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Os tugas (29)
Pedro Correia,
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A imprensa já esmiuçou o caso da derrotada candidatura do antigo governante socialista Tiago Antunes para o cargo de Provedor de Justiça. PS e PSD acordaram na sua eleição. O deputado Rui Rocha (IL) – antigo bloguista – recordou que Antunes havia tido uma participação activa no núcleo propagandístico digital de José Sócrates. E a Assembleia da República não o elegeu.
Entretanto, é muito interessante a jeremíada socialista “Tiago Antunes e a “maldição Sócrates”” da antiga directora do sempre empenhado “Público”, Bárbara Reis, uma contestação do repúdio parlamentar encetada com ênfase: “A minha alma está parva e a minha cabeça pergunta: até onde vai durar a “maldição Sócrates?”.
Reis defende o candidato por três razões: 1) na audição parlamentar prévia à eleição, ele usou um alfinete de peito (Reis usa o termo “pin” por razões que não explicita) com a imagem de uma prestigiada jurista americana, cuja biografia a jornalista condensa neste artigo; 2) aduz que ele trabalhara no núcleo socratista entre os seus 26 e 32 anos, deduz-se como se tal tivesse sido – e dado aquilo que agora (e já então, mas enfim…) se sabe do antigo primeiro-ministro – uma “irresponsabilidade” ou “devaneio” juvenil; 3) Reis afirma que todos os governos propagandeiam, e se Antunes nisso participou nada de estranho se deve concluir.
Sobre o broche que Antunes usou nada adianto, mas mal seria se os critérios de escolha para os cargos públicos fossem os adornos de cada candidato. Já sobre a “juventude” já tenho algo a dizer. Incorrecções ou disparates juvenis são outra coisa: roubar um cigarro no maço do pai, ou a este sacar o carro para uma passeata com amigos (ou amiga), beber demasiadas tequillas e vomitar na rua, faltar às aulas, não estudar o suficiente e reprovar num exame, acordar na cama com uma parceira desconhecida sem saber como aquilo aconteceu, vestir-se com despropósito para uma entrevista de emprego, usar drogas químicas “só para experimentar”, guiar sob influência, etc, pois há um enorme rol de disparates disponíveis. A maioria apenas merece … conselhos, alguns mesmo sanções morais. Outros, poucos, são crime: guiar sob influência será exemplo maior.
Mas como é evidente não se trata disso. Os mais veteranos, em particular (ex-)bloguistas – como o deputado Rui Rocha – e jornalistas, lembram-se do que foi uma verdadeira verdadeira rede de contra-informação. Que unia blogs anónimos e remunerados – o mais célebre foi o Câmara Corporativa, do “incógnito” “Miguel Abrantes” – com outros assinados de frenética actividade socratista (como o Jugular e tantos mais).. Que se dedicavam a uma espécie pré-robótica de produção de “fake news” conjuntamente com um desbragado espírito confrontacional, de arrogância extrema, face aos críticos do socratismo. Aquilo era uma barricada em torno do poder. Alguns dos seus agentes era remunerada de modo esconso, como se veio a comprovar. E tantos outros vieram a ser … recompensados: das simples avenças televisivas até postos governamentais, basta vasculhar os nomes dos “activistas” de então.
Sem rodeios, durante anos foi evidente a personalidade de Sócrates, os seus desmandos e o clientelismo vigente. Os colaboracionistas com aquele rumo, defendendo-o de modo indigno, devem ser inelegíveis para os cargos fundamentais do nosso ordenamento estatal. Independentemente das qualidades científico-académicas que possam ter. E dos adornos que usam.

E isto não se trata de uma “maldição”, como lacrimeja Bárbara Reis. Trata-se de uma desconfiança fundamentada. Face às opções pessoais desses colaboracionistas, gente de difícil regeneração. Mas também, talvez até mais, diante das práticas do Partido Socialista. O qual insiste em não se expurgar, não se regenerar, como o demonstra esta indicação de Antunes. O PS sob Costa, limitou-se a seguir um Socratismo 2.0, numa estratégia de apenas minorar os danos. Durante anos tentando proteger o próprio Sócrates. Até àquela semana de 2018 em que 3 dos seus próximos (Fernanda Câncio, João Galamba – ambos fervorosos bloguistas socratistas – e Carlos César) o vieram repudiar, uma “coincidência” demonstrativa que o partido decidira deitar borda fora o seu ex-líder, tornado demasiado lastro para a borrasca que semeara.
