
6 de Maio, canal Now: entrevista de 39 minutos

12 de Maio, canal CNN Portugal: entrevista de 53 minutos
Nos meus dicionários, exclusivo significa algo raro, restrito, reservado, especial, específico. Único.
Terei de rever este conceito, desmentido na prática pelos canais de TV portugueses. Cada vez que entrevistam André Ventura, o que acontece a uma cadência acelerada, colam-lhe a fatal palavra de nove letras. Já sem significado algum, à força de ser repetida até à náusea.
«A reforma laboral é a escravatura moderna.»
«As pessoas não querem ouvir falar de reforma laboral, querem ouvir falar de reforma salarial.»
«Se ser de direita é trabalhar até morrer então eu não sou de direita!»
«Devia era haver uma reforma laboral para os políticos!»
Na mais recente, disparou rajadas como estas, cada qual mais demagógica do que a outra. É o primeiro político em Portugal inteiramente moldado pelas redes sociais: diz cada frase, a todo momento, a pensar nelas.
E que mais? Quer em Portugal 27 dias úteis de férias anuais como na Alemanha, 28 como no Reino Unido ou até 30 como na Áustria. «Porque é que os portugueses hão-de ter menos férias do que os outros?»
Despudorada caça ao voto, mesmo sem eleições no horizonte. O camarada Raimundo até se rói de inveja.
Vai prosseguindo assim, de “exclusivo” em “exclusivo”. Aumentar salários, aumentar pensões, aumentar dias de férias, baixar todos os impostos, baixar a idade da reforma – enquanto a amiga Giorgia Meloni, em Itália, se prepara para a subir até aos 67 anos já em 2027.
Tudo ao mesmo tempo, sem uma palavrinha sobre a necessidade de robustecer o anémico PIB nacional.
Eis o país das maravilhas no discurso venturista – o de alguém que no fundo não aspira a ser governo. Entende-se porque atrai hoje tanto antigo voto comunista. Exibe a mesma retórica, alude à mesma economia baseada no pensamento mágico. Usa e abusa do palavreado que durante 40 anos mobilizou a esquerda à esquerda do PS
Ventura roubou-lhes esse vocabulário, esse método, essas bandeiras. Apropriou-se desses eleitores. Tem sucesso garantido como nunca – no campeonato da demagogia. Talvez a única conquista verdadeira que o seu currículo registará.