na década de 40, mas que agora é apenas absurda.

 

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (31)


Luís Naves,

No fundo, há duas grandes correntes de pensamento: a crítica aos excessos do materialismo e a crítica às insuficiências da ideologia.

Para muitos autores, o mundo contemporâneo está em declínio, por ter perdido os seus valores e por se basear no insaciável apetite das classes dominantes. O culto do eu leva ao caos social e condena a sociedade à decadência. Há quem defenda a necessidade do regresso à tradição e, quanto maior o choque com a realidade exterior, mais estes movimentos se encolhem na concha dos respectivos fundamentos ideológicos. As críticas à modernidade podem vir de religiões ou de movimentos anti-capitalistas, mas convergem na ideia de que o mundo está à beira de uma transformação inevitável e que essa transformação nos conduz a algo de fundamental. Existe sempre ali a ideia do regresso a um passado idealizado.

Do outro lado do espelho estão os que se afirmam do mundo pragmático. Para eles, as utopias não passam de ilusões, modas ou resistência ao progresso. Segundo afirmam, o mundo material permite fornecer à maioria dos consumidores as bases essenciais do bem-estar, sendo pouco compreensível o descontentamento que alastra nas sociedades contemporâneas. E perguntam esses materialistas: não será a proposta utópica equivalente a trocar uma vida segura por um estado permanente de incerteza?

Os dois lados estão cada vez mais entrincheirados e o debate alastra à generalidade dos temas, conduzindo ao seguinte problema: nunca fomos tão ricos, tão livres e tão cultos como agora, mas também nunca terá havido vidas tão conscientes do seu vazio; por outro lado, se fôssemos mais felizes, viveríamos com o mesmo acesso à riqueza, liberdade e cultura?

 

A colónia escocesa (episódio da História do Fracasso)


Luís Naves,

Dentro de semanas, a Escócia votará em referendo se pretende manter-se ligada ao Reino Unido ou se prefere a independência. O resultado da consulta é incerto. A união com a Inglaterra teve momentos em que quase ocorreu a ruptura, tendo a última rebelião armada, dos clãs das Terras Altas, Highlander, terminado apenas em 1746, 39 anos após o acto da união.

Na realidade, Inglaterra e Escócia tiveram relações conflituosas durante séculos, mas a formação de cada um dos reinos não se explica sem a interacção com o vizinho. Nas décadas anteriores à união, consumada em 1707, a economia escocesa sofrera com a concorrência do comércio inglês e com uma sucessão de más colheitas. Os conflitos entre clãs eram endémicos.

Os motivos que conduziram à união das duas coroas são numerosos e complexos, mas um deles destaca-se pelo insólito: em 1698, a Escócia tentou estabelecer uma colónia no actual Panamá, na baía de Darien, mas o fracasso da iniciativa consumiu grandes quantidades de capital e levou muita gente à falência. Darien ajuda a explicar o apoio da aristocracia feudal escocesa à união com os ingleses e o fracasso do império escocês foi, sem dúvida, uma das bases para três séculos de Reino Unido.

 

No final do século XVII, as potências europeias estavam activamente envolvidas na expansão ultramarina. As colónias eram caras, tinham enormes incertezas e perigos, mas prometiam lucros milionários. As nações ibéricas tinham avanço significativo na matéria, mas contavam naquele momento com a concorrência muito eficaz de ingleses, franceses e, sobretudo, dos holandeses, que estavam a utilizar um modelo de companhias capitalistas para financiar a exploração colonial.  

Em 1695, os escoceses tentaram imitar o modelo holandês, criando a Companhia do Comércio da Escócia na África e nas Índias, com garantia de monopólio nacional nas trocas com estas regiões e a intenção explícita de criar uma colónia no Istmo do Panamá.  A ideia era do banqueiro William Patterson (1658-1719), que viria mais tarde a ser um dos fundadores do Banco de Inglaterra. Patterson conhecia as Bahamas e inspirara-se na observação do mapa do mundo: o istmo do Panamá era de tal forma estreito junto à baía de Darien, que parecia fácil construir uma ligação entre Atlântico e Pacífico.

 

O banqueiro procurou investidores, mas a companhia teve de se basear exclusivamente em capital escocês (e consumiu imensas quantidades), pois as tentativas de encontrar dinheiro em Inglaterra, Holanda e França esbarraram com dificuldades políticas.

