DELITO há dez anos


Pedro Correia,

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José António Abreu: «Hoje, às 23:59:59, milhares de milhões de pessoas susterão a respiração, exalando apenas quando os ponteiros dos relógios saltarem para a meia-noite.» 

 

Sérgio de Almeida Correia: «Do que disse em 1 de Janeiro de 2013 não se aproveitou nada. Uma vírgula que fosse. Nem os partidos da sua coligação lhe deram ouvidos, precipitando uma crise política que custou ao País mais uns milhares de milhões de euros. Houve de tudo: demissões em barda, declarações patéticas de quem saiu empurrado pela porta dos fundos a dizer que saía pelo próprio pé, remodelações a intervalos regulares, manifestos irrevogáveis, cartas de fazer corar um santo. Enfim, aconteceu tudo o que a criatura disse que não queria que acontecesse em matéria de credibilidade externa, estabilidade e cooperação institucional, segurança interna, confiança dos mercados e equilíbrio social

 

Teresa Ribeiro: «Não confie na banca, no governo e muito menos nos mercados. Guarde o dinheiro que lhe resta debaixo do colchão. Se tem dívidas ao fisco não as pague, aumente-as até um montante que seja considerado incobrável, que o Estado perdoa-lhe tudo.»

 

Eu: «Dizia John Donne, na magnífica frase que Hemingway inscreveu no pórtico de Por Quem os Sinos Dobram, que nenhum homem é uma ilha. Pois não. Convém lembrar esta verdade elementar em tempo de progressivo isolamento, numa altura em que a solidão é talvez a mais grave doença que se abate sobre o mundo “desenvolvido” que habitamos. Comunicar, como aqui fazemos dia a dia, é um poderoso exercício contra a solidão.»

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Pedro Correia,

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João André: «A verdade é que Portugal é de facto um país de emigração e vai continuar a sê-lo. Vejo Portugal a sofrer uma verdadeira catástrofe demográfica a médio prazo e sem sequer ter a visão de criar laços com aqueles que partem. Isto terá consequências verdadeiramente desastrosas dentro de uns 20 anos. Claro que por essa altura, os bandalhos que estão no governo, nunca nada fizeram na vida (começando pelo PM) e exortam os portugueses a «sair da sua zona de conforto» já terão tratado do seu. Tenho ainda esperanças: nos filmes, os jagunços costumam pagar pelos crimes. Seria bom que 2014 fosse um ano nesse sentido.»

 

José Navarro de Andrade: «Muitos filmes são excelentes por aquilo que não mostram nem dizem. É o caso deste. Sarah Polley não é narcisista, nem se faz vítima; não julga, mas não se coíbe de comentar (ou seja de dar a ver as emoções contidas) como faria se acreditasse na farsa da objetividade; não disseca as emoções e os factos mas – e creio ser isto que faz de “Histórias que contamos” um filme prodigioso – revela e pondera o modo como conta estes acontecimentos.»

 

Eu: «Já acreditava nessa altura, como acredito agora, que o efeito acumulado de más notícias provoca um sentimento de exaustão junto dos consumidores de informação. Isto ocorre ainda mais em tempos de crise: procuramos encontrar no fluxo noticioso quotidiano alguma luz que nos permita sair do escuro. Enganam-se aqueles que se empenham em carregar ainda mais nas tintas escuras, julgando ir assim mais ao encontro dos leitores, ouvintes e telespectadores. É um erro semelhante àqueles que, na política, radicalizam em grau crescente as suas propostas, sem perceberem que a crise potencia soluções de moderação da parte dos eleitores, naturalmente descrentes de derrapagens radicais.»

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Pedro Correia,

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Leonor Barros: «Antes que a quadra se vá de vez, um dos meus filmes preferidos. Esta cena que retrata o primeiro Natal de uma família turca na Alemanha, em pleno Milagre Económico, e o inevitável choque cultural. Almanya, de Yasemin Samdereli, 2011.»

 

Eu: «Como diria Churchill, que recebeu o Nobel da Literatura em 1953, “não há mal nenhum em mudar de opinião — desde que seja para melhor.” Quando não for, é preferível ficar assim.»

