
Ericeira, Junho de 2026
«Desfralda a invicta bandeira
À luz viva do teu céu!»
(Versos de estrofe não cantada do hino nacional)

Ericeira, Junho de 2026
«Desfralda a invicta bandeira
À luz viva do teu céu!»
(Versos de estrofe não cantada do hino nacional)

Ontem fiz rissóis de camarão. Comecei pelo recheio, sem pressa, com a calma adquirida em quatro meses de convalescença e recuperação física, que felizmente já está no bom caminho. Passei em seguida para a massa, que sovo ainda quente e deixo arrefecer durante um par de horas. Entretanto preparo os ingredientes para a confecção de um arrozinho de tomate com coentros, que é petisco que muito me apraz.
Com creme e massa arrefecidos quanto baste, é altura de abrir as hostilidades e começar a luta com o rolo da massa. É esticar até obter uma translucidez firme, centrar uma colher creme e cortar com ajuda de um aro (a minha mãe esticava a massa com uma garrafa vazia e cortava com um copo, com extraordinária mestria). Repeti o processo sessenta vezes, com alguns minutos de intervalo entre cada dúzia. Mais uma hora de frigorífico e ficaram prontos para panar. Mais um pouco de frio, e ficaram no ponto para congelar ou fritar. Fritei oito. Muito bons que estavam.
Dão trabalho? Claro, mas o que é que não dá trabalho?
E diz-me a entourage amico-familiar: “Mas porque é que não compras feito? Em AB os croquetes são muito bons! Em CD os rissóis até têm camarão! Em EF fazem uns pastéis de bacalhau de truz! Só mesmo tu para estares com esse trabalho todo.” Não é mentira o que dizem, mas nunca fui grande fã de andar a correr capelinhas e depois onde é que está o gozo de comprar comida feita? Uns frangos assados, ainda vá…
Hoje vou fritar mais uma mancheia deles. Tenho tremoços e asinhas de frango caseiras, também acabadas de fritar e vão ser acepipes de truz a ver Portugal jogar.

Neste 10 de Junho, apetece-me escrever sobre escritores portugueses. Para mencionar os romances do século XX escritos no nosso idioma que captam as luzes e sombras da portugalidade. Do ponto de vista histórico, social e até geográfico.
Conjunto capaz de proporcionar ao leitor uma visão abrangente da nossa Psicopátria. Ignoro se já foi tema para tese de doutoramento, mas a ideia aqui fica.
Entre as melhores narrativas portuguesas do século passado constam obras que descrevem o homem enquanto ser introspectivo – é o caso de Para Sempre, de Vergílio Ferreira. Ou o definem como membro da sociedade – sucede com Nome de Guerra, de Almada Negreiros. Ou o projectam no mundo e aí o entregam à sua sorte – temos como expoente A Selva, de Ferreira de Castro. Ou retiram coordenadas espaciais e temporais para exporem o ser humano na sua nudez elementar perante um cataclismo global – acontece no emblemático Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago.
Mas a Psicopátria surge noutros romances que nos desvendam enquanto povo neste concreto chão que nos coube em sorte e foi moldando um carácter colectivo.
Se me pedirem para indicar dez, são estes: Cerromaior (1943), de Manuel da Fonseca, Mau Tempo no Canal (1944), de Vitorino Nemésio, A Sibila (1954), de Agustina Bessa-Luís, A Casa Grande de Romarigães (1957), de Aquilino Ribeiro, Barranco de Cegos (1961), de Alves Redol, A Torre da Barbela (1964), de Ruben A., O Delfim (1968), de José Cardoso Pires, O Milagre Segundo Salomé (1975), de José Rodrigues Miguéis, Sinais de Fogo (1979), de Jorge de Sena, e O Esplendor de Portugal (1997), de António Lobo Antunes.
Cada qual no seu estilo, constitui uma ode em prosa à portugalidade. Num tempo e num espaço muito precisos.
Escrevo com a satisfação de saber reeditado, na histórica Bertrand, esse monumento à língua portuguesa que é A Casa Grande de Romarigães.
O autor, com excessiva modéstia, procurou desvalorizar esta obra chamando-lhe «crónica romanceada». É definição que desconsidera um dos melhores romances escritos neste idioma de Camões, Vieira e Pessoa. Romance sobre o apogeu e decadência de um solar brasonado no Alto Minho e da família que o foi habitando ao longo de sucessivas gerações. Na peculiar sintaxe barroca de mestre Aquilino, semeada de coloquialismos e neologismos da sua lavra. Com diálogos saborosíssimos e episódios exemplares que nos perduram na memória.
Romance que ironiza sobre o País mas sente imensa ternura por ele. Como muitos de nós fazemos, afinal.
texto reeditado

