Perdoem-me a imodéstia


Pedro Correia,

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Mas quase tudo já estava antecipado aqui:

 

15 de Novembro 2022:

«Isto está a degradar-se mais depressa do que parecia. Ei-los a descer a rampa, já em marcha acelerada.»

 

29 de Dezembro 2022:

«Um governo, paradoxalmente, em fim de ciclo quando as eleições legislativas foram apenas há onze meses.»

 

2 de Março 2023:

«A marca desta governação: poucochinha. Por isso a maioria absoluta adquirida há um ano já está em queda livre. Tem tudo para acabar mal. Mais cedo do que muitos previam.»

 

3 de Maio 2023:

«Marcelo Rebelo de Sousa não fará a vontade a António Costa: vai dissolver, sim, mas apenas no momento em que entender. Que será, não por coincidência, quando der menos jeito ao primeiro-ministro. (…) Costa pagará com juros a sua bravata de ontem, comportando-se perante os portugueses como se comesse Marcelo de cebolada a pretexto de segurar in extremis um dos ministros mais desacreditados do actual elenco, algo tão desproporcionado que soa a falso desde o primeiro minuto. Entrámos numa nova etapa, nada edificante: um dos piores conflitos institucionais de que há memória entre um Governo e um Presidente – logo este, que durante cinco anos quase levou o Executivo ao colo. Episódio digno de figurar em qualquer antologia da ingratidão. De Gaulle dizia que o poder usa-se, não se delega. Mas Costa é fraco aprendiz do velho general: a bravata irá sair-lhe cara. Mais cedo do que pensa.»

 

18 de Maio 2023:

«Isto já não é um governo: é uma opera buffa. Com final anunciado.»

O que é que o país não dirá?


Paulo Sousa,

António Costa demitiu-se e atrás de si deixou números record de portugueses sem médico de família assim como de utentes em lista de espera para consultas médicas. A imensa lista para cirurgias vai diminuindo numa relação directa com os falecimentos, que, podemos imaginar, ocorrem mais cedo pela falta destas. Segundo membros do seu governo, o mês de Novembro, aquele em que se demitiu terá sido o pior mês da história do SNS. O ainda PM em gestão deixou também atrás de si os profissionais de saúde em pé de guerra e o mesmo aplica-se aos profissionais de educação. No ensino, e além desta fricção profissional, todos os indicadores internacionais apontam para uma regressão significativa nos níveis de aprendizagem dos alunos portugueses. Este é também o resultado das políticas de educação que teve a oportunidade de colocar no terreno nos últimos oito anos.

Uma gravíssima falta de habitações disponíveis é outra das heranças que António Costa deixa e que demorará anos a ultrapassar.

Tudo isto, e bastante mais, que por fadiga minha não aqui transcrevo, ocorre neste fim de ano em que já se aprovou o orçamento com a maior carga fiscal de sempre. Em 2024, passarão pelos cofres do estado 36,4% da riqueza criada no país. Todos os serviços públicos queixam-se de falta de pessoal, quando ao mesmo tempo sabemos que o número de funcionários públicos atingiu em 2022 a cifra de 742.355 e no ano corrente serão ainda mais. A dívida pública, que ao contrário do que o marketing socialista repete nunca baixou, andará pelos 276 mil milhões de euros.

Além desta regressão objectiva e generalizada, a forma como o PS tem governado levou a um acentuado enfraquecimento das instituições. Os ataques à independência da justiça têm ocorrido de forma inédita e com especial desespero desde que a PSP encontrou 75.800 euros em dinheiro no gabinete contíguo ao do chefe do governo.

Ao longo destes oito longos anos que António Costa apascentou o país, disse muita coisa. Uma vez disse, e isso explicará a colossal dimensão que o Estado atingiu, assim como os tão insatisfatórios resultados, que se arrepiava com a expressão “Reformas Estruturais”. Chegamos onde chegámos graças à ideia cavalgada pelo PS de que tudo pode ficar na mesma. O mundo muda a cada minuto, os desafios são de uma complexidade crescente, mas “eles” prometeram que nenhum privilégio seria interrompido, tudo ficaria na mesma. Não há impossíveis que um mentiroso não consiga prometer e o “sucesso” de António Costa é exemplo disto.

