Cobardia física e miopia moral


Pedro Correia,

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Salman Rushdie fotografado por Murdo Macleod

 

Como era óbvio, mais um ano transcorrido, Salman Rushdie não foi distinguido com o Prémio Nobel da Literatura. Nem o será. O Comité Nobel está infectado há muito tempo pelos vírus da cobardia física e da miopia moral. Se dois tradutores foram assassinados por terem ousado verter os Versículos Satânicos para outros idiomas, mais ameaçados ficariam os membros do aludido comité se prestassem justiça a um escritor que já merece o galardão desde 1981, quando publicou esse extraordinário romance que é Os Filhos da Meia-Noite

Como premiar um autor que caminha há décadas sob o fio da navalha, condenado à morte pelos inquisidores islâmicos e alvo de um miserável atentado em Agosto de 2022 que o deixou cego de um olho? Ninguém se atreverá a tanto. Sem desconsiderar Jon Fosse, o norueguês distinguido este ano, a sua reiterada omissão da lista de galardoados acaba por enobrecer o romancista britânico nascido em Bombaim — «o sobrevivente», como acertadamente lhe chamou a revista Le Point.

Está muito bem acompanhado nesta vergonhosa omissão, integrando um longo cortejo dos melhores do século XX, de Joyce a Borges, de Ibsen a Kafka, de Tolstoi a Orwell, de Malraux a Virginia Woolf. Todos superaram o maior dos desafios: o decurso do tempo. «Se conseguir passar no teste de mais uma ou duas gerações, poderá perdurar», escreveu Rushdie, precisamente n’Os Filhos da Meia-Noite, a propósito de outro assunto. Os prémios passam, os júris eclipsam-se, a obra fica.

Os cobardes


Pedro Correia,

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Notável peça jornalística da revista Le Point desta semana: entrevista exclusiva com Salman Rushdie. O grande escritor está de volta após ter sido quase assassinado a 22 de Agosto de 2022, em Nova Iorque, por um extremista islâmico armado com um cutelo. Em 27 segundos levou 15 naifadas, sobreviveu quase por milagre. Mas não saiu ileso: ficou cego do olho direito, como a fotografia de capa documenta.

Felizmente Rushdie é daqueles que não desistem. Aos 76 anos, tem outro livro já ao encontro dos seus numerosos leitores: A Cidade da Vitória, romance histórico, ambientado na Índia do século XIV, mas obviamente com a intenção de retratar os dias de hoje. «Este mundo imaginário fala do nosso mundo real, o que sempre acontece com os romances, a pretexto da ficção», assinala na entrevista.

Testemunho desassombrado: nem seria de esperar outra coisa dele. Arrasa os dogmas da correcção política, critica sem rodeios a esquerda e a direita que ameaçam a liberdade de expressão com o mesmo ímpeto censório, afirma a necessidade de militarmos em defesa dos direitos fundamentais pois nenhum está garantido a título perpétuo – muito longe disso. «Quando se trata da democracia, não estamos num salão de chá, temos de nos bater por ela.»

Perseguido, injuriado, ameaçado, alvo de tentativas de homicídio pelo criminoso regime de Teerão desde a publicação dos Versículos Satânicos, em 1988, ele não se verga. Evidenciando coragem física e moral. Em contraste absoluto com os cobardes membros do júri do Prémio Nobel da Literatura – que ano após ano o ignoram. Quando bastaria esse fabuloso romance intitulado Os Filhos da Meia-Noite, de 1981, para lhe valer este galardão que já distinguiu tanto autor medíocre.

«De que necessita realmente um ser humano quando vem ao mundo? De ser alimentado, de estar em segurança, de ser amado se tiver possibilidade disso. Mas que pede ele aos pais quando já comeu e se sente aconchegado na cama? “Conta-me uma história…” Esta necessidade de histórias acompanha-nos desde a origem.» Sabe do que fala, este escritor que tanto admiro. Tem fibra de resistente. É um exemplo para todos nós.

Nobel: quem foram os escritores portugueses propostos para o prémio?


Pedro Correia,

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        Aquilino Ribeiro (1960), Ferreira de Castro (1952, 1969, 1970) e Miguel Torga (1959, 1961, 1962, 1965, 1966)

 

Em 115 anos de distribuição do Prémio Nobel da Literatura, Portugal teve até hoje apenas um laureado: José Saramago, distinguido em 1998 – talvez não por coincidência apenas três anos após a publicação da sua obra-prima Ensaio Sobre a Cegueira, que daria um inspirado filme produzido em Hollywood. 

