Para ver Portugal jogar


Maria Dulce Fernandes,

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Ontem fiz rissóis de camarão. Comecei pelo recheio, sem pressa, com a calma adquirida em quatro meses de convalescença e recuperação física, que felizmente já está no bom caminho. Passei em seguida para a massa, que sovo ainda quente e deixo arrefecer durante um par de horas. Entretanto preparo os ingredientes para a confecção de um arrozinho de tomate com coentros, que é petisco que muito me apraz.

Com creme e massa arrefecidos quanto baste, é altura de abrir as hostilidades e começar a luta com o rolo da massa. É esticar até obter uma translucidez firme, centrar uma colher creme e cortar com ajuda de um aro (a minha mãe esticava a massa com uma garrafa vazia e cortava com um copo, com extraordinária mestria). Repeti o processo sessenta vezes, com alguns minutos de intervalo entre cada dúzia. Mais uma hora de frigorífico e ficaram prontos para panar. Mais um pouco de frio, e ficaram no ponto para congelar ou fritar. Fritei oito. Muito bons que estavam.

Dão trabalho? Claro, mas o que é que não dá trabalho?

E diz-me a entourage amico-familiar: “Mas porque é que não compras feito? Em AB os croquetes são muito bons! Em CD os rissóis até têm camarão! Em EF fazem uns pastéis de bacalhau de truz! Só mesmo tu para estares com esse trabalho todo.” Não é mentira o que dizem, mas nunca fui grande fã de andar a correr capelinhas e depois onde é que está o gozo de comprar comida feita? Uns frangos assados, ainda vá…

Hoje vou fritar mais uma mancheia deles. Tenho tremoços e asinhas de frango caseiras, também  acabadas de fritar e vão ser  acepipes de truz a ver Portugal jogar.

A Febre de Sábado à Tarde


Maria Dulce Fernandes,

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Coleccionar é meu costume desde pequena. Selos, moedas, postais, talões de entradas em transportes e locais diversos… e cadernetas de cartas e cromos, primeiro apenas com a Neta e agora também com o Neto e a maluquice dos “bonecos da bola”.

Com o advento do Mundial, começaram as cruzadas em busca da caderneta e seguidamente dos cromos. A distribuidora tem como estratégia de marketing oferecer cadernetas às crianças à saída das escolas, mas oferecem apenas vinte ou trinta, sabendo que uma escola não funciona com menos de duzentas crianças. O que acontece é que quem não foi contemplado com a oferenda vem para casa triste e a pedir para fazer a colecção.

É aqui que a porca torce o rabo, porque não há cadernetas para a venda, e dos cromos nem se fala.

Consegui a minha caderneta no princípio do mês de Maio, num obscuro quiosque perto de um Centro de Saúde onde fui fazer um rastreio de retinopatia diabética. Nesse dia trouxe a caderneta e um molhinho de saquetas de cromos. Nas semanas que se seguiram corremos todas as capelinhas conhecidas, o quiosque inclusive, mas de cromos, nada.

Num sábado à noite, passou no telejornal uma peça sobre um evento realizado aos sábados, a alguns metros da minha casa, numa lojinha para coleccionadores de um pequeno centro comercial, onde se compravam e trocavam cromos, de diversas categorias e variadas colecções. Não tardou que o toque do telefone interrompesse a nossa atenção à televisão. O Neto pedia para o levarmos à reunião de coleccionadores. Ficou combinado que iríamos no sábado seguinte.

Como o que é prometido, é devido, preparámo-nos e lá fomos. Com a grande publicidade obtida com a peça na TV, o número de pessoas que se propuseram participar no evento provavelmente decuplicou. No parque de estacionamento, na esplanada, nos passeios, nas escadas, no chão, por todo o lado, havia gente com cadernetas abertas, papéis com listas enormes, envelopes, bolsas, caixas, baús cheios de cromos, que compravam, vendiam e trocavam. O ambiente era de uma alegria contagiante, a música era envolvente, o convívio era total. Depois de três horas, de conseguirmos um lugar no chão e de conversarmos com sei lá quantas pessoas, cumprimos o nosso propósito e regressámos a casa com setenta novos cromos, trinta trocados e cinquenta comprados avulso.

