O Socratismo Perene


jpt,

 

A imprensa já esmiuçou o caso da derrotada candidatura do antigo governante socialista Tiago Antunes para o cargo de Provedor de Justiça. PS e PSD acordaram na sua eleição. O deputado Rui Rocha (IL) – antigo bloguista – recordou que Antunes havia tido uma participação activa no núcleo propagandístico digital de José Sócrates. E a Assembleia da República não o elegeu.

Entretanto, é muito interessante a jeremíada socialista “Tiago Antunes e a “maldição Sócrates”” da antiga directora do sempre empenhado “Público”, Bárbara Reis, uma contestação do repúdio parlamentar encetada com ênfase: “A minha alma está parva e a minha cabeça pergunta: até onde vai durar a “maldição Sócrates?”.

Reis defende o candidato por três razões: 1) na audição parlamentar prévia à eleição, ele usou um alfinete de peito (Reis usa o termo “pin” por razões que não explicita) com a imagem de uma prestigiada jurista americana, cuja biografia a jornalista condensa neste artigo; 2) aduz que ele trabalhara no núcleo socratista entre os seus 26 e 32 anos, deduz-se como se tal tivesse sido – e dado aquilo que agora (e já então, mas enfim…) se sabe do antigo primeiro-ministro – uma “irresponsabilidade” ou “devaneio” juvenil; 3) Reis afirma que todos os governos propagandeiam, e se Antunes nisso participou nada de estranho se deve concluir.

Sobre o broche que Antunes usou nada adianto, mas mal seria se os critérios de escolha para os cargos públicos fossem os adornos de cada candidato. Já sobre a “juventude” já tenho algo a dizer. Incorrecções ou disparates juvenis são outra coisa: roubar um cigarro no maço do pai, ou a este sacar o carro para uma passeata com amigos (ou amiga), beber demasiadas tequillas e vomitar na rua, faltar às aulas, não estudar o suficiente e reprovar num exame, acordar na cama com uma parceira desconhecida sem saber como aquilo aconteceu, vestir-se com despropósito para uma entrevista de emprego, usar drogas químicas “só para experimentar”, guiar sob influência, etc, pois há um enorme rol de disparates disponíveis. A maioria apenas merece … conselhos, alguns mesmo sanções morais. Outros, poucos, são crime: guiar sob influência será exemplo maior.

Mas como é evidente não se trata disso. Os mais veteranos, em particular (ex-)bloguistas – como o deputado Rui Rocha – e jornalistas, lembram-se do que foi uma verdadeira verdadeira rede de contra-informação. Que unia blogs anónimos e remunerados – o mais célebre foi o Câmara Corporativa, do “incógnito” “Miguel Abrantes” – com outros assinados de frenética actividade socratista (como o Jugular e tantos mais).. Que se dedicavam a uma espécie pré-robótica de produção de “fake news” conjuntamente com um desbragado espírito confrontacional, de arrogância extrema, face aos críticos do socratismo. Aquilo era uma barricada em torno do poder. Alguns dos seus agentes era remunerada de modo esconso, como se veio a comprovar. E tantos outros vieram a ser … recompensados: das simples avenças televisivas até postos governamentais, basta vasculhar os nomes dos “activistas” de então.

Sem rodeios, durante anos foi evidente a personalidade de Sócrates, os seus desmandos e o clientelismo vigente. Os colaboracionistas com aquele rumo, defendendo-o de modo indigno, devem ser inelegíveis para os cargos fundamentais do nosso ordenamento estatal. Independentemente das qualidades científico-académicas que possam ter. E dos adornos que usam.

vitalino canas.jpg

 

E isto não se trata de uma “maldição”, como lacrimeja Bárbara Reis. Trata-se de uma desconfiança fundamentada. Face às opções pessoais desses colaboracionistas, gente de difícil regeneração. Mas também, talvez até mais, diante das práticas do Partido Socialista. O qual insiste em não se expurgar, não se regenerar, como o demonstra esta indicação de Antunes. O PS sob Costa, limitou-se a seguir um Socratismo 2.0, numa estratégia de apenas minorar os danos. Durante anos tentando proteger o próprio Sócrates. Até àquela semana de 2018 em que 3 dos seus próximos (Fernanda Câncio, João Galamba – ambos fervorosos bloguistas socratistas – e Carlos César) o vieram repudiar, uma “coincidência” demonstrativa que o partido decidira deitar borda fora o seu ex-líder, tornado demasiado lastro para a borrasca que semeara.

Após isso César continuou impante presidente do partido, Galamba ascendeu da Assembleia ao governo, e Câncio mantêm o posto honorário de “grande repórter”, mesmo tendo passado mais de uma década em esbanjo de arrogância e sem perceber o que se passava à sua volta. Ou seja, nenhum deles sofreu qualquer “maldição”. Tal como não a sofreu o próprio António Costa, veemente nº 2 do antigo primeiro-ministro – tanto que até coordenador da moção de estratégia “Defender Portugal, Construir o Futuro”, a de Sócrates ao congresso do PS em 2011, já tudo aquilo há muito que fedia.

