O comentário da semana


Pedro Correia,

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«Muito recentemente, o embaixador Dan Negrea, representante dos EUA no Conselho Económico e Social da ONU, em discurso aí proferido, declarou com todas as letras que a invasão russa da Ucrânia tem sido um desastre estratégico, já que Moscovo não consegue atingir os seus objectivos no campo de batalha; e que a intensificação dos ataques não irá alterar a situação, só servindo para agravar o desastre; finalizando por concluir que esta guerra tem de terminar agora, já basta o que basta.

Claro que a solução da “pax à americana” continua a passar por retirar os apoios à Ucrânia e não por apertar mais o garrote ao Putin – mas o atestado de incompetência fica passado, de forma crua e directa: a invasão é um desastre estratégico sem remédio possível.

O facto relevante é que os “amigos americanos” estão a ficar não só impacientes mas mesmo aborrecidos com a inépcia militar russa, até porque não conseguem inventar mais nada para os ajudar: já sabotaram os ucranianos e os europeus de todas as maneiras possíveis mas, como diria o tal representante, o desastre só se agrava.

 

Tendo acordado tarde e em situação de imprudente fraqueza, a Europa, e não apenas UE, tem conseguido recuperar em marchas forçadas autonomia e firmeza.

Veja-se as conclusões da cimeira dos países nórdicos e bálticos em relação à Ucrânia e sua “adesão irreversível” à NATO e urgência de admissão na UE… Ou a fortificação acelerada de Gotland e respectivo domínio do Mar Báltico, nas barbas do Putin, que faz o quê, roer as unhas? Afinal, e graças a ele, a Suécia é membro da NATO e é a NATO que está em Gotland.

Se não há alternativa possível para a Europa demo-liberal a não ser embarcar nessa “nova ordem mundial” que lhe querem impor, pois que o faça em situação de força e não como despojo de civilizações regressivas, messiânicas, autocráticas e oligárquicas – de que, infelizmente, os EUA se tornaram mais um, e talvez o pior, dos exemplos.

Afinal, não há traição mais dolorosa do que daqueles que nos são mais próximos. Mas há que seguir em frente.»

 

Da nossa leitora Zebra. A propósito deste meu texto.

O comentário da semana


Pedro Correia,

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«Também faz parte dos meus passatempos, já me sinto menos voyeuse. Naquele [supermercado] que mais frequento – pequeno e de bairro – noto sobretudo o que o carrinho diz sobre a vida de cada um, e isso depende também das horas a que lá se vai…

Final da tarde é certinho encontrar a mãe ou pai que vai comprar o ingrediente que falta para o jantar e muitos jovens profissionais da pizza/lasanha congelada. Muitos reformados que vivem sozinhos ou a dois e para quem cozinhar já não compensa…

Vejo muito consolo alimentar, as batatas fritas, umas bolachas, um chocolate ou uma cerveja.

Vejo muita pobreza também. Pessoas que dominam o cartão de descontos e que pedem para anular artigos nos avios do mês – cheio de ultraprocessados, que é mais barato – quando excede orçamento.

Vejo essencialmente cansaço, muito cansaço, e a vontade de chegar a casa e esperar que a semana acabe.

Comer bem está a tornar-se um luxo para muitos portugueses. Fala-se pouco disso.»

 

Da nossa leitora Marta. A propósito deste meu texto.

O comentário da semana


Pedro Correia,

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«O Regresso ao Bairro: 2007 vs. 2026

Esplanada do café em frente ao dito prédio. Vinte anos depois, a fachada de azulejos claros está agora pintada de cinzento-antracite. Onde se lia “Snack, Queijos e Enchidos”, há agora uma loja de plantas suculentas e cerâmicas artesanais a 40 euros a peça. O cartaz tosco “HÁ NO 1º ANDAR DORMIDAS E PUTAS” foi substituído por uma placa de latão polido a dizer “Boutique Co-Living & Tantric Mindfulness Retreat – AL”.
Dois vizinhos históricos, o Sr. Alfredo e a D. Ermelinda, observam a transformação.

