E eu fiadinho que, depois de avaliar as previsões meteorológicas, era através dos sindicatos que os trabalhadores decidiam as greves…
Sempre a aprender
Paulo Sousa,
Na sexta-feira passada, o pacote laboral foi derrubado pela Cheringonça. Toda a esquerda celebrou esta derrota do governo. As forças situacionistas, PCP, Livre, BE, PAN, PS, JPP e Chega, uniram-se para impedir uma reforma do mercado de trabalho.
Bem sabemos como o Chega tem como única convicção conseguir chegar ao poder. Para isso está disposto a afirmar tudo e o seu contrário, a ser favorável a tudo e a nada, e até a unir-se ao Bloco e ao PCP. Os que defenderam o parlamentarismo que sustentou a Geringonça original mudaram de convicção quando exigiram linhas vermelhas que ostracizassem o Chega. Agora emocionam-se ao ver o Ventura de punho fechado na mesma luta que a CGTP. O PS, sem reacção, assiste à entrada do Chega pelo seu eleitorado adentro, como se estivesse a viver um acidente rodoviário em câmara lenta. O governo não vai perder a oportunidade para se vitimizar. Olhando para a insuficiência das medidas propostas, é fácil de ver que o impulso reformista já era fraco. Assim, evitou a normal urticária causada pelas mudanças e ganhou uma narrativa, não governa porque não o deixam.
Eu, que me lembro do pequeno Tavares sugerir que, por considerar o Chega um partido anti-democrático, os seus mandatos deveriam ficar fora das contas normais para alianças governativas, tenho de me rir com a celebração deste chumbo pelo grupo agora mais alargado de compagnons de route. Foi mais um momento em que pudemos assistir a pinos, reviravoltas e abraços improváveis. Ignorando as consequências negativas para o futuro dos portugueses, a política tem momentos engraçados.

Segundo o El País, o regime cubano aprovou a sua maior reforma em décadas. O futuro sistema bancário será privado, o mercado cambial respeitará a normal oferta e procura da economia de mercado, os subsídios terminarão, as empresas públicas que não resistam à desvalorização serão liquidadas e o igualitarismo comunista será enterrado.
Estes são passos muito importantes e cheios de significado. A economia planificada já causou demasiada miséria no mundo e estas reformas abrirão a porta ao derrube de uma das últimas cortinas de ferro, e esta bem ferrugenta.
Faltam ainda as liberdades políticas. A prosperidade económica verifica-se quando a concorrência económica está associada à concorrência política. O sistema de partido único, tão apreciado pelos tiranos, tem igualmente de acabar.
Todos os amantes da liberdade devem celebrar a festejar. É o princípio do fim de mais uma vergonhosa ditadura. Libertem os presos políticos! Ditadura nunca mais!
O folclore à volta das flotilhas “humanitárias” supostamente destinadas a transportar ajuda para Gaza tem algumas particularidades interessantes, a começar pelo facto de não transportarem ajuda. Os envolvidos não conseguem esconder que apenas procuram desafiar o bloqueio naval a uma zona de conflito e, dessa forma, colocar mais pressão mediática sobre Israel. Desde a abordagem pela marinha israelita até à forma como os activistas, mais ou menos profissionais, são tratados, tudo é usado para demonizar sempre o mesmo lado. Num dos últimos episódios da saga, o ministro israelita Ben-Gvir, outro lunático simetricamente excessivo, alinhou na jogada e, perante os seus apoiantes, exibiu-se a destratar radicalmente os radicais com que concorre no campeonato da radicalismo.
Eu confesso que me sinto enternecido com os flotilheiros. Passear de veleiro é coisa a que sou sensível e, genericamente, a margem norte do Mediterrâneo é boa onda. Se tivesse vida e folguedo que o permitisse, antes de Gaza, apostaria mais numa volta à Córsega, outra à Sardenha, Sicília, subiria ao Adriático, chegar a Kotor pelo mar deve ser qualquer coisa, atravessaria o canal de Corinto, navegaria as águas onde foi travada a Batalha de Salamina e rumaria até Istambul. O programa parece-me encantador. Navegar até Gaza? Só se quisesse exibir virtudes que não possuo e, de resto, a margem sul do Mediterrâneo não tem alcançado muitos likes.
Caravanas humanitárias também é um tema que me atrai. Repetiria uma ida até à Guiné, ou, quem sabe, até bem mais a sul. A Líbia terá também algumas atracções interessantes, mas a meio de uma guerra civil não me parece local para grandes passeios.
Soube de uns bem intencionados activistas, passo a redundância, entre os quais alguns portugueses, que queriam ir a conduzir até Gaza para instagramarem a sua passagem pelo posto fronteiriço de Rafah. Se acompanhassem as notícias saberiam que as autoridades fronteiriças egípcias são compostas por outros Ben-Gvir que lhes dariam o tratamento que por lá consideram adequado. Mas como não há impossíveis a que um coração apaixonado pela Palestina Imaginária consiga resistir, lá foram eles. Soube que desta vez não chegaram às mãos dos Ben-Gvir egípcios e o melhor que conseguiram foi uma estadia organizada pelos Ben-Gvir do Khalifa Haftar, líder do chamado Exército Nacional Líbio, facção que controla a maior parte da Cirinaica.
Ao contrário da malta dos veleiros, estes bem intencionados activistas, passo a redundância, não têm merecido a atenção mediática dos que caíram nas mãos dos israelitas. É que também nisto das flotilhas há filhos e enteados. Os amigos que têm nas televisões e no Público apreciam flotilhas detidas, sim senhor, mas têm de estar às mãos de Israel. Com os líbios não se metem.
«Haverá limites às maiorias conjunturais de cada tempo? Haverá legitimidades não adjectivas que ultrapassem a dureza das matemáticas parlamentares? Bastará ter votos para se ter razão? A resposta a estas inquietações não é nova – tal como as próprias inquietações de quem, desavergonhadamente, coloca estas dúvidas – mas, à boleia do discurso de Leão XIV desta semana no Congreso de los Diputados, vale a pena retomar este debate.