Após isso César continuou impante presidente do partido, Galamba ascendeu da Assembleia ao governo, e Câncio mantêm o posto honorário de “grande repórter”, mesmo tendo passado mais de uma década em esbanjo de arrogância e sem perceber o que se passava à sua volta. Ou seja, nenhum deles sofreu qualquer “maldição”. Tal como não a sofreu o próprio António Costa, veemente nº 2 do antigo primeiro-ministro – tanto que até coordenador da moção de estratégia “Defender Portugal, Construir o Futuro”, a de Sócrates ao congresso do PS em 2011, já tudo aquilo há muito que fedia.
Agora muitos discutem as nomeações de juízes para o Tribunal Constitucional. Pois então convém lembrar que em 2020 o PS de Costa – fiel a essa melíflua estratégia de “evolução na continuidade” – nele tentou colocar Vitalino Canas. Então escrevi sobre essa absurda candidatura, tanto pelo desajuste do candidato, alheado do sentir democrático, como pela sua profunda ligação ao socratismo – e deixo acima a fotografia, tirada no dia em que Sócrates saíra da prisão e se juntou aos seus íntimos. Vitalino Canas não foi eleito pelo parlamento não por causa de uma “maldição”. Mas devido a uma avaliação política, tal como agora Antunes o foi. Sobre a incompatibilidade entre a comunhão com o desmando socratista e a elevação necessária ao desempenho das funções políticas e jurídicas.
O “Público” e os socratistas não o percebem? Paciência. O importante será (ou apenas seria?) que o próprio PS o perceba. Mas esta indicação de Antunes faz duvidar que a autocrítica partidária tenha acontecido.
(Este é um dos 8 textos da minha Gazeta Semanal no meu blog)
ADENDA:
O Pedro Correia deixou em comentário esta memória sobre o candidato ao cargo de Provedor de Justiça. Mas antes de a replicar deixo esta nota: no “Expresso” de ontem Tiago Antunes escreve sobre este episódio. Depois de um longo auto-ditirambo termina “Assim não contem comigo“, devido a ter sofrido “campanhas persecutórias absolutamente infundadas e ridículas“. Mas na sua narração transparece uma mundividência política peculiar: diz que há 9 meses foi escolhido por acordo entre Carneiro e Montenegro. O qual não foi agora votado pelos deputados. Para Antunes isso significa que estes “desrespeitam acordos, brincam com o bom-nome das pessoas e alimentam campanhas persecutórias…”, o que é “lamentável“. Esta é concepção que o jurista e o político Antunes tem do exercício parlamentar, ser eleito para estar subjugado aos ditames do “chefe”. E o docente universitário nem dá conta do verdadeiro conteúdo antidemocrático do que escreve…
PEDRO CORREIA: Sobre Tiago Antunes escrevi três vezes no DELITO. Aproveito para lembrar essas ocasiões.
Quando ele, na altura blogonauta do “País Relativo” (sugestivo nome), procurou suavizar os inaceitáveis “corninhos” de Manuel Pinho, o ministro avençado pelo BES.
Quando ele, já na dependência directa de António Costa no governo pós-geringonça, teorizava sobre a necessidade de “assustar as pessoas” a pretexto da pandemia.
Quando ele procurou impor ao País restrições só possíveis em estado de emergência sem fundamento legal para o efeito nem o indispensável escrutínio parlamentar.
Nada deste passado o recomendaria hoje como Provedor de Justiça.
É por isso que a memória dos blogues é preciosa. É também por isso que ela não pode ser silenciada. Nem pensar.
Quinze anos depois do pedido de assistência financeira feito pelo então primeiro-ministro José Sócrates, de má memória, muita água correu debaixo da ponte. Muito do que então foi dito, teve de ser redito, e muito do que deveria ter sido dito está ainda por dizer.
Num país onde os consensos são difíceis de conseguir, quinze anos passados, podemos afirmar que ninguém duvida que José Sócrates se comportou como um patife. Até as respectivas viúvas se envergonharão de tudo o que se tornou público desde então.
É normal que um país que avança para o seu nono século de existência tenha memória de muitos maus governantes e, mais ainda, de notáveis patifes. Como a História é profícua na reabilitação póstuma de patifes, são vários os bandidos que mais tarde vêm a ser lembrados como grandes vultos.