Outro dos tristes legados destes oitos anos de governação socialista é o peso político de André Ventura. O grande sucesso do PS em alcançar o seu grande propósito (manter-se no poder a qualquer custo) segue em paralelo com o grande vigor do Chega. Os chafurdos avançam de mãos dadas. Já aqui falei sobre isso.

Não vou para aqui trazer o “não me faça rir” dos incêndios de 2017, nem a nacionalização e privatização da TAP, nem especular sobre quantos milhões os portugueses vão ser chamados a indemnizar Christine Ourmières-Widener, mas fico-me apenas com as sobras da entrevista de anteontem de António Costa à TVI. Perante todo o descalabro à frente dos nossos olhos, diz então o senhor: “Estou magoado.”

Já cheira a campanha eleitoral


Pedro Correia,

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Foto: António Pedro Santos / Lusa

Se os meus princípios não vos agradam, arranjo já outros. Esta boutade de Groucho Marx aplica-se na perfeição ao ainda primeiro-ministro e ao ainda ministro das Finanças, ex-presumível candidato à sua sucessão.

Naquele tom de quem se habituou durante oito anos a desprezar a oposição, insuflado de maioria absoluta, António Costa assegurava a 30 de Outubro, no debate do Orçamento do Estado, que o anunciado aumento do IUC (imposto único de circulação) para três milhões de automóveis e meio milhão de motociciclos com matrículas anteriores a 2007 era mesmo para manter. Em nome da protecção do ambiente. Apesar de haver então uma petição já com cerca de 400 mil assinaturas para abortar a medida, que afectava os cidadãos com menos rendimentos.

«A oposição quer assustar os portugueses. Desta vez anunciando aumentos estratosféricos – em alguns casos de cerca de 1000% do IUC. Daqui a um ano, mais uma vez, se saberá quem fala verdade e quem só quer assustar os portugueses», declarou Costa. Nem pensar, portanto, em deixar cair este novo imposto socialista.

Também Fernando Medina, inabalável, garantiu que a medida era para manter. «Os carros anteriores a 2007 beneficiam hoje de uma tributação anual que é, em média, um quarto das viaturas mais recentes, sendo que as viaturas mais recentes são as menos poluentes. Trata-se de uma situação injusta», disse o titular das Finanças a 17 de Outubro, no final de uma reunião no Conselho Europeu dos Assuntos Económicos e Financeiros. Sempre com alegadas preocupações ambientais.

A alma ecologista de Costa e Medina era afinal muito frágil. Mal a crise política estalou, a 7 de Novembro, os belos princípios foram à vida. E logo o grupo parlamentar do PS, certamente obedecendo à mesma voz de comando que antes forçara os deputados a defender tão indefensável medida, se apressou a dar o dito por não dito. O agravamento do IUC caiu nesta versão final prestes a ser votada na Assembleia da República. Ao contrário do que prometeu Costa, daqui a um ano será impossível saber «quem fala verdade e quem só quer assustar os portugueses».

O IUC assustou os deputados socialistas. Por fazer perder votos.

Entre as 99 propostas de alteração (!) entregues no último dia do prazo, quando o Chefe do Estado já anunciara legislativas antecipadas para 10 de Março, a bancada rosa emendou o competentíssimo orçamento de Medina, afinal muito menos competente do que parecia. Não só nisto, mas em várias outras matérias: aumento do limite da dedução à colecta de IRS dos valores das rendas de casa (de 502 para 600 euros), autorização do abate no IRS da despesa com empregadas domésticas; moratória nos juros para os créditos bancários das empresas. Etc, etc.

Repito, por extenso: noventa e nove emendas. Já cheira a campanha eleitoral.

Os amigos de Alex


Dâmaso Salcede,

Foi-me impossível ouvir o comício de ontem de António Costa sem recordar o texto que João Gonçalves publicou na terça-feira, um par de horas antes de Costa anunciar a sua demissão:

«Apresentar a ou b como “melhor amigo” de António Costa é uma contradição nos termos. Costa não tem amigos, “melhores” ou “piores”. Tem, e deixa de ter, pessoas que servem objectivos. Uma vez alcançado, ou não, o objectivo é cada um por si e Costa por Costa.»

