Pacote laboral derrubado pela Cheringonça


Paulo Sousa,

Na sexta-feira passada, o pacote laboral foi derrubado pela Cheringonça. Toda a esquerda celebrou esta derrota do governo. As forças situacionistas, PCP, Livre, BE, PAN, PS, JPP e Chega, uniram-se para impedir uma reforma do mercado de trabalho.

Bem sabemos como o Chega tem como única convicção conseguir chegar ao poder. Para isso está disposto a afirmar tudo e o seu contrário, a ser favorável a tudo e a nada, e até a unir-se ao Bloco e ao PCP. Os que defenderam o parlamentarismo que sustentou a Geringonça original mudaram de convicção quando exigiram linhas vermelhas que ostracizassem o Chega. Agora emocionam-se ao ver o Ventura de punho fechado na mesma luta que a CGTP. O PS, sem reacção, assiste à entrada do Chega pelo seu eleitorado adentro, como se estivesse a viver um acidente rodoviário em câmara lenta. O governo não vai perder a oportunidade para se vitimizar. Olhando para a insuficiência das medidas propostas, é fácil de ver que o impulso reformista já era fraco. Assim, evitou a normal urticária causada pelas mudanças e ganhou uma narrativa, não governa porque não o deixam.

Eu, que me lembro do pequeno Tavares sugerir que, por considerar o Chega um partido anti-democrático, os seus mandatos deveriam ficar fora das contas normais para alianças governativas, tenho de me rir com a celebração deste chumbo pelo grupo agora mais alargado de compagnons de route. Foi mais um momento em que pudemos assistir a pinos, reviravoltas e abraços improváveis. Ignorando as consequências negativas para o futuro dos portugueses, a política tem momentos engraçados.

A diferença


Pedro Correia,

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Muitos comentam de manhã à noite nas televisões. Quase sempre trocando os factos por “cenários”: os canais de informação estão cheios de gente que confunde fantasia com realidade. É a tal bolha mediática agora tão em voga: falam uns para os outros, repetindo o que já ouviram noutros espaços de palração e emitindo palpites em coro que muitas vezes saem furados.

Aconteceu a propósito das alterações à lei laboral apresentadas pelo Governo no parlamento. Terça-feira à noite, na SIC Notícias, um desses bitaiteiros que nunca têm dúvidas e raramente se enganam garantia saber como tudo iria passar-se: «É evidente que André Ventura vai viabilizar o maior ataque feito aos trabalhadores desde a tróica.»

Ao fim da tarde de quinta-feira, na mesma estação, outro tudólogo declarou sem hesitar: «Surpresa nenhuma. Sempre disse, neste estúdio, que este pacote laboral seria aprovado pelo Chega.»

Valha a verdade que alguém remou em direcção contrária, expressando elementar bom senso. Alguém que consegue ver para lá da espuma dos dias e não confunde fezadas com factos. Refiro-me a Raquel Abecasis, também comentadora da SIC Notícias, que nessa tarde de quinta advertiu em tom esclarecido e precatado: «Vamos ver… com o André Ventura até ao lavar dos cestos é vindima.»

A advertência ficou registada. E tinha plena razão de ser, como se confirmou cerca de 17 horas depois, quando os deputados do Chega se uniram às bancadas parlamentares da esquerda no voto contra o chamado “pacote laboral”.

Raquel fez a diferença. Quem sabe, sabe. Quem não sabe, proclama “verdades” absolutas como se Ventura não fosse o cata-vento que todo o País já conhece. Todo? Não: na tal bolha mediática muitos continuam a levá-lo a sério, nem imagino porquê. E a espalhar-se ao comprido por causa disso.

Como no célebre western de John Ford, preferem imprimir a lenda em vez do facto.

Chega de confusões*


José Meireles Graça,

Aquando das últimas eleições dei-me ao trabalho de ler programas eleitorais – os do PSD, PS e Chega, os dois primeiros em diagonal. Movia-me a curiosidade de apurar onde estaria o alegado fascismo do último (mesmo sem rigor no uso da palavra, antes lhe conferindo a interpretação extensiva e abusiva que a esquerda para ela conseguiu) e, quanto aos outros, se havia forte pendor liberalizante, induzido por anos de passismo, num, e vestígios de anti-socratismo no outro.

Não é que interesse muito. O eleitorado não lê programas e faz bem – se for preciso torpedeá-los os partidos, na prática, não hesitam, e o que define estes é mais a sucessão de escolhas e alianças e menos o imaginário que povoa as cabeças dos intelectuais militantes, com perdão da contradição.

(Sobre o PSD concluí que não senhor, de pendor fortemente liberalizante nicles, a sua versão de intervencionismo estatal é mais comedida, sensata e rigorosa que a do PS, mas a diferença é de grau, e sobre o PS o anti-socratismo consiste num declarado e recente amor da diminuição da dívida pública, Europa oblige).

Que isto é assim o Chega tem provado abundantemente. O programa eleitoral era, na parte económica, estritamente liberal, e todavia o partido tem cavalgado não poucas reivindicações que implicam aumento da despesa pública ou do peso do Estado. Na realidade o programa não diz, mas a prática mostra, que o fonds de commerce é o descontentamento de um crescente número de eleitores, irritados com a percepção de um país de empregados de mesa e a realidade de familiares, com diplomas, que dão à sola lá para fora; com a presença de estrangeiros que aqui vêm ganhar a vida, dos quais muitos são percebidos como uma potencial ameaça; com o irritante atropelo aos costumes que as causas de uma esquerda engenheira social tem feito passar, em parte, para as leis, e, no todo, para os editoriais dos magistrados da opinião consensual; com o desmoronar do sistema de saúde e dos de segurança policial (se real, neste caso, se apenas como mera importação de modas estrangeiras, conta pouco); e sobretudo com o abismo que o Governo tem vindo a cavar entre um país moderno, progressivo e iluminado na teoria, e desesperançado, esclerosado e acomodado na sua apagada e vil tristeza na prática.

Estes eleitores não vão desaparecer, e é provável que aumentem porque o país não cresce o suficiente para sustar a degradação da maquinaria do Estado, donde precisa de fazer reformas que ofendem interesses da massa enorme de dependentes que a barganha eleitoral tem vindo a engordar com o sucesso da esquerda; mas a existência mesma dessa massa impede-as. De modo que todos, incluindo o Chega, não serão demais para reverter o caminho do declínio insidioso.

É aqui que entram as recentes eleições espanholas. O desastre da governação Sanchez não foi suficientemente penalizado pelo eleitorado, por razões lá deles (Ricardo Dias de Sousa, que conhece bem os miasmas do pântano local, explica aqui os escaninhos do processo), e a realidade espanhola, por causa dos nacionalismos, não permite excessos de comparativismo. Porém, a tese central (de que a aproximação ao VOX não prejudicou o PP), essa sim, pode ser importada.

