Os velhos


Pedro Correia,

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Os velhos portugueses. Encontro-os solitários, sentados em bancos de jardins ou nas soleiras das portas. De olhar errante e vago. Mudos e quedos, parecem fixar um horizonte que já não lhes pertence enquanto se alimentam de memórias. Jamais os vejo com um livro, sequer com um jornal – talvez alguns deles não saibam ler. Outros, mais gregários, jogam à bisca ou empinam copos nas tabernas. Mas os solitários – e são tantos – parecem não se entreter com nada. Sempre de olhar perdido no infinito.

Passam velhos de outros países, que chegam em turismo de grande algazarra: os velhos portugueses solitários mal reparam neles. De mãos sobre os joelhos, camisa de algodão e calça de fazenda cinzenta escura, de boné sempre enterrado na cabeça, lembrarão os tempos de juventude, amores antigos, a energia já gasta? Impossível dizer: os rostos são impenetráveis.

Outros reservam a etapa final da vida para cultivarem um hobby durante muito tempo adiado, convivem, passeiam, entregam-se a actividades comunitárias. Mas estes não: limitam-se a ficar passivos, no seu melancólico banco de jardim. Como se aguardassem a todo o instante um passaporte para a eternidade.

A Feira do Livro nos Olivais


jpt,

 

(Banca de livros ofertados no “Evaldo”, entre a Rua Cidade de Bissau e a Rua Cidade de Bolama)

Os velhos cafés e restaurantes de bairro, tais como as consagradas tascas, estão a desaparecer. As razões são várias. Pelo lado da “procura” – a clientela – a mudança de hábitos é evidente, com as gentes fechando-se nas casas, abandonando as contas da rede social “vizinhança”, optando pelas grátis nas digitais e – no caso dos mais-velhos – pela infinitude de canais televisivos.

E também pelo lado da “oferta” – dos proprietários – não haverá muitas dúvidas sobre a causa desta extinção. Pois arrendar um espaço – vão de escada com postigo que seja – tornou-se empresa arrojada, até inconsciente. Mas do que isso, alteraram-se as expectativas de vida. E assim se esvaiu aquele antigo modelo do casal beirão, minhoto ou mesmo até galego, a aportar à cidade grande para dedicar a vida conjugal, de breu a breu, ao incessante e exaustivo labor de servir petiscos, “bicas” ou “penaltis” aos outros. Socorrendo-se, logo que o negócio melhorasse um pouco que fosse, de algum marçano oriundo da velha aldeia a quem mandavam “carta de chamada” oficiosa. Isso enquanto não lhes medrava a prole, esta logo que púbere posta a “ajudar”.

Nada contra isto, é uma vertente da melhoria do “Índice do Desenvolvimento Humano”. Mas este enriquecimento global trouxe também o empobrecimento local. Pois assim escasseiam, mesmo inexistem, os locais de convívio vicinal, de entreajuda moral (e não só), aqueles “centros de dia” para mais idosos ou “vespertinos” para os ariscos, tutelados pelo “amigo Quaresma” ou “Sô Claudino”, coadjuvado pela “Alice” ou “Dona Maria”. Cada um com a sua tabela de “não fiados”, tempero próprio e onde o cliente é não só alguém (o “Teixeira” ou o “Zezé” no meu caso) como encontra o habitual ror de alguéns que aprova e até demanda.

Tudo isso vem sendo substituído, esvaziando a vida cidadã. Na década de 1980 o aperto do FMI causara aquela epidemia de croissanterias às mãos das desgentrificadas da classe média remediada. Agora algumas das suas descendentes “bruncharam-se”, meneiam-se em “bistrôs” ou proselitam vegetais. E grassam as sensaboronas “cadeias”, desde a anódina lusa “Padaria Portuguesa” e suas tristes sequelas até aos evidentes investimentos em plataformas para obtenção de vistos de residência europeia, nos quais rotativos “colaboradores” servem plasticinas ditas “latte”, “kebab”, “pita shoarma” e quejandas agressões.

Face a este (cada vez mais) antipático ambiente, aqui no bairro Olivais houve recentes inovações, benfazejas. Pois foram concessionadas licenças para “barracas”, modestos estabelecimentos amovíveis que os donos trazem. E nos quais se esfalfam a trabalhar…

Na minha vizinhança, nas cercanias do pólo Centro Comercial, entre as “bocas” do metropolitano, a igreja velha, a Biblioteca e a célebre Quinta Pedagógica, estabeleceram-se duas dessas, mesmo no entroncamento da Bissau com a Bolama. Geridas por casais imigrantes brasileiros, já portugueses dadas as décadas que acumulam por cá. Modelos de verdadeiro “empreendedorismo”, essa moda ideológica reformista, de honesto “trabalho” popular, esse mais anterior valor revolucionário.

O gentil Silva, e a sua Rosângela, cumprem servindo bons pastelinhos lá na barraca amarela mesmo à saída do metropolitano – não será o “Bar Vesúvio” da Gabriela mas os veteranos vizinhos palitam os dentes e sorriem dizendo-o “Sítio do Pica-Pau Amarelo”. E voltam no dia seguinte.

Um pouco acima está a barraca de listas azul-e-branco, qual malvado F. C. Porto, e que tanto me faz lembrar as concessionadas barracas de praia (essas que agora tanta polémica causam) de “meu” São Martinho do Porto. Eu e alguns amigos dela fizemos o nosso poiso, e muitos outros vizinhos o têm feito. É o local do Evaldo, um já lusobrasileiro muito boa onda – nada daquela simpatia plástica que tantos brasileiros afixam (“isso é coisa de carioca” outros me afiançam). Pois uma gentileza mesmo, de vero sorriso afivelado na sua labuta constante.

