A Feira do Livro nos Olivais


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(Banca de livros ofertados no “Evaldo”, entre a Rua Cidade de Bissau e a Rua Cidade de Bolama)

Os velhos cafés e restaurantes de bairro, tais como as consagradas tascas, estão a desaparecer. As razões são várias. Pelo lado da “procura” – a clientela – a mudança de hábitos é evidente, com as gentes fechando-se nas casas, abandonando as contas da rede social “vizinhança”, optando pelas grátis nas digitais e – no caso dos mais-velhos – pela infinitude de canais televisivos.

E também pelo lado da “oferta” – dos proprietários – não haverá muitas dúvidas sobre a causa desta extinção. Pois arrendar um espaço – vão de escada com postigo que seja – tornou-se empresa arrojada, até inconsciente. Mas do que isso, alteraram-se as expectativas de vida. E assim se esvaiu aquele antigo modelo do casal beirão, minhoto ou mesmo até galego, a aportar à cidade grande para dedicar a vida conjugal, de breu a breu, ao incessante e exaustivo labor de servir petiscos, “bicas” ou “penaltis” aos outros. Socorrendo-se, logo que o negócio melhorasse um pouco que fosse, de algum marçano oriundo da velha aldeia a quem mandavam “carta de chamada” oficiosa. Isso enquanto não lhes medrava a prole, esta logo que púbere posta a “ajudar”.

Nada contra isto, é uma vertente da melhoria do “Índice do Desenvolvimento Humano”. Mas este enriquecimento global trouxe também o empobrecimento local. Pois assim escasseiam, mesmo inexistem, os locais de convívio vicinal, de entreajuda moral (e não só), aqueles “centros de dia” para mais idosos ou “vespertinos” para os ariscos, tutelados pelo “amigo Quaresma” ou “Sô Claudino”, coadjuvado pela “Alice” ou “Dona Maria”. Cada um com a sua tabela de “não fiados”, tempero próprio e onde o cliente é não só alguém (o “Teixeira” ou o “Zezé” no meu caso) como encontra o habitual ror de alguéns que aprova e até demanda.

Tudo isso vem sendo substituído, esvaziando a vida cidadã. Na década de 1980 o aperto do FMI causara aquela epidemia de croissanterias às mãos das desgentrificadas da classe média remediada. Agora algumas das suas descendentes “bruncharam-se”, meneiam-se em “bistrôs” ou proselitam vegetais. E grassam as sensaboronas “cadeias”, desde a anódina lusa “Padaria Portuguesa” e suas tristes sequelas até aos evidentes investimentos em plataformas para obtenção de vistos de residência europeia, nos quais rotativos “colaboradores” servem plasticinas ditas “latte”, “kebab”, “pita shoarma” e quejandas agressões.

Face a este (cada vez mais) antipático ambiente, aqui no bairro Olivais houve recentes inovações, benfazejas. Pois foram concessionadas licenças para “barracas”, modestos estabelecimentos amovíveis que os donos trazem. E nos quais se esfalfam a trabalhar…

Na minha vizinhança, nas cercanias do pólo Centro Comercial, entre as “bocas” do metropolitano, a igreja velha, a Biblioteca e a célebre Quinta Pedagógica, estabeleceram-se duas dessas, mesmo no entroncamento da Bissau com a Bolama. Geridas por casais imigrantes brasileiros, já portugueses dadas as décadas que acumulam por cá. Modelos de verdadeiro “empreendedorismo”, essa moda ideológica reformista, de honesto “trabalho” popular, esse mais anterior valor revolucionário.

O gentil Silva, e a sua Rosângela, cumprem servindo bons pastelinhos lá na barraca amarela mesmo à saída do metropolitano – não será o “Bar Vesúvio” da Gabriela mas os veteranos vizinhos palitam os dentes e sorriem dizendo-o “Sítio do Pica-Pau Amarelo”. E voltam no dia seguinte.

Um pouco acima está a barraca de listas azul-e-branco, qual malvado F. C. Porto, e que tanto me faz lembrar as concessionadas barracas de praia (essas que agora tanta polémica causam) de “meu” São Martinho do Porto. Eu e alguns amigos dela fizemos o nosso poiso, e muitos outros vizinhos o têm feito. É o local do Evaldo, um já lusobrasileiro muito boa onda – nada daquela simpatia plástica que tantos brasileiros afixam (“isso é coisa de carioca” outros me afiançam). Pois uma gentileza mesmo, de vero sorriso afivelado na sua labuta constante.

À barraca do Evaldo chamámos entre-nós o “Leblon” (“vamos ao Leblon”, desafiamo-nos, “leblonas?” telefonamo-nos). Ali se bebe o copo vespertino, no rescaldo do dia. Comem-se uns belos hamburgueres (sim, hamburgueres, pois aqui não há ponta de xenofobia comensal) e alguns canapés, produtos preparados em casa pela D. Eugénia, sua mulher.