Do ponto de vista aritmético e lógico, já Telmo Azevedo Fernandes havia demonstrado que a cerca “sanitária” ao Chega é (qualificação minha) um exemplo de gritante burrice.

Mas como pelos vistos a paixão (no caso a aversão a André Ventura, suspeito que por não caber no molde do intelectual doutrinário, nem ser particularmente consistente, nem estar rodeado de bonzos do pensamento de fato e gravata que a esquerda tolera, nem se encaixar no rotativismo PS/PSD, ambos com adjacências) tolda o discernimento, vejamos de perto o que se vê no Chega que justifica o seu alegado perfil antidemocrático e infrequentável. Tomo para exemplo um bom artigo de Alexandre Homem Cristo elencando objurgatórias, que transcrevo e comento:

… o VOX serve essencialmente de obstáculo à composição de maiorias. Por um lado, porque provoca uma fragmentação dos votos que prejudica a eleição de deputados: em 2023, PP e VOX somaram juntos etc.

Que bom seria um mundo tranquilo onde não aparecessem partidos novos para satisfazer aquelas pessoas que deixaram de estar confortáveis nos antigos. Mas essas pessoas não vão desaparecer, são uma fatia significativa dos votantes e tendem a crescer na exacta medida da falta de resposta aos problemas que existem ou creem existir. Habituemo-nos: rotulá-los de deploráveis, fascistas ou infrequentáveis não apenas os reforça nas suas convicções como reforça também o conjunto das esquerdas que interesseiramente assim os veem.

… representa um ataque ao regime democrático e aos valores fundacionais das repúblicas liberais.

É lá, o Chega defende limitações à liberdade de expressão da opinião, à realização de eleições nos prazos e com as regras constitucionais e legais, o desrespeito da Constituição, das leis e dos tribunais? É boa, não me tinha apercebido. Mas como a acusação é grave conviria demonstrá-la. E por favor não se invoque o ataque à comunidade cigana, por exemplo, como demonstrativa de uma generalização abusiva e uma inerente pulsão fascista. Porque a generalização é de facto abusiva, mas não o é menos a sistemática omissão da pertença do criminoso xis ou ípsilon a um grupo social com características distintivas, como se fosse missão da comunicação social escamotear informações para o efeito de os leitores se despirem dos seus preconceitos.

… exibe um amadorismo confrangedor, um grupo parlamentar medíocre e uma embaraçante falta de quadros políticos — só existe André Ventura.

Mithá Ribeiro e Pacheco de Amorim (com cujas ideias e opiniões não tenho necessariamente de concordar) são deputados e não me parece que se distingam pela mediocridade. Os outros não conheço mas dois em doze são 16%. Está o Alexandre convencido de que nos outros partidos 16% dos deputados se distinguem pelas suas exaltantes qualidades de tribunos? Eu não. E a falta de quadros que não dê cuidados – o sucesso cria-os porque nascem debaixo das pedras e o insucesso afasta-os porque vão para pastagens mais verdes. Pode ser que Ventura não tolere quem lhe possa fazer sombra, mas isso é coisa para preocupar apenas os militantes, e os dos outros partidos deveriam agradecer o favor.

… afasta eleitores e enfraquece a direita: num país sociologicamente mais à esquerda e sob a memória traumática de um regime autoritário associado à direita, não há qualquer tolerância para os radicalismos de direita, mesmo se essa tolerância existe para os de esquerda (que muitas pessoas aceitam por associarem à resistência ao Estado Novo).

Que o país está sociologicamente mais à esquerda não oferece dúvidas. Todavia, se admitirmos necessário, como eu, que esse estado de coisas se reverta, é necessário combatê-lo, não viver perpetuamente em estado de vénia para não ferir susceptibilidades. Depois, o Chega tem posições (como por exemplo as que defende em matéria penal) que só por si seriam suficientes para me afastar, mas e daí? Onde está escrito que as linhas vermelhas que o bem-pensismo quer desenhar em torno do partido não possam ser desenhadas, em caso de qualquer acordo, em torno do isto e aquilo impalatável? O episódio recentíssimo da ridícula carta de Ventura ao Papa diz alguma coisa sobre o seu oportunismo e inconsistência, mas desde quando deslizes episódicos (e, no caso, quase cómicos) chegam para ostracizar partidos?

Finalmente: O PS de Mário Soares morreu há muito (Costa enterrou-o definitivamente), e a tal memória traumática do Estado Novo está moribunda. Dizer que o Chega é infrequentável enquanto se considera normal que o PCP e o Bloco façam parte de soluções (ou, em Espanha, já agora, partidos terroristas ou amputacionais do todo espanhol) releva de, por caridade, estrabismo político.

Votarei no CDS, que não ando a reboque de modas. E não conheço ninguém que no PSD ou na IL deixasse de votar nestes partidos por causa do alegado perigo de um entendimento com o partido dos fascistas. Porque um sócio minoritário que traga capital não vai definir a política da empresa – isso é o que fazem os sócios maioritários. No Chega sabem bem disso, que fazem teoricamente exigências (de pastas ministeriais, por exemplo) que sabem não poder ser cumpridas. O que quer dizer que entendem, e bem, que para continuarem a crescer o melhor é a chamada direita agir como se fosse de esquerda.

* Publicado no Observador

A nova Europa


Cristina Torrão,

No passado dia 6, apresentei aqui as últimas sondagens alemãs, indicando o AfD como segunda força política do país. O AfD é um partido conotado com a extrema-direita, o que, vindo da Alemanha, tem sempre um peso especial.

Tem? Ou tinha?

Na verdade, no que a este blogue diz respeito, os comentadores, em geral, contemporizaram, filosofando sobre o valor das sondagens, os fracassos dos actuais governos europeus e o verdadeiro significado da expressão “extrema-direita”. Fiquei surpreendida. Há uns anos (não muitos), uma sondagem alemã que apontasse um partido destes como segunda força do país provocaria uma torrente de indignações. Falar-se-ia das tendências racistas alemãs, de Hitler, do nazismo e haveria decerto quem se apressasse a distanciar o líder do Chega de tais correntes.

Hoje já não é possível. O referido líder português esteve, há pouco tempo, num congresso do AfD, em Magdeburgo. O que não deixa de ser estranho, tendo em conta a aversão que os nossos “cheguistas”, na afirmação da sua lusitanidade, têm em relação aos europeus loiros e de olhos azuis. A verdade é que o nosso “chefe” debitou (em inglês) uns lugares-comuns sobre a construção de mesquitas em solo europeu e foi muito aplaudido. Ou, pelo menos, assim parece, num vídeo publicado no canal do seu partido no YouTube.