Ninguém pensou em construir um canal, ideia que viria mais tarde. A intenção era levar mercadorias pelo Atlântico, desembarcar o navio na costa e transportar os produtos por terra até ao Pacífico, onde seriam embarcados de novo, rumo à Índia, reduzindo em muitos dias o tempo de viagem entre Europa e Ásia. Em teoria, era possível inverter o processo, trazendo da mesma forma produtos asiáticos para a Europa. A companhia que controlasse este negócio ficaria imensamente rica, mas até que isso fosse possível, a colónia teria de viver com magros recursos agrícolas. Havia dificuldades, naturalmente, pois a província era uma possessão espanhola desabitada, que a Espanha, embora enfraquecida, não pretendia entregar de mão beijada aos escoceses.

 

O que não constava dos planos era a circunstância de Darien ser também insalubre e intransponível. Este território é ainda hoje um local pouco habitado e perigoso, mas Patterson convenceu o público e arranjou o dinheiro. A companhia tinha capital, mas o banqueiro foi afastado da direcção antes da primeira expedição, tendo sido substituído na liderança por indivíduos igualmente ambiciosos, mas muito menos competentes.

Assim, a empresa que viria a ser conhecida por Companhia de Darien foi inteiramente paga por investidores escoceses. Os historiadores calculam que os navios e equipamento terão exigido um quinto ou mesmo um quarto do capital total existente na Escócia. O país estava a esticar perigosamente os seus recursos limitados. 

Os primeiros 1200 colonos viajaram numa frota que passou pela Ilha da Madeira e que chegou à Baía de Darien em Novembro de 1698. A bordo estava o próprio Patterson, que viria a perder a mulher e o filho durante esta tentativa de colonização.

Baptizada de Caledónia, a colónia consistia numa pequena povoação, Nova Edimburgo, protegida por um forte com 50 canhões. O empreendimento fora mal planeado e teve períodos de péssima liderança. A zona era perigosa e havia índios hostis, florestas densas e extensos pântanos, com solo impróprio para a agricultura. À beira da fome e do desespero, a Caledónia foi atacada pelos espanhóis e sofreu uma série de terríveis epidemias, cujos efeitos devastadores foram agravados pela deficiente nutrição dos colonos.

Uma segunda expedição que incluía mil pessoas foi enviada em 1699, e partiu da Escócia antes de ali chegarem as informações sobre o primeiro fracasso. Em 1700, um cerco espanhol acabou em rendição e abandono: no final, tinham morrido quase duas mil pessoas.

Os escoceses sonhavam com um império autónomo e acabaram endividados. O desastre viria a reflectir-se no próprio desaparecimento da Escócia como nação independente, pois o Acto de União com a Inglaterra, sete anos mais tarde, resultou em grande medida da desilusão que atingira as elites escocesas. A opinião pública passou a aceitar a ideia de um Reino Unido que fosse além de uma simples união das coroas, juntando as duas economias e somando as ambições externas. Não deixa de ser curioso que um dos grandes defensores da união tenha sido William Patterson.

Não podendo criar um império autónomo, a Escócia viria a participar activamente na criação do império britânico. Mais de 40% dos militares, médicos, funcionários de topo e até das mulheres que acompanhavam os aventureiros coloniais britânicos eram de origem escocesa, o que representa forte distorção a favor da Escócia.

 

Darien ficou ligado ao imaginário escocês e foi certamente inspiração para as aventuras de um curioso mitómano que daria um romance, Gregor MacGregor, que afirmava ser descendente de um dos sobreviventes da colónia de Darien. Este mercenário escocês viria a causar uma crise financeira internacional.

MacGregor combateu do lado luso-britânico na guerra peninsular, como major de um regimento português e tentou a sua sorte na América espanhola, onde obteve fama nos exércitos de Simão Bolivar. Em 1820, concebeu em Londres uma extraordinária fraude, afirmando-se cacique de um país fictício, Poyais.

O principado ficava na América Central, numa região das Honduras e Nicarágua hoje conhecida por Costa de Mosquitos. Não passava de um folheto e de um esforço da imaginação, mas possuía uma capital, São José (com ópera), e possibilidades infinitas de lucros, incluindo a exploração de florestas e minas de ouro e prata, além de cem mil quilómetros quadrados de terras disponíveis e férteis. Era tudo imaginação.

MacGregor apresentava-se como “Príncipe de Poyais” e conseguiu emitir obrigações da sua companhia com taxas de juro de 6%, semelhantes ao rendimento da dívida de países autênticos, recém-nascidos, tais como Chile ou Grande Colômbia.

A venda de terras era lucrativa e o aventureiro escocês conseguiu enganar muitos crédulos, que tentaram criar a colónia que tinham comprado, encontrando ali a selva e a miséria, em vez das terras esplendorosas que apareciam nos folhetos. Na tentativa, morreram centenas de pessoas e os poucos sobreviventes foram levados pelos ingleses para o Belize.