Há quinhentos anos, na Universidade de Salamanca, um frade dominicano respondeu-as. E, ao respondê-las, lançou algumas das raízes morais e intelectuais do Ocidente que somos. Chamava-se Francisco de Vitoria.
Das lições que ditou a orillas del Tormes, na expressão de Leão XIV, nasceu uma das ideias mais nobres que o Ocidente produziu: a de que existe uma Humanidade universal, dotada de uma dignidade que precede o poder, e que nenhum Príncipe, nenhum imperador, nenhuma maioria parlamentar pode legitimamente violar. Francisco de Vitoria negou ao Imperador, e ao próprio Papa, o domínio do mundo; reconheceu aos índios das Américas domínio pleno sobre as suas terras e os seus bens; e fundou, na própria natureza social do Homem, um direito dos povos a comunicarem entre si. E, tudo isto, no auge do poder espanhol, com uma liberdade de pensamento que falava acima das conveniências políticas da época.
Essa coragem não morreu com ele. Fez escola. Domingo de Soto, Francisco Suárez, Luis de Molina e Juan de Mariana prolongaram-na num programa comum: o de submeter o poder à dignidade da pessoa humana. Onde a modernidade que se seguiria havia de concentrar tudo na soberania, os mestres de Salamanca fizeram o movimento inverso. Sustentaram que a autoridade política não desce do céu sobre a cabeça do Príncipe, mas nasce da comunidade e a ela se ordena; que o Rei está sujeito à Lei e não acima dela; que o poder existe para o bem comum e perde legitimidade quando o trai – ao ponto de Juan de Mariana chegar a discutir, com uma corajosa e inquietante audácia, os limites para lá dos quais a tirania deixa de merecer obediência. Construíram, em suma, aquilo a que poderíamos chamar um código dos limites morais do poder. Ou, dito de outra maneira, um conjunto articulado de teses – a dignidade da pessoa humana, o justo preço e a moeda que o soberano não pode adulterar, o carácter derivado e condicionado da soberania, entre outras – que funcionava como fronteira intransponível para qualquer governante, por mais legítima que fosse a sua origem.
Ora, nada disto se limitou a ser um catálogo de boas intenções. Foi doutrina. Dura e arguta, talhada para enfrentar o poder em concreto. E é essa a herança que importa reter: Salamanca não proclamou apenas a dignidade da pessoa. Fez mais: defendeu que existe uma linha que nem as Coroas, nem as maiorias, nem a razão de Estado podem pisar sem deixar de ser justas.
Esta tese teve, esta semana, um verdadeiro comeback. Perante o Congreso de los Diputados, Leão XIV – o primeiro Papa a discursar na sede do poder legislativo de Espanha – voltou a Salamanca. E fê-lo de propósito. Não como adorno de erudito, mas como tese central do seu pensamento. Devo aliás dizer que o momento mais alto do discurso papal não foi nenhuma das passagens sobre imigração, que já correram os jornais do mundo, mas o de se atrever a falar do necessário limite do poder político na própria sede do poder político: “Una ley no alcanza su verdadera grandeza por el mero hecho de haber sido formalmente aprobada; la alcanza cuando, además de ser válida en su forma, puede comparecer ante la dignidad de la persona y salir de ese examen sin avergonzarse”.
A frase é, certamente, mais subversiva do que o aplauso cortês deixou transparecer. E distingue duas coisas que a cultura jurídica dominante há muito confunde: a validade formal de uma lei e a sua justiça. Ou seja, uma norma pode ter percorrido, sem falhas nem vícios, todo o circuito formal e ser, ainda assim, profundamente injusta. Ora, isto é Vitoria em estado puro.
E o que está na raiz desta afirmação é, no fundo, uma objecção a séculos de positivismo jurídico, e à doutrina segundo a qual o Direito é apenas aquilo que o legislador competente aprova, deixando a Justiça de fora da equação normativa. Ora, a História do século XX, que conheceu legalidades imaculadas ao serviço da barbárie, expôs as fragilidades e as ilusões desta doutrina. E foi precisamente contra ela que Salamanca, séculos antes, ancorou o Direito numa natureza humana comum. Dizê-lo num hemiciclo, a quem detém o voto e vive da sua legitimidade, é recordar aos legisladores que a sua autoridade é evidente, e grande, mas não ilimitada. No fundo, que há um limiar abaixo do qual nenhuma lei, por mais votos que tenha, pode descer. Ou não deveria.
Mas Leão XIV não foi o primeiro Papa a regressar a Salamanca. Em 2011, no Bundestag, Bento XVI afirmou que a vontade da maioria pode bastar para regular muita coisa, mas alertou que em matéria de dignidade do Homem essa vontade não basta, porque há um Direito que a precede e que ela, a maioria, por mais sólida e alargada que seja, não fabrica.
Sob pena de Vos perder, volto a 2026. Pouco tempo antes da visita do Papa Leão XIV, Espanha despediu-se de Noelia Castillo – a jovem de 25 anos que morreu ao abrigo de um artigo da Lei da eutanásia. Ora, o Papa não a nomeou. Mas como não pensar nela ao ouvi-lo defender a vida dos mais frágeis perante o mesmo país que a deixou partir? A convivência, advertiu, pode ser ameaçada pela “cultura do descarte”. Mais, se a vida deixa de ser reconhecida como valor fundamental, perguntou diante do hemiciclo, “¿qué futuro pueden tener nuestras sociedades? ¿Puede llamarse plenamente justa una comunidad que deja en la sombra al niño aún no nacido, al anciano, al enfermo, a quien sufre en silencio o a quien depende enteramente del cuidado de los demás? La defensa de la vida humana no es una cuestión parcial ni un interés confesional: es una meta de civilización. Toda vida humana debe ser reconocida y custodiada desde su concepción hasta su ocaso natural, en cada circunstancia de su existencia“. E as Cortes aplaudiram-no, numa rara trégua entre capuletos e montéquios. Fica o ensinamento, que é também uma esperança.