Para quem torne a duvidar do carácter extremista do AfD, não é segredo nenhum, na Alemanha, que o partido conta, nas suas fileiras, com elementos do antigo NPD, esse, sim, assumidamente nazi. E, de vez em quando, surgem exemplos, indicando as suas verdadeiras tendências. O seu líder revelou, recentemente, os planos que tem no caso de chegar ao poder na região de Turíngia e, para a educação, deu a entender que irá determinar que as crianças com deficiência seriam proibidas de frequentar as escolas do ensino regular. Gerou uma onda de protestos dos outros partidos. Este é um tema muito sensível, na Alemanha, pois, como se sabe, o regime nazi era muito discriminatório, nesta questão, chegando a aplicar a eutanásia em pessoas com deficiência.

O chefe do AfD em Hamburgo causou igualmente perplexidade, numa entrevista de Verão, ao defender a construção de uma qualquer barreira à volta de um centro de apoio a viciados em droga, a fim de os esconder dos turistas. Esse centro situa-se perto da Estação Central de Hamburgo e, na sua opinião, os visitantes da cidade têm o direito de não serem incomodados com a visão da “miséria” (já agora, digo eu, escondam-se igualmente os pobres e os pedintes). Estas declarações chocaram ainda mais, pois havia a ilusão de que os representantes do partido, em Hamburgo, teriam princípios mais democráticos do que os seus colegas do Leste.

Também o aumento do anti-semitismo, neste país, é motivo de preocupação. A extrema-direita, incluindo a alemã, é cada vez mais aceite e ganha adeptos. Os partidos dos vários países unem-se. Mesmo o nosso representante, como vimos, já é “tu cá, tu lá” com a versão branqueada dos nazis. E, se os partidos crescem, nada mais nos resta do que aceitar a escolha popular.

Que seja! Pergunto-me, sobretudo, se esse camaradismo a nível europeu continuaria, caso os partidos chegassem ao poder. Não me custa imaginar uma guerra entre a Alemanha e a França, pela liderança da “nova Europa” (sim, que a Le Pen tem pêlo na venta e não se deixava ficar). E, se o VOX chegasse a um qualquer acordo com o vencedor da disputa, Portugal seria, finalmente, uma província espanhola. O nosso “chefe” com muito gosto se subjugaria, em nome de uma qualquer segurança, ou de uma sociedade limpa de misérias e de teorias inclusivistas.

Vitaminas para o autoproclamado quarto pastorinho


Paulo Sousa,

Depois de, por afirmações de João Galamba (ministro que merece toda a confiança do PM), termos ficado a saber que o mesmo contactou o secretário de estado adjunto do PM para solicitar a intervenção do SIS, continuamos a aguardar pela confirmação disso mesmo por parte de António Costa ou por Mendonça Mendes. Esta dupla de governantes recusa-se ferreamente a qualquer declaração sobre este assunto.

Eu gostava de lhes perguntar o seguinte:

– Têm V.exas. consciência de que, ao optarem por não prestar explicações sobre a vossa actuação no já tão debatido episódio da intervenção do SIS estão a alimentar o desapontamento de quem quer acreditar nas instituições, de quem quer acreditar na responsabilidade política e na lisura de procedimentos, e dessa forma estão a promover as abordagens mais radicais que ameaçam a saúde da democracia?

A Coelha Acácia


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Longe vão os tempos em que quis usar blogs (ou “redes”) para questiúnculas políticas, acima de tudo devido a, então quarentão, me ter deparado com a conivência e cumplicidade dos letrados lisboetas com o tétrico socratismo. Sigo agora neste aqui digital, já proto-sexagenário, entre algumas comezainas, um ou outro livro para o qual ainda me consigo concentrar, o meu Sporting, qualquer novidade moçambicana (lá de onde ficou o que de mim terá prestado). E, é certo, o revisitar da filmografia da Julia Roberts.

 

Ainda assim hoje atrevo-me a ir à política, mas agora sem acinte, pois na sageza etária resumo-me a que que cada um tenha as suas opiniões e as defenda com lisura. Mas, raisparta, tenho de me solidarizar com todos aqueles que anseiam por um líder coriáceo, até mesmo qual “capo”, que venha a reengrandecer o Portugal pátrio, firme expurgando-o das aleivosias e estranhezas. E depois sai-lhes este tipo, a lamuriar-se em público, e mesmo num “até sempre”, com a morte de um coelho! Isto só visto, pois tamanho cúmulo de ridículo se apenas contado ninguém acreditaria.

Chega


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André Ventura “é o único que lhes diz as verdades”, a “eles”, e por isso tanto o censuram, temem-no. E isto de virem estrangeiros, a dizerem-se “refugiados”, e aos quais até damos a nacionalidade, tem mesmo de acabar!

Divide et impera


Paulo Sousa,

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Os resultados do passado dia 30 mostram que a estratégia do PS de António Costa foi bem definida. Absorveu eleitores à esquerda e ajudou a dividir a direita. Nos dois braços desta acção o efeito Chega mostrou-se precioso para a maioria alcançada.

Além dos eleitores que no passado tinham votado BE e se sentiam envergonhados pelo chumbo do OE, a que se juntou o declínio etário e demográfico do PCP, o PS disputou com Rio o eleitorado flutuante do centrão e que historicamente definia o partido vencedor. A debanda da esquerda radical para o PS teria sido suficiente para o PS vencer, mas a maioria absoluta, essa, resulta do receio que o centrão teve do Chega. O modo como se formou a maioria não socialista no governo dos Açores e a falta de clareza de Rio em não afastar qualquer hipótese de uma coligação com a agremiação à volta de Ventura, foram decisivos para o resultado final.

O PSD que no passado era o representante maioritário do eleitorado não socialista, viu o seu espaço dividido pela IL e pelo Chega. Apesar da agremiação de Ventura ter também bons resultados em mesas de voto onde no passado o PCP era forte, a maior erosão que causa é junto do eleitorado do extinto CDS e do PSD.

O Chega tornou-se assim num elemento crucial para este efeito “tenaz” sobre os sociais democratas. O PS sabe disso e o apurado sentido de António Costa irá continuar a fazer o que Ferro Rodrigues, no seu modo arrastado e petulante já fez no mandato anterior, e que consiste em dar palco aos populistas. A recusa em manter a tradição que faria de Diogo Pacheco Amorim um dos Vice-Presidentes da AR e a “falta de convergência” apontada como motivo para não reunir com o Chega nas reuniões que irá ter com todos os restantes partidos, comprova isso mesmo.

O destrato deliberado e anti-democrárico dirigido aos eleitores irritados com a hegemonia arrogante do PS, reforça fortemente a vitimização de que Ventura precisa para engrossar as suas hostes.

Dividir para vencer. Apesar de muito antiga é uma regra que nunca perdeu a eficácia.

Começa a balbúrdia


Pedro Correia,

O secretário-geral do Chega acaba de bater com a porta, em aparente ruptura com a estratégia adoptada pela direcção do partido. Sem concretizar, sublinha de forma enigmática: «Não abdico da liberdade de pensar por mim e de apenas me dedicar ao que verdadeiramente me motiva.» Tiago Sousa Dias transitara da Aliança, fundada em 2018 por Santana Lopes, para o grupo de Ventura.

