Sabemos hoje que Marte é um planeta inóspito e deserto, com uma superfície avermelhada devido à presença de óxido de ferro e com atmosfera demasiado fina para conseguir captar calor. Distante do Sol em média 50% mais do que a Terra, as suas temperaturas são extremamente baixas e nos pólos chegam a ser inferiores ao ponto de congelação do dióxido de carbono (-190 graus centígrados). A fraca densidade da atmosfera marciana é um mistério, talvez efeito da extinção do campo magnético que permitiu a acção dos ventos solares, havendo a possibilidade de um impacto catastrófico ter arrancado uma fatia da antiga atmosfera.
O quarto planeta do sistema solar tem exercido forte fascínio. Observado já pelos egípcios e gregos, foi baptizado com o nome do deus da guerra dos romanos. Na Era Moderna, houve gerações de astrónomos que tentaram desvendar os seus segredos, mas no final do século XIX uma falsa descoberta excitou a imaginação do mundo científico, contaminando de forma irreversível a cultura popular. Em 1877, houve excelentes condições para a observação do planeta Marte. Foi nesse ano que se descobriram dois pequenos satélites, Deimos e Fobos (Terror e Medo) que serão possivelmente asteróides capturados pela força da gravidade do planeta. Nesse mesmo ano, um eminente astrónomo do Observatório de Milão, Giovanni Schiaparelli, descreveu o que lhe pareciam ser “canais” na superfície marciana. Schiaparelli fez desenhos pouco detalhados onde havia zonas escuras, a que chamou mares, e zonas claras, que denominou continentes. E, entre os dois, aquilo a que chamou “canali”, linhas finas que pareciam ligar as diferentes zonas.
Esta observação tornou-se célebre e a palavra italiana canali foi traduzida para o inglês canals, que ao contrário do vocábulo italiano sugeria artificialidade. Este pequeno detalhe bastou para criar um frenesim que rapidamente se converteu numa ideia capaz de concentrar as fantasias da época: a descoberta parecia indicar a existência de vida no planeta vizinho. Bastava olhar por um telescópio e lá estavam as áreas escuras e claras. Ninguém desconfiou da circunstância de não haver dois mapas idênticos ou de ser difícil obter fotografias nítidas das formas.
A observação de Schiaparelli foi popularizada por um matemático e astrónomo americano, o milionário Percival Lowell, que esticou ainda mais o conceito. Onde Schiaparelli vira depressões que podiam ser vales alongados, Lowell encontrou um sistema de irrigação, produzido por uma civilização cuja míngua de água tinha levado a extremos de engenho.
Lowell era uma figura influente e sabia escrever com estilo. O astrónomo americano descreveu com detalhe aspectos “não-naturais” na superfície de Marte, nomeadamente canais construídos para levar água dos pólos para o equador. Viu também oásis, zonas escuras entre canais. Tudo isto sugeria vegetação e inteligência. Estas teses foram discutidas em detalhe pela imprensa e entraram rapidamente no imaginário popular. Entre 1895 e 1908, Lowell escreveu três livros de popularização científica sobre as características artificiais dos canais marcianos e construiu um telescópio que na altura era o mais sofisticado do mundo (na realidade, foi o primeiro edificado a grande altitude), em Flagstaff, no Arizona. Foram feitos mapas detalhados da civilização marciana e especulou-se furiosamente sobre a engenharia em causa.
Nos textos de Lowell os canais e oásis surgiam com sugestivos nomes clássicos. O autor escreveu que havia linhas de vegetação, algumas duplas, e que o fluxo de água das calotes para o equador não podia ser explicado pela gravidade. Origem artificial, água escassa e interferência inteligente foram algumas das expressões que usou. O sistema visava distribuir água e o astrónomo concluía que a forma de vida inteligente era pacífica, pois os povos setentrionais e equatoriais estavam a cooperar para o mesmo fim, tentando travar o declínio do planeta.