O casal está cá há mais de vinte anos, numa dura labuta na “restauração” (como agora se chama a esta actividade). E soube, aqui em plena rua dos Olivais, criar um “sítio”. Um espaço como aqueles que décadas atrás existiam aqui no bairro, resguardados nas “lojas” dos prédios, mas que foram mirrando e, depois, desaparecendo. Ou seja, o “Evaldo” (o nosso “Leblon”) faz “bairro”, faz “Olivais”.

E nesse registo de vizinhança, de (quase) “comunidade”, neste entre-feriados soalheiros brotou uma mostra disso, desta comunhão. Pois ali se instaurou uma Feira do Livro. Alguns clientes levam livros para oferecer, outros clientes e os passantes são convocados pelo dono, este usando uma maravilhosa expressão, o “gosta de ler livros?” – que logo me fez brotar saudades ao lembrar a forma “horas de tempo” moçambicana. E quem gosta vasculha o que lá está nesse dia, pois a oferta sempre muda, e leva o que lhe interessar. Outros animam-se e regressam com dádivas num simpático “boa ideia!”. E vai-se bebericando, sendo vizinho.

Fazendo Olivais. Aparece por lá! Apareça por lá. Com uns livros para dar. Ou em busca de um qualquer livro… Sendo vizinho.

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(Postal antes colocado no meu “O Pimentel“)

Os ciclos longos


Paulo Sousa,

Há algum tempo atrás tropecei num alfarrabista que vende velhas relíquias on-line e, desde então, já adquiri vários clássicos sobre os quais me tenho debruçado. Se a estória ficasse por aqui não teria o merecimento de chegar a postal, mas após a compra mais recente, a surpresa foi para além da sempre agradável sensação de cheirar um livro antigo. A obra em causa foi incluída no lote para que conseguisse atingir o valor de compra que dispensava a cobrança dos custos de envio. Poderá não ser um mui nobre motivo de escolha, mas as glórias e as misérias andam frequentemente de mão dada.

O livro é o “Noventa e três” de Victor Hugo. Do que me recordo do momento da escolha foi qualquer coisa como, o autor tem algumas obras mais conhecidas, mas, quem sabe, vamos lá ver o que é que sai daqui.

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Um par de dias volvidos, na volta do correio, que é como quem diz, depois de ir buscar a encomenda ao quiosque contratado pela distribuidora, abri o livro e reparei que, logo na primeira página, tinha uma nota manuscrita.

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Março de 1955, Maria José … não consigo entender o apelido. O meu primeiro pensamento foi para a data. Já lá vão 71 anos. O propósito, ser lido, continua funcional assim como a mensagem de Victor Hugo.

Na página seguinte, outra surpresa.

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Desde que foi impresso, este livro nunca foi devidamente aberto e, como é óbvio, nunca foi lido. Olhado para todas aquelas folhas em continuo simplesmente dobradas e encadernadas, entende-se o método de fabricação, assim como o pouco rigor no corte das páginas o que, não sendo nada que impeça a sua leitura, é algo a que já não estamos habituados.

Quem o editou, a Livraria Editora Guimarães & Cª, sediada na Rua da Misericórdia, 68/70, em Lisboa, assim como quem o compôs e imprimiu, a firma Lucas & Cª, sediada na Rua do Diário de Notícias, 61, Lisboa, nunca imaginou que, mesmo tendo sido adquirido em 1955, só em 2026 é que iria finalmente ser lido. É um longo ciclo que se encerra.

Será que daqui a 71 anos alguém irá igualmente consubstanciar um propósito de algumas das nossas intenções de hoje?

A Páginas Tantas, de Carlos Brito


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Após a sua morte li alguns livros de Carlos Brito, entre os quais este romance “A Páginas Tantas” (2000). A trama é pouco refinada – mas suportaria um folhetim televisivo. Decorre durante a queda do muro de Berlim, entre personagens algo tipificadas, representativas do espectro de sensibilidades políticas dos resistentes ao Estado Novo. O mote político é a ascensão ao poder – então o PSD de Cavaco Silva – de Valdez. Este fora um exilado, líder de um pequeno grupo maoísta avesso aos “sociais-fascistas e revisionistas do PCP”, que refutavam a luta armada e por isso vistos como instrumentos “para controlar a classe operária”.

Brito recupera o diagnóstico de Cunhal sobre os radicais “pequeno-burgueses de fachada socialista”, alertando não serem (todos) “más pessoas” (p. 77), mas faz desse Valdez um arquétipo. Rodeado de uma “fauna dos gabinetes” (os futuros “boys”, diz mesmo), literalmente gulosa e voraz – enquanto os camaradas surgem em cenas comensais com apetite jubiloso, pois legítimo, um traço moralista evidente -, o ex-maoísta é desprovido de valores, tendo ascendido a Secretário de Estado da Cooperação e rumar a Ministro dos Negócios Estrangeiros (é impossível não pensar tratar-se de um decalque de Durão Barroso). Mas pressionado por uma conspiração através dos “serviços de informação” – o que traduz a percepção de uma omipresença de uma “Pide” na democracia – acaba por sair do governo e transitar para a administração dos grandes interesses económicos, o verdadeiro poder.

