Pintores sem prazo de validade


Pedro Correia,

David_Hockney-Garrowby Hill_1.JPG

Garrowby Hill, de David Hockney (1998) 

 

«Leva muito tempo tornarmo-nos jovens.»

Picasso

 

Sempre me questionei sobre o motivo da longevidade dos pintores, muito superior à de escritores e músicos, e apenas equiparável à dos arquitectos. A chave dessa incógnita pode estar na frase de Picasso que cito em epígrafe: o pintor tem uma relação única não só com o espaço mas também com o tempo.

Aí estão, para demonstrar esta tese, Judith Lauand (que morreu aos 100 anos), Cruzeiro Seixas (99 anos), Georgia O’Keeffe (98 anos), Albert Bertelsen (98 anos), João Abel Manta (98 anos), Marc Chagall (97 anos), Maria Keil (97 anos), Manuel Cargaleiro (97 anos), Arnulf Rainer (96 anos), Oskar Kokoschka (94 anos), Abel Manta (93 anos), Júlio Resende (93 anos), Nadir Afonso (93 anos), Frank Auerbach (93 anos), Alfredo Volpi (92 anos), Willem de Kooning (92 anos), Leon Kossoff (92 anos), Júlio Pomar (92 anos), Ticiano (91 anos), Kees van Dongen (91 anos), Pablo Picasso (91 anos), Andrew Wyeth (91 anos), Georges Mathieu (91 anos), Fernando Botero (91 anos), Joan Miró (90 anos), Victor Vasarely (90 anos), Giorgio de Chirico (90 anos), Querubim Lapa (90 anos), Victor Pasmore (89 anos), Robert Indiana (89 anos), Nikias Skapinakis (89 anos), Miguel Ângelo (88 anos), Emil Nolde (88 anos), Dórdio Gomes (88 anos), Lucian Freud (88 anos), Fernando Lanhas (88 anos), Antoni Tàpies (88 anos), Árpád Szenes (87 anos), Henrique Medina (87 anos), Emilio Vedova (87 anos), Frans Hals (86 anos), Jean-Auguste Ingres (86 anos), Claude Monet (86 anos), Tarsila do Amaral (86 anos), Carybé (86 anos), Carlos Calvet (86 anos), Max Ernst (85 anos), Eduardo Viana (85 anos), Henri Matisse (84 anos), Edward Hopper (84 anos), Norman Rockwell (84 anos), Sarah Afonso (84 anos), Salvador Dalí (84 anos), Thomaz de Mello (84 anos), Edgar Degas (83 anos), Jean Dubuffet (83 anos), Jean Hélion (83 anos), Maria Helena Vieira da Silva (83 anos), Francesco Albani (82 anos), Francisco de Goya (82 anos), Carlos Botelho (82 anos), Francis Bacon (82 anos), George Stubbs (81 anos), Benjamin West (81 anos), Veloso Salgado (81 anos), Georges Braque (81 anos), Marcel Duchamp (81 anos), Júlio Reis Pereira (81 anos), Rolando Sá Nogueira (81 anos), Donatello (80 anos), Francesco Guardi (80 anos), Jean-Baptiste Chardin (80 anos), Edvard Munch (80 anos), Roman Opalka (80 anos), Pierre Bonnard (79 anos), Jean-Baptiste Corot (78 anos), Pierre-Auguste Renoir (78 anos), Wassily Kadinsky (78 anos), José Malhoa (78 anos), Jacques-Louis David (77 anos) e Almada Negreiros (77 anos).

Ou, entre os vivos, Jasper Johns (96 anos) e Jorge Pinheiro (94 anos).

 

Lembrei-me disto ao saber que o grande David Hockney se despediu de nós a 11 de Junho, com 88 anos, para cruzar a noite rumo à eternidade. Também ele demorou a tornar-se jovem.

Ei-lo imune enfim à erosão do tempo. Com a idade exacta da sua arte.

Borges: maior depois da morte


Pedro Correia,

boirges.jpeg

É possível fazer a lista dos cem melhores livros de todos os tempos? Parece que sim. Mesmo que se trate de uma lista como esta, que resultou de uma parceria entre Le Monde e a FNAC, o que talvez justifique a aparição do Astérix cinco lugares acima do Ulisses, de Joyce.

É possível fazer a lista das cem melhores frases iniciais de livros? Parece que sim: esta, por exemplo, da American Book Review. Que não esquece, entre outras, o inesquecível arranque d’ O Estrangeiro, de Camus: «Aujourd’hui, maman est morte. Ou peut-être hier, je ne sais pas. J’ai reçu un télégramme de l’asile: Mère décédée. Enterrement demain. Sentiments distingués. Cela ne veut rien dire. C’était peut-être hier.» Ou o insuperável começo d’ A História de Duas Cidades, de Charles Dickens: «It was the best of times, it was the worst of times, it was the age of wisdom, it was the age of foolishness, it was the epoch of belief, it was the epoch of incredulity, it was the season of Light, it was the season of Darkness, it was the spring of hope, it was the winter of despair.» Ou a célebre frase inicial d’ O Grande Gatsby, de Scott Fitzgerald: «In my younger and more vulnerable years my father gave me some advice that I’ve been turning over in my mind ever since.» Já para não falar do início da Lolita, de Vladimir Nabokov: «Lolita, luz da minha vida, fogo da minha virilidade, meu pecado, minha alma.» Ou do modo como Tolstoi começou a escrever a sua imortal Anna Karenina: «As famílias felizes são todas parecidas, mas cada família infeliz vive a infelicidade à sua própria maneira.»

 

aleph.jpeg

Sem dúvida um dos melhores começos é o dos Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez: «Muchos años después, frente al pelotón de fusilamiento, el coronel Aureliano Buendía había de recordar aquella tarde remota en que su padre lo llevó a conocer el hielo.» Mas sinto-me levado a concordar com Jorge Fernández Díaz, que escreve no diário argentino La Nación: o parágrafo inicial d’ O Aleph, de Jorge Luis Borges, fica-nos na memória para sempre: «La candente mañana de febrero en que Beatriz Viterbo murió, después de una imperiosa agonía que no se rebajó un solo instante ni al sentimentalismo ni al miedo, noté que las carteleras de fierro de Plaza Constitución habían renovado no sé que aviso de cigarrillos rubios; el hecho me dolió, pues comprendí que el incesante y vasto universo ya se apartaba de ella y que ese cambio era el primero de una serie infinita.» Verdadeiramente excepcional.

O autor de Ficciones morreu há 40 anos. Mas «Borges se agranda después de Borges», como justamente titulava o El País já em 2011. De quantos outros autores seus contemporâneos se pode hoje dizer o mesmo?

Dezassete anos de obituários no DELITO (6)


Pedro Correia,

                      Shirley-temple-ca-1936-everett.webp Sidney.jpg

                       Havel.jpg VGM.webp

 

Pedro Rolo Duarte (1964-2017). «Ao contrário do que é mau costume entre nós, nunca lhe faltou capacidade de admiração. Lançou e promoveu vários jornalistas, com uma generosidade rara, e não se deixava contaminar pelo vírus da inveja: nisto, e se calhar só mesmo nisto, parecia pouco português.»

 

Peter Bogdanovich (1939-2022). «Chegou a ser um dos meus realizadores favoritos. Por filmes como A Última Sessão (1971) e Lua de Papel (1973). Pertencia à geração de George Lucas, Martin Scorsese e Francis Ford Coppola, que sacudiu a poeira acumulada nos velhos estúdios da Califórnia, refrescando e revitalizando o cinema.»

 

Pôncio Monteiro (1940-2010). «Nada artificial, nada postiço. Dizia o que realmente sentia e o que realmente pensava, com o coração ao pé da boca, sem nunca deixar de ser um gentleman. Há poucos como ele: basta reparar noutros comentadores de futebol, noutros canais, para se perceber a diferença. Até por isso, o vazio que deixa será mais difícil de preencher.»

 

Quino (1932-2020). «O argentino Joaquín Salvador Lavado Tejón (imortalizado com o nome artístico Quino, diminutivo que era aumentativo) não conseguiria hoje encontrar espaço para publicar as suas vinhetas. Muito menos de exportá-las para o mundo inteiro, como sucedeu com a Mafalda. Basta ver o que acontece cá: a banda desenhada desapareceu dos jornais.»

 

Riccardo Ehrman (1929-2021). «Trocou em 1991 Berlim por Madrid, onde chefiou a delegação da agência até se aposentar e ali se radicou até ao fim da vida. Certamente orgulhoso de ter cumprido a sua obrigação profissional naquele dia inesquecível. Assumindo o único verdadeiro poder de um jornalista: o de fazer perguntas. Esqueçam as tretas do “quarto poder”: não existe nenhum outro.»

 

Rubem Fonseca (1925-2020). «Não era um teórico, não perdia tempo com divagações a pretexto da escrita, fugia dos festivais literários, vivia há longos anos como recluso no seu apartamento do Leblon, quase não concedia entrevistas (…). O marketing hoje associado à função de escritor passava-lhe ao lado. Imortal pelo dom da palavra: eis a recompensa que o destino reserva às grandes vocações literárias, a troco dos novos mundos que desvendam e nos transmitem por legado.» 

 

Santiago Carrillo (1915-2012). «Desaparece no momento em que nacionalistas radicais e extremistas de esquerda vociferam contra a lei fundamental e o espírito de conciliação que caracterizou as últimas décadas da política espanhola. Com isso, procuram destruir o admirável legado de lucidez e tolerância que Santiago Carrillo soube legar aos seus compatriotas. Consciente de que as fogueiras do passado podem sempre regressar, lançando cinzas irreversíveis sobre a Espanha do futuro.»

 

Sebastião Fernandes (1947-2018). «Manteve-se no seu posto gastronómico até ao fim – embaixador informal da bela Goa em Lisboa. Terras irmãs – unidas pela história, pela língua, por crenças e costumes. Unidas pela gastronomia, com tantas influências mútuas. Séculos antes de ter sido popularizada a palavra globalização.»

