A diferença


Pedro Correia,

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Muitos comentam de manhã à noite nas televisões. Quase sempre trocando os factos por “cenários”: os canais de informação estão cheios de gente que confunde fantasia com realidade. É a tal bolha mediática agora tão em voga: falam uns para os outros, repetindo o que já ouviram noutros espaços de palração e emitindo palpites em coro que muitas vezes saem furados.

Aconteceu a propósito das alterações à lei laboral apresentadas pelo Governo no parlamento. Terça-feira à noite, na SIC Notícias, um desses bitaiteiros que nunca têm dúvidas e raramente se enganam garantia saber como tudo iria passar-se: «É evidente que André Ventura vai viabilizar o maior ataque feito aos trabalhadores desde a tróica.»

Ao fim da tarde de quinta-feira, na mesma estação, outro tudólogo declarou sem hesitar: «Surpresa nenhuma. Sempre disse, neste estúdio, que este pacote laboral seria aprovado pelo Chega.»

Valha a verdade que alguém remou em direcção contrária, expressando elementar bom senso. Alguém que consegue ver para lá da espuma dos dias e não confunde fezadas com factos. Refiro-me a Raquel Abecasis, também comentadora da SIC Notícias, que nessa tarde de quinta advertiu em tom esclarecido e precatado: «Vamos ver… com o André Ventura até ao lavar dos cestos é vindima.»

A advertência ficou registada. E tinha plena razão de ser, como se confirmou cerca de 17 horas depois, quando os deputados do Chega se uniram às bancadas parlamentares da esquerda no voto contra o chamado “pacote laboral”.

Raquel fez a diferença. Quem sabe, sabe. Quem não sabe, proclama “verdades” absolutas como se Ventura não fosse o cata-vento que todo o País já conhece. Todo? Não: na tal bolha mediática muitos continuam a levá-lo a sério, nem imagino porquê. E a espalhar-se ao comprido por causa disso.

Como no célebre western de John Ford, preferem imprimir a lenda em vez do facto.

Indignidade moral (na CNN portuguesa)


Pedro Correia,

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Há mais de quatro anos que o major-general Agostinho Costa insulta não apenas o Presidente Zelenski, mas todo o povo ucraniano – alvo de atrocidades por parte da Federação Russa, ininterruptamente, desde Fevereiro de 2022.

Mais do que isto: insulta também a inteligência dos espectadores da CNN Portugal, onde tem lugar cativo. 

Insulta ao entoar hossanas ao ditador russo, ecoando no canal português a mais sabuja propaganda do Kremlin. Desde o primeiro dia da invasão, com declarações infames sobre Zelenski, totalmente divorciadas da realidade. Anunciando “conquistas” que nunca se concretizaram. E procurando lançar lama sobre os resistentes à agressão russa, determinados a não se vergar ao invasor em confrontos que já se prolongam há mais tempo do que os 1569 dias de duração da I Guerra Mundial, entre 1914 e 1918.

Péssimo estratego, Putin enganou-se redondamente ao supor que conseguiria ocupar Kiev, derrubar o legítimo Governo da Ucrânia e assassinar Zelenski em duas semanas.

 

Em cega obediência ao déspota moscovita, Costa prossegue fiel à cartilha que tristemente o celebrizou. A 28 de Fevereiro de 2022 – escassos quatro dias após a invasão russa, quando ainda lhe davam palco na SIC Notícias, atreveu-se a bolçar esta infâmia, jamais confirmada: «Estou convencido que o senhor Zelenski já não está lá [em Kiev]. Senão a gente via-o na rua. Já não está lá. Está certamente em Lviv.»

