
Muitos comentam de manhã à noite nas televisões. Quase sempre trocando os factos por “cenários”: os canais de informação estão cheios de gente que confunde fantasia com realidade. É a tal bolha mediática agora tão em voga: falam uns para os outros, repetindo o que já ouviram noutros espaços de palração e emitindo palpites em coro que muitas vezes saem furados.
Aconteceu a propósito das alterações à lei laboral apresentadas pelo Governo no parlamento. Terça-feira à noite, na SIC Notícias, um desses bitaiteiros que nunca têm dúvidas e raramente se enganam garantia saber como tudo iria passar-se: «É evidente que André Ventura vai viabilizar o maior ataque feito aos trabalhadores desde a tróica.»
Ao fim da tarde de quinta-feira, na mesma estação, outro tudólogo declarou sem hesitar: «Surpresa nenhuma. Sempre disse, neste estúdio, que este pacote laboral seria aprovado pelo Chega.»
Valha a verdade que alguém remou em direcção contrária, expressando elementar bom senso. Alguém que consegue ver para lá da espuma dos dias e não confunde fezadas com factos. Refiro-me a Raquel Abecasis, também comentadora da SIC Notícias, que nessa tarde de quinta advertiu em tom esclarecido e precatado: «Vamos ver… com o André Ventura até ao lavar dos cestos é vindima.»
A advertência ficou registada. E tinha plena razão de ser, como se confirmou cerca de 17 horas depois, quando os deputados do Chega se uniram às bancadas parlamentares da esquerda no voto contra o chamado “pacote laboral”.
Raquel fez a diferença. Quem sabe, sabe. Quem não sabe, proclama “verdades” absolutas como se Ventura não fosse o cata-vento que todo o País já conhece. Todo? Não: na tal bolha mediática muitos continuam a levá-lo a sério, nem imagino porquê. E a espalhar-se ao comprido por causa disso.
Como no célebre western de John Ford, preferem imprimir a lenda em vez do facto.

Impagável a reacção das filas de trás da bancada quando os 4 iluminados se levantaram. Nem percebo como foram contados os votos. Demoraram tanto a perceber que era para se levantarem. O ventura lá pensaria que estariam mais atentos aos movimentos do grande líder. Que miséria… e há quem vote nisto.
Pode crer. E resistem a tudo, do gamanço de malas à “Festa do Hambúrguer”, do pedófilo somítico àquela cena digna dos Monty Python vestidos de ovelhas, uma levanta-se e as outras vão-se levantando…
Pobre país este, que nem uns fascistóides de jeito tem, é só grunhos.
Não há CHEGA,
Há Ventura
A cara dos deputados do Chega que pensavam que iam votar a favor, e foram obrigados a levantar o rabino da cadeira para fazer uma das mais tristes figuras vistas neste parlamento de figurinhas, é imperdível.
Esta negociação do pacote social foi uma desgraça.
9 meses, 52 reuniões com a “Feira de Gado” (na voz do SS) para quê?
Ao fim da primeira reunião já se sabia o desfecho por causa precisamente da declaração do Seguro que NUNCA pensou ser PR.
A partir daí foi só asneirar.
Ó Governo devia ter logo enviado para a AR.
Negociações com os partidos da oposição, só depois do chumbo eventual do parlamento.
Esta reforma SÓ se aplica ao sector privado.
Quem fez greves e reclama são sindicatos da função pública.
E pior, pergunto ao senhor Ventura o que é que tem a ver a reforma laboral, com a descida da idade da reforma?
lembro-me sempre deste esquecido poema:
«A menina tinha os cabelos louros.
A boneca também.
A menina tinha os olhos castanhos.
Os da boneca eram azuis.
A menina gostava loucamente da boneca.
A boneca ninguém sabia se gostava da menina.
Mas a menina morreu.
A boneca ficou.
Agora também já ninguém sabe se a menina gosta da boneca.
E a boneca não cabe em nenhuma gaveta.
A boneca abre as tampas de todas as malas.
A boneca arromba as portas de todos os armários.
A boneca é maior que a presença de todas as coisas.
A boneca está em toda a parte.
A boneca enche a casa toda.
É preciso esconder a boneca.
É preciso que a boneca desapareça para sempre.
É preciso matar, é preciso enterrar a boneca.
E quem foi que o escreveu? Tem reminiscências de Almada Negreiros, mas não conheço este poema; ou esqueci-o, o que é grande pena.
teatro da boneca de Carlos Queirós
Muito obrigada.
Não o tinha esquecido, afinal nunca o li. E sempre era da pandilha do Almada Negreiros…
Agora a culpa é do CHEGA de nao ter sido aprovada a reforma que nasceu torta, nem mo programa do governo estava. Incompetencia do Montenegro, é o que é. Tanto tempo perdido …
Mas quem é aquele que está no cimo do lado esquerdo todo contorcido?