Tivemos uma tarde bem passada, produtiva e divertida. Provavelmente voltamos no próximo sábado.

Falta muito para acabar a caderneta, mas sabemos agora que é possível chegar lá, sem ter de gastar centenas de euros e que as crianças encontram amigos e colegas, fazem novas amizades e divertem-se sem TVs ou telemóveis.

Rezar


Maria Dulce Fernandes,

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Na sexta-feira fui a Fátima. Chegámos cedo, malgrado a fila na A1 ter começado paradinha, muito antes de Vila Franca de Xira, o que obrigou a 45 minutos de pára-arranca. Após termos cumprido o nosso propósito, dirigimo-nos à capelinha das aparições. O ambiente lá dentro estava envelhecido de mais de 60 anos. Enquanto lá fora havia gente nova, risos e alegria, dentro da capelinha só estavam velhos.

Os mais novos pedem milagres, pagam promessas, mas não rezam?

Terão as orações passado de moda apesar de, nas redes sociais, sermos constantemente bombardeados por todo o tipo de rezas a todos os santinhos do panteão?

Independentemente das escolhas religiosas de cada um, é raro haver quem não mencione o nome de Deus ou de santos, quanto mais não seja por fazer parte da gíria nacional.

Os velhos rezam. Os novos acendem velas e pagam promessas…

Entretanto em Fátima, saíram metade dos velhos que ocupavam a capelinha das aparições e foram substituídos por outros tantos, igualmente velhos, como os que lá estavam. Como eu que, quando saí, não sei se dei lugar ao futuro, se dei lugar ao passado.

No regresso, a fila na A1 já quase chegava ao aeroporto.

Na greve geral


Maria Dulce Fernandes,

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O autocarro chegou dentro do horário, o que só por si é indicativo de anomalia. Normalmente chega à “nossa” paragem entre 5 a 10 minutos depois da hora prevista. Hoje não houve atraso, o que é de espantar por ser dia de greve geral. Então e o trânsito? O caos que se instala quando não há transportes públicos, aumentando exponencialmente o caudal de viaturas que se dirigem aos acessos à capital? Não há!

O IC19 está às moscas às 9 horas da manhã. A EN117 idem. A segunda circular flui pacificamente até onde a minha vista alcança – o estádio do Benfica.

Terá sido esta greve estrategicamente convocada para a véspera de um feriado, com tolerância de ponto, ou ponte no dia a seguir? Cinco dias a banhos em luta por melhores condições laborais a meio do ano são um presente caído dos céus ou da diligência da CGTP?

Posso apostar que as pessoas mais afectadas não são funcionários públicos.

Caminhando por aí


Maria Dulce Fernandes,

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Caminhadas remansadas pelo vagaroso e ainda em reparação Passeio Marítimo de Algés permitem observar a fauna em nosso redor. Alguns cães vadios, muitos cães pela trela acompanhados por donos de todas as cores e feitios, imensas gaivotas a circundar as pessoas que no cada vez mais pequeno areal fazem por se bronzear enquanto comem fruta de um tupperware.

Já temos alguns conhecidos, mas as caras novas sucedem-se com grande frequência.  Muitos como nós, roupa de treino, boné, óculos escuros, telemóvel e garrafa de água, outros mais descapotáveis, com a musculatura em mostruário, saliente ou com pretensão a tal. É engraçado,  é saudável,  é bom.

Quando chegamos cedo, vemos chegar a senhora do bronze, grande chapéu de sol, óculos, toalha, saco, mala térmica e cadeirinha. Põe o besunto no corpo e sol com ela. Entrando na curva do farol da Gibalta e já praticamente em Caxias, deixamos de ver a senhora do bronze, que se tornou num ponto de referência das nossas caminhadas.