 

Shirley Temple (1928-2014). «Regressei por momentos àquela sala, àquele pesado televisor Blaupunkt de válvulas, àquelas imagens a preto e branco, à companhia da minha mãe outra vez muito jovem ensinando-me a gostar de cinema enquanto me explicava sem explicar que um filme é sempre mais que um filme. Ao ver a Shirley-menina, também ela voltava à meninice. E neste momento em que escrevo o miúdo sou eu só por disso me lembrar também.»

 

Sidney Poitier (1927-2022). «Pioneiro ao quebrar as barreiras raciais numa América ainda segregada. Primeiro actor negro a receber o Óscar para melhor intérprete masculino em Hollywood – por Lírios do Campo, em 1963. Só 40 anos depois houve outro a conseguir o mesmo: Denzel Washington, galardoado pela sua actuação em Dia de Treino

 

Sócrates (1954-2011). «Um dos jogadores mais influentes dessa selecção declarou, em jeito de remate: “A coisa mais gostosa era jogar ali, era uma delícia.” Palavras de um homem que encarava o futebol como arte e não como indústria. Era um verdadeiro desportista: Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira, agora falecido aos 57 anos. Um dos meus heróis não volta a jogar.»

 

Tom Moore (1920-2021). «Mesmo frágil, mesmo muito idoso, mesmo caminhando com manifesta dificuldade, este veterano da II Guerra Mundial soube ser um homem inteiro até ao fim. Combatendo o coronavírus como pôde. Fazendo muito mais do que quase todos – sem lamentos, sem lamúrias, sem choraminguices. Sem o menor vestígio de ódio. Dando-nos a todos uma vibrante lição de vida.»

 

Toots Thielemans (1922-2016). «Legou-nos a música – e também esta suave sabedoria de vida que conservou até ao fim. Gigante sem parecer que o era, rumo ao pôr-do-sol enquanto os mágicos acordes da sua harmónica soavam já na eternidade.»

 

Václav Havel (1936-2011). «Com uma oratória persuasiva e galvanizadora, apelou às melhores energias dos compatriotas que o ajudaram a derrubar a burocracia despótica do “socialismo real” checoslovaco, espécie de estalinismo mitigado, medíocre máquina trituradora de aspirações e sonhos. Na pátria de Kafka, esta foi uma das revoluções mais bem sucedidas de que há memória.»

 

Vasco Graça Moura (1942-2014). «Fica-nos dele a memória de um intelectual à moda antiga: alguém que nunca deixa a cultura para segundo plano sem perder um olhar crítico perante a actualidade, como demonstra o seu último texto, publicado há quatro dias no Díário de Notícias. Fica-nos também o exemplo: devemos travar um combate persistente e bem fundamentado pelas causas que acreditamos serem justas.»

 

Vasco Pulido Valente (1941-2020). «Ensinou muitos de nós a reflectir, a ponderar, a argumentar, a desafiar os bonzos da opinião, a questionar os dogmas soprados no vento, a ripostar sem medo. Por vezes à custa de si próprio, pois consumiu-se sem remissão na contingente espuma dos dias (…). Eis o fardo insustentável de um comentador – mesmo o melhor de todos. Não vejo hoje ninguém que possa equiparar-se a ele. Vai fazer-nos muita falta.»

 

Vicente Jorge Silva (1945-2020). «Era um prazer ouvi-lo discorrer sem travão sobre os mais diversos assuntos, saltando de tema em tema, mas sempre com um encadeado lógico. Escrevia desta forma, como se estivesse em permanente diálogo com o leitor – e também com ele próprio. Cheio de dúvidas metódicas, sem certezas inabaláveis. Mas sempre atento ao “desconcerto do mundo”, como bem expressa a redondilha camoniana.»

 

Walter Cronkite (1916-2009). «Era um jornalista a cem por cento. Fez de tudo na profissão, esteve em todos os momentos decisivos da história que lhe coube em sorte testemunhar. Foi repórter na II Guerra Mundial, acompanhou o Dia D, cobriu os julgamentos de Nuremberga, chefiou a delegação da CBS em Moscovo no tempo da Guerra Fria, regressou à reportagem de guerra no Vietname, relatou a histórica emissão da conquista da Lua há exactamente 40 anos, acompanhou de perto o caso Watergate.»

Dezassete anos de obituários no DELITO (5)


Pedro Correia,

                                 MJNP.webp MVL.jpg

                                monica-vitti-a-venise.jpg pes_44470.jpg

 

Maria Barroso (1925-2015). «Dizia poesia com uma dicção perfeita, reforçada com uma nota emotiva bem reveladora do seu carácter. Na noite mais escura, ela soube dizer a palavra não. E quando outra ditadura, de sinal contrário, pairou sobre o Portugal revolucionário, lá estava ela novamente, no lado certo. Em defesa da liberdade, por um país onde mais ninguém fosse vítima de poderes arbitrários, contra qualquer delito de opinião.»

 

Maria Cabral (1941-2017). «Apagou-se longe como se nunca cá tivesse estado. Como se aquele rosto iluminado por uma prodigiosa fotogenia nunca nos tivesse visitado. Como se aqueles olhos e aqueles lábios e aquela pele jamais tivessem suscitado paixões arrebatadoras a quem os vislumbrou na tela – corpórea beleza, eterna e fugaz como todas as pulsões da vida.»

 

Maria José Nogueira Pinto (1952-2011). «Mantive um gosto enorme em conversar com ela, mesmo quando deixei de ser repórter parlamentar. Porque havia sempre alguma coisa a aprender com Maria José Nogueira Pinto. E houve, até ao fim: a extraordinária coragem física e a dignidade de que deu provas nestes últimos dias, enfrentando a terrível doença que há poucas horas a vitimou, constituiu um admirável – embora doloroso – exemplo para todos nós.»

 

Marie Colvin (1956-2012). «Figura quase lendária do jornalismo contemporâneo, herdeira directa dos maiores repórteres de guerra do século XX. O seu último texto, publicado no Sunday Times, é um arrepiante testemunho das atrocidades que estão a ser cometidas na Síria. A todo o momento. No próprio instante em que escrevo, no próprio instante em que são lidas estas linhas.»

 

Mário Bettencourt Resendes (1952-2010). «Pela vida fora encontramos dois géneros muito diferentes de pessoas: aquelas que gostam de se rodear de muros e as que preferem construir pontes em direcção aos outros. A natureza vital do Mário levava-o a construir essas pontes – nas mais diversas direcções e nas mais diversas circunstâncias. Casos como o dele vão sendo cada vez mais raros neste pequeno mundo cheio de desencontros que é o da “comunicação”.»

 

Mário Moniz Pereira (1921-2016). «Foi o melhor representante da cultura leonina, pelo ecletismo de que sempre deu provas no seu percurso pessoal enquanto praticante de ginástica, futebol, andebol, basquetebol, ténis, ténis de mesa, hóquei em patins, natação, tiro, equitação e esgrima. Onde mais se distinguiu foi no voleibol, tendo sido duas vezes campeão nacional (1953-1954 e 1955-1956), a última também como treinador. E acima de tudo no atletismo.»

 

Mário Soares (1924-2017). «Acertou no essencial. Ao fracturar a esquerda, deslocando-a para o centro. Ao evitar um novo conflito religioso no Portugal revolucionário, demonstrando ter aprendido as traumatizantes lições da I República. Ao apontar a Europa como novo destino português em alternativa às crepusculares rotas do império e sem demasiadas ilusões sobre as veredas da “lusofonia”.»

 

Mario Vargas Llosa (1936-2025). «Equiparo-o a Kafka, Orwell, Camus, Hemingway, Greene. Escritores que não apenas admiro e considero, mas que estimo muito. Como se integrassem a minha família alargada – desde os anos da adolescência, quando comecei a conhecê-los e a conviver com eles sem nunca me cansar.»

 

Maureen O’Hara (1920-2015). «Retirou-se cedo dos estúdios de Hollywood, no início da década de 70. Ainda faria um filme em 1991 e trabalhou esporadicamente na televisão quando já tinha sido elevada à categoria de mito. Era uma das raras e mais queridas lendas vivas do cinema. Morreu hoje, tranquilamente, aos 95 anos. Deixando-nos a nós, que fomos seus fãs, com vontade de revisitar os seus melhores filmes em sessões contínuas.»

 

Miguel Macedo (1959-2025). «A sua voz apagou-se cedo de mais. Faz-nos falta como alerta contra os demagogos de turno que andam por aí sem freio nos dentes, mais assanhados que nunca. Agitando o espantalho da insegurança para apertarem o torniquete à liberdade.»

 

Miguel Portas (1958-2012). «Era capaz de congregar a admiração sincera de muitos que não pensavam como ele. Por ser veemente na defesa dos seus ideais, transparecendo calor humano e convicção, sem nunca confundir claras divergências políticas com animosidades pessoais.»

 

Millôr Fernandes (1923-2012). «Despeço-me dele quase como de uma pessoa de família: há 40 anos que o lia – sempre com gosto, sempre com prazer, sempre com proveito. Procuro um obituário digno desse nome na imprensa portuguesa e quase nada encontro (…) . Millôr merecia mais. Merecia melhor do que estes parágrafos de amanuenses produzidos provavelmente por quem nunca o leu. Nem se sentiu mais pobre de espírito por causa disso.»

 

Monica Vitti (1931-2022). «Ainda há dias a revi emoldurada em tela, fascinante como sempre a conheci – o olhar fugidio, os lábios entreabertos, aquele enigmático semblante em que se espelhavam tantas perplexidades da aventura humana. De outras me despedi. A ela só consigo sussurrar um a presto comovido e deslumbrado.»

 

Neil Armstrong (1930-2012). «O que restava da minha infância eclipsou-se ontem, com a inesperada morte do astronauta norte-americano que liderou a missão da Apolo XI. Sinto-me de luto. Era de noite quando me chegou a notícia: procurei a Lua no céu e não a encontrei. Como se ela estivesse de luto também.»

 

Nicolau Breyner (1940-2016). «Nicolau, o Sr. Contente, teve uma vida cheia, repleta de episódios que dariam para vários livros e muitos filmes. Partiu hoje sem avisar, como por vezes lhe sucedeu em vida quando decidia pôr fim a uma etapa e iniciar outra. Para ele o tédio era uma espécie de pecado mortal. Deixa-nos um pouco mais pobres e muito mais tristes. Mas com a recordação inapagável do seu talento, capaz de suscitar lágrimas e provocar sorrisos – numa perfeita simbiose da dualidade humana.»