D. Ermelinda: (A beber uma meia-de-leite desenxabida) “Olhe para aquilo, Alfredo. Vinte anos. Vinte anos e eu a pensar que a pouca-vergonha tinha acabado quando fizeram obras ao prédio.”

Sr. Alfredo: (A acender o terceiro cigarro da manhã) “A pouca-vergonha não acabou, Ermelinda. Antigamente, a tabuleta dizia ‘Dormidas e Putas’. Era honesto. Era serviço público. Você lia a placa e sabia exatamente o que o prédio oferecia.”

D. Ermelinda: “Ai credo, Alfredo, também não precisa de falar assim. Mas que era mais sossegado, lá isso era. Hoje em dia é só malucos de trotinete a entrar e a sair a qualquer hora. Fui ver à internet, Alfredo. Cobram 300 euros por noite! E chamam àquilo uma ‘experiência imersiva’.”

Sr. Alfredo: “No tempo do cartaz preto, a experiência também era imersiva, e se calhasse apanhar chatos, a farmácia resolvia com vinte paus. Hoje, você apanha um nómada digital à porta do prédio e fica infectada com dicas de criptomoedas e uma súbita vontade de beber chá de kombucha.”

D. Ermelinda: “Ainda no outro dia fui lá queixar-me do barulho que faziam lá em cima com as taças tibetanas às duas da manhã. Veio à porta uma americana de tranças que me disse que me estava a enviar “energias positivas” para alinhar os chakras.”

Sr. Alfredo: “Lá está. No tempo do cartaz tosco, havia civismo, caramba! Havia respeito pelos vizinhos! Agora? Agora o bairro está alinhado com o universo mas ninguém consegue pagar a renda.”

D. Ermelinda: (Suspira) “Sabe que tenho saudades do antigo prédio, Alfredo?”

Sr. Alfredo: “Não tenha, Ermelinda. No fundo o prédio está igual, só mudaram foi as putas.”»

 

Do nosso leitor Carlos Sousa. A propósito deste postal.

O comentário da semana


Pedro Correia,

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«Muito mais vezes do que aquelas que poderíamos imaginar, a realidade mostra-nos que nem sempre os filhos são desejados e queridos pelo pai e/ou pela mãe que os fizeram ou que nem sempre o pai e a mãe que os fizeram são competentes para os criar e, quando é assim, acaba por se esvanecer a “visão romantizada e idílica” de fazer um filho.

No universo das famílias vai havendo de tudo: famílias negligentes, que vetam os seus filhos ao abandono físico, psicológico e/ou emocional, deixando-os entregues a si próprios; ou que se mostram incapazes de lhes providenciar os necessários cuidados de saúde, de higiene, de vestuário e de alimentação; ou famílias que infligem aos seus filhos maus-tratos físicos e/ou psicológicos, algumas vezes pautados por uma violência atroz, ilustrada por agressões físicas, psicológicas e/ou sexuais.

Muitas vezes temos pais e/ou mães como efectivos e hediondos agressores, contrariando cabalmente a representação da família como “um ninho de amor, de moral e de bons costumes”.

Por muito que custe aceitar, há por aí muitos “monstros”, capazes das maiores crueldades e de perpetrar as maiores atrocidades contra crianças/jovens, muitas vezes contra os próprios filhos… O caso presente é apenas um exemplo do anterior, que acabou por se tornar conhecido de todos, mas os exemplos que permanecem “incógnitos” são muitos…

 

Ao longo da minha vida profissional, já vi de tudo, nada ou muito pouco me poderá ainda surpreender.