Em Setembro de 2024, já no canal televisivo que depois o acolheu a tempo inteiro (e que, com ele em antena, mais parece réplica tuga da RT), imaginava «cogumelos nucleares» em cidades norte-americanas. E proclamava, com indisfarçável ódio aos ucranianos que ousaram sair em defesa da soberania e da integridade territorial do seu país: «No Donbass a situação é catastrófica para as forças ucranianas. Neste momento a Ucrânia está numa situação de emergência. O risco neste momento não é se a Ucrânia vai perder – é quando a Ucrânia vai perder, como vai perder e onde é que param os russos.»

 

Dois anos depois, como é óbvio, nada disto se confirmou. O que deve ter acentuado a raiva do comentador, que anteontem bateu um recorde pessoal de indignidade ao comparar Zelenski a Hitler. Anotei as palavras dele: «O Führer, quando estava no búnquer, também dizia que estava a ganhar a guerra. Zelenski há-de dizer que ganha a guerra até ao último dos seus dias como presidente.»

Linguagem totalmente inaceitável. Pela infâmia. E pela gritante distorção dos factos: quem invadiu um país vizinho e vive num búnquer é Putin.

O limite da decência foi de tal modo ultrapassado que a jornalista responsável pela condução daquele espaço informativo, com elegância mas firmeza, pôs de imediato fim ao tempo de antena do major-general.

O ódio até pode aumentar audiências, mas há um limite moral para tudo.

Palração


Pedro Correia,

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«Há que reflectir sobre o paradigma deste futebol.»

«A boa colocação das linhas virtuais permite-nos fazer a avaliação certa dos lances.»

«O clube não conseguiu traduzir a intensidade do seu jogo.»

«Há jogos com outra intensidade competitiva.»

«Essa resignação pode ser uma projecção da falta de exigência mais acima e de uma liderança mais efectiva em termos de balneário.»

«A equipa não tem níveis de coesão suficientes para introduzir um jogador tão jovem.»

«Caiu numa zona de bloqueio da qual vai ter de sair.»

«Tem de integrar-se na filosofia colectiva da equipa que representa.»

«As grandes equipas da Europa conseguem atingir níveis exibicionais significativos.»

«O conceito do treinador baseia-se numa marcação mais subida.»

«Do ponto de vista do esqueleto táctico, a disposição no terreno faz sentido.»

«São dois jogadores verticais que dão mais profundidade à equipa.»

«O jogador X mostrou um ritmo baixo, mostrou alguns pormenores.»

«Queremos contribuir para um futebol menos macrocéfalo.»

«O futebol é uma lógica de conjunturas.»

 

Perceberam?

Eu também não. É uma espécie de dialecto autónomo, só praticado por alguma gente da bola e que tem como principal cultor um jornalista televisivo capaz de rivalizar em fôlego com Fidel Castro, que em 1998 falou sete horas e um quarto sem parar na Assembleia Nacional cubana, ou Hugo Chávez, que chegou a falar igualmente sem parar durante nove horas e meia no parlamento de Caracas.

Quem não seja iniciado neste jargão muito particular do “esqueleto táctico” e da “intensidade competitiva” mantém-se totalmente à distância. Porque o dialecto acima transcrito, ao contrário da esmagadora maioria dos restantes, não foi criado para comunicar: existe para cavar um fosso deliberado entre o seu inventor e o comum dos mortais.

A razão? Incutir respeito.

Ou respeitinho, mais à portuguesa.

 

É uma receita infalível. Porque, em regra, os portugueses só respeitam o que não entendem. E aqui entre nós: quem é que entende minimamente o que significa “filosofia colectiva”, “jogadores verticais” e “marcação subida”?

O respeitinho é muito bonito. Para evitar cair em zonas de bloqueio, sem níveis exibicionais significativos nem esqueletos tácticos – dentro ou fora dos balneários.

