Um Natal Rácico


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Uma ríspida constipação tússica impôs-me um Natal solitário, para evitar contagiar a família. Isento da fartura de bacalhau, rabanadas, sonhos, coscorões e quejandos, e do fervilhante convívio com os mais-queridos, terei sido mais atento aos derrames televisivos, tanto às notícias dos dias como ao cardápio dos obrigatórios filmes da quadra. Ou seja, a dieta incrementou o meu estupor diante deste revanchismo sociopata do governo – e da sociedade – israelita, o qual amansei com uma panaceia tomada em duas cápsulas, num dia o filme “Pretty Woman”, no seguinte o “Notting Hill”. 

Hoje, e porque já menos alquebrado eximi-me a ver pela enésima vez o tão obrigatório “Pale Rider”. Mas, pois ainda convalescente, enrolei-me em manta e de ceroulas e pantufas assisti a uma simpaticíssima entrevista com o dr. Montenegro, passeando pelo tão aprazível litoral de Espinho, durante a qual o candidato apresentou os itens fundamentais do seu programa eleitoral. Pouco depois, já eu de chá de cidreira em punho, acompanhei o comentário político do inefável dr. Júdice. O qual me deu uma novidade – ao saudar efusivamente um inquérito feito pelo Instituto Nacional de Estatísticas, incidindo sobre as dimensões “étnicas e raciais” da população. Impante com a conquista civilizacional do nosso Estado, o referido dr. Júdice não deixou de salientar que a França não faz este tipo de questionários, algo que considerou ser causa dos problemas que aquele país tem. Deixando assim implícito que ao invés de outros países que assumem tais metodologias classificatórias, onde decerto inexistirão os tais não elencados problemas…

Mas fiquei genuinamente supreendido. Pois não tinha conhecimento de tal inquérito nem, muito menos, de que o INE já assumira esta classificação dos habitantes do país. Distracção minha, pois esta é uma verdadeira vitória política da esquerda comunitarista, dita “identitarista”. Há uma imensa literatura internacional sobre o assunto, uma muito militante paladina desta classificação dita “racial” e “étnica” das populações – com grande ênfase em documentação institucional e no “activismo intelectual”, toda de retórica benfazeja, e muita dela com implícitos revolucionários -, outra a isso avessa.

Não me vou abalançar a fazer uma súmula disso, para nisso promover um qualquer requebro bloguístico. Julgo saber, pelo que li num artigo de um demagogo antropólogo, que o nosso país é um “apartheid”. E também que a nossa população – pelo que também li de um outro qualquer demagogo – é maioritariamente crente num “racismo cultural. Um Inferno, luso. Ainda assim prefiro ir ler os resultados do Boxing Day. E esperar que amanhã já esteja eu rijo para ir levantar os últimos exames médicos, para em breve me apresentar ufano diante da consulta aprazada para o início do ano em que serei sexagenário, impregnado que estou desta moinha duvidosa sobre se esta velha carcaça ainda aguentará mais uns tempos. Pois, de facto, é-me isso bem mais relevante do que gastar tempo a discutir esta gente, coisa afinal sem qualquer préstimo.

Ainda assim, e antes dos resultados da bola inglesa, fui ver o inquérito. Está aqui. E começa mais ou menos assim o texto estatal: “A pergunta sobre a autoidentificação étnica, à qual os respondentes poderiam assinalar mais do que uma opção do grupo a que consideravam pertencer, compreende as seguintes possibilidades de resposta: asiático, branco, cigano, negro, origem ou pertença mista” (p. 2). Sorrio. E no monólogo deste sozinhismo murmuro um arrastado “foda-se...”, enquanto me noto a menear a cabeça. E depois sai-me um “este país é mesmo dos Tavares…“. “E dos Júdices“, complemento enquanto me levanto, pois nem vale a pena argumentar. Escorropicho o chazinho de cidreira, já morno. E vou-me servir de um uísque.

E assim fico, um branco com um uísque.

O turismo em Lisboa


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Há anos terei blogado aludindo a esta história mas repito-a agora, pois natalícia – dado que emanando da “voz das crianças”. A minha filha teria então 7, 8 ou, vá lá, 9 anos. Viéramos de Maputo em férias. No segundo dia, idos dos Olivais, cruzámos a Baixa, entrámos na Avenida da Liberdade e inflecti rumo ao Príncipe Real. Cruzando a Praça da Alegria a petiza, impressionada com o que ia vendo, perguntou lá do banco traseiro, perspicaz mas (ainda) não irónica: “afinal Lisboa é mais pobre do que Maputo?“. Tamanha a sucessão de edifícios entaipados, grafitados, decadentes, toda aquela “zona histórica” num estado tétrico, como o estava antes da explosão turística.

 

Este episódio vem-me muitas vezes à memória. Retornou agora, ao ver repetidas partilhas no Facebook de um texto de um evidente intelectual, clamando contra a profusão turística que arromba a “identidade” lisboeta – e decerto que nisso a portuguesa. O texto é partilhado por gente que se revê como de “esquerda”, “progressista”, com laivos ou âmagos daquela “interseccionalidade” da moda, e com presumível bom comércio com as fundações coordenadas pela maçonaria e com o jornal da SONAE. O poder, entenda-se,

 

Ora se em nome da preservação da “nossa identidade” eu escrever que muita confusão sempre me fez a disseminação por todo o país, quais cogumelos, de pequenas lojas de quinquilharia entregues a casais chineses, notoriamente incapazes de fazerem aqueles investimentos, dir-me-ão do CHEGA. Tal como se falar contra a proliferação nas “zonas nobres” das cidades de lojas asiáticas de lixo “souvenir”, que evidentemente não se pagam a si próprias. E se me alertar com as preocupações de alguns – já passadas à imprensa – com a importação de núcleos de bandidagem violenta oriunda do Brasil, passivel de arrombar a “segurança”, o grande bem “identitário” nacional – como sabe quem viveu no estrangeiro -, dir-me-ão “xenófobo”. Se resmungar contra a opção para motoristas públicos por oriundos do subcontinente indiano, desprovidos de conhecimentos básicos para o efeito – como também a imprensa narra -, avessos a essa “identidade” popular lisboeta que é o “taxista”, ainda mais “fascista” serei. Se protestar contra a inaceitável construção municipal de um templo para a crescente imigração muçulmana, sobre mim dirão pior do que Maomé proferiu sobre o toucinho. E se me passar – como sempre me passo – quando vejo nas ruas da minha cidade uma cabra de véu, assim clamando serem as outras (portuguesas ou outras, islâmicas ou de outros credos ou increias) desonradas, violentáveis e até escravizáveis, dir-me-ão até incapaz de compreender a “multicultura”….

 

Mas se disser mal dos “franceses”, desses “europeus”, que aqui vêm destruir a “identidade” da “comunidade” lisboeta, da rede dos seus “clubes” e “associações” como se estes ainda “orgânicos”, então partilharão o meu texto, aplaudirão o meu “progressismo”, a minha defesa da “identidade” municipal, até pátria. E se o texto estiver bem escrito até é capaz de ascender ao… “Público”.

 

A todos estes “progressistas” de pacotilha desejo um Natal cheio de … salmonellas nas lampreias e similares.

Os meus votos de Boas Festas!


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Entre amigos encetei ontem as celebrações natalícias, esta época de congregação em comunhão benevolente. A nossa laica celebração do Advento consistiu num vasto repasto composto por uma maravilhosa moamba, acompanhada por funge de milho e de mandioca (ou xima, para falar como em Moçambique).

 

Tudo isto, e também o picante acompanhante – mas, de facto, nem necessário tal o ponderado equilíbrio dos condimentos -, foi cozinhado com extrema excelência por um tipo branco, português (“tuga”, como dirão os mais agrestes), que nunca pisou África… Como dirá aquela Joacine Katar Moreira (e seus apaniguados identitaristas): este apropriar festivo da culinária africana é um caso típico da “desfaçatez” “racista” e do “extractivismo cultural” dos portugueses. E nem no Natal afrouxamos.