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Pedro Correia,

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Ana Cláudia Vicente: «Antes de mais, e já que ainda vos apanho na oitava natalícia, faço votos para que (trabalhando ou feriando) continuem a celebrar a quadra com ternura e boa disposição

 

Luís Menezes Leitão: «Só há uma função absolutamente imprescindível a uma Câmara Municipal: é tratar da higiene urbana, onde se inclui obviamente a recolha diária do lixo. No entanto, António Costa, que sempre encarou a gestão da Câmara como um trampolim para outras funções, acha naturalmente que a recolha do lixo é demasiado prosaica para ser uma função camarária, decidindo por isso atirá-la para as juntas de freguesia. Os trabalhadores da recolha do lixo é que obviamente não gostaram de serem assim atirados às juntas, pelo que decidiram fazer greve. Essa greve está a ter um impacto tal que hoje, dia 28 de Dezembro, o lixo acumula-se nas ruas de tal forma que praticamente não se pode circular.»

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Pedro Correia,

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Sérgio de Almeida Correia: «Continuo convencido de que os portugueses não voltarão a ter uma oportunidade tão boa como a presente para se emanciparem da tutela das oligarquias que dominam os actuais partidos, aproveitando o momento para fazerem a sua reforma, criando uma sociedade civil mais forte, atenta e participativa, capaz de escrutinar e responsabilizar a tempo e a horas quem tanto tem contribuído para a sucessão de desmandos e de comportamentos inaceitáveis em democracia, e tão pouco republicanos, que nas duas últimas décadas foram protagonizados sempre pelos mesmos actores. Presidente da República incluído.»

DELITO há dez anos


Pedro Correia,

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Eu: «A palavra-chave é esta mesmo: ignorância. Vivemos numa sociedade onde continua por implantar a cultura do mérito. Só isto explica que um responsável editorial escreva sem rasto de ironia, num dos principais jornais portugueses, que fulano de tal “houve o telejornal”. Ou que um editor de cultura numa publicação de difusão nacional se gabe de não frequentar há longos anos uma sala de cinema. Seria quase divertido se não funcionasse como espelho fiel da realidade, desta chocante falta de exigência que leva tantas vezes à promoção dos menos aptos e dos menos capazes. Não admira por isso que perante tais exemplos um jovem jornalista, escrevendo sobre uma promessa da música lusa algures na diáspora, faça notar que ela “tem descendência portuguesa” quando queria dizer exactamente o contrário. Ou que outro profissional do jornalismo em início de carreira considere essencial que “o professor haja” de outra forma na sala de estar. Ou que um elemento da direcção de um jornal diário, num editorial assinado com nome próprio, escreva esta pérola: “Se não houverem sobressaltos…”»

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Pedro Correia,

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Joana Nave: «O Natal é uma chama que arde em nossos corações, uma estrela que nos conduz ao destino mais almejado por todos nós: o seio da família, onde reunimos os que mais amamos para comemorar o próprio amor, que todos os anos renasce dentro de nós e transforma as nossas vidas para um novo ano repleto de desafios. Feliz Natal!»

 

Luís Menezes Leitão: «O dia de Natal trouxe-nos anúncios de prendinhas no sapatinho, só que mais uma vez não nos vão ser destinadas mas sim ao Estado, que continua a tratar os cidadãos como o Xerife de Nottingham, confiscando abruptamente os seus bens e rendimentos. E nem no dia de Natal as pessoas podem ficar sossegadas.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «A Vénus e Il Porcellino são os originais. As restantes obras são fotografias em tamanho real, aliás autorizadas pelas próprias galerias depositárias das obras, realizadas em materiais e com um acabamento que são só por si uma obra de arte e que servem para nos situar e preparar antes do encontro com a aclamada Vénus. A recriação da Piazza della Signoria é uma obra única.»

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Pedro Correia,

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Sérgio de Almeida Correia: «Há lugar para tudo. Para todos também, embora alguns nunca cheguem lá. Durante meia dúzia de horas trocam-se abraços, sorrisos, palavras piedosas, votos e presentes, muitos, sobretudo inúteis, porque faz parte da quadra, do espírito. Tretas. De permeio empanturram-se de bacalhau, de broas, bolo-rei e afins, esquartejam perus, desafiam as leis da natureza com as quantidades colossais de álcool e de doces que ingerem e ficam no ponto para atacar o Ano Novo com redobrado vigor. Até que a sua parte mais genuína volte ao caminho de sempre, ao alheamento, à rotina, aos números, aos atropelos diários, ao esquecimento, à intolerância. Ao ano civil.»