Mas confesso que sempre que me deparo com alguma situação em que os progenitores são os principais agressores (pai, mãe ou ambos) a minha crença na Humanidade fica irremediavelmente posta em causa…

Lamenta-se profundamente, mas a crueldade intencional entre humanos é algo que nos distingue, pela negativa, dos restantes animais… De resto, causar intencionalmente sofrimento a terceiros só costuma acontecer entre os animais humanos, é praticamente um exclusivo dos ditos seres humanos…»

 

Da nossa leitora Paula Dias. A propósito deste texto da Maria Dulce Fernandes.

O comentário da semana


Pedro Correia,

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«A estupidez [foi] propagada ao longo de décadas, até por intelectuais de renome, sobre o pretenso “carácter científico da doutrina estalinista”.

A verdade é que, ao longo dos tempos, se foi estabelecendo uma associação entre o pensamento filosófico de Karl Marx (o “materialismo dialéctico” simplificadamente rotulado de “marxismo”) e as experiências soviéticas dos regimes leninista e estalinista. Não existe, porém, qualquer fio condutor que os unam; pelo contrário, subsiste uma profunda distinção entre o pensamento original de Marx e as adaptações políticas que esses regimes totalitários erigiram em seu nome.

Há quem reiteradamente insista em recorrer à análise cientifico-filosófica de Marx como justificação para os que instrumentalizaram as suas ideias, nas práticas dos regimes totalitários do século XX (como o leninismo ou o estalinismo, e mais tarde, o maoismo), que traíram o pensamento fundamental de Marx, desvirtuando os ideais de um pensador focado na análise científica do capitalismo à época (das sociedades industrializadas da Inglaterra e Alemanha) e na procura pela emancipação humana (“o fim da alienação do indivíduo”) e do humanismo que estava subjacente à sua filosofia.

Porventura, no mundo em que vivemos, regido pelo capitalismo tecno-financeiro, caracterizado pela hegemonia da tecnologia e financeirização da economia sobre a produção real, motor central do aumento das gritantes desigualdades da riqueza a nível mundial, talvez faça sentido o regresso às ideias de Marx, não pela utopia de novas revoluções, mas sim na procura de um mundo de igualdade neste tempo de profundas injustiças.»

 

Do nosso leitor Carlos Antunes. A propósito deste meu texto.

O comentário da semana


Pedro Correia,

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«The Genuine Lusitanian Experience Concept Store (Antiga “Casa das Linhas”)
Chad & Brooklyn: Americanos de Portland, vestidos como se fossem subir o Evereste para ir beber um café.

Duarte: O empregado, 24 anos, barba aparada a laser, que recusa falar português para não “quebrar a vibe”.
Brooklyn: (Olhando para uma caneca com a cara do Fernando Pessoa e a frase “I’m a Stranger in my Own Country”) — Oh my God, Chad! Look at this! It’s so… organic. Is this the “Lisbon” vibe?
Chad: Totally. I love how they rebranded the whole city to match our Instagram feed. It’s like being in New York, but with more hills and cheaper gluten-free toast.
Duarte: (Aproxima-se com um sorriso de quem pratica ioga mas odeia pessoas) — Hello there! Welcome to the Store of the Typical Stuff for People who don’t Live in Lisbon. Can I help you find something… authentic?
Brooklyn: Hi! We wanted something really traditional. What is this? (Aponta para um íman de frigorífico que diz “L-I-S-B-O-N: Land of Sun, Beer or Nothing”)
Duarte: Ah, that’s a curated piece. You see, we don’t use the old name anymore. “Lisboa” is so… local. We prefer the international branding. It’s cleaner. It’s Lisbon. It fits better in a hashtag.
Chad: Smart. Very global. I saw a sign outside for a “Portuguese Custard Tart”. Is that what the locals call “Pastel de Nata”?
Duarte: (Ri-se de forma condescendente) — Oh, no one says “Pastel de Nata” anymore. It’s too phonetically aggressive for the Anglo-Saxon palate. We call them “Sunny Egg Disks”.
Chad: Incredible. And this shirt? It just says “LISBONER”.
Duarte: It’s our best-seller. It’s for people who want to feel like they belong here.
Brooklyn: I’ll take two! It’s so much more sophisticated than saying we’re in “Lisboa”. That sounds like a place where people actually work.
Duarte: Oh, heavens no. We don’t work here. We curate. That’ll be 85 euros, please.
Chad: Awesome. Lisbon is so much better than… whatever it was called before.
Duarte: (A acenar enquanto eles saem) — Have a meaningful stay in the sun!