Ontem à noite, na SIC Notícias


Pedro Correia,

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«1984, de Orwell, é completamente banido do… coiso… das livrarias e dos… dos programas… Há uma série de escritores que estão no Índex. Fazendo a comparação com os tempos antes… da Alemanha dos anos 30 começamos a ter aqui traços que são semelhantes. Sabendo nós que um dos conselheiros de Trump é Stephen Miller, que curiosamente quando foi do atentado pôs a mulher grávida à frente e atrás o guarda-costas… é só para vermos do que estamos a falar… este senhor, este Stephen Miller, que era… que os avós morreram no Holocausto, está aparentemente a aconselhar uma cartilha igual ou muito parecida com aquilo que aconteceu na Alemanha nos anos 30, ou seja, o controlo da informação e sobretudo da cultura, a retirada por outro lado que Trump está a fazer neste momento das… das… das bolsas que a investigação científica, o controlo que está a fazer às universidades que são contra ele e não só, mas está a retirar o conhecimento científico. Um povo que não lê, um povo que não conhece e que não tem conhecimento é facilmente manipulável. Estamos a ter aqui alguns tiques que nos fazem tocar algumas sirenes, algumas campainhas parecidas com a Alemanha dos anos 30. Além disso Trump está a impor fora dos Estados Unidos e às empresas que estão a trabalhar com os Estados Unidos que não tenham discursos por exemplo da igualdade de género… e discursos por exemplo… e que não tenham nos combates para a igualdade de género que há paridade em… em… várias outras situações em termos sociais porque sem esses contributos não vai para a frente, mesmo em termos de faculdades essas questões têm de ser completamente retiradas porque senão não há sequer qualquer contacto entre as universidades portuguesas e as americanas…»

 

Ricardo Costa, talvez tão incrédulo como os telespectadores com aquela charada, parecia nem estar ali. Rui Tavares mal disfarçava o incómodo. Bem os compreendo.

A história repete-se


Pedro Correia,

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«Nas próximas presidenciais uma segunda volta é, assim, praticamente inevitável. Não era esse o seu objectivo, mas Nobre e Alegre abriram um caminho que não se volta a fechar.»

Ricardo Costa (Expresso, 29 de Janeiro de 2011)

 

«Eu acho que as próximas presidenciais vão ser a duas voltas. Nós estamos pouco habituados a isso porque a última vez que houve presidenciais a duas voltas foi em 1986.»

Ricardo Costa (SIC Notícias, 9 de Outubro de 2023)

Parece que foi combinado…


Pedro Correia,

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… mas garanto que não foi. Isabel Moreira, insuspeita de ser hostil para Pedro Nuno Santos, seu companheiro de bancada parlamentar, também se espantava ontem numa rede social – tal como eu aqui – contra esta moda, inaugurada na SIC Notícias, de ter em estúdio comentadores encarregados de comentar outros comentadores da mesma estação. Dividindo-os assim entre comentadores de primeira (os que são comentados) e os de segunda ou quinta categoria (quem não usufrui desse insólito privilégio).

Muito endogâmico: a bolha dentro da bolha dentro da bolha. Tal como se comprova igualmente no facto de agora quase todos se tratarem por tu durante a palração televisiva: formam a selecta irmandade da pantalha. 

Quanto mais íntimos parecem, mais põem os telespectadores à distância. Depois não se queixem das fracas audiências. Nada disso acontece por acaso.

O grão-vizir que sonha ser califa


Pedro Correia,

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Diz-se que este senhor «faz tremer a direita». É um manifesto exagero. Parece que se estreou ontem como comentador da SIC Notícias sem fazer tremer ninguém – nem sequer de frio, com estas temperaturas quase de Verão. 

«Fazer tremer» é, aliás, uma frase a que deviam evitar associá-lo. Evoca de imediato aquele dia de 2011 em que o próprio, enquanto vice-presidente da bancada parlamentar do PS, proferiu esta bravata: «Estou marimbando-me para os bancos alemães que nos emprestaram dinheiro nas condições em que nos emprestaram. Estou marimbando-me que nos chamem irresponsáveis. Nós temos uma bomba atómica que podemos usar na cara dos alemães e dos franceses. “Ou os senhores se põem finos ou nós não pagamos a dívida.” Se o fizermos, as pernas dos banqueiros alemães até tremem.»