Mas o mais interessante, pois tão actual, deste Valdez é uma sua antiga proposta – que lhe causa a demissão governamental. Pois em finais do Estado Novo, o líder maoísta exilado havia defendido fazer confluir vagas de emigrantes portugueses para o pequeno Luxemburgo, numa “substituição demográfica” que o tornasse trampolim contra a ditadura portuguesa. Ou seja, o ficcional Valdez surge como um precursor da actual e explícita Irene Montero do PODEMOS, e de tantos outros implícitos, na ânsia de que a imigração altere os contextos políticos nacionais.

O outro mote do livro é a apresentação da mundividência dos “antifascistas” naquele final de ciclo histórico, em particular a dos comunistas. Num ambiente em que “não há separação das vidas pessoais da política” (p. 122). Tão nítido quando Rogério e Ester, antigos maoístas convertidos aos partidos sistémicos, se casam e “selaram a união com os papéis oficiais e uma pequena festa que reuniu os correligionários mais próximos de cada um, visto que tinham divergido politicamente e rumado para diferentes destinos partidários” (45). Nesse registo existencial a prática comunista surge assente na moral. Diz um militante, dos rijos: “Temos um coração maior… Recuso qualquer insinuação de fanatismo. Chamo-lhe antes amor pelos outros, especialmente pelos mais sofredores e injustiçados… parece que bebi a punção de advogados dos oprimidos, seja qual for o lugar do mundo onde se encontrem…” (p. 123).

A “queda do muro”, a desagregação comunista, é sofrida, pois os “americanos” recuperam terreno com “o fim das democracias populares”. E vista através do alijar de consequências teóricas e políticas, pois devida a “meros erros de prática6 dos “gorbatchoves” (p. 189). Face à catadupa das notícias entre os militantes invectivam-se “as barbaridades” da televisão, contra a “hedionda manipulação histórica” esquecendo a “luta contra os nazis” (p. 160), esta sempre justificativa da realidade posterior.

E a isso se alia o diagnóstico sobre a correcção do PCP. Um calibrado militante esclarece terem um programa pluralista e já feito profíqua e suficiente autocrítica face aos rumos soviéticos (pp. 174-175). Alertando para a “furiosa” “campanha anticomunista” que adviria e refutando o fraccionismo “divisionista” (pp. 170-171) – a realçar pois Brito terá tido invectivas desse teor. O cerne do livro surge na explicação do título, en passant, numa recusa que é lamento: “E de repente, a páginas tantas, querem transformar-nos, a nós que sempre fomos vítimas, em carrascos” (p. 176).

É certo que Brito faz falar várias personagens, nisso várias perspectivas sobre as ocorrências passadas e contemporâneas. Mas do global não se retira algum nítido afastamento do autor das visões mais generalizadas entre os seus camaradas. E, acima de tudo, resta um substrato moral como justificativo da vida política. Moralista, de facto. O que é escasso para quem se dedicou à militância através de uma perspectiva que se disse – e impôs com extrema acidez e virulência – como “científica”. Mas das leituras ficou-me também outra visão: a de que o autor terá sido um homem firme mas plácido, com a qualidade de leitor de Simenon. E bem-intencionado. O que é, moralismos à parte, mau na política, pois originando rumos tétricos, comprova-o a história.

[Parcela de um texto mais longo, “O anticomunista primário“, que publiquei no meu blog “O Pimentel“]

O 25 de Abril na Freguesia


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Pode ser uma imagem de livro, diário e texto

 

Cá nos Olivais este ano o 25 de Abril comemora-se não descendo a “Avenida” mas sim a Bissau, numa agitada Feira da Bagageira, depois parando na boa “Barraca do Evaldo” – essa a que alguns “habituais” chamam “o Leblon”, pois é ele brasileiro por cá há décadas, gente boa, feito símbolo desse Abril democrata, avesso a grunhidos xenófobos/racistas pois fiel à sageza do sábio povo afixada no tradicional mandamento “bem-vindo seja quem vier por bem”.

 

Antes vasculhei a Feira, de quinquilharia, trapos e monos feita… Os livros nada valem!, como é sabido. Por 2,30 euros, as moedas que tinha, saio com um Tolstoi, que terei em casa mas apenas por este ser exemplar em estado impecável da lendária colecção Unibolso (e com tradução – presumo que do francês – de António Sérgio), mais um de crónicas do Rui Zink, também intocado. E ainda uma História da Literatura Grega, nunca folheado apesar de publicado pela velha Estúdios Cor em 1973 (!).