Se Camões visse isto, provavelmente queimava Os Lusíadas, enquanto bebia uma “imperial” — que, nesta loja, certamente se chamaria “Golden Hop Sparkling Water”.»

 

Do nosso leitor Carlos Sousa. A propósito deste meu texto.

O comentário da semana


Pedro Correia,

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Efectivamente, a língua portuguesa atravessa um período complicado.

Não me refiro ao que se passa em algumas áreas falantes do português, desde há muito sob a forma da língua no Brasil (língua brasileira), mas também do que vem sucedendo em Moçambique (onde o português de Moçambique “moçambicanismo” é já dominante no falar da maioria da população, como até na escrita de alguns autores de nomeada, como Mia Couto).

Pelo contrário, em Angola, ainda não é identificada a existência de uma variante falada do português, porventura pelo facto de ser o país onde a percentagem de falantes de português como primeira língua é a maior, onde cerca de 80 % dos angolanos falam português.

 

Refiro-me, como bem acentua no seu texto, ao português falado em Portugal – não do português escrito, onde impera o caos ortográfico causado pelo AO-90, que Angola e Moçambique se recusam a ratificar – onde é cada vez mais normal haver termos, palavras, expressões em inglês numa conversa ou na escrita em português, a praga do “portinglês”, trocando:

reacção ou opinião por “feedback”,

peritos por “experts”,

exibição ou prestação por “performance”,

público-alvo por “target”,

dinheiro por “cash”,

panfletos ou folhetos por “flyers”,

guiões por “scripts”,

boletins por “newsletters”,

aparência ou visual por “look”,

hiato por “gap”,

visita ou excursão por “tour”, etc., etc.

E ai de quem não os utilize, que logo é apelidado de ignorante!!!

No que me diz respeito, recuso-me a tal, como de resto a aprender e a escrever de acordo com as novas regras do último Acordo Ortográfico (AO-90), ou “acordo pornográfico” como alguns jocosamente o intitulam.

Vou continuar a escrever com o Português que me foi ensinado nos anos 60 do século passado, na Escola Primária e no Liceu, por professores altamente qualificados.

 

Do nosso leitor Carlos Antunes. A propósito deste meu texto.

O comentário da semana


Pedro Correia,

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«Israel parece ter aceite o cessar-fogo de duas semanas com o Irão, no entanto adverte que as operações no Líbano são para continuar. Será que irá respeitar a trégua anunciada por Trump? Não seria a primeira vez que Netanyahu tomaria a iniciativa de reforçar as hostilidades à revelia de Trump, que já se sentiu desautorizado em mais do que uma ocasião.

O comunicado de Trump na sua rede bateu todos os recordes de grosseria de um político, insultando com linguagem de filmes classe Z um povo e seus governantes, com ameaças prenunciadoras de catástrofes sem paralelo.

Tendo armado este sarilho que afectou meio mundo e do qual não sabe como sair, parece que finalmente a massa de grunhos que o apoia está a minguar, quer ao nível do homem da rua quer nas mais altas instâncias do poder. Já não era sem tempo.»

 

Do nosso leitor Carlos Arnaut. A propósito deste texto do João André.

O comentário da semana


Pedro Correia,

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«Se merecem estar na lista canónica? Claro que merecem. É preciso ter uma paciência de santo para descrever o vento nos pântanos de Yorkshire durante duzentas páginas ou o drama existencial de uma gaja que decide ir comprar flores sozinha. O suspense é tanto que quase me esqueço de respirar.