 

Nuno Rocha (1933-2016). «Tinha muitos defeitos, mas sabia dar oportunidades a quem começava. Aos 20 anos, pôs-me um bilhete de avião nas mãos e enviou-me como repórter para uma eleição na Grécia. Aos 21, mandou-me entrevistar figuras como Jorge Amado, Alvin Toffler (morreu por estes dias), Björn Borg e Jorge Jardim. Aos 22, deu-me carta branca para reformular o suplemento de artes e espectáculos, com novos temas, novos colaboradores e novo grafismo.»

 

Odete Santos (1941-2023). «Tinha o coração ao pé da boca. Entre ortodoxos e moderados nas fileiras comunistas, alinhava com os primeiros. Mas não por cálculo ou conveniência: era isso o que sentia, era isso o que realmente pensava. Fazia parte da sua maneira de ser e da fidelidade de longa data ao magnético “camarada Álvaro” que a levou à militância no pós-25 de Abril.»

 

Olivia Newton-John (1948-2022). «Foi um dos meus primeiros amores de adolescência. Linda: parecia uma princesa. Invejei o imbecil do Travolta: queria estar no lugar dele na película que ambos fizeram lá para finais dos anos 70. Filme foleiro, disseram alguns, sem perceberem que aquilo era uma festiva celebração da vida. Fugaz instante que tão cedo se esvai.»

 

Oscar Niemeyer (1907-2012). «Prefiro recordar Niemeyer olhando a maqueta do Palácio do Planalto, na segunda metade da década de 50, capaz de transformar o mais arrojado sonho em pura arte. A meio de uma vida longa, que foi também uma vida frutuosa, a deste homem que imaginava o universo como uma superfície interminável, livre e sensual, em forma de curva projectada no infinito.»

 

Otelo Saraiva de Carvalho (1936-2021). «Nunca foi ministro, nunca foi deputado, nunca se deixou atrair pela “democracia burguesa”, como tantas vezes se referia com manifesto desdém. Conquistou a celebridade muito cedo, conheceu o crepúsculo político com idêntica rapidez. E lidou mal com isso.»

Dezassete anos de obituários no DELITO (4)


Pedro Correia,

                               saramago.jpg Julio_Pomar.jpg

                            lauren-bacall.jpg Margaret-Thatcher-1980.webp

 

Jorge Silva Melo (1948-2022). «Nunca conheci Jorge Silva Melo. Sabia ter fama de feitio difícil, dizem-me que viveu os últimos anos ensimesmado e recolhido. Mas as crónicas dele – que li sobretudo no Público – pareciam raios de luz, trespassadas de vitalidade mesmo quando nubladas de nostalgia. Se as lêssemos com a atenção devida, cada uma delas ensinava-nos a escrever.»

 

José Alberto de Sousa (1954-2013). «Despeço-me dele, como tenho a certeza de que gostaria, com esta morna na voz do Ildo Lobo que escutámos num dos nossos jantares na cidade da Praia. Quando havia muitos amanhãs no horizonte e a Morte era uma dama distante a que nenhum de nós sonhava passar cartão.»

 

José Loureiro dos Santos (1936-2018). «Habituei-me a ouvi-lo com atenção, apreciando-lhe a integridade intelectual e a lucidez das suas análises. Lamento muito que esta geração de militares que tanto admirei esteja a desaparecer. Tudo tiveram e de quase tudo se desprenderam, com inegável patriotismo – outra palavra hoje fora de moda.»

 

José Medeiros Ferreira (1942-2014). «Apesar do preço que pagou pela independência de espírito, nas saborosas conversas que travámos nos corredores parlamentares e na sua casa de Lisboa, na Calçada Miguel Pais, nunca lhe ouvi uma palavra desprimorosa em relação aos tiranetes de turno que lhe foram cortando o passo nos meandros partidários. Era um cavalheiro à moda antiga.»

 

José Paulo Canelas (1963-2016). «Foi possível sorrirmos juntos ao lembrarmos episódios irrepetíveis em que fomos protagonistas. O espírito do Zé Paulo permanecia intacto, ali connosco. Por breves instantes, inspirados por ele, voltámos a ser miúdos outra vez. De uma alegria contagiante, de uma energia inesgotável, com a sensação de que não há metas impossíveis e temos um tempo sem limite pela frente.»

 

José Saramago (1922-2010). «É incontestável o lugar na história da literatura portuguesa do homem que nos legou o Memorial do Convento, o Ensaio sobre a Cegueira e As Intermitências da Morte, notável novela-testamento em que de algum modo ironizava com o seu próprio destino físico.»

 

Júlio Pomar (1926-2018). «O grande Júlio Pomar despediu-se de nós, com 92 anos, para cruzar a noite rumo à eternidade. Também ele demorou a tornar-se jovem. Ei-lo imune enfim à erosão do tempo. Com a idade exacta da sua arte.»

 

Julião Sarmento (1948-2021). «Guardo a grata recordação dessa conversa com aquele homem alto, esguio, de óculos, ar contemplativo e voz pausada. E da sua generosidade que não aproveitei por estupidez juvenil. De pouco me arrependo: só do que não fiz. Há coisas que só mesmo o tempo cura.»

 

Kirk Douglas (1916-2020). «Na tela foi Van Gogh, Ulisses, Doc Holliday, Ned Land, o general Patton. Entrou num dos melhores noirs de sempre (O Arrependido, 1947), na mais genial sátira ao jornalismo (O Grande Carnaval, 1951), numa assombrosa viagem aos bastidores de Hollywood (Cativos do Mal, 1952), numa fabulosa película anti-guerra (Horizontes de Glória, 1957).»

 

Laborinho Lúcio (1942-2025). «“A vida é um contínuo fantástico desde que se nasce até que se morre, só temos de estar disponíveis”, declarou em 2023 numa entrevista ao Expresso. Pensamento que funcionava como lema deste jurista que desde a infância bebeu muita sabedoria no convívio com os pescadores da Nazaré, sua vila natal.»

 

Lancelote Rodrigues (1923-2013). «Há pessoas que têm o dom de espalhar alegria em seu redor: pensei nisso muitas vezes ao escutar a gargalhada bem sonora do padre Lancelote, contagiante como poucas. Ou ao ouvi-lo cantar, com o seu vozeirão bem afinado, acompanhado à guitarra, em longos serões de divertido convívio no Clube Militar, na pousada de Coloane ou num dos típicos restaurantes chineses da Rua da Felicidade.»

 

Lauren Bacall (1924-2014). «Steve/Bogart ficou preso para sempre àquela voz, àquele olhar só gélido na aparência. Juntaram os lábios, os corpos, as almas e viveram felizes como nos filmes. Até a morte dele os ter separado. Hoje bem cedo, tantos anos depois, alguns cinéfilos escutaram um assobio vindo de muito longe. Sinal inequívoco: eles voltaram a encontrar-se

 

Luís Fernando Veríssimo (1936-2025). «Há 20 anos lia com imenso gosto os seus textos e comprei até vários livros que publicou, como Sexo na Cabeça Comédias para se ler na escola. Tal como 20 anos antes tinha sido leitor compulsivo dos romances do seu pai, o grande Érico Veríssimo. Mestres da língua portuguesa, cada qual no seu registo.»

 

Manoel de Oliveira (1908-2014). «Ao tomar conhecimento do seu desaparecimento físico, é deste singelo episódio que me lembro. E volto a sorrir à simples menção daquela frase que ficou a ecoar-me na memória: “Não tens pernas para andar?” Teve-as até ao fim.»

 

Manuel António Pina (1943-2012). «Um dos nossos melhores cronistas, um escritor “condenado à poesia”, um grande jornalista que foi capaz de manter através dos anos um olhar de espanto jovial e juvenil perante os pequenos milagres quotidianos sem calar palavras de indignação perante todas as formas de injustiça que ainda sufocam o ser humano.»

 

Manuel Serra (1931-2010). «Vivia há anos longe da ribalta. Quase ninguém das gerações mais jovens ouvira sequer falar do nome deste socialista libertário e “autogestionário” que nunca encarou a política como uma “carreira”. Muitas ideias que defendia estavam erradas. Mas a defesa da liberdade, de que foi um dos raros arautos em tempo de servidão, estava certa.»

 

Margaret Thatcher (1925-2013). «Pertencia a um tempo em que a política precedia tudo o resto na acção governativa, em que havia escolhas claras nas urnas – um tempo de esquerda e direita que se combatiam com frontalidade e lealdade, não a direita liofilizada e a esquerda descafeinada que surgiram depois, quase gémeas siamesas, cada qual copiando o projecto da outra ao ponto de quase se confundirem.»

 

Margarida Marante (1959-2012). «Pagou um preço elevado pela súbita glória televisiva, em regra tanto mais ilusória quanto mais ofuscante. Demasiado cedo chegou, demasiado cedo partiu. Seremos cada vez menos os que se recordarão dela eternamente jovem, naquela época em que suscitava amores e ódios, dividindo irremediavelmente opiniões naquele Portugal pós-revolucionário. Tempo fugaz, como é e será sempre o tempo.»

Dezassete anos de obituários no DELITO (3)


Pedro Correia,

                             isabel.jpg jeanne-moreau-three-sinners.webp

                        Jimmy_Carter.jpg sa,mpaio.jpg

 

Isabel II (1926-2022). «Num tempo que presta culto ao provisório, ela simbolizava a permanência – desde logo pelos laços de sangue que a ligavam aos seus remotos antepassados normandos fundadores da monarquia há quase mil anos. Parecia imune a toda a erosão e nunca se deixou contaminar pelas paixões políticas.»

 

Javier Marías (1951-2022). «Era culto, cáustico e corajoso – três características que aprecio num cronista. Não hesitava em remar contra a maré das modas dominantes, não perdia tempo com bajulações nem ocultava a erudição para seduzir “novas camadas de leitores” em busca da facilidade. Se havia que romper consensos, contassem com ele. Para integrar coros afinados, podiam dispensá-lo.»