Em 1887, Eça de Queiroz concorreu com A Relíquia ao Prémio D. Luís, instituído por este monarca e atribuído pela Academia Real das Ciências de Lisboa. O júri, presidido por Manuel Pinheiro Chagas (oficial do Exército e historiador menor, um homem que havia sido ministro da Marinha e detestava Eça) excluiu aquele romance, conferindo o galardão à peça teatral O Duque de Viseu, assinada por Henrique Lopes de Mendonça, oficial da Armada, contista e dramaturgo, autor da letra do actual hino nacional.
Cento e trinta e nove anos depois, A Relíquia é um dos títulos fundamentais da ficção portuguesa do século XIX enquanto o drama de Lopes de Mendonça jaz sepultado na poeira de velhas bibliotecas.
Em 1934, Fernando Pessoa concorreu com Mensagem à primeira edição dos prémios literários promovidos pelo Secretariado de Propaganda Nacional. O júri, presidido por António Ferro, elegeu A Romaria, de Vasco Reis (pseudónimo do padre franciscano Manuel Reis Ventura), como melhor livro de poesia do ano, atribuindo-lhe o Prémio Antero de Quental, enquanto relegava a obra de Pessoa para uma “segunda categoria” com valor pecuniário cinco vezes inferior. Ferro, que presidia ao júri por ser director do SPN, não votou: só lhe caberia escolha num eventual caso de empate. Três dos quatro restantes membros – Alberto Osório de Castro, Acácio de Paiva e Mário Beirão – optaram por Reis (pelo menos dois deles detestavam Pessoa e não guardavam segredo disso). A única mulher com voto, Teresa Leitão de Barros, ficou isolada ao enaltecer a «beleza literária» dos versos pessoanos.
Noventa e dois anos depois, a Mensagem é um dos títulos fundamentais da poesia portuguesa do século XX enquanto a lírica de Reis desapareceu do mapa e hoje só é lembrada por este triste exemplo de miopia de um júri literário.
Lembro-me sempre destes dois casos cada vez que oiço falar na atribuição de prémios. Tantas vezes os juízos contemporâneos enaltecem a incompetência. Estas escolhas são condicionadas por inaceitáveis preconceitos estéticos ou mesquinhas animosidades pessoais. Assim os Mendonças e os Reis acabam levados em ombros enquanto os talentosos ficam à margem, como autores sem préstimo.
É verdade que o tempo acaba por repor a escala de valores, conduzindo cada qual ao lugar que merece. Mas não é menos certo que isso costuma suceder tarde de mais. Eça e Pessoa – figuras incontestáveis do património cultural português, com leitores em todo o mundo – nunca recuperaram por completo destas humilhações que lhes foram infligidas pelos referidos grupúsculos de pequenos e médios literatos. O segundo nem sequer viveria um ano mais: o resto da sua obra acabaria por ser póstuma, aliás à semelhança do que ocorreu com Eça, exceptuando Os Maias, já concluído em 1887 e lançado logo no ano seguinte.
Serão casos isolados? Nem por isso. Pelo contrário, ambos ilustram um velho mal português: acontece asneira quando o critério de julgamento e o poder de decisão são confiados aos medíocres.
O que, para nossa desgraça, ocorre com excessiva frequência. Não só na literatura, mas em tudo o resto.
Ainda bem para qualquer delas, que persistem em não ser cidades. Assim valorizam-se muito mais, evitando banalizar-se com a mania das grandezas.
Aqui fica o quadro de honra, não exaustivo:
Alcochete
Alcoutim
Aljezur
Almeida
Alpiarça
Alvor
Arcos de Valdevez
Arganil
Arouca
Batalha
Belmonte
Caminha
Cascais
Castelo de Vide
Castelo do Neiva
Colares
Constância
Crato
Ericeira
Ferragudo
Manteigas
Marvão
Mértola
Monsaraz
Montemor-o-Velho
Nazaré
Óbidos
Palmela
Penamacor
Penela
Ponte de Lima
Porto de Mós
Sintra
Torre de Moncorvo
Vila Viçosa

