O ódio ao sucesso alheio


Pedro Correia,

 

Os mesmos que diziam que ele estava paralítico e parecia uma estátua agora gritam até à rouquidão com os dois golos que acaba de marcar no Mundial, na goleada (5-0) frente aos usbeques em Houston.

Cristiano Ronaldo surge hoje nas manchetes da imprensa de todo o globo. Por excelentes motivos: é o primeiro futebolista a marcar em seis campeonatos do mundo, tornou-se o maior artilheiro português de sempre na única competição da modalidade à escala planetária. E é o segundo goleador mais velho a metê-la lá dentro em mundiais.

Enfim, nada de novo. O ódio ao sucesso alheio, sobretudo se for de um compatriota, é mais antigo do que o Condado Portucalense.

Leituras


Pedro Correia,

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«A coragem e a pertinácia de nada servem se nunca forem colocadas à prova.»

Penelope Fitzgerald, A Livraria (1978), p. 43

Ed. Clube do Autor, 2021 (3.ª ed). Tradução de Eugénia Antunes

Um Natal Rácico


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Uma ríspida constipação tússica impôs-me um Natal solitário, para evitar contagiar a família. Isento da fartura de bacalhau, rabanadas, sonhos, coscorões e quejandos, e do fervilhante convívio com os mais-queridos, terei sido mais atento aos derrames televisivos, tanto às notícias dos dias como ao cardápio dos obrigatórios filmes da quadra. Ou seja, a dieta incrementou o meu estupor diante deste revanchismo sociopata do governo – e da sociedade – israelita, o qual amansei com uma panaceia tomada em duas cápsulas, num dia o filme “Pretty Woman”, no seguinte o “Notting Hill”. 

Hoje, e porque já menos alquebrado eximi-me a ver pela enésima vez o tão obrigatório “Pale Rider”. Mas, pois ainda convalescente, enrolei-me em manta e de ceroulas e pantufas assisti a uma simpaticíssima entrevista com o dr. Montenegro, passeando pelo tão aprazível litoral de Espinho, durante a qual o candidato apresentou os itens fundamentais do seu programa eleitoral. Pouco depois, já eu de chá de cidreira em punho, acompanhei o comentário político do inefável dr. Júdice. O qual me deu uma novidade – ao saudar efusivamente um inquérito feito pelo Instituto Nacional de Estatísticas, incidindo sobre as dimensões “étnicas e raciais” da população. Impante com a conquista civilizacional do nosso Estado, o referido dr. Júdice não deixou de salientar que a França não faz este tipo de questionários, algo que considerou ser causa dos problemas que aquele país tem. Deixando assim implícito que ao invés de outros países que assumem tais metodologias classificatórias, onde decerto inexistirão os tais não elencados problemas…

Mas fiquei genuinamente supreendido. Pois não tinha conhecimento de tal inquérito nem, muito menos, de que o INE já assumira esta classificação dos habitantes do país. Distracção minha, pois esta é uma verdadeira vitória política da esquerda comunitarista, dita “identitarista”. Há uma imensa literatura internacional sobre o assunto, uma muito militante paladina desta classificação dita “racial” e “étnica” das populações – com grande ênfase em documentação institucional e no “activismo intelectual”, toda de retórica benfazeja, e muita dela com implícitos revolucionários -, outra a isso avessa.

Não me vou abalançar a fazer uma súmula disso, para nisso promover um qualquer requebro bloguístico. Julgo saber, pelo que li num artigo de um demagogo antropólogo, que o nosso país é um “apartheid”. E também que a nossa população – pelo que também li de um outro qualquer demagogo – é maioritariamente crente num “racismo cultural. Um Inferno, luso. Ainda assim prefiro ir ler os resultados do Boxing Day. E esperar que amanhã já esteja eu rijo para ir levantar os últimos exames médicos, para em breve me apresentar ufano diante da consulta aprazada para o início do ano em que serei sexagenário, impregnado que estou desta moinha duvidosa sobre se esta velha carcaça ainda aguentará mais uns tempos. Pois, de facto, é-me isso bem mais relevante do que gastar tempo a discutir esta gente, coisa afinal sem qualquer préstimo.

Ainda assim, e antes dos resultados da bola inglesa, fui ver o inquérito. Está aqui. E começa mais ou menos assim o texto estatal: “A pergunta sobre a autoidentificação étnica, à qual os respondentes poderiam assinalar mais do que uma opção do grupo a que consideravam pertencer, compreende as seguintes possibilidades de resposta: asiático, branco, cigano, negro, origem ou pertença mista” (p. 2). Sorrio. E no monólogo deste sozinhismo murmuro um arrastado “foda-se...”, enquanto me noto a menear a cabeça. E depois sai-me um “este país é mesmo dos Tavares…“. “E dos Júdices“, complemento enquanto me levanto, pois nem vale a pena argumentar. Escorropicho o chazinho de cidreira, já morno. E vou-me servir de um uísque.

E assim fico, um branco com um uísque.

O turismo em Lisboa


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Há anos terei blogado aludindo a esta história mas repito-a agora, pois natalícia – dado que emanando da “voz das crianças”. A minha filha teria então 7, 8 ou, vá lá, 9 anos. Viéramos de Maputo em férias. No segundo dia, idos dos Olivais, cruzámos a Baixa, entrámos na Avenida da Liberdade e inflecti rumo ao Príncipe Real. Cruzando a Praça da Alegria a petiza, impressionada com o que ia vendo, perguntou lá do banco traseiro, perspicaz mas (ainda) não irónica: “afinal Lisboa é mais pobre do que Maputo?“. Tamanha a sucessão de edifícios entaipados, grafitados, decadentes, toda aquela “zona histórica” num estado tétrico, como o estava antes da explosão turística.