 

Enfim, e digestão feita, aproveito para a todos (até aos tais “identaristas”) desejar Boas Festas, um Feliz Natal – pouco perdulário – e um Saudável 2024! Bem Hajam!

Sobre Israel aqui


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Nunca me dediquei a leituras detalhadas sobre a temática Israel, pois nunca me foi assunto prioritário. Nem mesmo apenas relevante. Nunca visitei a região – o mais perto que cheguei foi Chipre… A minha atenção sobre temas internacionais, que não é profissional, ancorou-se noutros sítios, noutros continentes. Pouco sei sobre a história daquela área, e pouco sei sobre as últimas décadas, as do pós-II Guerra Mundial, as do estabelecimento do país Israel, e de vários outros vizinhos… E o estado crónico daquele conflito – do qual fui vendo notícias desde a mais tenra idade, pois lembro-me de estar perto do meu avô materno, que morreu aos meus 8 anos, assistindo a Moshe Dayan e Arafat no telejornal – também me convocou a um fastio sobre tudo aquilo.

Escrevo em blogs. É uma escrita amadora. Ou seja, não é remunerada, economica ou estatutariamente. E não tem agenda, nem própria nem, muito menos, encomendada. É diarística, sem intimismos. Escrevo sobre os temas que me interessam, muitas vezes reactivamente, outras vezes radicado nos meus gostos ou no meu quotidiano. Assim sendo é uma escrita irresponsável – ainda que às vezes possa procurar um objectivo (como hoje, no meu blog pessoal proponho aos leitores uma boa prenda natalícia, um recente livro de um bom amigo meu). Mas é irresponsável pois não tem a tal “agenda” – não é militante (ou “activista”, como agora se diz) -, não é lucrativa – ninguém me arranja trabalho remunerado através desta verborreia -, e, acima de tudo, porque não é editada. Ou seja, não é publicada num órgão de comunicação social, assim difusamente subordinada a algum tipo de responsabilidade social, de cariz noticioso por exemplo. Em suma, escrevo em blogs sobre o que me apetece. E ninguém tem rigorosamente nada a ver com isso, com o meu cardápio.

Dito tudo isto, é totalmente absurdo que os leitores me venham a cobrar (e a outrem) o não ter escrito sobre um qualquer assunto. Sim, é normal, e até simpático, que os leitores do meu blog, ou do colectivo no  qual participo, proponham temas. E/ou perguntem a opinião do bloguista sobre algum assunto. Mas é anormal, e até grotesco, que reclamem que não se escreva sobre determinada matéria. E isso por defeito, entenda-se: por característica essencial… pois trata-se de um blog.

Pior ainda, mais grotesco, quando se invectiva um silêncio quando  este inexiste. Nos meus últimos postais – e não só nos meus – há comentários (normalmente anónimos) reclamando, como se defeito digno de opróbrio, o meu silêncio sobre a questão de Israel e Gaza. E fazem-no com acinte. Tendo eu ontem publicado um postal comovido, dado o assassínio de alguém que conheci pessoalmente, amigo de amigos, meu editor durante anos num jornal em Moçambique, recebi comentários desse tipo – até mesmo num postal com esse conteúdo, caramba! Um energúmeno  anónimo atreve-se mesmo a dizer que “me fica mal” escrever sobre o assassínio de um conhecido, companheiro, dado que não falo sobre Gaza e suas cercanias. Outros comentadores habituais vão no mesmo rosário.

Ora, e mesmo para além de tudo o que já avancei, desde o vil ataque terrorista do partido fascista Hamas eu deixei aqui quatro postais sobre o assunto: recomendei um excelente e assisado documentário sobre a história da região, transmitido na SIC Notícias, o “A Origem de um Conflito“, relevante para evitar interpretações acaloradas sobre tudo aquilo; recomendei a leitura dos livros de Joe Sacco sobre a história e actualidade de Gaza, de indiscutível denúncia daquela situação (e lembrei que até escrevera um texto longo sobre essa abordagem de Sacco); referi a necessidade de tino na tomada de posições favoráveis à causa palestina; e explicitei o meu estupor diante da reacção militar israelita. Ainda assim, no país onde vivi 18 anos, espancam até à morte o meu antigo editor, isto enquanto a polícia abate jovens manifestantes na sequência de umas eleições reconhecidamente aldrabadas, e há aqui energúmenos, vis anónimos, que se atrevem a colocar em causa a decência e a legitimidade do que coloco. Devido a não escrever sobre o que eles querem, a não dizer o que eles querem…

Avanço então duas ideias: a primeira é sobre que penso sobre a actual situação em Israel, não para julgar a história mas para pensar presente e futuro. Está explícito nas declarações do vice-chanceler alemão Robert Habeck e do primeiro-ministro britânico Rishi Sunak (no seu segundo filme a partir dos 4 minutos…)

Assassinato de jornalista moçambicano


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Foi esta noite assassinado na sua casa, sita na Catembe (a “Outra Banda” de Maputo), o jornalista moçambicano João Chamusse, durante muitos anos editor do jornal “Canal de Moçambique” – jornal no qual escrevi durante anos, e que há três anos viu as suas instalações destruídas por uma atentado bombista  – e agora editor do “Ponto por Ponto“. Também comentador televisivo, Chamusse foi uma voz muito crítica do status quo político daquele país. Junta-se agora a um rol de corajosas figuras que, expressando opiniões livres e desassombradas e actividades políticas avessas ao poder vigente, foram alvo de atentados de violência extrema. Como o exemplificam os assassinatos do autarca nampulense Mahumudo Amurane, do académico constitucionalista Gilles Cistac, ou do activista Anastácio Matavele, bem como o frustrado assassinato do jornalista Ericino Salema, ou do violento atentado ao académico Jaime José Macuane – o qual terá sido informado pelos esbirros de que esses tinham ordens para “não o matar”, sendo “apenas” baleado nas pernas…. Entre outros, refiro apenas os que conheci pessoalmente, à excepção do presidente Amurane.

Entretanto, há dias houve algumas eleições locais em Moçambique – em municípios cujos recursos aos resultados anunciados nas eleições nacionais em Outubro passado foram considerados procedentes, e sobre as quais aqui falei (123). Agora, em alguns sítios a polícia carregou sobre votantes e sobre festejos de vitória da oposição. Houve mortos. Recebi algumas imagens violentas via o agora omnipresente Whatsapp. Num curto filme um jovem assassinado pela polícia no Gurué, jazendo sobre um charco do sangue próprio.

Desde há muito que me interrogo sobre as causas do silêncio português sobre a deriva autoritária (que considero suicidária) do poder moçambicano. Silêncio dos órgãos de soberania, da imprensa, das instâncias da sociedade civil. E até mesmo da mole de “cidadãos digitais”, sempre lestos a “indignaram-se” com fenómenos alhures, sobre tantos dos quais pouca ou nenhuma informação contextualizada os tais “teclistas activistas” têm. Para exemplo, fi-lo face ao silêncio parlamentar português aquando do assassinato do presidente de Nampula, dado ter então a nossa Assembleia expressado pesar pelo assassinato de uma secundária autarca brasileira. Ou diante do espavento da imprensa portuguesa diante de um assassinato policial nos EUA em contraposição com um assassinato com as mesmas características (raciais) acontecidas em Moçambique. E nos últimos dias aqui deixei implícito que o regime político português considera ser possível opinar sobre o desgraçado estado da pequena Guiné-Bissau mas se encolhe diante do colosso (com pés de matope) Moçambique.

E confesso que não percebo a razão, se a esta se entender como algo lógico, deste silêncio diante do acumular de malfeitorias evidentemente promovidas pela deriva do poder de Maputo. E como português – nunca neo-colono – muito lamento isto. Nem tanto o silêncio dos políticos, sempre protegidos pelo mito do “interesse nacional”, da “realpolitik”. Mas até mais os dos jornalistas, sempre tão lestos em proposições sobre o “dever-ser” mundial. E, ainda mais, o dos “cidadãos digitais”.