Alcoutim

Ferragudo

Manteigas

Palmela

Ponte de Lima

Porto de Mós

Cortes Constituintes de 1821 (óleo de Veloso Salgado)
De todos os cantos irrompem comentadores angustiados com a ofensiva “liberal”, o que sempre tem o condão de me deixar perplexo: se há característica dominante na sociedade portuguesa, perpetuada nos nossos costumes políticos, é o seu extremo iliberalismo. Péssimos hábitos tão arreigados entre nós como a “cunha”, o “favorzinho”, o amiguismo, a benesse partidária, as teias burocráticas e as mordomias emanadas dos mais diversos poderes públicos – tantas vezes em confronto com a iniciativa individual – derivam desta presença excessiva do estado na sociedade.
Nenhuma reforma é tão urgente em Portugal como a reforma desta tendência secular de esperarmos que o Paço Real, nas suas emanações contemporâneas, ou algum dos chamados poderes fácticos decidam conceder-nos uma tença, uma prebenda, uma “atençãozinha” ou a simples autorização para registar uma patente ou inaugurar uma empresa.
A revolução liberal de 1820 pôs-nos a par da Europa civilizada.
A Constituição liberal de 1822 foi um inegável salto civilizacional num país abúlico e intolerante.
Um rei liberal – D. Pedro IV – fundou o Brasil.
Escritores liberais como Alexandre Herculano e Almeida Garrett rasgaram-nos horizontes mentais e estéticos.
Políticos liberais do século XIX, como Mouzinho da Silveira, Passos Manuel e Fontes Pereira de Melo, foram dos melhores governantes que tivemos desde sempre.
Lamentavelmente, o liberalismo em Portugal foi interrompido da pior forma. Primeiro pelo jacobinismo exacerbado da I República, depois pela longa ditadura que se auto-intitulou Estado Novo, a seguir com um regime constitucional que tardou oito anos a libertar-se da tutela militar e década e meia a eliminar as “nacionalizações irreversíveis” da sua lei fundamental.
Não existe verdadeiro liberalismo em Portugal há mais de cem anos. E mesmo no simples debate de ideias, neste nosso século XXI, o liberalismo continua a ser causticado, chegando quase a ser equiparado a um surto de peste bubónica. Não tenhamos ilusões: esta é uma das consequências do nosso endémico atraso estrutural.
Pior do que isso: esta é uma das causas desse atraso.
Na passada sexta-feira celebramos o Feriado da Restauração. No primeiro de Dezembro de 1640 restauramos a nossa independência da coroa espanhola e reassumimos o controle do nosso destino. Portugal e Espanha são hoje países muito diferentes do que eram então. Importa também lembrar que desde a sua génese, a natureza política da unidade dos dois países ibéricos foi sempre muito distinta. Em contraste com a nossa homogeneidade, Espanha é um estado multinacional, que alberga dentro de si diferentes identidades, línguas e sensibilidades. Nesse sentido, podemos dizer que de entre todos os povos ibéricos que assim o desejassem, os portugueses foram os únicos que alcançaram a pretensão de não serem espanhóis. Olhando para o que por lá se passa nestes dias e para as confusões que a nossa conquista de 1640 nos poupa, encontraremos fortes motivos para celebrar.
Alargando o olhar, numa actualidade recheada de lutas e reivindicações protagonizadas por movimentos identitários, o caso português é uma notável excepção. Com as fronteiras terrestres mais antigas do mundo, Portugal, uma nação antiga, tem, juntamente com o Brasil, quase o exclusivo dos casos em que a sua língua coincide rigorosamente com o seu território, ou seja, saindo do país em qualquer direcção, sai-se igualmente do espaço da língua nacional. Na Europa isso não acontece em nenhum outro país. Fala-se francês na Bélgica, mas não na Córsega, fala-se italiano na Suíça, mas não na Sardenha, fala-se alemão na Alemanha, mas também Áustria, em algumas regiões da Finlândia a língua dominante é o sueco e fala-se finlandês numa parte da Rússia, fala-se grego em partes da Albânia e também no Chipre. Os exemplos seguem para fora do mapa da Europa.
Não podemos dizer que este estado de excepção de que beneficiamos seja de nosso exclusivo mérito, pois foi a geografia que nos permitiu essa graça. Localizados onde a terra acaba e o mar começa, nos nossos longos séculos de história fomos apenas invadidos pelas tropas napoleónicas que por cá andaram pouco tempo. Pelo contrário, no centro e leste da Europa, inúmeras cidades já pertenceram a diferentes reinos e impérios, levando a que por aí coexistam diferentes credos, línguas e alfabetos.
Enquanto pilar identitário, a língua portuguesa tem ainda outras particularidades interessantes. Todos os países que a partilham, são banhados pelo mar e todos eles são rodeados por países de línguas diferentes, o que me permite imaginar a língua portuguesa como um arquipélago, que só pode ser ligado pelo mar.
Num mundo em ebulição, em que se recorre à força para tentar impor identidades, a homogeneidade da identidade dos portugueses é um tremendo factor de estabilidade que nos poupa a imensos desassossegos e sobressaltos e é também isso que celebramos neste primeiro de Dezembro.
Brindemos então à nossa relativa independência e à nossa sólida identidade.
* Texto publicado no jornal O Portomosense
É natural que a Procuradora-Geral da República possa dizer com toda a naturalidade “Não me sinto responsável por coisa nenhuma“, o que aliás parece não ser coisa nova lá para os lados do rectângulo.
E estou em crer que é uma visão partilhada, comungada e subscrita por todos os que por ali tudo cumprem escrupulosamente sem que ninguém seja responsável por coisa nenhuma.
Veja-se, por exemplo, o Conselho de Estado de onde sai tudo, ninguém confirma, todos se desmentem, sem que ninguém viole as suas obrigações de sigilo.
E deve ser tudo tão natural que até é um juiz, titular de órgão de soberania e sindicalista, quem vem publicamente fazer de defensor oficioso da actuação do Ministério Público, não obstante as minhas dúvidas sobre se isso será compatível com o dever de reserva que sobre ele impende e decorre do respectivo estatuto.
Mas depois de ver magistrados jubilados, um deles conselheiro, a exercerem funções pouco compatíveis com o seu estatuto e, pelo menos num caso, sem o conhecimento do CSM, em Macau, presumo que tudo isso devam ser apenas consequências menores de frases infelizes, minudências, bizarrias e disfuncionalidades sistémicas da alegre vida das corporações e dos partidos que cuidam de nós.
P.S. Então e o Sócrates publica as memórias antes ou depois de ser julgado? Temo que, entretanto, ao tempo que as coisas duram, também fiquem todos afectados pelo Alzheimer, como o outro.