Mas é esta cegueira selectiva que me faz querer atirar um tinteiro à cabeça de um académico: Cem títulos. Cem. E nem um, repito, nem um autor de banda desenhada. Onde estão os génios da BD? Aparentemente, para estes 82 iluminados da BBC, se uma história tem desenhos e balões, deixa de ser literatura e passa a ser “coisa de miúdos” ou, pior, “cultura pop”.

Onde está o Neil Gaiman?

Onde está o Grant Morrison?

Onde está o Warren Ellis?

A ironia disto tudo? É que daqui a cem anos as pessoas ainda vão ler o Batman do Grant Morrison, mas ninguém se vai lembrar se a Dorothea Brooke casou com o tipo certo.»

 

Do nosso leitor Carlos Sousa. A propósito deste meu texto.

O comentário da semana


Pedro Correia,

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«E tudo isto é essencialmente imaterial, frágil, potencial e perigosamente efémero, à mercê de um desastre informático – acidental ou não tanto – ou da deliberada acção de um qualquer guardião dessa inclusividade cancelatória que por aí recrudesce e decerto não desperdiçará o momento em que, dotada do poder para tanto, zelosamente possa exercer a sua acção civilizacional. E, temo, nem um nem outro cenários será assim tão rebuscado.

De muito não se sentiria verdadeiramente a falta (e isso de se ser irrelevante não é necessariamente insultuoso; até porque talvez nem uma linha desses mais de 600 mil blogues seja verdadeiramente irrelevante: antes uma útil fonte para o estudo da pequena história, da vida familiar e doméstica, da existência “comum” de uma época). Mas muito, se perdido, seria uma verdadeira perda.

O papel, no seu lugar na estante (ou até escondido como tesouro precioso – ou perigoso), está longe de ultrapassado. Por alguma razão aqui já há uma antologia (virá outra?).»

 

Do nosso leitor Costa. A propósito deste meu texto.

O comentário da semana


Pedro Correia,

«A geringonça ou coligação ou o que for falha a partir do momento em que dois dos participantes recusam qualquer responsabilidade na governação. Foram quatro anos em que PCP e Bloco foram responsáveis por tudo de bom que aconteceu, e alheios a tudo o resto. Acordo escrito ou não, PS governou e os colegas iam aprovando ou reprovando consoante o Limiano dado em troca. Aliás, foram quatro anos de limianismo, por mais que se tente disfarçar com uma governação coligada de esquerda.

Costa pensou poder gerir mais uma legislatura assim, mas foi confrontado com covid, e Bloco e PCP perceberam que a sua postura não liga com o seu eleitorado, que é pura e simplesmente de protesto. Ou seja, um PCP que não vote contra o Governo de Direita (PS) e que não ande nas ruas via sindicatos, é inútil. O mesmo para o Bloco, serve para legalizar brocas e perseguir Rendeiros, uma Catarina ao lado do Costa vale zero.»

 

Do nosso leitor Anonimus. A propósito deste texto do JPT.

O comentário da semana


Pedro Correia,

«Preciso da bicicleta para ir tratar de tretas burocráticas ao Campus da Justiça.
Ir e vir a pé demora um bocado.
Se for para passear faço nas calmas 13 kms seguidos e vou passear até Belém.
Eu passeio a pé (…) . A defesa de bicicletas e trajectos pedestres para mim é uma questão de higiene e saúde pública.

Sempre me fez impressão gente ainda muito nova e obesa e que só consegue sair de casa enfiando-se no carro.

É a geração “labrega-à-amaricana-rica”. Julgam-se sempre a conduzir em L.A.»

 

Da nossa leitora Zazie. A propósito deste meu postal.

O comentário da semana


Pedro Correia,

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«”A rasoira da mediocridade nivelou a seara numa pequenez outoniça. Não se ouve uma voz singular no murmúrio colectivo, nenhum grito se sobrepõe ao coaxar monótono do charco. As conversas são ladainhas que um ora pro nobis resignado remata ritualmente.

Pede-se a salvação a Deus e a alimentação ao Estado, de rastos, a lamber os degraus do altar e as escadas dos ministérios.”