Os investimentos nos novos países independentes da América transformaram-se depressa numa bolha especulativa que rebentou em 1825 e 1826, provocando até 1828 a primeira grande crise de dívida na América Latina. MacGregor iniciara a bolha, ficou imensamente rico e, apesar de processado, conseguiu escapar à justiça, morrendo em Caracas em 1845. Talvez para ele toda aquela fantasia elaborada fosse uma espécie de resistência.

 

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (30)


Luís Naves,

Quando li pela primeira vez este texto, nem quis acreditar. Li de novo e, de facto, trata-se de uma crítica ao “jornalismo concreto” que, segundo a autora, tem excesso de agressividade, sendo uma “nova forma de jornalismo”, em oposição a métodos mais honestos, como será o caso de um jornalismo de fantasia. O texto é uma crítica e o “jornalismo concreto” não deve ser praticado.

O pior é que este texto não foi escrito pelo tontinho da aldeia. A autora de Vai e Vem, Estrela Serrano, é uma especialista em comunicação social, ensina ou ensinou essa matéria e devia saber que só existe “jornalismo concreto”, tudo o resto sendo conversa da treta, limonada pseudo-informativa, com perguntas para embalar bebés. Os políticos têm obrigação de responder a questões autênticas e os jornalistas têm a obrigação de saber se eles disseram alguma coisa, se as suas propostas são viáveis ou se estão a omitir posições relevantes.

No entanto, na sua crítica, a especialista Estrela Serrano escreve que este mau exemplo “é um jornalismo que só se interessa pelo concreto e pelo imediato”, embora a frase seja uma excelente definição de bom jornalismo, que deve questionar exactamente esses dois elementos, o concreto e o imediato, expondo a retórica balofa e o empurrar com a barriga. 

Agora percebo muito melhor a crise da imprensa, a razão da fuga dos leitores. O jornalismo que questiona o concreto e o imediato tornou-se uma raridade que merece a crítica severa dos mandarins da comunicação social. Assim, os jornalistas que exercem a sua profissão devem acalmar-se e fazer apenas as perguntas mais dóceis.

Controlar o passado


Luís Naves,

As interpretações mais comuns sobre o livro de George Orwell, 1984, centram-se nos perigos da tecnologia e na omnipresença da vigilância. Segundo essa visão, a maior originalidade do romance está na personagem do Grande Irmão (Big Brother) que vê e controla tudo aquilo que as pessoas fazem.

Há outra forma de olhar para este livro, como crítica arrasadora do estalinismo e da dupla linguagem que define o combate político, fenómeno que existiu nas ditaduras comunistas. O romance tenta reflectir sobre o totalitarismo e o esmagamento do indivíduo pelo colectivo, mas a maior originalidade estará porventura na novilíngua que o regime tenta criar, sobretudo na ideia de que a simplificação da linguagem é um mecanismo de limitação da liberdade.

O romance gira também em torno da alteração do passado, que assegura a longevidade da ditadura. A personagem principal, Winston Smith, tem essa função, actualizar os documentos, ou seja, a rescrita das fontes históricas, mas a vigilância continua a ser o elemento mais citado do livro, sempre como exemplo, quando surgem inovações tecnológicas que sugerem acumulação de poder (acções policiais, a espionagem que intercepta chamadas, as teorias de conspiração sobre grupos de influência). E, no entanto, as tecnologias têm funcionado contra a ideia de Big Brother, muito mais no sentido da fragmentação, dificultando o controlo da informação por um único utilizador. A questão do controlo da privacidade é fundamental no livro, mas não representa a lição central para o nosso tempo.

Onde o livro se torna mais inquietante e até presciente é no tema da novilíngua ao serviço do poder e do duplopensar, ou seja, na capacidade da política de dizer uma coisa e o seu contrário. A actualidade tem excesso de dados, mas as tecnologias digitais facilitaram a alteração do passado. No tempo em que o livro foi escrito, 1948, mudar uma fotografia exigia uma técnica elaborada, mas agora trata-se de uma banalidade. Por outro lado, a realidade é incerta, pois determinada informação pode ou não ter sido manipulada, sendo difícil detectar as fraudes. Esse é o autêntico Grande Irmão que sobrevive do romance de Orwell: quem controla o passado, controla o futuro.

Há outros elementos de génio em 1984, por exemplo o uso da guerra para reforçar o controlo das elites sobre as massas, a destruição do amor e a eliminação de palavras, sem as quais deixa de ser possível formular certas ideias.