O ódio ao sucesso alheio


Pedro Correia,

 

Os mesmos que diziam que ele estava paralítico e parecia uma estátua agora gritam até à rouquidão com os dois golos que acaba de marcar no Mundial, na goleada (5-0) frente aos usbeques em Houston.

Cristiano Ronaldo surge hoje nas manchetes da imprensa de todo o globo. Por excelentes motivos: é o primeiro futebolista a marcar em seis campeonatos do mundo, tornou-se o maior artilheiro português de sempre na única competição da modalidade à escala planetária. E é o segundo goleador mais velho a metê-la lá dentro em mundiais.

Enfim, nada de novo. O ódio ao sucesso alheio, sobretudo se for de um compatriota, é mais antigo do que o Condado Portucalense.

Os velhos


Pedro Correia,

veljo.jpeg

Os velhos portugueses. Encontro-os solitários, sentados em bancos de jardins ou nas soleiras das portas. De olhar errante e vago. Mudos e quedos, parecem fixar um horizonte que já não lhes pertence enquanto se alimentam de memórias. Jamais os vejo com um livro, sequer com um jornal – talvez alguns deles não saibam ler. Outros, mais gregários, jogam à bisca ou empinam copos nas tabernas. Mas os solitários – e são tantos – parecem não se entreter com nada. Sempre de olhar perdido no infinito.

Passam velhos de outros países, que chegam em turismo de grande algazarra: os velhos portugueses solitários mal reparam neles. De mãos sobre os joelhos, camisa de algodão e calça de fazenda cinzenta escura, de boné sempre enterrado na cabeça, lembrarão os tempos de juventude, amores antigos, a energia já gasta? Impossível dizer: os rostos são impenetráveis.

Outros reservam a etapa final da vida para cultivarem um hobby durante muito tempo adiado, convivem, passeiam, entregam-se a actividades comunitárias. Mas estes não: limitam-se a ficar passivos, no seu melancólico banco de jardim. Como se aguardassem a todo o instante um passaporte para a eternidade.

Pensamento da semana


Pedro Correia,

 

Andamos o tempo todo a tropeçar em eufemismos, induzidos em larga medida por canais noticiosos que evitam chamar as coisas pelos seus nomes. Agora, por exemplo, ninguém morre: limita-se a “partir”. Como se fosse num cruzeiro às Maldivas.

 

Este pensamento acompanha o DELITO DE OPINIÃO durante toda a semana

DELITO há cinco anos


Pedro Correia,

21523202_SMAuI.jpeg

 

Joana Nave: «Viver devagar. Abrandar o ritmo, saborear cada momento, colocar intenção e atenção em tudo o que fazemos. Parece tão simples, como utópico. Tão próximo, como distante.»

 

João Sousa: «Saudemos o 70.º aniversário de Michèle Mouton.»

 

Eu: «No final do mês de Junho de 1962, esteve um calor de rachar em Lisboa. Como comprova este relato de primeira página do Diário de Notícias sobre esse início da época estival, faz agora 59 anos. “Ontem, primeiro domingo de Verão, Lisboa ficou deserta e as praias estiveram à cunha…”, titulava o jornal na edição de 25 de Junho, ao estilo peculiar daquela época. Era um jornal de grande formato e com títulos quilométricos. Na foto principal via-se a praia de Carcavelos, repleta de banhistas. (…) Reparo nisto e penso: que diferença em relação ao que se passa nestes dias. O Verão entrou tristonho e enevoado, com aguaceiros, quase a imitar Outono. E no entanto em 1962 ainda não tinha sido “inventado” o aquecimento global, ao contrário do que sucede agora.»

Leituras


Pedro Correia,

image.jpg

 

As pessoas que se consideram virtuosas acabam por se tornar ridiculas, porque têm de estar constantemente a enganar-se a si próprias.»

Ken Greenhall, Elizabeth (1976), p. 102

Cavalo de Ferro, 2026. Tradução de Eugénia Antunes

Pacote laboral derrubado pela Cheringonça


Paulo Sousa,

Na sexta-feira passada, o pacote laboral foi derrubado pela Cheringonça. Toda a esquerda celebrou esta derrota do governo. As forças situacionistas, PCP, Livre, BE, PAN, PS, JPP e Chega, uniram-se para impedir uma reforma do mercado de trabalho.