 

Jeanne Moreau (1928-2017). «Mesmo sem a sua presença física entre nós, ela é daquelas que sempre povoarão os sonhos cinéfilos, fazendo da arte das imagens em movimento uma singular liturgia dos sentidos.»

 

Jerry Lewis (1926-2017). «Certos actores são inimitáveis: Jerry Lewis era um deles. Vi-o, como qualquer de nós, em dezenas de filmes. Mas também o vi uma vez em palco, já ele andava nos 70 anos. Ninguém diria que tinha essa idade: cantava, dançava, cabriolava com uma energia inesgotável no musical Damn Yankees, de George Abbott, Douglass Wakllop (letra), Richard Adler e Jerry Ross (música), nas tábuas do Golden Gate Theater, em Market Street, no centro de São Francisco.»

 

Jimmy Carter (1924-2024). «”Aliviar o sofrimento” era um dos lemas deste cristão convicto, que se manteve fiel à fé que professava. Quando falhou, nunca foi por défice de idealismo mas talvez por acreditar em excesso na bondade humana. Até nisto dir-se-ia hoje um homem de tempos muito distantes. De tempos que parecem nunca mais voltar.»

 

Jô Soares (1938-2022). «Era mais que um intérprete ou humorista: era uma genial criação de si próprio. Soube superar eventuais problemas de imagem, transformando defeito em virtude e assim se tornou ídolo de multidões. Sem ceder à facilidade. Muito menos à ordinarice própria dos ineptos, infelizmente hoje tão em voga. Com ele ausente, ficamos um pouco mais tristes a partir de agora.»

 

Joana Lopes (1938-2026). «Muitas vezes discordámos, mas sempre de forma civilizada – algo que parece em desuso agora. Sempre respeitei o seu percurso, marcado por convicções fortes e uma coerência que merece ser assinalada.»

 

Joana Marques Vidal (1955-2024). «A investigação criminal, com Joana Marques Vidal no vértice supremo do Ministério Público, deixou de fingir que os ilícitos de ricos e poderosos não existiam. Com ela, impôs-se a sensação generalizada de que ser influente e endinheirado não é passaporte para escapar às malhas da justiça. Com ela, terminou enfim a inércia no combate à corrupção, um dos cancros que corroem a democracia.»

 

João Carvalho (1952-2013). «Sintomaticamente, a última marca que aqui deixou foi um postal de parabéns a uma colega de blogue. Já muito doente, mas ainda fiel a um mandamento que sempre cultivou: a amizade é um posto, há que honrá-la a cada momento. Como dizer-lhe adeus? Não consigo. A um amigo como o João diz-se até sempre ou até já.»

 

João Lobo Antunes (1944-2016). «O seu desaparecimento, de algum modo prematuro, deixa-nos um pouco mais desamparados. Por andarmos tão carecidos de personalidades inspiradoras num tempo em que a mediocridade impera e a mediania se exibe travestida de excelência.»

 

João Paulo Guerra (1942-2024). «Ourives da escrita, capaz de escrever centenas de textos sem os polvilhar de palavras inúteis. Mestre dessa arte de narrar pequenas histórias de que é feito o grande jornalismo. Homem coerente, de causas assumidas, mas sem cortar pontes com quem pensava de maneira diferente. Excelente conversador, com discurso mesclado de ironia fina.»

 

João Rendeiro (1952-2022). «À glória fácil sucede-se a queda sem remissão. Aconteceu com o banqueiro que teve parte da classe dirigente e da constelação jornalística a seus pés, quando ganhou fama de multiplicar os dividendos de ricos e poderosos. Triste ironia, terminar os seus dias tão longe desse mundo de seda e cetim, num país distante, entre os escorraçados da sociedade.»

 

João Semedo (1951-2018). «Merecia ter sido senador da República Portuguesa. Um senador a sério, não daqueles que aparecem de ar conspícuo e discurso redondo nas pantalhas, serão após serão, dizendo coisa nenhuma.»

 

Joaquim Coutinho Ribeiro (1960-2014). «É com esta sensação de ter levado um murro que releio uma das mensagens que o Quim nos deixou, na caixa de comentários deste blogue que continuou a ser dele também. (…) Dia 8 de Janeiro de 2013, à meia-noite e 48: fica registado para sempre nesta espécie de máquina de perpetuar instantes, imprimindo-lhes a marca da eternidade, em que se tornou a Internet. (…) Tinha apenas 53 anos e mil projectos por concretizar.»

 

Jorge Coelho (1954-2021). «Alguém capaz de estabelecer laços com gente das mais diversas filiações partidárias, convicções ideológicas e simpatias clubísticas. Um agregador de talentos dispersos e um mobilizador de vontades individuais, muito para além do que o caderno de encargos oficial lhe exigia.»

 

Jorge Ferreira (1961-2009). «Éramos parceiros de geração, conhecíamo-nos há mais de três décadas, e nunca deixámos que as frequentes divergências de opinião perturbassem uma amizade já tão antiga. É outro companheiro de juventude de quem me despeço, cedo de mais, num dia chuvoso que também parece estar de luto por um amigo que partiu.»

 

Jorge Sampaio (1939-2021). «Eis talvez o maior dos legados do antigo Presidente da República: demonstrar aos compatriotas que é possível pertencer de corpo inteiro a uma facção política sem jamais encarar as restantes como inimigas, sem rebaixar um adversário, sem deixar de atender aos argumentos opostos.»

Dezassete anos de obituários no DELITO (2)


Pedro Correia,

                         clara.jpg Eunice_Muñoz,_1943_(Museu_Nacional_do_Teatro_e_da

                      Papa.webp Gal.jpg

 

Clara Pinto Correia (1960-2025). «Era uma das mulheres mais belas da nossa geração, uma das mais belas que até hoje conheci. A Clara Pinto Correia – tínhamos o mesmo apelido, mas nenhum parentesco nos ligava – não se limitava a ser bonita e a escrever num estilo muito próprio, com linguagem solta, ousada, que parecia brotar-lhe de geração espontânea, à maneira da escrita automática de um Jack Kerouac.»

 

Corazón Aquino (1933-2009). «Ao vê-la em cima do palco, falando com desenvoltura às massas que vibravam mal a viam desenhar com os dedos da mão a letra L, como símbolo de liberdade, poucos acreditariam tratar-se de alguém que nunca foi profissional da política antes de ascender à Presidência. Era também difícil adivinhar estarmos perante uma pessoa que sofria de incurável timidez.»

 

Eduardo Azevedo Soares (1941-2010). «Mantive com ele diversos contactos profissionais, por vezes a propósito de assuntos muito polémicos, e nunca o vi perder uma das suas características principais, que bem o definiam: era um gentleman. Assim o recordo, na hora triste da sua partida. Precisamente por ser um atributo cada vez mais raro na sociedade portuguesa, tomada de assalto nos últimos anos por uma fornada de “animais ferozes”.»

 

Emídio Rangel (1947-2014). «Criou um estilo muito próprio. Com um talento que já lhe vinha de trás, dos tempos em que trabalhou na rádio pública e foi justamente galardoado com um prestigiado prémio de jornalismo. Foi amado e odiado, mas nunca deixou de ir à luta. Perdeu algumas batalhas, mas venceu as mais decisivas. Deixando a sua impressão digital em todos os sítios por onde passou.»

 

Eugénio Lisboa (1930-2024). «Cultivava uma prosa densa e límpida ao mesmo tempo. Era um erudito quase sem reparar: interessava-lhe comunicar com o leitor, tanto em prosa como em poesia, no ensaio como na crónica. Proeza alcançada sobretudo na sua monumental obra memorialística, espalhada em seis volumes sob o título genérico Acta est Fabula

 

Eunice Muñoz (1928-2022). «Nunca entrevistei a Eunice – e tenho pena. Era assim que os portugueses a conheciam: Eunice. Representou durante mais de sete décadas, até há poucos meses. A bem dizer, até ao fim. Só lhe faltou morrer em palco para avolumar o mito. Mas teve uma carreira artística plena e foi consagrada pelo maior dos títulos: a ovação contínua dos espectadores.»

 

Eurico Figueiredo (1939-2025). «Recordo as longas conversas que partilhámos, pontuadas pelas calorosas gargalhadas deste transmontano cosmopolita que nos ensinava a valorizar o lado solar da existência. Guardarei para sempre esta e outras lições que generosamente me transmitiu.»

 

Fernando de Sousa (1949-2014). «Era um profissional mais preocupado com o rigor dos factos do que com adornos de qualquer espécie, fiel à escola da BBC, onde trabalhou vários anos e ganhou aquela entoação tão específica. Foi aliás lá que o conheci, em 1989, no majestoso edifício da Strand, quando estive a um passo de aceitar uma proposta de trabalho na secção portuguesa da BBC, de tão boa memória. (…) Morreu com as botas calçadas, a trabalhar. Honra à sua memória.»

 

Fernando Sobral (1960-2022). «Ao Fernando, homem tímido, não faltavam amigos, leitores ou admiradores de vários quadrantes. Mas como lhe escasseava vocação para se pôr em bicos de pés ou integrar a academia do elogio mútuo em que Lisboa é fértil, ficou sempre um pouco aquém do que o seu talento merecia e a sua seriedade profissional recomendava como cartão de visita.»

 

Francisco (1936-2025). «“Regressa à Casa do Pai” – terminologia oficial hoje usada na Santa Sé – neste momento em que tanto precisávamos dele, neste momento em que a Igreja tanto necessita de um sucessor à altura do seu legado – o do retorno à pureza da mensagem evangélica, contrariando a volúpia da guerra e a cupidez da plutocracia.»

 

Francisco Pinto Balsemão (1937-2025). «Na década e meia mais recente, a paisagem mediática transfigurou-se tanto ou mais do que a paisagem política. Tanta coisa se perdeu pelo caminho – desde logo uma certa forma gentil, cordata e dialogante de assinalar presença no espaço público. A marca distintiva de Francisco José Pereira Pinto Balsemão. Vivemos tempos diferentes. Poucos hoje arriscarão dizer que são melhores.»