E que este vil assassinato de Chamusse, um pérfido atentado à liberdade de imprensa, possa comover o tal sentido de “cidadania global”. Envergonhando os silenciosos.

Guiné-Bissau


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(Bolama)

Há semanas deixei uns textos sobre a situação pós-eleitoral em Moçambique (1, 2, 3). Neles explicitei a minha preocupação com a deriva política no país – a qual não era assim tão descabida, dados os passos subsequentes e também declarações de várias personalidades relevantes do sistema político nacional. E lamentei a inexistência de um sinal parlamentar português, que expressasse uma solidária preocupação com a democratização desenvolvimentista moçambicana. Em 20 anos de bloguismo esses textos foram os que me causaram mais interacções directas, o que me foi muito simpático: tanto de Moçambique como de Portugal recebi dezenas de mensagens e telefonemas de amigos/conhecidos saudando o conteúdo (e o tom) do que eu afirmara. Sim, presunção e água benta, cada um toma a que quer… mas estou a ser radicalmente franco!

Mas também tive alguns enxovalhos, um pequeno punhado de invectivas. Pessoas conhecidas a chamarem “imbecis” aos tipos da IL (que haviam proposto na nossa AR um voto sobre a matéria), e nisso a apodarem-me indirectamente de “imbecil”, outros a considerarem de “absurdas” as minhas palavras, tal e qual estivesse eu a propôr ingerências, assim tipo a que os “paraquedistas portugueses” se comportassem quais os franceses do velho Bob Denard nas incursões “africanistas” de XX. Confesso o meu espanto incomodado desses dias diante de tais reacções… Eu sei que as pessoas interpretam como querem, normalmente através de furiosas percepções a priori mas, caramba, há limites para o disparate.

Passaram dois meses. Entretanto, noutro país da CPLP, a Guiné-Bissau, houve um golpe presidencial. Algumas pessoas logo me desafiaram, em veementes “escreve!”. Mas sei pouco sobre a Guiné-Bissau – de facto, quase nada para além do vínculo toponímico com a cidade de Bolama. Nem sou um “africanista” e muito menos um “tudólogo”. Escrevo irresponsavelmente sobre as coisas do meu quotidiano. Mas sobre o quotidiano alheio exige-se a sageza do conhecimento prévio… Mas fui-me informar. E entre o que leio surge esta notícia,

Nela consta que – e estando algo suspensos o nosso governo e o nosso parlamento -, há uma iniciativa explícita do nosso partido governamental para, no âmbito parlamentar da CPLP, defender a legalidade democrática constitucional na Guiné-Bissau. Ora era de algo deste teor que eu falara naqueles meus textos, de um sinal político próprio expressando a preocupação com um crescendo de défice democrático (desenvolvimentista). Sendo nisso também alento moral para aqueles que a isso se opõem, democrática e pacificamente.

Presumo que aqueles que me vieram invectivar clamem agora que os “tipos do PS” que propõem isto são uns “imbecis” e que os seus apoiantes também o serão. E que são também, os tais “do PS”, uns neo-colonos…

(É certo que o mandatado pelo PS para capitanear esta iniciativa nas instâncias da CPLP é o mais infrequentável dos políticos portugueses – Porfírio Silva, o professor universitário de Filosofia (!?) que como deputado socialista afirmava que Passos Coelho usava a doença mortal da sua mulher para fins eleitoralistas. Mas “não seja por isso”, é consabido que o PS só tem este tipo de gente, já lá não há melhor, aproveite-se as duas vezes por dia que aquele velho e degenerado relógio está certo…)

Futebol


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O ano passado adormeci três ou quatro vezes enquanto via jogos do Sporting. Afligi-me com isso, atribuindo o acontecido à crescente vetustez, já ascendida aos então 58 anos, isto da sonolência insone, do desmemoriar, da tensão alta, mais o pingo no nariz, a mão trémula, a corcunda descendente, as cáries viçosas, o lacrimejar involuntário, as unhacas recurvadas, a plural variz túrgida, a azia constante – a gástrica e a existencial -, o pesadelo com a “Mitra”, o “ai se fosse no meu tempo” quando passam as beldades cinquentonas, as notícias dos (sobrinhos-)netos já adultos, o timorato ao volante, o “Sô Doutor” médico de família num “vá lá à Champalimaud inspeccionar os pulmões”, e mais a vasculha da próstata e de restantes vísceras, o já entrever ao longe, desbotado o olho de águia (salvo seja…) que sempre foi o meu e, talvez mais do que tudo, o omnipresente “já não vale a pena”…, seja lá diante do que for.

 

Hoje percebi o quanto estava errado. Desperto estava, e bem, a ver um jogo do Sporting, deslocado à sempre Cidade-Berço, reduto dos vimaranenses. Saiu na rifa um penalti fajuto contra “nós”, apesar de toda a parafernália videográfica… Passei logo ao Aston Villa-Arsenal, num “que se lixe tudo isto”. O Villa veio a ganhar, para meu gáudio, (quase)sempre a defender o “abaixo de cão”. Depois jantei com amigos uns bons bifes à moda açoriana, feitos por quem sabe. Bebeu-se um belo tinto “Grous”. Entretanto o telefone disse-me que o Sporting perdeu, coitados. Os velhos que se preocupem com isso.

 

Pois nós, os novos, somos audiência de espectáculos a sério.

Vinte anos a blogar


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No dia exacto não me lembrei disto, assim falhando a efeméride pessoal, mas notei-o agora. A 3 de Dezembro fez exactamente 20 anos que comecei a blogar, lá de Moçambique integrando-me naquela vaga blogal que cá aconteceu em 2003. Primeiro no ma-schamba, que alguns anos depois se tornou colectivo. Depois, já em Portugal, no Courelas (o mesmo que ma-schamba…). Depois, sozinho, no O Flávio e agora no Nenhures. Entretanto também estive no colectivo sportinguista És a Nossa Fé. E, claro, estou aqui no Delito de Opinião.

Ou seja, isto de blogar tornou-se-me uma mania. 20 anos de verborreia – durante longos períodos até diária – deu para escrever muita tralha, inútil, às vezes até injusta, imensas vezes injustificada. Mas outras vezes acertei, releio e canto “rio-me de me ver tão bela nesta espelho”. Por isso recolhi textos que estão esquecidos nos blogs – os quais não apago, até porque o tema dos arquivos dos blogs sempre me foi importante, ainda que me pareça ter isso sido descurado pelas instâncias arquivísticas nacionais. E dessa amálgama fiz este ano dois volumes que gostaria de tornar livros (vanitas vanitatum et omnia vanitas), um de crónicas de viagens e memórias, que seria (ou será, se vier a acontecer) um “Torna-Viagem”, um outro de resmungos que julgo terem sido certeiros, a ser um “O Podcast Mudo”. A ver se arranjarei editora para tais coisas, desde que não as pague eu, pois não tenho paciência para esse negócio – hoje em dia viçoso ao que parece – de cobrar ao autor para lhe publicar o futuro mono e depois ainda o obrigar a impingir os exemplares aos desgraçados amigos, pobre gente que se deixa ir nisso.

Mas para relembrar o meu início blogal aqui repito o meu primeiro postal, este “Lavoura“. Faço-o, por saudosismo. Mas também para convidar à leitura do grande Ruy Duarte de Carvalho, magnífico escritor, antropólogo e também cineasta.

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“...a lances de catana e de machado desfaz a rama e a trama dos espaços virgens. Prepara um espaço para a nova lavra, esgotado o humus de uma lavra antiga. Alarga a circunferência de chão raso. Devolve o sol à terra e dá-lhe a mansa forma de um corpo fecundável e passivo. O tronco nu progride mata a dentro. Governa os braços firmes e velozes, confere exactidão ao gesto azado. E os fustes, gemem, fendidos pelo golpe. Martela, vigoroso, a rijeza maior de alguns dos paus, depois transforma em lenha as copas derrubadas...”