Agora muitos discutem as nomeações de juízes para o Tribunal Constitucional. Pois então convém lembrar que em 2020 o PS de Costa – fiel a essa melíflua estratégia de “evolução na continuidade” – nele tentou colocar Vitalino Canas. Então escrevi sobre essa absurda candidatura, tanto pelo desajuste do candidato, alheado do sentir democrático, como pela sua profunda ligação ao socratismo – e deixo acima a fotografia, tirada no dia em que Sócrates saíra da prisão e se juntou aos seus íntimos. Vitalino Canas não foi eleito pelo parlamento não por causa de uma “maldição”. Mas devido a uma avaliação política, tal como agora Antunes o foi. Sobre a incompatibilidade entre a comunhão com o desmando socratista e a elevação necessária ao desempenho das funções políticas e jurídicas.

O “Público” e os socratistas não o percebem? Paciência. O importante será (ou apenas seria?) que o próprio PS o perceba. Mas esta indicação de Antunes faz duvidar que a autocrítica partidária tenha acontecido.

(Este é um dos 8 textos da minha Gazeta Semanal no meu blog)

ADENDA:

O Pedro Correia deixou em comentário esta memória sobre o candidato ao cargo de Provedor de Justiça. Mas antes de a replicar deixo esta nota: no “Expresso” de ontem Tiago Antunes escreve sobre este episódio. Depois de um longo auto-ditirambo termina “Assim não contem comigo“, devido a ter sofrido “campanhas persecutórias absolutamente infundadas e ridículas“. Mas na sua narração transparece uma mundividência política peculiar: diz que há 9 meses foi escolhido por acordo entre Carneiro e Montenegro. O qual não foi agora votado pelos deputados. Para Antunes isso significa que estes “desrespeitam acordos, brincam com o bom-nome das pessoas e alimentam campanhas persecutórias…”, o que é “lamentável“. Esta é concepção que o jurista e o político Antunes tem do exercício parlamentar, ser eleito para estar subjugado aos ditames do “chefe”. E o docente universitário nem dá conta do verdadeiro conteúdo antidemocrático do que escreve…

PEDRO CORREIA: Sobre Tiago Antunes escrevi três vezes no DELITO. Aproveito para lembrar essas ocasiões.

Quando ele, na altura blogonauta do “País Relativo” (sugestivo nome), procurou suavizar os inaceitáveis “corninhos” de Manuel Pinho, o ministro avençado pelo BES. 

Quando ele, já na dependência directa de António Costa no governo pós-geringonça, teorizava sobre a necessidade de “assustar as pessoas” a pretexto da pandemia.

Quando ele procurou impor ao País restrições só possíveis em estado de emergência sem fundamento legal para o efeito nem o indispensável escrutínio parlamentar.

Nada deste passado o recomendaria hoje como Provedor de Justiça.
É por isso que a memória dos blogues é preciosa. É também por isso que ela não pode ser silenciada. Nem pensar.

Descubra as diferenças


Pedro Correia,

 

ALEXANDRA LEITÃO, 8 de Março, CNN-P:

«O Governo deve ser criticado pelo pacote laboral, que ainda continua em cima da mesa.»

 

SÉRGIO SOUSA PINTO, 13 de Março, CNN-P:

«O Presidente da República, António José Seguro, tem condições para pressionar um acordo e tenho esperança de que seja bem sucedido. Os problemas da economia portuguesa não se vão resolver todos na reforma laboral, mas a reforma laboral tem de participar nisto

Estamos preparados, disse ele


Paulo Sousa,

Ainda sou do tempo em que se recorria aos jornais para saber quais os cinemas em exibição, a programação dos canais nacionais, a meteorologia, o totobola, as marés, as luas, as farmácias de serviço e o horóscopo. Tudo isto era informação útil. Tal e qual como acontecia com as marés, luas e farmácias de serviço, também o horóscopo acabava um dia por repetir as suas previsões, sempre à base do “vai conhecer uma pessoa importante para a sua vida”, “vai fazer uma viagem” ou “tenha cuidado com os fritos e com as passagens de nível”.

Antes da internet, isto era um verdadeiro serviço público.

Mas o tempo não pára e o progresso empurra-nos para diante. O Correio da Manhã passou agora a incluir nas suas páginas as Urgências Fechadas. Serviço público num país que António Costa diz deixar “preparado”.

urgências.png

Os rótulos fáceis do jornalismo preguiçoso


Pedro Correia,

7a6da363-e737-49b1-a986-185563aa6538.jpg

 

A SIC fez esta estrondosa descoberta: 56% dos eleitores argentinos são de “extrema-direita”. Eis uma demonstração prática de jornalismo preguiçoso – aquele que se apressa a pôr rótulos na política e varre contextos, circunstâncias e questões concretas para debaixo do tapete. Neste caso, vale a pena lembrar que a Argentina já foi um dos países mais ricos do globo: em 1912 tinha a nona economia mundial, à frente de países como Alemanha, França e Dinamarca.

Nos últimos anos os rótulos mais frequentes desta subespécie de jornalismo são “populista” e “extrema-direita”. Sem nunca haver os respectivos contrapontos. O que define a diferença entre um populista e um não-populista, por exemplo.

Será não-populista o governo peronista que terminou funções com o país mergulhado em 143% de inflação anual, uma moeda que perdeu 99,2% do valor face ao dólar nos últimos 20 anos e quatro em cada dez argentinos em situação de pobreza nesta que já foi a mais próspera nação da América do Sul?