Chegados ao Forte de S. Bruno, invertemos a marcha e continuamos na direcção de Algés. Quando o nosso ponto de referência devia voltar ao ângulo de visão, só lá estava a cadeira. Da senhora nada. Nadava! Mas… nadava em topless com a maior descontracção. Olha que bem!

Eu, que tinha dado asas à imaginação e já tinha realizado o filme da velhinha triste e só, com talvez dois ou três gatos, fiquei agradavelmente surpreendida pela visão desempoeirada e descontraída.

Por muito que tentasse, o íman da calhandrice puxava e repuxava o meu olhar na direcção da senhora do bronze em pé, ao sol, com as mãos nas ancas e pose desafiadora. Pelo que depreendi olhando ao redor, os meus olhos não eram os únicos a olhar o léu. Percebi que ela estava a sorrir e sorri também. 

Apesar da variedade da fauna no Passeio Marítimo de Algés, as caminhadas têm sido invariavelmente iguais e pouco interessantes. Ninguém diria que aquele Grito do Ipiranga da senhora do bronze conseguisse animar tanto aquela manhã.

Sei que da próxima vez perscrutarei de imediato o rebentar das ondas.

Bichos


Maria Dulce Fernandes,

Os nossos filhos não têm idade para deixarem de ser crianças ou até uma permanente fonte de preocupações. Nem creio que venham a ter algum dia. Não irei inúmerar as razões que fundamentam este argumento,  mas acredito que não sou a única a vestir todos os dias a camisola da selecção familiar.

É talvez essa a razão de não conseguir sequer imaginar que existem monstros que maltratam e molestam física e psicologicamente crianças. Pior, molestam física e psicologicamente os próprios filhos.

A informação é abundante e diversa sobre situações que chegam ao domínio público e fazem parangonas noticiosas que provocam repúdio e asco por parte do público alvo e de todos aquele que entendem que as nossas crianças têm o direito de serem protegidas e que quem as pôs no mundo tem o dever de lhes proporcionar essa protecção e transmitir segurança.

Hoje vi o telejornal. Vi e tremi. Não entendo, nem nunca vou conseguir entender.

Afinal, não somos animais!

Na verdade, somos muito piores.

https://sicnoticias.pt/pais/2026-05-21-video-menores-encontrados-sozinhos-serem-abandonados-pela-figura-de-referencia-e-muito-complicado-a-marca-ficara-sempre-ef54b3d4

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Boa Páscoa


Maria Dulce Fernandes,

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Não é apenas de chocolate que se faz uma Páscoa feliz, mas de amor, de compaixão, de celebração da ressurreição de Cristo e da união familiar! 

Feliz Páscoa para todos, todos, todos no Delito de Opinião.

Lápis L-Azuli


Maria Dulce Fernandes,

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Hoje lemos: Jack London, “O Apelo Selvagem”.

Passagem a L-Azular: “Há um êxtase que marca o cume da vida e além do qual a vida não pode subir. E é tal o paradoxo da vida, que este êxtase surge quando se está mais vivo, e surge como uma completa alienação de se estar vivo.

Este êxtase, este esquecimento de viver, chega ao artista, apanhado e fora de si numa folha em chamas; chega ao soldado, num campo devastado, enlouquecido pela guerra e recusando quartel; e chegou a Buck, liderando a matilha, emitindo o velho grito de lobo, empurrando a comida que, estando ainda viva,  fugia rapidamente diante dele sob o luar.”

É verdadeiramente paradoxal que se esteja vivo e não se dê pela vida. A vida não é mais do que um dado adquirido. Acordamos vivos, vivemos, a vida passa e amanhã, hoje já foi ontem. São muito poucos os que acordam e se quedam a pensar como é que irão viver todas as 24 horas daquele dia da sua vida. A vida e o tempo são as duas metades da tal laranja, amigos que se completam inversamente. É fácil programar um dia da vida, dizemos, mas se pararmos para pensar no tempo de vida que perdemos com essa programação, concluímos que é preferível deixar fluir o subconsciente e vivermos todos os dias sem grande cogitação.