Coimbra, 4 de Setembro de 1956

Miguel Torga

 

Não me parece que o problema esteja nos telejornais, nem no governo, nem na oposição.

O problema é genético, está no ADN do português.

Porque é que me vou chatear, assim como assim não muda nada. Eles é que mandam, eles que resolvam.»

 

Do nosso leitor Carlos Sousa. A propósito deste meu texto.

O comentário da semana


Pedro Correia,

«A pandemia introduziu um novo conceito de democracia em Portugal.

A nossa democracia é uma democracia medicinal.

O nosso povo é livre de fazer o que a direcção-geral de saúde mandar.

Será que também será preciso mostrar um certificado covid ou fazer um teste quando formos votar em Setembro?

E porque não aproveitar os restaurantes para administrar as vacinas? Assim, quem não tivesse o certificado, levava a vacina enquanto esperava pela sobremesa.»

 

Do nosso leitor Carlos Sousa. A propósito deste texto da Maria Dulce Fernandes.

O comentário da semana


Pedro Correia,

«O liberalismo pode ser político e/ou económico enquanto o neoliberalismo é apenas económico.

O liberalismo aparece no séc. XVIII como oposição ao mercantilismo. O neoliberalismo aparece na segunda metade do séc. XX como oposição ao Keynesianismo.

Mas a diferença principal é que o neoliberalismo está comprometido com a globalização: livre circulação de capitais estrangeiros, eliminação de pautas ou entraves ao comércio mundial, favorecimento de empresas multinacionais.

Parece-me equilibrado dizer que o actual liberalismo em Portugal tem pouco de neoliberalismo, maioritariamente defende o liberalismo político e nasceu como reacção ao socialismo “grosso modo” entendido como estatismo (50% ou mais da economia nas mãos do Estado).

Simplificadamente (muito) o liberalismo nasce com Adam Smith e tem como referências modernas a escola austríaca (Ludwig v. Mises e Friedrich v. Hayek) enquanto no neoliberalismo a referência é Milton Friedman e a escola de Chicago.

 

Entendo que se pode ser liberal e não ser neoliberal. O neoliberalismo pode e muitas vezes é perverso. Por exemplo a aposta nas empresas multinacionais sem as defesas do liberalismo político que ignora, pode pôr e está a pôr em causa a própria liberdade.

Veja-se o que está a acontecer com as grandes empresas digitais que sistematicamente violam direitos individuais.

Pior ainda, a pretexto de justas tributações sobre essas empresas, os Estados estão a adquirir mais poder e esse maior poder vai necessariamente reduzir a liberdade individual.»

 

Do nosso leitor Francisco Almeida. A propósito deste texto do Paulo Sousa.

O comentário da semana


Pedro Correia,

«O desgoverno é uma forma de governo. Não há nada de mal na declaração de Ferro Rodrigues, a não ser que a consideremos no contexto do desnorte sobre o tema cansativo da covid.

Em boa verdade as duas mais altas figuras do estado já nos vieram dizer por actos e por declarações públicas que estão cansadas de manter esta canga sobre os cidadãos e que a acham injustificada. Demoraram para evidenciarem aquilo que é um sentimento generalizado, mas que ainda não conseguiu romper a subjugação pelo medo a que o povo tem sido sujeito de maneira laboriosa e planeada fará dois anos não tarda.

A covid tornou-se um óptimo negócio. Os bons negócios que dão dinheiro e poder sobre as pessoas são obviamente para manter. Quanto maior for a destruição, mais generosa pode ser a bazuca. E 80% dela vai direitinha para o estado.

Trabalhar para quê? O problema já não é o vírus, é a virose.»

 

Do nosso leitor João Gil. A propósito deste meu texto.