Quem conheça razoavelmente o início do século XX português saberá que foi o radicalismo do Partido Democrático de Afonso Costa que, inviabilizando a Primeira República, abriu a porta a 48 anos de ditadura. Terminado esse longo ciclo, a nova narrativa ajustou-se ao seu tempo e aos seus interesses. Já poucos se lembravam da instabilidade das primeiras décadas desse século e convinha demonizar o patife imediatamente anterior. E é assim que em 1979 alguém entendeu que fazia sentido elevar Afonso Costa a “Grande Vulto”.

E é aqui que regresso ao título do postal e partilho a minha sugestão para o que possa vir a ser incluído numa próxima revisão da Constituição da República Portuguesa. Sabendo da imensa capacidade que a História tem em nos surpreender, deveria constar no futuro texto constitucional, e já agora também gravado na pedra, que José Sócrates nunca poderá vir a deixar de ocupar o seu lugar na quinta vala do oitavo círculo do Inferno de Dante. É ali, ao lado de outros barattieri, que deve permanecer e ser lembrado no futuro.

Faz hoje quinze anos, o primeiro-ministro José Sócrates, pressionado pelo ministro das Finanças e vergado pela força das circunstâncias, anunciava aos portugueses um pedido urgente de intervenção estrangeira para salvar in extremis as contas públicas em derrapagem alucinada.
Quarenta e oito horas antes, havia jurado, pela enésima vez, que não solicitaria ajuda às instituições financeiras internacionais. Cedeu no dia seguinte, perante um ultimato em uníssono dos banqueiros, protagonizando um dos rumos mais erráticos na política nacional do último meio século. Quando a nossa credibilidade externa valia zero.
Seis anos depois de chegar ao Governo, e prestes a cessar funções, legava aos compatriotas um cenário arrasador: a mais alta carga fiscal de sempre, a maior dívida pública, o mais elevado défice externo, a maior taxa de desemprego, o estado social à beira do colapso. Fizera da mentira um instrumento político permanente, deixando o país em dupla bancarrota: financeira e moral.
Feridas que levaram anos a sarar. Mas nem todas: algumas permanecem entre nós. E podem reavivar-se enquanto os herdeiros espirituais de Sócrates e os cúmplices do seu desgoverno andarem por aí.
Eles que não se iludam: nós nunca esqueceremos quem o levava em ombros num andor como se fosse santo da sua devoção.

Passam hoje exactamente nove anos sobre o dia em que “O Senhor Engenheiro José Sócrates” (Eduardo Lourenço dixit) foi detido, vítima de um ataque “justicialista” do Ministério Público – a crer-se na interpretação do seu correligionário Ferro Rodrigues, ex-presidente da Assembleia de República. Felizmente que a intentona do aparelho judicial não foi bem conseguida, pois todos estes anos decorridos ainda não houve julgamento.
De qualquer forma urge pôr o tal Ministério Público “na ordem”, como defende o actual presidente da Assembleia da República, Santos Silva, homónimo do amigo do actual vice-presidente do Parlamento Europeu, um tal de Silva Pereira. O tipo que na lista de candidatos estava atrás (apesar de, pelos vistos, ser deputado mais importante) da mulher do Vital Moreira, esse antigo cabeça-de-lista de Sócrates. Esse que também quer pôr o Ministério Público bem ordenado…
Mas, e repito-me, temos de nos congratular. Pois, pelo menos, o “Senhor Engenheiro José Sócrates” ainda não foi julgado pelos “justicialistas”.
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Nos governos de Sócrates houve uma constante defesa daquele líder, independentemente do que era tão óbvio. Nisso se afadigaram militantes do PS, e basta recordar as maiorias “albanesas” que Sócrates obtinha nos congressos do partido. E também os simpatizantes foram “activistas” produtores da nuvem de fumo que pretendia esconder a malandragem governativa. E não seria necessário recordar esse período não fosse ter vária dessa gente transitado para os governos de Costa, como Fernando Medina ou Augusto Santos Silva – esse que agora vai ao Conselho de Estado afirmar que é necessário “pôr em ordem o Ministério Público”, e que foi o único governante socialista que gozou a população por causa do escândalo do socratismo, ao dizer-se “parolo” por não ter percebido o detalhe do seu homónimo e alegado “financiador” do neto do volframista, nisso tanto demonstrando o seu desplante avesso à democratização do país. Ou recompensados com tenças em Estrasburgo/Bruxelas, como o braço-direito Silva Pereira, ou Marques e Leitão Marques. E também muitos desses militantes e ou simpatizantes, então, pois mais jovens, apenas frenéticos publicistas do socratismo, ascenderam ao governo, como o célebre Galamba ou o agora mui mudo Adão e Silva.