 

Este episódio vem-me muitas vezes à memória. Retornou agora, ao ver repetidas partilhas no Facebook de um texto de um evidente intelectual, clamando contra a profusão turística que arromba a “identidade” lisboeta – e decerto que nisso a portuguesa. O texto é partilhado por gente que se revê como de “esquerda”, “progressista”, com laivos ou âmagos daquela “interseccionalidade” da moda, e com presumível bom comércio com as fundações coordenadas pela maçonaria e com o jornal da SONAE. O poder, entenda-se,

 

Ora se em nome da preservação da “nossa identidade” eu escrever que muita confusão sempre me fez a disseminação por todo o país, quais cogumelos, de pequenas lojas de quinquilharia entregues a casais chineses, notoriamente incapazes de fazerem aqueles investimentos, dir-me-ão do CHEGA. Tal como se falar contra a proliferação nas “zonas nobres” das cidades de lojas asiáticas de lixo “souvenir”, que evidentemente não se pagam a si próprias. E se me alertar com as preocupações de alguns – já passadas à imprensa – com a importação de núcleos de bandidagem violenta oriunda do Brasil, passivel de arrombar a “segurança”, o grande bem “identitário” nacional – como sabe quem viveu no estrangeiro -, dir-me-ão “xenófobo”. Se resmungar contra a opção para motoristas públicos por oriundos do subcontinente indiano, desprovidos de conhecimentos básicos para o efeito – como também a imprensa narra -, avessos a essa “identidade” popular lisboeta que é o “taxista”, ainda mais “fascista” serei. Se protestar contra a inaceitável construção municipal de um templo para a crescente imigração muçulmana, sobre mim dirão pior do que Maomé proferiu sobre o toucinho. E se me passar – como sempre me passo – quando vejo nas ruas da minha cidade uma cabra de véu, assim clamando serem as outras (portuguesas ou outras, islâmicas ou de outros credos ou increias) desonradas, violentáveis e até escravizáveis, dir-me-ão até incapaz de compreender a “multicultura”….

 

Mas se disser mal dos “franceses”, desses “europeus”, que aqui vêm destruir a “identidade” da “comunidade” lisboeta, da rede dos seus “clubes” e “associações” como se estes ainda “orgânicos”, então partilharão o meu texto, aplaudirão o meu “progressismo”, a minha defesa da “identidade” municipal, até pátria. E se o texto estiver bem escrito até é capaz de ascender ao… “Público”.

 

A todos estes “progressistas” de pacotilha desejo um Natal cheio de … salmonellas nas lampreias e similares.

O hífen na RTP-África


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Enfim, sou um chato, cada vez mais um velho chato… Ontem liguei a RTP-África (um canal do serviço público, para quem se possa ter distraído). Procurava notícias sobre a situação em Moçambique – inexistiam, tal como inexistem nos outros canais da RTP. Paciência, a gente sabe da modorra e desinteresse do funcionalismo público instalado naquela empresa. 

Mas não é isso que me traz aqui. Pois andava eu vasculhando para trás e para a frente na transmissão,  à cata de algo que tivesse chegado do (efervescente) Maputo, quando me deparei com este programa, que será de variedades e tem aspecto de ser simpático. Mas acontece uma coisa: a RTP é estatal, cumpre (algo esbatidas) funções do tal “serviço público”. Para que ela funcione nesse enquadramento os portugueses pagam impostos. E concordam também que concorra com outras empresas televisivas no mercado da publicidade, contribuindo para o estado depauperado em que essas vão subsistindo. Tudo isso porque se acorda que o papel da RTP é fundamental.

Sendo assim conviria informar os serviços de produção que “Bem Vindos”, o nome inscrito nos cenários deste programa, é um erro. Não é um acto criativo, não é  uma “liberdade literária”. É pura e simplesmente um erro, falta-lhe um hífen. Que haja erros nas legendas ou nos rodapés (que agora os incultos incautos chamam “oráculos”) é criticável mas é normal, humano, falhas avulsas e individuais sob a pressão da inscrição célere. Agora um erro perene num cenário, não (r)emendado, assim reproduzindo-se entre espectadores? Para preguiça empresarial não haverá melhor exemplo.

Será que alguém pode ir ali a Chelas, à porta da RTP, informar o recepcionista “falta-vos um hífen na RTP-África”? Faltarão mais coisas. Mas pelo menos este hífen eles deverão conseguir arranjar.

Os Custos da Idade


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Isto de envelhecer traz vários problemas. Um deles – que não é o pior – é o crescendo de impaciência, a total falta de pachorra para as “novidades” e “excitações” que se vão sucedendo, isto porque em tempos recuados já se ouviram tais coisas, e até repetidas vezes, (res)surgindo estas agora apenas como tralha estafada, requentada, verdadeira fancaria.

 

Quero fazer-me entender, a impaciência é uma qualidade, um precioso método analítico. Mas faz correr riscos, pois tem dois corolários que são contraditórios, ainda que muitos não os apreendam como tal. Pois o impaciente tende ao menosprezo – de factos, ideias e pessoas -, o qual é uma virtude extrema. “Virtude” num velho duplo sentido, o de impregnado de bem e o de potencialidade para a acção. Pois é uma peneira, tornada instrumento de optimização da reflexão e acção. Mas o impaciente tende também para o desprezo – de factos, ideias e pessoas -, o qual é um pecado, pois inibe a acção, ao promover a distracção sobre o mal – esse que habita em factos, ideias e pessoas. Pecado esse a evitar, de molde a impedir a tal distracção face aos inimigos, que letal pode ser.

 

Um querido amigo acabou de comprar no OLX (já agora, eu estou a vender livros, lindíssimos e baratos, no OLX e no Facebook e não aparecem compradores, raisparta a vida…) a colecção quase completa da “Gaiola Aberta” e a da “Fala Barato”, publicações do grande José Vilhena. Passei hoje um bom bocado da tarde em sua casa a folheá-las, rindo-nos todos à gargalhada, com a coragem, o talento e o desplante de Vilhena. Mas também ufanos do ambiente em que crescemos, em que este registo abrasivo era não só aceite como aclamado.

 

E esta capa serve-me, que nem luva, como exemplo do que quero dizer sobre os efeitos distintos da tal “impaciência”. Este ano saíram duas biografias de Pessoa, que foram muito compradas e talvez até lidas, e também tópicos na imprensa e nas redes sociais. Nas quais amiúde se discutiu as respectivas abordagens, ditas relevantes e até inovadoras, à vida sexual do poeta. Um biógrafo afiançou-o homossexual, outro garantiu-o heterossexual. Debateu-se o tamanho do seu membro viril. Resmunguei em monólogo com a conversa de “ir ao cu”, se literalmente falando. Menosprezando a tralha, livros (para quê ler uma – grande – biografia de Pessoa?, para quê comprar uma – grande – biografia de Pessoa?) e conversas dedicadas. E lá está, é um menosprezo não agressivo, liberal (“vive e deixa viver” transposto para o “lê e deixa ler”), vindo da tal impaciência do envelhecido, de quem tem estrada atrás. Pois esta capa de Vilhena, que acabo de recordar, é de Julho de 1988 – tinha eu 24 anos! Como é óbvio não posso deixar de menosprezar, mas sem qualquer desprezo, estes taralhoucos de agora.