Se proliferam os extremistas de direita, onde andam os extremistas de esquerda, suas réplicas do campo oposto?

Faz sentido designar 56% dos eleitores como extremistas, seja qual for a ideologia política que estiver em causa?

O jornalismo preguiçoso não responde a nada disto. Nem esclarece como é que um ultraliberal, como o recém-empossado Presidente argentino, Javier Milei, pode ser catalogado de “extrema-direita” e até rotulado de fascista quando o fascismo proclama a existência de um Estado forte e este economista, pelo contrário, quer um Estado mínimo. Consciente – mal ou bem – de que na Argentina, nove bancarrotas depois, o aparelho estatal não faz parte da solução, mas do problema. 

 

Hoje, mais que nunca, não há “direita”. Há direitas. Meter no mesmo saco os herdeiros ideológicos do marechal Pétain e os herdeiros ideológicos do general De Gaulle, só para mencionar duas figuras históricas da direita conservadora, nacionalista e até reaccionária que se combateram entre si em França, é grave erro de análise. Tal como, por exemplo, meter Giorgia Meloni e Milei na mesma gaveta. A verdade é que Milei acaba de derrotar nas urnas os discípulos ideológicos de Juan Domingo Perón, esse sim um fascista clássico (e amigo de nazis).

Casos diferentes que devem ser analisados não como amálgama, antes como sintoma generalizado dum protesto difuso com aspectos comuns mas motivações tão diversas que escapam a rótulos simplistas. E têm igualmente erupções à “esquerda”, como ocorreu em 2015 na Grécia, com a vitória eleitoral do Syriza

A dicotomia partidos velhos versus partidos novos está hoje presente nos cenários eleitorais um pouco por toda a parte. Isto tem a ver com dinâmicas históricas e crises sociais: nenhuma etiqueta pronta-a-colar a explica.

 

A verdade é que os partidos e os próprios sistemas políticos, tal como as pessoas, também envelhecem.

Em Portugal, não por acaso, do vetusto PPD/PSD já emergiram três novas forças políticas na última década. Impulso de regeneração de um sistema que gera anticorpos: nuns casos resulta, noutros nem por isso. Resultou em proporções diferentes, e até ver, com a erupção do Chega e o nascimento da Iniciativa Liberal. Não resultou com a efémera Aliança do evanescente Santana Lopes.

Acontecerá o mesmo ao PS quando passar à oposição.

Não faz a menor ideia


Pedro Correia,

Este homem ambiciona suceder a António Costa. Anda em campanha interna no PS para atingir dois objectivos: liderar os socialistas já este mês e tornar-se primeiro-ministro a partir de Março.

Ontem, numa entrevista à Rádio Observador, o jornalista Rui Pedro Antunes fez-lhe esta pergunta muito simples: «Tem a noção de qual é hoje o salário mínimo nacional e o indexante dos apoios sociais?»

Pergunta a que o entrevistado foi incapaz de responder. Como se pode verificar a partir do minuto 20.45. Gaguejou e acabou por meter a viola no saco.

Repito: este homem quer chefiar o Governo português. Foi ministro das Infraestruturas e Habitação durante quatro anos (2019-2023), antes tinha sido secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares (2015-2019) e é hoje deputado do PS, além de economista de formação. Não faz a menor ideia do valor actual do salário mínimo nem do indexante para apoios sociais em Portugal. 

Pedro Nuno Santos fica definitivamente apresentado. Para quem ainda não o conhecia.

Pensamento da semana


Pedro Correia,

O 25 de Novembro complementa e completa o 25 de Abril. São duas datas indissociáveis – excepto para fascistas e sociais-fascistas. Quem no PS hoje não entende isto, traindo o seu legado histórico, não entende nada.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO DE OPINIÃO durante toda a semana

A dificuldade não está na rejeição


Sérgio de Almeida Correia,

IMG_3384.jpg

Algumas pessoas ficaram admiradas com o resultado da sondagem da Universidade Católica/Público/RTP, dada a conhecer no passado dia 28 de Novembro. Ainda todos estão lembrados dos resultados de outras sondagens aquando das últimas legislativas e do que veio a acontecer. O país não quis saber de empates técnicos nem de vitórias tangenciais e resolveu entregar uma maioria absoluta a António Costa. Por essa razão convém moderar as análises e o ímpeto das conclusões.

Ainda assim, atrevo-me a dizer publicamente o que penso, arriscando a crucificação num pelourinho por delito de opinião.

E neste momento em que se discute a liderança do PS e todos os outros partidos se afadigam a prepararem-se para as eleições – alguns na mira de conseguirem adiar por mais algum tempo o seu próprio funeral – parece-me evidente que a golpada marcelista, amplamente favorecida pelo descalabro da governação (seria difícil encontrar outro termo para o desastre que foi, salvo raríssimas excepções, a performance do XXIII Governo Constitucional), poderá vir a revelar-se como uma bênção para a reforma do sistema político e eleitoral. De uma assentada, os portugueses podem abrir caminho para se livrarem de quase todos os pantomineiros que fazem hoje a maioria da classe política que nos trouxe até ao imbróglio em que estamos.