À barraca do Evaldo chamámos entre-nós o “Leblon” (“vamos ao Leblon”, desafiamo-nos, “leblonas?” telefonamo-nos). Ali se bebe o copo vespertino, no rescaldo do dia. Comem-se uns belos hamburgueres (sim, hamburgueres, pois aqui não há ponta de xenofobia comensal) e alguns canapés, produtos preparados em casa pela D. Eugénia, sua mulher.

O casal está cá há mais de vinte anos, numa dura labuta na “restauração” (como agora se chama a esta actividade). E soube, aqui em plena rua dos Olivais, criar um “sítio”. Um espaço como aqueles que décadas atrás existiam aqui no bairro, resguardados nas “lojas” dos prédios, mas que foram mirrando e, depois, desaparecendo. Ou seja, o “Evaldo” (o nosso “Leblon”) faz “bairro”, faz “Olivais”.

E nesse registo de vizinhança, de (quase) “comunidade”, neste entre-feriados soalheiros brotou uma mostra disso, desta comunhão. Pois ali se instaurou uma Feira do Livro. Alguns clientes levam livros para oferecer, outros clientes e os passantes são convocados pelo dono, este usando uma maravilhosa expressão, o “gosta de ler livros?” – que logo me fez brotar saudades ao lembrar a forma “horas de tempo” moçambicana. E quem gosta vasculha o que lá está nesse dia, pois a oferta sempre muda, e leva o que lhe interessar. Outros animam-se e regressam com dádivas num simpático “boa ideia!”. E vai-se bebericando, sendo vizinho.

Fazendo Olivais. Aparece por lá! Apareça por lá. Com uns livros para dar. Ou em busca de um qualquer livro… Sendo vizinho.

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(Postal antes colocado no meu “O Pimentel“)

Mudam-se os tempos


Pedro Correia,

Não sei se acontece o mesmo convosco. Eu quando estou numa fila de supermercado avalio pelas compras dos clientes à minha frente se sabem cozinhar ou não.

Se só vejo embalagens de fiambre e latas de atum, percebo de imediato que quem ali está não costuma dedicar-se à culinária. Se leva legumes, arroz, carne e temperos, percebe-se que se trata de alguém habituado a cozinhar.

Reparo nestes pormenores e procuro estabelecer um padrão das pessoas conforme a idade e o sexo. E vou concluindo que entre os homens são os mais jovens que cozinham enquanto nas mulheres a tendência dominante é ao contrário: verifico que elas vão deixando em grau crescente de se dedicar aos fogões e aos tachos, contrariando o que sucedia com as mães e avós.

Sobra para eles, claro. E lá se vão ajeitando como sabem e podem. São cada vez em maior número, é o que indicia a minha observação empírica. The times they are a-changin’.

Evidentes melhorias no Aeroporto de Lisboa!


jpt,

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Os cidadãos portugueses – e alguns residentes estrangeiros, em particular os brasileiros – têm uma enorme e enfadonha tendência para sempre criticarem as instituições e empresas portuguesas. Como se o país involuísse constantemente.

 

Ora isso não corresponde à verdade. Há evidentes melhorias no funcionamento dos serviços e na mundividência dos seus agentes. Disso evidente exemplo é o Aeroporto da Portela. E explico:

 

Há cerca de 15 anos estávamos de regresso a Moçambique. Avançámos até ao balcão de devolução do IVA. A fila de passageiros era enorme – a maioria angolana – e a execução muito morosa, por mais que se esforçasse o único funcionário ali colocado. Enfim, não se justificava esperar mais tempo, logo decidimos desistir.

 

Praticante do meu então Blackberry, empunhei-o para registar a mole ali expectante e deixar nota em blog da evidente malícia administrativa, seguindo aquela estratégia para reduzir a devolução de taxas indevidas. De imediato um funcionário avulso investiu contra mim, sendo depois secundado por “senhor agente” ali prestável. Em tom marcial, numa rispidez escorregando para o desabrido, fui “proibido” de tirar fotografias nas instalações do aeroporto. Ali em família, e com pressa de ir até às cercanias da porta de embarque para beber uma cervejola, guardei o meu resmungo, embolsei o telefone e … perdi o “postal” para o ma-schamba, meu blog de então.

 

Agora vejo fotografias e filmes no Portela, partilhados por várias pessoas – até um deputado, pelo menos -, devido a umas quaisquer minudências aeroportuárias. Já não é “proibido” fotografar e filmar nos aeroportos!

 

E saúdo este evidente sinal da democratização do país!

A semente totalitária


Pedro Correia,

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Vivemos já de algum modo num cenário pós-orwelliano. George Orwell preocupava-se com a tecnologia enquanto instrumento de um estado totalitário. A questão é que a tecnologia pode ser totalitária por si própria – e, nessa óptica, induzir derivas totalitárias no mais democrático dos sistemas.

Muitos apregoam os direitos humanos, havendo-os para todos os gostos e feitios, reais ou imaginários – e não falta até quem queira estendê-los aos animais e aos vegetais. Mas quanto mais se fala, menos se faz: alguns direitos fundamentais vão sendo comprimidos sem surpresa ou escândalo de ninguém. Refiro-me ao direito à privacidade e ao direito à reserva da vida íntima, hoje ameaçados de modo quase irreversível numa sociedade que elege o narcisismo exibicionista acima de tudo o resto.

O incentivo à exposição pública dos mais diversos pormenores da vida privada através das chamadas “redes sociais” funciona como uma droga dura. Todos os dias assistimos a novos recuos no direito à intimidade, lesado por contínuas cedências voluntárias ao domínio público.

 

Um misto de apatia, hedonismo e alheamento cívico caracteriza muito do comportamento dominante no mundo ocidental. E ajuda a explicar esta permanente sensação de crise larvar, que ultrapassa em larga escala o plano económico. É uma crise de valores, que o fundamentalismo islâmico procura colmatar à sua maneira apelando ao instinto gregário e aos códigos tribais em decomposição nas chamadas sociedades “evoluídas”.