(Ruy Duarte de Carvalho, Como se o Mundo Não Tivesse Leste, Cotovia, p. 117 )

Ucrânia


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1. Em primeira análise – e talvez a fundamental – esta fotografia nada tem de excêntrico. É normal que os eleitos se congreguem nos momentos de ritualização da república, neste caso as celebrações de 25 de Abril (de 2018?) organizadas pela Câmara Municipal de Loures. E também é normal e até desejável que esses eleitos, para além das diferenças ideológicas e partidárias, às vezes emitidas de formas tonitruantes, tenham entre si relações pessoais curiais, que lhes permitam convívios benfazejos. Num segundo registo analítico, mais centrado na fotografia, também é normal e salutar que eleitos de diferentes forças políticas celebrem a data fundacional do regime democrático nacional. Ou seja, o que a este caracteriza é a admissão das diferentes ideologias no espectro democrático (multipartidário), e que nenhuma delas possa legitimamente reclamar uma primazia patrimonial sobre a “democracia”. E assim pode(re)mos criticar a democraticidade dos anseios de alguns mas, a priori, não os deve(re)mos retirar do âmbito democrático: sejam esses eleitos comunistas adeptos do modelo “brejnevista”, eleitos “sociais-democratas” que, de facto, se revêm numa direita profunda soberanista. Ou quaisquer outros…

Ainda assim, apesar desses princípios, esta fotografia foi sendo (e vai sendo) gozada, num sarcástico “afinal?!”. O que, num terceiro registo de análise, mais “hermenêutico” se se quiser, deixa perceber o quão encenado é o teatro político-partidário português e as retóricas da sua dramaturgia.

Mas há um outro ponto, num substrato mais enterrado. É o de numa mera fotografia se encontrar, com um laivo de sarcasmo intérprete, a demonstração de alguma até então inesperada… similitude, por mais paradoxal que possa parecer.

2. A invasão russa da Ucrânia (Fevereiro de 2022) convocou uma atenção geral e uma comoção muito abrangente. Neste blog também, como o mostram os arquivos dos meses subsequentes, onde está patente uma enxurrada de postais nossos sobre o assunto. Será de recordar que a “operação militar russa” foi pensada como uma blitzkrieg que fosse promotora de uma verdadeira anchluss, esta dita como legítima associação entre unidades histórico-culturais (que no passado eram também ditas raciais) conjuntas. Para tal seriam necessários apenas meia dúzia de dias, para isso contando com a adesão dos “ucranianos” ao movimento russófilo, sublevando-se até contra os seus dirigentes “nazis”, “corruptos”, também “drogados” e até contando com “judeus”, os quais haviam chegado ao poder através de um “golpe de Estado” “antidemocrático”. Estes eram os itens predominantes nos discursos explicativos de Vladimir Putin e dos seus  mais próximos – os quais, note-se, não têm sido dissecados pelos críticos da malevolência e obscurantismo da “propaganda” “americana” e/ou “ocidental”.

Como é sabido, a afinal denodada resistência ucraniana (desde logo fazendo cair as aspas ao termo) e o forte apoio militar, mas também económico e diplomático, recebido do (sempre pérfido) “ocidente”, impediu a rápida rendição do país. Assim se tornou aquela guerra uma desgraçada rotina, E – aqui entre nós – como é normal foi diminuindo a nossa verve (amadora e gratuita), decerto que também a nossa atenção (dispersável, como lhe é natureza). Vem então correndo aquela guerra situada num dos países, portanto fundamentalmente apenas nesse devastadora. E que opõe dois contendores com recursos bastante assimétricos, desde logo os demográficos…

Não sendo eu do ofício militar deixei-me presumir o rumo daquele conflito: “1) rendição imediata, salvaguardando vidas humanas e, secundariamente, bens materiais; 2) uma breve resistência, durante a qual se procura organizar uma hipotética futura guerrilha; 3) resistência extremada, até sacrificial, assente na fanatização nacionalista e na demonização do invasor (…); 4) mobilização geral dos recursos humanos com exaltação do patriotismo, possibilitando uma resistência algo prolongada, solicitando apoios externos, políticos-diplomáticos e mesmo militares. Tudo para procurar uma negociação final em termos o menos assimétricos possíveis, salvaguardando o que for possível para os desígnios nacionais.” (7.3.2022).

Ou seja, pode ser que, com o passar do tempo, alguns mais incautos tenham pensado que os efeitos da disparatada retórica propagandística de Moscovo e os da desconchavada “operação militar especial” em curso fizessem ruir aquele poder. Mas era muito pouco provável – decerto que corroeram alguns dos alicerces mas talvez até tenham reforçado outros. E esses efeitos serão decerto notórios daqui a alguns anos, na configuração pós-Putin – ou seja, sobre o vigente poder russo será mais de esperar um “efeito afegão” do que um “terramoto I Guerra Mundial”, passe a analogia de bolso.

Mas mais absurdo ainda seria pensar que a Ucrânia viria a “ganhar a guerra”, sob o ponto de vista militar – e note-se que o grande apoio militar recebido foi sob condição de que o país se restringisse a uma guerra defensiva, sita apenas no seu território. Sim, terá havido a esperança (e talvez ainda a haja) de que a Ucrânia pudesse (possa) ganhar a guerra, trancando a Rússia numa guerra de trincheiras, que fosse (seja) para Moscovo insuportável de manter sob o ponto de vista político-económico e até moral, conduzindo assim a negociações menos desequilibradas. Mas com toda a certeza que não um “ganhar a guerra” com Zelensky a desfilar na Praça Vermelha encabeçando colunas de tanques Leopard, entre os quais os nossos poucos que funcionam. Mas é evidente que o discurso político e propagandístico, o mobilizador ucraniano e o solidário internacional, e por razões da sua produtividade, não se podia nem pode restringir a isso. Dizer a um povo mártir “aguentai mais uns mesitos”, “morrei em barda por mais uns kms para negociarmos um bocadinho melhor”? Enfim, os analistas críticos do “obscurantismo” “ocidental” e da “demagogia” ucraniana neste âmbito surgem verdadeiros toleirões.

3. Entre nós, em Portugal e no tal “ocidente”, desde o início da “situação” ucraniana que foram grassando as vozes apoiantes das reclamações russas. Em Portugal com algum sucesso: lembro que a então deputada em part-time Mariana Mortágua defendeu a posição de Putin reclamando a justeza da ideologia nazi, clamando pelo direito ao “espaço vital” da Rússia (1.3.2022). E, apesar da tal subscrição do ethos imperialista sob postura nazi, Mortágua não só não foi afastada da direcção do Bloco de Esquerda mas, pelo contrário, foi eleita sua líder. Dirigentes do Partido Comunista desdobraram-se em ditirambos contra a Ucrânia, tanto institucionalmente como em registo pessoal – no qual pontificou António Filipe, presente na fotografia que encima o postal. Chegando ao ponto de louvar em comunicado oficial a política estalinista relativa às “minorias” nacionais e/ou étnicas (1.3.2022), sem que nenhum dos vozeadores das causas identitaristas que tanto grassam na nossa imprensa e em alguns nichos do parlamento esboçasse a menor crítica. No mesmo eixo ideológico, um conjunto de atrevidas figuras públicas, reclamando-se como “intelectuais” e “artistas”, opuseram-se ao apoio à Ucrânia (nisso chorando-se como “perseguidos e criminalizados”) enquanto defendiam o primado da “Acta Final da Conferência de Helsínquia” (11.4.2022) – exactamente essa que consagra o direito dos países se associarem em organizações internacionais multilaterais, também de índole militar. Enquanto esses mesmos, e tantos outros do mesmo eixo de entendimento, radicavam a agressão russa na inadmissível ameaça sentida na Rússia pela expansão da NATO ao leste europeu… E nenhum deles foi retoricamente pontapeado por tamanho dislate.