Há muitos que confundem fantasia com realidade e muitos que andam a brincar nos blogues à opinião. Querem imitar os das TVs!
O problema é mais grave. Nós precisamos saber o que acontece e não a opinião dos que se acham especialistas em tudo e nada e que inclui os jornalistas, que são os únicos seres “perfeitos” à face da terra. Não admira pois não há contraditório! Não permitem. O que eles escolherem ou disserem, está sempre certo. E o povo que temos não questiona.
O que acontece são factos e não manipulam deste que não haja uma parte que é censurada ilegalmente. Onde anda o 25 de Abril! A opinião visa muitas vezes influenciar-nos num determinado sentido.
Os outros comentadores aqui não conseguem ver mais nada além da política quando o primeiro e o segundo parágrafo do texto são os mais importante.
O Chega e o punho para a CGTP é testemunho maior do quanto o abrilesco, na sua formulação mais mobilizadora, empesta ainda o cenário político: de vitória em vitória até à derrota final!
A Raquel avisou, numa daquelas epifanias brilhantes que só acontecem nos ecrãs da SIC Notícias. «Até ao lavar dos cestos é vindima». Lindo. Poético. Profundo.
Mas eis que chegamos ao fim da linha. A uva foi esmagada, e a malta da bolha mediática dirige-se, de mangas arregaçadas, para os lavadouros públicos da análise política.
Falta lavar os cestos. Abrem a torneira da realidade e… poup. Faltou a água. Nem uma gota.
E agora? Como é que esta gente vai limpar a cara de parvo com que ficou?
Estão lá os tudólogos todos, a segurar nos cestos sujos de palpites furados, a cheirar a mosto azedo e a hipocrisia fermentada. Mas sem água, não há como limpar a borrada analítica que andaram a semear durante a semana. Vão ter de lavar os cestos com cuspo. Com o próprio cuspo que passaram horas a atirar para o ar no estúdio.
O Ventura, está no seu habitat natural. Ele olha para a falta de água e desata a rir, porque nunca teve qualquer intenção de lavar cesto nenhum. Para ele, quanto mais ressequida, pegajosa e entranhada ficar a sujidade no vime, melhor.
Entretanto, o Governo, a olhar para o pacote laboral desfeito no fundo do cesto seco, tenta convencer o País de que a falta de água é, na verdade, uma oportunidade de transição ecológica acelerada. A Esquerda, subitamente de braço dado com o bicho-papão no chumbo da lei, finge que não repara no cheiro a estrume fascista que vem do cesto ao lado.
No fim do dia, na bolha mediática, o cenário é dantesco. Não há água para lavar a desonra. Os comentadores vão todos para casa, a esfregar os olhos sujos de certezas absolutas, a rezar a todos os santinhos para que, na próxima semana, haja um escândalo qualquer na TAP, na Santa Casa ou num banco qualquer. Qualquer coisa que mude de assunto depressa, para que o público não perceba que eles andam há anos a vender lendas.
E mais uma vez a lenda foi impressa em vez do facto, como dizia o John Ford. É verdade. Só que, desta vez, imprimiram a lenda em rolos de papel higiénico. E todos sabemos o que acontece quando se precisa de usar papel higiénico num sítio onde cortaram a água. Fica o serviço a meio, e o cheiro… o cheiro nunca mais sai do estúdio.
O facto de haver gente paga pelas televisões privadas para vir dizer asneiras em formato contínuo, não me incomoda nada, é só mudar para o canal histórico ou para outro qualquer. O que verdadeiramente incomoda é o meus impostos servirem entre outras coisas, para financiar a burricada do querido líder. A burricada nem percebeu muito bem esta coisa do pacote laboral, apenas abanam a cabeça quando o chefe manda. É o que temos. O país mais idoso da Europa, com o Estado social mais caro de ser sustentado, o que eleva a carga fiscal para níveis incomportáveis. A somar ao que é incontornável, temos mais de um milhão de burros que votam sem saber minimamente aquilo que fazem muito menos aquilo que pensam. Do ajuntamento parlamentar que representa a burricada, só me surpreenderia algo que fosse minimamente merecedor de elogio.
Comentador já é profissão?
A AUTORIDADE TRIBUTÁRIA E ADUANEIRA verifica os contratos, pagamentos?…
As pessoas que comentam nos jornais, nas revistas, nas rádios e nas televisões,
declaram o dinheiro que recebem ao “fisco”?…
“Bitaiteiros” é o que há mais.
Qualidade precisa-se…
Continuam a prevalecer o amiguismo, o cartão partidário, a cunha,
o compadrio, o nepotismo, em detrimento da competência e do conhecimento.
Felizmente existem honrosas excepções, como o exemplo que deu.
João Barros da Costa