Isto tem uma capacidade de sedução que ultrapassa largamente o círculo de convertidos, seduzindo novas hordas de fanáticos em potência desprovidos de valores alternativos.

 

Quem não perceber isto nada percebe de essencial.

Como há-de o Estado – mesmo o Estado democrático – respeitar aqueles direitos se os próprios cidadãos parecem desprezá-los? A todo o momento somos filmados, fichados, gravados, inscritos, registados e vigiados nos mais diversos locais. Sem que ninguém pareça escandalizar-se.
Infelizmente estas questões só raras vezes são debatidas. Como se fossem irrelevantes. Como se a semente totalitária não estivesse já no meio de nós.

Uma agressão imigrante no metropolitano


jpt,

Já noite, pois pós-jantar, sigo no metropolitano rumo ao aeroporto para, saudoso, colher um abraço filial. Após a Oriente o comboio esvazia-se, prenúncio do que virei a confirmar – a Portela em estado semi-Covid, calmaria talvez fruto de longínquos drones…

Na carruagem resta apenas uma pessoa, no banco ao meu lado. Segue sob o uniforme de “mulher da limpeza” – assim o anuncia nas costas o dístico, “agenderado”, em inglês -, ainda um pouco jovem num abaixo dos trintas. Sofre da doença que agora grassa, tão comum nos futebolistas “afrodescendentes” – como sói dizer-se -, naquilo do alto do toutiço alourado e o restante preto. Mas esta é branca, bisneta de malteses e ratinhos. Não é feiosa. Apenas desfeada por tudo isto que a acomete.

Em Moscavide pega no telefone, e fala com alguém – talvez a mãe ou uma amiga próxima. Grita, viscosa, exasperada, sotaque carregado, o nosso: vinha de um supermercado estacionado num qualquer centro comercial, a caixa automática que usara tivera algum problema. Pedira ajuda a uma funcionária, esta atendera-a de longe, sem sair do seu poiso, vozeando-lhe lhe as instruções para resolver a situação. E todos a tinham olhado! Por isso, pela afronta sentida, sofrida, desvairou-se e assim continua. Vocifera, repete-o, incessante, que “devia ter pedido o livro de reclamações”, não o fez pois “tenho que pegar”, mas afiança que descompôs a outra, a atrevida, até porque, frisa, e várias vezes, “também já trabalhei atrás de um balcão, sei como deve ser”… Esganiça-se, desgraçada por alguém ter falado com ela em voz alta… E eu ali, apenas a duas braçadas, sem mais ninguém na carruagem, como se insensível àquela berraria, não existo! Velho, sinto-me, pois já invisível, como o são (somos) quando já assim. A Portela aproxima-se, a mulher avança célere para porta, eu irei, suave, não vá o Diabo social tecê-las, até às costas dela. E, imparável, desabafa “eu queria era ter um bomba” “para dar cabo do planeta” (“admiradora do Cazuza?”, surpreendo-me para mim-mesmo mas logo concluo, mudo, “não, não pode ser”). As portas abrem-se e ela, antes do primeiro passo, constata – para a tal mãe, talvez, ou amiga íntima -, já rouca, “ó se calhar sou eu que não sou deste planeta!”. Dou-lhe dois ou três passos de avanço, claro, mas sossegando-me naquele laivo de autoconsciência, desesperada, a que, afinal, assisto.

No final de tarde seguinte de novo apanho o metro, vou fazer o jantar. Na mão levo um saco de plástico das compras, amarfanhado pelo uso e mal amanhado pela escassez de víveres: peitos de frango (em promoção), laranja para condimentar, bananas com evidência sensaborona, cebola, ervilhas, duas cenouras, tudo isso para o mero arroz, uma ou outra cerveja… Debaixo do braço segue uma também velha revista, francesa (uma hors-série “Être Français”), francesa, repito, trazida para com ela disfarçar a roupa puída e nada engomada que me envolve.

A carruagem vai quase cheia, entro para o meio do corredor, pouso o saco no chão para compor a pose da revista, encostando-a ao sovaco suado. Logo diante de mim se levanta uma mulher, jovem ainda, trintinha, não beldade mas bonita, dotada do nariz arrebitado que sempre convoca, cabelo bem preto, longo, baixa pelo meu queixo, vestida naquele preto da elegância remediada, que a aparenta bem torneada. Está a oferecer-me o lugar sentado, eu sorrio e agradeço-lho, recusando, claro. Ela insiste num olhar, mimoso de cálido, “por favor”. E nisso o sotaque denuncia-a brasileira… Torno a recusar, cavalheiro, versão gentil-homem, enquanto sinto “eu queria era ter uma bomba….”. E ela, imagine-se, repete-se num suave cantado “por favor, sente-se” sorrindo ao decano. Ocorre-me gritar “Vai para a tua terra!” mas apenas sussurro “Por favor, não me faça mais velho do que já sou!”. Ela baixa os olhos e senta-se. Eu aguento-me, hirto!

Não podemos continuar a deixar que estes imigrantes nos venham tomar os lugares (sentados). E agredir.

(Postal antes colocado no meu “O Pimentel“)

Os meus votos de Boas Festas!


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Entre amigos encetei ontem as celebrações natalícias, esta época de congregação em comunhão benevolente. A nossa laica celebração do Advento consistiu num vasto repasto composto por uma maravilhosa moamba, acompanhada por funge de milho e de mandioca (ou xima, para falar como em Moçambique).

 

Tudo isto, e também o picante acompanhante – mas, de facto, nem necessário tal o ponderado equilíbrio dos condimentos -, foi cozinhado com extrema excelência por um tipo branco, português (“tuga”, como dirão os mais agrestes), que nunca pisou África… Como dirá aquela Joacine Katar Moreira (e seus apaniguados identitaristas): este apropriar festivo da culinária africana é um caso típico da “desfaçatez” “racista” e do “extractivismo cultural” dos portugueses. E nem no Natal afrouxamos.