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Nos governos de Sócrates houve uma constante defesa daquele líder, independentemente do que era tão óbvio. Nisso se afadigaram militantes do PS, e basta recordar as maiorias “albanesas” que Sócrates obtinha nos congressos do partido. E também os simpatizantes foram “activistas” produtores da nuvem de fumo que pretendia esconder a malandragem governativa. E não seria necessário recordar esse período não fosse ter vária dessa gente transitado para os governos de Costa, como Fernando Medina ou Augusto Santos Silva – esse que agora vai ao Conselho de Estado afirmar que é necessário “pôr em ordem o Ministério Público”, e que foi o único governante socialista que gozou a população por causa do escândalo do socratismo, ao dizer-se “parolo” por não ter percebido o detalhe do seu homónimo e alegado “financiador” do neto do volframista, nisso tanto demonstrando o seu desplante avesso à democratização do país. Ou recompensados com tenças em Estrasburgo/Bruxelas, como o braço-direito Silva Pereira, ou Marques e Leitão Marques. E também muitos desses militantes e ou simpatizantes, então, pois mais jovens, apenas frenéticos publicistas do socratismo, ascenderam ao governo, como o célebre Galamba ou o agora mui mudo Adão e Silva.
Tendo regressado ao poder, após o hiato da gestão da quase catastrófica crise financeira global, o PS de Costa tentou barrar o processo ao socratismo. E o afastamento de Marques Vidal da PGR foi o caso mais sonante, no fundo uma manobra desse desejado “pôr em ordem o Ministério Público”, para além de todas as manobras de controlo da comunicação social – e será de lembrar que chegaram ao ponto de nomear como responsável da informação do serviço público uma prima de Costa, que se viu obrigada a demitir-se tais práticas teve nesse posto. Depois, tão insuportável era o conúbio com a imagem de Sócrates que o PS decidiu dele se apartar, deitar borda fora aquele lastro para resistir à tormenta: o ardil foi simples, em dias consecutivos num final de semana, o presidente do partido Carlos César, a célebre Câncio, renomada publicista socratista, e Galamba, então mero deputado e criatura de Sócrates, vieram demarcar-se publicamente do ex-primeiro-ministro.
Assim enviado o fedorento cadáver político às revoltas águas da Ericeira o PS de Costa seguiu livre no poder. Entre inúmeros – e tantos deles patéticos – “casos e casinhos” a pax costista estabeleceu-se. Primeiro com o apoio dos partidos comunistas, seduzidos por algumas prebendas redistribrutivas para as suas bases e clientelas. E depois sozinhos, por quatro anos, que nos habituássemos nós. Grosso modo, as pessoas eram as mesmas, as práticas são as mesmas, as diferenças virão apenas dos trejeitos individuais.
Na passada semana “o modo português de ser socialista”, para glosar Gilberto Freyre, sofreu um KO técnico. Ontem, António Costa reergueu-se e veio ao ringue apresentar a “narrativa” que o PS procurará apresentar aos seus fiéis e restantes adeptos, temerosos do que a malvada “direita” lhes fará. No fundo Costa apresentou-se como epígono de Isaltino de Morais, num trinado um pouco diferente: “temos dinheiro nos gabinetes mas fazemos“.
Caberá aos jornalistas, a politólogos ou mesmo a historiadores da contemporaneidade o elencar com detalhe a miríade de “casos e casinhos”, e suas articulações, destes oito anos. Para a sua compreensão será muito produtivo associá-los ao acontecido nos governos do anterior primeiro-ministro socialista. E, para uma visão mais “antropológica” – mais estrutural, por assim dizer – julgo que será relevante fazer recuar esta análise ao historial da administração socialista de Macau, molde que foi do modus faciendi das posteriores gerações de políticos daquele partido. Cujos últimos restantes agora (definitivamente?) colapsam.
Trata-se de um partido de gentes que já há mais de vinte anos estavam incapazes de rebelarem contra os presidentes Soares abraçado ao fugitivo Craxi, ou Sampaio abraçado a Abílio Curto, sempre em nome de uma tal de “amizade”. Ou seja, o que hoje se passa não é um momento, é sim fruto de uma mundividência colectiva, predominante naquele partido. Sendo assim, o PS não se regenerará, sofre de necrose política. Estuporado diante da visão de Madrid é incapaz de sopesar, e nisso actuar sobre si mesmo, o que aconteceu aos seus congéneres de França, Grécia, Itália… Pois o problema não é “Costa”, é tudo aquilo. E, para mal dos nossos muitos pecados, diante de toda esta decadência temos o pior presidente da República do nosso regime, o mais incompetente pois o mais ininteligente, uma total inadequação sobre a qual me repito desde há muitos anos. É assim necessário sublinhar isto: estamos muito mal entregues. Pois assim o votámos.
Entre a incessante série de comentários recebidos sobre a actual situação escolho divulgar estes três. Porque dizem tudo o que é básico sobre a torpe “narrativa” que António Costa quer legar ao seu partido.
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“Não se consegue respirar, mãe”. Foi com estas palavras que a minha filha mais velha rematou o relato sobre o que se passou lá por casa. Ao que parece, o cano que transporta os resíduos das descargas dos WCs sociais das diversas fracções e que passa ao nível do tecto das garagens, rebentou pela junta mais frágil e pintou um Pollock no seu período de expressionismo abstracto, no acesso ao nível -1 do edifício. Rapidamente se pediu aos condóminos que não usassem o WC social, para evitar um resvalar ainda maior daquela situação complicada. Mas nem todos sabem ler, ou se sabem, não querem, ou se estão nas tintas para quem tem de patinar nos dejectos dos outros, ou interiorizam que é um problema que não lhes compete resolver. A firma encarregue do condomínio, sempre muito solícita e eficaz por telefone, demorou dois dias a encontrar um profissional habilitado àquela reparação. Demorou outros dois dias a contratar uma empresa que conseguisse limpar aquela quantidade de excrementos e outras porcarias que as pessoas descarregam nas sanitas porque querem lá saber.
Ao final do quarto dia, o cheiro era insuportável. É espantoso como nestas construções modernas os isolamentos são tão frágeis. Parece tudo muito bem e muito bonito mas é só fachada, e basta rebentar a conduta principal para a porcaria acumulada se espalhar e obrigar a derrapagens em catadupa, deixando no ar a irrespirável recendência há anos acumulada.
Na minha casa nunca aconteceram destas aventuras de esgoto, mas na conduta do lixo o processo de evacuação de dejectos domésticos não é melhor. Os moradores não fazem separações e meia volta está tudo entupido. Mesmo depois de confrontados com a realidade dos factos e com o nauseabundo cheiro a podre, continuam a botar mais do mesmo.
É tal e qual como no nosso país. A podridão é avassaladora, mas em calhando poder escolher, dá menos trabalho deixar o esgoto ir vertendo e botar mais do mesmo.
(Imagem Google)