 

Mas este meu snorkeling em Vilhena recorda-me a necessária distinção, os cuidados a ter com o tão propalado “desprezo”, distractivo. Pois ao folhear as revistas é evidente que a liberdade que Vilhena tinha – em texto e em imagem – é passado. Por exemplo, a forma desassombrada como enfrentou uma jovem socialista em ascensão – e 30 e tal anos antes dessa gente roubar vacinas do COVID para dar aos seus familiares – seria hoje perseguida. Apesar do roubo de vacinas… E nós temos tendência para “desprezar” os tais ladrões de vacinas e assim neles desatentamos, esquecemos como mantêm influência determinante.

 

E esquecemos também – muito pelo tal “desprezo” – o persistente esforço dos donos do regime em fazer reduzir a liberdade de expressão, “escatológica” que seja. Compare-se o sarcasmo hiperbólico de Vilhena e veja-se as reacções ao “cartoon” do professor sobre Costa em 2023… Lembro eu aquele que o PS fez quase juiz do Tribunal Constitucional, no Parlamento a considerar que um “terroristas e cartoonistas estão bem um para o outro”, ou o “cultural” socialista Oliveira Martins a considerar que há barreiras “de bom gosto” para a liberdade cartoonística (e decerto que para outras). Já para não falar daquele Magalhães, dito “pai da internet portuguesa”, a fazer uma lei com potencialidades (“virtudes”) censórias, defendida na tv pública por uma mulher que nele se esfregava. Esta gente não é menosprezável. Nem desprezível. Pode ser, e é, repugnante. Mas são inimigos, e há que neles ter atenção. O “apreço” da atenção vigilante.

 

Uma adenda, para melhor fazer entender este peso da velhice impaciente? Perguntam-me o que penso eu daquilo em Israel. Eu lembro-me de estar em casa dos meus avós maternos, ali na Luís Bívar, diante do já extinto Hospital Particular. Ora o meu avô morreu quando eu tinha oito anos. E estávamos ainda todos à mesa, ao jantar, o telejornal a preto-e-branco tinha como introdução um globo terrestre girando. Depois apareceu Moshe Dayan, o ministro israelita com pala no olho, que me cativava por ser “pirata”. E também Yasser Arafat. Como é evidente 50 anos depois menosprezo os doutores (“politólogos”, alguns dizem-nos, “comentadores”, outros grasnam) que me vêm explicar os “direitos históricos” de uns e de outros dos contendores, carregados de prosápias certeiras.

 

Mas não menosprezo, e muito menos desprezo, o político energúmeno que informava a embaixada russa sobre os oponentes ao regime de Moscovo, aqui residentes ou visitantes. E que também informava a embaixada israelita das actividades de palestinianos (e outros) avessos ao regime de Telavive (ou Jerusalem, escolham), aqui residentes ou visitantes. Não o desprezo porque é o inimigo. Será repugnante mas nunca desprezível, pois há que nele atentar. Nele e na infecunda mole dos seus apoiantes – “ai o Medina respondeu muito bem ao ter levado com a tinta verde”, ouço e leio os seus sequazes que tanto grassam no meu desgraçado país.

Ensaio Sobre Extractivismo Intelectual


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Rotineiras razões médicas levaram-me a Moscavide, tétrica localidade vizinha pois nas cercanias do Trancão. Na qual encontrei este estabelecimento, presumo que sede da consagrada sucursal olivalense “Casa de Frangos de Moscavide”, esta sita no Largo do (saudoso) “Ferrador”, relevante estabelecimento comercial que durante décadas nos convocou a “percorra Portugal de lés a lés, com meias Ferrador nos pés“.

Tendo sido surpreendido, nisso impressionado, por esta “instalação”, verdadeiro item de arqueologia urbana, fui assomado pelas recentes memórias, essas que inundam a imprensa, o do ressurgimento do “affaire Coimbra“. Pois agora – na sequência de uma suicidária tentativa de censura de um artigo já publicado (e, já agora, como é grotesco ver a abjecta Fernanda Câncio no encalce de uma mulher que defende um homem acusado de más-práticas) – surgem dezenas de urubus “decoloniais” esvoaçando sobre a fétida carcaça do “abissal” ex-quarentão amante de Enver Hoxha, o tal Boaventura que consta meter a mão na pernoca das alunas, e grasnando histéricos contra o “extractivismo intelectual” que sobre essas pernocas larocas ele – pelos vistos – exerceria. Sendo que alguns desses desses gramscianos orgânicos, 40 até, e vários deles até putativos africanistas, emanam da sede boaventuriana, após anos e décadas de silencioso conúbio com os atrevimentos do “Mestre” e a sua constante defesa das ditaduras mais abjectas, nesse aldrabão e desvairado (pós)comunismo anti-ocidental. Mas que agora, com escandalosa impudicícia, surgem mui corajosos na “denúncia” do tal “extractivismo” e quejandos pecados, pecadilhos e, acima de tudo, imensos dislates, do anti-democrático chefe, sábio de retórica sedutora na agregação de financiamentos. Para gente que desde há anos medra sob o arguto moleiro Sousa Santos é caso para lhes atirar o evidente “tarde piastes…”. Ou, de outro modo, comeram-lhe da carne mas não lhe roem os ossos, os mariolas.

Mas enfim, o que venho aqui dizer – após ter chegado aos Olivais, fugido das redondezas da sede da “Casa de Frangos de Moscavide” – é sobre esse “extractivismo intelectual”. Digo-o com o saber de experiência feita, “muitos anos a virar frangos”: nas disciplinas retóricas, aliás ciências sociais, só os franganotes podem ser alvo de “extracção intelectual”. E há muitos franganotes que se acoitam nas capoeiras dos galarós. Depois queixam-se? Churrasco com el@s, como agora tanto eles gostam de escrever, na sua patética empáfia libertária. Para mim que venha o churrasco com bastante piripiri, por favor. Para disfarçar o agreste sabor do desprezo.

Ana e Camilo


José Meireles Graça,

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A escultura estava sossegada desde 2012 na adjacência do largo da Cordoaria, cujo nome foi mudado naquela altura para o de “do Amor de Perdição”.