“O modo português de ser socialista”


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Nos governos de Sócrates houve uma constante defesa daquele líder, independentemente do que era tão óbvio. Nisso se afadigaram militantes do PS, e basta recordar as maiorias “albanesas” que Sócrates obtinha nos congressos do partido. E também os simpatizantes foram “activistas” produtores da nuvem de fumo que pretendia esconder a malandragem governativa. E não seria necessário recordar esse período não fosse ter vária dessa gente transitado para os governos de Costa, como Fernando Medina ou Augusto Santos Silva – esse que agora vai ao Conselho de Estado afirmar que é necessário “pôr em ordem o Ministério Público”, e que foi o único governante socialista que gozou a população por causa do escândalo do socratismo, ao dizer-se “parolo” por não ter percebido o detalhe do seu homónimo e alegado “financiador” do neto do volframista, nisso tanto demonstrando o seu desplante avesso à democratização do país. Ou recompensados com tenças em Estrasburgo/Bruxelas, como o braço-direito Silva Pereira, ou Marques e Leitão Marques. E também muitos desses militantes e ou simpatizantes, então, pois mais jovens, apenas frenéticos publicistas do socratismo, ascenderam ao governo, como o célebre Galamba ou o agora mui mudo Adão e Silva.

Tendo regressado ao poder, após o hiato da gestão da quase catastrófica crise financeira global, o PS de Costa tentou barrar o processo ao socratismo. E o afastamento de Marques Vidal da PGR foi o caso mais sonante, no fundo uma manobra desse desejado “pôr em ordem o Ministério Público”, para além de todas as manobras de controlo da comunicação social – e será de lembrar que chegaram ao ponto de nomear como responsável da informação do serviço público uma prima de Costa, que se viu obrigada a demitir-se tais práticas teve nesse posto. Depois, tão insuportável era o conúbio com a imagem de Sócrates que o PS decidiu dele se apartar, deitar borda fora aquele lastro para resistir à tormenta: o ardil foi simples, em dias consecutivos num final de semana, o presidente do partido Carlos  César, a célebre Câncio, renomada publicista socratista, e Galamba, então mero deputado e criatura de Sócrates, vieram demarcar-se publicamente do ex-primeiro-ministro.

Assim enviado o fedorento cadáver político às revoltas águas da Ericeira o PS de Costa seguiu livre no poder. Entre inúmeros – e tantos deles patéticos – “casos e casinhos” a pax costista estabeleceu-se. Primeiro com o apoio dos partidos comunistas, seduzidos por algumas prebendas redistribrutivas para as suas bases e clientelas. E depois sozinhos, por quatro anos, que nos habituássemos nós. Grosso modo, as pessoas eram as mesmas, as práticas são as mesmas, as diferenças virão apenas dos trejeitos individuais.

Na passada semana “o modo português de ser socialista”, para glosar Gilberto Freyre, sofreu um KO técnico. Ontem, António Costa reergueu-se e veio ao ringue apresentar a “narrativa” que o PS procurará apresentar aos seus fiéis e restantes adeptos, temerosos do que a malvada “direita” lhes fará. No fundo Costa apresentou-se como epígono de Isaltino de Morais, num trinado um pouco diferente: “temos dinheiro nos gabinetes mas fazemos“.

Caberá aos jornalistas, a politólogos ou mesmo a historiadores da contemporaneidade o elencar com detalhe a miríade de “casos e casinhos”, e suas articulações, destes oito anos. Para a sua compreensão será muito produtivo associá-los ao acontecido nos governos do anterior primeiro-ministro socialista. E, para uma visão mais “antropológica” – mais estrutural, por assim dizer – julgo que será relevante fazer recuar esta análise ao historial da administração socialista de Macau, molde que foi do modus faciendi das posteriores gerações de políticos daquele  partido. Cujos últimos restantes agora (definitivamente?) colapsam.

Trata-se de um partido de gentes que já há mais de vinte anos estavam incapazes de rebelarem contra os presidentes Soares abraçado ao fugitivo Craxi, ou Sampaio abraçado a Abílio Curto, sempre em nome de uma tal de “amizade”. Ou seja, o que hoje se passa não é um momento, é sim fruto de uma mundividência colectiva, predominante naquele partido. Sendo assim, o PS não se regenerará, sofre de necrose política. Estuporado diante da visão de Madrid é incapaz de sopesar, e nisso actuar sobre si mesmo, o que aconteceu aos seus congéneres de França, Grécia, Itália… Pois o problema não é “Costa”, é tudo aquilo. E, para mal dos nossos muitos pecados, diante de toda esta decadência temos o pior presidente da República do nosso regime, o mais incompetente pois o mais ininteligente, uma total inadequação sobre a qual me repito desde há muitos anos. É assim necessário sublinhar isto: estamos muito mal entregues. Pois assim o votámos.