Depois das belas mistelas que têm andado a fazer na cozinha e na copa desde que a despensa ficou à sua guarda, e em que ainda não se percebeu o que esteve o Chef a preparar durante quase dois anos, é natural que a louça suja se acumule, os copos estejam um nojo e cheios de dedadas e marcas de batom, as baratas corram vertiginosas de um lado para outro, haja restos de comida pelo chão, as luvas se apresentem com cortes, todas encharcadas por dentro e a cheirar mal, os puxadores das gavetas impregnados de restos de comida e o chão pingado e pegajoso, onde são visíveis as marcas das pegadas dos ajudantes da copa com restos de farinha e massa, sendo impossível no meio de tanta falta de higiene e ausência de limpeza distinguir os panos que servem para limpar a bancada dos que são usados para enrolar as tortas.
Não obstante, há sempre um figurão de roupão e pantufas, que chegou com o anti-ciclone dos Açores e passa a vida a entrar e a sair da cozinha enquanto vai espreitando para dentro do frigorífico a ver se já lá estão as lampreias e os fios de ovos, não escondendo nesse ínterim o afã dos dedinhos sapudos na recolha de umas lascas de presunto caídas na banca, perguntando a todos aqueles com quem se cruza e que envergam avental se a mesa já está posta e o vinho escolhido.
Não, não está e já não vai estar.
Porque com o lote de ajudantes respeitáveis, com experiência de alta culinária, doçaria conventual e salgados que arranjaram, os únicos que se alambazam são os ratos que de quando em vez são pulverizados com insecticida pelos especialistas do Palácio Palmela, razão que os motiva a continuarem as suas frequentes e prolongadas incursões às gavetas dos pacotes de bolachas e afins quando vislumbram junto ao fogão e ao forno mais movimento dos barões de polainas e das duquesas de cores garridas.
De qualquer modo, enquanto os empregados da tasca da esquina, chefiados pelo chefe de sala do Ribadouro, correm à procura de bandejas, se afadigam a colocar aventais novos e apertam os laçarotes pretos na ânsia de iniciarem funções, talvez seja melhor arranjarem uma máquina para cortar a pasta, não vá a supervisão do Banco de Portugal abrir uma investigação para apurar a razão de não guardarem, na falta de lei especial, o fundo de maneio no porta-luvas do BMW. Ou, por causa dos assaltos, no bolso do avental.
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(Foto de José Sena Goulão, Lusa)
Está tudo estupefacto pelo terramoto acontecido. Ainda a quente permito-me este “delítio de opinião”* diante da derrocada destes oito anos de Costa, e isto em pleno seu crescendo da arrogância “maioritária” – tão demonstrada há dias no Parlamento, naquela patuscada de Costa ao atirar Galamba para o fecho da discussão do Orçamento, óbvia afronta ao Presidente mas também a todos o que tanto criticaram não só a ascensão do publicista do socratismo como a sua manutenção e recente promoção.
Esbardalha-se Costa agora devido à teia tentacular (passe o absurdo zoomórfico) de interesses de um partido que governou o país durante 22 dos últimos 28 anos, deixando para outros – a tenebrosa “direita”, dizem-nos – a gestão das monumentais crises.
Costa, talentoso, apareceu hoje a demitir-se em pose de Estado, competente. Até à “direita” lhe gabam a “dignidade política e pessoal“. Assumiu que sai ciente de nada se arrepender e de nada ter incumprido, de “cabeça erguida” – e “mãos limpas” depreendeu. Apenas porque não pode haver suspeitas de comportamentos criminalizáveis de um primeiro-ministro. E nem se vitimizou, apenas se disponibilizou à “Justiça” e às “instituições democráticas”.
Melíflua “dignidade”. Pois nem uma palavra para o realmente relevante: teve um chefe de gabinete, e manteve-o até ao limite do possível, acusado de umas trapaças autárquicas. Substitui-o por um outro, homem de estrita confiança, agora detido. O seu grande amigo, instrumento para as negociações oficiosas, está detido. Isto é o seu pessoal mais próximo. Tem ministros arguidos – entre os quais o famigerado Galamba, alguém por quem Costa tanto finca-pé tem feito. Isto para além das inúmeras trapalhadas que se têm seguido nos seus governos, algumas das quais o pudor me impede de aludir neste momento de queda desta gente.
Ou seja, a questão não é se Costa tem comportamentos criminosos, à imagem de um seu antecessor correligionário – e acredito que não os tenha. O problema é estritamente político. Por um lado é individual, residindo nos critérios que este primeiro-ministro tem para escolher as suas pessoas de confiança na condução do país – que são, vê-se, paupérrimos. Tornando-o um incompetente. E, note-se, nisso indigno, pois irresponsável. Por um outro lado é colectivo – e por isso muito mais importante -, e radica no estado desde há muito degenerado do Partido Socialista, cujas elites são useiras e vezeiras em malfeitorias patrimonialistas, minando o desenvolvimento do país. E por isso durante os anos destes três últimos governos tudo fizeram para parecer que “o socratismo nunca existiu“. Mas não só existiu como lhes é o âmago.
Mas após a alegria da queda deste governo, e – sonho – desta malfadada geração “socialista”, logo se levanta a angustiada questão. Quem para lhes suceder? Pois urge mudar, desenvolver o país. E é óbvio que para isso nos partidos democráticos se impõem “chicotadas psicológicas”, passe o futebolês. E novos modelos tácticos. Que venham, e já. Sem atentar nos pesares de algumas vaidades e anseios pessoais.
* Agradeço a CFN, veterana leitora deste blog, que logo me enviou a sua exigência de que escrevesse eu ainda hoje um “delítio de opinião”…., assim tornando irresistível o apelo.