Não consta que nenhum banqueiro germânico tenha tremido – ou que tenha sequer tomado nota de tais declarações, mais próprias de algum membro de associação de estudantes do que de um deputado e futuro ministro da nação.

Quem certamente tremeu, mas de indignação, foi António Costa a 30 de Junho de 2022, quando lhe revogou um despacho sobre o plano de ampliação do aeroporto de Lisboa que apenas vigorou por 24 horas. Fazendo perder a face ao então titular das Infraestruturas. Que não tardou a perder também o posto governativo: durou só mais seis meses no lugar. Como activo tóxico do Executivo socialista.

Não vi a prestação televisiva do grão-vizir que sonha ser califa do PS nesta sua estreia como residente na pantalha. Dizem-me que, depois da homilia, logo várias sumidades surgiram em antena a perorar sobre o que ele pregara. Extraordinária endogamia televisiva: comentadores a comentarem o comentador.

Ponham-se finos, senão ele zanga-se. Parece que tem frequentes crises de mau humor. Como o outro, que se dizia «animal feroz».

salve-se quem puder


Pedro Correia,

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Análise política (parte 1)

a política portuguesa está transformada num conjunto de declarações hipócritas e carregada de promessas vãs. os deputados dão diariamente um espectáculo deplorável ao país com divergências e incompatibilidades que não conduzem a lado nenhum. o governo está morto só falta fazerem-lhe o funeral e é bom que isso aconteça rapidamente porque já não se aguenta o mau cheiro. as sucessivas trapalhadas condenaram o executivo ao fracasso ao ponto de todos sentirmos muitas saudades do santana lopes. ninguém percebe por que motivo o primeiro-ministro ainda não se demitiu. os políticos não conseguem apresentar uma solução coerente aos cidadãos. o presidente da república é um incapaz. enterrou o governo mas já se percebeu que não tem nada para dizer. ninguém percebe por que motivo o presidente da república ainda não se demitiu. ele e os outros todos só são capazes de fazer jogos florais. todos os partidos chegaram a um estado de degradação lamentável. a oposição também é péssima. a política falhou. a classe política enlouqueceu. ninguém percebe por que motivo os líderes dos partidos da oposição ainda não se demitiram. não há soluções boas nem más. agora só há soluções péssimas. o país já foi ao fundo.

salve-se quem puder.

 

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Análise política (parte 2)

os políticos não conseguem apresentar uma solução coerente aos cidadãos. o presidente da república é um incapaz. enterrou o governo mas já se percebeu que não tem nada para dizer. ninguém percebe por que motivo o presidente da república ainda não se demitiu. ele e os outros todos só são capazes de fazer jogos florais. todos os partidos chegaram a um estado de degradação lamentável. a oposição também é péssima. a política falhou. a classe política enlouqueceu. ninguém percebe por que motivo os líderes dos partidos da oposição ainda não se demitiram. não há soluções boas nem más. agora só há soluções péssimas. o país já foi ao fundo. a política portuguesa está transformada num conjunto de declarações hipócritas e carregada de promessas vãs. os deputados dão diariamente um espectáculo deplorável ao país com divergências e incompatibilidades que não conduzem a lado nenhum. o governo está morto só falta fazerem-lhe o funeral e é bom que isso aconteça rapidamente porque já não se aguenta o mau cheiro. ninguém percebe por que motivo o primeiro-ministro ainda não se demitiu. as sucessivas trapalhadas condenaram o executivo ao fracasso ao ponto de todos sentirmos muitas saudades do santana lopes.

salve-se quem puder.