Entre a incessante série de comentários recebidos sobre a actual situação escolho divulgar estes três. Porque dizem tudo o que é básico sobre a torpe “narrativa” que António Costa quer legar ao seu partido. 

 

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Perdoa-me


Dâmaso Salcede,

perdoa-me genérico

“Fomos surpreendidos esta semana por um processo judicial com suspeitas muito graves. Não posso deixar de partilhar que a apreensão de envelopes com dinheiro no gabinete de uma pessoa que escolhi trabalhar, envergonha-me e peço desculpa aos portugueses”. António Costa, hoje.

 

Adenda: eu, cínico, reparo que Costa disse estar envergonhado com a apreensão dos envelopes no gabinete, não com a existência dos envelopes no gabinete.

Deixem o parágrafo em paz


Paulo Sousa,

Sempre que o PS é apertado pela justiça, procura desesperadamente um gancho para se pendurar. Importa sempre haver uma desculpa, uma justificação.

No caso fax de Macau, a imberbidade do regime não permitiu que tudo não passasse de um sobressalto aborrecido. Mas o século mudou e a justiça achou que conseguiria dobrar outros bojadores. Terá sido um sonho molhado, partilhado pelo país que queria os políticos investigados, mas como a arquitectura e o funcionamento da justiça acabam por depender do poder executivo, nunca conseguimos, ou ainda não conseguimos, passar do tal sonho adolescente para uma relação madura de gente que, sabedora das naturais limitações humanas aceita sujeitar-se a uma justiça funcional.

O caso Casa Pia foi explicado como sendo uma cabala, o caso Sócrates como uma urdidura. Desta vez, os responsáveis do PS, mais ou menos próximos do epicentro da coisa, não “deslargam” o “último parágrafo do comunicado da PGR”. O círculo próximo de António Costa não vacila em ameaçar o Ministério Público. Pedro Marques Lopes, o spin contratado por Costa para maquilhar a imagem do governo após a longa sucessão de casos e casinhos, fala mesmo num “golpe de estado institucional”. Como é que se atrevem a uma afronta destas aos donos do regime? Essa é mesmo a imagem que passam.

A distracção conseguida pelos extensos debates sobre o facto de Sócrates ter sido detido numa manga do aeroporto, não no aeroporto, nem no avião, mas numa manga, andará desta vez à volta do referido parágrafo. Por isso, sugiro um exercício de faz de conta. Vamos lá retirar o dito parágrafo da nota da PGR para a comunicação social. Será que todas as suspeitas que levaram à detenção do seu amigo Lacerda Machado, do seu chefe de gabinete Escária, de Galamba, o ministro a quem Costa se encordou, das buscas da polícia nos gabinetes do Palácio de São Bento, dos sacos de dinheiro ali encontrados… será que isso não seria suficiente para que António Costa ficasse irremediavelmente inquinado? Não se armem em Calimeros, poupem-nos a essa triste figura e deixem o parágrafo em paz.

O diabo chegou mesmo: está já aí


Pedro Correia,

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João Galamba e António Costa: cumplicidade muito para além das conveniências políticas

Foto: António Cotrim / Lusa

 

Durante anos, com ar de gozo, António Costa foi fazendo graçolas sem nível com uma frase apócrifa atribuída a Passos Coelho dizendo que afinal «o diabo não chegou».

Falou de mais, falou cedo de mais

O diabo chegou mesmo.

Para ele, que está a ser notícia em toda a Europa pelos piores motivos.

Para o malogrado governo da maioria absoluta, que durou menos de dois anos e ficará na história política deste período como um dos piores de sempre – basta incluir o Galamba para merecer tão pouco invejável título. 