Tendo regressado ao poder, após o hiato da gestão da quase catastrófica crise financeira global, o PS de Costa tentou barrar o processo ao socratismo. E o afastamento de Marques Vidal da PGR foi o caso mais sonante, no fundo uma manobra desse desejado “pôr em ordem o Ministério Público”, para além de todas as manobras de controlo da comunicação social – e será de lembrar que chegaram ao ponto de nomear como responsável da informação do serviço público uma prima de Costa, que se viu obrigada a demitir-se tais práticas teve nesse posto. Depois, tão insuportável era o conúbio com a imagem de Sócrates que o PS decidiu dele se apartar, deitar borda fora aquele lastro para resistir à tormenta: o ardil foi simples, em dias consecutivos num final de semana, o presidente do partido Carlos César, a célebre Câncio, renomada publicista socratista, e Galamba, então mero deputado e criatura de Sócrates, vieram demarcar-se publicamente do ex-primeiro-ministro.
Assim enviado o fedorento cadáver político às revoltas águas da Ericeira o PS de Costa seguiu livre no poder. Entre inúmeros – e tantos deles patéticos – “casos e casinhos” a pax costista estabeleceu-se. Primeiro com o apoio dos partidos comunistas, seduzidos por algumas prebendas redistribrutivas para as suas bases e clientelas. E depois sozinhos, por quatro anos, que nos habituássemos nós. Grosso modo, as pessoas eram as mesmas, as práticas são as mesmas, as diferenças virão apenas dos trejeitos individuais.
Na passada semana “o modo português de ser socialista”, para glosar Gilberto Freyre, sofreu um KO técnico. Ontem, António Costa reergueu-se e veio ao ringue apresentar a “narrativa” que o PS procurará apresentar aos seus fiéis e restantes adeptos, temerosos do que a malvada “direita” lhes fará. No fundo Costa apresentou-se como epígono de Isaltino de Morais, num trinado um pouco diferente: “temos dinheiro nos gabinetes mas fazemos“.
Caberá aos jornalistas, a politólogos ou mesmo a historiadores da contemporaneidade o elencar com detalhe a miríade de “casos e casinhos”, e suas articulações, destes oito anos. Para a sua compreensão será muito produtivo associá-los ao acontecido nos governos do anterior primeiro-ministro socialista. E, para uma visão mais “antropológica” – mais estrutural, por assim dizer – julgo que será relevante fazer recuar esta análise ao historial da administração socialista de Macau, molde que foi do modus faciendi das posteriores gerações de políticos daquele partido. Cujos últimos restantes agora (definitivamente?) colapsam.
Trata-se de um partido de gentes que já há mais de vinte anos estavam incapazes de rebelarem contra os presidentes Soares abraçado ao fugitivo Craxi, ou Sampaio abraçado a Abílio Curto, sempre em nome de uma tal de “amizade”. Ou seja, o que hoje se passa não é um momento, é sim fruto de uma mundividência colectiva, predominante naquele partido. Sendo assim, o PS não se regenerará, sofre de necrose política. Estuporado diante da visão de Madrid é incapaz de sopesar, e nisso actuar sobre si mesmo, o que aconteceu aos seus congéneres de França, Grécia, Itália… Pois o problema não é “Costa”, é tudo aquilo. E, para mal dos nossos muitos pecados, diante de toda esta decadência temos o pior presidente da República do nosso regime, o mais incompetente pois o mais ininteligente, uma total inadequação sobre a qual me repito desde há muitos anos. É assim necessário sublinhar isto: estamos muito mal entregues. Pois assim o votámos.
Entre a incessante série de comentários recebidos sobre a actual situação escolho divulgar estes três. Porque dizem tudo o que é básico sobre a torpe “narrativa” que António Costa quer legar ao seu partido.
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Segundo o Expresso, o julgamento do ex-primeiro-ministro está paralisado devido a uma falha do atual Governo.