Entretanto Europa afora vêm-se sedimentando ou reforçando movimentos políticos, ditos de “direita profunda” ou mesmo de “extrema-direita”, alguns estabelecidos nos governos nacionais – como foi anunciada, de forma talvez exagerada, a nova governação italiana, se manteve a húngara, se renovou a polaca e agora a holandesa. Para além das crescentes oposições desse teor em alguns países – o anterior e apatetado Brexit, bem como as actuais flutuações partidárias na França e na Alemanha disso são exemplos. Movimentos que surgem assentes em perspectivas soberanistas, avessas ao incremento da interacção europeia, sob a velha retórica da “Europa das Nações”. Mas que, talvez surpreendentemente, neste caso surgem avessos à soberania, apenas à ucraniana entenda-se, e veementes defensores do “multiculculturalismo” “federativo” russo. Talvez isto seja parodoxal mas talvez seja apenas uma mal esclarecida nebulosa ideologia. Ou devido a meras razões tácticas. E nem será necessário alongar-me sobre o peculiar espectro do ressurgir de Donald Trump, e da russofilia neo-imperialista do presidente Lula da Silva, como exemplos dessa deriva anti-ucraniana no extremo “ocidente”.

Ou seja, se a Ucrânia enfrenta a exaustão após quase dois anos de desigual guerra, nós outros, cá longe, te(re)mos de enfrentar a vil retórica e a festiva felicidade dos seus oponentes “ocidentais”. É a perspectiva do loquaz crescimento da coalizão real entre os decadentes movimentos comunistas e os ascendentes movimentos fascistas (no tal termo abrangente do “ur”-fascismo, que Eco celebrizou), neste embate militar buscando adubo para as suas ideologias. São estes aqueles que querem tornar sua justificação histórica a força dos sentimentos nacionais, a estes atribuindo virtude e essencialidade. Ou seja, indiscutibilidade.

Mas desde que, atente-se nisso pois é o fundamental, essa configuração soberanista, “nacionalista”, sirva para agredir a democracia liberal, a esta fazer retroceder. Daí o carácter simbólico da fotografia acima, com aquele ramalhete de personagens pitorescas. Tão típicas desses anseios, apesar das suas diferenças.

4. Em 1990, ainda fumegantes os escombros do mundo comunista europeu, Ralf Dahrendorf escreveu – para “um cavalheiro em Varsóvia” – as suas “Reflexões Sobre a Revolução na Europa”. Mais ou menos começa assim: “… a casa europeia que o senhor e eu queremos transformar no nosso lar comum termina onde começa a União Soviética, ou o que quer que venha a suceder-lhe. Esta é uma declaração importante, cuja justificação se impõe.

Talvez seja importante regressar ao velho texto de Dahrendorf – e aos avisos que ali deixou sobre a volúpia de se reforçarem “modelos” sociais na Europa. Mas também para com aquele velho e sábio conservador liberal melhor se perceber que este aborto, este ser siamês fascista-comunista – por mais ademanes historiográficos e meneios culturais que patenteie -, apenas quer a destruição da democracia. Europeia. Nisso a redução do seu âmbito. E da sua intensidade. Pois apenas sabe querer isso. E nesse rumo é produtivo, é porreiro, que a Ucrânia se foda. É só isso.

Israel/Palestina? A reler Sacco


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Não é postal político, nem quero deixar transparecer qualquer opinião sobre a desgraçada situação em Israel – e já aqui deixei nota sobre o meu estupor diante daquela realidade. Mas a sucessão de notícias levaram-me às estantes, no regresso aos livros do grande Joe Sacco – que também escreveu/desenhou sobre a Bósnia onde trabalhei. Sacco é um autor muito empenhado, defensor da causa palestiniana – o que agradará a uns e desagradará a outros. Pouco (me) importa, os seus livros são preciosos. Sem que com isso me sejam cartilhas.

Comecei pelo “Palestina na Faixa de Gaza” (cá publicado em 2003, com prefácio de Edward Said). Depois passei ao “Palestina, Uma Nação Ocupada” (cá publicado em 2004, com prefácio de Mário Soares). E ainda ando dentro do calhamaço em francês (“Gaza 1956”).

E entretanto lembrei-me de incómodo que tenho com o olhar de Joe Sacco. Pois, mesmo muito apreciando-o. Ou melhor, exactamente por muito o apreciar. Pois é esse um dos maiores sinais de apreço, o incómodo recebido na leitura… Há quase uma década deixei um texto, feito numa rápida abordagem, sobre as relações que encontrava entre a obra de Sacco, a recepção (entusiástica) que ele colhe e as práticas actuais da antropologia. Chamei-lhe “Joe Sacco: o engajamento denunciatório“. Deixo a ligação para quem tenha paciência…

9 Anos de José Sócrates


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Passam hoje exactamente nove anos sobre o dia em que “O Senhor Engenheiro José Sócrates” (Eduardo Lourenço dixit) foi detido, vítima de um ataque “justicialista” do Ministério Público – a crer-se na interpretação do seu correligionário Ferro Rodrigues, ex-presidente da Assembleia de República. Felizmente que a intentona do aparelho judicial não foi bem conseguida, pois todos estes anos decorridos ainda não houve julgamento.

De qualquer forma urge pôr o tal Ministério Público “na ordem”, como defende o actual presidente da Assembleia da República, Santos Silva, homónimo do amigo do actual vice-presidente do Parlamento Europeu, um tal de Silva Pereira. O tipo que na lista de candidatos estava atrás (apesar de, pelos vistos, ser deputado mais importante) da mulher do Vital Moreira, esse antigo cabeça-de-lista de Sócrates. Esse que também quer pôr o Ministério Público bem ordenado…

Mas, e repito-me, temos de nos congratular. Pois, pelo menos, o “Senhor Engenheiro José Sócrates” ainda não foi julgado pelos “justicialistas”.

A comemoração do 25 de Abril em Novembro e o ideário da “Frente Popular”


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(Comício na Fonte Luminosa, Lisboa, Julho de 1975)

Muito acertadamente o presidente da Câmara de Lisboa anunciou a comemoração do 25 de Novembro de 1975, data crucial para a instauração do vigente regime de democracia liberal. Detendo uma presidência minoritária da assembleia municipal, Carlos Moedas viu a sua oposição autárquica votar a condenação dessa iniciativa. Agora, nas vésperas da sua realização, vê a imprensa institucional resumir essa celebração a um acto da “direita” (ver Expresso, em artigo de hoje assinado por João Diogo Correia). 

Esta é uma situação interessante. De facto, é uma caso paradigmático de como a história serve para (re)construir o presente, e a este manuseá-lo, quantas vezes manipulá-lo. Pois para quem tenha um mínimo de noção do que foi o processo subsequente ao 25 de Abril (então dito PREC) será cristalina a memória de que houve dois grandes conflitos, então dirimidos e depois simbolizados por iniciativas militares ocorridas. Cronologicamente primeiro foi o que opôs as forças mais atreitas a uma relativização da democratização institucional e social e à negação de uma urgência da descolonização – ditas de “direita” e algumas das quais mais atreitas à recuperação do “anterior regime” -, a uma amálgama muito abrangente de correntes ideológicas à sua “esquerda”, “centro” incluído: algo simbolizável pela evocação do 28 de Setembro de 1974 e 11 de Março de 1975. É evidente que o teor deste conflito, e o conteúdo das oposições eclodidas nessas iniciativas militares, é homólogo ao da revolução de 25 de Abril de 1974 e assim por este simbolizado, neste comemorado.

O segundo grande conflito, cuja veemência eclodiu cronologicamente depois, foi o que opôs feixes de correntes políticas que subscreviam a instauração do actual regime de democracia liberal – que abarcavam, grosso modo, da “democracia-cristã” à “social-democracia” dita “socialismo democrático” – a uma miríade de forças políticas de extracção marxista revolucionária, incluindo desde perspectivas então ditas “terceiro-mundistas” (o que hoje se chamaria “alterglobalistas”) até à dita “extrema-esquerda”, polvilhada de uma pluralidade de versões do ideário comunista. 

