
Os velhos portugueses. Encontro-os solitários, sentados em bancos de jardins ou nas soleiras das portas. De olhar errante e vago. Mudos e quedos, parecem fixar um horizonte que já não lhes pertence enquanto se alimentam de memórias. Jamais os vejo com um livro, sequer com um jornal – talvez alguns deles não saibam ler. Outros, mais gregários, jogam à bisca ou empinam copos nas tabernas. Mas os solitários – e são tantos – parecem não se entreter com nada. Sempre de olhar perdido no infinito.
Passam velhos de outros países, que chegam em turismo de grande algazarra: os velhos portugueses solitários mal reparam neles. De mãos sobre os joelhos, camisa de algodão e calça de fazenda cinzenta escura, de boné sempre enterrado na cabeça, lembrarão os tempos de juventude, amores antigos, a energia já gasta? Impossível dizer: os rostos são impenetráveis.
Outros reservam a etapa final da vida para cultivarem um hobby durante muito tempo adiado, convivem, passeiam, entregam-se a actividades comunitárias. Mas estes não: limitam-se a ficar passivos, no seu melancólico banco de jardim. Como se aguardassem a todo o instante um passaporte para a eternidade.

Outros reservam a etapa final da vida para cultivarem um hobby durante muito tempo adiado, convivem, passeiam, entregam-se a actividades comunitárias. Mas estes não: limitam-se a ficar passivos, no seu melancólico banco de jardim.
As pessoas só se podem dedicar a hobbies se tiverem capacidades físicas para isso. Quiçá muitos desses velhos que o Pedro Correia vê sentados em bancos de jardim padeçam de enfermidades físicas que lhes dificultam ou impossibilitam a execução de hobbies.
Basta um homem, por exemplo, ter um problema de próstata que o obriga a urinar de meia em meia hora para já ficar muito limitado no tipo de atividades a que se pode dedicar.
Bom dia Pedro,
Gostei do comentário. É um tema importante.
Vivendo no Reino Unido, sempre apreciei ler os obituários sobre pessoas de alguma importância nos jornais. É frequente um dos últimos parágrafos incluir informação sobre as actividades de voluntariado realizadas por essa pessoa na reforma (“montou um museu local”, “juntou-se ao centro comunitário”, “foi voluntária do National Trust”, etc.).
Faz-me confusão a aversão que muitos portugueses têm a realizar este tipo de actividades nesta etapa da vida.
Por mim, e que esse dia venha longe, não quero ficar em casa a “olhar para a TV” nem ficar especado num banco de jardim a ponderar “o que poderia ter sido”. Conto juntar-me ao voluntariado da paróquia local e ajudar no que possa, enquanto tiver força para tal.
Um óptimo dia para si.
Martim
Será em Lisboa porque aqui. sentam se juntos nos bancos da praça ou do jardim ou até nos bancos das ruas a ver as vistas ou a dar á língua e a cumprimentar as pessoas. Vejo os todos os dias.
Se procurar bem, encontra.
Um dos trechos mais controversos da literatura dos descobrimentos é, indubitavelmente, a narrativa que Camões faz, em Os Lusíadas, da partida de Lisboa das naus de Vasco da Gama que iniciavam a viagem inaugural à Índia. Nessa descrição, avulta a figura do Velho do Restelo e as palavras que, na circunstância, proferiu, em tom de severa crítica.
OS VELHOS . Comédia em 3 atos de D. JOÃO DA CÂMARA
Em casa do lavrador Manuel Patacas, os «velhos» da aldeia – o prior cego, o mestreescola Porfírio, o Bento barbeiro – discutem acaloradamente o acontecimento que veio perturbar o ritmo tranquilo dos seus dias: os trabalhos de construção da linha férrea que irá trazer «a Besta do Apocalipse a vomitar lume por esses campos agora tão quietinhos», na linguagem bíblica do prior. Cada um dos velhos enumera os prejuízos que a expropriação das suas terras irá causar-lhes: o vinho, as cerejas, os melões que deixarão de poder colher
Autora: Paula de Sousa Lima
habitantes de um lar da terceira idade, todos vergados à sua condição de tristeza, solidão e desesperança
Muito bom!
Obrigado, companheira de luta delituosa.
“Velhos”…
“Velhos são os trapos.”
Idosos…
A forma como ocupam o tempo depende dos estudos que têm.
Estudar é muito importante…
João Barros da Costa
Ainda vai a tempo.
Os velhos portugueses que podem chegar ao banco do jardim são sortudos. A maioria nem sequer consegue sair de casa. Usar uma cadeura de rodas, um andarilho ou simplesmente ter mobilidade comprometida condenam os velhos a ficar em casa. Os nossos passeios estão pensados para pôr postes de luz, caixotes do lixo, carros ou buracos. Não são para andarem os velhos, era o que mais faltava.
Vemos menos cadeiras de rodas numa vida inteira nas nossas cidades que num único dia em Marraquexe.
CF
Atendi muitos anos ao balcão e ouvi muitas formas de cumprimento. Fizeste-me lembrar uma que me incomoda particularmente. Então, a trabalhar? Epá, não sei fazer mais nada.
Após uma geração que teve uma infância demasiado curta, que só soube trabalhar, seguem-se outras com infâncias quase vitalícias. Muitos dos jovens nem-nem, que não estudam nem trabalham, fazem parte dos “mais bem preparados de sempre” mas que não emigraram.
Fora dos grandes centros, os quintais são a melhor terapia ocupacional. As intempéries, pragas, doenças e infestantes causam problemas e contrariedades, mas no fim das contas o tempo passa-se, joga-se com as regras da natureza e esta, quando se sente respeitada, devolve boas recompensas.
Nos grandes centros as hortas comunitárias deviam ser mais frequentes.
Lindíssimo, Pedro Correia. E é assim por todo o país, nas cidades como nas aldeias. Mas isso já dizia o muito amado Brel, “que l´on vive á Paris, on vit tous en province quand on vit trop longtemps.” Belo e tão triste o seu texto. Muito obrigada.
Obrigado, Margarida.