 

Enfim, e digestão feita, aproveito para a todos (até aos tais “identaristas”) desejar Boas Festas, um Feliz Natal – pouco perdulário – e um Saudável 2024! Bem Hajam!

Futebol


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O ano passado adormeci três ou quatro vezes enquanto via jogos do Sporting. Afligi-me com isso, atribuindo o acontecido à crescente vetustez, já ascendida aos então 58 anos, isto da sonolência insone, do desmemoriar, da tensão alta, mais o pingo no nariz, a mão trémula, a corcunda descendente, as cáries viçosas, o lacrimejar involuntário, as unhacas recurvadas, a plural variz túrgida, a azia constante – a gástrica e a existencial -, o pesadelo com a “Mitra”, o “ai se fosse no meu tempo” quando passam as beldades cinquentonas, as notícias dos (sobrinhos-)netos já adultos, o timorato ao volante, o “Sô Doutor” médico de família num “vá lá à Champalimaud inspeccionar os pulmões”, e mais a vasculha da próstata e de restantes vísceras, o já entrever ao longe, desbotado o olho de águia (salvo seja…) que sempre foi o meu e, talvez mais do que tudo, o omnipresente “já não vale a pena”…, seja lá diante do que for.

 

Hoje percebi o quanto estava errado. Desperto estava, e bem, a ver um jogo do Sporting, deslocado à sempre Cidade-Berço, reduto dos vimaranenses. Saiu na rifa um penalti fajuto contra “nós”, apesar de toda a parafernália videográfica… Passei logo ao Aston Villa-Arsenal, num “que se lixe tudo isto”. O Villa veio a ganhar, para meu gáudio, (quase)sempre a defender o “abaixo de cão”. Depois jantei com amigos uns bons bifes à moda açoriana, feitos por quem sabe. Bebeu-se um belo tinto “Grous”. Entretanto o telefone disse-me que o Sporting perdeu, coitados. Os velhos que se preocupem com isso.

 

Pois nós, os novos, somos audiência de espectáculos a sério.

No Metropolitano de Lisboa


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Nos Restauradores entro no Metro, desço ao cais e fico estuporado pois – ainda que soando algo baixo – reconheço acordes dos Doors, a L.A. Women logo julgo. Sai-me palavrão, peludo – e ainda pior, logo de seguida, ao ouvir a canção interrompida com anúncio a um qualquer cartão (“Viajante”?). São-me palavrões mudos, para mim mesmo, isto de ver os velhos Doors resumidos a “música de metropolitano”, que nem de hotel…. E lembro-me, eu puto, do programa musical de António Victorino de Almeida, dizendo que a população de Viena (Viena!!!!, sim, Viena…) votara contra a música ambiente no metro…

Fogo!, que menosprezo, os velhos Doors metidos a música ambiente do Metro lisboeta… Que desplante, o da empresa… Não os ouço há quanto tempo?!, nem nas minhas fileiras do spotify, dizendo-os desengraçados, ao Morrison um histriónico até piroso e – até mais do que tudo – nestes meus já 59 anos não tocando naqueles seus produtos há para aí 40 anos, vade retro, satanás, disse mesmo que ateu, avesso àqueles químicos, depois descrente do vegetal psicotrópico.

Agora, é já noite, e deparo-me comigo, nas mãos tenho este “Uma Oração Americana e Outros Escritos”, editado pela Assírio e Alvim (ainda assim escrita), que comprei em Dezembro de 1981… Já tocou, bem alto, e eu cantei, o “Everybody loves my baby, everybody loves my baby, she get high, she get high, she get high, she get high, yeah“!

Agora toca, e eu leio, “As pessoas são estranhas quando nós o somos, / feias são as caras quando nos vemos só. / Toda a mulher que nos rejeita nos parece perversa, / as ruas são tortuosas quando estamos em baixo. / Quando nos sentimos estranhos, surgem-nos caras através da chuva, / quando nos sentimos estranhos, ninguém se lembra do nosso nome, / quando nos sentimos estranhos, quando nos sentimos estranhos, / quando nos sentimos estranhos.” (Tradução de Manuel João Gomes). Pois é assim mesmo…

Enfim, afinal… obrigado Metropolitano de Lisboa. E, já agora, alguém por aqui tem aí alguma coisa…?

No Ginjinha Popular


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Venho à Baixa, o que me é tão raro. Subo um pouco a avenida, numa entrega que me cumpre. Estanco diante deste magnífico Hotel Vitória – há quantos anos não olhava para ele. E noto-lhe mesmo uma bela característica, por nesta ala é agora o único sítio que não vai como loja gentrificada. E roubo esta pobre imagem enquanto entoo – por essa razão, suficiente – “Avante, Camaradas!”.

Depois desço, à das Portas de Santo Antão, já apenas em breve passeio. Mas iro-me, cruzando estes pacóvios wine bar, pindéricos coffee and toistery,, miseráveis kebabes, explode-me a imprecação agourenta diante de uma “tapas de Sevilha” no centro da minha capital (!) – como se atrevem eles?, ainda se fosse uma tasca galega, de tonel à porta -, e já nem o “Inhaca” fronteiro ao Gambrinus encontro.

Mas, de súbito, deparei-me com uma ainda tasca lisboeta. Acorro à esplanada, a colher alento. Passa uma pequena tuna, de quase caloiros decerto, a trautearem – muito mal, coitadinhos – uma qualquer dos velhos Delfins. Sorrio, revitalizado.

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E, ao simpático empregado, cancelo a bica pedida, lembro-me do passado como era e chamo por uma imperial com um panado, isso que se comia e há que anos não lhe chego. Vem ele como deve de ser, carcaça já algo serôdia, carne encarquilhada, o travo a augurar uma leve e tão desejada azia. 