 

Mas os livros nada valem!, repito. Pois reparo nem neste 25 de Abril alguém leva (por meros 50 cêntimos, presumo), o “Portugal e o Futuro” do general Spínola, que tanta lama agitou naquele tempo.

 

Enfim, para os que resmungam com a data: a gente passou a poder ler o que quer. O problema está mesmo nisso que aqui resmungo: agora os livros nada valem!

Morreu Desmond Morris


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O macaco nu, Desmond Morris Almada, Cova Da Piedade, Pragal E Cacilhas •  OLX.pt

Aos 98 anos morreu Desmond Morris. Como aconteceu com tantos dos seus leitores da minha geração, conheci-o através do célebre “O Macaco Nu”, que li aos 17 anos.

Por vezes vejo conversas sobre quais os melhores “começos” literários (”Já não temos começos!”, queixou-se George Steiner, não exactamente sobre essa questão…), os grandes arranques romanescos. Não sou eleitor nessa matéria, mas não contestarei a primazia dada ao “Era o melhor de todos os tempos, era o pior de todos os tempos, era a idade da sabedoria, era a idade do disparate, era a época da fé, era a época da descrença...” de Dickens (no “História de Duas Cidades”).

Mas sobre começos de ensaios? Caramba, voto sempre neste, pois ainda me lembro do júbilo nesse imediato pós-Natal ao deparar-me com esta viril entrada:

Existem actualmente cento e noventa e três espécies de macacos e símios. Cento e noventa e duas delas têm o corpo coberto de pêlos. A única excepção é um símio pelado que a si próprio se cognominou Homo sapiens. Esta insólita e próspera espécie passa grande parte do tempo a examinar as suas mais elevadas motivações, enquanto se aplica diligentemente a ignorar as motivações fundamentais. O bicho-homem orgulha-se de possuir o maior cérebro dentre todos os primatas, mas tenta esconder que igualmente o maior pénis, preferindo atribuir erradamente tal honra ao poderoso gorila.

E segui a leitura, encantando-me com o etólogo.

(Versão curta de postal no meu “O Pimentel“)

Quantos destes cem?


Pedro Correia,

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Tenta ser uma lista canónica. Conseguirá alcançar este objectivo? Os leitores que julguem. Os cem melhores romances de autores britânicos de todos os tempos – títulos escolhidos por 82 críticos de vários países anglófonos espalhados pelo mundo a pedido expresso da BBC. 

Entre os quinze primeiros, figuram sete obras escritas por mulheres: Middlemarch (George Eliot), To the Lighthouse e Mrs. Dalloway (Virginia Woolf), Jane Eyre (Charlotte Brontë), Wuthering Heights (Emily Brontë), Frankenstein (Mary Shelley) e Pride and Prejudice (Jane Austen). Merecem ou não este destaque? Que outros títulos deviam aqui figurar mas estão ausentes?

E, dos cem aqui seleccionados, quantos vocês já leram?

Quem quiser, responda.

Eu já contei, revelo depois. 

Livros que mudam as nossas vidas


Cristina Torrão,

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Entre a primeira publicação deste romance histórico e a sua tradução em português contam-se vinte e nove anos. O da esquerda foi por mim comprado em Londres, em 1996. A edição portuguesa é recente, de Outubro passado.

Nos meus primeiros anos na Alemanha, a fim de continuar a praticar o inglês, o meu marido costumava oferecer-me livros neste idioma. Um dia, chegou a casa com o romance histórico The Reckoning. Eu nunca tinha ouvido falar da autora. E, depois deste livro, decidi ler tudo quanto ela tivesse escrito.

No dito ano de 1996, aproveitei uma breve estadia em Londres para entrar numa enorme livraria e comprar todos os seis romances (em edições de bolso da Penguin) de Sharon Kay Penman que lá encontrei (na altura, a autora publicava como Sharon Penman). Escolhi uma grande filial de uma conhecida rede inglesa de livrarias para precisamente aumentar a possibilidade de encontrar diferentes livros da autora.

Os romances de Sharon Kay Penman influenciaram grandemente a minha vida. Em primeiro lugar, convenci o meu marido a passar uma semana de férias no País de Gales, depois de ler a sua trilogia sobre os últimos tempos dessa nação como Principado independente e a sua conquista pelo rei inglês (séculos XIII, XIV). A autora escreve de maneira tão fascinante sobre todo o processo, que me pôs com uma vontade irresistível de ir conhecer essas paragens.

A maior influência exercida por Sharon Kay Penman em mim foi, porém, a minha resolução em escrever romances históricos. Ela provocou uma verdadeira odisseia na minha vida, na procura pormenorizada de factos históricos, durante anos e sem grandes meios, a fim de escrever romances sobre os dois mais importantes reis da nossa época medieval: D. Afonso Henriques e D. Dinis. E acabei igualmente por escrever, já em 2018, sobre D. Teresa.