Discutir os méritos artísticos da obra, como fundamento para a manter ou arredar do espaço público, num país onde há 19.317 rotundas, das quais cerca de três quartos se encontram com árvores, flores ou erva, mas as outras, infelizmente, com “esculturas”, é ocioso. E das centenas de encomendas municipais que não sejam para rotundas bastará lembrar os perfis de ferro representando não sei quê depositados numa praia em Matosinhos, de Cabrita Reis, ou o falo no Parque Eduardo VII que causou engulhos na Jornada Mundial da Juventude, de Cutileiro. O Estado central também dá o seu contributo: ainda hoje está erigido no ponto em que se concluiu a ligação por autoestrada entre o Porto e Lisboa, em Condeixa, um obelisco metálico, de Charters de Almeida, há uns anos providencialmente enriquecido com um ninho de cegonhas entretanto desaparecido (só o ninho, desafortunadamente).

Quase tudo isto é, para mim, lixo. E não receio a opinião dos entendidos, com frequência interesseira e normalmente despejada em palavreado pedante e hermético, porque o grande crítico de Arte é a posteridade. A qual raramente concorda com os críticos coevos, e não escreve, por impossibilidade lógica, textos sobre viventes.

A petição para remoção daquela estátua “despejada junto à Cadeia da Relação” fala em “desgosto estético” e “desaprovação moral” por Camilo não merecer ser representado “abraçado a um exemplar mais ou menos pornográfico”.

Esta pobreza argumentativa é, além do mais, desonesta. Porque, entre outras milhentas razões, existe não longe uma outra estátua (da qual, aliás, gosto), inaugurada com fanfarra e discurso (este do edil que acolheu a petição e lhe deu andamento, no caso o comentador desportivo e presidente da Câmara do Porto Rui Moreira), onde a mulher deita água pela boca como se tivesse acabado de engolir um pirolito. Se nisso quiserem ver imoralidade, fazem favor. E, igualmente perto, na Av. Dos Aliados, existe uma escultura de uma menina sentada, toda nua, coitadinha.

É certo que Camilo aparece vestido e, como diz Ilda Figueiredo, com argúcia, “querem pô-la nua, muito bem, desde que Camilo também esteja nu. Ou os dois nus, ou os dois vestidos”. Isto porque Ana Plácido é ali subalternizada, quando foi uma mulher “extraordinária”.

Foi sim senhor. Porém, a dra. Ilda que me perdoe mas só a conhecemos por ter sido amante e mulher de Camilo. Senão, seria uma entre outras heroínas anónimas.

Depois, Ilda e todos os outros (que, aliás, assinam uma petição pobríssima para depois dizerem que os motivos não eram os que lá constam mas outros que as sua prestigiadas cabeças excogitaram) partem do princípio ser Ana Plácido a mulher que ali está representada, a qual era, como se sabe, um tanto feiosa, coisa de que não sofre a esculpida. Acresce que o autor diz que aquela  representa a mulher na obra de Camilo, é simbólica, de modo nenhum pretendeu que fosse Ana Plácido. Isto que diz Francisco Simões, que aliás ofereceu a obra à cidade, deveria ter algum peso por ser o que em juridiquês se chama interpretação autêntica, e certamente mais do que o dos próceres que se juntaram para armar em junta da estética, da moralidade pública, do gosto oficial e do feminismo woke.

Por mim, logo que despontou a polémica numa rede, escrevi que julgava que a mulher representasse a Musa das Letras (que aliás não existiu, tecnicamente, mas Camilo bem merece uma para ele e mais poucos). Não fui levado a sério.

Há porém, parece, um movimento para manter a estátua onde está, já com mais subscritores do que as três dúzias que levaram Moreira a despachar, e até Ilda já deu o dito por não dito.

Portanto, Rui, revoga lá a coisa. E vós outros, ó mandarins do gosto, ide para Serralves repoltrear-vos na modernidade furiosa. Se bem que, logo no jardim, há uma colher de pedreiro que a mim parece pornográfica.

A morte do “A Bola”


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O ciclista português Rui Costa ganhou uma etapa na Volta à Espanha. O histórico jornal desportivo “A Bola” (de Carlos Miranda, no ciclismo, Santos Neves nos motores, Carlos Pinhão na verdadeira cultura, Alfredo Farinha, Aurélio Márcio, Vítor Santos e mais outros), celebra este feito desta forma. Que se havia transformado num pasquim benfiquista sabe-se desde há muito. Mas tanto e tão rasteiro é novidade…

Selecção Nacional


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Acabou a primeira volta do apuramento para o próximo campeonato da Europa de futebol. Quase todos vão contentes, a “equipa de todos nós” vai destacada em primeiro lugar, ganhou os cinco jogos seguidos, e o apuramento está quase matematicamente garantido. O novo seleccionador, o espanhol Martinez, já vai aureolado com o recorde de jogos seguidos vitoriosos nas secções de apuramento. E assim as hipotéticas críticas fenecem para debaixo do sofá.

Depois de ver o pobre jogo de ontem, pobre como outros anteriores, diga-se, deu-me para ver o historial dos jogos da selecção portuguesa com os oponentes deste grupo de qualificação. As diversas fontes digitais dão números algo díspares para um ou outro caso, mas sem mudarem o viés presente. Antes jogara-se com a Eslováquia 4 jogos (3 vitórias, 1 empate). Com o Luxemburgo 20 jogos (18 vitórias, 1 empate, 1 derrota – julgo que há 60 anos, na estreia de Eusébio, mas não fui confirmar). Com a Bósnia-Herzegovina: 4 jogos (3 vitórias, 1 empate). Com o Liechtenstein 8 jogos (7 vitórias, 1 empate). Com a Islândia 4 jogos (3 vitórias, 1 empate). 

É certo que há muitos anos que os comentadores televisivos repetem o, já sacrossanto, “já não há jogos fáceis”, dado aquilo de “as equipas estão muito bem preparadas”, o jogo alheio “está muito bem estudado”, etc. Mas de facto este grupo é muito fácil, talvez o mais fácil de sempre – e muito contrastante com recentes grupos de qualificação. Sim, entretanto algo poderia ter corrido menos bem, até mal. Mas seria preciso um enorme desatino colectivo para que a selecção nacional não percorresse esta qualificação com relativa placidez. Ou seja, se há contexto futebolístico em que o argumento resultadista é pouco fundamentador é este mesmo.