Começa a balbúrdia. Esta foi a primeira demissão, abrindo caminho a várias outras que vão seguir-se. A partir de agora haverá muito disto naquele saco de gatos que é o terceiro partido mais votado.

As raças do CHEGA


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(Postal para o meu Nenhures)

 

Leio que o novo deputado Pacheco de Amorim foi à tv reafirmar a pertinência da categoria “raça” (vá lá, ao menos não lhe chamou “etnia” como tantos dos bem-pensantes de hoje em dia). E proclamar, como se salvaguardando-a, a originária “branquitude” lusitana, à qual atribui significado politicamente relevante. Consta que o seu líder, o prof. Ventura, já saiu a terreiro atribuindo-lhe boa nota no exame oral.

 

Sei, por experiência própria, que é algo espúrio tentar convencer adultos racialistas (crentes nas “raças”) da inadequação de tal crença. Pois as pessoas mais limitadas (o que é muito diferente de “incultas”) vêm, à vista desarmada, que as populações têm cores de pele diferente e disso sentem como necessário corolário a existência de diferenças, em termos de lhes graduar habilidades físicas e/ou intelectuais. E mesmo morais (ou contextuais, no caso dos actuais missionários esquerdistas), do “malandros” ao “coitadinhos”. Já para não falar de que julgam que tais cores, “rácicas”, lhes atribui habitats apropriados, qual “cada macaco no seu galho”. Ou seja, a operação intelectual – aparentemente simples – de retirar qualquer importância – biológica, cultural, política, intelectual – à cor da pele dos indivíduos é, afinal, coisa demasiada para as capacidades dos morcões.

 

Quanto à nossa – abençoada, é sempre bom lembrá-lo – branquitude lembro este episódio (memória que vai dedicada aos morcões racialistas a la CHEGA e aos outros morcões que não são CHEGA).

 

Tinha a minha filha Carolina apenas 7 anos e fotografou-me assim, decerto uma experiência que lhe foi traumática. Dizia-me eu, aquando nestes propósitos capilares (que foram breves), que estava “fazendo jus aos antepassados”. Vendo a fotografia poder-se-ão retirar algumas conclusões individuais: um idiota em modo carnavalesco, um idiota tout court, um promíscuo homossexual dos anos 80s, um treinador de futebol das “distritais”. Ou em termos colectivos, “raciais”, um mero semita, qual “seu Nacib” da TV Globo, ou mesmo até um degenerado half-breed (melhor dizer assim, pois linguajar com pedigree de Ivy League, precioso para os esquerdalhos anti-americanos actuais).

 

Enfim, era eu mais ou menos assim (mas decerto que sem bigode), e um dia fui com dois colegas amigos, mais-novos antropólogos, petiscar almoço à “barraca” da Lenine onde o Eduardo White tinha então poiso certo. Quando entrámos ele ainda não chegara mas quem estava era um outro antropólogo, um ainda jovem norte-americano que fizera doutoramento sobre Moçambique. Juntámo-nos e lá vieram as moelas e as 2M, que se acumularam dada a boa conversa que foi decorrendo.

 

Aquele nosso competente colega é um louro (e talvez bem apessoado, ainda que as mulheres tendam a não concordar com os meus raros juízos nessa matéria). Mas não exactamente WASP, que o apelido lhe anuncia ancestrais mais euro-orientais. Porventura acalentado pelo incessante fluxo das garrafas, deixou-se contar a história da sua formação. Nesse rumo botou uma interessantíssima consideração – que eu logo fixei, pois similar ao que ouvira várias vezes de vários mais-velhos moçambicanos, como ao Monstro Sagrado Mário Coluna, ao Zé Craveirinha ou (talvez, não posso afiançar) ao Kalungano, como exemplos. Haviam-me estes contado do seu espanto quando c0nheceram Lisboa (ou Luanda, onde o paquete fazia escala) e viram pela primeira vez brancos a fazerem trabalhos braçais, como “almeidas” ou engraxadores…

 

Pois, para meu gáudio, o nosso colega narrou o mesmo. Californiano do sul, licenciara-se numa universidade dali mesmo. Depois, ainda muito jovem, partira para Londres para o seu mestrado. E naquela urbe espantara-se porque…. pela primeira vez via brancos na recolha do lixo e outros trabalhos braçais. E ao tal ouvir espantei-me eu também, num imediato “então? mas na tua terra quem é que faz tudo isso?”. Ao que ele me disse “os latinos”. E logo o interroguei “bem, então eu não sou branco!”. Ao que ele, de súbito num ricto deveras atrapalhado mas… já não tinha volta a dar-lhe, sussurrou “não.”

 

E todos nós-outros à mesa, que não ele, pois ali a sentir-se com as mãos pelos pés, nos rimos, eu num até desalentado “porra, que já nem branco sou”. E os meus amigos num gargalhado “mais-velho, por esta não estavas tu à espera…”.

 

E meter o que isto significa nas cabeças das pessoas é muito difícil. Quando as cabeças são fracas. E as pessoas estúpidas.

A Presidência da Assembleia da República


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Ainda nem acabou a contagem dos votos e já reina a primeira polémica da próxima legislatura, sobre a (vice-)presidência da Assembleia da República, com efervescentes opiniões sobre se deverá ou não o partido CHEGA ascender até a esse palanque, no qual consuetudinariamente se agregam representantes dos diversos grupos parlamentares. O relevo desta matéria é, acima de tudo, o de denotar como o debate político está transviado.

 

1. Muitos contestam a pertinência de que alguém do partido CHEGA assuma uma posição relevante na Assembleia da República, devido às antipáticas posições que aquele vem veiculando. Estique-se esse argumento até ao limite, um modo algo acurado de entender da robustez de um argumento: se em próximas eleições democráticas esse partido obtiver a maioria absoluta (longe vá o democrático agoiro) os outros partidos recusar-se-ão a ocupar os lugares e funções parlamentares para as quais tiverem sido eleitos, devido a discordarem de uma coabitação com o CHEGA? Pois agora é exactamente essa a lógica que defende uma exclusão parlamentar desse partido. 

 

Há também a questão do perfil político do deputado Pacheco de Amorim, apontado pelo seu partido como candidato a vice-presidente. E essa também deve ser abordada, pois esta eleição interna ao parlamento passa por um sopesar pessoal. E, para frisar este aspecto, lembro que há uma década o PSD propôs para presidente da Assembleia, e repetidamente, o seu deputado Fernando Nobre (sobre o qual eu bem resmungara o seu inapropriado reaccionarismo cultural – algo que agora alguns não deixarão de concordar, vendo-o tão mistificador anti-vacinas, qual opositor oriundo desse estapafúrdio caldeirão ideológico anti-sanitário, uma verdadeira mistela new age/”marxista cultural”/alt-right alérgica à pérfida “biomedicina” capitalista). Algo que foi considerado inapropriado pelos deputados, tendo depois sido eleita Assunção Esteves, ainda que candidata oriunda do mesmo partido. 