Sharon Kay Penman, falecida em 2021, não estava ao nível de um Nobel, mas possuía grande sensibilidade, levando-nos a apaixonar-nos pelas suas personagens, fazendo das suas lutas as nossas lutas, alegrando-nos, sofrendo e mesmo chorando junto com elas. Pouco mais se pode exigir de uma escritora, ou escritor.

Sempre me entristeceu o facto de os seus livros não estarem traduzidos em português. Foi, por isso, uma agradável surpresa tomar conhecimento deste. O título Quando Cristo e os seus Santos Adormeceram é uma frase tirada de uma crónica medieval, sobre o período em questão: Never before had there been greater wretchedness in the country…And they said openly that Christ and His saints slept (The Peterborough Chronicle).

Os acontecimentos relatados nestas mais de 700 páginas são contemporâneos do nosso Afonso Henriques. No século XII, a Inglaterra foi devastada por uma guerra civil durante dezanove anos. O único filho varão de Henrique I morreu jovem, ao afundar-se a sua embarcação na travessia do Canal da Mancha. Henrique I nomeou sucessora a filha Matilda, conhecida como imperatriz Maude por ter sido casada com o imperador germânico Henrique V. Matilda enviuvou muito cedo e regressou a Inglaterra. Mas, por ser mulher, foi o seu primo Stephen quem acabou por ser coroado, depois do falecimento do rei.

A imperatriz Maude nunca se conformou. Ela e o rei Stephen digladiaram-se numa sangrenta e longa guerra civil (que decorria ainda por alturas da Conquista de Lisboa, a razão por não terem saído de Inglaterra tantos cruzados como seria de esperar). Matilda nunca conseguiu alcançar o trono, mas foi o filho do seu segundo casamento quem o herdou, dando início a uma das mais conhecidas dinastias da História. Henrique II, marido de Leonor da Aquitânia e pai dos famosos Ricardo Coração de Leão e João Sem-Terra, foi o primeiro rei Plantageneta. O seu pai francês era conhecido por esse título, aliás, uma alcunha, pois, verdadeiramente, ele era conde de Anjou.

A edição portuguesa foi traduzida por Elsa T. S. Vieira e publicada pela Kathartika.

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Feliz Natal

Livros: dez sugestões de Natal


Pedro Correia,

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A VIDA POR ESCRITO, de Ruy Castro (Tinta da China). Escreve com a elegante desenvoltura de muito poucos, utilizando a língua portuguesa com talento e requinte. O mineiro Ruy Castro, carioca do coração, ensina a escrever biografias. É algo que o leitor possa aprender? O irónico subtítulo “ciência e arte da biografia” basta para suscitar sérias dúvidas. Mas aqui o essencial é aquilo que o autor nos narra, a pretexto de revisitar os livros que foi publicando – com destaque para histórias ligadas às vidas de Carmen Miranda, Garrincha, Nelson Rodrigues, João Gilberto e outros gigantes da cultura, do espectáculo e do desporto brasileiro. Mundo de algum modo nosso também.

 

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ABRIL EM NOVEMBRO, de Rui Salvada (Lisbon Press). Quase meio século depois, a Revolução dos Cravos lembrada por quem a fez. Exemplo de história com fontes directas, que participaram nos acontecimentos e ainda cá estão para nos contar. Com factos, não com mitos. Homens que foram à guerra e depois lhe puseram fim. Como o coronel Luís Oliveira Pimentel, em 1974 capitão de Infantaria: «O 25 de Abril teve dois grandes motivos, o primeiro foi a ultrapassagem dos oficiais do quadro permanente que ficavam ali parados (…) e o segundo foi o reforço da convicção de que fazer a guerra não levava a lado nenhum.» Também se fala do 11 de Março e do 25 de Novembro de 1975.

 

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O DEVER DE DESLUMBRAR, de Fillipa Martins (Contraponto). Em ano de centenário, Natália Correia (1923-1993) foi lembrada até na Assembleia da República, onde esteve como deputada – primeiro do PSD, depois do efémero PRD. Esta extensa biografia desvenda-nos muito sobre a vulcânica escritora açoriana que a seu modo, bem peculiar, lutou pela liberdade antes e depois de 1974. Filipa Martins já tinha recordado a autora de Não Percas a Rosa ao escrever o argumento da excelente série Três Mulheres, exibida na RTP. Aqui vai mais longe, evidenciando muito do brilho da biografada sem ocultar várias sombras de quem escreveu «Ó subalimentados do sonho! / A poesia é para comer.»

 

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TODOS OS LUGARES SÃO DE FALA, de Paulo Nogueira (Guerra & Paz). Um dos melhores livros publicados sobre a dita “cultura do cancelamento” que vem anulando a liberdade de expressão em muitos países europeus. Vaga iniciada nos EUA a pretexto de justas causas, como a do feminismo com marca #MeToo ou do anti-racismo após o homicídio do negro George Floyd por um polícia branco em Minneapolis. «Uma das principais armas das guerras culturais do século XXI é precisamente o cancelamento: a obliteração do interlocutor, a mordaça digital. Na realidade virtual, o linchamento é electrónico», alerta Paulo Nogueira, escritor e cronista brasileiro que viveu 25 anos em Portugal.