Ontem vi o jogo com a Eslováquia, aquele relativamente chocho. Portugal apareceu com o guarda-redes Diogo Costa, esse que os portistas dizem ser o melhor do mundo – não é, como se comprovou no recente período de transferências, com várias trocas de guarda-redes dos clubes de topo, milionárias, algumas até inesperadas, e no qual ele foi ignorado. Mas ainda assim é um bom guarda-redes. Teve como laterais Dalot, titular do Manchester United, e Cancelo, agora no Barcelona, depois do colosso Bayern Munique e do estratosférico Manchester City e tendo sido escolhido para equipa internacional de 2022. No centro teve Rúben Dias, o patrão defensivo do City, o que é suficiente como adjectivo. E António Silva que é (para resmunguice sportinguista, decerto) um verdadeiro fenómeno. No meio-campo começou com Palhinha – que durante anos foi injustiçado na selecção, decerto que devido às suas origens sportinguistas – e que esteve praticamente contratado pelo tal colosso Bayern Munique, mas ficou no Fulham onde foi no ano transacto o melhor (ou segundo melhor) trinco do futebol inglês. E Vitinha, titular do milionário PSG, para além de Bruno Fernandes, capitão do United, e Bernardo Silva, um mestre do City, imensamente elogiado pelo mago Guardiola. Na frente teve Rafael Leão, já eleito melhor jogador do calcio. E Cristiano Ronaldo, que embora quase quarentão vai marcando (como se tem visto nesta qualificação).

Eu não penso que esta selecção seja a melhor de sempre – falta-lhe “banco” consistente, não há grandes extremos no futebol português actual , escasseiam centrais alternativos. Mas ainda assim basta olhar para os jogadores que ontem foram titulares, para a sua qualidade individual e para os seus estatutos actuais, para perceber que é uma magnífica selecção. E a equipa joga pouco. Vai ganhando, às vezes até com surpreendente dificuldade, a adversários bem inferiores, muito como resultado de lances individuais, coisa normal  quando se tem este plantel e se joga com equipas mais fracas. Sem rodeios, com esta matéria-prima joga mesmo muito pouco.

Ou seja, tudo deixa antever que estamos na antecâmara de mais uma desilusão, mais uma sofrível carreira no Europeu de futebol. Um enorme desperdício. O qual só poderá ter um nome: Roberto Martinez. Mas tem outro responsável real: quem lhe entregou o leme.

A genitália espanhola


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Na actualidade há um grande alarido, um pessimismo político constante, que vem de todos os sectores. Não vigoram grandes utopias (aleluia!!), nem mesmo distopias, é mesmo só “isto está uma desgraça” à mesa do café. Se calhar o pessimismo sempre aconteceu (por cá, em tempos terá dado gás a um “sebastianismo” a que já ninguém acorre…), e o alarido também. Mas agora é mais tonitruante – um estardalhaço decerto que proveniente do impacto da revolução digital na imprensa, essa miríade de canais radiotelevisivos concorrenciais e demais “órgãos de comunicação social”. E na emergência das “redes sociais”.

 

Mas esse alarido escatológico cria uma percepção de crise política, degerenerescência democrática, que é errada. Pois, de facto, as democracias liberais estão muito mais viçosas do que antes. Nas décadas precedentes – quando até eu era novo – a rapaziada mais rústica, dada à nostalgia por uma velha “Ordem Nova”, sorria, melíflua, num “antes Suharto do que Sukarno” ou “apesar de tudo vá lá Pinochet, pois aquele Allende…”.  E os “progressistas”, os nossos próprios e os dos vizinhos, na expectativa de “amanhãs canoros” tinham como sonhos e causas erguer Berias, Hoeneckers, Hoxhas, louvavam Neto, a família Castro e – até – um Sung do pensamento Juche. Ou, vá lá, se mais calmos, suspiravam por Boumédiènes. E nisso sorriam, os que não exultavam – feitos “revolucionários” -, com os ideais de matar Mountbattens, funcionários espanhóis, alemães se ocidentais, Moros. E, já agora, dar um tiro no malandro da Santa Sé. E nisso, à nossa pequena escala, até mesmo “terminar” alguns anónimos portugueses, em nome do Herói Otelo, esse tão homenageado ainda agora por (proto)aposentados da função pública. Enfim, era o sonho de “transformar o mundo”, e de criar o “Homem Novo”. Nisso derrubar regimes. E também, em capítulo que não era mero rodapé, apear as monarquias restantes, ditas ilegítimas, e não só porque capitalistas, pois coisas do ócio irracional e da injustiça hereditária.

 

E agora?, após trinta anos de internet e vinte da digitalização do quotidiano, o que move os tais “progressistas”, “revolucionários”? Tudo se tornou qual uma “sociedade de corte”, essa que Norbert Elias dissecou… As nuestras hermanas ganham um torneio de futebolada. E erguem-se as “vítimas da fome…”, clamando contra a “falta de (boas) maneiras”, isso de um pateta histérico acariciar os genitais diante da rainha e das princesas de Espanha. Por cá tudo mudou, nesta senda do tal “Homem Novo”. Há duas décadas Louçã e seus esbirros abandonavam o parlamento quando um Borbón entrava. Agora cultuam o “respeitinho é muito bonito”, em especial se diante de Sua(s) Majestade(s). Podem parecer, e são, ridículos. Mas nesta mansidão – e por irritantes que possam aparecer – são melhores vizinhos, alheados das iras anti-regimes. Pois desde que haja “decência” tudo corre pelo melhor…. E as Majestades também concordarão com isto.

 

Deixo pequena nota de rodapé, meu contributo ideológico para que “o Sol amanheça para todos” e as “Luzes” se instalem. Como é sabido os gestos não têm significado universal. E o celebratório coçar da tomatada espanhol tem um correpondente português, este actual semi-manguito, o antebraço de punho fechado impulsionado na semi-horizontal o número de vezes correspondente ao júbilo de quem o brande. Quem veja um jogo de futebol – e outros desportos mais exultantes – vê-lo-á, repetidas vezes. O viril (e heternormativo) significado deste gesto “penetrador” é exactamente o mesmo. Espero assim que os damos, as damas e es dames se aglutinem em arruadas e abaixo-assinados da próxima vez que um qualquer jogador, treinador ou dirigente clame assim o “já lá está todo dentro”, “f….-te/vos”. Pois ainda que sendo nós uma república também exigimos ter boas maneiras…

 

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Inconsolável na morte de Prigozhin


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Na morte de Prigozhin fico inconsolável. Não tanto pelo desastre que o vitimou, e aos seus mais relevantes lugares-tenentes, cujas causas desconheço. E, num plano mais particular, não o estou por continuar a incompreender o que se passa na cabeça dos seus concordantes lusos, meus vizinhos, esses que lhe foram atribuindo razão – uma razão histórica, que seja – como este ramalhete encabeçado por Boaventura Sousa Santos, esse já patético decano (pós-)enverhoxhista que continua a clamar que a responsabilidade desta guerra de ano e meio é dos norte-americanos. Ou os seus inversos soberanistas, afinal farinha da mesma palha, esses crentes na “nação” impoluta, que abominam a democracia liberal e nisso encontram virtudes (para mim insondáveis) na demanda russa do seu ratzeliano (e hitleriano) “espaço vital”, como dizia a actual coordenadora do BE Mortágua, então comentadora política a tempo parcial.