Ontem, na Assembleia da República


Um cidadão português chega ao Hospital de Loures com uma anca fracturada e morre estendido numa maca de bombeiros num corredor das urgências, onde aguardou durante seis horas transferência para o Hospital de Santa Maria por alegada falta de ambulâncias disponíveis.
Às portas de Lisboa, neste século XXI. Sob a maravilhosa “gestão pública” que agora promete, com a habitual língua de pau dos burocratas, a «abertura de um processo de inquérito com carácter de urgência para cabal apuramento dos factos».
Quando o diagnóstico está feito pelo próprio Ricardo Leão, autarca socialista do concelho de Loures: o hospital deve regressar sem demora à gestão privada.
Leitura complementar: «Nem deixaram tratar o meu pai, morreu no corredor.»

Terreiro do Evangelistas, no Bom Jesus do Monte (Braga)
Vivi longe de Portugal em dois períodos e destinos diferentes. Totalizando 12 anos e meio.
À distância temporal, não tenho a menor dúvida em considerar que o balanço é largamente positivo. Falo por mim, mas creio falar por quase todos. Abrimos horizontes, conhecemos diferentes línguas e culturas, fazemos novas amizades, ganhamos arcaboiço para enfrentar o inesperado.
E sobretudo – gostaria de sublinhar isto – saímos de uma atmosfera social que demasiadas vezes nos empurra para baixo. Refiro-me ao desânimo, ao desalento, à mentalidade do não-vale-a-pena, à convicção de que tudo só muda para pior, às certezas de que todos os esforços são inúteis. À atmosfera de crise permanente, do queixume como senha de identidade, da insistência em ver o copo meio vazio mesmo quando está cheio porque o resto da tribo também o vê assim.
Enquanto estive fora, na maior época de “vacas gordas” em Portugal, quando cá vinha de férias só ouvia falar em crise. Crise do jornalismo, da televisão, do teatro, do cinema, do comércio, da cultura, da indústria, da economia, das finanças, da política. Como sucedia dez anos antes, como continuou a ser dez anos depois (já com as vacas bem magras, quase esqueléticas).
Encontrei as mesmas pessoas nos mesmos bares, sentadas nas mesmas cadeiras, com as mesmas conversas, dizendo mal de tudo e de todos. Uma década depois.
Disso não tive saudades. Nem voltaria a ter se emigrasse de novo.
Falta-nos mentalidade mais positiva, algo que muitas vezes só adquirimos quando saímos, quando vivemos em países de brumas e regressamos com saudades do sol.
No passado dia 6, apresentei aqui as últimas sondagens alemãs, indicando o AfD como segunda força política do país. O AfD é um partido conotado com a extrema-direita, o que, vindo da Alemanha, tem sempre um peso especial.
Tem? Ou tinha?
Na verdade, no que a este blogue diz respeito, os comentadores, em geral, contemporizaram, filosofando sobre o valor das sondagens, os fracassos dos actuais governos europeus e o verdadeiro significado da expressão “extrema-direita”. Fiquei surpreendida. Há uns anos (não muitos), uma sondagem alemã que apontasse um partido destes como segunda força do país provocaria uma torrente de indignações. Falar-se-ia das tendências racistas alemãs, de Hitler, do nazismo e haveria decerto quem se apressasse a distanciar o líder do Chega de tais correntes.
Hoje já não é possível. O referido líder português esteve, há pouco tempo, num congresso do AfD, em Magdeburgo. O que não deixa de ser estranho, tendo em conta a aversão que os nossos “cheguistas”, na afirmação da sua lusitanidade, têm em relação aos europeus loiros e de olhos azuis. A verdade é que o nosso “chefe” debitou (em inglês) uns lugares-comuns sobre a construção de mesquitas em solo europeu e foi muito aplaudido. Ou, pelo menos, assim parece, num vídeo publicado no canal do seu partido no YouTube.
Para quem torne a duvidar do carácter extremista do AfD, não é segredo nenhum, na Alemanha, que o partido conta, nas suas fileiras, com elementos do antigo NPD, esse, sim, assumidamente nazi. E, de vez em quando, surgem exemplos, indicando as suas verdadeiras tendências. O seu líder revelou, recentemente, os planos que tem no caso de chegar ao poder na região de Turíngia e, para a educação, deu a entender que irá determinar que as crianças com deficiência seriam proibidas de frequentar as escolas do ensino regular. Gerou uma onda de protestos dos outros partidos. Este é um tema muito sensível, na Alemanha, pois, como se sabe, o regime nazi era muito discriminatório, nesta questão, chegando a aplicar a eutanásia em pessoas com deficiência.
O chefe do AfD em Hamburgo causou igualmente perplexidade, numa entrevista de Verão, ao defender a construção de uma qualquer barreira à volta de um centro de apoio a viciados em droga, a fim de os esconder dos turistas. Esse centro situa-se perto da Estação Central de Hamburgo e, na sua opinião, os visitantes da cidade têm o direito de não serem incomodados com a visão da “miséria” (já agora, digo eu, escondam-se igualmente os pobres e os pedintes). Estas declarações chocaram ainda mais, pois havia a ilusão de que os representantes do partido, em Hamburgo, teriam princípios mais democráticos do que os seus colegas do Leste.
Também o aumento do anti-semitismo, neste país, é motivo de preocupação. A extrema-direita, incluindo a alemã, é cada vez mais aceite e ganha adeptos. Os partidos dos vários países unem-se. Mesmo o nosso representante, como vimos, já é “tu cá, tu lá” com a versão branqueada dos nazis. E, se os partidos crescem, nada mais nos resta do que aceitar a escolha popular.
Que seja! Pergunto-me, sobretudo, se esse camaradismo a nível europeu continuaria, caso os partidos chegassem ao poder. Não me custa imaginar uma guerra entre a Alemanha e a França, pela liderança da “nova Europa” (sim, que a Le Pen tem pêlo na venta e não se deixava ficar). E, se o VOX chegasse a um qualquer acordo com o vencedor da disputa, Portugal seria, finalmente, uma província espanhola. O nosso “chefe” com muito gosto se subjugaria, em nome de uma qualquer segurança, ou de uma sociedade limpa de misérias e de teorias inclusivistas.