 

Agora a pertinência – e mesmo a legitimidade democrática – da eleição de Pacheco Amorim é refutada devido à sua anterior militância no MDLP, organização que desenvolveu acções armadas contra partidos de esquerda logo após o 25 de Abril, e sobre a qual sempre correu que tinha uma ligação – ideológica, afectiva, porventura até organizativa – com o antigo presidente Spínola. Ora, e se assim foi, torna-se importante lembrar que o Marechal Spínola foi, após o seu exílio – e com extremo ênfase simbólico -, reintegrado na genealogia do regime democrático. E que, como tal, isso pelo menos implicitamente abarcou os seus então compagnons de route.

 

E neste caso é interessante notar que muitos dos mais exaltados invectivadores de Pacheco de Amorim, dizendo-o envolvido em manobras políticas violentas pós-25 de Abril, foram durante 2021 grandes paladinos da consagração póstuma de Otelo Saraiva de Carvalho (sobre isso botei aqui). Ora, e como também botei a esse respeito, estabeleceu-se na sociedade portuguesa um consenso de “que houve desmandos no PREC, houve violência (encetada pelos assassinatos perpretados pelos agentes da PIDE em 25 de Abril), mas que se constituiu um posterior consenso de que “o que aconteceu no PREC ficou no PREC.“. Um consenso que os adeptos da extrema-esquerda (e de uma facção da esquerda PS) ainda querem deturpar, alargando-o para os desmandos assassinos ocorridos já após a institucionalização da normalidade democrática (pós-Constituição, para facilitar). Ou seja, os cultores de Otelo Saraiva de Carvalho não têm qualquer legitimidade intelectual (e como tal política) para negarem a pertinência de uma pretérita associação ao movimento anti-comunista MDLP como factor de elegibilidade democrática. E o historial da democracia portuguesa não suporta esse tipo de inviabilização, mesmo que por vontades de sectores mais abrangentes da sociedade. Isto não impede que se vote, racionalmente, contra o deputado, por discordância face ao seu perfil pessoal e/ou às suas opiniões políticas. Mas não permite que se clame qualquer ilegitimidade individual.

 

2. Todo este ruído sobre a (vice-)presidência parlamentar, e nisso sobre a relação com o CHEGA, torna-se um verdadeiro biombo que esconde a encruzilhada fundamental do regime neste início da legislatura. Pois em termos parlamentares o que é realmente relevante é quem proporá o PS para a presidência da Assembleia, estatutariamente a segunda figura do regime. Isto não será apenas uma dimensão simbólica. E menos ainda se prende a presumíveis capacidades individuais de dirimir o regimento do parlamento. Neste momento é, acima de tudo, uma mensagem para os agentes políticos e para a população, um sinal denotativo do estado em que se encontra o PS no dealbar desta legislatura que prosseguirá com a sua maioria absoluta.

 

Sobre o assunto as cúpulas do PS já colocaram a imprensa a ecoar dois presumíveis candidatos, num óbvio “apalpar do terreno”, interno ao partido e junto da opinião pública. Um dos nomes aventados é Augusto Santos Silva, que muito provavelmente virá a ser eleito deputado (candidato no círculo “Fora da Europa”). Grande intelectual e homem de vastíssimo currículo governativo, sem qualquer dúvida que tem – e apesar de um passado, já algo longínquo, de polemista abrasivo – um conteúdo “senatorial” que se adequará a esse cargo. E é provável que, em querendo eximir-se às exaustivas funções de ministro dos Negócios Estrangeiros, não se desinteressará desta hipótese.

 

Mas a outra propalada candidata é Edite Estrela, anterior vice-presidente da Assembleia, cuja apresentação ao cargo é sempre acompanhada pelo enfoque na valorização das mulheres em cargos políticos. Ora o simples facto de se ensaiar esta candidatura através das correias de transmissão para a imprensa – e já nem digo caso ela se venha a efectivar – significa a inexistência de uma verdadeira reflexão interna no PS, demonstrando uma insensibilidade ética partidária, e de como é nesse ambiente de pérfida irresponsabilidade que se prepara para se articular com o país.

 

Durante a campanha eleitoral António Costa sossegou-nos face à hipótese de uma maioria absoluta, dado que o Presidente da República seria um impedimento de hipotéticos excessos do seu partido. E, depois, logo no seu discurso de vitória eleitoral reiterou que essa maioria não promoveria desvios autocráticos do seu partido. Tornou-se mais do que evidente que, antes e depois das eleições, Costa nos queria afiançar que não se virão a repetir os execráveis desmandos – não só pessoais – acontecidos durante a governação de José Sócrates, ainda que a este não nomeando – como é óbvio que não o poderia fazer.

 

Mas o “soprar” da hipótese de Estrela para nº 2 do Estado vem completamente ao invés dessa promessa de justeza na condução dos assuntos públicos, de definitivo apartar do legado político socratista. João Miguel Tavares já lembrou aos mais distraídos as íntimas relações, pessoais e políticas, entre Edite Estrela e José Sócrates, as quais – se o objectivo é garantir à população que não se repetirão os desmandos do socratismo –  deveriam ser suficientes para inibir qualquer hipótese de atribuir à deputada quaisquer funções de efectiva relevância. Pois elevar Estrela a um posto desta relevância significa a perenidade do socratismo, da “costela socratista” do PS, a ausência de uma auto-crítica partidária e do necessário expurgar dos agentes coniventes com o pior período da democracia portuguesa.

 

Mas há mais razões, mais actuais, não só para contestar a ascensão de Estrela a tais funções, como também de lamentar o simples aventar dessa hipótese. Não é preciso fazer uma grande memória sobre o que aconteceu o ano passado. Face à extrema crise provocada pelo Covid-19, na qual Portugal chegou a ser, durante o Inverno passado, o país mais afectado do mundo em termos absolutos, foi encetado o urgente processo de vacinação. Uma tarefa que exigiu um grande empenho da administração estatal e uma grande adesão cívica da população. Ou seja, algo que foi (e ainda é) de suprema relevância política.

 

Como sabemos o processo começou com alguns problemas organizativos. Mas também com vários casos de fraude vacinal, promovidos por alguns integrantes do sistema de saúde e por políticos com influência decisória, aproveitando essas influências para se vacinarem indevidamente. O eco mediático dessas fraudes incrementou a ansiedade da população, já de si extrema, perigando a necessária confiança nas instituições estatais para que o processo fosse bem sucedido através da adesão generalizada. Foi então preciso reestruturar o processo de vacinação, mudar as suas chefias, para optimizar o seu funcionamento mas também para trancar esse nepotismo sanitário. E assumir o valor fundamental da equidade vacinal. Como sabemos, e felizmente, a vacinação nacional teve enorme sucesso, demonstrando que o povo está disponível para ser mobilizado pelo Estado desde que a administração seja competente e surja decente.