O comentário da semana


Pedro Correia,

«Anteontem a minha filha mais nova apareceu com febre. Para não ficar doente e sozinha em Lisboa (o irmão tem que trabalhar) fez um teste rápido que deu negativo e pediu-me para a ir buscar (vivo numa quinta a 75 km de Lisboa). No caminho parámos no Centro de Saúde onde conseguiu uma consulta de urgência por causa da baixa mas a médica mandou-a fazer um teste PCR. Como tinha um casamento amanhã e hoje era feriado não havia laboratórios disponíveis e lá fomos à CUF de Santarém. Esta manhã veio o resultado: positivo.

Ainda tive esperança que fosse um falso positivo, frequente nos testes PCR com ciclos altos mas dois outros amigos que estiveram com ela noutro casamento no sábado passado informaram que também estavam infectados.

Como o irmão tinha vindo passar o feriado connosco – tranquilizado pelo teste rápido negativo – agora estamos os quatro na trampa. A minha mulher foi vacinada há dias (ainda não pode estar imunizada) eu vou (ia?) receber a segunda dose daqui a uma semana, o meu filho ainda não está agendado e tem trabalho com prazos. Eu e a minha mulher fazemos anos para a semana e lá se foi o programa. Para complicar estamos a meio de uma remodelação com duas pessoas a trabalhar mais uma mulher-a-dias imprescindível pela porcaria feita nas obras.

Pouco tem a ver com o postal. Nem festejos futebolísticos nem noitadas de copos mas a base é semelhante: gente nova saturada a conviver em casamentos que estiveram adiados. E lá aumentam os números de Lisboa e Vale do Tejo.»

 

Do nosso leitor Francisco Almeida. A propósito deste meu texto.

O comentário da semana


Pedro Correia,

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«Como houve, há, pandemia, a final foi em Portugal. País que pelo futebol e pelo turista reles, em quem apostou como alvo principal do seu mercado de turismo, se sujeita a qualquer abuso, a toda a humilhação. E trata os seus nacionais, os portugueses, como verdadeiros imbecis. Há uns dias, na final da taça de Portugal, nem pensar em público; hoje, diz-se num canal de televisão, foi negada a autorização para quinhentas pessoas assistirem a uma final nacional de râguebi. Porque, parece, não se podia então garantir a “bolha” que agora estava mais que garantida. Viu-se e vê-se.

Até a UEFA manda nesta soberana república. E uma vez mais, sob o manto protector da toda-poderosa bola, organizações e indivíduos estão arrogantemente acima da lei. O secretário de estado do Desporto seguirá presumivelmente o seu percurso; a DGS, idem. O desgoverno da nação, idem. O que aliás será muito natural. Governados por um PS mais e mais voltado à esquerda, acolitado por dois partidos de extrema-esquerda, é suposto que o povo esteja como está: amedrontado, calado, obediente, sem discutir, aceitando submisso o que a vanguarda revolucionária entende impor-lhe. E hoje, o proprietário de um café, no Porto, fechava o estabelecimento bem mais cedo do que aquilo a que a lei (ela própria o disparate que se sabe) o obrigaria, por ter esgotado horas antes os mil litros de cerveja de que dispunha. No estrito plano do negócio imediato, portanto, um sucesso. Sob os esforçados e patrióticos auspícios do partido socialista.

Um sucesso em que o português cumpriu o seu papel: o de empregado de mesa. E empregado de mesa de um cliente rasca, bêbedo compulsivo, sem modos. Mas o português gosta disso.

Está tudo bem assim e não podia ser de outra forma.»

 

Do nosso leitor Costa. A propósito deste texto do João Pedro Pimenta.

Os comentários da semana


Pedro Correia,

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«Foi a época da energia abundante ao preço da chuva, dos herdeiros do Infante D. Henrique, do Colombo e do Far West. Esse optimismo expirou por volta de 1970 com a divulgação do Relatório Meadows, conhecido erroneamente como relatório do clube de Roma (na verdade, foi produzido por malta do MIT a pedido do clube de Roma). É de notar que os redactores desse relatório não fizeram previsões para a evolução da sociedade, pois isso é impossível e eles sabiam-no muito bem. Eles estudaram cenários hipotéticos, o mais plausíveis à época.