 

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PARA QUE SERVE O PCP?, de Adelino Cunha (Saída de Emergência). Prestes a sofrer talvez o seu pior resultado eleitoral de sempre, o Partido Comunista Português é aqui analisado por um historiador que se especializou nesta área e já publicou obras marcantes, como a biografia do injustiçado Júlio Fogaça, destituído por Álvaro Cunhal no comando do partido durante o salazarismo. Aqui se fala dos anos de fundação do PCP, desde as raízes anarco-sindicalistas à imposição do marxismo-leninisto – “bolchevização”, para usar um vocábulo muito em uso naquela época. Com o primeiro secretário-geral (Carlos Rates) acabando a defender Salazar na União Nacional. Tempos que já não voltam.

 

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ANTES QUE ME ESQUEÇA, de Francisco Seixas da Costa (D. Quixote). Memórias de um embaixador que serviu Portugal em Nova Iorque, Brasília e Paris já no topo da carreira. Memórias originais, com base na escrita algo anárquica do blogue Duas ou Três Coisas, que por cá sempre acompanhámos com atenção. É de política que aqui se fala, com vasta gama de protagonistas, portugueses e estrangeiros. Viajamos aos mais diversos locais do globo – da Líbia ao Turquemenistão, sem nunca esquecer Angola. Com múltiplas notas do quotidiano entre 2009 e 2022, além de constantes alusões a décadas mais recuadas. Quase um diário, quase um romance, verdadeiramente inclassificável. Dá gosto ler.

 

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A BIBLIOTECA DE ESTALINE, de Geoffrey Roberts (Zigurate). Homicida contumaz, um dos maiores tiranos que o mundo já conheceu, Estaline era também leitor compulsivo. Tinha uma vasta biblioteca, cheia de livros de história e filosofia. Com Marx e Lenine em lugar privilegiado, mas sem faltarem clássicos russos: romance, teatro e poesia destacavam-se igualmente nas suas estantes. Enquanto lia, fazia anotações nos livros. Durante longos anos, o historiador irlandês foi investigando e desvenda-nos aqui um ditador na intimidade – leitor até de Oscar Wilde e Walt Whitman, de quem ele citava este verso: «Estamos vivos. O nosso sangue escarlate ferve com o fogo da força por usar.»

 

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LIDERANÇA, de Henry Kissinger (D. Quixote). Falecido muito recentemente, já centenário, Henry Kissinger foi académico de prestígio antes de mergulhar a fundo na política, como secretário de Estado dos presidentes Richard Nixon e Gerald Ford na década de 70. Judeu nascido em 1923 na Alemanha, emigrado aos 15 anos nos EUA, nunca perdeu o cerrado sotaque germânico. Neste livro-testamento lega-nos seis ensaios sobre estadistas que conheceu pessoalmente: Konrad Adenauer, Charles de Gaulle, Nixon, Anwar Sadate, Lee Kuan Yew e Margaret Thatcher. Estudos de valor desigual, mas todos ajudam a reflectir sobre o exercício do poder. Só o fascinante retrato do general De Gaulle já valeria a obra.

 

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A RELIGIÃO WOKE, de Jean-François Braunstein (Guerra & Paz). Um dos melhores livros sobre os actuais ditames da correcção política, transformada em moda demencial. Impondo severas censuras um pouco por toda a parte deste mundo a que nos habituámos a considerar livre. A liberdade de outrora tornou-se vigiada. Os exemplos abundam, sobretudo nos meios universitários, aqui dissecados com minúcia e sarcasmo. “A Religião Woke”, com o seu cortejo de dogmas, abala até os próprios fundamentos do conhecimento científico. Decreta novos comportamentos, nova linguagem e até novo pensamento. Resultado: sabedoria em regressão e um catálogo de tabus cada vez mais vasto.

 

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RÚSSIA – REVOLUÇÃO E GUERRA CIVIL 1917-1921, de Anthony Beevor (Bertrand). Um clássico instantâneo que nos faz viajar ao estertor da monarquia russa, à fugaz revolução democrática de Fevereiro de 1917 e à posterior insurreição vermelha liderada por Lenine que anunciava ventos de liberdade mas instaurou o mais longo despotismo do século XX. O “primeiro Estado proletário da história” viria a mergulhar os povos da emergente União Soviética num inverno totalitário que parecia não ter fim. Beever, prestigiado historiador britânico especializado em temas militares, guia-nos ao jeito de um thriller neste trilho que não desvenda só o passado: serve também de sério aviso para o futuro.