E para Portugal, claro. Como as estatísticas comprovam. Oito anos depois, Costa abandona o Governo deixando o País com a maior carga fiscal de sempre (36,4% do PIB), a maior dívida de sempre (282 mil milhões de euros), o maior número de compatriotas sem médico de família (1,7 milhões), o pior mês da história do Serviço Nacional de Saúde (este em que agora vivemos, segundo declarou o insuspeito director executivo do SNS), 583 mil utentes em lista de espera para consultas, 253 mil inscritos em lista de espera para cirurgias, 32% dos pacientes atendidos para lá do tempo recomendado, 43,3% de portugueses em risco de pobreza antes de transferências sociais. E o mais que se verá.

O diabo anda aí à solta, António. Como agora até tu experimentas na pele. Lamento imenso, mas estavas mesmo a pedi-las.

Costa


José Meireles Graça,

O homem foi de vela e deixa uma herança pesada: o país foi ultrapassado ao cabo de 7 anos (entre 2016 e 2022), no PIB por cabeça em paridades de poder de compra, pela Estónia, Lituânia, Hungria e Polónia; e ainda não tinha sido, mas está a caminho de o ser, pela Bulgária, Croácia, Letónia e Roménia (suponho que esta já em 2023). E aumentou ainda mais a sua distância da Bélgica, Chéquia, Dinamarca, Alemanha, Irlanda, França, Itália, Chipre, Luxemburgo, Malta, Holanda, Áustria, Eslovénia, Finlândia, Suécia, Islândia e Noruega.

O desempenho de Portugal apenas superou o da Grécia, Espanha, Eslováquia e Reino Unido (este já caído fora do baralho).

Isto significa que o argumento segundo o qual os países do Leste cresceram mais porque beneficiaram dos anos iniciais da adesão, como a nós sucedeu a partir de 1986, vale quase nada. E se nos lembrarmos que a Europa cresce, ela própria, menos do que o resto do mundo, então percebe-se que vamos para a última carruagem de um comboio em perda de velocidade. E, com a União e a sua cornucópia de milhões ou sem ela, o velho trauma do atraso relativo, que nos acompanha há cerca de 200 anos (com interregnos de 60 a 73 e no consulado cavaquista) está para durar.

Só isto, que já não é pouco? Não. Nada foi feito para combater o inverno demográfico; a juventude, que já é escassa, dá à sola para pastagens mais verdes porque a Educação formou-os às resmas para uma economia que não oferece oportunidades; o Estado engordou, como a carga fiscal, que já é sufocante; o SNS, a grande conquista socialista de Abril, conseguiu induzir um sector privado pujante para tapar os buracos do público em colapso (o capitalismo é terrível: um mínimo de liberdade económica e mete-se em todos os interstícios. Se queriam um SNS absolutamente público deveriam ter tido o cuidado preventivo de fazer um regime cubano); a Justiça é uma anedota triste; e vai por todo o lado um grande mal-estar – casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão.

Há quem tenha razão, claro, mas o eleitorado não a vê porque, de mil maneiras, o regime ligou todo o progresso ao Estado e à União, decapitou o grande capitalismo nacional e nunca o deixou renascer, e transformou a vida das pessoas e das empresas numa camisa de forças tão apertada que qualquer reforma fere interesses, a maior parte dos quais legítimos.

Que se dane a teoria de que as elites não prestam: vivemos numa democracia imperfeita, como são todas, mas com razoável liberdade de expressão, eleições limpas e nos prazos, e funcionamento razoável das instituições políticas. O que está é o que o povo quer que esteja. E mesmo que só metade, ou pouco mais, do eleitorado, se dê ao trabalho de votar, os que ficam em casa fazem-no voluntariamente, e portanto delegam.

Costa entra aqui: ganhou com uma cabriola política o seu primeiro mandato e o eleitorado coonestou a habilidade dando-lhe uma maioria absoluta (como a Sócrates) na eleição seguinte; e no processo destruiu, para pagar o preço do apoio da comunistada antiga e da moderninha, qualquer hipótese de modernização séria, após o que largou os antigos aliados no mato. E estava para lavar e durar até ontem. O diabo foi o ver-se envolvido, caído das nuvens, num processo-crime que não lhe deixou outra saída senão demitir-se.