Mas valha a verdade: não foi por falta de tentativas que só tivemos até agora um vencedor. A recente abertura aos investigadores dos arquivos do Comité Nobel permitiu saber em pormenor quem foram os escritores considerados em cada ano, desde 1901 até há meio século (de 1972 para cá, as opções do júri continuam abrangidas por cláusulas de confidencialidade).

Na parte que nos toca, é possível concluir isto: nunca faltaram candidatos das letras lusas. Logo desde o primeiro ano, quando foi proposto para o Nobel o dramaturgo D. João da Câmara.

O problema é que quase nunca as sugestões formalmente apresentadas em Estocolmo eram dignas de crédito – por deixarem de fora os melhores escritores da sua época (Torga e Aquilino figuraram entre as raras excepções) e valorizarem nomes de terceiro ou quarto plano, hoje totalmente esquecidos.

Como se pode comprovar pela lista que se segue:

 

1901: D. João da Câmara (proposto por Joaquim Coelho de Carvalho)

1907: João Bonança (proposto por Teófilo Braga)

1933: António Correia de Oliveira (proposto por 20 membros da Academia das Ciências de Lisboa)

1934: António Correia de Oliveira (proposto por Knut Hammarskjöld, Alberto de Oliveira, Agostinho de Campos, Alfredo da Cunha e Luís da Cunha Gonçalves)

1935: Maria Madalena Martel Patrício (proposta por Bento Carqueja) e António Correia de Oliveira (proposta por Alfredo da Cunha e Luís da Cunha Gonçalves)

1936: António Correia de Oliveira (proposto por Luís da Cunha Gonçalves)

1937: Maria Madalena Martel Patrício (proposta por António Baião) e António Correia de Oliveira (proposto por Luís da Cunha Gonçalves)

1938: Maria Madalena Martel Patrício (proposta por António Baião) e António Correia de Oliveira (proposto por Antero de Figueiredo)

1939: Maria Madalena Martel Patrício (proposta por António Baião) e António Correia de Oliveira (proposto por Pel Hallström)

1940: Maria Madalena Martel Patrício (proposta por António Baião) e António Correia de Oliveira (proposto por António Mendes Correia)

1941: Maria Madalena Martel Patrício (proposta por António Baião)

1942: António Correia de Oliveira (proposto por Knut Hammarskjöld e António Mendes Correia), Maria Madalena Martel Patrício (proposta por António Baião) e Teixeira de Pascoaes (proposto por João Mascarenhas Júdice)

1943: Maria Madalena Martel Patrício (proposta por António Baião) e Teixeira de Pascoaes (proposto por João Mascarenhas Júdice)

1944: Maria Madalena Martel Patrício (proposta por António Baião) e Teixeira de Pascoaes (proposto por João Mascarenhas Júdice)

1945: Maria Madalena Martel Patrício (proposta por António Baião)

1946: Maria Madalena Martel Patrício (proposta por António Baião)

1947: Maria Madalena Martel Patrício (proposta por António Baião) e Teixeira de Pascoaes (proposto por João Mascarenhas Júdice)

1948: Teixeira de Pascoaes (proposto por João Mascarenhas Júdice)

1950: Júlio Dantas (proposto pela Academia das Ciências de Lisboa)

1951: Júlio Dantas (proposto pela Academia Brasileira de Letras e por Knut Hammarskjöld) e Ferreira de Castro (proposto por Holger Sten)

1952: Ferreira de Castro (proposto por João de Barros)

1959: Miguel Torga (proposto por Jean-Baptiste Aquarone)

1960: Aquilino Ribeiro (proposto pela Sociedade Portuguesa de Escritores) e Miguel Torga (proposto por Émile Planchard)

1961: Miguel Torga (proposto por Hernâni Cidade)

1962: Miguel Torga (proposto por Hernâni Cidade)

1965: Miguel Torga (proposto por Göran Hammarström)

1966: Miguel Torga (proposto por Jean-Baptiste Aquarone)

1969: Ferreira de Castro (proposto por António Olinto Rocha e Vitorino Nemésio)

1970: Ferreira de Castro (proposto por António Olinto Rocha)