E assim estou aqui, feliz no Ginjinha Popular, este sem ademanes nem requebros. Pois, como se canta em Moçambique, “juro, sinceramente, palavra de honra, vou morrer assim”. Português…

Slava Vida!


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A primeira regra de um bloguista é evitar o resvalar para o intimismo. Não por mera auto-preservação. Mas sim por educação, bom gosto, decência até. Para quê mostrar as varizes e pústulas, o corrimento das desengraças e até desgraças próprias, reais ou imaginadas? Que interessa isso aos outros, decerto que embrenhados nos seus próprios correres (e corrimentos)? Sempre sigo isso, ainda que alguns amigos próximos percebam as minhas flutuações – e disso reclamem -, presentes no discorrer sobre as coisas várias.

Vinte anos de bloguismo! Como me esconder diante de tanto perorar? Confesso, com pesar, a presença de alguma amargura, a qual decerto transparece, coisa de homem frágil, não vitorioso. Essa que o grande Graham Greene – esse que escreveu o meu livro preferido, pois me desvendou o rumo ainda eu adolescente, o de futuro Fowler, o do “Americano Tranquilo”, explicou, ao dizer num alhures do seu parco “Terceiro Homem”: Nunca nos habituamos a ser menos importantes para as outras pessoas do que elas são para nós. 

Acordo hoje, um sábado depois daquele ontem no qual finalmente acabou o longo, e assim tão maldito de preocupante, Verão lisboeta, e quando até, aleluia!, choveu… Ponho os óculos e vejo que no telefone tenho mensagens, educadas mas cálidas, dessas que resssucitam pois provenientes daquele que dizíamos “belo sexo”. Assim me reforço no aventurar diante do malvado novo dia. Mas logo me deparo com um amistoso convite – de tipo que quase nem conheço, apenas leitor do meu bloguismo – para um almoço no afamado “Dom Feijão”, para que possa eu conhecer um bibliófilo extremado. E não é qualquer ideia da (sempre tétrica) comezaina que me anima, mas sim a convocatória até excêntrica que assim tanto me acalenta…

Sigo à lida doméstica – não vá a chuva atrapalhar-me o estendal… E toca o telefone. Uma tão bela amiga, que tantas vezes utopizei como cunhada, convida-me para o seu jantar (familiar) de aniversário. Um pouco depois, eu às voltas com outros afazeres caseiros, telefona um outro amigo, recente pois feito neste bloguismo, a ordenar-me que desça à rua para dele colher algo, apressadíssimo está. Acorro, ainda sem duche, e entrega-me ele um pacote de meia-dúzia de chamuças – pois chamucista me sabe, via os tais postais de blog – e duas cervejas, ucranianas. Comovo-me, insisto em que suba, ao que ele se nega dada a azáfama que hoje o recobre…

Sento-me à mesa, sozinho mas assim nada solitário, pois tão acompanhado. São já 12.15 horas, legítimo horário para que um cavalheiro, mesmo se desvalido, possa beber. Um copázio de Queen Margot enquanto desembrulho as chamuças… Depois abro esta Robert Doms, percebendo-a saborosíssima, para aquelas acompanhar. Na TV uma velha gravação dos clássicos Art Blakey e Horace Silver, enquanto leio o Simenon que o meu pai António tanto me recomendou – avisou, assim mostrando diante da minha distracção o quanto me conhecia. Estou na sua sala, quase nada mudei, tirando os quadros afixados. Olho, de cerveja na mão, para o meu Shikhani que vou vender e resmungo “Foda-se, vou vender os meus Shikhani, caralho, estou bem fodido!”, pois “como desci a este ponto?”, e sei que ele se preocuparia comigo, rodando o seu copo de genebra. Ou rum…

Mas logo me assoma a ideia, óbvia, de que um amigo recente veio das Avenidas Novas para me ofertar chamuças e cervejas ucranianas. E um outro, ainda mais recente, me chama para almoço interessante nas tais Avenidas Novas… E ainda tenho o jantar de gente querida. Sorrio, diante do Shikhani, percebendo-o afinal não a minha vida. E clamo, copo de (boa) cerveja ao alto, “Slava Ukraini”!!!

Ou seja, Glória à Vida!

Favas em Almada


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Vou usar o barco para atravessar o Delta do Trancão. Chego ao cais em cima da hora, leio que está quase de partida, estugo o passo e acorro à bilheteira. Nela se arrasta um casal de decanos, em atrapalhadas delongas, informações descabidas, carteiras confusas, esmiuçar de trocos. Segue-se-lhes uma meã trintona, dotada de aquele tão típico ar de simpática geniquenta, sempre insuportável. A qual embrulha a aquisição do bilhete com o vasculho da carteira, perguntas sobre quaisquer outros assuntos e até sorrisos circundantes. Lá compro o bilhete, um minuto depois do cais ter encerrado. Não é grave, não estou apressado, a favada almadense por ora meu destino não fugirá e nem sequer estou atrasado, além de que no bolso trago um livro e tabaco, antevendo delongas.

Mas irrito-me com estes pequenos egoísmos, os dos “direitos adquiridos”, naquilo do “estou à vossa frente, aguentem-se, atrasem-se ao meu ritmo…”, a inexistência de qualquer cuidado com os vizinhos, esta forma de cidadania dos filhos de malteses e ratinhos, catarse dos destratos sofridos pelos antepassados. Por isso, e já só diante dos torniquetes, resmungo, em monólogo pouco audível, “raisparta estas conversas na bilheteira“. Mas o porteiro – que agora é dito e fardado de “segurança” – ouve-me, sorri, e completa-me “é esta estrangeirada!…”. Sigo-lhe que “não, estes chatos até eram portugueses“. Ele riu e insiste “mas a estrangeirada fala muito…“. Agora sou eu que sorrio e vou lá fora fumar. Mais sorrio por o compatriota suavemente irónico com a tal chata “estrangeirada” ser negro. E como este pequeno desabafo afinal me mostra que isto está muito melhor do que alguns o pintam.

