Ligação para um texto meu no verdadeiro Delito
João Sousa,
Vamos ter a directora do jornal de propaganda do PS, Edite Estrela, a presidir à assembleia da república. Como se apenas ser Edite Estrela não fosse já suficientemente mau.

Encontro em Monsanto de António Costa
com personalidades independentes da cultura e do desporto
Quando li numa notícia a frase de Rosa Mota e os gorjeios do Valter Hugo Mãe em Monsanto, então aflorados aqui no blogue pelo José e hoje pelo João Pedro Pimenta, recordei-me logo do seguinte naco de prosa publicado há meses no Luta Popular:
“O governo fascista de António Costa trata os artistas e os trabalhadores da cultura abaixo de cão. Claro que há os artistas da corte, os pimbas e os versejadores da corte. Não nos referimos a esses vendidos.”
O Luta Popular pode ser uma leitura divertida pela alucinação dos seus redactores, mas ser-se alucinado não impede que não se acerte, ocasionalmente, no alvo: “corte” é uma descrição perfeita do que sempre tem rodeado o PS. Primeiro, temos a corte de eternos “independentes” que apoiam qualquer líder socialista, em alguns casos até apresentando-se nas listas de candidatos para, quando eleitos, cederem o lugar a um dos anónimos funcionários do partido. Depois, há a corte da Cóltura, sempre disposta a servir de flor na lapela dos líderes do PS. Este beija-mão a Costa, feito por esta corte cóltural, não é mais do que uma reencenação de vários outros do passado – como em 2011 a José Sócrates.
A realidade da vida e o desejo de higiene distanciaram-me desta campanha eleitoral. Isso não impediu que eu visse, com alguma surpresa, as sondagens transformarem o PS de arrogante “isto é um passeio talvez até rumo à maioria absoluta” em aflito “aiaiai vamos lá a ver se ganhamos isto nem que seja por poucochinho”. As sondagens, sabe-o quem me conhece, merecem-me cada vez mais cautelas: li que algumas das que vieram a público baseiam-se em não mais do que 150 respostas válidas, o que resulta no curioso facto de previsões para a composição do parlamento basearem-se em menos sondados do que os ocupantes do próprio parlamento.
Mas, apesar das minhas cautelas, uma tendência insinua-se: proximidade dos maiores partidos; proximidade dos blocos de pequenos partidos; e proximidade dos grandes blocos direita/esquerda. Quando alguém como Vital Moreira avança explicações para uma hipotética derrota eleitoral de Costa, é sinal de que o PS está a levar a sério a ameaça.
[E nessa – remota, prevejo – eventualidade, até tremo a imaginar capas do Expresso comparando a derrota pós-covid de Costa à derrota pós-guerra-mundial de Churchill].
Quem me conhece também sabe a minha opinião sobre o eleitorado: Portugal é um país cujo centro de massa político está bastante desviado para o lado esquerdo. Nos últimos vinte e sete anos, recordo, o PS perdeu o poder apenas em duas ocasiões: após a fuga de Guterres de um pântano de onde fumegava o cheiro a bancarrota; e após a bancarrota de Sócrates.
O que explica, então, este evoluir das previsões?
Eu avanço com uma teoria:
Finalmente, parece que encontrámos uma causa capaz de federar o eleitorado de centro-direita e até atrair algum de esquerda com bom gosto: a emigração do insuportável Tordo-pai.
Um familiar debate-se, há coisa de um mês, com determinado sintoma físico (razoavelmente incomodativo) que começou esporádico ainda no ano do covid, tem reaparecido com regularidade e para o qual o SNS, na pessoa do centro de saúde local ou da urgência do hospital regional que já teve de visitar um par de vezes, não conseguiu ainda identificar a causa (se se esforçou muito por isso, não o sei – doutores House não parecem abundar no nosso SNS). Foram-lhe sendo receitados antibióticos e analgésicos, talvez para parecer que algo está a ser feito.
Na última quinzena, juntaram-se aos sintomas habituais fortes dores abdominais, para as quais já nem os analgésicos de dose cavalar receitados parecem ser suficientes e o obrigaram a dormir (o pouco que foi conseguindo dormir) sentado num sofá pois deitar-se não é suportável.
Com a ausência de melhorias (e escrever isto é ser um tanto eufemístico), conseguiu hoje arrastar-se (de novo) ao seu centro de saúde onde a médica, perante o evoluir do seu estado, acho por bem instá-lo a recorrer (de novo) às urgências hospitalares, entregou-lhe uma carta para ele entregar aos serviços do hospital na qual (supõe-se, pois estava fechada) descreveu o seu caso, e até o aconselhou a não almoçar pois receava haver uma possibilidade de ele ter que ser submetido a uma cirurgia de urgência.