Este conflito, que permitiu a instauração do nosso regime actual, teve momentos civis relevantes – como a luta contra a unicidade sindical reclamada pelo PCP, ou o enorme e histórico comício da Fonte Luminosa convocado pelo PS (que invoco na fotografia acima). E, grosso modo, terminou na movimentação militar de 25 de Novembro de 1975, com a derrota das forças militares radicais adeptas do comunismo, então dito de “extrema-esquerda”, e com o anúncio do PCP da sua cedência à instauração de uma democracia liberal parlamentar – algo  que poucos meses havia negado. Ou seja, o “25 de Novembro” é um marco fundamental na instauração da nossa democracia mas remete para um conflito que não era presente, e como tal não é hoje simbolizável, no “25 de Abril”. Grosso modo, representou a vitória daqueles que reclamavam “A Europa Connosco”, como logo depois bem clamou o PS de Mário Soares.

Acontece que a liturgia – oficial e a dos opinadores predominantes no regime – tem escondido estas diferenças. O constante repúdio  pela celebração do “25 de Novembro” quer instaurar, através da manuseamento do ritual da república, uma versão ligeiramente diferente da História nacional. Mas muito  mais do que isso, através dessa ritualização da república, procura manipular o Presente nacional. E vem conseguindo tal feito… Ou seja, quer obliterar o dado crucial da instauração democrática, esse de que oposição fundamental foi a existente entre a esmagadora maioria da população e dos partidos que nas suas diferenças se filia(ra)m na tal “Europa Connosco”, e aquelas forças muito  minoritárias que subscreviam os ideários ditatoriais e totalitários do fascismo e/ou do corporativismo e o das plurais formas de comunismo.

Neste âmbito a refutação da relevância simbólica do “25 de Novembro” quer fazer esquecer que a linha de fractura fundamental daquela época, e nos tempos subsequentes, foi a entre forças democráticas (do PS para a sua direita) e o radicalismo ditatorial dos marxismos revolucionários. Querendo instaurar uma mitografia, mais adequada ao mero jogo político parlamentar actual, essa que  propaga a ideia de que a fractura ideológica e social estruturante é a que apartou e aparta o PS e a sua esquerda do PSD e a sua direita. Mitografia reproduzida ritualmente todos os anos na festividade “25 de Abril” que decorre sob o velho ideário “Frente Popular”, convocado para o ritual desfile na “Avenida da Liberdade”. Congregando os efectivos e militantes adversários da “democracia” com efectivos e militantes adeptos da “democracia”. Apenas para, com o sagrado da “festa”, assinalar que os “outros” – os quais foram e são, neste continuado processo, os efectivos democratizadores – é que são antidemocratas. 

50 anos depois do 25 de Abril não vem “grande mal ao mundo” (ao  país) com este aldrabismo ritual. Mas serve para as campanhas eleitorais – e para uma ou outra ocasional geringonça, nacional ou autárquica. Mas é evidente que é preciso ser muito atrevido para contestar a relevância democratizadora do “25 de Novembro”… E como tal sempre urge reafirmar 25 de Novembro Sempre!

Há uns meses fui convidado para uma conversa sobre o “25 de Abril”. Elaborei um pouco sobre o que aqui afirmo, muito superficialmente, até porque no estava no estrangeiro – diante de gente que conhecerá bem menos do nosso país. E também porque num contexto daqueles – celebração no estrangeiro – não é curial polemizar. Fiz um guião para a minha comunicação, à qual chamei “Portugal e o 25 de Abril: a revolução dos cravos, 49 anos depois“. Aqui fica a ligação, para quem tiver curiosidade e paciência.

A queda de Costa no Whatsapp


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A inopinada queda de António Costa provocou um burburinho sarcástico via Whatsapp. O humor por vezes é cruel – pelo menos o melhor é-o… Deixo aqui uma pequena série do que recebi, fica para memória, qual arquivo… E sim, censurei algumas piadolas,  aquelas que aludiam a algo inadmissível, o pior de toda esta situação: elementos do sistema judicial português entraram em casa de um cidadão para efectuar uma busca sobre um assunto para a qual estavam mandatados. E depois vieram para a imprensa comentar um item legal (e que não o fosse…) que haviam encontrado nessa casa, o qual nada tem a ver com o caso que, “alegadamente” (uso o termo da moda de modo propositado) investigam. Prefiro  um chefe de gabinete de primeiro-ministro (aparentemente) pouco probo do que este tipo de agentes da “Justiça”. E não dá para “sacralizar”, defender esta gente, lá porque os agentes se dizem na senda dos “poderosos” ou dos “socialistas”. O que João Galamba fez como governante pode ser criticável ou mesmo criminalizável. O que fez a tralha humana que entrou em casa dele é inadmissível. E aposto que nem um desses (vários) sacripantas será despedido.

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Quanto às restantes “bocas”? É o humor, sempre necessário, cáustico quando é bom, morno quando não é. E cruel, por vezes. Sempre necessário.

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O nosso Presidente Rebelo de Sousa resumido


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Luís Menezes Leitão, no “O descrédito das instituições”, José Meireles Graça, no “Dissolução”, Paulo Sousa, no “O lamaçal” e Sérgio Almeida Correia, no “Em que condições chegaremos a Março“, já aqui abordaram a trapalhada constitucional em que assenta a decisão presidencial de suportar este governo demissionário até às calendas gregas. Leigo em questões jurídicas – matéria sobre a qual da minha frequência universitária apenas retive a difusa ideia de que “onde há dois advogados há três opiniões” – apenas faço fé na estupefacção dos co-bloguistas e de outros locutores sobre a matéria. Mas para além disso há o óbvio derrame político, sobre o qual todos opinamos, independentemente dos saberes próprios, lamentava-se um grego antigo. Derrame esse que começou, em público, no sábado com Costa a exceder-se, e em privado, nas manobras subsequentes ao começo da “operação influencer”, como já se nota no estado terminal do “governador” do Banco de Portugal.

As opções mostram quem é o Presidente. A sua agenda política, claro. Mas também perfil (contorno) e conteúdo. Rebelo de Sousa tem uma biografia política assente na divulgação da sua extraordinária inteligência e competência – em tempos transcrevi um elogio nesse âmbito que, ainda antes do 25 de Abril, Artur Portela (então Filho) lhe publicou, uma espécie de nascimento do mito. Quando saiu da actividade partidária e foi fazer campanha política para a televisão, como super-comentador, disseminou essa imagem de si mesmo, o do sábio inteligentíssimo e cultíssimo. E fez-se eleger presidente numa candidatura individual (“supra-partidária”), exactamente assente nos seus méritos intelectuais.

Eu gostaria de associar toda esta trapalhada constitucional e os custos políticos que dela emanam – entroncados na decisão presidencial – com algo que escrevi em Março de 2022. Quando após a crise pandémica Portugal viveu meses sob uma governação limitada, devido aos incríveis problemas havidos na contabilização dos votos dos emigrantes:

(Os futuros historiadores) constatarão que Portugal enfrentou este final da crise pandémica mundial e o ressurgimento da guerra na Europa numa peculiar – e talvez até absurda, dado o contexto – governação. Pois o actual presidente da República decidiu, motu proprio, dissolver um parlamento funcional e promover eleições legislativas. E que estas, apesar de decorrerem após meio século de democracia parlamentar, ocorreram sob uma incúria legislativa e executiva tal que obrigou o Tribunal Constitucional – apesar do próprio Presidente, já em funções há 6 anos, ser um renomado constitucionalista – a prolongar a sua realização. 