Meninos?


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Anteontem jantei no promontório que olha o Sado e avista o Tejo, num pequeno sítio que desconhecia, pois segunda-feira em vilória, mau dia para demandar casas de pasto. Ali uma espécie de absurdo a Sul do Tejo, pois alguém aprontou uma casa de “pastas”, uma italianice. Coisa que nunca tem sentido, quanto mais naquele universo rico em saberes de açordas. Refeição partilhada com alguém que mal conheço, estávamos na terceira pessoa e assim ficámos. Fomos frugais: uma entrada de moelas fornecidas de molho com sabor enfarinhado, uma salada de tomate sensaborão com queijo branco, dito fresco. E depois um esparguete partilhado, que o cardápio apresenta em nome estrangeiro. Beberam-se umas imperiais, tudo isso o suficiente para se matar a fome do fim da jorna.

 

Mas o pior de tudo foi o empregado, um rapazola nas cercanias dos trinta anos, com os ademanes concentrados no vozear. Diante de mim e do parceiro de mesa, um quarentão, calva a despontar, passou aquelas duas ou três horas a tratar-nos por “meninos”. À segunda imperial estava eu com vontade de lhe dar um par de tabefes, e não estava sozinho nisso. Sou liberal, que cada um faça com os genitais e os anais o que lhe apetece. Mas que vá ele trinar de “meninos” quem o sodomiza, “a falta que a tropa faz a estas gerações” escuto-me, nisso do desagrado com gente pateta que já não aprende a escala etária, aquilo da antiguidade. A mais-velha atrás do balcão estava simpática, como deve ser, presumi que ali algemada ao verme loquaz. Decerto que percebera o desadequado, pela forma como se veio despedir, apaziguadora.

 

Dois dias passaram. Hoje de novo tive a sorte de ser convidado a jantar. Com um amigo, não íntimo mas que se vem tornando próximo, ele recente sexagenário por direito próprio. Agora na capital, no velho CCA, diante do Santo António, uma esplanada de triste nome “Mula” mas com bom serviço e aprazíveis petiscos. Um jovem empregado muitíssimo eficiente e simpático – angolano, por cá há um ano… Perto do final, e depois do meu parceiro ter feito elegante alusão àquilo do meu cinzeiro já estar repleto, eu lançado no “pode-me trazer mais gelo, por favor”, surge-nos a chefe de sala, uma simpática e muito bem apessoada brasileira, perguntando-nos “o que desejam os meninos?”. Expludo! Para vera surpresa dela… “Não chame “meninos” aos homens”, convoco-lhe… E enquanto o mariola do meu parceiro lhe vai dizendo “eu não me importo”, defende-se ela argumentando “que aqui todos usam assim”. Resmungo-lhe, ainda que procurando ser simpático (ela é, de facto, e repito-me, bem apessoada e estava gentil), que esta é uma moda recente, estúpida, até de desrespeito, isto de chamar “meninos” aos homens. Ri-se, riposta que ao chamar-lhe eu “senhora” a estou a fazer mais velha do que é. Rendo-me, concedo-lhe que “quando cá voltar a Senhora pode chamar-me menino” (ela é, não sei se já o disse, bastante bem apessoada), “mas diga lá aos seus colegas para evitarem isso”.

 

Mas de onde virá esta moda, absolutamente patética, de chamar “meninos” aos clientes? Esta gente anda a brincar com quem?

No metropolitano


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Ontem, Estação de Metropolitano de Chelas, quase 23 horas. Comboio parado, luta de grupos – verdadeiramente multicultural. Tem ar de coisa avulsa, mera “zangadaria”, não aparentando ser confronto de grupos “orgânicos” (os sempre ditos “gangs”). Nada de tiros, felizmente, nem se vêm brandir naifas, pedras ou coisas do género. Mas muito mais a tradicional gritaria histérica. A passageira brasileira que me ladeia – talvez por me ver seráfico, ainda que amarfanhando o pobre livro de bolso – pergunta-me “é preciso esperar que chegue a polícia?” antes que retomemos o nosso rumo, pois “assim vou perder o autocarro das 11...”. Respondo-lhe, fleumático – já espreitei, notei a tal ausência de armas e a prevalência dos apenas símios gritadores, tendencialmente inofensivos – “não faço a mínima ideia, nunca vi uma coisa assim“. Crianças choram, mulheres praguejam, transumância entre carruagens, velhos caducos caducam. Um destes, que é da zona – di-lo pelo sotaque e, mais do que tudo, através dos trejeitos -, logo avança a bom som as suas explicações para o caso pois “há pretos“, olhado com algum espanto pelos circundantes ali retidos, entre os quais haverá um ou outro “branco” para além de mim e dele, e da brasileira (a qual talvez se reclamasse, lá no país dela, “parda” para ver se colheria alguns apoios estatais). Os dois sikhs estão calados, ainda que os turbantes lhes pendam um pouco.  Imensos brasileiros brasileiram, e como praguejam!, comprovando os seus “avôs transmontanos”, apesar de serem – se necessário – também “afrodescendentes”. Os chavalos de Chelas seguem a la Olivais, não se ficando atrás no esbracejar e no vernáculo, mas este sai-lhes sem o trinado arábico típico do nosso bairro. Não há dúvida, para além da Marechal Gomes da Costa o sotaque é diferente. A malta PALOP está calada e furiosa com estes atrasos a atrasar o descanso. E alguma olha-me, quero eu imaginar, com simpatia – haverá algo no meu semblante que dirá por onde andei? Ou será por ser o único dos dois velhos tugas brancos que ali não clama “há pretos”? Os funcionários estão excitados, cais acima, cais abaixo, armados de velhos Motorola, ou similares. Enfim, espera-se a polícia. Milhazes é citado com abundância. Uma das alas contendoras avança e dissemina-se na minha carruagem, continuando a gritar os impropérios que são rescaldo, catarse e ressaca. 