Entretanto, em 2024 alguns dos crimes de que é acusado, irão prescreve.
Estou certo que os mais convictos apoiantes do poder socialista justificarão esta falha como resultado da incompetência que já assistimos em tantos outros casos, e não a um propósito deliberado.
Eu acho que os socialistas no poder são muito incompetentes mas, antes disso, têm também um forte sentido gregário de protecção mútua. Por isso, atrevo-me a afirmar que se António Costa não dissesse o que disse quando visitou Sócrates na prisão (que ele era um lutador naquilo que acreditava ser a sua verdade – a frase politicamente mais mortífera da última década), agora não lhe poderia fazer “o jeito” de o poupar a um julgamento.
Pelo caminho António Costa já o acusou de “aldrabar” o PS. Para o partido que tomou o poder em Portugal, essas afirmações serão o julgamento que conta. E que a justiça dos plebeus não se atreva meter o bedelho onde não é chamada.

Foto: DR
A ala “abrantina” do Governo Sócrat… perdão, do Governo Costa acaba de ser muito reforçada com esta (cof, cof…) “remodelação governamental”.
Tem tudo para dar certo. Do ponto de vista das oposições.

Caetano Veloso – Sozinho (Ao Vivo No Rio De Janeiro / 1998)
Os longínquos consulados de Sócrates estão meio esquecidos e já ninguém é capaz de contar com um mínimo de consistência os detalhes de qualquer das várias aldrabices que foi inventando para justificar os meios de fortuna que detinha.
Mas não é só o tempo decorrido que explica a amnésia, é também o incómodo: muito antes das tranquibérnias da personagem terem caído no domínio público já havia denúncias em recantos obscuros da blogosfera, como havia no mesmo lugar uma consistente patrulha que defendia com unhas e dentes a personagem. Os soldados desta patrulha tiveram, em muitos casos, o destino exaltante de boas carreiras no ou à sombra do poder político, e não querem ser lembrados das suas antigas fidelidades. Como aliás acontece com boa parte do aparelho dirigente do PS, a começar pelo estadista Costa, que nunca foi prejudicado pela sua pouco verosímil cegueira.
Estranho caso: a massa do eleitorado, que foi enganada, guarda a sua aversão para o detestado Sócrates que, coitado, sempre foi bastante transparente no seu perfil de troca-tintas contumaz; mas não apenas não aprendeu nada com as patranhas que engoliu como elegeu e reelegeu um demagogo da mesma extracção (descontando porventura a desonestidade pessoal que, para efeito do acerto de políticas, não tem grande relevo). Sócrates fez o país falir porque as instituições europeias ainda não tinham decidido que os países da UE não podem falir. Com Costa apenas não faliu porque, desde que haja um módico de respeito pelo manual de instruções, o BCE passou a aparar o jogo.
E não só eleições para a AR, isto é, para o Governo: Marcelo deu abundantes provas de ser uma irrelevância palavrosa, espécie de rei constitucional socialista sem poder moderador e sem decoro. E o eleitorado disse, reguila: Ai sim, não serves para nada? Toma lá uma maioria reforçada.
Os dois partidos que entre si rotativizaram o regime cuidaram de criar uma massa de dependentes do Estado avessa a reformismos que pareçam pôr em perigo, sequer remotamente, a principal conquista do 25 de Abril: O Estado cuidador, omnipresente, dono do SNS e dos avisos nos maços de tabaco e das mudanças de tempo, empregador pobreta mas seguro, garante das pensões de reforma e da modernidade trombeteada por uma comunicação social abjectamente servil. Esta massa é o garante da democracia e do deslizar permanente do país para os últimos lugares do desenvolvimento na União. Ademais, a incapacidade reformadora tem contado com a inoperância do parceiro mais débil do situacionismo, liderado até há pouco por um homem sério com perfil de excelente gestor de minimercado.
Este, o situacionismo, está tão firmemente estabelecido que há até partidos que não servem para governar mas servem de canários na mina: qualquer esboço de mexidas no status quo e eles encarregam-se de pôr os jornais, e o país, em polvorosa. São como os sindicatos no mundo do trabalho: um bando de comunas, Deus nos livre de os escolher seja para o que for – salvo para existirem e fazerem um berreiro do demónio se um governante chanfrado se lembrasse, sei lá, por exemplo, de pôr um serviço deficiente a funcionar.