Envio os meus melhores votos de boas entradas no Novo Ano que está prestes a chegar à instituição que é o Delito de Opinião, a todos os autores, comentadores, leitores e visitantes. Que 2024 possa ser melhor do que o ano que irá terminar.

Bom Ano Novo.

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(Imagens Google)

Lápis L-Azuli


Maria Dulce Fernandes,

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Hoje lemos: Jules Verne, “Cinco Semanas Em Balão”.

Passagem a L-Azular: “Devemos olhar para o que vai acontecer como se já tivesse acontecido e não ver nada além do presente no futuro, pois o futuro é apenas o presente um pouco mais adiante.”

Óptimo conselho para quem não faz planos a longo prazo. Pessoalmente tento não fazer futurologia, até mesmo nos meus planos para os “anos dourados” que estavam programados e acertados dentro de uma gaveta fechada à chave, não fossem ficar infectados com o desânimo que por aqui grassa. Os ventos do futuro continuarão seguramente a soprar o balão com o deixandarismo que tem caracterizado não cinco semanas, não cinco anos, mas quase quinze, salvo os interregnos. Por cá ninguém tem pára-quedas. Vai ser como cantava o Ian Gillan no In Rock:”You’d better close your eyes, Oh, Bow your head, Wait for the ricochet”…

(Imagem Google)

Lápis L-Azuli


Maria Dulce Fernandes,

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Hoje lemos: Dr. Seuss. “Como o Grinch Roubou o Natal”.

Passagem a L-Azular: “E o Grinch, com seus grandes e gelados pés enterrados na neve, ficou confuso e perdido. Como poderia isso ser assim? O seu presente veio sem fitas, sem cartões. E se o Natal, pensou ele, não viesse de uma loja? E se o Natal talvez significasse algo a mais?”

O significado do Natal, mesmo sendo cada vez mais comercial e diluído no consumismo, será sempre aquele que o coração dos homens lhe quiser atribuir. Com todos os Grinch que nos roubam exploram e enganam durante um ano inteiro, seguramente que aquele que rouba o Natal é o menos importante, porque ninguém pode roubar o que nos vai na alma.

Desejo ao ínclito Delito de Opinião, a todos os autores, comentadores, leitores e visitantes um Santo Natal. 

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(Imagens Google)

Lápis L-Azuli


Maria Dulce Fernandes,

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Hoje lemos: Louisa May Alcott, “Mulherzinhas”.

Passagem a L-Azular: “Tem horários regulares para trabalhares, te divertires e descansares; torna cada dia útil e agradável e prova que entendes o valor do tempo, empregando-o bem. Então a juventude trará poucos arrependimentos e a vida se tornará um belo sucesso.”

Bons conselhos, que na prática não funcionam assim tão alegre e descomplicadamente. É certo que o livro foi escrito em 1868, num pós-guerra confuso, em que a anunciada liberdade não se concretizou totalmente. É fácil imaginar a realidade americana. Difícil é adaptá-la ou adoptá-la. Pessoalmente, não gostaria mesmo nada de viver nos Estados Unidos.

Devorei os quatro livros que contam a história da família Marsh pelos meus doze anos, bem como as adaptações à realidade portuguesa, contadas em livro por Maria Paula de Azevedo (na verdade os primeiros que li sobre as quatro raparigas). No primeiro  ano de escola preparatória, na Escola Paula Vicente, o primeiro livro que a “Biblioteca de Turma” me atribuiu, foi “O Colégio da Ameixoeira”. Em boa hora o li e fiquei fascinada pela temática da rebeldia que me assentava que nem uma luva, ou assim o cria eu.  

(Imagem Google)

Lápis L-Azuli


Maria Dulce Fernandes,

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Hoje lemos: Fiódor Dostoiévski, “Demónios”.