Os canais de Marte deram consistência ao género literário hoje conhecido por ficção científica. Em 1898, o escritor britânico H. G. Wells publicou o seu fenomenal A Guerra dos Mundos, livro que descreve uma cruel invasão de marcianos. Em 1912, o americano Edgar Rice Burroughs lançou a sua série de histórias sobre as aventuras marcianas de John Carter, que fez as delícias de mais do que uma geração de jovens. Aliás, o tema da vida inteligente em Marte dominou o género ao longo de todo o século XX, com destaque para clássicos como Crónicas Marcianas, de Ray Bradbury (1951) ou Areias de Marte, de Arthur C. Clarke (1951), onde surgem marcianos inteligentes e os humanos podem respirar na superfície do planeta. Em Martian Time-Slip, de Philip K. Dick ((1964) ou Estranho numa Terra Estranha, de Robert Heinlein (1961), a paisagem já é mais inóspita, uma espécie de deserto, mas as pessoas circulam com respiradores e as temperaturas são aceitáveis. Até há agricultores no livro de Dick.
Se estas ideias tinham entrado com força na cultura popular, na comunidade científica havia cépticos que já no início do século XX tinham demolido a tese dos canais e da civilização alienígena. Todas as tentativas de desenhar o tal sistema davam resultados diferentes, conforme o autor da observação ou o dia em que era feita.
Schiaparelli faleceu em 1910 e Lowell em 1916, antes de surgir a explicação da ilusão de óptica. Na realidade, os astrónomos eram enganados pela sua própria visão, pois os seres humanos têm tendência para formar padrões onde estes não existem. Não havia canais, mas uma superfície irregular que a imprecisão dos telescópios, as deformações atmosféricas e a má visão humana transformavam num imaginário sistema de irrigação. Também havia entusiasmo em excesso e alguns autores estavam apenas a encontrar os seus desejos.
O segundo livro de Lowell, Mars and Its Canals, mereceu em 1907 a crítica demolidora de Alfred Russell Wallace (1823-1913), um dos maiores cientistas do seu tempo e que já em 1902 tentara refutar a teoria dos canais. Num livro intitulado Marte É Habitável?, Wallace explicava que não havia vapor de água, que a pressão atmosférica era demasiado débil e a temperatura demasiado baixa para permitir água no estado líquido. Este livro é considerado um percursor de um ramo novo, a astrobiologia. Wallace é uma das figuras mais extraordinárias (e modestas) da história da ciência. Este biólogo fez observações em todo o mundo e concebeu a teoria da evolução na mesma altura em que Charles Darwin a propôs publicamente, embora o seu mecanismo de diversificação das espécies não tenha usado o termo “selecção natural”, que ficou mais famoso. Darwin tem assim a primazia da teoria da evolução, mas deu sempre a Wallace o devido mérito e os dois homens mantiveram uma longa e frutuosa amizade.
Apesar destes esforços, a ideia de Lowell sobre os canais em Marte só foi totalmente rejeitada na década de 60 do século XX, quando a NASA enviou as sondas automáticas Mariner. Apesar de tudo, Lowell é uma figura marcante da astronomia e dedicou parte da sua vida à procura do misterioso planeta X, em órbita além de Neptuno, investigação que levou à descoberta de Plutão em 1930. As duas primeiras letras são uma homenagem ao seu nome, Percival Lowell. O nono planeta do sistema solar foi entretanto despromovido a planeta anão, categoria que poderá ter mais de 20 objectos no sistema solar.
Os marcianos reapareceram em 1996, quando foram observadas pequenas estruturas no interior de um meteorito encontrado na Antártida e que um impacto ejectara de Marte num passado remoto. Alguns cientistas viram nessas estruturas micróbios fossilizados, mas a ideia tem sido contestada. Marte foi entretanto estudado por sondas automáticas, sobretudo da NASA, Viking (1976), Mars Pathfinder (1997), Spirit e Opportunity (2004) e a mais recente Curiosity (2012), todas com resultados sensacionais. As sondas demonstraram que no passado do planeta (há milhões de anos) houve água em estado líquido na superfície. Se existir vida, ela será precária e estará enterrada profundamente no solo marciano, ao abrigo dos raios ultravioleta. No entanto, os autênticos marcianos poderão no futuro ser da espécie humana. É muito discutida a ideia de terraformar o planeta vermelho, algo que teria enormes dificuldades e custos, mas que será tecnicamente possível. Uma eventual colonização humana de Marte não começará antes de 2030. Os nomes até já existem: foram sugeridos por Lowell (Elysium, Fons Immortalis, Arcadia, Tharsis).


Como não é minha intenção vir aqui corrigir compilações de pseudo-factos, que passaram para a vox populi como “verdades”, abstenho-me de comentar estes seus textos.