Lá democracia temos: imperfeita como todas, mas quem quer diz o que quer, os partidos fazem o que entendem e as instituições do Estado de Direito (com excepção do Fisco, por razões de que aqui não curo) funcionam regularmente.
Portanto, o que temos é o que o Povo quer que tenhamos. E que se danem todos os melhores espíritos que, entre nós e tradicionalmente, assacam às elites a responsabilidade pelo atraso relativo que nos pesa, e que perdura. Destes, o último foi Rentes de Carvalho, numa encantadora entrevista que concedeu e que apenas perdeu por curta – a gente ficava, com proveito e gosto, a ouvi-lo muito mais tempo.
Eu aos melhores espíritos não pertenço, reconheço. E esta lamentável inferioridade leva a que entenda que não há em Portugal praticamente nenhuma reforma desejável que possa ser feita com a concordância da população, mesmo em sectores que, como a Justiça, todos – profissionais, teóricos, utilizadores – entendem que funcionam muito mal.
Daí que ao fim de quase oito anos Sócrates ainda não tenha sido julgado e os juízes se queixem de excesso de garantismo como se não fosse o arrastar de pés no lavrar de sentenças, e o seu bordar vaidoso de textos prolixos redigidos no paleio obscuro que imaginam ático, que justifica os incompreensíveis atrasos nas sucessivas decisões face a sucessivos recursos; os magistrados do Ministério Público se distingam por perseguir todos os coelhos, e atirar a todos os ninhos, sem jamais acertarem em coisa alguma; os advogados forneçam o grosso do trabalho legislativo que incansavelmente remenda uns rasgões no universo judiciário, abrindo outros; a comunicação social estadeie a sua insondável ignorância das matérias e o seu desespero por não vislumbrar qualquer solução; os sindicatos de magistrados (cuja existência, aliás, não deveria sequer ser permitida) confundam inevitavelmente a defesa da Justiça com a defesa de interesses corporativos; e a opinião pública continue desnorteada por o assunto caber mal na dicotomia rico/pobre, que está habituada a achar é o que está na origem de todas as disfunções e todas as injustiças.
Justiça irreformável, portanto. O que não é a mesma coisa que achar que quem acusa tenha todos os direitos, e quem se defende todas as obrigações, por muito que a opinião pública ranja os dentes por eles (eles são os poderosos) andarem aí, aparentemente, na boa vai ela.
Sucede que o mesmo ministério público que não cessa de dar provas de inoperância entende que tem uma espécie de direito de tutela permanente sobre a vida dos acusados, por o serem, e isto sem dependência de quaisquer prazos razoáveis. Desta vez (uma evolução positiva, sabemos o nome do magistrado, Vítor Pinto) acha que Sócrates não lhe pediu licença, mas devia ter pedido, para ir fazer um doutoramento ao Brasil (incidentalmente uma maneira de redourar uma carreira política com a companhia de outro político infrequentável, o que no caso é inteiramente irrelevante).
Entendamo-nos: o único risco que legitima este droit de regard do MP é o de fuga. Sucede porém que a crença de que este expediente limita esse risco é apenas isso, uma crença, e ingénua na hipótese de não ser apenas inane.
Não é provavelmente disso que se trata, mas ostensivamente da majestade da Justiça, que no caso o magistrado confunde com o prestígio da instituição que serve, que julga ofendido se em todos os momentos os acusados, ou investigados, ou inquiridos, não prestarem aquela vassalagem que imagina devida.
Imagina mal: a ideia de que quem acusa tem mais direitos do que quem defende é típica de ordenamentos tingidos de medievalidade. E não menos se, no caso, é provável que a opinião pública esteja calorosamente do lado do magistrado, do mesmo modo e pelas mesmas razões que sempre achou e acha que a presunção de inocência é absolutamente respeitável na teoria, e absolutamente desprezível na prática.
Repito, mais uma vez: Sócrates é um exemplo lamentável de político e pessoa mas a forma como é tratado deve-nos fazer pensar: se se trata assim um ex-PM que já foi um menino dourado da opinião pública e do establishment, como não se tratará um pobre diabo que ninguém conhece?
Sócrates é manipulador e explora até ao infinito todos os recursos do dinheiro e do Direito. Isto é, faz o que seria de esperar. Agora vai-se embrulhar numa retórica infinita em torno de um não-assunto, sendo submetido a interrogatórios para apurar coisa nenhuma. Isto porque, aparentemente, as magistraturas envolvidas são incapazes de perceber que o tempo investido a perder tempo com formalismos faz falta para tratar da substância.