Passagem a L-Azular: “Não consegues imaginar quão imensa é a tristeza e a raiva que tomam conta de toda a alma, quando uma grande ideia que há muito tempo e piedosamente reverenciamos é apanhada por alguns desastrados e arrastada para a rua, compartilhada por mais tolos como eles, e de repente encontramo-la na Feira da Ladra, irreconhecível, suja, torta, absurdamente apresentada, sem proporção, sem harmonia, como um brinquedo para crianças estúpidas.”

Foge-me o pensamento para aviõezinhos brancos, com pinceladas verdes e vermelhas, algo outrora grandioso, cujas sucessivas ingerências e incauta ganância transformaram numa amálgama de chapa retorcida que ninguém consegue endireitar. É triste que uma referência nas olimpíadas da qualidade se encontre paralímpica e sem meios de mobilidade financeira que vise um projecto sério e viável de recuperação sustentável. 

(Imagem Google)

A Evolução do Esticão


Maria Dulce Fernandes,

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Numa noite quente de Agosto há cerca de dez anos, tinha eu acabado a burocracia das 20 horas e ansiava que as três horas em falta para acabar o turno da noite passassem breves. O toque da campainha fez-me sair da casa forte e verificar no vídeo-porteiro que a Laura estava à porta com cara de choro. Fi-la entrar e sentar-se. Vinha cheia de arranhões nos braços e nas mãos. As calças estavam rotas e ensanguentadas. Segurava, com uma mão crispada, a mala contra o peito e chorava copiosamente. Dei-lhe água, acalmei-a e por fim  entre soluços conseguiu contar que fora vítima de uma tentativa de roubo por esticão. Dois meliantes numa mota que abrandou junto dela. O pendura puxou pela corrente da mala, mas ela não largou. Ele também não, e a mota arrancou levando a Laura de cangalhas, aos trambolhões, arrastada  pelos paralelepípedos de basalto preto das ruas estreitinhas de Belém, junto ao muro do jardim, desertas àquela hora da noite. A nossa primeira reacção é pegar nas compressas e no Betadine, mas num caso destes há que pensar no que não salta à vista e fazer a diligência para que a Laura fosse observada e tratada e pudesse participar a ocorrência à PSP. Pedi a um colega que a levasse ao hospital, onde seria assistida em todas as vertentes da situação.

Tinha um ombro e o braço deslocados, algumas escoriações profundas e alguns meses de tratamentos. Agarrou-se sempre à ideia do “ acto heróico “ de nunca ter largado a mala, mas no meu íntimo nem sei se não teria sido melhor ter deixado ir. A partir desse dia, a Laura ficou sempre com medo de sair sozinha.

Este ano, a minha comadre, mãe do meu genro mais velho, foi passar as festas ao Utah, com a filha mais velha e com o genro e netos. Há uns dias, à tarde, sozinha em casa e entretida a navegar pelas redes sociais, recebe uma mensagem por Whatsapp do filho (o meu genro mais velho) com este teor: “Olá, mãe. Parti o telemóvel e este é o meu número provisório enquanto o outro está a arranjar. Preciso que me faças um favor. Tenho de pagar uma conta com urgência e os dados bancários estão no outro telefone e não consigo aceder. Vou enviar a entidade, a referência e o montante e pagas que, quando chegar a casa, faço uma transferência.” Preocupada, tentou telefonar para o “número provisório” mas não conseguiu contactar. Recebeu mais uma mensagem a perguntar se havia problema, porque não podia falar, estava numa reunião. A minha comadre fez a transferência e de imediato recebeu uma mensagem a informar que não tinha resultado e que teria de repetir com uma entidade e referência diferentes. Repetiu quatro vezes e quem sabe repetiria mais vezes o pedido se o genro não tivesse chegado a casa e, vendo-a tão confusa e  atrapalhada pela anormalidade de tudo aquilo, tomou conta da situação, telefonando para o número de telefone que supostamente estaria “a arranjar”. Tudo não passava de uma fraude. 