 

Gabriel García Márquez (1927-2014). «Edificador de sonhos, cultor do sortilégio da palavra escrita, criador de personagens inconfundíveis, partiu hoje numa viagem sem regresso a Macondo. Ao encontro de Malquíades e dos Buendía, de Ursúla Uguarán e de Santiago Nasar.»

 

Gal Costa (1945-2022). «Romperam o tecto e chegaram ao céu. Ao Olimpo da Música onde a partir de hoje ela mora. Cantará só para os anjos, não mais para os pecadores como qualquer de nós.»

 

Guida Maria (1950-2018). «Há mulheres que nunca deviam desaparecer-nos do horizonte. Sou incapaz de imaginar a Guida Maria morta: ela, bela como poucas, que tantas paixões incendiou na minha imberbe geração. E que trouxe um toque de inesperado colorido a um país baço e chato e deprimido. Foi uma orquídea rara antes dos cravos. Um raio de luz que emergiu das sombras. Nunca lhe saberemos agradecer por isso.»

 

Henry Kissinger (1923-2023). «Culto, cosmopolita, viajado, com solidez intelectual e uma perspectiva abrangente do mundo, adquiriu fácil relevância no contexto norte-americano, ou seja numa diplomacia globalmente sofrível – para não dizer medíocre. No tempo em que desempenhou funções de relevo em Washington, só 17 senadores tinham passaporte, o que revela muito sobre a classe dirigente dos Estados Unidos.»

 

Hubert Matos (1918-2014). «Os restos mortais de Huber Matos — exilado até na morte — só serão depositados em Cuba, por sua vontade expressa, quando a liberdade por que ele tanto lutou ali enfim chegar. Pode ser a passo de tartaruga, como ironiza Yoani Sánchez no seu blogue, mas chegará. Como escreveu Padilla, um dos poetas banidos pela ditadura, “protege-te dos vacilantes / porque um dia saberão o que não querem”.»

Dezassete anos de obituários no DELITO (1)


Pedro Correia,

 

Desde 2009, ano da fundação deste blogue, escrevi aqui dezenas de obituários. Acabo de contabilizá-los: terão sido cento e oito. (Não garanto que a lista esteja completa.)

De portugueses e estrangeiros, de figuras célebres ou pouco famosas, de gente que tive o privilégio de conhecer pessoalmente ou de quem apenas tomei conhecimento por ver, ouvir e ler.

Uns mais sentidos, outros mais formais. Uns mais extensos, outros mais sucintos. Mas todos, creio, merecendo uns minutos de releitura e talvez de comentário. 

Em seis dias consecutivos, a partir de hoje, deixo-vos uma súmula desses textos organizados por ordem alfabética – a benefício de inventário, como testemunho ou documento, para registo histórico. Porque a História com maiúscula vai sendo escrita, em forma de rascunho, também aqui.

………………………………………………………………….

 

                      Adolfo_Suárez_preside_el_Consejo_de_Ministros_dur adriano.jpg

                     Alexey_Navalny_in_2020_(cropped).jpg Aretha_franklin_1960s_cropped_retouched.jpg

 

Adolfo Suárez (1932-2014). «Ninguém como ele — a par do Rei Juan Carlos — fez tanto para pôr fim às “duas Espanhas” que sempre se encararam com ódio homicida e visceral. Ninguém como ele acabou por ser tão desprezado por ambas — numa prova evidente de que a política devora muitos dos seus melhores talentos. E só a doença, somada aos dramas familiares que o afectaram, acabou por reabilitá-lo junto de quase todos quando não podia fazer sombra a ninguém.»

 

Adriano Moreira (1922-2022). «Apaga-se aos cem anos, recém-completados. Numa espécie de círculo perfeito, tanto quanto pode ser uma existência humana – que, mesmo quando longa, nunca deixa de ser breve.»

 

Albano Matos (1955-2015). «Há poucos meses, foi injustamente afastado do DN numa “reestruturação” (eufemismo modernaço e parolo para evitar a todo o custo a incómoda palavra despedimento) do jornal a que permaneceu teimosamente fiel durante 26 anos. Mais do que a esmagadora maioria dos casamentos contemporâneos, quase o decurso de uma vida.»

 

Alexei Navalny (1976-2024). «Detido, à margem de todas as regras civilizacionais. Torturado. Condenado a 19 anos de cárcere por delito de opinião. Tratado como lixo humano, partilhando cárcere com violadores e pedófilos. Empurrado para uma das cloacas do planeta, um local com 45 graus negativos para onde o czarismo e o estalinismo desterravam milhares de presos políticos.»

 

Amy Winehouse (1983-2011). «Havia um funesto destino a marcar encontro com ela há muito tempo. Tinha um talento vocal ímpar – bem expresso nas interpretações que nos deixou em temas como Back to BlackRehabLove is a Losing Game e You know I’m no good – e, ao mesmo tempo, uma absoluta incapacidade para lidar com a fama.»

 

António Almeida Santos (1926-2016). «Guardarei dele a memória de um senhor sábio e paciente, de pose amena e voz pausada, cioso da sua privacidade sem esquecer que nenhum homem é uma ilha, capaz de resistir à cruel erosão do tempo como se o calendário fosse um aliado e não um inimigo. Daí ter permanecido interventivo e activo até ao fim.»

 

António Borges Coelho (1927-2025). «Militante do PCP até 1991 e preso político na ditadura, este professor universitário transmontano deixou-nos um trabalho sério, com títulos como Raízes da Expansão Portuguesa A Revolução de 1383. Comprometido com o rigor factual e a pedagogia da tolerância cívica, flagrante nos seus escritos.»

 

António Dias Lourenço (1915-2010). «Tive o privilégio de falar algumas vezes com ele: já com uma idade muito avançada, mantinha a fibra de resistente. Era uma lenda viva entre os comunistas mas jamais se comportava como tal. E nunca o ouvi referir-se a um adversário político em termos deselegantes, o que é um exemplo para muitos outros que são incapazes de separar a crítica do insulto e confundem o confronto de posições com a piada rasteira ou a insinuação soez.»

 

António Feio (1954-2010). «Há pouco mais de um mês vi-o ser entrevistado pela Fátima Lopes na televisão: bastou ver o seu rosto, ouvir a sua fala já arrastada e algo hesitante, reparar naquele olhar que parecia já despojado da centelha da vida para se perceber cruamente que o fim estava próximo. Chegou agora, mais cedo do que muitos esperavam – a morte chega sempre cedo de mais. Os vampiros com carteira profissional de jornalista têm de procurar novos alvos.»

 

António-Pedro Vasconcelos (1939-2024). «Apreciava uma boa conversa, uma boa refeição, um bom jogo de futebol. Homem multifacetado, por vezes contraditório, com amigos de todas as idades e convicções. Homem que não escondia aquilo de que gostava nem o que detestava, sem se refugiar em meias-palavras e recusando precauções sonsas, tão frequentes em Portugal. Homem que amava a arte porque amava a vida.»

 

Aretha Franklin (1942-2018). «Ela sim, genial. Ela sim, uma das gigantescas personalidades do mundo da música popular, em que deixou o seu traço singular muito para além do rótulo de “rainha da soul” que lhe colaram os cultores de etiquetas.»

 

Artur Correia (1950-2016). «Iria tornar-me adulto, depois rumei a outras paragens, não regressei com o meu pai ao futebol – nem em pensamento. Até agora, mal soube que o Artur perdera a última partida no traiçoeiro campeonato da vida. Voltei a abrir a velha caderneta, desenterrei os autógrafos do pó do arquivo, imaginei-me a falar com uma remota voz infantil. E senti que o Pai me escutava, de polegar erguido, apaziguando todos os meus receios: “Tenho a certeza de que vamos vencer.”»

 

Bebo Valdés (1918-2013). «Quando Fidel mandou expropriar os 955 bares e cabarés existentes na capital cubana, em Março de 1968, Bebo percebeu que era tempo de partir. A mãe fê-lo prometer que não regressaria enquanto vigorasse a ditadura e ele cumpriu a promessa: disse adeus à ilha, tornou-se cidadão do mundo. A Havana que transportava consigo era uma Havana mítica, há muito sepultada na poeira da memória.»

 

Ben Bradlee (1921-2014). «Permaneceu dez mil dias à frente do Post. Saiu em 1991, sob uma ovação imensa dos jornalistas, retirando-se para a sua propriedade rural, onde redigiu este livro, lançado em 1995. Sob a sua liderança, o diário ganhou 18 prémios Pulitzer e firmou-se como um dos grandes títulos mundiais, conquistando uma sólida reputação de independência – o melhor certificado de nobreza de qualquer jornal.»

 

Carlos do Carmo (1939-2021). «Esta é a dimensão do seu legado que mais deve ser valorizada: o tributo que prestou à língua de Camões, Pessoa, Sophia, O’ Neill e Cesariny. Tão desprezada, tão escarnecida, tão maltratada até por aqueles que tinham como dever cívico e obrigação institucional defendê-la.  Vamos continuar a escutá-lo. Como ele merece. E o nosso belo idioma também.»

 

Carlos Santos Pereira (1950-2021). «Foi meu editor, mais tarde fui eu editor dele, mas entre nós nunca houve hierarquias nem galões: comportávamo-nos como soldados rasos do mesmo ofício, que só resulta quando é exercido com paixão. Fascinante ofício, o mais belo do mundo, como dizia Albert Camus.»

 

Carme Chacón (1971-2017). «Quase ascendeu à liderança do PSOE no fim do mandato de Rodríguez Zapatero, quase ascendeu ao posto máximo dos socialistas catalães, a região de onde era natural, quase teve a maioria da esquerda moderada espanhola a seus pés. Tempos irrepetíveis: do fulgor da fama à penumbra do esquecimento foi um curto passo, antes impensável. Bem demonstrativo de como é ilusória e transitória a espuma da política.»