 

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Análise política (parte 3)

ninguém percebe por que motivo o primeiro-ministro ainda não se demitiu. as sucessivas trapalhadas condenaram o executivo ao fracasso ao ponto de todos sentirmos muitas saudades do santana lopes. os políticos não conseguem apresentar uma solução coerente aos cidadãos. o presidente da república é um incapaz. enterrou o governo mas já se percebeu que não tem nada para dizer. ninguém percebe por que motivo o presidente da república ainda não se demitiu. ele e os outros todos só são capazes de fazer jogos florais. todos os partidos chegaram a um estado de degradação lamentável. a oposição também é péssima. a política falhou. a classe política enlouqueceu. ninguém percebe por que motivo os líderes dos partidos da oposição ainda não se demitiram. não há soluções boas nem más. agora só há soluções péssimas. o país já foi ao fundo. a política portuguesa está transformada num conjunto de declarações hipócritas e carregada de promessas vãs. os deputados dão diariamente um espectáculo deplorável ao país com divergências e incompatibilidades que não conduzem a lado nenhum. o governo está morto só falta fazerem-lhe o funeral e é bom que isso aconteça rapidamente porque já não se aguenta o mau cheiro.

salve-se quem puder.

Abjecto


Pedro Correia,

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Diálogo ontem à noite, na CNN Portugal:

Jornalista – Aqui neste mesmo estúdio, quando começaram os problemas entre o ministério russo da Defesa e o grupo Wagner, perguntei-lhe se havia ou não dissonâncias entre estes dois. E respondeu-me que não: «Isso são fantasias.» Enganou-se nesta análise?

Major-general Agostinho Costa – Não. Uma coisa é o que parece. Outra coisa é o que é. (…) Temos de analisar e não nos iludirmos pelas aparências. Então temos um golpe de Estado e o cabecilha do golpe de Estado vai passar férias para a Bielorrússia? 

Jornalista – Mas também referiu que o grupo Wagner «é uma concepção de Gerassimov [comandante das forças armadas russas], é preciso ler a doutrina de guerra híbrida, e está a funcionar muito bem.» Está?

Major-general Agostinho Costa – Está.

Jornalista – Isto tem aparência de normal funcionamento?

Major-general Agostinho Costa – Reitero tudo quanto disse. Reitero tudo quanto disse. 

Jornalista – Também referiu aqui que «o grupo Wagner corresponde, na Rússia, às forças especiais norte-americanas, é mais ou menos a mesma coisa». Foi isso que referiu neste estúdio. Arrepende-se de comparar o grupo Wagner a exércitos regulares?

Major-general Agostinho Costa – De maneira nenhuma!

Jornalista – O Wagner não é uma força regular. 

Major-general Agostinho Costa – É uma força de assalto. É uma força especial de assalto. As forças de assalto têm várias missões. O Wagner, quando é enviado para o exterior, combate ao lado dos países para onde vai. Por isso é que tem tido este sucesso.

Jornalista – Há ou não, nestas últimas 24 horas, um dano reputacional para Vladimir Putin, bastante visível à própria opinião pública russa?

Major-general Agostinho Costa – Não o acompanho, não o acompanho. 

Ser ministro para deixar de o ser


Pedro Correia,

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Qual a vantagem de ser ministro das Finanças?

Em Portugal, só vejo uma: é a única forma de adquirir o estatuto de ex-ministro das Finanças, algo que parece conferir aos seus portadores uma aura exclusiva, misto de senador romano e de profeta hebreu. A toda a hora uma legião de ex-ministros perora em tudo quanto é palco mediático, com ar solene e pose grave, traçando implacáveis vaticínios. Sai um de barbas de oráculo, logo surge outro com cãs de erudito que por sua vez dá lugar a uma altiva dama com fumos de pitonisa. Todos com receitas mágicas para o futuro da nação – receitas que, por sinal, nenhum aplicou quando teve oportunidade efectiva para o efeito.