Bem sabemos como o Chega tem como única convicção conseguir chegar ao poder. Para isso está disposto a afirmar tudo e o seu contrário, a ser favorável a tudo e a nada, e até a unir-se ao Bloco e ao PCP. Os que defenderam o parlamentarismo que sustentou a Geringonça original mudaram de convicção quando exigiram linhas vermelhas que ostracizassem o Chega. Agora emocionam-se ao ver o Ventura de punho fechado na mesma luta que a CGTP. O PS, sem reacção, assiste à entrada do Chega pelo seu eleitorado adentro, como se estivesse a viver um acidente rodoviário em câmara lenta. O governo não vai perder a oportunidade para se vitimizar. Olhando para a insuficiência das medidas propostas, é fácil de ver que o impulso reformista já era fraco. Assim, evitou a normal urticária causada pelas mudanças e ganhou uma narrativa, não governa porque não o deixam.

Eu, que me lembro do pequeno Tavares sugerir que, por considerar o Chega um partido anti-democrático, os seus mandatos deveriam ficar fora das contas normais para alianças governativas, tenho de me rir com a celebração deste chumbo pelo grupo agora mais alargado de compagnons de route. Foi mais um momento em que pudemos assistir a pinos, reviravoltas e abraços improváveis. Ignorando as consequências negativas para o futuro dos portugueses, a política tem momentos engraçados.

DELITO há cinco anos


Pedro Correia,

21523202_SMAuI.jpeg

 

Eu: «Angela Merkel puxa as orelhas a António Costa, por motivos óbvios: o Governo português escancarou as portas ao turismo britânico na pior altura. E convém lembrar que tanto Costa como Augusto Santos Silva ainda reclamaram quando Boris Johnson pôs fim à via verde turística entre Londres e Lisboa. A história vem no Político: a chanceler alemã censura Portugal por ter permitido a entrada de turistas britânicos com a variante Delta. Eis a voz do bom-senso a falar. Infelizmente é necessário surgir alguém de fora para apontar com clareza o que está errado aqui. Como se não houvesse oposição em Portugal.»

A diferença


Pedro Correia,

raquel.jpg

Muitos comentam de manhã à noite nas televisões. Quase sempre trocando os factos por “cenários”: os canais de informação estão cheios de gente que confunde fantasia com realidade. É a tal bolha mediática agora tão em voga: falam uns para os outros, repetindo o que já ouviram noutros espaços de palração e emitindo palpites em coro que muitas vezes saem furados.

Aconteceu a propósito das alterações à lei laboral apresentadas pelo Governo no parlamento. Terça-feira à noite, na SIC Notícias, um desses bitaiteiros que nunca têm dúvidas e raramente se enganam garantia saber como tudo iria passar-se: «É evidente que André Ventura vai viabilizar o maior ataque feito aos trabalhadores desde a tróica.»

Ao fim da tarde de quinta-feira, na mesma estação, outro tudólogo declarou sem hesitar: «Surpresa nenhuma. Sempre disse, neste estúdio, que este pacote laboral seria aprovado pelo Chega.»

Valha a verdade que alguém remou em direcção contrária, expressando elementar bom senso. Alguém que consegue ver para lá da espuma dos dias e não confunde fezadas com factos. Refiro-me a Raquel Abecasis, também comentadora da SIC Notícias, que nessa tarde de quinta advertiu em tom esclarecido e precatado: «Vamos ver… com o André Ventura até ao lavar dos cestos é vindima.»

A advertência ficou registada. E tinha plena razão de ser, como se confirmou cerca de 17 horas depois, quando os deputados do Chega se uniram às bancadas parlamentares da esquerda no voto contra o chamado “pacote laboral”.

Raquel fez a diferença. Quem sabe, sabe. Quem não sabe, proclama “verdades” absolutas como se Ventura não fosse o cata-vento que todo o País já conhece. Todo? Não: na tal bolha mediática muitos continuam a levá-lo a sério, nem imagino porquê. E a espalhar-se ao comprido por causa disso.

Como no célebre western de John Ford, preferem imprimir a lenda em vez do facto.