 

Eu: «Torga foi um produtor irregular de ficção, reunida essencialmente em três volumes de contos: Bichos (1940), Contos da Montanha (1941) e Novos Contos da Montanha (1944). São pequenas histórias — às vezes simples quadros — de um mundo agreste, duro, mineral, tantas vezes despojado dos mais singelos sentimentos. Um mundo povoado de sombras ancestrais, de superstições, de ritos cuja origem se perde nos confins dos tempos. Um mundo percorrido por um rasto de pobreza que irmana seres humanos e animais, ungidos pelo mesmo solo pedregoso e estéril.»

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Pedro Correia,

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Eu: «Ela – Tive a minha fase Camus, na adolescência. E O Estrangeiro é um dos livros da minha vida.

Ele – Todos os livros dele são da minha vida: O Estrangeiro, O Mito de Sísifo, A Queda, O Exílio e o Reino, O Homem Revoltado

Ela – Só li O Estrangeiro, A Peste O Homem Revoltado.

Ele – São livros mais para menino do que para menina.

Ela – Não. Camus é unissexo.

Ele – Recomendo-te antes a Condessa de Ségur. Que não é unissexo.

Ela – Eu a ti recomendo o Batman. Tem muitos bonecos, pouco texto e muita acção. Ideal para qualquer menino.

Ele – Não precisas de recomendar. Leio desde os oito anos. Batman, Fantasma, Mandrake. Só para meninos.

Ela – Como o Clube do Bolinha?

Ele – Isso mesmo, Luluzinha. Menina não entra.»

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Pedro Correia,

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Eu: «O apogeu do cinema europeu, nas três décadas que se seguiram à II Guerra Mundial, coincidiu com grandes receitas de bilheteira e teve como pilares diversos filmes que, à luz do critério adoptado pelas tais sumidades, inseriam-se nos parâmetros mais “comerciais” da Sétima Arte. Não esqueçamos que nesse mesmo período o cinema europeu — designadamente o francês e o italiano, saído da quase mítica Cinecittà, mas também o sueco, sobretudo com Ingmar Bergman — foi um dos maiores viveiros de vedetas de que há memória. Mesmo quando as equipas de filmagens desciam à rua, despindo-se do tradicional “artifício” associado ao cinema desde os tempos pioneiros de Georges Méliès. Mesmo quando a câmara se separava do tripé para encurtar distâncias entre ficção e realidade. Mesmo quando a voz off substituía os diálogos, em nítida aproximação da linguagem cinematográfica à literatura.»

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Pedro Correia,

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Eu: «Uma vez mais, reflicto sobre os juízos críticos. Ao ver na televisão um velho filme português: Nazaré, de Manuel de Guimarães, com Virgílio Teixeira e Artur Semedo. Quando este filme estreou no cinema Eden, em 1952, uma grande parte da crítica portuguesa celebrou-o como marco da Sétima Arte à escala nacional. “É tão bom que nem parece português”, entusiasmou-se o crítico de turno no vespertino República. (…) Este Nazaré é um dramalhão intragável e previsível, recheado de lugares-comuns sobre a faina dos pescadores e os seus dramas cíclicos, associados ao capricho das marés. (…) Enquanto só pretendia brincar, o cinema português era um caso sério. Quando começou a ficar sisudo, tornou-se involuntariamente risível. Durante décadas, não houve sorrisos num filme português. Ao longo de todo esse tempo, o público divorciou-se do cinema nacional, que não soube aproveitar duas gerações de actores cómicos – mal ou bem, os melhores que tivemos e ainda temos. Lidas à distância, aquelas críticas motivadas por “solidariedade” de doutrina estética parecem tão deslocadas e soam tanto a falso como alguns dos diálogos de Nazaré. O melhor e mais implacável juízo crítico é sempre o que surge do transcorrer do tempo.»