Gabo a paciência dos jornalistas que vão recolhendo as copiosas declarações desta prolixa tribo intuindo tal como eu que na maior parte dos casos a sabedoria real de tão ilustres sumidades é muito inferior ao generoso tempo de antena de que dispõem. E apenas lamento que não aproveitem ao menos uma vez para recordar aos indígenas o legado dessas sumidades – em (de)crescimento económico, despesa primária, dívida externa e défice real das contas públicas, por exemplo.

Depois era só comparar o que fizeram com o que propõem agora. Muita gente era capaz de ficar surpreendida. Ou talvez não.

Treinadores de bancada


Pedro Correia,

De treinadores de bancada, excelentes cérebros de ideias infalíveis para salvar a pátria, está este país tão cheio que se os exportássemos equilibraríamos por muitos e bons anos a nossa balança de pagamentos.

O problema é que tais sumidades, quando têm finalmente a possibilidade de pôr em prática o seu caudal de virtudes, muitas vezes se revelam monumentais fiascos.

Comentadores


João Sousa,

Para comentar a decisão de Ivo Rosa, a TVI24 tinha há pouco no painel de comentadores Manuel Magalhães e Silva, Miguel Sousa Tavares e António Marinho e Pinto. Só lá faltavam, para completarem o ramalhete, Pinto Monteiro e Cândida Almeida.

Bom… para ser exacto, Cândida Almeida até esteve lá – mas na quinta-feira.

Presente de Natal aos comentadores


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Sim, por vezes sou arisco e respondão diante dos nossos comentadores, principalmente os conhecidos anónimos. Mas, até por este pequeníssimo incidente entre-comentadores no meu último postal, aqui deixo uma oferta natalícia ao habitual comentador Balio – sobre o qual há (justificadas?) suspeitas de ser um avatar de um outro (e anterior?) conhecido comentador institucional do DO. Com esta oferta, sita aqui mesmo na estante da secretária, quero simbolizar o amoroso espírito natalício que congrega bloguistas e comentadores, dos mais irritantes aos mais irritadiços, passando pelos plácidos.

Quanto a Balio, se não apreciar esta oferta … olhe, vá à Worten trocá-la.

Da importância das lombadas


Pedro Correia,

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Vejo na Netflix uma série islandesa de que estou a gostar muito: Os Crimes de Valhalla. Numa cena do terceiro episódio, um investigador da polícia entra na casa deserta de uma mulher de classe média que foi assassinada. Uma das primeiras coisas que vê – e nós com ele – é uma estante cheia de livros ocupando quase por inteiro uma das paredes da sala. 

Para quem esteja atento, os cenários aparentemente irrelevantes nas séries de qualidade podem dizer-nos muito sobre as características de um país. Esta diz-nos, desde logo, que existem hábitos de leitura na Islândia muito superiores aos nossos. Em que série, filme ou telenovela veríamos “adereço” semelhante numa casa portuguesa de classe média? Façam o teste e verão. As estatísticas confirmam o que a experiência empírica nos sugere: mais de dois terços dos nossos compatriotas passa um ano inteiro sem ler um livro: 67%. Lideramos o triste pódio europeu nesta matéria, superando Grécia (54%) e Espanha (53%). Em proporção inversa ao que ocorre na Suécia (28%), Finlândia (35%) ou Reino Unido (37%).

 

Talvez para marcar o contraste com esta idiossincrasia nacional, por estes dias não faltam políticos, comentadores e simples bitaiteiros que persistem em prestar depoimentos televisivos recolhidos em casa, escolhendo lombadas de livros a servir-lhes de moldura. São tantos os casos que não pode tratar-se de mera coincidência: entre nós, o livro continua a servir de elemento acrescido de autoridade natural a quem produz opinião, o que não deixa de ser irónico numa sociedade onde a norma é não ler.