 

Será agora conveniente lembrar que, ao que então constou – ainda que as notícias sobre o assunto sejam parcas é certo que não há desmentidos disponíveis nos arquivos digitais, e portanto é totalmente curial aceitar a veracidade deste facto -, antes dessa reestruturação administrativa se vacinou indevidamente o marido da agora putativa candidata a nº 2 do Estado, e então já responsável da organização da vacinação contra o Covid dos deputados. Não se trata de criticar alguém apenas pelos actos do seu cônjuge, como é tantas vezes comum e até injusto. Pois esta é uma matéria política, de extrema relevância – o que foi mais importante do que a luta contra a pandemia e a mobilização dos cidadãos para as políticas de prevenção anti-Covid 19 nos dois últimos anos? E é evidente, todos o sabemos, que ninguém – até pelo facto de se tratar de um processo sequencial – se vacinou à revelia dos seus cônjuges coabitantes.

 

Neste contexto é mais do que óbvio que alguém que tenha compactuado com fraudes destas (repito, se as notícias foram certas) – por mais humanamente compreensível que seja a angústia pela saúde dos amados – não pode ocupar funções políticas. Muito menos a presidência da Assembleia da República. E o PS, se se quer anunciar como um partido de boas práticas democráticas, tendo ultrapassado a deriva nepotista e clientelar que o minou há alguns anos, não pode fazer ascender esta sua deputada a funções de relevo. Aliás, nem sequer a devia ter candidatado à Assembleia, quanto mais à presidência desta. Não só pela sua conivente intimidade com o período socratista mas também por esta afronta ao contrato social que uniu o país durante a crise pandémica.   

Da estupidez na política


Pedro Correia,

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Foto: Leonardo Negrão / Global Imagens

 

Quem pôs fim à geringonça foi primeiro o BE, ainda em 2019, e depois o PCP, a reboque do anterior.

Ambos chumbaram o Orçamento do Estado para 2022, aliados a todas as direitas. Enquanto diziam demonizar o Chega, juntavam os votos a esse partido.

Sabiam todos, por terem sido avisados, que esse chumbo – inédito na democracia portuguesa – conduziria o País a eleições antecipadas.

Não quiseram saber: embarcaram num voo cego ao abismo.

 

O PS engordou nas urnas – passando da maioria relativa à maioria absoluta.

O Chega multiplicou por 12 o número de deputados.

A bancada do PCP ficou reduzida a metade e perdeu o próprio líder parlamentar, excluído pelos eleitores.

O BE viu partir 79% dos deputados: tinha 19, ficou apenas com cinco.

 

Bloquistas e comunistas estavam à beira do precipício. Deram um passo em frente. Confirmando o aforismo de Einstein: «Duas coisas são infinitas – o universo e a estupidez humana.»

Costa, sorridente, agradece. E Ventura também.

Santos vs Ventura


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(Postal para o meu mural de Facebook)

Nesta madrugada li imensas referências ao debate entre o dr. Santos e o prof. Ventura, e muito elogiosas do presidente do CDS. Elogios esses plantados por gente de centro e direita, mas também por gente de esquerda, até personalidades públicas. Todos saudando não só a veemência aposta pelo dr. Rodrigues dos Santos como a cristalina distinção que fez entre uma direita democrática, comungando os “valores civilizacionais democráticos” e uma extrema-direita populista (e fascizante, também se diz), encabeçada pelo prof. Ventura – esse epifenómeno passageiro, como tanto insisto desde que o partido do prof. Rui Tavares, com o conúbio da “imprensa de referência” que lhe é tão simpática bem como ao PS, se quis através dele alavancar aventando escatologias. Tanto assim foi que, ainda enremelado, fui ver a gravação. Do debate ou, melhor dizendo, do embate retirei duas conclusões, uma abrangente e outra eventual: 

1 – Da questão abrangente: li imensas loas de gente de esquerda à democraticidade explicitada pelo presidente do CDS, que a reclamou ancorada no meio século de história do partido – e sabendo-se este como o tradicional partido da direita portuguesa (apesar do seu nome, marcado pelo ambiente ideológico nacional aquando da sua fundação). Dado esse coro de elogios será então de esperar que acabem as patacoadas que tantos botam regularmente (então nos aniversários do 25 de Abril torna-se um “meme”) sobre o salazarenta direita, os fascistas do CDS e do PSD, enfim, que finde a constante invectiva demonizadora sobre aqueles (partidos e cidadãos) que não partilham nem ideário nem “imaginário” (como esteve na moda dizer) marxista ou “pós-marxista” (como é agora uso corrente). Que tenham aqueles que usam como escalfeta moral uma “identidade” de esquerda (por mais reaccionários clientelares que, de facto, sejam no exercício de cidadania e na luta pelo leite das respectivas crianças) consciência de que é uma estupidez execrável chamar “fascista” a Passos Coelho, Paulo Portas (ou Merkel, Bento XVI ou aos Borbón), como tanto gostam, e estar agora a saudar o tal “cristalino” apartar que Rodrigues dos Santos fez entre democraticidade doutrinária e a sua ausência. E julgo que alguns dos meus amigos-reais percebem que é deles que me estou a lembrar (“este Zezé está um chato do caraças, envelheceu mal, que o viu e quem o vê…”; “o Zé Teixeira é um ressabiado”, “o José Teixeira é um…. fascista”, já ouço). 

E para que não se pense que falo do passado, mesmo que recente, recordo que o socialista Ascenso Simões – a quem os académicos de vários centros de investigação e múltiplos intelectuais “decoloniais” tanto apreciarão dadas as suas propostas de teor urbanístico – acabou de fazer uma correlação cultural e moral entre as SS (nazis, para quem se esqueça) e Rui Rio. E é num partido que valoriza esta gentalha que eles se revêm (pelo menos como “facilitador” de subsídios). 

2 – Do eventual (événementiel, para ficar mais elegante): após o elogiado embate Ventura-Santos foi proclamado o KO técnico em favor do aguerrido lutador Santos. Enfim, cada cabeça sua sentença… É certo que Santos esteve bem, ao demarcar-se de codicioso Ventura, mantendo-se assim à distância dos seus lestos “punches”. E mandou algumas “bocas” vigorosas, sonantes, tendo até havido “contagens de protecção” após dois ou três dos seus “cruzados” verbais (ficou-me na retina a sua excelente combinação do “desfile de cavalaria”). E, em especial, um impactante “gancho” (a alusão ao atrapalhado capitalista Vieira, de quem o prof. Ventura é, consabidamente, uma criatura), seguido de um poderoso “directo”, na alusão à pantomina do catolicismo venturiano, que deixou o oponente encostado às cordas, atordoado e defendendo-se com frustres “jabs” sobre a vida interna do CDS enquanto gritava “maricón” ao adversário, tentando desconcentrá-lo enfurecendo-o. 