Que por esse Portugal fora, e há dezenas de anos, as autarquias têm sido pasto fértil para a produção das nossas elites políticas, não constitui facto novo.
Que, muitas vezes, os respectivos titulares têm estado envolvidos em múltiplos casos judiciais, de má gestão de dinheiros públicos, de clientelismo, nepotismo, compadrio, favorecimento de familiares e amigos, e em milhares de investigações e processos de natureza criminal, que vão do abuso de poder ao peculato, à falsificação de documentos, ao branqueamento de capitais e à corrupção pura e dura, também não é nada, infelizmente, que seja novo para os portugueses. Tudo isso tem feito parte dos quase cinquenta anos de democracia que levamos.
Também é verdade que alguns autarcas, e muitos deles praticamente desconhecidos, têm feito trabalho exemplar nas autarquias, não raro sem alarido e de modo mais ou menos discreto, junto das comunidades que servem, beneficiando o país e as populações, resolvendo problemas, fazendo o que o Estado centralista e despesista não consegue fazer.
E depois há os outros. E dos outros, de quando em vez, lá se vai sabendo qualquer coisa.
Uma notícia e uma reportagem publicadas hoje na revista Sábado vieram lembrar-nos que para lá do país real, dos que não têm dinheiro para pagar as contas em casa ou suportarem os encargos com a saúde e as escolas dos filhos, há um outro país que vive, literalmente, à pala das autarquias, do “tacho”. Há uns que só por serem do partido A ou B têm trabalho e salário garantido, mesmo depois de perderem eleições, e outros que fazem vidas de rico com “salários de miséria”.
No primeiro caso, em Sesimbra, temos o ex-deputado comunista Miguel Tiago, a quem a Câmara continua a oferecer anualmente um contrato de trabalho para prestação de serviços de “assessoria técnica na área do ambiente e desenvolvimento sustentável“, à razão de cerca de 3.000 euros brutos por mês. Relata a Sábado que o Miguel foi contratado após “consulta” a três entidades, mas ninguém foi capaz de dizer quem mais foi consultado para prestar esse serviço (p. 20).
A outra situação é bem mais escabrosa e reveladora da falta de vergonha, do desplante, da dimensão do abuso e dos gostos de novo-rico de alguns servidores da causa pública.
Repare-se que não tenho nada contra o conforto, o luxo ou o gosto por coisas boas e caras, desde que se tenha dinheiro para elas sem andar a roubar, a esfolar o erário público, a enganar o próximo, ou a abusar da posição que transitoriamente se ocupa, embora considere que a ostentação é exemplo de muito mau gosto, coisa para labregos e laparotos.
Mas mais grave do que os almoços de trabalho – é o que está em causa na reportagem – de Isaltino Morais e seus muchachos (páginas 43 a 46), porque também os há em qualquer latitude, e muitas vezes são imprescindíveis, é verificar que essas refeições ocorrem com uma regularidade impressionante, nos melhores restaurantes de Oeiras e Lisboa, e incluem, pelas facturas a que a revista teve acesso, invariavelmente, quantidades generosas de frutos do mar e da terra, de lagostas a gambas, ostras e refinados presuntos, santola, lavagante, leitão, robalos, peixes-galo, queijos de Azeitão, sushi, sapateiras, caranguejos, camarão-tigre de Moçambique, sem esquecer os muitos gelados para a sobremesa, que ali é tudo gente de alimento, gulosa e lambona.
É natural que quem assim tem necessidade de almoçar para poder trabalhar e resolver os problemas dos outros, por vezes tenha de estar a comer até depois das 20 horas, altura em que pede a conta, e seja obrigado a consumir “saké afrodisíaco“, os melhores vinhos, e bebidas espirituosas em quantidade suficiente para que ninguém se esqueça da agenda de trabalho nem do motivo do repasto.
O resultado, está claro, são refeições de centenas de euros pagas com o dinheiro da autarquia noutros tantos milhares de refeições ao longo de cinco ou seis anos. Um “almoço de trabalho” a mais de 140 euros por cabeça não é um almoço de trabalho. É um “banquete de trabalho”. Daí que se veja como normal que uma vereadora se tenha alapado com 450 refeições, o presidente, o chefe de gabinete, o vice-presidente e uma adjunta com cerca de 300 refeições cada um, e até o antigo secretário de Estado da Cultura do poupado Passos Coelho, Barreto Xavier, se alambazou com 77 refeições de 2019 para cá.