Não vou presumir sobre os genuínos hábitos de leitura das personalidades que, devido à pandemia, nos vão desvendando ínfimos recantos dos seus lares. Mas aproveito para deixar a sugestão aos meus amigos editores – Francisco José Viegas, Guilherme Valente, Hugo Xavier, Inês Pedrosa, Manuel S. Fonseca e Rui Couceiro, entre outros – para transformarem estas imagens que começam a tornar-se familiares entre nós numa vasta campanha publicitária de promoção da leitura. Com a chancela institucional do Ministério da Cultura e parte da choruda verba que não chegou a ser gasta no abortado TV Fest. Faz sentido, numa altura em que o sector vai de mal a pior: a venda de livros caiu 83%, com milhares de pessoas em lay-off ou sem trabalho.

Deixo aqui algumas sugestões de figuras que poderiam figurar nessa campanha de promoção do livro. Com certeza os visados aprovariam. 

 

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Vai fazer-nos muita falta


Pedro Correia,

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Vasco Pulido Valente era o melhor. Em quase tudo. Também na capacidade de inspirar epígonos que ia influenciando por geração espontânea e foram irrompendo como cogumelos – todos com menos talento que ele.

 

Era bom a pensar, a escrever, a polemizar.

Nunca lhe faltou a coragem para dar expressão pública ao pensamento. Nem vocação para escolher sempre as palavras mais adequadas à elegância formal que jamais cessou de procurar.

Sem atender a conivências nem a conveniências, criticou quase tudo e quase todos. Por vezes com um desassombro que alguns confundiam com arrogância ou cinismo. Por vezes com incoerências, naturais num percurso tão vasto, que se espraiou por seis décadas: era o comentador político português que exercia o ofício há mais tempo em permanência.

Vinha do pioneiro Almanaque, remontava ao antigo O Tempo e o Modo – publicações que hoje já quase ninguém sabe o que significaram na estreita sociedade portuguesa daquele tempo em que a censura estava inscrita no quotidiano mental das elites bem-pensantes.

Nem sempre fez os juízos certos sobre todas as figuras públicas que foi visando com a sua pena cáustica, pontualmente repassada de sarcasmo. Mas acertou na maior parte das vezes – em quase tudo quanto era essencial no catálogo de ideias que professava e foi sedimentando desde que estudou em Oxford, na primeira metade dos anos 70. A necessidade imperiosa de aproximar Portugal dos padrões de civilidade europeia, por exemplo.

Faltou-lhe escrever um romance. Ensaiou essa peça de ficção durante décadas, em versões diversas, mas era tão exigente com ele próprio que acabou por nunca publicar nenhuma.
Tentou uma aproximação ao género, com Glória, mas saiu-lhe afinal um ensaio histórico, aliás não destituído de brilhantismo. Com duas características essenciais: devolveu aos leitores o prazer do reencontro com a escrita narrativa, reaproximando a História da Literatura, e recuperou a biografia como peça fundamental da investigação histórica numa altura em que os cânones académicos menosprezavam o género.
No campo da historiografia, o título imbatível do seu legado foi o primeiro: O Poder e o Povo, que derrubou para sempre vários mitos beatíficos sobre a I República. Pena também esta investigação ter ficado incompleta, pois só abarca um período circunscrito deste ciclo histórico que antes dele era descrito com inúmeras omissões factuais.

 

Sentiu-se por duas vezes atraído pela política activa, nas décadas de 70 e 90, mas depressa concluiu que não era aquele o seu mundo e soube retirar-se muito a tempo. Também a comunicação radiofónica e televisiva estava longe de constituir o seu domínio de eleição, que era o da escrita.

 

Tinha este dom – e soube exercê-lo. Graças a ele, ensinou muitos de nós a reflectir, a ponderar, a argumentar, a desafiar os bonzos da opinião, a questionar os dogmas soprados no vento, a ripostar sem medo.

Por vezes à custa de si próprio, pois consumiu-se sem remissão na contingente espuma dos dias, que lhe roubava tempo e paciência para outros projectos, mais adequados ao seu engenho.