De facto Ventura surgiu com alguma petulância, típica do incumbente campeão desta categoria de pesos-leves, subvalorizando o jovem candidato, dono de um menor currículo pois no dealbar de uma carreira, e bastante preterido nas casas de apostas. Ainda assim algo se recompôs, readquiriu algum ritmo. E impôs um “directo”, na alusão à participação sportinguista de Santos. Este, que seguia embalado no seu cadinho de golpes, coisa da sua inexperiência juvenil, foi ao tapete – acontecendo “contagem de protecção” -, e devido a golpe que teria sido de fácil defesa, do qual nem se protegeu nem foi assim capaz de ripostar (pois ao contrário do problemático “embrulho” Vieira, sobre a actual presidência de Varandas nada consta de ilegal, apenas uma saudável e louvável participação associativa numa instituição de utilidade pública). E, finalmente, Ventura aplicou, com mestria, um poderoso “uppercut” do qual Santos foi “salvo pelo gongo” no último assalto, naquela questão irrespondida sobre a proposta do CDS relativa à interdição dos responsáveis políticos transitarem para empresas das áreas que tutelaram (o CHEGA propõe um tonitruante impedimento perpétuo, que chama a atenção popular, o CDS uma sabática de dois anos, que ganha simpatia entre “quadros”). 

Mas dado que o combate foi decidido a pontos há que ter em consideração as penalizações. Pois Santos utilizou “golpes baixos” (abaixo da linha de cintura). Isso ao acusar Ventura de estar envolvido em casos de corrupção (tendo ilustrado com uma condenação por declarações, o que é outra coisa), o que é factualmente incorrecto. Será importante para todos aqueles agora laudatórios de centro e de direita, que enchem a boca com o “Estado de Direito”, e para todos os de esquerda, que passaram (mais de) uma década a defender as tropelias do governamental PS sob José Sócrates (e com tantos destes actuais governantes e [euro]deputados socialistas), em nome da inexistência de processos, de provas e falando de “cabalas” da ressabiada “direita”, apesar das óbvias e consabidas manigâncias socialistas de então, pensem bem se é aceitável este tipo de argumentação pugilista. 

Enfim, o meu voto? Renhida vitória por pontos do incumbente Ventura (a qual espero ter sido qual a de Pirro), devido às penalizações regulamentares sofridas pelo candidato Santos.

O fascismo ao virar da esquina


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No ressalto das eleições autárquicas li muitos (comentários em blog, comentários no meu mural de FB, postais de FB e twitter, textos de imprensa) horripilados com a quantidade de votos no CHEGA do prof. Ventura. Ouço gemidos pungentes, “tiveram 600 votos na minha freguesia”, “1050 no meu concelho”, “têm um vereador”, etc. Foi assim criada uma alteridade escatológica, a Besta (Imunda). E proclamado que face a esses 4% momentâneos nos deveremos unir pois, como disse Niemöller (que alguns chamam Brecht), “quando o CHEGA veio buscar os ciganos, eu fiquei em silêncio (…), quando eles prenderam os subsídiodependentes, eu fiquei em silêncio” e por aí afora.

 

A razão desse imparável movimento, que em breve assumirá o poder com maioria absoluta, deveria ser-nos clara, até porque nos vem sendo anunciada na “imprensa de referência”: é a malvadez ontológica da população portuguesa, emergida de um fundo sociocultural desde sempre ancorado num racismo extremo e numa total intolerância. Pérfidas características nas quais somos líderes mundiais, quando muito ex aequo, como o comprova o culto quotidiano que prestamos a Afonso de Albuquerque, Pacheco Pereira (o Duarte, não o José…), a Sá da Bandeira ou a Humberto Delgado (digo, Norton de Matos). E que agora sobreelevará o infausto Ventura e o seu partido.

 

E nisso, nesse remanso intelectual, seguem tantos de nós muito descansados. Sem lhes passar pela cabeça que a irritação do “Basta desta merda” que leva ao “Chega!” vive de banqueiros fraudulentos que se baldam à prisão após processos de décadas, de políticos com eles conluiados, de jornalistas clamando Super-Martas ou de académicos louvando o PEC4.

 

Arejemos isto. E abandonemos estes trastes opinadores. E a tal putativa Besta Escatológica finar-se-á.

Um caso sério de coerência e constância


Sérgio de Almeida Correia,

Não haverá coligações com o Chega, nem em autárquicas nem em legislativas” (27/01/2021)

Temos que estudar os cenários que se coloquem na altura em cima da mesa, desde que respeitem o património de valores, o posicionamento político do CDS e o seu caderno de encargos”, disse referindo-se à possibilidade de um entendimento com o partido de André Ventura.” (25/05/2021)

Chega de barbárie


José Meireles Graça,

Disse algures, e mantenho, que o Chega! foi uma boa notícia para a democracia portuguesa, que nasceu desequilibrada por razões históricas umas e circunstanciais outras.

Equilíbrio é como quem diz. Que até mais ver nada indica, nos seus textos e na sua prática, que o Chega! tenha tendências antidemocráticas, isto é, nada permite supor que se um dia chegasse ao poder cozinharia os instrumentos para dele não poder ser desalojado pelo voto. Mas

A mesma coisa não se pode dizer do PCP, que desistiu tacticamente da tralha marxisto-leninista da vanguarda da classe operária (agora reciclada em povo trabalhador) mas que, nos seus soníferos textos na linguagem cifrada da seita, e nos anseios dos seus militantes, mantém intacta a fé na sociedade totalitária e inerentemente violenta e criminosa que acredita ser o sol na terra.

O Bloco é uma amálgama de genuínos comunistas gramscianos, alegados social-democratas (que são completamente a favor da liberdade económica desde que quem com ela ganhe seja esbulhado por via fiscal) e o povo das bandeiras progressistas da engenharia social, geralmente com acne e, se de idade respeitável, com uma grande corrente de ar no meio das orelhas, muitas vezes com albardas universitárias que recobrem a parlapatice.

Aparentemente, Costa deu um abraço de urso a estas duas últimas agremiações quando cometeram o erro, a troco de algumas conquistas sociais, e da minagem do aparelho de Estado e sindical, de o apoiar. Bon débarras, é o caso de dizer.

A IL tem uma influência positiva na opinião pública, que é estatista por razões históricas e de pobreza atávica, mas se crescer descaracterizar-se-á pela necessidade da agregação de quadros, de não ofender a legião dos dependentes do Estado, e de alinhar em coligações.