Dos diversos cenários apresentados pela sondagem acima referida, algumas conclusões são inequívocas: i) Os portugueses não gostam de radicais; ii) Qualquer que seja o cenário dispensam Luís Montenegro; iii) Pedro Nuno Santos (PNS) não lhes merece o aval da confiança.

Quanto à primeira não constitui novidade. O país reconhece-se ao centro na extensa faixa que vai da democracia-cristã/liberalismo/social-democracia até ao socialismo democrático mais ou menos esquerdista.

Depois, em relação ao líder do maior partido da oposição, o PSD, verifica-se que apesar de tudo o que aconteceu com o Governo e com o PS, Luís Montenegro não consegue melhor do que um resultado sofrível qualquer que seja o cenário.

Não é de estranhar. Chegou a líder por ser tão anódino quanto foi deputado ao longo dos anos, sem um lampejo que o resgatasse à mediocridade carreirista da JSD ou da seita aventaleira que o ajudou a crescer. E agora que se vai apresentar a eleições traz consigo, como se viu no congresso do passado fim-de-semana, um camião com um atrelado de sarcófagos de onde vão saindo umas múmias que não deixaram saudades. Que seja castigado e as sondagens não lhe sejam particularmente favoráveis depois de tantos anos de PS no Governo não é uma fatalidade.

Mas se o teste havia de chegar com as eleições europeias ou com as autárquicas, o Presidente Marcelo fez o favor às hostes laranja de anteciparem o futuro e se livrarem de Montenegro e da sua tralha bem mais cedo, pois que quanto mais depressa o PSD iniciar a sua renovação e posicionar uma nova geração de líderes, que seja recrutada noutro lado que não seja entre as levas de imperiais do Ribadouro, menos difícil será construir uma alternativa na área política do seu eleitorado, colocando um ponto final na balbúrdia venturista à sua direita.

Em terceiro lugar, há o problema PNS para resolver. Este é um problema interno do PS e que só terá solução, acreditemos que sim, se nos próximos dias 15 e 16 de Dezembro os militantes socialistas o resolverem.

Os resultados da sondagem explicam por que razão é que PNS não quer debates com os outros candidatos à liderança do partido. Não se trata, evidentemente, de evitar dar trunfos à direita, mas sim de evitar o debate político e fugir do confronto com as suas próprias contradições, com o cataventismo socratista e a vacuidade petulante e oportunista do discurso.

Em 2017 (não vale a pena recuar mais), PNS, que já era crescidinho, afirmou que “O PS nunca mais irá precisar da direita para governar“. Em 2018 sublinhou que “o PS não está refém da direita para governar“. Depois, quando anunciou a sua candidatura, começou por atacar o candidato José Luís Carneiro, acusando-o de não ser suficientemente combativo contra a direita e vincando que com ele “o PS não vai ser muleta de ninguém“, esclarecendo que o seu foco e o da sua candidatura “é derrotar a direita e não mais do que isso”, antes de entrar na contabilidade cacical de saber quem apoia quem.  Como se esta tivesse interesse para alguém com excepção dos bípedes que ficam com insónias ante a perspectiva de não saberem quem apoiar para manterem os tachos dentro do partido e fora dele.

Bastou passarem dois dias, depois de acusar JLC de desvio direitista, e logo começou, de mansinho, a chegar-se para o centro, não fosse o diabo tecê-las. Daí que tivesse saído a terreiro para dizer que “o diálogo à direita e ao centro é fundamental” e que “há matérias onde o entendimento com o PSD é desejável e importante” (quais?), ao mesmo tempo que dizia que “a memória da geringonça é boa”. Ora bem. E ainda disse que até a uma coligação pré-eleitoral não fecha portas. Colocou a primeira cereja no topo do bolo da coerência, qual franciscano, com que pretende desfilar nos próximos dias. 

Em rigor, para PNS o que é preciso é estar em todas, com todos “e com todas” desde que isso lhe garanta o poder. E se possível também com “todes”, que foi para isso que o talharam, no “berço de oiro”, na humilde loja do sapateiro, e em especial no albergue onde lhe construíram as ambições conforme as ocasiões.

Percebe-se, ademais, qual o motivo para que directas abertas, como mostram as sondagens, também sejam dispensadas por PNS, pois que é muito melhor deixar a escolha do líder do PS nas mãos dos caciques que controlam as concelhias e o aparelho do que confiar na decisão dos simpatizantes que não têm tempo para a militância e dos quais dependem os resultados eleitorais do partido.

Como lá mais acima dizia, se os militantes socialistas quiserem dar um contributo ao país poderão começar por se livrarem de PNS, mandando-o tomar conta das empresas familiares, de maneira a que não mais tenha necessidade de esconder os carros quando for para a campanha eleitoral. Esta é uma oportunidade única e irrepetível. 

Seria uma pena se os portugueses, que de uma assentada se podem livrar do neo-socratismo e do basismo cavaquista e passista, encetando um caminho de renovação das suas elites políticas, não aproveitassem os ventos fortes que sopram de todos os quadrantes, e a chuvada que se prepara nos próximos dias, para lavarem o terreiro e removerem de lá toda a barracada de feira que se foi instalando, dispensando os vendedores de tapetes, ligaduras e sarcófagos, os milhares de arrumadores e de traficantes de influências, os penduras de ocasião, a malta das sementes dos vários tipos de relva, enfim, livrando-se de toda a tralha de gigantones, coristas e emplastros acumulada nos últimos carnavais. 