Em suma, Vitoria teve a coragem de fundar a dignidade na razão e de a opor, em pleno século XVI, aos poderes do seu tempo. Que cinco séculos depois um Papa a venha repetir no Parlamento espanhol, e que essa instituição o escute e o aplauda de pé, não é sinal de que tenhamos desaprendido a lição. É antes um sinal de que ela continua viva, de que ainda comove, e de que há em nós, apesar de todo o ruído, uma memória que reconhece a Verdade quando a ouve. Salamanca deu-nos a lição; Madrid lembrou-nos que ainda a sabemos ouvir. Talvez seja por aí que tudo recomeça. E Espanha precisa desse reset.»
Há algum tempo atrás tropecei num alfarrabista que vende velhas relíquias on-line e, desde então, já adquiri vários clássicos sobre os quais me tenho debruçado. Se a estória ficasse por aqui não teria o merecimento de chegar a postal, mas após a compra mais recente, a surpresa foi para além da sempre agradável sensação de cheirar um livro antigo. A obra em causa foi incluída no lote para que conseguisse atingir o valor de compra que dispensava a cobrança dos custos de envio. Poderá não ser um mui nobre motivo de escolha, mas as glórias e as misérias andam frequentemente de mão dada.
O livro é o “Noventa e três” de Victor Hugo. Do que me recordo do momento da escolha foi qualquer coisa como, o autor tem algumas obras mais conhecidas, mas, quem sabe, vamos lá ver o que é que sai daqui.

Um par de dias volvidos, na volta do correio, que é como quem diz, depois de ir buscar a encomenda ao quiosque contratado pela distribuidora, abri o livro e reparei que, logo na primeira página, tinha uma nota manuscrita.

Março de 1955, Maria José … não consigo entender o apelido. O meu primeiro pensamento foi para a data. Já lá vão 71 anos. O propósito, ser lido, continua funcional assim como a mensagem de Victor Hugo.
Na página seguinte, outra surpresa.

Desde que foi impresso, este livro nunca foi devidamente aberto e, como é óbvio, nunca foi lido. Olhado para todas aquelas folhas em continuo simplesmente dobradas e encadernadas, entende-se o método de fabricação, assim como o pouco rigor no corte das páginas o que, não sendo nada que impeça a sua leitura, é algo a que já não estamos habituados.
Quem o editou, a Livraria Editora Guimarães & Cª, sediada na Rua da Misericórdia, 68/70, em Lisboa, assim como quem o compôs e imprimiu, a firma Lucas & Cª, sediada na Rua do Diário de Notícias, 61, Lisboa, nunca imaginou que, mesmo tendo sido adquirido em 1955, só em 2026 é que iria finalmente ser lido. É um longo ciclo que se encerra.
Será que daqui a 71 anos alguém irá igualmente consubstanciar um propósito de algumas das nossas intenções de hoje?
É uma legítima jornada de luta! Só pessoas mal intencionadas é que dirão que se trata de um complemento ao Fim-de-semana Alargado Geral.
Para os mais empenhados neste protesto, deixo alguma informação que certamente será útil.
ESTADO DO MAR:
Costa Ocidental: Ondas de noroeste com 2,5 a 3,5 metros,
diminuindo gradualmente para 1,5 a 2 metros.
Temperatura da água do mar: 16/17ºCC
Costa Sul: Ondas inferiores a 1 metro.
Temperatura da água do mar: 19/20ºCC
Dados IPMA
Os sindicatos recomendam cuidado com os níveis de radiação. O tempo pode estar encoberto, mas a radiação está sempre lá. Não há que fiar! Para os trabalhadores que estejam empenhados em levar a sua acção reivindicativa durante as horas de maior incidência solar e em segurança, aqui fica também a gama completa de protecção para grevistas. Trabalhadores de todo o mundo, protejam-se! 25 de Abril, sempre!

Com cerca de 70% dos trabalhadores ligados a pelo menos um sindicato, a Suécia é um dos países do mundo com a mais alta taxa de sindicalização. Os sindicatos e as centrais sindicais suecas podem optar por estar, ou não, associados a partidos, sendo que a LO, a central sindical associada ao partido social-democrata, uma das mais representativas e que reúne cerca de um terço do total dos trabalhadores sindicalizados. As outras duas grandes centrais sindicais, a TCO e a Saco, representam aproximadamente os restantes dois terços trabalhadores e estão desligadas de qualquer partido.
O último grande confronto sindical, o Storkonflikten, ocorreu em 1980, mas não teve uma adesão total nem foi declarada como sendo uma greve geral, pelo que a mais recente paralisação geral dos trabalhadores suecos ocorreu em 1909.
A nossa realidade é bem diferente. Em Portugal as duas maiores centrais sindicais, a CGTP e a UGT estão ligadas a partidos políticos, sendo que a primeira destas é uma extensão do PCP. Dentro do total da população activa, a nossa taxa de sindicalização é de cerca de 7% e, desde que vivemos em democracia, já ocorreram 11 paralisações gerais do país, sendo que em apenas 2 casos decorreram durante a governação de um partido de esquerda, o PS.
O direito à greve faz parte do regime fundado em Abril, e isso deve permanecer assim. No entanto, quando as centrais sindicais marcam greves para dias que alargam fins-de-semana, mostram a sua sonsice desonesta e alimentam o descrédito no movimento sindical. Uma greve marcada para uma quarta-feira, véspera do Corpo de Deus, com ponte na sexta-feira, é um belo programa de fim-de-semana para quem tenha empregos que lhes permita abdicar de um dia de salário sem fazer mossa no orçamento mensal. Os pobres, que vivem nas periferias dos centros urbanos e que normalmente usam transportes públicos para ir trabalhar, contrariados, irão engrossar os números sempre empolados da adesão à greve.