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Pedro Correia,

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Ana Vidal: «Já não aguento mais anedotas, defesas acaloradas e indignações puritanas sobre o video promocional de um escritório de advogadas de Lisboa. Deixem lá as senhoras venderem o seu peixe como sabem, podem ou sonham, deixem-nas lá tentar demonstrar a sua eficácia através de sapatos de agulha com implantes de gibóia (morta à chapada, como diria alguém que conheço com graça), mini-saias de lycra e pulseiras tilintantes de ouro chinês. Juro que não percebo como é que este assunto, que não vale um caracol, atingiu contornos de esquizofrenia colectiva. Percebo ainda menos como foi que chegou à Ordem dos Advogados em forma de queixas sucessivas.»

 

José António Abreu: «Portugal terá provavelmente mais um aumento de impostos. (O qual – e se isto diz imenso sobre o país que somos, diz ainda mais sobre o país que nunca fomos nem nunca seremos – causará incomparavelmente menos polémica do que quaisquer cortes, para além de zero suspeitas de inconstitucionalidade.)» 

 

Sérgio de Almeida Correia: «Os portugueses podem continuar a contar com o TC. Contudo, seria bom que os portugueses também compreendessem que não é ao TC que compete reformar as instituições, reformar os partidos políticos, reformar a classe política e os modelos de formação, recrutamento e selecção do pessoal político. Estas são tarefas que competem única e exclusivamente aos portugueses e que apelam a uma maior participação e envolvimento nas instituições que detêm o exclusivo da representação política no nosso sistema constitucional: os partidos.»

 

Teresa Ribeiro: «Gosto de assistir a um bom diálogo entre homens. Daqueles em que não dizem absolutamente nada e o essencial da comunicação se fica pela respiração das frases – se é que se pode chamar frases a certos alinhamentos monossilábicos – e a linguagem corporal. Esta relutância em verbalizar o que lhes vai na alma tem a ver, já se sabe, com os rigores dos códigos masculinos que aconselham a máxima prudência com as palavras. Todos sabem, porque é atávico, que as palavras falam sempre demais, seja porque desvendam ou porque mentem. Homem que é homem guarda silêncio. Guarda-se. Daí as conversas de surdos, os diálogos avaros quando não há assunto ou o assunto é pessoal e portanto intransmissível.»

 

Eu: «O primeiro-ministro e a ministra das Finanças poderiam ter dado luz verde à demissão do secretário de Estado da Administração Pública em qualquer outra ocasião menos ontem, quando lhe foi aberta a porta de saída. Em política nunca há coincidências: Helder Rosalino sai no mesmo dia em que o Tribunal Constitucional chumbou a convergência de pensões. Ficando assim transformado, com chancela oficial, em bode expiatório da incómoda decisão emanada do Palácio Ratton. Diz-me como tratas os teus, dir-te-ei quem és.»

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Pedro Correia,

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Helena Sacadura Cabral: «Não conheço nenhuma das visadas. São mulheres que decidiram romper com a tradição cinzenta da actividade que exercem. Sendo profissionais competentes e bonitas, ninguém lhes perdoa a exibição.»

 

Patrícia Reis: «Leio as notícias no computador, abençoada internet (para umas coisas, não tanto para outras), e fico a saber que a reforma será então aos 66 anos. Até eu chegar aos 50, decerto que passará para os 70. E assim sempre em frente até eu morrer sem reforma. Como desconto desde os 17 anos, tenho 43, não sou de nenhum partido, não sou da maçonaria ou do opus dei, tenho por garantido que não terei reforma ou um emprego com um ordenado estrambólico.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «O vetusto Teatro D. Pedro V abriu as suas portas para o receber. Numa noite fria, duas mãos percorreram-lhe o corpo. Dedos que se alinhavam e desalinhavam enquanto a melodia se desprendia e nos envolvia na intimidade e aconchego de uma sala centenária. Sobretudo silêncio. E também a limpidez entrecortada pela serenidade do intérprete nos seus curtos diálogos com o público. Jóia, diamante, será o que quiserem. Um momento de puro deleite na contemplação da eternidade. O efémero tem as suas virtudes

 

Eu: «Fundamental em tudo isto é a imagem de moderação que Seguro transmite aos portugueses. Separando o PS da esquerda radical, que serve para subtrair e não para somar. Mostrando, em suma, uma atitude responsável no plano institucional, própria de um líder político que está pronto para governar. E, mais que isso, que quer governar estabelecendo pontes em vez de cortar vias de diálogo.»