A minha comadre tem 77 anos e o burlão usou com ela o tipo de discurso que o meu genro, seu filho, costuma usar, numa caixa de diálogo com a sua fotografia. Extorquiu-lhe cerca de quatro mil euros com grande proficiência sob falsos pretextos de urgência e é uma situação irrevogável.

Foi um senhor esticão. Depois de participar às autoridades competentes, depois de chorar e conseguir acalmar-se, a minha comadre, com a bonomia que sempre a caracterizou, assumiu a precipitação e como o que não tem remédio remediado está, disse que, enfim, seria pior uma perna partida.

Quedei-me a pensar na fractura…

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Lápis L-Azuli


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Hoje lemos: Roald Dahl, “Charlie e a Fábrica de Chocolate”.

Passagem a L-Azular: “Então, por favor, oh, por favor, imploramos, oramos,

A tua Televisão no lixo vais jogar

E no seu lugar vais poder instalar

Uma linda estante de parede.

Depois enches as prateleiras com muitos livros.”

 

Excelente ideia! Muitos autores, muitas histórias, muitos livros para nutrir a imaginação,  sem imagens pré-preparadas para formatar o inconsciente. Se pelo meio das folhas encontrarmos algo fabuloso como umas saborosas tabletes de chocolate que nos nutram a carne enquanto alimentamos o espírito, tanto melhor. Mas bom mesmo seria encontrar a sorte grande em forma de um Bilhete Dourado do Willy Wonka! (Pensavam que ia dizer 75.800 euros, não era? Como se eu fosse capaz!)

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Maria Dulce Fernandes,

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Hoje lemos: Edgar Rice Burroughs, “Tarzan dos Macacos”.

Passagem a L-Azular: “A sobrevivência do homem depende menos da plenitude dos sentidos do que se possa pensar. A sua capacidade de raciocinar libertou-o de numerosos esforços e obrigações, razão pela qual muitas das suas faculdades foram aniquiladas.”

O ser humano deixou de estar dependente dos sentidos para sobreviver, devido à sua “optimizada capacidade de raciocínio”. Quererá isto dizer que quando pensa, pensa sem sentido e regride na sua evolução, reproduzindo atitudes cada vez mais simiescas e selvagens?

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Lápis L-Azuli


Maria Dulce Fernandes,

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Hoje lemos: Umberto Eco, “O Pêndulo de Foucault”.

Passagem a L-Azular: “Acredito que aquilo em que nos tornamos depende do que os nossos pais nos ensinam naqueles momentos bizarros, quando não nos estão a tentar ensinar. Somos formados por pequenos fragmentos de sabedoria.”

Ninguém tem dúvida de que as crianças mímicam os pais em todas as pequenas coisas do dia a dia, e é frequente que um progenitor que se tem em conta de ser um excelente educador tenha um deslize que crê ter passado despercebido à prole. 

Pois acreditem que serão essas incómodas pérolas de sabedoria que o rebento irá repetir num enquadramento totalmente despropositado, de tal modo que a vontade de encontrar um buraco para se esconder ou, parafraseando Ricardo III, um cavalo para montar e correr dali para fora, é tão forte que é difícil de controlar. Eu sei.

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Lápis L-Azuli


Maria Dulce Fernandes,

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Hoje lemos: Elena Ferrante, ” A Amiga Genial”.

Passagem a L-Azular: “Os adultos, à espera do amanhã, movem-se num presente atrás do qual é ontem ou anteontem ou no máximo a semana passada: não querem pensar no resto. As crianças não sabem o significado de ontem, nem de amanhã, tudo é isto, agora: a rua é esta, a porta é esta, a escada é esta, esta é a mamã, este é o papá, este é o dia, esta a noite.”

Uma passagem ambientada nos anos 50 que reflecte a presente realidade da rotina dos que não têm tempo para muito, pois o pouco que lhes sobra é para estar no computador, no tablet ou no smartphone a cultivar-se com a assertividade dos temas publicados nas redes sociais.

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