Aqui perto de mim, no Instituto Educativo do Juncal, uma escola com contrato de associação até ao 9º ano e de ensino profissional até ao 12º, irá haver aulas. Não admira que este tipo de instituições seja alvo dos ódios de estimação dos corações humanistas dos que nunca podem ser despedidos e até têm direito a reforma mais cedo.
Entre o sindicalismo invejoso do sul da Europa, sempre empobrecida, e o moderado sindicalismo nórdico, que negoceia com seriedade, que sabe que se o bolo crescer as fatias serão maiores para todos, continuamos agarrados a esta sina do quanto pior melhor. Há coisas que nunca mudam.

De há uns meses para cá que oiço quase todos os episódios do podcast Linhas Direitas. Gosto especialmente de ouvir o Nuno Poças e o Vítor Nunes. O Nuno Lebreiro, o líder informal do programa, fala durante demasiado tempo, repete-se amiúde e exibe uma tal ausência de qualquer tipo de dúvidas que tem tudo para vir a ser divertido ouvi-lo daqui a algum tempo. A idolatria que dedica a Trump, ensombra a reverência que a imprensa tuga bem-pensante tinha, e ainda tem, por António Costa. Acaba até por ter graça, ouvi-lo a tentar explicar as vantagens que os EUA têm em deixar de ter aliados.
Há algumas semanas atrás juntaram à equipa um membro do Chega e ex-IL, de quem não me recordo do nome, e que claramente está apostado em subir no partido, ao ponto de, para não criticar a tirada de Ventura sobre a redução da idade da reforma, ter deixado que os restantes membros esfregassem o chão com ele durante mais de uma hora.
Mas o que me fez aqui verter estas linhas, foi o mais recente episódio, em que debatem os possíveis efeitos da inteligência artificial e da robótica nas nossas vidas. Parte do que dizem é especulativo, mas não deixa de ser interessante.
Os avanços e a vulgarização da Inteligência Artificial (IA), associados à evolução da robótica, terão um efeito nas nossas que ainda são difíceis de antecipar.
A passagem dos telefones de disco para os telemóveis e do telex para o email, assim como a banalização da Internet, levaram a uma aceleração do mundo. A IA e a robótica mais do que acelerar o mundo, criarão um novo paradigma e isso faz-nos levantar algumas questões.
Que impacto terão estes avanços na nossa relação com o trabalho? Qual será o novo modo de vida dos trabalhadores que forem substituídos por estas tecnologias? O que fazer com as pessoas que não se adaptarem? Que impacto isso terá no Estado Social? Quem é que melhor se irá adaptar aos novos desafios do trabalho, os empregadores privados ou o estado? Ainda sobrará espaço para os mais talentosos e para os que querem subir na vida?
Fomos assistindo nas últimas décadas à substituição de políticos por tecnocratas, que, perante os desafios da governação, encomendam estudos, definem o ponto de óptimo de equilíbrio entre diferentes variáveis e, com uma base técnica e cientifica, administram soluções que nos garantem serem as melhores para todos. A gestão dos tecnocratas poderá ser substituída pela IA. E depois disso, ainda haverá espaço para a política? Se quando for uma máquina a definir os destinos de uma comunidade, ou de um país, ainda seremos donos e senhores do nosso destino? E, quando deixar de ser necessário correr o risco de acertar ou errar, para onde é que será remetida a liberdade? Teremos de redefinir o conceito de uma escolha livre? Ou, pelo contrário, nunca existiram nem existirão soluções óptimas para os desafios, mas apenas opções baseadas em valores? Depois de remeter as escolhas tecnocráticas para as máquinas, será pelos valores e pela ideologia que voltaremos a ter políticos a fazer política?
E como é que será a criação artística? Restará espaço para a literatura e para a criação musical? Pagaremos bilhete para assistir ao vivo música criada pela IA? Poderá o interesse pelo teatro, pela sua performance definitivamente humana, ultrapassar a atracção pelo cinema?
E como será a relação entre a resistência e o encantamento deste novo mundo? Podemos esperar que, como sempre ocorreu no passado, grandes saltos tecnológicos desencadeiem acções violentas contra os bens e equipamentos que corporizavam a novidade? Ou alcançaremos um mundo perfeito, com uma semana de zero dias de trabalho e com rendimento garantido? Nesse caso qual será o novo lugar do ser humano no mundo? Se é nos países desenvolvidos que se diagnosticam maior número de depressões e, pelo contrário, é nos países ditos pobres que encontramos mais pessoas alegres e contentes, caminhamos em que sentido? Como será afectada a relação do homem material com o homem espiritual?

Depois de um voo cansativo e uma aterragem ao fim do dia no aeroporto de Lisboa o objectivo era conseguir um táxi para sair dali. A fila era assustadora e decidi virar-me para as plataformas da moda, o que me levou a um parque de estacionamento desconfortável e ruidoso. A procura pelo mesmo serviço leva a que uma pequena multidão se aglomere naquele espaço. Toda a gente olha para o telefone à procura da desejada viagem. Os entraves são quase infinitos. Primeiro precisei de actualizar a aplicação consumindo dados móveis que são distribuídos em regime de conta-gotas por milhares de aparelhos. Depois foi preciso actualizar a forma de pagamento. E toma lá um encontrão para passarem uns sul-americanos com dois gémeos ao colo. A aplicação arrancou e fiquei à espera que um condutor aceitasse o meu pedido. A plataforma cordialmente informou-me que encontrou um chofer e que dentro de cinco ou seis minutos ele iria confirmar a corrida. Mas não confirmou. Talvez no próximos dez minutos, disse-me novamente a plataforma. Mais um desvio para passar uma cadeira de rodas onde seguia uma idosa caucasiana guiada por outro idoso, provavelmente um funcionário do aeroporto pois envergava um colete florescente. Finalmente um condutor com um nome impronunciável aceitou o nosso pedido. Estava na Póvoa de Santa Iria e ainda demorava quinze minutos. Será desta? Mais uns minutos e a aplicação exibiu uma mensagem traduzida enviada por ele: “Tenho de ir carregar o carro. Cancela a viagem.” Raispartam os carrinhos a pilhas.