O valor dos livros


Cristina Torrão,

Existem maneiras diferentes de avaliar livros. Algumas pessoas apreciam sobretudo o valor do objecto (capa dura, papel de qualidade, tipo de letra, ilustrações, etc.), outras interessam-se apenas pelo texto. Há edições especiais que são autênticas obras de arte, mas, a mim, bastam-me as palavras. Um livro de Eça de Queirós, Jane Austen ou Thomas Mann será sempre uma obra de arte, mesmo tratando-se de uma edição barata, impressa em papel pardo. Claro que aprecio edições especiais, principalmente, tratando-se de colectâneas fotográficas, ou fac-similes de códices medievais. Mas raramente gasto dinheiro num livro desses, costumo apreciá-los em exposições ou bibliotecas.

Os livros podem tornar-se, aliás, peças de colecção, à semelhança de selos e moedas, atingindo valores astronómicos, em caso de edições raras, independentemente da qualidade da sua edição. Um livro antigo e publicado sem grandes cuidados pode possuir um valor incalculável. Por exemplo? O primeiro livro de Franz Kafka, de 1912, com o título Betrachtung (desconheço a tradução portuguesa). A tiragem ficou-se pelos trezentos exemplares.

Dessa primeira edição, apenas se sabe da existência do exemplar guardado na sua editora, a Rowohlt, uma das mais conhecidas na Alemanha. Na altura, a Rowohlt não fazia ainda ideia que aquele jovem e desconhecido autor se tornaria num ícone da literatura mundial. Porque guardou então um exemplar do livro? Porque o fazia com todos os livros por si publicados. E chego assim ao verdadeiro tema deste meu postal: 35.000 exemplares, tudo primeiras edições, guardados nos arquivos da Rowohlt, desde o seu início, em 1908, incluindo nomes como Jean-Paul Sartre, Max Frisch e Jonathan Franzen. Um verdadeiro tesouro.

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Biberhaus, Hamburgo

Este tesouro vai passar agora para a Biblioteca Municipal/Universitária de Hamburgo. A Rowohlt mudou-se para a Biberhaus, perto da estação principal, e verificou-se que o edifício, apesar de enorme, não suportaria o peso de todos os livros constantes do seu arquivo. A editora propôs, então, à Biblioteca de Hamburgo, a transferência dessas 35.000 primeiras edições para um seu armazém muito especial. Trata-se de uma antiga e enorme garagem subterrânea, mantida a uma temperatura de 18ºC e 50% de humidade.

Desses 35.000 volumes, as joias da coroa são a primeira edição de Kafka e outra de Hans Fallada, intitulada Kleiner Mann, was nun?, em português, E Agora, Zé Ninguém? (Dom Quixote 2011). Na Alemanha, há vários filmes baseados nos romances de Hans Fallada. A nível internacional, verifica-se um redescobrir deste autor, falecido em 1947, principalmente, no mercado anglo-americano, onde se têm vendido centenas de milhar de exemplares do seu livro Jeder stirbt für sich allein (em português, Morrer Sozinho em Berlim, Relógio d’Água 2016).

Apesar do entusiasmo que reina na Biblioteca de Hamburgo, vai ser demorada a inventariação dos 35.000 livros. Só depois eles ficarão disponíveis. E talvez só para estudantes, mas ainda não há certezas. Um outro projecto plausível será a de uma exposição a efectuar, pelo menos, com os exemplares mais valiosos. A concretizar-se, não a perderei.

 

Nota: baseado num artigo online da NDR/Kultur (NDR é a delegação do Norte da ARD).

De quem viu muito sem se cansar da vida


Pedro Correia,

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Terça-feira, 28 de Novembro, no auditório 2 da Fundação Gulbenkian

 

Fui apanhado de surpresa quando Francisco Seixas da Costa mencionou o meu nome – na excelente companhia do Francisco José Viegas – no auditório 2 da Fundação Gulbenkian, terça-feira passada, ao fim de um dia muito chuvoso em Lisboa. 

A intempérie não desmobilizou os amigos e admiradores do nosso antigo embaixador em Paris e Brasília, agora livre dos deveres da profissão que exerceu durante décadas e que o levou do melhor (o atribulado mas bem sucedido processo que conduziu à independência de Timor-Leste e a etapa final da nossa integração no sistema monetário europeu) ao pior (a invasão do Iraque, sem mandato internacional nem evidências que a suportassem no terreno, decidida pelo poder político da altura, ao qual as nossas legações diplomáticas estavam vinculadas). 

Seixas da Costa fez alusão sumária a tudo isto na mensagem que nos deixou nesta concorrida sessão onde revi amigos e conhecidos, entre os mais de 300 que lá estávamos. Naquele estilo que lhe conhecemos das intervenções televisivas e lhe ficou da carreira diplomática: sabe ser acutilante sem perder a elegância. Estilo que me lembra, ao nível da escrita, a prosa de Graham Greene, de que tanto gosto.