Devido a este abstruso processo, Portugal enfrenta o final da crise Covid-19, o impacto do recrudescer do choque energético e a inesperada guerra na Europa, com um governo de gestão em funções durante 5 meses. Ao qual se seguirá, como a imprensa anuncia, um governo com várias alterações no seu organograma, implicando reformulações legislativas e reconfigurações na administração – sempre indutoras de delongas nos serviços. Se tudo isto é insignificante, então algo tem de ser constatado sobre a real importância do exercício governativo. Mas se não é insignificante – como julgo não o ser – então algo terá que constatado, e decerto que o será pelos futuros historiadores, sobre a competência do garante da ordem política, o actual presidente da República. O qual não só promoveu esta situação como permitiu que decorresse desta forma, decerto que por superficial desatenção e deficiente análise. E a futura avaliação deste mandato terá que ser imensamente negativa, até surpreendida num “como foi aquilo possível?”. “

Espero que, pelo menos com o somatório destas duas longas situações de governabilidade mitigada causadas por Rebelo de Sousa, no final do seu mandato nos possamos libertar do mito criado da sua “inteligência”. E se possa constatar a profunda incompetência deste presidência. Assim dele guardando a memória necessária, a da desadequação deste tipo de indivíduos políticos (perfis e conteúdos) para o exercício de altas funções públicas.

“O modo português de ser socialista”


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Nos governos de Sócrates houve uma constante defesa daquele líder, independentemente do que era tão óbvio. Nisso se afadigaram militantes do PS, e basta recordar as maiorias “albanesas” que Sócrates obtinha nos congressos do partido. E também os simpatizantes foram “activistas” produtores da nuvem de fumo que pretendia esconder a malandragem governativa. E não seria necessário recordar esse período não fosse ter vária dessa gente transitado para os governos de Costa, como Fernando Medina ou Augusto Santos Silva – esse que agora vai ao Conselho de Estado afirmar que é necessário “pôr em ordem o Ministério Público”, e que foi o único governante socialista que gozou a população por causa do escândalo do socratismo, ao dizer-se “parolo” por não ter percebido o detalhe do seu homónimo e alegado “financiador” do neto do volframista, nisso tanto demonstrando o seu desplante avesso à democratização do país. Ou recompensados com tenças em Estrasburgo/Bruxelas, como o braço-direito Silva Pereira, ou Marques e Leitão Marques. E também muitos desses militantes e ou simpatizantes, então, pois mais jovens, apenas frenéticos publicistas do socratismo, ascenderam ao governo, como o célebre Galamba ou o agora mui mudo Adão e Silva.

Tendo regressado ao poder, após o hiato da gestão da quase catastrófica crise financeira global, o PS de Costa tentou barrar o processo ao socratismo. E o afastamento de Marques Vidal da PGR foi o caso mais sonante, no fundo uma manobra desse desejado “pôr em ordem o Ministério Público”, para além de todas as manobras de controlo da comunicação social – e será de lembrar que chegaram ao ponto de nomear como responsável da informação do serviço público uma prima de Costa, que se viu obrigada a demitir-se tais práticas teve nesse posto. Depois, tão insuportável era o conúbio com a imagem de Sócrates que o PS decidiu dele se apartar, deitar borda fora aquele lastro para resistir à tormenta: o ardil foi simples, em dias consecutivos num final de semana, o presidente do partido Carlos  César, a célebre Câncio, renomada publicista socratista, e Galamba, então mero deputado e criatura de Sócrates, vieram demarcar-se publicamente do ex-primeiro-ministro.

Assim enviado o fedorento cadáver político às revoltas águas da Ericeira o PS de Costa seguiu livre no poder. Entre inúmeros – e tantos deles patéticos – “casos e casinhos” a pax costista estabeleceu-se. Primeiro com o apoio dos partidos comunistas, seduzidos por algumas prebendas redistribrutivas para as suas bases e clientelas. E depois sozinhos, por quatro anos, que nos habituássemos nós. Grosso modo, as pessoas eram as mesmas, as práticas são as mesmas, as diferenças virão apenas dos trejeitos individuais.

Na passada semana “o modo português de ser socialista”, para glosar Gilberto Freyre, sofreu um KO técnico. Ontem, António Costa reergueu-se e veio ao ringue apresentar a “narrativa” que o PS procurará apresentar aos seus fiéis e restantes adeptos, temerosos do que a malvada “direita” lhes fará. No fundo Costa apresentou-se como epígono de Isaltino de Morais, num trinado um pouco diferente: “temos dinheiro nos gabinetes mas fazemos“.

Caberá aos jornalistas, a politólogos ou mesmo a historiadores da contemporaneidade o elencar com detalhe a miríade de “casos e casinhos”, e suas articulações, destes oito anos. Para a sua compreensão será muito produtivo associá-los ao acontecido nos governos do anterior primeiro-ministro socialista. E, para uma visão mais “antropológica” – mais estrutural, por assim dizer – julgo que será relevante fazer recuar esta análise ao historial da administração socialista de Macau, molde que foi do modus faciendi das posteriores gerações de políticos daquele  partido. Cujos últimos restantes agora (definitivamente?) colapsam.

Trata-se de um partido de gentes que já há mais de vinte anos estavam incapazes de rebelarem contra os presidentes Soares abraçado ao fugitivo Craxi, ou Sampaio abraçado a Abílio Curto, sempre em nome de uma tal de “amizade”. Ou seja, o que hoje se passa não é um momento, é sim fruto de uma mundividência colectiva, predominante naquele partido. Sendo assim, o PS não se regenerará, sofre de necrose política. Estuporado diante da visão de Madrid é incapaz de sopesar, e nisso actuar sobre si mesmo, o que aconteceu aos seus congéneres de França, Grécia, Itália… Pois o problema não é “Costa”, é tudo aquilo. E, para mal dos nossos muitos pecados, diante de toda esta decadência temos o pior presidente da República do nosso regime, o mais incompetente pois o mais ininteligente, uma total inadequação sobre a qual me repito desde há muitos anos. É assim necessário sublinhar isto: estamos muito mal entregues. Pois assim o votámos.

Entre a incessante série de comentários recebidos sobre a actual situação escolho divulgar estes três. Porque dizem tudo o que é básico sobre a torpe “narrativa” que António Costa quer legar ao seu partido. 

 

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Assim não.


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1. Sabem os meus amigos e conhecidos que detesto este PS socratista, que emparedou o desenvolvimento da “Pátria Amada” – como bem aqui sumarizou o José Meireles Graça -, enredado numa teia eunuca de interesses particulares, que é bem mais pérfida do que pode parecer aos incautos. E, secundariamente, que verto fel a rodos diante dessa tropa de galambas que fizeram e fazem a opinião de tantos, a troco de algo, material ou afectivo pouco importa.

 

2. Ouvi ontem, por alto, das razões da queda do nosso (por mim) desamado governo. E sobre o qual nada custa muito desconfiar das suas más práticas – como bem notou o João  Sousa ao recordar o diagnóstico sobre esta elite socialista exarado pelo … anterior secretário-geral daquele partido. Consta que há investimentos de milhares de milhões de euros – desde há muito sob suspeita, como bem aqui ecoou o Paulo Sousa. E nesse âmbito consta que uma das empresas contratou um tipo para fazer lóbi, consta que algumas empresas pagaram uns almoços e jantares a um ministro (enfim, diga-se o que se disser, Galamba é ministro). E que alguém terá dito que o primeiro-ministro os ajudaria – já agora, cândido será pensar que em Portugal possa haver investimentos de milhares de milhões de euros sem apoios no governo…

 

Ou seja, cai um governo por acção da Justiça e o que esta informa aos estuporados cidadãos é mera lana caprina. E por mais que eu me desespere com o poder PS, mais a tralha adjacente dos seus apoiantes, os tais galambas, morgados fernandes (o da “Super-Marta”), vales de almeida, câncios e quejandos, por mais que tudo isso… só me resta mesmo um palavrão peludo (que me é vetado pela família). Pois assim não. “Pagaram uns jantares ao galamba”?, disseram que “o primeiro-ministro ajudará”?