Penso rápido (104)


Pedro Correia,

A direita mais extremista e a esquerda mais extremista, em simultâneo, transformaram o PS no inimigo principal. Tornando-o assim no partido angular, central, do sistema político português.

Não por acaso, no PS venceu sempre a ala capaz de corporizar esse espírito. Desde a apertada vitória de Mário Soares contra Manuel Serra no primeiro congresso do partido, em 1974. António José Seguro perdeu contra António Costa em 2014 porque abriu as primárias a “simpatizantes”, já não só militantes – permitindo, portanto, que os futuros geringonços se infiltrassem no processo de decisão. Erro que o fundador do partido nunca cometeria.

A ala mais esquerdista do PS, na vertigem de selar uma coligação (ou até fusão) com o BE e o Livre, persiste em não entender isto. Talvez só aconteça quando já tiver sido atropelada.

25 de Novembro, sempre


Pedro Correia,

melo.jpg

 

Faz hoje 48 anos, uma guerra civil foi evitada in extremis em Portugal. A grave expressão, em jeito de aviso à Europa inteira, foi usada a 22 de Novembro de 1975 pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Ernesto Melo Antunes, em entrevista à revista francesa Le Nouvel Observateur.  

Não exagerava: os militares, armados até aos dentes, apontavam os fuzis uns contra os outros.

 

Na manhã de 25 de Novembro ocorreu a confrontação armada, com três mortos (dois comandos, um polícia militar) na Calçada da Ajuda. Mas poderia ter sido muito pior. Podia ter ocorrido um banho de sangue, culminando oito meses de intenso “processo revolucionário”, como se denominava o assalto da esquerda mais radical – incluindo comunistas de obediência soviética e maoístas – a empresas, fábricas, terrenos agrícolas, rádios e jornais. Com petardos no Terreiro do Paço enquanto discursava o primeiro-ministro Pinheiro de Azevedo, um cerco de 36 horas à Assembleia Constituinte por cerca de cem mil manifestantes agitando bandeiras vermelhas, propaganda extremista debitada nas estações de rádio estatizadas e editoriais incendiários em quase toda a imprensa (com destaque para o Diário de Notícias).

Tudo culminou na rebelião de pára-quedistas, que na noite de 24 para 25 de Novembro ocuparam bases aéreas (Monsanto, Tancos, Ota, Monte Real), as principais vias de acesso à capital e os estúdios da RTP no Lumiar. Registando-se o envolvimento de outras unidades, como a Polícia Militar, o Regimento de Artilharia Ligeira de Lisboa e a Escola Prática de Administração Militar.

Se os sublevados não tivessem sido dominados ao fim daquele dia tão intenso que parecia interminável, já com o estado de sítio proclamado na região de Lisboa, a confrontação bélica seria inevitável. Vitimando não apenas militares, mas também civis.

 

É isso que hoje se assinala, é isso que hoje se comemora. A vitória da democracia, completando o ciclo iniciado a 25 de Abril de 1974, que permitiu devolver a liberdade aos portugueses. As duas datas são inseparáveis: ambas merecem celebração. Até porque muitos dos militares de Novembro foram também militares de Abril – incluindo António Ramalho Eanes e Fernando Salgueiro Maia.

Que o PS, protagonista desses tempos de alto risco em que se lançaram os alicerces do Estado de Direito em Portugal, se demarque hoje do 25 de Novembro em parceria com o PCP, seu principal adversário à época, é uma traição à memória dos seus fundadores, como Mário Soares, Maria Barroso e Francisco Salgado Zenha. E a vários dos seus antigos dirigentes que permanecem entre nós, como Manuel Alegre e Jaime Gama – também corajosos resistentes à insurreição da esquerda militar. 

Sinal inequívoco da desorientação estratégica deste Partido Socialista pós-geringonça. Renegando a sua própria história. Será o grande ausente das celebrações de hoje, em Lisboa e no Porto. Organizadas, naturalmente, sem pedir vénia aos herdeiros ideológicos dos derrotados de 1975. 

25 de Novembro, sempre!

Já cheira a campanha eleitoral


Pedro Correia,

image.jpg

Foto: António Pedro Santos / Lusa

Se os meus princípios não vos agradam, arranjo já outros. Esta boutade de Groucho Marx aplica-se na perfeição ao ainda primeiro-ministro e ao ainda ministro das Finanças, ex-presumível candidato à sua sucessão.

Naquele tom de quem se habituou durante oito anos a desprezar a oposição, insuflado de maioria absoluta, António Costa assegurava a 30 de Outubro, no debate do Orçamento do Estado, que o anunciado aumento do IUC (imposto único de circulação) para três milhões de automóveis e meio milhão de motociciclos com matrículas anteriores a 2007 era mesmo para manter. Em nome da protecção do ambiente. Apesar de haver então uma petição já com cerca de 400 mil assinaturas para abortar a medida, que afectava os cidadãos com menos rendimentos.

«A oposição quer assustar os portugueses. Desta vez anunciando aumentos estratosféricos – em alguns casos de cerca de 1000% do IUC. Daqui a um ano, mais uma vez, se saberá quem fala verdade e quem só quer assustar os portugueses», declarou Costa. Nem pensar, portanto, em deixar cair este novo imposto socialista.