DELITO há dez anos


Pedro Correia,

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Ana Vidal: «Uma rosa é uma rosa é uma rosa. Declarou Gertrude Stein, pintou Magritte, nomeou Umberto Eco, humanizou Saint Exupéry, aprisionou num frasco Coco Chanel. E provei eu, hoje, em forma de uma compota hiper-enjoativa. Sabem que mais? Só os grandes deveriam atrever-se a tocar numa rosa.»

 

Luís Menezes Leitão: «Em Portugal havia uma série de gente, desde António José Seguro a Freitas do Amaral, que tinha grande esperança no resultado das eleições alemãs. Sempre achei, pelo conhecimento que tenho da Alemanha em frequentes viagens, que não valia a pena esperar nada dali. Os alemães defendem os seus próprios interesses e Angela Merkel tinha-o feito impecavelmente, pelo que era óbvio que seria reeleita. Mas, mesmo que o não fosse, não haveria nenhum Governo alemão que aceitasse a história de os alemães pagarem as dívidas alheias, que é no fundo o que significam os eurobonds. Não valia a pena, por isso, diabolizar Angela Merkel. Se há alguém que merece críticas é, pelo contrário, Durão Barroso, que foi eleito para defender os interesses gerais da União Europeia e só tem defendido as pretensões alemãs.»

 

Patrícia Reis: «Começar é fácil. Acabar é mais fácil ainda. Chega-se sempre à primeira frase, ao primeiro número da revista, ao primeiro mês de amor. Cada começo é uma mudança e o coração humano vicia-se em mudar. Vicia-se na novidade do arranque, do início, da inauguração, da primeira linha na página branca, da luz e do barulho das portas a abrir. Começar é fácil. Acabar é mais fácil ainda. Por isso respeito cada vez menos estas actividades. Aprendi que o mais natural é criar e o mais difícil de tudo é continuar. A actividade que eu mais amo e respeito é a actividade de manter. Em Portugal quase tudo se resume a começos e a encerramentos. Arranca-se com qualquer coisa, de qualquer maneira, com todo o aparato. À mínima comichão aparece uma “iniciativa”, que depois não tem prosseguimento ou perseverança e cai no esquecimento. Nem damos pela morte. É por isso que eu hoje respeito mais os continuadores que os criadores

DELITO há dez anos


Pedro Correia,

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José António Abreu: «Nenhum cão, gato ou ave do paraíso tem capacidade para detectar tolice na forma como age quando fortemente atraído por algo. Só os humanos a têm. Só os humanos conseguem perceber que estão a ser tolos e, por conseguinte, pelo menos em teoria, deixar de o ser. Não o fazendo, os humanos constituirão até os únicos tolos genuínos. Sendo que, na sua versão mais benigna (mais leve, mais etérea, mais slapstickiana), a tolice é também o oposto do cinismo, outra característica eminentemente humana. Deixemos então claro: ser tolo é muito diferente de ser estúpido ou parvalhão. Ser estúpido ou parvalhão é sempre mau. Ser tolo é frequentemente uma coisa boa.» 

 

Patrícia Reis: «Ser amigo é cuidar. É estar. É ouvir. Ser amigo é saber ser amigo. É perceber a fragilidade do outro e dizer-lhe que é uma rocha. É mostrar-lhe as brechas quando se sente uma rocha. Ser amigo é difícil, a mais complexa forma de amor. A melhor.»

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Pedro Correia,

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Helena Sacadura Cabral: «Tenho um grande defeito que vou tentar corrigir em 2014: não sei preguiçar. E eu julgo que também há um direito saudável à preguiça, desde que tenhamos trabalhado o que devíamos. Não é o mesmo que o descanso. É diferente, porque eu posso descansar a fazer um trabalho diverso do habitual, se isso me der prazer.»

 

Marta Spínola: «Ai, as pessoas, as pessoas… A todos os que têm pressa de passar ou chegar: peçam licença, vão ver que resulta, e não dói nem paga imposto.»