 

Não, assim não. Ou a Justiça nada dizia, e deixava os cidadãos na expectativa angustiada mas cumprindo um hermetismo judicial considerado necessário. Ou então se dá um vislumbre do que persegue não pode ser isto, este nada. Pois se assim, se é esta tralhazita, antes o Costa. O Azeredo Soares, pobre homem. O Santos Silva, o Augusto mas também o amigo. A Câncio, no fundo. A tropa toda. Uma eleita, outra avençada, outra funcionária. Mas, apesar de tudo, legítima.

Delítio de Opinião


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(Foto de José Sena Goulão, Lusa)

Está tudo estupefacto pelo terramoto acontecido. Ainda a quente permito-me este “delítio de opinião”* diante da derrocada destes oito anos de Costa, e isto em pleno seu crescendo da arrogância “maioritária” – tão demonstrada há dias no Parlamento, naquela patuscada de Costa ao atirar Galamba para o fecho da discussão do Orçamento, óbvia afronta ao Presidente mas também a todos o que tanto criticaram não só a ascensão do publicista do socratismo como a sua manutenção e recente promoção.

Esbardalha-se Costa agora devido à teia tentacular (passe o absurdo zoomórfico) de interesses de um partido que governou o país durante 22 dos últimos 28 anos, deixando para outros – a tenebrosa “direita”, dizem-nos – a gestão das monumentais crises.

Costa, talentoso, apareceu hoje a demitir-se em pose de Estado, competente. Até à “direita” lhe gabam a “dignidade política e pessoal“. Assumiu que sai ciente de nada se arrepender e de nada ter incumprido, de “cabeça erguida” – e “mãos limpas” depreendeu. Apenas porque não pode haver suspeitas de comportamentos criminalizáveis de um primeiro-ministro. E nem se vitimizou, apenas se disponibilizou à “Justiça” e às “instituições democráticas”.

Melíflua “dignidade”. Pois nem uma palavra para o realmente relevante: teve um chefe de gabinete, e manteve-o até ao limite do possível, acusado de umas trapaças autárquicas. Substitui-o por um outro, homem de estrita confiança, agora detido. O seu grande amigo, instrumento para as negociações oficiosas, está detido. Isto é o seu pessoal mais próximo. Tem ministros arguidos – entre os quais o famigerado Galamba, alguém por quem Costa tanto finca-pé tem feito. Isto para além das inúmeras trapalhadas que se têm seguido nos seus governos, algumas das quais o pudor me impede de aludir neste momento de queda desta gente. 

Ou seja, a questão não é se Costa tem comportamentos criminosos, à imagem de um seu antecessor correligionário – e acredito que não os tenha.  O problema é estritamente político. Por um lado é individual, residindo nos critérios que este primeiro-ministro tem para escolher as suas pessoas de confiança na condução do país – que são, vê-se, paupérrimos. Tornando-o um incompetente. E, note-se, nisso indigno, pois irresponsável. Por um outro lado é colectivo – e por isso muito mais importante -, e radica no estado desde há muito degenerado do Partido Socialista, cujas elites são useiras e vezeiras em malfeitorias patrimonialistas, minando o desenvolvimento do país. E por isso durante os anos destes três últimos governos tudo fizeram para parecer que “o socratismo nunca existiu“. Mas não só existiu como lhes é o âmago.

Mas após a alegria da queda deste governo, e – sonho – desta malfadada geração “socialista”, logo se levanta a angustiada questão. Quem para lhes suceder? Pois urge mudar, desenvolver o país. E é óbvio que para isso nos partidos democráticos se impõem “chicotadas psicológicas”, passe o futebolês. E novos modelos tácticos. Que venham, e já. Sem atentar nos pesares de algumas vaidades e anseios pessoais.

* Agradeço a CFN, veterana leitora deste blog, que logo me enviou a sua exigência de que escrevesse eu ainda hoje um “delítio de opinião”…., assim tornando irresistível o apelo.

O apoio homossexual à Palestina


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Via Whatsapp um amigo envia-me este curto filme, que decerto por aí anda rodopiando. Não percebo o conteúdo, que sinto grotesco, e pergunto-lhe “O que é isto, pá?!”. Diz-me “é uma coisa chamada Fado Bicha a apoiar a Palestina!”. E vem implícito o remoque, que também está generalizado, aos homossexuais que se afadigam em declarações públicas deste teor – sabendo-se bem que face ao mundo islâmico, ainda que esse bastante diverso, a liberalidade legislativa e de costumes israelita é um oásis para as sexualidades, hetero e homo (e as outras que agora andam a ser indexadas com afã).

 

Sorrio. Já o disse, aos ademanes em palco sinto-os como grotescos. Sinto-os ainda mais assim – que quereis?, sou um homem nascido nos anos 1960s, justifico-me, glosando o abissal sábio de Coimbra -, do que quando diante daquelas dançarinas dos play-back pimbas nos programas televisivos da tarde, elas bojudas “como deve ser”, pulando e gingando, seus refegos, lascas de celulite e proto-varizes ressaltando sob as minissaias. E destes Fado Bicha apenas tomara conhecimento ao sabê-los apoiantes – ou mesmo inspiradores – daquele prostituto brasileiro que invadiu um teatro municipal lisboeta. Apresentando-se apenas em cuecas e com os implantes mamários desnudados, algo que considerava suficiente para ali exigir um emprego – para desvelo de alguma “comunidade artística” -, ainda que, como se soube depois, considere o teatro uma chatice e prefira ir ao futebol com o namorado.

 

Não seja por isso. Esta rapaziada (ou raparigada, como preferirem, que não quero parecer preconceituoso) não inova grande coisa. De facto, sabendo-o ou não, seguem o Papa Foucault, esse “grande educador da classe genderária”, o que se desunhou em apoios e viagens solidárias para com o fascismo teocrático de Teerão enquanto gozava a liberdade existencial americana. “They love Teheran but they fuck in Frisco”, resumi eu em postal de blog, aludindo literalmente à foucauldiana deriva.

 

Mas o que se pode criticar a esta malta histriónica do “género” (ou lá o que é) é o facto de sempre se calarem com as maldades (e que maldades) “alheias” enquanto sempre anunciam hiperbólicos horrores nas sociedades “ocidentais”. “Nós” demónios, os “outros” húmus multiculturais, por assim dizer. É uma pantomina, travestida de pensamento, e por vezes – como neste caso – mesmo por trajes. Um patético “anti-capitalismo”, de facto nada mais do que um esparvoado “anti-americanismo”. Dará prestígio, entre a “comunidade” que lhes é “público” e entre “instituições” e “câmaras” que contratam e financiam. É uma incongruência, de hipocrisias e dislates feita.

 

Mas tudo isso não impede uma outra faceta. É perfeitamente legítimo – até honroso – que alguém defenda outrem que dele não gosta ou até persegue. Se se reconhece a esse outrem pertinência nas reclamações como evitar expressar solidariedade? Especialmente em momentos dramaticos? “Faz o bem sem olhar a quem”… está escrito num qualquer texto judaico, julgo. Ou seja, é errado criticar os homossexuais por defenderem causas ou posições oriundas de países islâmicos. Pode-se discordar. Mas é perfeitamente legítimo – insisto, até honroso. Mas o que é inadmissível é que tantos desses movimentos, e seus locutores, demonizem as sociedades liberais. Porque essa atitude, verdadeira contradição – que é tão generalizada, tão constante -, não passa de um pobre e ordinário travesti de cidadania.

 

Quanto a estes Fado Bicha que me atiraram ao telefone só tenho uma coisa a dizer, pois sou muito reaccionário. Há algo fundamental, nisso obrigatório, quando se ergue a bandeira de alguém, em especial se a nacional, para se lhe demonstrar apoio. Não se arrasta essa bandeira pelo chão.

 

(Um pequeno detalhe, alguns dirão. Sim, é um pequeno detalhe. Mas bem demonstra a abjecta pantomina que é tanto “disto”, quase tudo disto “genderístico”.)