Jaime Nogueira Pinto, um dos apresentadores da obra, tentou convencê-lo durante anos a escrever um romance. Será menos difícil do que parece, como o próprio Jaime demonstrou ao publicar Novembro – para mim, como já lhe disse, um dos dez melhores romances portugueses deste século XXI. Mas o embaixador é categórico: não nasceu para romancista. É mais um cronista, como sublinhou o Ferreira Fernandes, que também tive o gosto de reencontrar. E ele sabe do que fala, pois é um dos nossos melhores cronistas. Disciplina nobre da literatura, digam as sumidades académicas o que disserem.

 

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À minha modesta escala, terei dado também algum contributo para que Antes que me Esqueça (D. Quixote, 685 páginas) visse a luz do dia. Insisti com Seixas da Costa, em conversa e por escrito, para que transformasse o seu registo memorialístico de blogue em livro. No fundo, o romance da sua vida – designadamente a vida profissional, que tantas vezes vimos retratada na ficção mas da qual na realidade acabamos por saber tão pouco. 

É o que mais me fascina nesta obra, que agora releio pois recolhe textos originalmente publicados no blogue Duas ou Três Coisas. Releitura com idêntico prazer ao da primeira visita. Pelo tema inesgotável – são aqui recordados saborosíssimos episódios ligados à carreira diplomática e aos diversos palcos internacionais que o autor foi percorrendo, sem renegar as raízes transmontanas. Ser embaixador é um pouco isto, como também foi sublinhado na Gulbenkian: súmula de histórias fascinantes. Cada uma, bem desenvolvida, daria conto ou novela.

Mas, confesso, prefiro este formato. Não há necessidade de seguir linha cronológica: podemos abrir Antes que me Esqueça e deixar-nos prender por qualquer texto em qualquer página. Excelente título, devo sublinhar – um dos melhores que tenho encontrado. Poderia ter subtítulo de matriz queirosiana: “Cenas da Vida Diplomática”.

Com a prosa de sempre: límpida, escorreita, sem uma palavra a mais. De quem viu muito sem nunca se cansar da vida e exerce com notório agrado o dom da narrativa. Transmitindo ao leitor este dom, que tantos supõem ter mas está ao alcance de poucos. Seixas da Costa merece parabéns: é um destes eleitos. 

Israel/Palestina? A reler Sacco


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Não é postal político, nem quero deixar transparecer qualquer opinião sobre a desgraçada situação em Israel – e já aqui deixei nota sobre o meu estupor diante daquela realidade. Mas a sucessão de notícias levaram-me às estantes, no regresso aos livros do grande Joe Sacco – que também escreveu/desenhou sobre a Bósnia onde trabalhei. Sacco é um autor muito empenhado, defensor da causa palestiniana – o que agradará a uns e desagradará a outros. Pouco (me) importa, os seus livros são preciosos. Sem que com isso me sejam cartilhas.

Comecei pelo “Palestina na Faixa de Gaza” (cá publicado em 2003, com prefácio de Edward Said). Depois passei ao “Palestina, Uma Nação Ocupada” (cá publicado em 2004, com prefácio de Mário Soares). E ainda ando dentro do calhamaço em francês (“Gaza 1956”).

E entretanto lembrei-me de incómodo que tenho com o olhar de Joe Sacco. Pois, mesmo muito apreciando-o. Ou melhor, exactamente por muito o apreciar. Pois é esse um dos maiores sinais de apreço, o incómodo recebido na leitura… Há quase uma década deixei um texto, feito numa rápida abordagem, sobre as relações que encontrava entre a obra de Sacco, a recepção (entusiástica) que ele colhe e as práticas actuais da antropologia. Chamei-lhe “Joe Sacco: o engajamento denunciatório“. Deixo a ligação para quem tenha paciência…

25 Maravilhas – V – continuação


Paulo Sousa,

Já tive a sorte de visitar Biblioteca Pública de Nova Iorque. É um edifício imponente, que juntamente com o Bryant Park, preenche todo um quarteirão. A fachada neoclássica da biblioteca está virada para a 5ª Avenida, o que só pela centralidade sublinha a importância que o acesso público à cultura e ao conhecimento tem para os norte-americanos.

Reparei a primeira vez nela através do filme “O dia depois de amanhã” passado num futuro distópico em que o mundo fica mergulhado num inverno gelado e quem se consegue refugiar no seu interior, e para se aquecer, acaba por ter de recorrer à queima livros. Muito  razoavelmente, começam pela secção de fiscalidade.

 

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No filme acima referido este átrio central, invadido de neve por uma das janelas partidas, tem bastante destaque.

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Conforme está designado à entrada pelos seus criadores o acesso desta biblioteca é gratuito, mas para além de se tratar de um espaço público é também um local que foi construído para encantar pela arquitectura e decoração. Só por isso já merece a realmente a visita.

A foto do postal inicial é da principal sala de leitura. É mesmo uma maravilha.