Sigo inconsolável pois não encontro o meu “O Príncipe” de Maquiavel – legado avoengo, assim uma perda irreparável desta edição de 1945, enriquecida pelos comentários ao texto em tempos feitos por Bonaparte. Já basto usado, lombada desgastada, páginas oscilantes, amarelecidas. E uma preciosa colectânea de sublinhados, apostos pelos sucessivos donos Flávio, António José e este José Flávio. Que lhe terá acontecido, em que andanças terei perdido o querido livro? – e recordo até que há anos alguns ex-alunos me confidenciaram, risonhos, ter eu ganho entre algumas turmas a alcunha de “Maquiavel”, decerto que pelo empenho veemente com que perorava sobre o autor, pois nunca fui de tratar maquiavelicamente alunos, colegas ou outrem…

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Pois caído o avião que transportava o “cabo de guerra” russo, logo avancei para as estantes, em busca da literatura necessária para compreender o acontecido. Muito mais o Tácito de “Anais” e “Histórias” do que Suetónio. E, claro, Maquiavel, esse do qual agora me resta apenas esta selecta, publicada em 1890 mas com poucos excertos da obra magna, o evidente “O Príncipe”. E lá estão os nacos que procurava, para me aconselhar nesta queda mercenária, sobre o exercício do poder e sobre a privatização da guerra, como agora se chama. Para os partilhar abdico do francês doméstico e acorro aos fundos digitais, os gratuitos pdfs disponíveis, traduções brasileiras talvez menos apetecíveis aos nossos olhos. Mas suficientes. Aqui deixo os excertos sobre Prigozhin, esse que há tão pouco cruzara o Rubicão…

Quando seja louvável em um príncipe o manter a fé (da palavra dada) e viver com integridade, e não com astúcia, todos compreendem; contudo, vê-se nos nossos tempos, pela experiência, alguns príncipes terem realizado grandes coisas a despeito de terem tido em pouca conta a fé da palavra dada, sabendo pela astúcia transtornar a inteligência dos homens; no final, conseguiram superar aqueles que se firmaram sobre a lealdade. Deveis saber, então, que existem dois modos de combater: um com as leis, o outro com a força. O primeiro é próprio do homem, o segundo, dos animais; mas, como o primeiro modo muitas vezes não é suficiente, convém recorrer ao segundo. Portanto, a um príncipe torna-se necessário saber bem empregar o animal e o homem. Esta matéria, aliás, foi ensinada aos príncipes, veladamente, pelos antigos escritores, os quais descrevem como Aquiles e muitos outros príncipes antigos foram confiados à educação do centauro Quiron. Isso não quer dizer outra coisa, o ter por preceptor um ser meio animal e meio homem, senão que um príncipe precisa saber usar uma e outra dessas naturezas: uma sem a outra não é durável.

Necessitando um príncipe, pois, saber bem empregar o animal, deve deste tomar como modelos a raposa e o leão, eis que este não se defende dos laços e aquela não tem defesa contra os lobos. É preciso, portanto, ser raposa para conhecer os laços e leão para aterrorizar os lobos. Aqueles que agem apenas como o leão, não conhecem a sua arte. Logo, um senhor prudente não pode nem deve guardar sua palavra, quando isso seja prejudicial aos seus interesses e quando desapareceram as causas que o levaram a empenhá-la. Se todos os homens fossem bons, este preceito seria mau; mas, porque são maus e não observariam a sua fé a teu respeito, não há razão para que a cumpras para com eles. Jamais faltaram a um príncipe razões legítimas para justificar a sua quebra da palavra. Disto poder-se-ia dar inúmeros exemplos modernos, mostrar quantas pazes e quantas promessas foram tornadas írritas e vãs pela infidelidade dos príncipes; e aquele que, com mais perfeição, soube agir como a raposa, saiu-se melhor. Mas é necessário saber bem disfarçar esta qualidade e ser grande simulador e dissimulador: tão simples são os homens e de tal forma cedem às necessidades presentes, que aquele que engana sempre encontrará quem se deixe enganar.” (cap. XVIII; “De que modo os príncipes devem manter a fé na palavra dada”)

Dissemos acima como é necessário a um príncipe ter bons fundamentos; do contrário, necessariamente, cairá em ruína. Os principais fundamentos que os Estados têm, tanto os novos como os velhos ou os mistos, são as boas leis e as boas armas. E, como não pode haver boas leis onde não existam boas armas e onde existam boas armas convém que haja boas leis, deixarei de falar das leis e me reportarei apenas às armas. Digo, pois, que as armas com as quais um príncipe defende o seu Estado, ou são suas próprias ou são mercenárias, ou auxiliares ou mistas. As mercenárias e as auxiliares são inúteis e perigosas e, se alguém tem o seu Estado apoiado nas tropas mercenárias, jamais estará firme e seguro, porque elas são desunidas, ambiciosas, indisciplinadas, infiéis; galhardas entre os amigos, vis entre os inimigos; não têm temor a Deus e não têm fé nos homens, e tanto se adia a ruína, quanto se transfere o assalto; na paz se é espoliado por elas, na guerra, pelos inimigos. A razão disto é que elas não têm outro amor nem outra razão que as mantenha em campo, a não ser um pouco de soldo, o qual não é suficiente para fazer com que queiram morrer por ti. Querem muito ser teus soldados enquanto não estás em guerra, mas, quando esta surge, querem fugir ou ir embora.” (cap. XII: “De quantas espécies são as milicias, e dos soldados mercenários”)

E agora vou ler Tácito. Um bom dia para os aqui visitantes.

O Trancão!