Também Fernando Medina, inabalável, garantiu que a medida era para manter. «Os carros anteriores a 2007 beneficiam hoje de uma tributação anual que é, em média, um quarto das viaturas mais recentes, sendo que as viaturas mais recentes são as menos poluentes. Trata-se de uma situação injusta», disse o titular das Finanças a 17 de Outubro, no final de uma reunião no Conselho Europeu dos Assuntos Económicos e Financeiros. Sempre com alegadas preocupações ambientais.

A alma ecologista de Costa e Medina era afinal muito frágil. Mal a crise política estalou, a 7 de Novembro, os belos princípios foram à vida. E logo o grupo parlamentar do PS, certamente obedecendo à mesma voz de comando que antes forçara os deputados a defender tão indefensável medida, se apressou a dar o dito por não dito. O agravamento do IUC caiu nesta versão final prestes a ser votada na Assembleia da República. Ao contrário do que prometeu Costa, daqui a um ano será impossível saber «quem fala verdade e quem só quer assustar os portugueses».

O IUC assustou os deputados socialistas. Por fazer perder votos.

Entre as 99 propostas de alteração (!) entregues no último dia do prazo, quando o Chefe do Estado já anunciara legislativas antecipadas para 10 de Março, a bancada rosa emendou o competentíssimo orçamento de Medina, afinal muito menos competente do que parecia. Não só nisto, mas em várias outras matérias: aumento do limite da dedução à colecta de IRS dos valores das rendas de casa (de 502 para 600 euros), autorização do abate no IRS da despesa com empregadas domésticas; moratória nos juros para os créditos bancários das empresas. Etc, etc.

Repito, por extenso: noventa e nove emendas. Já cheira a campanha eleitoral.

Não há pés que cheguem


Sérgio de Almeida Correia,

IMG_0358.JPG

A proposta do governo para subir o IUC aos veículos mais antigos e poluentes não vai mesmo acontecer. O PS, que tem a maioria do Parlamento, apresentou uma proposta para eliminar a medida do Orçamento do Estado para 2024 (OE2024), defendendo que é “uma questão de justiça social e proteção dos cidadãos com maior vulnerabilidade económica”.

Na proposta de alteração apresentada esta terça-feira pelo grupo parlamentar do PS, os socialistas defendem que “o veículo ligeiro é em muitos casos ainda a principal forma de deslocação para o trabalho ou para deslocação até ao meio de transporte público mais próximo, principalmente fora das principais cidades do país e em zonas de média e baixa densidade, onde a oferta de transportes públicos é reduzida e desadequada às necessidades diárias de mobilidade”.

“Nestes casos, em que o carro é uma absoluta necessidade, acresce o facto de muito cidadãos não terem meios financeiros para a substituição por um veículo mais recente. Assim considera-se importante por uma questão de justiça social e proteção dos cidadãos com maior vulnerabilidade económica, retificar a proposta de OE neste sentido”

O primeiro-ministro tinha anunciado no debate na generalidade do Orçamento, no parlamento, que em 2024 e 2025 haverá um travão que limita o aumento do IUC a um máximo a 25 euros, acusando a oposição de querer assustar os portugueses com o imposto.

Já o ministro das Finanças tinha remetido esta terça-feira para o grupo parlamentar do PS um eventual recuo na subida do IUC para veículos mais antigos, defendendo que o Governo apresentou a sua posição no Orçamento.” (via Executive Digest)

Era mesmo necessário chegar até aqui? Isto serviu para quê? Para ajudar o grupo parlamentar a mostrar serviço?

A sorte é o rapaz do Ribadouro ser um perfeito desastre. O azar é que se não o apearem a tempo o PSD ainda arrisca chegar a Março atrás do Venturinha.

É lá com eles.

Imundícies *


Paulo Sousa,

Mesmo quando tenta disfarçar-se de personagem com sentido de estado, Augusto Santos Silva mostra que nunca deixou de ser o carroceiro ambicioso que, em busca de um lugar ao sol, abandonou as suas origens nas extrema-esquerda para se alojar no PS, como sendo alguém que podia fazer esses dois papéis. Depois da quase longínqua confissão de que o que gostava mesmo era de malhar na direita, acrescentou mais algumas camadas ao seu currículo nos governos de José Sócrates. Depois desse cadastro, migrou para o actual governo em gestão, governo esse que em cujos gabinetes, sabemos agora, circulavam sacos com dezenas de milhares de euros em dinheiro.

Faz realmente parte do que podemos designar como uma personagem de uma certa época que trouxe ao país uma falência, estagnação económica, abusos de poder com ataques vários às instituições e também uma degradação sem igual nos serviços públicos, 

Para quem ainda pudesse duvidar do perigo que estes figurões constituem para a nossa democracia, transcrevo aqui uma frase que merece ser incluída nas frases do ano.

É preciso pôr ordem no Ministério Público.”

Poderia perfeitamente ter sido dita por um dos apoiantes de Trump, de Erdogan ou Bolsonaro. E é isto. Não há muito mais a dizer.

 

* Espero que a Maria Dulce Fernandes não me cobre direitos por lhe ter copiado o título do postal anterior, mas de tão adequado que é para este assunto, não resisti em fazê-lo.