 

Sérgio de Almeida Correia: «Mais de dois anos depois continuamos todos, os ignorantes, sem perceber qual o critério dos caseiros que nos saíram na rifa para a atribuição das cenouras aos coelhos que nos invadiram o quintal, e que continuam com a maior desfaçatez a sair aos magotes de arbustos e cartolas quando se esperava que o chumbo dos homens da PSP já tivesse começado a assustá-los

 

Eu: «Este [Lawrence da Arábiaé um fascinante filme sobre poder, guerra e solidão. Mas é sobretudo um filme sobre a relação umbilical entre o homem e a natureza. Um filme onde, à medida que as imagem progridem – em movimentos de câmara que evoluem sempre da esquerda para a direita, ditados pelo perfeccionismo do realizador britânico -, as sombras vão ganhando terreno ao sol. Sucedem-se as batalhas, cada vez mais violentas, cada vez mais sangrentas: a conquista de Ácaba aos turcos, o massacre de Tafas, a dilacerante queda de Damasco sem ser alcançada a unidade política entre os árabes que Lawrence sonhou. De permeio acontece a sua captura pelos turcos, que o sujeitam a sevícias que não vemos mas imaginamos. “Só beduínos e deuses conseguem divertir-se no deserto”, avisara-o a tempo [Claude] Rains (no papel de Dryden, político entre militares no quartel-general do Cairo, filmado na bem reconhecível Praça de Espanha em Sevilha). Lawrence não lhe dá ouvidos: nada está escrito, ele quer cumprir aquilo por que anseia nas rotas da nação árabe. Superando-se a si próprio com a mesma tenacidade que o levara a tentar expurgar indizíveis dramas íntimos ao prestar-se a inúmeras provas que envolviam dor física.»

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Pedro Correia,

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João Campos: «Há muito tempo que os noticiários televisivos deixaram de ser espaços puramente noticiosos, lugares de rigor e de objectividade (ou da objectividade possível). Já todos vimos no espaço dos telejornais a promoção a programas e a conteúdos do respectivo canal, por vezes de carácter mais ou menos noticioso e muitas vezes nem isso. Isto, claro, para nem entrar noutras questões de qualidade informativa, de isenção e de critérios daquilo que hoje em dia passa por informação.»

 

José António Abreu: «Por razões que qualquer psicólogo de qualidade mediana (ou espectador atento dos programas matinais de TV) certamente identificaria sem dificuldade, a combinação de uma pose reservada (mais notória em palco e em entrevistas como esta, há um ano e meio no Festival de Paredes de Coura, ou esta, recente e quase dolorosa de ver) com música dramaticamente grandiosa (ou será grandiosamente dramática?) é-me atraente. Ainda por cima quando o inverso parece constituir a norma.» 

 

Sérgio de Almeida Correia: «No momento em que passa o décimo aniversário da partida de Francisco Gonçalves Pereira, o IPOR (Instituto Português do Oriente) e a Associação dos Advogados de Macau,  instituição de que aquele foi um dos principais mentores enquanto garante da autonomia, liberdade e independência da profissão, em boa hora tomaram a iniciativa de se associar à homenagem que a família e os amigos lhe queriam prestar na terra em que deu o seu melhor enquanto homem, advogado e pensador.»

 

Teresa Ribeiro: «Não acredito em salvadores da pátria. O meu D. Sebastião não tem um rosto, tem muitos. Chama-se “sociedade civil forte”. Mas para que irrompa numa manhã de nevoeiro precisa de uma opinião pública bem fundamentada, apoiada no trabalho sério de gente que acredita no poder transformador da informação partilhada. É por isso que sou fã desde a primeira hora do Má Despesa Pública, onde o escrutínio das instituições se faz com independência e sobriedade. Não é a primeira vez nem será a última que o recomendarei aqui.»

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Pedro Correia,

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Bandeira: «Hobbes escreveu no seu Leviatã que roubar um pobre é crime mais grave do que roubar um rico, mas ele publicou isso há já uns quê, quase 400 anos e veja como as coisas evoluíram. Nunca fiando: é preciso engendrar um modo de prender a lata ao balcão. Um dos reformados de serviço à mesa do dominó sugere – talvez por ligeireza na abordagem técnica do problema, ou então é piada, com eles nunca se sabe – que se use cola-tudo.»