 

Chavela Vargas (1919-2012). «Mexicana de adopção e coração, sonhou e cantou até ao fim: a sua voz inconfundível apagou-se ontem, aos 93 anos. Mas continuará a ser admirada pelas gerações futuras que a escutarão décadas adiante em temas imortais como Adoro, La Llorona, Obsesion, Volver, Cruz de Olvido, No soy de aquí, ny soy de allá

 

Chuck Norris (1940-2026). «Sempre de bom humor, ele comentava assim a passagem do tempo: “Eu não envelheço, subo de nível.” Gosto imenso desta frase: já a tornei minha. Desaparece agora, aos 86 anos, no belo Havai onde estava há muito radicado. Apetece-me passar o fim-de-semana a rever as cassetes VHS de Walker, Ranger do Texas

Morreu Desmond Morris


jpt,

O macaco nu, Desmond Morris Almada, Cova Da Piedade, Pragal E Cacilhas •  OLX.pt

Aos 98 anos morreu Desmond Morris. Como aconteceu com tantos dos seus leitores da minha geração, conheci-o através do célebre “O Macaco Nu”, que li aos 17 anos.

Por vezes vejo conversas sobre quais os melhores “começos” literários (”Já não temos começos!”, queixou-se George Steiner, não exactamente sobre essa questão…), os grandes arranques romanescos. Não sou eleitor nessa matéria, mas não contestarei a primazia dada ao “Era o melhor de todos os tempos, era o pior de todos os tempos, era a idade da sabedoria, era a idade do disparate, era a época da fé, era a época da descrença...” de Dickens (no “História de Duas Cidades”).

Mas sobre começos de ensaios? Caramba, voto sempre neste, pois ainda me lembro do júbilo nesse imediato pós-Natal ao deparar-me com esta viril entrada:

Existem actualmente cento e noventa e três espécies de macacos e símios. Cento e noventa e duas delas têm o corpo coberto de pêlos. A única excepção é um símio pelado que a si próprio se cognominou Homo sapiens. Esta insólita e próspera espécie passa grande parte do tempo a examinar as suas mais elevadas motivações, enquanto se aplica diligentemente a ignorar as motivações fundamentais. O bicho-homem orgulha-se de possuir o maior cérebro dentre todos os primatas, mas tenta esconder que igualmente o maior pénis, preferindo atribuir erradamente tal honra ao poderoso gorila.

E segui a leitura, encantando-me com o etólogo.

(Versão curta de postal no meu “O Pimentel“)

Pintores sem prazo de validade


Pedro Correia,

a25 árvores armando alves.jpg

Acrílico sobre tela, de Armando Alves (2009) 

 

«Leva muito tempo tornarmo-nos jovens.»

Picasso

 

Sempre me questionei sobre o motivo da longevidade dos pintores, muito superior à de escritores e músicos, e apenas equiparável à dos arquitectos. A chave dessa incógnita pode estar na frase de Picasso que cito em epígrafe: o pintor tem uma relação única não só com o espaço mas também com o tempo.

Aí estão, para demonstrar esta tese, Judith Lauand (que morreu aos 100 anos), Cruzeiro Seixas (99 anos), Georgia O’Keeffe (98 anos), Albert Bertelsen (98 anos), Marc Chagall (97 anos), Maria Keil (97 anos), Manuel Cargaleiro (97 anos), Arnulf Rainer (96 anos), Oskar Kokoschka (94 anos), Abel Manta (93 anos), Júlio Resende (93 anos), Nadir Afonso (93 anos), Frank Auerbach (93 anos), Alfredo Volpi (92 anos), Willem de Kooning (92 anos), Leon Kossoff (92 anos), Júlio Pomar (92 anos), Ticiano (91 anos), Kees van Dongen (91 anos), Pablo Picasso (91 anos), Andrew Wyeth (91 anos), Georges Mathieu (91 anos), Fernando Botero (91 anos), Joan Miró (90 anos), Victor Vasarely (90 anos), Giorgio de Chirico (90 anos), Querubim Lapa (90 anos), Victor Pasmore (89 anos), Robert Indiana (89 anos), Nikias Skapinakis (89 anos), Miguel Ângelo (88 anos), Emil Nolde (88 anos), Dórdio Gomes (88 anos), Lucian Freud (88 anos), Fernando Lanhas (88 anos), Antoni Tàpies (88 anos), Árpád Szenes (87 anos), Henrique Medina (87 anos), Emilio Vedova (87 anos), Frans Hals (86 anos), Jean-Auguste Ingres (86 anos), Claude Monet (86 anos), Tarsila do Amaral (86 anos), Carybé (86 anos), Carlos Calvet (86 anos), Max Ernst (85 anos), Eduardo Viana (85 anos), Henri Matisse (84 anos), Edward Hopper (84 anos), Norman Rockwell (84 anos), Sarah Afonso (84 anos), Salvador Dalí (84 anos), Thomaz de Mello (84 anos), Edgar Degas (83 anos), Jean Dubuffet (83 anos), Jean Hélion (83 anos), Maria Helena Vieira da Silva (83 anos), Francesco Albani (82 anos), Francisco de Goya (82 anos), Carlos Botelho (82 anos), Francis Bacon (82 anos), George Stubbs (81 anos), Benjamin West (81 anos), Veloso Salgado (81 anos), Georges Braque (81 anos), Marcel Duchamp (81 anos), Júlio Reis Pereira (81 anos), Rolando Sá Nogueira (81 anos), Donatello (80 anos), Francesco Guardi (80 anos), Jean-Baptiste Chardin (80 anos), Edvard Munch (80 anos), Roman Opalka (80 anos), Pierre Bonnard (79 anos), Jean-Baptiste Corot (78 anos), Pierre-Auguste Renoir (78 anos), Wassily Kadinsky (78 anos), José Malhoa (78 anos), Jacques-Louis David (77 anos) e Almada Negreiros (77 anos).

Ou, entre os vivos, João Abel Manta (98 anos), Jasper Johns (94 anos) e Jorge Pinheiro (94 anos).

 

Lembrei-me disto ao saber que o grande Armando Alves se despediu de nós a 31 de Março, com 90 anos, para cruzar a noite rumo à eternidade. Também ele demorou a tornar-se jovem.

Ei-lo imune enfim à erosão do tempo. Com a idade exacta da sua arte.

Na morte de Odete Santos


Pedro Correia,

odete.webp

Foto: Global Imagens

 

Quando Odete Santos abandonou por vontade própria a Assembleia da República, em 2007, deputados de todas as bancadas tributaram-lhe uma calorosa ovação em plenário. Acompanhei esse momento e questiono-me se aquela rara unanimidade voltaria a ser hoje possível, fosse quem fosse a figura em causa. Sinto-me inclinado a supor que não: os hábitos políticos mudaram muito, a crispação acentuou-se, as trincheiras foram-se aprofundando.

Odete estava há muito retirada dos palcos mediáticos. Depois do Parlamento, chegou a fazer teatro em Setúbal, cidade adoptiva desta jurista natural da Guarda. Era pessoa de verbo fácil e gargalhada espontânea. Não escondia o que pensava nem temia ser inconveniente, por vezes face ao próprio cânone do PCP, que representou durante 27 anos no hemiciclo de São Bento. «Calma, Odete» era a frase-bordão que lhe dizia o secretário-geral Carlos Carvalhas, ambos caricaturados nos bonecos da divertida e saudosa Contra-Informação da RTP.

Isso ficou patente, aliás, na entrevista que lhe fiz para o Diário de Notícias, a última que concedeu enquanto deputada. 

Quando lhe perguntei se devia haver «mais mulheres» na cúpula dirigente dos comunistas, ela não hesitou um segundo na resposta: «Sim. Deveria haver mais mulheres. Não tenho dúvidas nenhumas.»

 

Sempre simpatizei com ela. Tinha o coração ao pé da boca. Entre ortodoxos e moderados nas fileiras comunistas, alinhava com os primeiros. Mas não por cálculo ou conveniência: era isso o que sentia, era isso o que realmente pensava. Fazia parte da sua maneira de ser e da fidelidade de longa data ao magnético «camarada Álvaro» que a levou à militância no pós-25 de Abril.

No entanto, na rua Soeiro Pereira Gomes nem todos lhe apreciavam o estilo algo dissonante e a popularidade que granjeou fora das paredes partidárias. Odete nunca fez parte dos organismos executivos (Secretariado, Comissão Política), nunca foi líder parlamentar, nunca foi candidata presidencial – ao contrário dos cinzentos e sensaborões António Abreu, Francisco Lopes e Edgar Silva, funcionários diligentes mas totalmente desprovidos de carisma.

Apreciava teatro, cinema, literatura. Era vibrante declamadora de poesia. Gostava de acampar. Nunca fugia a um debate, mesmo com quem estivesse nos antípodas do seu pensamento: permanece na memória de muitos a sua vigorosa defesa de Cunhal, na RTP, como “maior português de sempre” num simulacro de concurso em que emergiu como vencedor Salazar, enaltecido por Jaime Nogueira Pinto. Nem D. Afonso Henriques, nem D. Dinis, nem D. João II, nem Vasco da Gama, nem Camões. A memória histórica é curta, os extremos exercem sobre muitos uma atracção irresistível. 

 

Nessa entrevista que lhe fiz em Abril de 2007, confessava abandonar o parlamento com «uma sensação de alívio». Saudades, só as «do futuro» – parafraseando o “poeta militante” José Gomes Ferreira. Deixando no entanto antever alguma mágoa: sentia que devia ter sido mais bem aproveitada pelo partido que nunca renegou. «Tenho pena de não ter criado condições para fazer trabalho de organização, que é importante.» Por uma vez, ficou-se pelas entrelinhas – aliás facilmente entendíveis.

Lembrei-me de várias ocasiões em que privei com ela – nomeadamente em campanhas eleitorais – ao saber ontem a triste notícia do seu falecimento, aos 82 anos. Era de um tempo em que vultos de diversos partidos se cruzavam nos corredores parlamentares sem confundirem divergência com ódio ou insulto ao adversário. Parece uma era já remota, nestes dias em que abunda o carreirismo político, cada um fala quase só para a sua bolha e as personalidades com voz própria e autonomia profissional estão cada vez mais distantes da vida parlamentar.

Não tenho a menor dúvida: a democracia portuguesa perde com isso.

Brilhante estratego, fraco profeta


Pedro Correia,

K.jpeg

 

Teve uma vida cheia – e lúcida e activa até ao fim. Morreu ontem, tranquilamente, na sua casa do Connecticut. Já centenário, há quatro meses fez uma última visita a Pequim, onde foi recebido por Xi Jinping, que o enalteceu como amigo perpétuo da China.