Deu entrada no hospital às 14:03, onde na triagem lhe atribuíram a “pulseira verde” porque, e cito, “ele não estava em risco de vida evidente”. Às 19:35, ainda nada mais lhe tinha sido feito. A carta da médica de família, se chegou a ser aberta, terá por certo sido lançada para o monte de folhetos do Lidl que alguém, daqui a dias, levará para o contentor da reciclagem. E o tempo de espera para os “pulseiras verdes” serem atendidos por um médico era, quando ele chegou, de nove horas. Repito: nove horas. Com um pouco de azar, este texto ainda é publicado antes que isso aconteça.
Quando eu era jovem, ingénuo e acreditava em coisas, pensava que suportávamos um SNS para cuidar da saúde do cidadão. Quando eu próprio tive o azar de entrar no seu sistema, mudei de opinião: o SNS não cuida da saúde do cidadão, o que faz é gerir a saúde do contribuinte. Agora, começo a suspeitar de que nem isso: o SNS não gere a saúde do contribuinte, gere a vida do contribuinte.
E eu gostava de saber onde está agora o jornalismo que, noutros tempos, noticiava qualquer ambulância que avariasse. Costa, esse, vai-se mostrando bastante satisfeito com a sua obra.
A ministra do trabalho, Ana Mendes Godinho, disse, em entrevista publicada hoje: “Se bem me lembro, entre 2011 e 2015, o salário mínimo em Portugal aumentou 20 euros”. Ora se bem me lembro, entre 2011 e 2015, também aconteceu aquele pormenor de Portugal estar a resgatar-se da bancarrota deixada pela governação do PS de Sócrates – governação da qual, se bem me lembro, a ministra até fez parte (ela e, de resto, muitos dos seus colegas actuais).
Recentemente, o Bloco de Esquerda decidiu colocar nas estradas e terras de Portugal este novo cartaz:
Joacine Katar Moreira, a propósito dele, tuitou a pérola que se segue:
Prisioneiros das suas fúrias, ódios e fundamentalismos, muitos activistas transformam-se nisto: sátiras de si próprios.
Ou… será que temos estado enganados desde o início? Será que esta Joacine Katar Moreira, incensada por alguns, não passa afinal de uma versão ainda mais rebuscada da Titania McGrath, personagem satírica criada pelo humorista Andrew Boyle?
Quando vejo os gestores políticos da pandemia manifestarem intenções que vão contra o defendido por especialistas e, pouco depois, comissões técnicas apresentarem relatórios que avalizam essas mesmas intenções, não consigo evitar a dúvida: afinal temos políticos a decidirem com base na ciência de técnicos, ou técnicos a aplicarem um verniz de ciência às decisões de políticos?
Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana.
Um apoiante de Rui Rio (ou talvez um funcionário do call-center ao qual Rio delegou a sua campanha?) achou por bem criar um perfil no Facebook, supostamente de Passos Coelho, onde este expressaria o seu apoio em Rui Rio. Passos Coelho já veio a público declarar não ter nada a ver com o assunto. A maior ironia é que Rui Rio foi muito mais esforçado na sua oposição ao governo de Passos Coelho do que alguma vez foi na oposição (qual oposição?) ao governo de Costa.

(cartoon de Henrique Monteiro)
“António Costa tem que olhar à esquerda e tem que olhar à direita.”
Há coisa de duas semanas, uma empresa de “investigação e estudos de mercado” (a Pitagórica) veio aqui ao bairro fazer uma sondagem sobre as autárquicas: se eu ia votar, se não ia votar, em votando se iria manter o sentido de voto, se eu pensava que o partido vencedor seria o mesmo ou um diferente, coisas do género. Isto pode não significar nada, mas a verdade é esta: nunca, desde que eu moro aqui, alguma empresa de sondagens alguma vez mostrou interesse em qualquer um dos meus votos. Sondagens sobre os meus hábitos de leitura, o meu consumo televisivo, a minha vida sexual, isso é mato: raro é o trimestre durante o qual não recebo o telefonema da praxe. Mas questões relacionadas com política – nunca.
Durante esta semana, o bairro foi regularmente sujeito aos raides de uma viatura de propaganda do PS. Na quarta-feira, a traquitana chegou mesmo a estacionar durante meia-hora aqui no cruzamento central, infernizando-nos o almoço com o altifalante. Além disso, no dia anterior, alguém encheu-me a caixa de correio com um jornal de campanha do PS: 24 páginas (que seguiram imediatamente para o Ecoponto) de conversa fiada que superavam, na quantidade, o próprio Boletim Municipal.
Este bairro não passa de quatro ruas, nenhuma delas com mais de trezentos metros, que se cruzam duas a duas numa espécie de jogo do galo. Raro é o prédio que tenha mais de três andares. É estranho tal investimento propagandístico do PS aqui. Aliás, a campanha do PS em todo o concelho tem sido bastante sobredimensionada, exibindo em largos cartazes o apoio de figuras mais ou menos públicas como um cozinheiro assíduo das televisões.