Mas neste caso deixo como curiosidade que em Atacama há o conhecido Valle de Marte:
http://www.tripadvisor.com.br/LocationPh otoDirectLink-g303681-i89305608-San_Pedr o_de_Atacama_Atacama_Region.html
Experimente-se pegar no Photoshop, ou em algo semelhante, e diminuir o suficiente o canal de azul – verá assim belas fotos do solo marciano sem sair da Terra. Por mera curiosidade, sabe-se lá porquê, acontece o mesmo com as fotografias da NASA… têm o canal de azul suprimido. Talvez tenham usado câmaras compradas na loja do chinês, não sei.
É claro que por uma questão de fé, ninguém duvida da NASA, e aqui é só mais uma questão de custos – para apresentar as fotografias habituais das sondas, bastava ir ao Chile, ou até mais perto, aos desertos americanos. Se a ideia é depois cortar no azul, o resultado é o mesmo. Chega a ser tão extraordinário, que até desaparece o azul da bandeirinha americana pintada nas sondas.
Quanto à descoberta, e em contraponto ao “fracasso dos olhos” das gentes do Séc. XIX, a Viagem a Laputa (Gulliver, de J. Swift, 1726) teve olho em acertar no número de satélites de Marte, e até nas estimativas de tamanho e período orbital de Deimos e Fobos. Assim, já houve “imaginação literária” melhor que ciência divulgada.
Portanto, pedindo desculpa pela intervenção, de nenhuma forma questiono a sua liberdade literária, pode pintar Marte das cores que quiser.
Porém, há muita gente que, apesar de nem sequer conseguir identificar Marte no céu, nem perceber minimamente os conceitos subjacentes às conclusões, é capaz de retóricas muito peremptórias sobre esse e qualquer assunto, bastando para isso papaguear fontes alheias.
A minha dificuldade nesses casos é que não vendo a parte crítica necessária à ciência, nem vendo a parte criativa necessária à literatura, só vejo mesmo o papaguear.
Agora, é claro que quando os canais de cor não interessam, convém pintar tudo com as cores da moda, pelo menos não destoa.
Excelente capítulo, Luís.
Se tens interesse na FC de inspiração marciana, não posso deixar de recomendar dois romances mais recentes (anos 80 e 90): “Desolation Road”, de Ian McDonald (um texto magnífico a aproximar-se de realismo mágico num Marte terraformado e quase mítico), e “Red Mars”, de Kim Stanley Robinson, que será talvez a história mais verosímil e rigorosa que já se escreveu sobre uma (futura) colonização do Planeta Vermelho.
Agradeço muito as sugestões e o comentário. Conheço Red Mars, que não referi para evitar o excesso de títulos e também por ser posterior ao conhecimento mais preciso de Marte. Tenho curiosidade em ler as versões verde e azul.
Fui e sou leitor de FC, mas longe de conhecedor. Julgo que as minhas leituras ficaram algures nos anos 70 e desconheço o essencial do que se publicou nos últimos 40 anos. Posso estar enganado, mas a FC tentou ser mais C e menos F, perdendo no processo alguma ingenuidade e muita da imaginação que lhe davam graça. Literariamente tem hoje menos valor e no cinema houve a contaminação do horror e do fantástico, dois géneros que me desagradam.
Apesar de até à data ter lido mais FC dos anos 50, 60 e 70 (a década de 60 é excepcional, sobretudo no período da “New Wave”), as últimas três décadas não têm sido tão fracas como pode à primeira vista aparentar. Há os títulos mais marcantes, como “Neuromancer” de William Gibson ou “Ender’s Game” de Orson Scott Card (este mais juvenil, mas nem por isso menos bom); e há romances excepcionais como o díptico “Hyperion”/”The Fall of Hyperion” de Dan Simmons, a série “Culture” do saudoso Iain M. Banks, os romances do Ian McDonald (“River of Gods” é excepcional). Há um muito recente que tem dado que falar: “Ancillary Justice”, de Ann Leckie – arrebatou praticamente todos os prémios de género que podia ganhar (e sim, é notável, sobretudo quando percebemos que é o primeiro romance da autora).