A procura por transporte não abranda e o preço estimado para a viagem já vai no dobro do que foi apresentado no início da via dolorosa. Lembrei-me de mudar para a plataforma da concorrência. Desta vez actualizar a aplicação e a forma de pagamento só demorou mais doze minutos. Como seria bom pelo menos ter onde me sentar, que as cruzetas traseiras não paravam de dar sinal. E sai mais um encontrão dum carrinho cheio de bagagens guiado por uns asiáticos. O preço da plataforma da concorrência é mais barato, mas não aparece quem faça o serviço. Para isso até podia ser de borla, ranhosos de merda! Please sir! Ouviu-se ao mesmo tempo que levei mais um chega-para-lá de uns africanos obesos. Ora porra para isto, que já saí do avião vai para hora e meia. Já a desesperar, espreitei a fila para os táxis tradicionais e vi que estava ainda maior do que à chegada.
Há impulsos que devem ser travados, mas não todos. Saí dali e pus-me ao caminho da Avenida de Berlim. Lá mais para baixo há-de aparecer um táxi ou um TVDE, pensei. Chegado à primeira paragem de autocarro, sentei-me e relaxei as cruzes. Voltei a insistir na plataforma. Nada. A subir a avenida surgiu um carro com uma preciosa luzinha verde sobre o tejadilho. Levantei o braço e ele travou a fundo. Só depois de ter baixado o volume do rádio é que me consegui fazer ouvir. Boa noite. Pode levar-me à Bobadela? Venha de lá então ó amigo! O cigarro que perfumava o carro desenhou uma parábola luminosa em direcção à faixa contrária e arrancamos. Estava p’a ir p’ali p’ó aeroporto, mas vou desenrasca-lo primeiro, amigo. Ao contrário do condutor, que falava à maneira dos bairros populares de Lisboa, vulgo um gajo de Alfama, a música era brasileira. Logo depois de arrancar, voltou a enrolar o controlo do volume do som e deixou de ser possível de conversar. Mal tinha acabado de pensar com os meus botões que um táxi à antiga é muito mais animado do que um silencioso e harmonioso condutor higienizado pela plataforma, e ele baixou o som. Oh amigo, a saída é antes ou depois do desvio para Moscavide? Hãm? Eu sei ir para a Bobadela que fui lá muitas vezes buscar peças para um oficina onde trabalhava, … epá, epá! Péraí, porra! E nisto encostou o carro ao rail. Epá, que já távamos a ir para a ponte, porra. Mas eu resolvo já! Faço aqui uma marcha-atrás e isto resolve-se já. Dito e feito. Marcha-atrás engrenada, umas dezenas de metros às arrecuas, três longas buzinadelas de quem queria mesmo ir para a outra banda, seguidas de resposta pronta do meu taxista no vernáculo cabeludo à medida da tal afronta e lá regressamos ao caminho certo. Em poucos minutos chegamos ao destino e arrumamos o negócio. Depois de fechar a porta e de o ver arrancar, não recebi nenhuma mensagem a pedir para avaliar o serviço e pensei que devo estar a ficar velho, pois cada vez mais aprecio os clássicos. Da próxima, mando lixar as plataformas.
«A Rússia que prometeu tomar Kyev em três dias mobilizou-se para impedir que drones ucranianos estragassem a liturgia sagrada da Praça Vermelha. O país que, segundo a propaganda do Kremlin, nem sequer existe, tornou-se suficientemente real para condicionar a festa maior do regime. Há ironias que dispensam comentário, embora o Kremlin continue a fornecê-lo em excesso. (…)
A tragédia estratégica de Putin é quase perfeita na sua simetria. Quis impedir a Ucrânia de se tornar uma nação ocidental e transformou-a numa das sociedades militares mais inovadoras do mundo. Quis dividir a Europa e conseguiu acordá-la do seu pacifismo sonolento. Quis afastar a NATO das fronteiras russas e ofereceu-lhe novos membros, nova razão de ser e nova urgência. Quis restaurar o império e acabou por entregar a Rússia, com desconto e recibo, à China. É uma lista de sucessos que faria corar de vergonha um sabotador mediano. (…)
E depois há a dependência chinesa, talvez a mais humilhante das derrotas de Putin. O homem que prometeu devolver à Rússia a grandeza histórica está a colocá-la numa posição de kowtow perante Pequim. Vende energia mais barata, compra produtos mais caros, aceita condições piores e chama a isso parceria estratégica. A China não precisa de conquistar a Rússia. Basta esperar. Moscovo encarrega-se de entregar, contrato a contrato, factura a factura, aquilo que já não consegue sustentar sozinha.(…)
A parada da vitória devia mostrar uma Rússia invencível. Mostrou uma Rússia encolhida. Devia celebrar poder. Celebrou medo. Devia projectar império. Projectou isolamento. No fim, Putin ficou na Praça Vermelha rodeado de bandeiras, soldados norte-coreanos, câmaras e mentiras, cada vez mais só perante a única força que nunca conseguiu bombardear: a realidade.
E a realidade, ao contrário dos generais russos, não desfila. Avança. Não pede licença, não presta continência, não aparece em uniforme de gala. Chega sem música, sem coreografia e sem autorização do Kremlin. Este ano, chegou ao ponto de obrigar o czar, que tantas vezes caminhou a pé para depositar flores no monumento ao soldado desconhecido, a recolher-se atrás da blindagem de um carro. Há imagens que valem por epitáfios políticos. Esta é uma delas.»