E o PS, por acaso ou talvez não, é cliente da Pitagórica.
O PS pode até admitir, como dizem nos jornais, perder 10 a 15 autarquias nestas eleições – mas estou convencido de que o PS tem genuínas esperanças de ganhar a Câmara do Seixal à CDU.
Não é incomum, quando digo a alguém que moro no Seixal, esse alguém fazer uma piada como “Eh pá, tu moras na terra vermelha”. É uma certa ideia feita, esta, a de que o Seixal é um antro de comunistas. Acontece que não é, de todo, verdade. A autarquia, sim, tem sido comunista desde (talvez) sempre. Mas é-o em largo contraste com as eleições nacionais onde, desde pelo menos 2009 (não recuei mais, por falta de tempo, nas minhas investigações), o concelho é uma espécie de socialistão:
2009
PS: 34,82%
CDU: 19,17%
2011
PS: 28,72%
PSD: 24,87%
CDU: 18,86%
2015
PS: 34,09%
PSD: 23,14%
CDU: 17,85%
2019
PS: 38,80%
CDU: 15,13%
Nas autárquicas, apesar da manutenção do PCP no poder, é notório um contínuo encurtar da distância do PS:
2005
CDU: 44,74% (24.293 votos)
PS: 23,85% (12.950 votos)
2009
CDU: 47,85% (27.949 votos)
PS: 22,41% (13.090 votos)
2013
CDU: 43.42% (22.658 votos)
PS: 23,78% (12.409 votos)
2017
CDU: 36,87% (21.901 votos)
PS: 29,60% (17.582 votos)
O PS deve estar a sentir o cheiro de sangue na água. Acredito haver o sério risco de uma “vitória surpresa” do PS no Seixal que até serviria para atenuar o impacto mediático de algumas derrotas noutros locais. As mudanças demográficas aqui do concelho não estão, de todo, a ajudar a CDU – mas isto será (talvez) assunto para uma outra ocasião.
O beato Diário de Notícias publicou hoje este destaque na sua capa:
Suponho que amanhã, para não ficar atrás nas graças de Sua Excelência o Presidente do Conselho de Ministros e até para manter a coerência narrativa, o Expresso encontrará forma de publicar esta fotografia:
Parece haver um certo incómodo (em pouco mais do que três pessoas no país) pela ministra da saúde aproveitar a boleia do seu carro ministerial para fazer uma acção de campanha com o candidato do PS no Porto. Não percebo a polémica: se já se sabia que o dinheiro que é do Estado é do PS, porque diabo não haviam também os carros do Estado de serem do PS?
Queriam o quê? Que a ministra andasse de Clio?
“Palavra que me aconteceu: olhando um desses autedores que enxameiam algumas das nossas vias de comunicação (estou ou não em condições de elaborar um relatório policial?), dei por mim a pensar o que ofereciam politicamente à sua autarquia um par de jarras que sorria para a câmara enquanto em legenda se podia ler que estavam “juntos por si”.
Uma fracção de segundos depois é que reparei que não era de política que se tratava, mas sim de imobiliário. Os dois sorridentes da foto (até o imobiliário se encontra rendido às maravilhas do trabalho em equipa), aparentemente não me estavam a querer convencer a votar numa qualquer candidatura autárquica, mas sim só me queriam ajudar a comprar um apartamento. Enquanto duvidava da minha acuidade visual (ao longe), pensei que o busílis da confusão se encontrava menos na semelhança entre as duas actividades (autarca e agente imobiliário) do que no esgotamento de frases que queiram transmitir mais do que nada.”
Abafada pelo burburinho noticioso, passou-me despercebida a morte, na segunda-feira, de Jean-Paul Belmondo, um ícone cool francês. Foi pugilista amador; quis ser palhaço; viveu com Ursula Andress (que nunca o esqueceu); foi um dos rostos da Nouvelle Vague; representou para vários dos grandes realizadores do cinema europeu; e mostrou-se tão confortável nos palcos de teatro como aos saltos e piruetas num carro.
Viveu uma vida bem vivida.
Sucederam-se semanas generosas para as capas de jornais e aberturas de telejornais. Foram vacinas que não são aconselhadas para jovens esperem que afinal já são, bazucadas de dinheiro que estão para chegar, festas de um partido, congressos norte-coreanos de outro, recordes e regressos de Ronaldo, livros de Balsemão, derrocadas de regimes no Afeganistão, magalhãezices do deputado Magalhães, cartazes e campanhas e debates para autárquicas… Neste maelstrom mediático, é demasiado fácil que algumas pequenas questões vão passando ao esquecimento. Como, por exemplo: quase três meses depois, já se sabe a que velocidade ia o carro de Eduardo Cabrita? Será que ainda vamos descobrir primeiro, para lá de qualquer dúvida, se Camarate foi acidente ou atentado?