Eis o fardo insustentável de um comentador – mesmo o melhor de todos, como VPV. Não vejo hoje ninguém que possa equiparar-se a ele. Vai fazer-nos muita falta.

O “exclusivo” de Marcelo na SIC


Pedro Correia,

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Marcelo Rebelo de Sousa revelou à SIC uma das cachas políticas do ano: vai submeter-se a um cataterismo, para avaliar eventuais danos cardíacos e deste exame clínico dependerá uma decisão sua sobre a recandidatura à Presidência da República.

Acontece que a entrevista em que o Chefe do Estado fez esta e outras revelações não foi conduzida por um jornalista, munido do respectivo título profissional, mas pelo director-geral de entretenimento da estação outrora sediada em Carnaxide. O que constitui mais um significativo sinal da desvalorização do papel social dos jornalistas e da sua progressiva irrelevância no circuitos comunicacionais contemporâneos.

Que a SIC, onde trabalham dezenas de jornalistas qualificados e prestigiados, tenha prescindido deles para a obtenção desta informação em exclusivo e que o próprio Presidente da República elegesse como emissário desta novidade alguém ligado à área do entretenimento diz muito sobre a degradação de um ofício hoje invadido a todo o momento por gente que não se inibe de divulgar matéria supostamente noticiosa sem sujeitar o que supõe saber ao crivo do contraditório nem cumprir outras normas deontológicas que só vinculam os portadores da carteira profissional de jornalista.

 

Não passa praticamente um dia sem que, neste ou noutros canais, escutemos comentadores da política ou do desporto difundirem em antena “notícias exclusivas” que muitas vezes são meros rumores, à revelia das respectivas direcções de informação. O caso mais flagrante acontece na área do futebol – a tal ponto que me questiono se continuam a existir jornalistas habilitados a pronunciar-se na área do desporto em qualquer destes canais. Mesmo que a resposta seja afirmativa, o facto é que qualquer deles pouco mais servirá do que para estender um microfone, muitas vezes em “conferências de imprensa” onde não se escuta uma verdadeira pergunta digna desse nome.

Tudo isto deveria preocupar a estrutura dirigente dos jornalistas – se ela existisse. Acontece que esta é a única actividade abrangida por um código deontológico que não está organizada enquanto ordem profissional. Condenados à proletarização, sem condições mínimas para exercer o trabalho, desconsiderados pelas empresas onde prestam serviço e ultrapassados a todo o momento por qualquer “comentador residente” em estúdio, os jornalistas figuram hoje no posto mais baixo da cadeia informativa.

Problema exclusivo deles? Não: é um problema dos cidadãos que tantas vezes preferem ser “informados” pelo que “se vai dizendo” nas redes sociais e elegem as televisões que mais transformam notícias em “entretenimento”.

Um problema do País, portanto.

His master’s voice de Agosto


Pedro Correia,

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«A greve [dos motoristas de veículos pesados e de materiais perigosos] é completamente injusta. (…) Não faz sentido.»

«O que é que as pessoas que estão a passar férias no Algarve têm a ver com esta greve? Absolutamente nada.»

«A requisição civil é perfeitamente justificada.»

«O Governo está a fazer aquilo que qualquer Governo deveria fazer.»

«Esta é uma situação em que qualquer Governo teria muita dificuldade em lidar de outra maneira que não seja esta.»

«Houve, deliberadamente, da parte dos sindicatos e dos trabalhadores, uma “greve de zelo” aos serviços [mínimos] que estavam a prestar.»

«Os sindicatos vieram dizer que não se devem utilizar as forças armadas. Então qual é a solução para tentar resolver isto?»

«O que está em causa não justifica a greve que está a colocar o País nesta situação.»

 

Nicolau Santos, presidente do Conselho de Administração da Lusa por nomeação governamental e “comentador político”, aludindo à greve dos camionistas

SIC Notícias, 13 de Agosto