 

Patrícia Reis: «Escapei às agruras do frio de Lisboa e cheguei à chuva do Rio de Janeiro. Volto para o Natal. Tenciono consumir o maior número possível de vitaminas de abacate:) Dizem-me que choveu desalmadamente nos últimos dias. Não me importa. Viemos em viagens que não pagámos e estamos no melhor apartamento do mundo, por termos uma amiga SENSACIONAL (obrigada, Paula!). Depois de um ano a ver como é que tudo se resolveria, é um alívio chegar aqui. Que venha 2014, estamos preparados, somos gladiadores, podemos até fazer o pino. Fazemos é o pino com imensa pinta

 

Sérgio de Almeida Correia: «Em 1513 [Jorge Álvares] terá chegado à China. Foi o primeiro europeu que lá aportou por via marítima, o primeiro em Hong Kong. Era português. Os 500 anos assinalam-se este ano e antes que terminem sem uma justa lembrança por parte de quem tinha a obrigação de fazê-lo e se queixa de estarmos numa situação de “protectorado”, hoje, em Macau, um grupo de residentes marcará o momento com a deposição de uma coroa de flores junto à estátua do navegador e uma pequena palestra evocativa. Porque é dever de todos honrar a memória dos que nos precederam. Porque não temos de ter vergonha de quem abriu caminho às relações de amizade entre Portugal e a China e ao conhecimento mútuo.»

DELITO há dez anos


Pedro Correia,

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Teresa Ribeiro: «Vou ao site e marco o número de telefone geral: 217805000. Atende a máquina: “Bem-vindo ao Hospital de Santa Maria, para informações relacionadas com urgência central, prima 1”, segundos depois oiço o apito de um fax. Ligo novamente. Desta vez escolho a opção 9, que me permite falar directamente com a telefonista. Explico o assunto, diz que vai passar para a urgência, só que o telefone toca, toca até se desligar automaticamente. Consulto melhor o site do hospital, em busca de número alternativo. Encontro o 21 780 5333, identificado como o de informações gerais. Talvez resulte, quem sabe. Mas ao fim de poucos minutos uma gravação informa-me que “lamentamos mas de momento não é possível atender a sua chamada, por favor tente mais tarde”.»

 

Eu: «Interrogo-me por que motivo as televisões não produzem, genericamente, os seus próprios comentadores. Preferem ter comentários proferidos por jornalistas da imprensa do que por jornalistas oriundos dos seus próprios quadros redactoriais. Custa-me entender o que ganham com a troca.»

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Pedro Correia,

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Patrícia Reis: «Nós, nascidos na década de 70, fazemos parte da geração que não fez o 25 de Abril, temos uma democracia muito nova do ponto de vista histórico, são apenas 40 anos. A única vez que nos manifestámos antes da Troika? Não se lembram? Foi por Timor-Leste. Portugal saiu à rua por um país que abandonou em 1975. Um dos países mais jovens do mundo. E se tivesse que  fazer um país de novo, e no nosso caso é uma utopia e até por termos as fronteiras mais antigas da Europa, continuaria a apostar fortemente na educação

 

Sérgio de Almeida Correia: «Os que não conseguem perceber a profundidade de tudo o que se esconde por detrás da autenticidade de um gesto simples, de uma troca de sorrisos, de um olhar rápido e furtivo, nunca perceberão nada da vida.»

 

Teresa Ribeiro: «Há dias difundi aqui um anúncio de jornal que me impressionou. Logo alguns comentadores se apressaram a insinuar que a história não parecia crível. Duas pessoas cultas, com tantas habilitações e a oferecerem-se para caseiros? Soa a demasiado desespero para quem – e agora insinuo eu – aprova esta austeridade musculada mas não gosta de se expôr à informação sobre os seus efeitos adversos na sociedade. Pois a SIC decidiu e bem ir à descoberta do casal e ontem, no Jornal da Noite, divulgou a sua história. Pormenor não dispiciendo:  os autores deste insólito anúncio garantem que nunca viveram acima das suas possibilidades. Tiveram apenas um azar, ficaram os dois desempregados na casa dos 50.»

 

Eu: «Sempre me questionei sobre o motivo da longevidade dos pintores, muito superior à de escritores e músicos, e apenas equiparável à dos arquitectos. A chave dessa incógnita pode estar na frase de Picasso que cito em epígrafe: o pintor tem uma relação única não só com o espaço mas também com o tempo.»