Catedrático emérito da Universidade de Columbia, talvez o maior especialista em política internacional nos escalões dirigentes norte-americanos da última metade do século XX, Henry Alfred Kissinger, nascido em Maio de 1923 na Alemanha e radicado na América desde 1938, levou uma perspectiva europeia ao Departamento de Estado. Antecipando o que mais tarde, na viragem do milénio, sucederia com Madeleine Albright durante a administração Clinton.

Como conselheiro especial do presidente Richard Nixon, de quem se tornou braço direito para a política internacional, com prolongamento para a administração Ford, subiu tão alto quanto lhe era possível em Washington. Foi o primeiro judeu a desempenhar as funções de secretário de Estado – terceiro posto na hierarquia do Executivo. Faltou-lhe apenas ter sido candidato à presidência, o que lhe estava constitucionalmente vedado por não ter nascido com a nacionalidade norte-americana.

 

Este europeu transposto para o Novo Mundo era herdeiro directo dos “realistas” que retalharam o mapa mundi ao longo de um século — da Convenção de Viena, em 1815, à cimeira de Versalhes, em 1919. Com duas convicções básicas: nenhum país tem aliados permanentes, só interesses permanentes; e não haverá vencedores em guerras na era atómica. Assim promoveu o degelo nas relações entre Washington e a China comunista primeiro e com a União Soviética logo a seguir. As duas mais espectaculares acções norte-americanas das últimas décadas na política externa.

Legou-nos detalhadas memórias em três volumes e várias obras ensaísticas dissecadas nos circuitos universitários e nas chancelarias internacionais, além de conquistarem leitores fiéis entre os cidadãos comuns. Diplomacia, por exemplo, é um trabalho académico de grande fôlego, confirmando o autor num patamar de erudição muito superior ao da média entre a elite política no seu país adoptivo.

 

A originalidade de Kissinger, nos salões e gabinetes de Washington, radicou-se na sua visão da política externa americana inspirada nos cem anos anteriores dos meandros da diplomacia europeia. Também influenciado, naturalmente, por circunstâncias da sua biografia pessoal: ter nascido numa família hebraica entre as duas guerras mundiais e conhecer a experiência totalitária não em abstracto mas no concreto. O regresso à Alemanha devastada pela guerra, enquanto cumpria o serviço militar já como cidadão norte-americano e exerceu funções de tradutor nas forças armadas, levou-o a perceber como são débeis os pilares daquilo a que chamamos civilização e como se havia tornado irrisória a influência europeia nos destinos mundiais.

A sua tão propalada realpolitik limitou-se, no fundo, a seguir os trilhos abertos por Ialta, na cimeira que dividiu o globo em esferas de influência. O planeta multipolar dos nossos dias, com emergentes potências de âmbito regional, baralhou toda a lógica anterior, que a geração de Kissinger preferia, pois a política de blocos, ideologicamente antagónicos mas perfeitamente identificáveis, assegurou meio século de relativa paz em diversas regiões do globo.

Consumado xadrezista, Kissinger valorizava na política externa as linhas de continuidade estratégica em função das quais as alianças entre nações assumiam uma geometria variável ditada por conveniências tácticas. A aproximação simultânea de Washington a Moscovo e Pequim, sob o seu comando, aconteceu como via de exploração das divergências entre russos e chineses que à época fracturavam o mundo socialista e acabaram por disputar as boas graças dos EUA.

Neste aspecto foi hábil sucessor dos mestres da diplomacia oitocentista na Europa, desde logo Metternich, e opositor da visão messiânica dos Estados Unidos na promoção das boas práticas democráticas à escala planetária.

 

Culto, cosmopolita, viajado, com solidez intelectual e uma perspectiva abrangente do mundo, Kissinger adquiriu fácil relevância no contexto norte-americano, ou seja numa diplomacia globalmente sofrível – para não dizer medíocre. No tempo em que desempenhou funções de relevo em Washington, só 17 senadores tinham passaporte, o que revela muito sobre a classe dirigente dos Estados Unidos.

Há que lembrar, de qualquer modo, que se revelou fraco profeta em relação a Portugal, ao vaticinar em 1975 que o nosso país sucumbiria a uma “ditadura comunista” capaz de funcionar como “vacina” para o conjunto da Europa. E não esqueço o aval, directo ou indirecto, que deu aos generais indonésios para invadirem Timor.

Era uma figura compreensível no contexto da Guerra Fria – e sobretudo à luz desse contexto merece ser valorizada. Pelo menos sabia apontar qualquer país no mapa, teste em que provavelmente muitos dos seus antecessores e alguns dos seus sucessores falhavam.

Henry A. Kissinger (1923/2023)


Sérgio de Almeida Correia,

statesman_2.png.bmp(créditos: daqui)

Nos bons e nos maus momentos esteve com todos e contra todos, com inteligência, ignorância e muito cinismo.

Uma vez convidaram-me para estar presente num dos seus doutoramentos honoris causa. Até hoje não estou certo se acreditava numa palavra do que pensava, do que dizia e do que escreveu.

Mas o seu legado é incontornável. Outros o julgarão. Não faltarão entendidos a dissertarem nos próximos dias, em todos os canais de rádio e de televisão, em tons laudatórios, sobre as suas múltiplas qualidades. Eu limito-me a certificar o óbito do século XX. E olhando à minha volta, para o que se passa no mundo, também não sei se isso será bom.

Ninguém tem o dom de adivinhar o futuro. Ele também não o teve, e por várias vezes tentou interromper o curso da história, treslendo e ignorando os sinais.

Apesar disso foi capaz de escrever muitos sumários. Alguns péssimos. Em Timor não deixará saudades. Outros, felizmente, como no caso português, não se concretizaram. Não ficámos entre Santiago e Havana. Voltámos a ser europeus. De corpo inteiro. E não lhe devemos isso.

Que descanse em paz.

Salif Keita


#$&%#,

keita.jpg

Viver é ver morrer os nossos, os queridos e os ídolos, um contínuo desmate afectivo. Morreu agora Keita (o Keitá! dos locutores radiofónicos de então, Salif Keita Traoré), o enorme jogador maliano, uma estrela daquela época – e hoje seria uma macro-estrela global… – que o Eterno Presidente, Senhor João Rocha, teve artes de trazer para o Sporting.

Na época o divino Vítor Damas partira para a malvada Espanha, de onde nada de bom vinha, o herói Agostinho andava pelas Franças aos (gloriosos) terceiros lugares, e o nosso Hermes Carlos Lopes fora ultrapassado pelo finlandês Viren. E Yazalde transferira-se – pela fortuna de 12 500 contos (60 mil euros) – para Marselha, bem antes do malandrete Tapie lá mandar. O nosso panteão estava um bocado desertificado, enquanto os atrevidos lampiões controlavam o Portugal do PREC como o haviam feito no ocaso do Estado Novo, e a diabólica parelha Pedroto-Pinto da Costa começava as suas tétricas manigâncias, que ainda hoje perduram.

Mas no José de Alvalade ascendeu uma Trindade, em avatar de “tridente” (como então não se dizia), a preencher-nos o culto. Eram o sempre nosso “Manel” (Fernandes), o fabuloso Rui Manuel Trindade (lá está) Jordão – o que teria este avançado hoje em dia, um génio do futebol! E Keita! Chegado já trintão, veterano de inúmeras pelejas, fugido de Espanha – tal como Jordão – por razões de maus-tratos rácicos na imprensa (os tempos de então eram bem piores do que os de hoje). Classe pura, distribuindo júbilo pelas bancadas – ainda me lembro, ele, mesmo já o tal veterano, a meter a bola por um lado do defesa e a ir buscá-la pelo outro, que jogador é que faz isso hoje, todos amarrados às tácticas, à “posse de bola” e às “coberturas”?… Era o Maior!

Eduardo Pitta


#$&%#,

personsa.jpg

Morreu ontem Eduardo Pitta, poeta, ficcionista, crítico literário. E também bloguista. Encetado em 2005 o seu Da Literatura era um dos blogs relevantes na época vibrante da “blogosfera” e Pitta manteve-o activo até recentemente – infelizmente retirou dos arquivos a primeira década do blog. Nele compôs uma mescla de atenção a factos culturais com uma intervenção política. Nascido em 1949 na então Lourenço Marques, Pitta tinha interesse pelos processos moçambicanos. Foi isso que o fez conhecer o meu ma-schamba, que fora o primeiro blog em português escrito no país e que quando ele começou a blogar era ainda um dos poucos ali existentes. Foi afável comigo, num companheirismo bloguístico então comum, e estabeleceu até uma correspondência – lembro que teve a gentileza de me enviar por via postal o seu ensaio “Fractura : a condição homossexual na literatura portuguesa contemporânea“. E explicou-me também as razões, mais do que curiais e sem qualquer acinte, que o haviam conduzido a recusar a proposta feita por intelectuais moçambicanos para o inserir no cânone do historial da literatura daquele país – não estou a ser indiscreto, desvendando correspondência privada, pois lembro-me de ter lido declarações suas sobre o assunto. Era essa, apesar do prazer havido com a atenção recebida, uma opção que fundava em termos de identidade pessoal e não de postura político-ideológica.

Depois vieram os anos da crescente degenerescência socratista. No seu blog Pitta foi um dos muitos que manteve não só o proselitismo socialista como a defesa arreigada do então primeiro-ministro. O Da Literatura continuava interessante, elegante e informativo – principalmente para quem estava fora do país. Mas, exasperado com o “estado da nação” e com a cumplicidade de um largo sector da intelectualidade portuguesa com aqueles desmandos antidesenvolvimentistas – a qual raiava o absurdo na “blogosfera” -, deixei de acompanhar a sua actividade. Como a de vários outros desse eixo político, habitualmente bem menos interessantes. 