Recordar Seguro


Dâmaso Salcede,

É bom, nestes tempos interessantes que vivemos, recordar António José Seguro. Em 2014, dizia ele numa entrevista: “O PS associado aos negócios e interesses é apoiante de António Costa”. A isto, o nada augusto César dos Açores, mandatário de Costa, respondeu com a sua habitual elegância ser “uma entrevista de uma pessoa que acha que adquire milagrosamente autoridade e crédito na proporção apenas da insinuação difamatória e do efeito de ruído que produz”. E quem foi que acusou Seguro de fazer declarações que tinham “como único objectivo emporcalhar o espaço público”? Espantemo-nos: Galamba.

OrXamento de EXtado XoXialYsta


Pedro Correia,

relatório OE, p 51 Susana Peralta.jpg

 

Assim qualquer de nós elabora orçamentos. Até orçamentos do Estado. Nem é necessário fazer contas: basta conhecer o alfabeto, com destaque para as letras X e Y.

Eis um exemplo, extraído da página 51 do relatório do OE 2024: o Governo promete investir «XX milhões de euros no parque público a preços acessíveis, XX milhões de euros na educação e YY milhões de euros na coesão territorial». Captado com olho de lince pela economista Susana Peralta, na sua conta da rede social X (nome disparatado mas que aqui faz todo o sentido).

Já está, é muito fácil. Um OrXamento de EXtado verdadeiramente XoXialYsta.

O grão-vizir que sonha ser califa


Pedro Correia,

PNS.jpg

 

Diz-se que este senhor «faz tremer a direita». É um manifesto exagero. Parece que se estreou ontem como comentador da SIC Notícias sem fazer tremer ninguém – nem sequer de frio, com estas temperaturas quase de Verão. 

«Fazer tremer» é, aliás, uma frase a que deviam evitar associá-lo. Evoca de imediato aquele dia de 2011 em que o próprio, enquanto vice-presidente da bancada parlamentar do PS, proferiu esta bravata: «Estou marimbando-me para os bancos alemães que nos emprestaram dinheiro nas condições em que nos emprestaram. Estou marimbando-me que nos chamem irresponsáveis. Nós temos uma bomba atómica que podemos usar na cara dos alemães e dos franceses. “Ou os senhores se põem finos ou nós não pagamos a dívida.” Se o fizermos, as pernas dos banqueiros alemães até tremem.»

Não consta que nenhum banqueiro germânico tenha tremido – ou que tenha sequer tomado nota de tais declarações, mais próprias de algum membro de associação de estudantes do que de um deputado e futuro ministro da nação.

Quem certamente tremeu, mas de indignação, foi António Costa a 30 de Junho de 2022, quando lhe revogou um despacho sobre o plano de ampliação do aeroporto de Lisboa que apenas vigorou por 24 horas. Fazendo perder a face ao então titular das Infraestruturas. Que não tardou a perder também o posto governativo: durou só mais seis meses no lugar. Como activo tóxico do Executivo socialista.

Não vi a prestação televisiva do grão-vizir que sonha ser califa do PS nesta sua estreia como residente na pantalha. Dizem-me que, depois da homilia, logo várias sumidades surgiram em antena a perorar sobre o que ele pregara. Extraordinária endogamia televisiva: comentadores a comentarem o comentador.

Ponham-se finos, senão ele zanga-se. Parece que tem frequentes crises de mau humor. Como o outro, que se dizia «animal feroz».

O cartoon da RTP e o catavento socialista


#$&%#,

cartoon.jpg

Apesar de nos seus congressos, aquando no poder, o PS ser um partido unanimista – como o comprova a memória dos apoios albaneses neles sempre conseguidos por Guterres, Sócrates e Costa – os socialistas não são exactamente monolíticos. Vê-se agora na disputa interna sobre a pertinência e até legitimidade do cartoon anunciando o racismo assassino (“de Estado”) da polícia, transmitido pelo serviço público televisivo. Há dirigentes contra, e até o ministro da administração interna, há os que o defendem, em nome da radical liberdade de expressão.

O ministro da Cultura surgiu agora defendendo o direito ao cartoon e atacando os seus detractores. E acabo de ver – no canal público RTP3 – o ex-ministro Paulo Pedroso também defendendo o supremo direito a essa liberdade de expressão, enquanto invocava, como exemplo contrário, episódios censórios do humor suportados por políticos do PSD (a patética inibição de um livro de Saramago, o ridículo ataque a Herman José feito pela igreja católica, apoiado pelo actual presidente da república, então presidente do PSD). Mas se Pedroso já não é da elite partidária –  julgo mesmo ter saído do partido –, a posição de Adão e Silva tem um peso diferente. Não só por ser ministro. Mas também porque Adão e Silva, de quem se diz ser uma criatura maçónica, o que dará substrato à sua influência política, foi um arreigado plumitivo socratista, não só directamente mas também como contribuidor do pérfido amplexo digital Câmara Corporativa/Jugular, agregando-se a gentes como as Câncios, os Galambas e os Vales de Almeidas na desmesurada e desbragada defesa dos desmandos de Sócrates. Ou seja, Adão e Silva está no cerne do actual poder político.