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Ainda que estes anos de bloguismo (e subsequentes redes sociais) me tenham proporcionado simpático convívio digital e algumas agradáveis interacções pessoais, tenho a sensação de que o meu papel Iluminista tem sido subavaliado, até menosprezado. E não haverá maior prova do que esta – como o poderão comprovar os visitantes dos blogs em que escrevo e as minhas ligações no Facebook: há anos que recorrentemente aludo ao Trancão,* colhendo espanto, desconhecimento, indiferença ou, ocasionais, pedidos de esclarecimento sobre a sua natureza e paradeiro.

Mas agora, e por causa do Santo Padre, já todos falam do Trancão como se com ele fossem tu cá, tu lá… O meu papel precursor nesta temática é apagado. Ressinto-me disso. Pois só não se sente quem não é filho de boa gente…

* Uma amostra disso aqui no Delito de Opinião.

História, Escravismo e Racismo


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Fiz a 4ª classe em 1974. Como tantos dos miúdos de então aprendera já a História de Portugal nesta magnífica colecção de cromos, um original de 1953 que teve múltiplas reedições até meados dos 1970s (sobre ela ver este texto). A qual bem me marcou – e no final da licenciatura ainda fiz um trabalho sobre “o Zarolho e o Maneta” indo-europeu de Dumézil na história nacional, apenas devido às memórias dos cromos.

 

Tão impressiva ficou essa memória que ainda há dias dissertei no café sobre personagens cruciais na nossa história pátria – Deuladeu Martins (também ela figura dumeziliana, se se quiser…), Geraldo Sem-Pavor, Martim Moniz, etc. -, das quais tenho como exclusiva imagem e único saber o que aprendi naquela mítica colecção.

 

Nesse mesmo dia continuei, e explanei na esplanada a súmula do meu sempre adiado ensaio imorredoiro sobre o actual regime politico português: oscilamos entre a concepção que privilegia a indução da iniciativa empresarial privada (e muito ligada à silvicultura, note-se) e a preferência por um Estado redistributivo de índole caritativa (solidário, diz-se hoje). Ou seja, mantém-se a oposição entre D. Dinis (o tal silvícola PSD) e a Rainha Santa Isabel (o PS)- cujo debate político (conhecido como “Milagre das Rosas) apenas conheço através do cromo desta colecção.

 

Dito isto, em 1974/5 entrei no então Ciclo Preparatório e tive uma excelente professora de História, Margarida Cabral. Depois, já no Ensino Secundário, os meus pais remeteram-me para a escola oficial, os “Viveiros” de então – “não quis que fosses um menino de colégio” veio-me a dizer o meu pai uns anos depois, justificando ideologicamente a aberrante decisão…. Ainda assim ainda tive dois excelentes professores de História, no 10º ano (Abílio Esteves) e 11º ano (injustamente esqueci-lhe o nome). Em todos esses anos nunca me ensinaram a História de Portugal sob o molde de uma narrativa glorificadora da Gesta Pátria, mitificando a grandeza dos Feitos Imorredoiros. Nunca! Não esqueci os cromos mas fiquei com uma outra visão do rumo nacional. Jovenzinho subi à universidade. Tive uma disciplina de História Contemporânea – com Miriam Halpern Pereira, assistida por António Costa Pinto. Líamos a própria Halpern Pereira, Valentim Alexandre, José Capela, em 1984, há 40 anos! Mitos, Grandiloquência Patriótica? Nem um laivo!

 

Uma década depois fui trabalhar para a (excelente) Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses. Nesta, grosso modo, houve duas épocas, com alguma diferença que não abissal. Sob o primeiro Comissário Vasco Graça Moura predominou uma abordagem historiográfica menos “analítica” (opto pelo termo mais “liso”) e mais manuseável para a sua apresentação pública. Depois, sob o segundo Comissário, António Manuel Hespanha, e sem desprimor pela espectacularização comemorativa, privilegiou-se uma historiografia “analítica”, mais problematizadora dos processos históricos – um rumo que foi continuado pelo terceiro Comissário Joaquim Romero de Magalhães. É justo dizer que nessa década e meia não se enfatizou a vertente do escravismo, mas ela não foi apagada. E que bastantes investigações foram apoiadas e/ou publicadas, com vasta disseminação. Mas mais ainda: nesta semana andei a limpar velhos dossiers e redescobri uma luminosa conferência do Hespanha, “As narrativas da interculturalidade”, de Março de 1997. Não posso precisar se foi proferida em Lisboa ou em Maputo, mas nessas breves 8 páginas ele problematizava as questões fundamentais da história da expansão portuguesa, das formas de a analisarmos actualmente e a necessidade de sobre elas reflectirmos em termos de política, interna e externa. E o homem era o Comissário-Geral das Comemorações dos Descobrimentos Portugueses…

 

Depois fui 18 anos para Moçambique e não andei propriamente a ler a história pós-medieval portuguesa. Entretanto a minha filha fez o “liceu” no estrangeiro e assim não conheci os actuais livros escolares portugueses. Mas não acredito que – apesar da consabida influência da intelectualidade do PS – o ensino da História tenha regredido até aos modos patrioteiros colonialistas dos tempos do Ultimatum e da I República. Ou do Estado Novo…

 

Todas estas memórias (aborrecidas, os velhos inutilizados têm a mania de chatear os outros com os seus passados, coisas de “has been…”) vêm-me a propósito das constantes publicações na imprensa sobre a necessidade de “trazer a lume” a “Escravatura” portuguesa, de “descolonizar a história de Portugal”, de nisso afrontar o “racismo sistémico, estrutural” que polui os portugueses, qual necrose das suas almas. Todos eles clamam que a história portuguesa se reduz a um rosário de malevolências e que nada disso tem sido dito, na academia, no ensino, na sociedade. São falsários. Alguns são militantes políticos (“activistas”, diz-se agora) demagógicos. Outros são académicos falsários, o que é muito mais grave. Alguns outros são apenas jornalistas, e como tal não precisam de adjectivos desqualificativos.