O comboio avança. Mais uma estação e chego ao destino. Estou, verdadeiramente, em casa. Na escada rolante um companheiro de viagem, talvez angolano, murmura-me, entreolhando-me, “filhos da puta!”. Sorrio-lhe, encolhendo os ombros. E não lhe digo o que penso: somos, de facto, aqui e agora, nós os dois, lusófonos!

Crepe


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Durante quase meio século sentei-me nesta esplanada olivalense, se, quando, por cá. Aqui bebi do Ucal de chocolate à (dulcíssima) amêndoa amarga, bicas, comi inúmeras tostas mistas, fumei charros, regressei para as melhores empadas de galinha da vida, e entretanto bebi alguns gins, magníficas imperiais, uísques bem servidos… Nisso sucederam-se incontáveis conversas, encantei-me com vizinhas e visitantes, ombreei com quem é ombreável – e até me zanguei com um ou outro. E em tudo isso, nestes todos anos, sempre fui o Zezé.

 

Após bastante tempo regresso hoje aqui para frugal jantar. Agora restaurante chinês, no qual sou um evidente Zé-ninguém. O decente crepe e a fresca Super Bock são-me trazidos por uma simpática (e bonita, se me permitem) empregada nepalesa, recém-chegada ao país. E neste meu recanto olivalense, onde cresci e agora degenero, com ela tenho de falar em inglês.

 

Peço uma segunda cerveja, e constato: a única coisa que mudou é que é uma sexta-feira nos Olivais e eu janto sozinho. De facto, todo o resto são pormenores…

O Preço do Azeite


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Na passada semana, durante um aprazível almoço, um bom amigo, homem avisado das coisas do mundo avisou “é melhor comprarem azeite, que ainda vai aumentar mais, e muito”, coisas da parca colheita. Atendendo ao estertor em que as minhas garrafas estavam – e ao Agosto mais culinário que me espera – fui agora à “grande superfície”, sempre Lidl, abastecer-me do frugal rancho que me cabe mas também de me reforçar do dito azeite. Daquele básico, baratucho, claro. Já não devia comprar há uns tempos, talvez desde Março ou assim, dadas as andanças que tenho tido. Fiquei estupefacto. Boquiaberto. Melhor dizendo, transido! Se não dobrou de preço para lá caminha….

 

Regressei de mãos a abanar. Na expectativa de ir aos rivais, em busca de uma qualquer “promoção” azeiteira, para poupar uns euros para o tabaco. Ou então, logo pensei, passarei a fazer os estrugidos com Queen Margot, que esse ao menos quase não encarece.

 

(Deixei este postal, mais pessoal, no Nenhures. Mas a simpática equipa do nosso anfitrião SAPO deu-lhe um agradável Destaque, nisso acalentando-me a trazê-lo também para o Delito…)

Leituras Dominicais


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Não sou um grande fan do estilo de João Pedro George. Exemplo desse meu desconforto é como recebi o seu recente, tão interessante e até etnográfico escalpar de António Mega Ferreira (que veio a morrer pouco depois), demonstrando as continuidades entre Estado Novo e esta (II/III ?) República, bem avessas à mitografia vigente, e tão demonstrativo das formas de apropriação dos recursos públicos pelas redes de agentes do aparelhismo. Mas o acinte palavroso do analista – que não é embrulho mas sim conteúdo – abespinha-me.

Enfim, no domingo vim do Minho até Lisboa de autocarro. Nisso terminei o pdf do sagaz e sábio Bayart “Os estudos póscoloniais: um carnaval académico“, uma resenha letal sobre a mediocridade dessa tralha “decolonial”, por cá alapada no “Público”, ”activismo”, academia esquerdista e “africanistas” da moda. Depois terminei esta colectânea de Joaquim Paço d’Arcos, escritor muito lido em meados de XX, livro que comprei em data incerta em banca de monos. Contos competentes mas nos quais não encontrei o indizível que procuro na ficção. Entretanto, já após o cigarro fumado na breve escala na estação de Fátima, li o texto de George no “Sol” sobre o romance da jornalista Anabela Mota Ribeiro (“A Questão do Cocó: Um Estudo de Caso“), livro que tem vindo a ser muito elogiado e no qual a autora elabora sobre as suas fezes e as estratégias que assumiu para defecar desde a mais tenra infância. A análise de George elucidou-me. Fez-me rir. E reconciliou-me com o seu estilo.

Nisto lá cheguei ao terminal rodoviário de Sete Rios. A caminho do metro encontrei uma banca de livros usados. Uma avantajada secção francófona – do “Pére Goriot” a Montherlant ou Julien Green… Tudo a 3 euros, cada. Ou 5 se emparelhados. Ou seja, para quê andar a comprar estas “novidades” sobre fezes?

(Deixado no Nenhures)

O fim de uma era: a morte do “Arcadas”


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Há tempos aqui falei do café do meu bairro, meu poiso durante décadas, desde petiz: o “Arcadas“. Então saudava a sua reabertura sob a antiga e prestigiada gerência. Mas foi curto o regresso à actividade, passados alguns meses os proprietários regressaram à merecida reforma, ao remanso dos seus “anos doirados”. Ficou encerrado o café, sito na loja do prédio, como tantos outros exemplos aconteceram nos Olivais, característica da urbanização daquela década de 1960s a induzir o pequeno comércio local. A clientela, envelhecida e cada vez mais esparsa, esperando um trespasse que mantivesse um mais ou menos “como sempre” na sua vida de vizinhança…