O CDS livrou-se de alguns deploráveis que emigraram para o Chega!, e de alguns liberais que não entendem bem o país em que vivem. Parece estar em vias de extinção, o que, a acontecer, não seria nem uma clarificação nem um progresso: o seu espaço natural não está preenchido por nenhum dos outros partidos, a não ser por uma franja do PSD, que é um albergue espanhol.

O PSD não existe – existem pelo menos dois PSDs: o de Rio (clássico regedor de freguesia, sério, dedicado e inepto) e o de Passos (o desejado que, se regressasse, esvaziaria parte do Chega! e da IL, além de pescar nos abstencionistas).

Do que vai acontecer a esta tropa fandanga não sei – tenho a bola de cristal embaciada; e não me vou dar ao trabalho de desenvolver cada uma das afirmações produzidas porque só converteria convertidos. De modo que do que quero realmente falar é desta proposta execrável do Chega!

Ninguém defende a prática de crimes, e menos ainda o de violação, que é hoje muito visível na comunicação social porque se insere no movimento generalizado de igualdade entre os sexos (e não entre géneros, uma denominação que pretende contrabandear para um desígnio justo e relativamente incontroverso maneiras de ver o mundo que são, para dizer o mínimo, discutíveis).

Nada permite supor porém que as violações sejam hoje mais numerosas do que alguma vez foram; nem que, neste crime ou em qualquer outro, o agravamento das molduras penais seja uma forma eficaz de os combater. A ideia de que, sob o império do desejo e a convicção da impunidade, o violador desista porque corre o risco de aterrar na cadeia 8 anos e não 4 (ou outra combinação qualquer sem exceder os 12, no caso de circunstâncias agravantes) é uma americanice oportunista que não se funda em nenhuma análise séria.

Então funda-se em quê? Na intuição, que é traiçoeira, de que a severidade das penas faz mais do que entupir as prisões; na ideia de que o direito penal deve andar a reboque dos crimes da moda; na convicção de que alimentar as paixões vingativas de quem, para salientar a sua virtude, faz gala na violência dos castigos, é um exercício que reforça a popularidade sem nenhuns inconvenientes; e no esforço populista de agradar às mulheres eleitoras, que se sentem mais protegidas por um partido que aparenta preocupar-se mais com elas do que os outros.

Da natureza pública do crime nem falemos: há aí alguém nas polícias, nos que têm experiência com este tipo de casos, que acredite que é boa ideia saltar por cima da vontade da(o)s ofendida(o)s, sem que o que se ganhe em alguns casos de coacção prejudique outros em que elas (se forem elas) entendem que a abstenção da queixa lhes é mais conveniente?

Eu sei: olha-m’este a defender violadores. Ligasse eu excessiva importância ao que pensa a maioria das pessoas que não conheço, e até as que conheço, e não tocaria neste assunto envenenado.

Sucede porém que, aberta esta porta, a ordem natural das coisas será a de a moldura de outros crimes ser também revista. O quê? Então e a pedofilia? E os crimes de colarinho branco, que não prejudicam apenas o ofendido A ou B mas a comunidade? E o tráfico de droga, que alimenta a prática de outros crimes por drogados, para angariarem recursos? E, e, e?

Não faltam episódios na nossa história que parecem infirmar a designação, que se diz ter o Estado Novo inventado, de país de brandos costumes. Mas acaso a guerra civil de 1832-34 se revestiu dos horrores da espanhola de 1936-39? Acaso o salazarismo se erigiu em cima de uma pilha de mortos (em vez de uma pilha de resignados), com o tamanho de cadáveres das ditaduras de direita e sobretudo de esquerda até à II Guerra Mundial e mesmo depois?

Temos poucas coisas de que nos possamos orgulhar. Uma delas é a brandura do nosso Código Penal, que foi obra de sucessivas gerações de penalistas, e não da populaça que berra morra! sempre que lhe apontam inimigos dos valores da comunidade. E o tão esquecido Barjona de Freitas, em 1867, promoveu a abolição da pena de morte, um dos primeiros países, senão o primeiro, a fazê-lo no mundo. Sabemos que isso foi um progresso civilizacional porque muitas outras nações seguiram depois o mesmo caminho, e as que ainda o não fizeram lá chegarão.

Barjona de Freitas, se fosse vivo, não aprovaria esta proposta de lei; André Ventura, se não fosse um bárbaro oportunista, não a apresentaria; e os meus amigos do Chega! (tenho muitos) se tivessem juízo não davam à esquerda a oportunidade de aparecer como amiga da moderação e da civilização.

Discurso de ódio


Paulo Sousa,

Já por várias vezes me referi aqui ao Dr. Ventura como tendo um discurso javardo.

Já entendemos que o método dele passa por se armar em corajoso descarregando uma atoarda para no dia seguinte dizer algo muito mais contido, piscando assim o olho aos descontentes não javardos. Desta forma procura angariar simpatias a estes dois segmentos do eleitorado simultaneamente .

Não quero fazer análise política para desatar a fazer as contas a quem dá jeito ter um “javardo de serviço” no espaço público, mas basta ver a atenção que o poder lhe dá para ser fácil concluir que cada minuto que se fala das javardices do líder one men show do Chega é um minuto a menos que se fala do destrambelhamento com que se tem lidado com a chegada deste vírus diabólico.

Mas é o discurso de ódio que hoje me faz aqui escrever. Até que ponto podemos ficar indiferentes a uma figura pública que em discurso dirigido a quem o queira ouvir, venha apelar à morte de outros cidadãos, especificando que o critério de escolha se baseia na cor da pele?

Se dizer “Nós temos é de matar o homem branco” não é discurso de ódio, então não existirá discurso de ódio. É fácil de concluir que esta linguagem ultrapassa claramente o discurso javardo do Chega e fico a aguardar que alguém no espaço público tome uma posição sobre estas declarações do Sr. Mamadou.

A tua ditadura é pior do que a minha


Cristina Torrão,

Este oportuno texto de Rui Rocha mostra que a discussão sobre se a extrema-esquerda é pior do que a extrema-direita, e vice-versa, tem uma vantagem: recordar os absurdos e as atrocidades dos regimes ditatoriais.

Por outro lado, faltam-me as palavras para definir uma discussão do tipo “a tua ditadura é pior do que a minha”. Acima de tudo, quando, com uma conversa dessas, se tenta legitimar o apoio do Chega à coligação governamental açoriana.

Quem, desde o início, abomina a geringonça, achando inadmissível que partidos como BE e PCP sustentem um governo, também o tem de fazer em relação ao Chega! É uma questão de coerência. Porque, dizer que o Chega tem tanto direito de o fazer como os esquerdistas mencionados, é dar creditação a estes. Mais: é elevá-los à condição de exemplo a seguir!

Chegamos a um ponto em que ficamos satisfeitos ao nivelar-nos por baixo, tendo por referência maus exemplos?

(O cúmulo é ver Rui Rio a twittar à là Trump. Pelo amor da Santa: alguém lhe diga que o Trump já passou de moda!).