Essa sua centralidade política dá mais relevo à defesa que veio fazer do cartoon invectivador da polícia. Não vou discutir a adequação do cartoon à sociedade portuguesa, nem a sua pertinência no serviço público televisivo, nem mesmo a sua correspondência aos factos da realidade francesa (à qual, a posteriori, veio a ser ligado pelos seus transmissores, ainda que tal não explícito no seu conteúdo). Vou-me restringir a esta realidade de um ministro socialista, da ala socratista, e de um ex-ministro socialista, que nunca foi socratista, surgirem a defender a irredutibilidade do direito ao… cartoon, à liberdade criativa, de expressão. E sua divulgação. 

É interessante – e para mim em particular – porque isto é avesso à concepção que aquele partido, e suas figuras gradas, vêm tendo nas últimas décadas relativamente à liberdade criativa, em especial se sita aos cartoons. E dou exemplos comprovativos dessa contradição, que em muito ultrapassam os recentes ataques à caricatura de António Costa usada pelos sindicalistas do FENPROF (ligado ao PCP), e a posterior censura de organismo sob financiamento estatal ao trabalho daquele professor-cartonista. Lembro episódios mais antigos – que o comentador televisivo Paulo Pedroso deverá desconhecer, pois não os convocou para o seu episódio de comentário de hoje – e que, exactamente pela sua antiguidade e por não se restringirem às querelas da política portuguesa, mais demonstram a mundivisão estrategicamente censória que conduz os próceres socialistas.

Recordo que após o tétrico atentado de 2015 à “Charlie Hebdo” o antigo ministro Oliveira Martins, também relevante figura de instâncias culturais nacionais, dinamizou um debate sobre liberdade criativa e nele defendeu o estabelecimento de limites à liberdade de expressão – censura e, acima de tudo, auto-censura. Narrei o espantoso desplante aqui. Mas mais relevante ainda, por mais demonstrativo do que é a elite socialista, também já recordei que o ministro dos Negócios Estrangeiros de um governo PS em 2005 criticou oficialmente a publicação de cartoons num jornal dinamarquês porque “atentatórios de crenças e sensibilidades alheias”. 

Mais interessante ainda – e também já o recordei – é que em pleno parlamento um deputado socialista, e antigo governante, considerou que cartoonistas e assassinos terroristas são iguais. E é muito relevante, para o entendimento do PS actual, que esse notável socialista, correligionário próximo de Sócrates, e que tem essa peculiar concepção de liberdade criativa, de expressão e divulgação, – repito, a igualdade entre um cartoonista e um assassino terrorista, tornada posição parlamentar do seu partido – foi recentemente proposto pelo PS para membro do Tribunal Constitucional. E num país onde um outro candidato ao mesmo Tribunal fora dissecado por em 1984 ter escrito algo contra a interrupção voluntária de gravidez, e um outro zurzido por em 2011 ter resmungado junto dos seus alunos sobre a influência de uns propalados lóbis “gay”, ninguém se preocupou com o facto do PS ter proposto tal personalidade, com tal concepção de liberdade de expressão, para o importante Tribunal Constitucional.

Eu notei o caso, protestei – e o influente Vitalino Canas meteu-me em tribunal e lá tive que recuar, doando 200 euros ao IPO. Mas os outros, em particular o socratista (e quiçá maçónico) Adão e Silva e o ex-ministro Paulo Pedroso, agora palavrosos, sobre essa candidatura nada disseram! Passou-lhes, não devem ter considerado relevante. Mas surgem agora veementes a defender que a RTP enuncie, de modo implícito, o racismo da polícia portuguesa. O racismo sistémico, estatal, para usar o jargão. 

Enunciam por catavento. Nada mais. E vão para o governo. E depois para a televisão, formar opinião pública em trejeitos de “comentadores”. Já agora, Vitalino Canas também por lá anda, num desses painéis. Ainda o apanharão a defender a liberdade de expressão, se tiverem paciência para assistir a tal coisa.

Leitura recomendada


Pedro Correia,

1024.jpg

Foto: Lusa

 

«Hoje, o futuro é um vento que sopra a uma velocidade que o primeiro-ministro não controla. A seu favor ou contra a sua vontade, as suas criações têm vida própria, autonomia, ambições, força. (…) Pedro Nuno Santos e Marta Temido só têm tudo isso porque António Costa criou, inadvertidamente ou não, um ambiente onde a ressurreição é inevitável porque a morte política nunca é definitiva.

Temido deixou o Ministério da Saúde com o maior crescimento de mortalidade na União Europeia entre o pré-pandemia e o pós-pandemia ‒ 24% ‒ e o SNS com a maior dependência de sempre do setor privado. Pedro Nuno Santos indemnizou uma administradora de forma ilegal, nomeou-a para uma empresa pública de forma igualmente ilegal, nada disse ao vê-la tornar-se secretária de Estado do Tesouro, nada disse sobre lembrar-se ou não da indemnização, esqueceu-se de ter aprovado o valor da mesma, recordou-se ao dar milagrosamente com uma conversa eletrónica e demitiu-se. Mas nada disso importa ‒ ou importou ‒ e do relatório preliminar da comissão de inquérito à TAP ao ânimo do grupo parlamentar do PS quase dá ideia de que bom, bom, bom era o dr. João Galamba ser amanhã substituído pelo seu antecessor na pasta.»

 

Sebastião Bugalho, aqui.