Numa campanha marcada pelo contínuo desfile de animais, talvez devido à acção pedagógica do PAN, aquele que mais deu nas vistas acabou por ser um elefante. Plantado num local nada cómodo para António Costa: a sala de visitas do PS. Roubando espaço de manobra ao líder socialista e lembrando-lhe um passado que ele queria varrer para debaixo da alcatifa.
José Sócrates ressurgiu faz hoje oito dias, em longa entrevista nocturna à CNN Portugal. Quando Costa ainda batia no peito a pedir maioria absoluta. O conselheiro que o persuadiu a adoptar tal estratégia não podia estar mais equivocado.
Exibindo aquele ar de quem anda sempre de mal com o mundo e sente um desprezo sem fim por quantos não lhe alimentam o ego, o autoproclamado «animal feroz» deu um ralhete público ao seu antigo ministro da Administração Interna, que com ele trabalhou entre 2005 e 2007.
«O único conselho que eu daria a quem quer uma maioria absoluta: talvez devesse começar por não desmerecer a única que o PS teve na sua história, aquela que eu tive em 2005.» Eis Sócrates igual a si próprio: não esquece um agravo, considera-se traído por Costa e consegue usar o pronome “eu” duas vezes na mesma frase.
Como se não bastasse, insistiu: «Talvez fosse melhor começar por não pôr em causa a história do PS, que teve um momento muito importante em 2005.»
José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa, 64 anos, conseguiu irritar o secretário-geral socialista ao romper o silêncio em plena campanha eleitoral. Na manhã seguinte, confrontado pelos jornalistas que lhe pediam uma reacção à entrevista, Costa não escondia o desagrado. «Não tive oportunidade de ver», reagiu secamente. E seguiu adiante. Tinha o dia estragado. Nada lhe podia agradar menos, nesta romagem às urnas em que disputa cada voto, do que surgir associado à era socrática.
Felizmente para ele, Sócrates deixou claro não ter hoje «nenhuma relação com a direcção do PS» e lembrou que já devolveu o cartão de militante: «Decidi abandonar o partido para preservar a minha dignidade.» Mas revelou que ainda se sente integrado na família socialista, mantém muita gente amiga nas listas eleitorais e continuará fiel ao emblema quando assinalar a cruz no boletim de voto. E rematou, com um esgar de desdém: «O PS não é António Costa.»
A aparição de Sócrates na campanha, entrando como fantasma hamletiano pela porta das traseiras, não podia ter ocorrido em pior momento para alguém que promete confiança e credibilidade aos portugueses. Costa, político com instinto apurado, percebeu de imediato que devia abandonar a reivindicação da maioria absoluta – associada pelos eleitores àqueles anos em que ele se sentava no Conselho de Ministros presidido pelo mais mediático arguido da Operação Marquês. Assim fez: não voltou a aludir ao tema.
A partir daí apenas Pedro Nuno Santos, integrado na caravana socialista em Espinho, insistiu na tecla reivindicando «a maior maioria absoluta que pudermos». Parecia falar com entoação irónica, mas só ele poderá esclarecer.
Texto publicado no semanário Novo

Primeiro andamento:
«O que me ofende são algumas afirmações que por aí vejo, de gente… aliás alguns deles próximos de mim, que acham que eu andei a inventar que a minha família tinha posses que nunca teve, que o meu avô não era um homem rico, que nunca trabalhou no volfrâmio, que nunca enriqueceu no volfrâmio. Eu apresentei ao juiz a prova. Fui buscar as escrituras das partilhas da herança da minha mãe feitas nos anos 80. Para provar que a minha família tinha recursos, que a minha mãe era uma mulher rica, uma mulher que tem três heranças nos anos 80.»
«A minha mãe teve um conjunto de heranças que sensivelmente, pelos cálculos que podemos hoje fazer… de cerca de um milhão de contos.»
«A minha mãe teve sempre um cofre em casa, toda a vida. Toda a gente sabia.»
«O meu avô era um homem muito rico, era um homem de muitas posses.»
Segundo andamento:
«O engenheiro Carlos Santos Silva fez-me empréstimos em 2013 e 2014.»