 

A traço grosso, as conclusões do estudo desses cenários foram:

1- As modalidades de crescimento indefinido (demográfico, consumo energético e de matérias-primas) levam ao esgotamento irreversível dos recursos (energéticos, mas não só) não-renováveis (o que constitui uma conclusão evidente, uma mera tautologia) e a uma degradação prejudicial à produtividade dos ecossistemas resultante da poluição e sobre-exploração crescentes;

2 – Extrapolando a partir dos ritmos observados em 1970, o colapso do sistema seria de esperar, não para daqui a milénios, mas já em meados do século XXI (esta foi a surpresa, mas mesmo essa surpresa é indevida pois já no século XIX os ingleses estavam cientes da inevitabilidade do esgotamento do carvão extraído na Grã-Bretanha, e nisso foram corroborados durante o século XX).

 

Hoje toda a gente sabe isto, mesmo os que o negam. Consumimos mais do que o planeta produz (estamos a esgotar as nossas “poupanças no banco”), já passsámos o pico do petróleo convencional e, por issso, o rátio entre energia extraída e energia consumida durante a extracção é uma função monótona decrescente (e quando descer abaixo de um acaba o jogo).

O consumo de combustíveis fósseis estagnou na Europa já há uma década e é essencialmente por isso que o crescimento económico gripou. Quando o consumo de combustíveis atinge um planalto, o número de máquinas a trabalhar atinge outro que lhe corresponde (o padeiro já não tem espaço no forno para tirar mais croissants para alimentar mais) e a economia que roda à custa das máquinas estagna também. À estagnação seguem-se as narrativas apocalípticas.

 

Ah, resta-nos desvendar o enigma da esfinge: a criatura capaz de reconhecer a sua própria natureza quando ela lhe é ensinada, mas que soçobra presa de pulsões niilistas quando ela lhe é ocultada.»

 

Do nosso leitor Miguel. A propósito deste meu texto. 

 

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«Cinquenta anos de optimismo e felicidade de plástico prometida nos spots publicitários. A crença absoluta no domínio do homem sobre a natureza. Tão desajustada quanto o entretenimento e a ficção sórdida que procura colmatar desejos de negritude e alegado realismo na vida dos derrotistas.

Uma população ocidental a viver grosso modo em melhores condições físicas do que há cinquenta anos – e uma opinião pública educada há décadas no facilitismo e na falta de juízo crítico. Não é de educação formal nem de erudição que falo; essa preocupa-me bastante menos, mas da falta de noção do comezinho. Da falta de consciência do peso de cada um na sociedade, da sua responsabilidade, das suas obrigações. Já que dos direitos a maioria dos cidadãos ocidentais parecem bastante conscientes. A desejável reivindicação de maior justiça social e respeito pelos direitos fundamentais foi desvirtuada e transformada em fonte inesgotável de egoísmos e bandeirinhas folclóricas. Conduziu também à necessidade de sempre culpar o outro, por total incapacidade de reconhecer a própria responsabilidade ou pela crença na inexistência de razões naturais e fortuitas – não assacáveis aos homens.

A ressaca do confronto com a realidade origina tremendas frustrações que conduzem a um chinfrim contestatário onde ninguém se entende, à falta de autoridade dos Estados, aos radicalismos e à proliferação dos distúrbios mentais – é uma maçada, mas nem sempre há outros disponíveis para o sacrifício, para assumirem a culpa que não é sua. Nem a natureza se comove (sempre) perante os caprichos humanos: igual a si própria dizima mais de três milhões de seres humanos de uma assentada, como se dissesse “presente, estou aqui” perante um mundo distraído entre contabilizar o número ou as razões aparentes para tantas mortes e o desejo de retoma à “normalidade” e às catadupas de slogans inconsequentes.

 

Da nossa leitora Isabel Paulos. A propósito deste meu texto.