Excertos do artigo de opinião do Coronel José do Carmo, no Observador
«Os empresários portugueses são acusados de serem atrasados e incultos, mas a realidade mostra-nos que a mais elevada taxa de IRC dos países europeus da OCDE é afinal um custo que eles têm de suportar para estarem livres de concorrência. Assim, sem investimento estrangeiro e sem a entrada de novos operadores, não têm de progredir, não têm de melhorar os seus métodos nem a qualidade da sua gestão. Também não têm de competir pela mão-de-obra pois enquanto os seus trabalhadores não decidirem emigrar, não terão mais ninguém que venha do exterior para lhe oferecer um salário mais alto.»
Escrevi isto aqui há uns tempos e o assunto não perdeu a actualidade. O problema mantém-se e vai para além da carga fiscal. As barreiras à entrada num qualquer sector de actividade são uma forma de proteccionismo de quem já está no mercado e de repulsa às iniciativas de modernização. Os dados disponíveis comprovam isto mesmo.

Bloquear mudanças que promovam o dinamismo económico é lutar pela manutenção das garantias conseguidas pelos grupos económicos, pelas famílias capitalistas e pelo dinheiro velho. A complexidade na regulação exige uma imensidão de recursos que apenas o grande capital consegue alcançar. Os pequenos operadores são inevitavelmente afastados do mercado. Também a abundância de mão-de-obra, via imigração facilitada, impede a valorização salarial. Tudo isto são elementos que nos empurram na mesma direcção e qualquer reforma no sentido de interromper esta dinâmica será sempre “um retrocesso civilizacional”.
Acaba por ter graça que seja a esquerda quem mais se empenha em tudo fique na mesma. Enquanto agitam as bandeiras das suas boas intenções, o velho capital acena com a cabeça, que sim senhor é deixá-los andar assim que nós gostamos de ver.
Pouca gente conhece a exigência do que é atender ao público. Refiro-me a um atendimento razoavelmente capaz. A uma pergunta legítima de um cliente, ou cidadão, reagir com um “han?”, no privado é falta de profissionalismo, e até de educação. No público é apenas segunda-feira. Mas avencemos, que o assunto é outro.
Manter uma porta aberta, cumprindo um horário, ouvindo e servindo a quem faz o favor de ali entrar, exige um compromisso pessoal muito diferente de que é estar num gabinete, numa fábrica ou numa escola. A natureza do negócio define o tipo de público com que se tem de lidar. Um stand de automóveis, um posto de combustível, um restaurante, uma loja de roupa ou um café, cada um destes estabelecimentos tem uma determinada rotação de clientes, uma rotina específica e uma linguagem própria. Abrir a porta depois da hora equivale a perturbar as rotinas dos clientes. Havendo compromisso, ninguém que tenha a responsabilidade de abrir uma porta comercial fica indiferente a um contratempo que o impeça de ser pontual.
Não me quero alongar, mas não posso deixar de aqui trazer a já o muito conhecido conceito da “mão invisível”. No seu livro, “A Riqueza das Nações”, Adam Smith dá como exemplo o açougueiro, o cervejeiro e o sapateiro. Cada um deles esforça-se para conseguir melhorar a sua vida e alimentar a sua família. Para alcançar tão nobre objectivo, o sapateiro esforça-se por fazer bem o seu trabalho. Os seus sapatos têm de ser de boa qualidade e não podem ser demasiado caros, pois existem outros sapateiros na cidade e ele sabe disso. Esta competição implícita, a concorrência, obriga-o a esforçar-se. Ao perseguir o seu próprio interesse, ele é levado, como por uma “mão invisível” a contribuir para uma cidade onde existem bons produtos, bons artífices e, assim, prosperidade.
Numa economia planificada não existe concorrência, pois os objectivos são definidos centralmente pela nomenclatura. Numa economia do estilo soviético, um padeiro faz 200 pães todos os dias, porque foi esse o número que lhe foi transmitido pelo partido. Durante as férias, em que o quinto da população da aldeia que se portou bem foi a banhos no mar Cáspio, o padeiro continua a fazer 200 pães. Como é bom de ver, muito deste pão não vai ser vendido por falta de quem o compre. O ideal socialista cumprir-se-á se o pão se estragar ou for dado aos porcos. Se o padeiro o vender na candonga, irá ter de dar um suborno de metade da receita extra ao seu vizinho que ameaçou denuncia-lo.
Numa economia de mercado, o padeiro, desprovido da sensibilidade social dos bem intencionados, sabe bem que quando há férias ou quando a escola recomeça, o número de pães que tem de cozer varia. Como não quer estragar pão, nem perder vendas, ele irá tentar saber, com o máximo rigor, quantos pães irá precisar no dia seguinte. Só vendendo o máximo e estragando o mínimo é que o seu interesse irá ser alcançado. A mão invisível impele-o a tal e é por isso que a designada economia de mercado, vulgo capitalismo (uma expressão comunista), quando funciona razoavelmente, consegue combinar o egoísmo inerente à natureza humana com um maior benefício geral resultante da existência de bons produtos e serviços. Daí o seu sucesso.
Não surpreende que sejam raros os pequenos comerciantes que se identifiquem com os amanhãs que cantam, e que aceitem de ânimo leve que venha um iluminado explicar-lhes o que têm de fazer no seu negócio.
Tudo isto para enquadrar a minha surpresa perante a notícia da abertura de um café por Joana Mortágua, ex-deputada do Bloco de Esquerda. Sendo ela a protagonista, há várias questões interessantes a levantar. Algumas já foram abordadas, mas há um ponto que ainda não foi esclarecido e que aqui partilho. No próximo sábado, 25 de Abril, Joana Mortágua vai ficar a tirar bicas na Graça, ou vai descer a Avenida da Liberdade com os seus camaradas? Confesso que estou curioso.