«Em 2013 o engenheiro Carlos Santos Silva ofereceu-se para me ajudar porque eu estava a viver em Paris. Decidi ir para Paris para estar com os meus filhos, para fazer um mestrado e para que os meus filhos concluíssem o seu ensino secundário numa escola estrangeira. Não foi nenhuma vida de luxo. Foi um investimento na minha educação e na dos meus filhos. E o engenheiro Carlos Santos Silva decidiu financiar-me, ajudar-me nisso.»
«Estes empréstimos totalizam 560 mil euros.»
Excertos da entrevista que José Sócrates deu ontem à TVI
Tudo se resume a uma única palavra: medíocre.
Medíocre a governar, medíocre a liderar o partido, medíocre a mentir, medíocre a defender-se.
Mas talvez não tão medíocre como os que o guindaram à posição que atingiu, o seguiram acefalamente dentro do partido, ainda lá estão como se nada tivesse sido com eles, e o protegeram até ao fim.

MERCADEJAR, definição:
«Negociar; comerciar; traficar» (Dicionário Porto Editora)
«Auferir rendimento ou benefício de forma ilegal = traficar» (Priberam)
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Na passada sexta-feira não ouvi o juiz Rosa. Li breve sinopse do que ele proferiu. Peço que me corrijam se o incompreendi: Rosa constatou que o antigo PM e ex-secretário-geral do PS é culpado de crimes de corrupção já prescritos e enviou-o para tribunal como réu devido a crimes económicos cometidos enquanto Primeiro-Ministro. Isto é uma verdadeira bomba, um escândalo!
Os agentes do socratismo, os videirinhos a la blog Jugular, atrevem-se agora a gargalhar na internet e a clamar que se desmontou uma incompetente cabala. E até as raríssimas vozes socialistas então menos atreitas a Sócrates limitam-se a criticar a Justiça. Elidem, totalmente, este escândalo. E a cumplicidade do seu partido, de militantes e dirigentes, e dos inúmeros opinadores públicos (académicos e jornalistas em especial) com aquele miserável período. Pois em termos estruturais o pior nem foi a corrupção instalada no poder – algo recorrente em qualquer regime. Mas sim a penosa corrupção do espaço público, feita de cumplicidade e de conivência. Instalada, repito, na Academia e na Imprensa. E estas sonsas reacções mostram como isso não mudou, como essa gente, moles de dependentes, está “pronta para outra”…
Tudo isto é doloroso. Mas temos que sofrer estes nossos compatriotas. Têm o direito de assim serem, por miseráveis que sejam. Mas já diferente é aceitar que uma estadista estrangeira, ex-presidente de um país aliado, se venha intrometer na nossa vida nacional apoiando um réu de tamanho calibre. Que escumalha esta Rousseff.
Se todos os juízes fossem como Ivo Rosa, os advogados ficavam no desemprego. Ser defensor de arguidos em tribunal tornava-se profissão inútil.
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Os adeptos de Sócrates irão comemorar a sua vitória. Em plena pandemia espero que a polícia impeça estas cenas, que potenciarão as infecções. Quanto ao resto, ao traste ex-PM, seus cúmplices e coniventes, mais os avençados? Continuam aí, a mandar.
Faz agora dez anos, o primeiro-ministro José Sócrates, pressionado pelo ministro das Finanças e vergado pela força das circunstâncias, anunciava ao País um pedido urgente de intervenção estrangeira para salvar in extremis as contas públicas em derrapagem alucinada.
Quarenta e oito horas antes, havia jurado aos portugueses, pela enésima vez, que não solicitaria ajuda das instituições financeiras internacionais. Cedeu no dia seguinte, perante um ultimato em uníssono dos banqueiros, protagonizando um dos rumos mais erráticos na política nacional dos últimos 45 anos. Quando a nossa credibilidade externa valia zero.
Seis anos depois de chegar ao Governo, e prestes a cessar funções, legava aos compatriotas um cenário arrasador: a mais alta carga fiscal de sempre, a maior dívida pública, o mais elevado défice externo, a maior taxa de desemprego, o estado social à beira do colapso. Fizera da mentira um instrumento político permanente, deixando o país em dupla bancarrota: financeira e moral.
Feridas que levaram anos a sarar. Mas nem todas: algumas permanecem entre nós. E podem reavivar-se enquanto os seus herdeiros espirituais andarem por aí.