As notícias de ontem e hoje sobre a morte de Pitta sublinham a sua importância no âmbito de uma literatura homossexual portuguesa – estatuto que ele próprio acarinhava, explicitando a necessidade de afirmação literária dessa temática. Eu sou pouco sensível a essa catalogação. E insisto naquilo que lhe disse e escrevi em pequeno postal, em texto que julgo lhe terá agradado, ainda que seja uma leitura arredia dessa peculiar atenção identitária que lhe dão: o seu breve “Persona” é o grande texto literário português sobre o final do regime colonial em Moçambique – e se calhar até mais do que isso (o  meu texto sobre o “Persona” está aqui). E, mais uma vez, proponho a leitura desse belo livro.

Jane Birkin


#$&%#,

sgjb.jpg

Morreu a Jane Birkin. Sempre miúda apesar de já tardo-septuagenária. A partir de difusa altura a vida passa a ser isto, o quotidiano desaparecimento das referências, relevantes ou paisagísticas.

 

A Birkin foi-me mais do que paisagística. Soube-a na era do lendário “Quando o Telefone Toca”, quando o mariola lhe cantava “je vais et je viens entre tes reins” sem que eu percebesse bem o que aquilo dizia. Mas nela intuí o fundamental, a beleza das mulheres não habita no par de mamas, muito menos no avantajado da sua apresentação.

 

Mas para que não me digam lúbrico em momento de luto aponto para outro lado: quando em 2023 um recente ministro dos Negócios Estrangeiros tem o desplante de ir à sua prelecção semanal televisiva rejubilar com mais um cardeal português (como se fosse o ranking do futebol europeu) enquanto afirmava que a Virgem Maria apareceu em Portugal (Fátima).- nisso opondo-se à própria hierarquia cardinalícia, que já nega a aparição, remetendo o “acontecimento” para uma visão das (esfomeadas, analfabetas e manipuláveis) crianças – convirá recordar a estuporada reacção da tropa eclesiástica ao “Je t’aime…” (consta que até se excomungou gente).

 

Mattoso


#$&%#,

mattoso.jpg

Na morte de José Mattoso recuei para quando li o seu magnífico “Identificação de Um País”, leitura escolar em disciplina de “Etnografia Portuguesa”, em meados dos 1980s. Naquela época os professores tinham uma concepção messiânica da docência universitária – era essa, decerto, a razão de impingirem vários trabalhos para serem feitos durante as férias natalícias, assim concorrenciais à quadra (verdadeiramente) festiva. Nesse ano para essa disciplina (entre várias outras, sublinho) o trabalho poderia nem ser desmesurado, uma (espécie) de “recensão” sobre um livro que abordasse a diversidade portuguesa, um guia gastronómico, um roteiro de viagens, um catálogo mais abrangente de arte popular, etc. – seria um treino para os alunos olharem essa nossa diversidade, teoricamente a sua futura matéria-prima quando obtivessem a licença profissional. 

Voluntarista insano decidi conjugar o trepidante ritmo festivo que se avizinhava com a leitura, atenta e produtiva, dos dois volumes da “Identificação de um País” de Mattoso, então celebrizado. O trabalho deveria ser entregue no primeiro dia de aulas. Claro que nesse dia estava eu ainda dactilografando o texto – naquela exaustiva metodologia de escrever e reescrever, amachucar páginas e deitá-los ao lixo, e depois passar a recortar algumas linhas já mais certeiras e colá-las junto a outras anteriores, esperando outras que viriam. De directa em directa. O professor da disciplina, Joaquim Pais de Brito – que depois viria a ser director do Museu de Etnologia durante longa época, e que eu ainda viria a encontrar em Moçambique – tinha a enorme fama e o imenso proveito de ser inflexível com os prazos de entrega dos trabalhos. (Tendo eu depois passado duas décadas a leccionar ainda hoje me pergunto para que serve essa inflexibilidade, típica em imensos professores…). Ou seja, nem fui à aula, a da entrega dos trabalhos, continuando a maratona para completar a tal “recensão”, e após umas centenas de cigarros e inúmeros cafés lá o dactilografei, recortei, colei e… fotocopiei, já terminado. Mas ouvira ecos da furibunda reacção do docente aos incautos que haviam incorrido a implorar mais uns dias para o trabalhito… E julguei melhor não tentar entregar o trabalho, desistir da cadeira, fazê-la em ano subsequente, escolhendo rumos menos laboriosos. “Porquê?” perguntaram-me, “depois de tanta trabalheira!“, insistiam. “Se o gajo me falar assim não respondo por mim...” ripostava eu.

Ou seja, formalmente ler o “Identificação de um País” foi-me, afinal, não só inútil mas também me lesou…, tivesse eu escrito sobre um qualquer “açordas do Minho ao Algarve”. Mas foi das coisas mais importantes da minha vida, ali aos 21 anos a mergulhar no monumental tratado sobre o que é a história e sobre o que é escrever a História, um “paradigma da História democrática” botei eu então, pomposo de juvenil, aquilo de como as diferenças são constitutivas sem vir (como então quase sempre vinha) embrulhado na bacoca dialéctica marxizante, legitimada por rodapés (ou introduções) (pós-)hegelianas. Ninguém pode ter o “Identificação de um País” como livro de cabeceira. Mas imagina-se (sonha-se) diferente depois de o ter lido.

(Uns meses depois o Pais de Brito apanhou-me num corredor, “Então, homem, que lhe aconteceu? Desistiu?” e eu expliquei-me que me atrasara, aquilo da intensidade, densidade, magnitude, “maravilhosidade” do Mattoso… “Entregue lá isso. E depois no fim vá fazer um exame, que é para não parecer que fez em avaliação contínua“. Que a tal inflexibilidade, afinal, era mais resmungona do que real…).

A partir daí fiquei sempre atento ao que o Historiador produzia. Muitos anos depois o meu amigo Paulo Dentinho, que havia conhecido em Moçambique, partiu para Timor-Leste como correspondente da RTP. Passado uns tempos fez uma reportagem, que me encantou: lá tinha ele ido para as montanhas, vasculhar os velhos esconderijos dos líderes da guerrilha, em busca dos arquivos. E nessas duras andanças acompanhado pelo já septuagenário Mattoso. Incrível! A reportagem (meros 6, 28 minutos) está aqui. Imperdível. Uma excêntrica memória de um gigante intelectual.

D. Luísa


José Meireles Graça,

aa.jpeg

Não é que seja viciado em necrológios, é que com o adiantar dos anos as clareiras da saudade e da gratidão vão ficando mais amplas.

Era uma pessoa bem-disposta, tanto que há muitos anos, num filme dos irmãos Marx (Um Dia nas Corridas), teve acessos de riso incontrolável tão fortes que a plateia toda ria com ela.

As cóleras, inevitáveis no afã da administração das vidas do marido, do filho, da filha e da casa, que lhe faziam a voz aguda, nem eram frequentes nem duravam mais de 10 minutos.

Fora na juventude uma beldade, que se conservou até tarde. E dedicou a vida ao amor de caixão à cova que a ligou a um artista completo com um extenso rol de peculiaridades, que integrou sem esforço numa inalterável rotina doméstica. Cozinheira superlativa, e formadora avant la lettre de quanta criada (ainda se pode dizer assim?) lhe passou pelas mãos, o passadio era a inveja das visitas. Foi, durante muito tempo, gente das Artes, e um ou outro amigo ocasional que se interessasse por música (jazz, que a outra o pater familias não ligava pevas) ou, por exemplo, Camilo, o escritor que, numa casa de agnósticos, tinha altar posto nos interesses e nas conversas.

Um amigo do filho passou a páginas tantas a ser visita assídua. E discretamente, como se estivesse na ordem natural das coisas, também ele passou a ter direito às sextas-feiras, que era quando chegava para o fim de semana, ao mimo que nada fazia por merecer e que era, por exemplo, umas costeletas de porco das quais, com ofensa das boas maneiras, até a película do osso comia. Assim como a resposta que tinha para dar a modestos mas indevidos e frequentes pedidos de empréstimos foi sempre a mesma: chega?

O tal amigo, que era este vosso criado, foi substituído na hierarquia das atenções pela neta, dado que casou com a prata (no caso, ouro) da casa, e passado o tempo regulamentar o enlace frutificou. E logo do outro lado da diarquia filial outra neta veio, e as duas reinaram inocentemente até que veio a segunda série de netos, três rapazes, a que mais tarde se juntaram duas bisnetas, turba que tomou conta da cidadela a tal ponto que em alguns momentos se poderia julgar, no almoço dominical, que o serviço era à lista.

Morreu ontem, aos 90 anos, serenamente, não tendo tido nunca noção perfeita, porque acamada há mais de dois anos, de que o marido já cá não estava. Decerto o provedor destas coisas lá no assento etéreo não quis que quem dedicou a vida aos outros como se não tivesse qualidades de inteligência e vontade para brilhar por si tivesse ainda de pagar um preço pela passagem.

A quase extinção do homem analógico


João Pedro Pimenta,

cormac-mccarthy-8c752ed44afc4050a154404c116cde17.j

 

Confesso: apesar de o meu Pai me garantir que era (até há dias, evidentemente) o maior escritor americano vivo, nunca li um livro de Cormac McCarthy e tanto quanto sei só vi um filme adaptado de uma obra dele – o famigerado No Country for Old Men. Este artigo de in memoriam de Paulo Faria (excelente tradutor, já agora), que em “leitura aberta” para não assinantes só se consegue ler o início, revela-nos um escritor que não só cresceu em viva comunhão com a natureza mas que acima de tudo NUNCA usou a net para absolutamente nada, recorrendo sempre, até morrer, à sua máquina de escrever.

 

Isto é absolutamente extraordinário, e traz-nos à memória antigos correspondentes de jornais, de mangas arregaçadas, por vezes fumando copiosamente, teclando furiosamente as suas Remingtons, para deixar pronto a tempo o artigo do dia seguinte com o melhor tratamento possível da língua. Não sei se seria o caso de McCarthy, mas não posso deixar de pensar em todas as discussões, críticas e debates exclusivamente na net sobre a sua obra e as respectivas adaptações que ele nunca viu nem imaginou. Era, pois, um ser em vias de extinção: uma pessoa absolutamente analógica. Isto escrevo eu, no meu computador, na net, da qual dependo imensamente, como a maioria das pessoas, com um tudo de nada de inveja e muita admiração.