 

O outro dia vi uma reportagem da SIC, anunciada com a habitual pompa e “gravitas” por Rodrigo Guedes de Carvalho, chamada “Pretérito Imperfeito“. Uma patetice pegada… Entre a colecção de dislates – e disso eximo o actual ministro da Cultura, ali respondendo com bom senso às patacoadas da repórter – saliento uma investigadora de Coimbra. Analisando os “manuais escolares” denunciava, com veemência, o facto de ser ensinado que os portugueses comerciavam “especiarias, marfim e escravos”. E que não se diz, reclamava, “pessoas escravizadas”. Ou seja, para esta intelectual “abissal” se eu conseguisse arranjar um lugar de professor de História (o ensino do secundário está vedado aos antropólogos, talvez por a corporação andar há décadas entretida nestas maluquices ideológicas e descurar o rumo profissional dos licenciados), eu deveria ensinar aos petizes que o comércio na era das navegações se centrava em “pessoas escravizadas”, “marfim animal” e “especiarias vegetais”. Caso contrário as pobres crianças (uns “monstros”, como disse um psicanalista célebre) não compreenderão…

 

E entretanto todas as semanas é publicada mais uma atoarda destas – no “Público”, no “Expresso”, nas televisões. Nisso pulula um conjunto de “activistas”, entre performers, artistas, jornalistas, académicos, e entre estes vários antropólogos – desses que vão pisar os brasões municipais na Praça do Império mas que nem percebem que a avenida que sobe até ao “Humberto Delgado” (nome que apreciam) se chama Avenida (da Conferência) de Berlim, ignorância irreflectida e apenas festiva que bem justifica que lhe troquem os nomes na tv… -, um conjunto aparentemente avantajado de gente que vai botando textos desabridos e falsários. Pejados de jargão, anunciam um malvado ensino da História e uma concepção de Portugal que não é real.

 

E há meia dúzia de tipos que lhes vão respondendo, com o saber e o talento de cada um. Mas que nisso apenas incrementam o eco destes dislates. Agora vejo que saiu uma pomposa “declaração do Porto“, vinda desses “activistas” – deve ter saído de uma actividade artístico-política que ocorreu quando estive nessa cidade há semanas. É um documentozito esquerdalho, uma “sobrevivência” dos tempos m-l, quais ressureições das FEC (m-l), PSR, PCP (R) e quejandas organizações revolucionárias. Dizendo-se contra o colonialismo e o racismo, ditos vigentes, o sumo das reclamações é uma discursata mal amanhada contra o capitalismo.

 

E tal como o país nada ligou a esses grupelhos nos 70s e 80s, bem que se podia fazer o mesmo a estes seus demagógicos descendentes. Haverá entre eles uma ou outra alma bem intencionada, pulularão intelectuais humanamente em busca de militâncias que propiciem tardias erecções. Mas de facto é uma tralha. “Aldrabística”…

O Saara Ocidental


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Isto de blogar há duas décadas tem uma vertente, já perorei sobre quase tudo sobre o que me poderia atrever a opinar ou ecoar, e resta-me chover no molhado, recuperando postais afinados ou desatinado que em tempos botei. Mais uma vez neste caso da peculiar candidatura do Al-Gharb (+Ucrânia) à organização do Mundial de futebol. A esse propósito leio no Expresso digital um certeiro texto, assinado por José Soeiro (que vejo ser um deputado comunista, facção BE). Ao longo dos anos volta e meia resmunguei (como aqui – para exemplo mais recente – ou aqui, se já recuando) sobre a falência dos princípios na prática estatal e no ramalhete “neo-marxista” “decolonial”, patenteada no conúbio político e no silêncio intelectual (aka “movimentos sociais”) face ao colonialista Marrocos. Dará jeito agora a (algum) BE arvorar o Saara Ocidental. Amanhã regressarão à denúncia do “Ocidente” e às loas à virtude do “Sul”. Aproveite-se o hoje.

O submarino


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Quando o célebre e milionário, verdadeiro mogol do automobilismo, Ayrton Senna se despistou ao volante do melhor carro do mundo e morreu, uma enorme vaga de comovida atenção cobriu as populações de inúmeros países nessa era pré-internet. Nesse mesmo dia morreu uma incontável quantidade de gente mundo afora em acidentes rodoviários. Chorados apenas pelos seus próximos. 

Ou seja, evitem enviar-me cartoons estúpidos, imorais aforismos moralistas, patéticos ensaios de economia política, borbotos de ciência política e arrotos de relações internacionais, chulé de sociologia do desenvolvimento e pus de ciências de comunicação. É mais do que normal que numa era de exponencial concentração da riqueza e turistificação do espaço e das profundezas do oceano, o desaparecimento de um submarino milionário em torno do mítico Titanic congregue atenções. 

E os que não “concordam”, não “aceitam”, se “indignam” e até (imagine-se) “reflectem” agora só têm um rumo, mudar de antenas próprias, alterar radicalmente o seu olhar sobre o mundo, disciplinar/ reconverter a atenção sobre o devir, esquecer Ayrton. Não o fazendo, como não o farão – têm lá eles força intelectual para isso… – fica apenas isto, o fel, o “ódio a Colbert”. Entenda-se, a inveja do pároco de aldeia que se sonha cardeal, inane pois nada muda. Nem quer mudar, apenas ouvir-se a si mesmo no púlpito, entoando a ladainha falsária.

JeSuis?


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Esta imagem que corre é radicalmente demonstrativa da lama vigente. Em primeiro lugar, o verdadeiro descalabro nacional que é ver militantes da “causa” docente manusearam imagens e escreverem “idealogias”. Sem rodeios, os erros clamorosos apostos nas múltiplas acções contestatárias dos professores são demasiadamente recorrentes para não significarem um estado catastrófico daquela classe profissional.

Mas, em segundo lugar e não menos importante, o verídico desta imagem recorda-me do que me custou quando resmunguei com as letras todas quando o partido liderado por António Costa candidatou ao Tribunal Constitucional um seu militante, antigo governante e fiel socratista, que considerara num discurso parlamentar que terroristas fundamentalistas islâmicos e caricaturistas “estão bem uns para os outros“. Esta reles mundividência não se restringe aos ascendidos aos postos de poder, percorre os fiéis mais plácidos, impregnados da cultura clientelista que os domina há pelo menos 25 anos – seguindo as vias dos comentários dou com apelos à criminalização do cartonista professor da comunista FENPROF por incitamento ao ódio… isto por quem, sei-o bem, nunca se indignou com caricaturas de Passos Coelho a disparar sobre a própria cabeça. Ou paladinos da transgenderização, sempre sensíveis à minúscula alusão advinda dos “macholas”, clamando em defesa do “racializado” Costa – mas que nunca se preocuparam com as caricaturas que apresentavam Passos Coelho e Portas como par conjugal. A hipocrisia dos socratistas, mesmo se já no remanso da reforma, é abjecta. Sempre.