A voragem dos acontecimentos no Golfo Pérsico, e arredores, remeteu para segundo plano algo que num período histórico menos agitado teria tido muito mais destaque. Refiro-me à Missão Artemis II.
Muitas considerações podem ser feitas sobre este incrível feito, mas deixo aqui apenas duas.
Em primeiro lugar, importa sublinhar que o país que teve o arrojo, a capacidade financeira e tecnológica para algo desta dimensão foi os EUA. Para os anti-americanos de sempre, a quem agora se juntaram os que desprezam mais Trump do que apreciam os EUA, esta é a América de sempre, perversa e imperialista. Para mim, a missão Artemis II representa os EUA que eu aprecio. A imaginação, a vontade, a ambição, a competição e o arrojo são os combustíveis capazes de fazer evoluir a humanidade, e se ali não fossem abundantes, esta missão nunca teria acontecido.
Então e Trump não é uma figura desprezível? Sim, é uma personagem tóxica que, não duvido, futuras revelações deixarão incrédulos até os seus actuais apoiantes. Então e Trump é os EUA? Não. Nada disso. Só quem sempre se incomodou com todas as contribuições americanas ao mundo é que apreciará essa confusão facciosa e limitada.
O outro ponto que julgo merecer mais relevo foi a entrevista feita aos astronautas após o regresso da sua incrível viagem. Gostei especialmente de ouvir Christina Koch. Recomendo a sua elaboração sobre o que é pertencer a uma tripulação.
Bem sabemos como podem ser diferentes as conclusões tiradas sobre algo após uma observação feita à distância e a tripulação da Artemis II observou-nos à maior distância que alguma vez foi alcançada por olhos humanos. Viram a Terra como uma pequena esfera rodeada de escuridão, e, diz-nos Christina Koch, todos fazemos parte da tripulação deste incrível planeta.
Ao longo das últimas edições O Portomosense disponibilizou algumas rubricas dos orçamentos de cada uma das dez Freguesias do Concelho. Propus-me a comparar os valores aí disponibilizados e a partir daí criei a seguinte grelha. Recorri aos dados dos censos de 2021 para preencher a coluna da população e descontei um milhão de euros aos valores relativos ao Alqueidão da Serra*, dado que uma parcela dessa dimensão respeita a um projecto pontual e não à sua normal actividade.

Perante estes dados, é inevitável tecer algumas considerações:
– Existe uma enorme diferença nos valores por habitante que cada Junta de Freguesia tem para cumprir as respectivas funções. Antes de se afirmar que Serro Ventoso tem dez vezes mais orçamento per capita do que Porto de Mós, importa relevar que muitas das intervenções feitas na sede de concelho são custeadas pela Câmara Municipal, sendo que isso não é suficiente para justificar tamanha disparidade.
– As Freguesias serranas ocupam, sem excepção, o topo desta tabela.
– Já há uns vinte anos que me debrucei sobre o mesmo tipo de dados, na altura com treze Freguesias, e a relação de valores não diferia muito da actual. A explicação que na altura consegui, remetia para as receitas das licenças de exploração de pedra nos antigos baldios que apenas as Freguesias serranas têm.
– Quando se procura promover a coesão social dentro de um concelho tão diverso como o nosso, diferenças como estas podem ocorrer, mas também podem, ou devem, devem ser mitigadas. Dizem-me que através dos protocolos de transferências de competências, a Câmara atribui verbas para cada uma das Juntas tendo em consideração variáveis como a população e a área territorial, e que desta forma compensa as Freguesias menos abonadas. Este é um bom argumento mas que esbarra no facto desses valores já constarem nos orçamentos que originaram este texto, ou seja, sem estes protocolos as diferenças seriam ainda maiores.
– Aos olhos da lei todas as Freguesias têm funções idênticas, sendo que naturalmente possam existir diferenças pelas particularidades do seu território e tecido social. Ser Presidente da Junta de Freguesia do Lumiar ou da Ilha do Corvo será coisa muito diferente, mas dentro de um concelho como o de Porto de Mós, que se quer coeso, estas diferenças são demasiado grandes.
* Texto publicado no jornal O Portomosense
Portugal, país pequeno mas com uma forte diplomacia, poderia muito bem ser o intermediário para as conversações de paz no conflito entre os EUA, Israel e o Irão.
Toni, que já treinou na Pérsia, seria o líder natural da nossa equipa de negociadores. Com o nosso contributo, o mundo poderia tornar-se um local bem melhor.
Quinze anos depois do pedido de assistência financeira feito pelo então primeiro-ministro José Sócrates, de má memória, muita água correu debaixo da ponte. Muito do que então foi dito, teve de ser redito, e muito do que deveria ter sido dito está ainda por dizer.
Num país onde os consensos são difíceis de conseguir, quinze anos passados, podemos afirmar que ninguém duvida que José Sócrates se comportou como um patife. Até as respectivas viúvas se envergonharão de tudo o que se tornou público desde então.
É normal que um país que avança para o seu nono século de existência tenha memória de muitos maus governantes e, mais ainda, de notáveis patifes. Como a História é profícua na reabilitação póstuma de patifes, são vários os bandidos que mais tarde vêm a ser lembrados como grandes vultos.
Quem conheça razoavelmente o início do século XX português saberá que foi o radicalismo do Partido Democrático de Afonso Costa que, inviabilizando a Primeira República, abriu a porta a 48 anos de ditadura. Terminado esse longo ciclo, a nova narrativa ajustou-se ao seu tempo e aos seus interesses. Já poucos se lembravam da instabilidade das primeiras décadas desse século e convinha demonizar o patife imediatamente anterior. E é assim que em 1979 alguém entendeu que fazia sentido elevar Afonso Costa a “Grande Vulto”.