Evidentemente que a inclusão de tabaco na conta (charutos?) foram “lapsos”, a corrigir oportunamente, mas fico com dificuldade em perceber como é possível arranjar apetite para se chegarem a fazer quatro, três e até dois almoços no mesmo dia! As facturas não devem mentir.
Onde é que aquela gente “enfiará” tanta comida? Ou será que aproveitam para levar alguma para casa para depois convidarem os amigos e distribuírem à família e aos vizinhos?
Confesso, todavia, que o que me faz mesmo mais confusão é a lata desta malta, pois que a maioria se não estivesse nos lugares em que está não seria com os seus ordenados de “políticos” e de funcionários públicos remediados que ao longo de anos encheriam as suas vistosas protuberâncias com tais iguarias.
Porque não seria, certamente, com os “salários de miséria” que se poderiam dar ao luxo de terem tantos almoços de trabalho, a ponto de haver necessidade de em três facturas de outras tantas refeições, a cerca de 300 euros cada, se ser obrigado a rabiscar no verso “Saladas Sr. Presidente”, sinal de que nesses dias Sua Excelência estaria de dieta, ou, quem sabe, ainda a recuperar do almoço de trabalho do dia anterior.
Sempre ouvi dizer que quem não tem dinheiro não tem vícios. E que a discrição é uma virtude, até para não se ofender ninguém. Mais a mais quando se ocupa um cargo público. E que há que respeitar os sentimentos dos outros, por vezes, também, a desgraça alheia, pois que nem todos têm a mesma sorte na vida. Mas pelos exemplos que diariamente nos chegam das nossas elites políticas e empresariais não terá sido essa a cartilha de muitos.
O juiz Carlos Alexandre, exemplo que também me pareceu extremo e de muito mau gosto para o ter confessado a um jornalista, atenta a sua posição no universo dos profissionais pagos pelo Estado, ainda que com estatuto especial, pode não ter dinheiro para mudar a fechadura da porta de casa depois de ter sido visitado por desconhecidos mais do que uma vez. E muitos mais haverá como o tal juiz, por Portugal fora, que não só não têm para a fechadura como para comer decentemente e alimentarem os seus filhos. O que constitui uma tragédia que a todos nos envergonha. Porém, para alguns autarcas, pese embora esse universo desigual e a necessidade dos outros portugueses terem de partilhar com eles o mesmo país, não há-de faltar o Pêra Manca e o lavagante à custa das autarquias, isto é, dos outros e dos impostos que estes pagam. Não era preciso serem como o miserável do Botas ou como o Cunhal, mas fossem muitos deles a pagar do seu bolso e continuariam nos croquetes, nos bitoques e nas febras.
E não interessa se trabalham muito ou pouco; não é isso que está em causa.
Podem ter bom gosto, e ultimamente mais caro e refinado, que serão sempre uns pacóvios e umas deslumbradas que dão mau nome às autarquias, à classe política em geral, sempre à espera de uma oportunidade para se armarem em finórios. E que são, por muito que nos custe, o espelho das nossas miseráveis e ignorantes elites.
Uma democracia consolidada, sim, é verdade; não deixando de ser um país de isaltinos, de venturas e de “só-cretinos”.
E a saga continua.
Já lá vão quatro anos (6 de Julho de 2019), desde que falei, pela primeira vez, dos “Portugal-Krimis”.
E está quase a fazer um ano (9 de Setembro de 2022) que escrevi sobre a criação de uma série televisiva, baseada num desses policiais em língua alemã, mas tendo Portugal como cenário.

Recordando: o investigador alemão Leander Lost, com o síndrome de Asperger, é colocado na Fuseta. Nesse postal de 2022, dei a minha opinião sobre os dois episódios, passados no ARD, o primeiro canal alemão. Agora, soube pela comentadora Manuela Regueiras que a RTP 2 os transmitiu no passado fim-de-semana. E, como o Pedro Correia me informou, muita gente, à procura de informações sobre a série, aterrou aqui no Delito.
Gostei de saber.
Para quem viu a série: espero que tenham apreciado.