Os pequenos cafés e restaurantes (as tascas, casas de pasto, etc.) serão um modelo de negócio urbano algo condenado. Os hábitos de consumo mudaram, pelo envelhecimento da população – e em alguns nichos pelos devastadores efeitos na saúde física e mental que a pandemia de Covid-19 teve; pelas sucessivas crises económicas, a retrair hábitos tornados “despesistas”. Na redução da procura de alguns produtos típicos, a “bica” substituída pelas máquinas domésticas, o bitoque ou a tosta mista trocados pela entrega de fast-food (e não só) ao domicílio, a desnecessidade de ir comprar (ou ler) o jornal, dada a profusão televisiva e digital. E o convívio migrado para as redes sociais e os telefonemas tendencialmente gratuitos. Tudo sublinhado pela concentração de clientela causada pela construção de enormes “grandes superfícies” – patadas urbanísticas advindas na incultura estuporada do período cavaquista. Por outro lado, o pequeno negócio – quantas vezes familiar, concentrado em torno de um casal, coadjuvado pela prole ou parentela – deixou de ser um factor de mobilidade, social e geográfica, com mais atractivas hipóteses laborais para uma população já urbanizada, e que assim se escapa à sobrecarga horária que esta actividade implica. E está sobrecarregado de taxas e regulamentos, numa sociedade e economia estatistas, escorada numa fiscalização digitalizada implacável face às pequenas empresas, e que veicula uma ignara visão do que é higiene, consignando-a à utilização de “detergentes certificados” ou quejandos detalhes.

Enfim, tudo isso é o pano de fundo mas o libreto depende de cada lugar… Tenho andado longe do meu velho bairro. Nisso do convívio com os vizinhos olivalenses, entre os quais me restam um punhado de velhos amigos. Na expectativa de que o “Arcadas” reabrisse, pretexto para lá ir, rever gente, retomar conversas. Há dias um amigo enviou-me esta fotografia, sublinhando o fim de uma era. No final do beco ermo surge agora um restaurante chinês… Nada tenho contra imigrantes e imigrações – ainda que sempre me interrogue sobre a particularidade do modelo migratório chinês, mas isso é outra conversa. Nem contra a pluralidade de oferta gastronómica, em especial os já tradicionais “restaurantes chineses”, cuja disseminação por cá até terá sido pioneira – e sempre lembro as juvenis patuscadas num chinês barato na Duque de Loulé, desde as quais neles como sempre o mesmo (os eternos crepes, chop suey e porco doce, cardápio que presumo inexistente na própria China).

Mas, raisparta, ao ver (mais) um restaurante chinês alojado na loja do (meu) “Arcadas”, lá no fim do ermo beco, lembro-me do final de recente leitura, pois é exactamente assim que me sinto. O então afamado escritor e cronista Júlio César Machado foi viajar uns meses por Itália na década de 1860, lá palmilhou o Norte, conviveu com Milão, calcorreou Veneza – sob o pérfido domínio austríaco -, isto, dizia, numa época em que “os portugueses não viajam”. Dessas andanças deixou um livro interessante, “Do Chiado a Veneza”. E a narrativa dessas até aventuras termina assim, explicitando o que realmente importante retirava da sua passeata pela bela Itália, berço da nossa cultura, onde não podia sair à rua sem se deparar com o monumental legado de História e Arte:

Ao voltar porém daquela formosa Itália, que é a pátria das artes, da graça, da benevolência, do bem-estar e das doçuras da poesia, vim encontrar em Lisboa um grande acontecimento, que durante a minha ausência tivera lugar aqui:

Fechara o Marrare!…

Ora, devo dizer-lhes, Portugal é Lisboa, Lisboa é o Chiado, e o Chiado era o Marrare. O Marrare não era o primeiro nem o melhor botequim, era o único botequim. (…) Era a casa das noites e das manhãs: de tarde, ninguém; à hora em que nos outros botequins não havia mãos a medir para atender aos fregueses, que iam tomar café, a essa hora os fregueses do Marrare estavam a vestir-se para ir jantar. Mas pela noite adiante, que agitação, que vozearia, que teorias transcendentais acerca da arte, que discussões políticas, que dissertações com respeito à música (…)

Conquanto nos últimos anos houvesse perdido alguma coisa do esplendor antigo, e cada dia lhe fosse deixando um vácuo que o dia de amanhã não preenchia, o Marrare era ainda nos últimos tempos um dos lugares mais curiosos de Lisboa. Conservava-se ali a tradição; ali morava o Entrudo; vivia já de recordações, mas vivia; era um veterano a contar as campanhas!

Palavra de honra! Quando cheguei e vi no Marrare aquela loja de sapateiro que lá está agora, percebi que há uma cidade mais devastada ainda do que Veneza… é Lisboa!

(Júlio César Machado, Do Chiado a Veneza, Tinta da China, 217-218)

A greve da função pública


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Em pleno Cais do Sodré os meus intuitos ferroviários de aceder ao oeste são abalroados, surpreendido que sou pelos efeitos de uma greve da função pública a muito atrasar os comboios – numa sexta-feira “ponte”?, estes sindicalistas aburguesados não têm pingo de vergonha!

Pai assim pesaroso, recuo a Sul do Tejo. Mas antes tomo balanço, e já que aqui cruzo a praça até este British Bar. Ao qual não vinha há anos – julgo que ainda se fumava, mas de resto parece-me igual ao que sempre foi, aleluia – pois local que só frequentava com amigos de Maputo por cá passando, velha tradição de muitos que de lá vieram. Alguns deles já ausentes… Por isso peço uma imperial, que já passa do meio-dia. E ingurgito-a com o Kok Nam, com o Paulinho Gentil e também, já agora, com o Jorginho Ramos ainda que aqui nunca tenha estado com ele. E mais um ou dois, estes dos que ainda cá andam.

E por isto, por esta inesperada companhia, digo, e apesar de tudo, “joe, ainda bem que houve greve“. Pago, mais do que em Palmela ou nos Olivais. E ala, que se faz tarde…