E é aqui que regresso ao título do postal e partilho a minha sugestão para o que possa vir a ser incluído numa próxima revisão da Constituição da República Portuguesa. Sabendo da imensa capacidade que a História tem em nos surpreender, deveria constar no futuro texto constitucional, e já agora também gravado na pedra, que José Sócrates nunca poderá vir a deixar de ocupar o seu lugar na quinta vala do oitavo círculo do Inferno de Dante. É ali, ao lado de outros barattieri, que deve permanecer e ser lembrado no futuro.
Para os Judeus a Páscoa é a Festa da Liberdade. Eram escravos ao serviço do Faraó e, com a ajuda de Javé e guiados por Moisés, alcançaram a liberdade. Ando a ouvir o podcast Histórias da Bíblia e há ali muitos detalhes interessantes. Um deles, que ajuda a explicar a longevidade das histórias contadas na Bíblia e até a dos Judeus, é o facto deste conjunto de escritos ter constituído o que podemos descrever como sendo uma pátria móvel. Desde o exílio da Babilónia à escravatura pelos Faraós, até à diáspora após a destruição do Segundo Templo pelas mãos dos Romanos, os livros sagrados serviram para manter uma tradição e uma identidade. Desprovidos de uma terra, os Judeus recorreram às histórias dos seus antepassados e da sua aliança com Deus, como linha condutora da forma como se interpretam a si próprios.
Os Cristãos celebram na Páscoa não apenas, mas também, a liberdade perante as leis da morte. A notícia da Ressurreição é absolutamente revolucionária. A simples possibilidade de existir vida para além da morte, entre muitas outras coisas, abre a porta à existência de uma justiça futura que corrigirá as agruras da vida, castigará os abusadores e premiará os justos. Dentro deste cenário é razoável ter esperança, acreditar que o Bem acabará por vencer o Mal e, por isso, vale a pena escolher o lado do Bem.
A cerimónia da Vigília Pascal começa à volta de uma fogueira no exterior das Igrejas. Dali, a luz segue para dentro do templo, que permanece às escuras. Na cerimónia são lidas várias leituras, uma das quais do livro do Êxodo, em que é recordada a libertação dos Judeus. O momento da Ressurreição coincide com o acender das luzes e com o toque dos sinos. O simbolismo é óbvio, a Luz venceu as trevas. A derrota da morte é a liberdade que os Judeus celebram, mas alavancada ao infinito. Mesmo que nos foquemos apenas no seu aspecto literário, esta é uma história incrível. Para uns é demasiado boa para ser mentira. Para outros é demasiado boa para ser verdade.
Ao longo de dois milénios a Igreja foi sempre mudando. Acompanhou e moldou a história da humanidade. Foi desafiada inúmeras vezes por forças adversas, externas e internas, assim como pelas pelas revelações da Ciência. A Idade Moderna, munida com a Lógica, a Biologia, a Mecânica e a tabela periódica, forçou a Igreja a adaptações contínuas. Pelo meio, nunca faltaram os erros. São inúmeros os seus pontos fracos. Ora é pela riqueza que ostenta, por aquela coisa das imagens dos santos, pela Inquisição de há quinhentos anos, pela proximidade com a política e com os políticos, pelo celibato e pelos escândalos sexuais, as não conformidades com a respectiva mensagem nunca mais acabam. Os que acham que as histórias da Bíblia são demasiado boas para que não sejam verdadeiras tentam explicar que a Igreja é uma coisa terrena, encharcada em humanidade e por isso falível. Coisa diferente é a História que a sustenta.
Os movimentos pendulares da História ora lhe dão importância, ora lha retiram. Enquanto a importância da Igreja regredia na região do mundo onde pela primeira vez foi importante, crescia em número de crentes noutras latitudes. Entretanto, na Europa está novamente a atrair pessoas. Na Britânia anglicana o número de católicos já superou os dos súbditos da Igreja fundada por Henrique VIII e até no país mais secularizado da Europa, a França do culto da razão, ontem à noite foram baptizados mais de 21.000 adultos e adolescentes. O pêndulo recusa a imobilidade e a História não está para chegar ao fim.
Um aspecto interessante que é comum a todas as religiões reside no facto de cada uma delas se definir pelo conjunto de respostas que dá a questões que o ser humano nunca deixou de colocar. Serão os nossos sentidos suficientes para entendermos o mundo? O mundo imaterial é demasiado complexo e vago para que possa ser entendido pelos espíritos dos mais simples. Por isso, ao se adoptar uma religião, normalmente a predominante na região onde se vive, adopta-se um conjunto de respostas a essas questões. Quase como quem vai a um pronto-a-vestir, de uma assentada adquire-se um pacote completo de elaborações metafísicas, que é suposto responder até a perguntas para as quais nunca se teria o arcaboiço intelectual de conseguir fazer. Como nas outras coisas da vida, há quem se contente com o pronto-a-vestir, mas também há quem prefira ir ao alfaiate ou queira costurar em casa, criando assim o seu próprio sistema de crenças pessoais. Mas mesmo fazendo por ignorar toda a sua dimensão teológica, é na mensagem cristã que assentam as balizas morais de ideologias bem posteriores. A título de exemplo, basta referir as preocupações sociais do Comunismo. Qual a raiz histórica do incómodo perante a injustiça do operário que não é devidamente remunerado?
Termino regressando às Histórias contadas pela Bíblia. Independentemente do que cada um possa pensar do Cristianismo, seja Católico, Ortodoxo, Protestante, de rito Latino ou Oriental e nem que seja apenas pela sua dimensão literária, vale a pena ter mente aberta suficiente para o conhecer. A vitória do Bem sobre o Mal, da Luz sobre as Trevas e da Vida sobre a Morte não foi inventada por poetas ou romancistas modernos e muito menos por Hollywood. O que não faltam são best sellers e blockbusters que exploram este imaginário. Mas tudo isso começou na Bíblia.
![]()
Biblioteca Morgan, Nova Iorque, EUA