Que fique claro: ao contrário de boa gente bem-pensante, não creio na inocência do homem nem acredito que fosse apenas uma singular incapacidade de avaliar pessoas o que o levou a rodear-se de personagens pouco recomendáveis. Mas não sou nem juiz, nem magistrado do MP, nem justicialista, nem tenho indevido respeito pela opinião pública, lesta a endeusar nulidades, que compensa amarrando os poderosos ao pelourinho quando estes caem abaixo do cavalo. E pelo contrário entendo que num Estado de Direito, não estando ninguém acima da lei, também o Ministério Público não deve gozar de poderes insindicados. Não digo pelo Governo, porque senão teríamos a raposa de guarda ao galinheiro, mas por algo mais do que a roda livre.

Sucede que Sócrates esteve preso sem culpa formada (a partir de fins de 2014), para ser investigado sem interferência, e não foi julgado até hoje. O alegado entrave de sucessivos recursos e expedientes dilatórios, e a falta de meios, é sobretudo um cansado mantra de magistrados para justificar a sua prodigiosa ineficácia.

Talvez devesse este precedente (e a existência de políticos inocentes com a vida escavada pelo Ministério Público, como Miguel Macedo) recomendar prudência. Sócrates já não era PM, mas este é. E que um político no activo, eleito e reeleito, seja obrigado a demitir-se por ser objecto de uma acusação gravíssima (formalmente não há acusação mas é mencionado no comunicado do MP, o que só se compreende se este achar que é conivente) só é justificável por haver indícios que constituam um sólido edifício acusatório. E NÃO se justifica se for agora que se começam a recolher provas pelo sistema de rede de arrasto.

A minha opinião sobre a culpabilidade, expressa acima, é apenas isso – uma opinião à qual, como cidadão e eleitor, tenho direito. Mas o meu poder exerci-o não votando em Costa nem comprando a sua propaganda ou a da imensa turba acéfala que o rodeia; o do Ministério Público, porque acusa e propõe detenções, precisa de provar sem margem para dúvidas, e em tempo útil. Que neste caso não deve exceder uns três ou quatro meses, e já é muito.

Porque a majestade da Justiça existe não em nome dos magistrados (para mais apenas ancilares do tribunal, como os do Ministério Público) mas do Povo. O mesmo que elegeu Costa.

É provável que a minha seita (a dos conservadores e liberais, muitos dos quais podem ser, e são, designados pela esquerda demente, com perdão da redundância, por fascistas), não aprecie a veemência. É que, ao contrário do que dizem os reformados nas conversas que lhes ouço no café, não acho que seja bem feita, que os de cima não são mais do que os outros, e pelo contrário entendo que se se trata assim um PM, como não se tratará um pobre diabo que ninguém conhece?

Recordar Seguro


Dâmaso Salcede,

É bom, nestes tempos interessantes que vivemos, recordar António José Seguro. Em 2014, dizia ele numa entrevista: “O PS associado aos negócios e interesses é apoiante de António Costa”. A isto, o nada augusto César dos Açores, mandatário de Costa, respondeu com a sua habitual elegância ser “uma entrevista de uma pessoa que acha que adquire milagrosamente autoridade e crédito na proporção apenas da insinuação difamatória e do efeito de ruído que produz”. E quem foi que acusou Seguro de fazer declarações que tinham “como único objectivo emporcalhar o espaço público”? Espantemo-nos: Galamba.

Uma triste história resumida em seis episódios


Paulo Sousa,

35 horas sem custos, diz ministro das Finanças
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Regresso às 35 horas não significou aumento de despesas com pessoal
1 fev 2017

Custo das 35 horas na Saúde sempre esteve previsto
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Desde que sou primeiro-ministro, o orçamento do SNS já subiu mais de 40%
10 set 2022

Se nada se alterar, Novembro vai ser o pior mês de sempre nestes 44 anos de SNS.
24 out 2023

Há 38 hospitais com cerca de 90% dos serviços indisponíveis
1 nov 2023

A que ponto isto deverá chegar para que o país acorde?

Como baixar o risco de pobreza em Portugal


Paulo Sousa,

“Durante a semana soubemos que a taxa de risco de pobreza baixou em Portugal. Mas desta vez Portugal foi o único país da União Europeia que baixou o rendimento mediano de 2021 para 2022. Sendo a taxa de risco de pobreza igual à percentagem de pessoas que estão abaixo de 60% do valor da mediana do rendimento, então, se baixarmos a mediana mantendo o nível dos mais pobres, isto é, num movimento absolutamente inédito, baixamos o número relativo de pobres porque somos homogeneamente mais pobres. Que orgulho.”

João Duque, Expresso