Dito isto, é verdade que a ingenuidade e o optimismo que marcou a FC pré-New Wave perdeu-se um pouco – na verdade, diria que o que passou para segundo plano foi mesmo a “ciência”, com os autores a tentar tornar o género mais “literário” (expressão que abomino neste contexto), e a derivar para os territórios das ciências sociais. Mas também há grandes obras por aí: a bibliografia da Ursula K. Le Guin fala por si.
No cinema, a FC tem mantido qualidade no cinema de carácter independente. “District 9”, “Moon”, “Under the Skin” e “The Congress” são alguns dos títulos mais recentes que me ocorrem, e que merecem uma visualização atenta.
(Agora que penso nisso, devia refazer num destes dias o meu vetusto “top 15 de filmes de FC”. Em quatro anos dedicados de forma mais ou menos intensa ao género, muita coisa mudou…)
Já tem aqui um leitor.
Confesso qus sou mais crítico no que à ciência diz respeito. A temperatura mínima já medida em Marte foi de -143 °C. Devido à baixa pressão de Marte (em média 636 Pa, ou aproximadamente 0.6% da pressão atmosférica na Terra) esta temperatura permite de facto ao dióxido de carbono congelar e, quando exposto ao sol, depois sublima.
A razão de a atmosfera de Marte ser tão baixa obviamente que não pode ser “conhecida”, mas podem ser levantadas boas hipóteses. Uma delas é a simples gravidade, que é excessivamente baixa para manter uma atmosfera significativa. Outra é de facto a possibilidade de os ventos solares terem ajudado a remover a atmosfera e, por fim, possíveis impactos de outros objectos. O mais provável é que tenha sido uma combinação destas e outras causas.
Em relação aos livros, convém ter em mente que muitos dos autores não acreditavam realmente que existisse vida em marte, antes usavam o conceito como mote para as suas narrativas. Aliás, se bem me lembro, Burroughs até usou um pseudónimo para os livros com as aventuras John Carter, por medo do ridículo.
Em relação a terraformar Marte, tenho sérias dúvidas que isso venha alguma vez a ser feito. Primeiro, uma missão (humana) a Marte é proibitivamente cara no momento (talvez mude, claro). Depois, porque terraformar um planeta é tarefa inacreditavelmente difícil. Além disso, as condições que terão levado ao desaparecimento da atmosfera estarão ainda presentes (pelo menos a reduzida atmosfera e os ventos solares), pelo que os gases com efeito estufa que fossem lançados para o ar continuariam a ser perdidos, reduzindo a eficiência do processo. Por fim porque, na altura em que o planeta pudesse estar finalmente em condições de receber vida animal, os humanos teriam evoluído tecnica e (possivelmente) fisiologicamente de tal forma que ir a Marte seria como lisboetas colonizarem especificamente Setúbal quando têm voos intercontinentais à disposição: pode ser feito, mas em termos de grandes objectivos da Humanidade faz pouco sentido.
Confesso: Vénus é para mim, do ponto de vista científico, muito mais interssante. infelizmente nunca será colonizável (ou explorável).
Vénus, não sei. E aqui entre nós, para Marte também não tenho habilitações. Só quis contar uma historinha engraçada, para as pessoas passarem uns minutos agradáveis de leitura e sublimarem os seus problemas. Lamento não ter conseguido. Pessoas ignorantes como eu confiam em livros que consultam e dá nestas coisas. O livro dizia que as temperaturas nocturnas nos pólos de Marte seriam inferiores a -190 graus centígrados. Não fui lá medir, mas tomei por boa uma informação errada ou desactualizada. Bastava ter consultado a NASA, que tem obrigação de saber sobre estas coisas. Teria assim confiado plenamente no valor de -143 graus, que me parece muito mais agradável.
Percebi Luís, não foi uma crítica, apenas um par de correcções. Não sou nenhum especialista em Marte, apenas me pareceu que -190 ºC seria demasiado baixo e fiquei na dúvida sobre qual seria a temperatura de fusão do dióxido de carbono naquela atmosfera.
Gosto mais de Vénus por uma simples razão: é a mana da Terra. Se a sua posição estivesse trocada com Marte seria tudo mais interessante.
Mas a história é realmente interessante. Para quem tem interesse até aconselho a série de documentários da BBC sobre o sistema solar “The Planets”, cheia de factos mas também de pequenas histórias.
Não conheço a série da bbc mas vou procurar. Forte abraço.