
O epílogo ficou aqui. O resto é o que lá está.
O virtualreal abriu uma nova página e chegou ontem ao ar.
Para o que der e vier e enquanto houver leitores.

O epílogo ficou aqui. O resto é o que lá está.
O virtualreal abriu uma nova página e chegou ontem ao ar.
Para o que der e vier e enquanto houver leitores.
Esta tarde estive a ler um livro de amigos oferecido por um amigo. Dei comigo a pensar neles. Nos amigos. E nelas. Na distância a que estou de muitos, nos aniversários que tenho perdido, nas horas infindas de conversa e cavaqueira, nos disparates, nos dias, almoços, jantares e noites que acabam para podermos descansar e começar outro dia, nas discussões, nos risos, nos abraços, nos beijos que trocámos ao longo de uma vida, nos olhares cúmplices, no riso sincero, desprendido, nos segredos que guardamos, na confiança que temos, na teimosia, tantas vezes, com que nos brindamos mutuamente. Nas críticas, nos amuos, na forma como nos olhamos, respeitamos, amamos. E tantas vezes nos perdemos para sempre nos reencontrarmos. Há tempos vi um num supermercado, a milhares de quilómetros de casa. Fazia perguntas à operadora da caixa enquanto guardava as compras. A T. reconheceu-o, mais velho, ao fim de uma data de anos, pelas perguntas que fazia à sujeita. E atirou-lhe com ar sério um “o senhor nunca mais se despacha?”. A senhora do supermercado, que ia respondendo às perguntas a ver se o fulano se ia embora, sorriu e riu-se para dentro. Deve ter rido com gosto. Pudera. É preciso ter lata. O tipo, mais velho, levantou os olhos, sem perceber o atrevimento. Começou a rir-se, deu-me um abraço quando me viu, ao fim de mais de 20 anos. E perguntou-me se continuava a escrever. Sim, continuo. E tenho os mesmos amigos. E mais uns, mais recentes, tão bons como os antigos. Penso muito neles. E nelas. Algumas também meias-irmãs, outras ex-semi-namoradas. Amigas. Amigos. Têm tomado conta de mim ao longo da vida. E feito de mim o que sou. Gosto muito dos meus amigos. É uma confissão. Uns são mais velhos, outros mais novos, uns mais sisudos, outros mais impertinentes, também há alguns que são do Porto, outros do Sporting. Atrevidos e atrevidas. Uns com mais lata que outros. E adeptos de clubes indescritíveis. Uns palermas nessa matéria. Mas também são meus amigos. E há alguns que não percebem nada de carros e não gostam de velocidades. Outros ainda abanam a cabeça, mas não me dizem nada, quando compro um Alfa Romeo. Lá no fundo não percebem o que eu vejo naqueles carros. E porque vou a Le Mans todos os anos. Essa é a parte misteriosa de quem vive muito depressa. Também escrevo muito depressa. Felizmente que ainda tenho tempo para fumar um charuto. De vez em quando. Com os amigos. E alguns não fumam, embora fumem comigo. Com os olhos. E depois rimo-nos muito. De outras vezes fumo sozinho. Também penso neles. Sozinho. Às vezes choramos. Eles não. Eu choro. Porque também sinto a distância dos que estão longe. E dos que partiram. Hoje também me lembrei do M. que está no Porto. Ainda lhe devo uma resposta ao último email. Vai por aqui. Há pouco lembrei-me de todos eles quando comprei um quadro da minha sombra. Como a do Livro de Curso. Igual ao do Almada que estava na Gulbenkian. Com o Pessoa. Obra do Vítor Marreiros. Depois o Vítor telefonou-me, porque aquele quadro não era para vender. O fulano da galeria não sabia. O que levei tinha defeito. O Vítor disse que aquele não era para mim. Havia umas letras que estavam trocadas. O meu é outro. Está no atelier dele. Com as letras todas. Quando tiver o certificado para mim fazemos a troca. Ele fica com o das letras trocadas, eu fico com o dele que não estava na galeria. Não conheci nenhum amigo do Fernando Pessoa. Nem dos seus heterónimos. Eles é que me conheceram. Também são meus amigos. Quando os leio, às vezes mesmo quando vou pela rua, acho que eles me vêem. Aqui não é superstição. É crença. Os amigos vêem-me. Às vezes há uns que me dão uma sova quando lêem o que eu escrevo. Têm mais medo do que eu. Eu sei. Sou um irresponsável. Eu nunca tive medo. Mesmo quando estou sozinho tenho amigos que zelam por mim. E há umas que até rezam. A Mélita era uma delas. Deixou muita saudades. Eu também tenho muitas saudades. Dela e dos meus amigos. Quando não estou com eles. Vale-me uma amiga que está sempre por perto e que tem dias em que me azucrina a mioleira. Não presto atenção às coisas. E diz-me. Não a levo a mal. No fundo gosta de mim. É minha amiga. Depois queixa-se das suspensões dos carros. É a mais atrevida. Os outros não dizem nada. Os carros também não. No dia em que me for embora vou ter saudades dos meus amigos. Deles e da minha liberdade. Espero que eles não se chateiem. Ainda eram capazes de me ir buscar ao Guincho e acabava-se o meu sossego.
(Daqui para aqui)
Como concedo cada vez menos tempo à leitura de blogues novos, tendo a revisitar os que já conheço e onde sei o que em regra vou encontrar. De vez em quando há um ou outro que emudece e aí volto a circular. Foi o que me sucedeu há dias e dei com um blogue por onde há muito tempo não passava, embora publique regularmente desde 2007.
Começou com um registo mais pessoal e intimista, mas a Maria João escreve fundamentalmente sobre livros e cinema, que é o que mais aprecio.
E tem o bom gosto e a virtude – terá outras certamente que eu não posso confirmar porque não nos conhecemos, mas esta posso garantir – de ver com olhos de ver o cinema de Moretti, e de ter gostado de Nápoles, o que é coisa rara para muita gente, para além de escrever muito bem. Simples, sem floreados desnecessários.
Não sei se alguma vez terei uma gata, mas confesso que desta, embora nunca me tenha sido apresentada, gosto bastante. A Gata Christie é a minha escolha desta semana. Passem por lá que vale sempre a pena.

Algumas pessoas ficaram admiradas com o resultado da sondagem da Universidade Católica/Público/RTP, dada a conhecer no passado dia 28 de Novembro. Ainda todos estão lembrados dos resultados de outras sondagens aquando das últimas legislativas e do que veio a acontecer. O país não quis saber de empates técnicos nem de vitórias tangenciais e resolveu entregar uma maioria absoluta a António Costa. Por essa razão convém moderar as análises e o ímpeto das conclusões.
Ainda assim, atrevo-me a dizer publicamente o que penso, arriscando a crucificação num pelourinho por delito de opinião.
E neste momento em que se discute a liderança do PS e todos os outros partidos se afadigam a prepararem-se para as eleições – alguns na mira de conseguirem adiar por mais algum tempo o seu próprio funeral – parece-me evidente que a golpada marcelista, amplamente favorecida pelo descalabro da governação (seria difícil encontrar outro termo para o desastre que foi, salvo raríssimas excepções, a performance do XXIII Governo Constitucional), poderá vir a revelar-se como uma bênção para a reforma do sistema político e eleitoral. De uma assentada, os portugueses podem abrir caminho para se livrarem de quase todos os pantomineiros que fazem hoje a maioria da classe política que nos trouxe até ao imbróglio em que estamos.
Dos diversos cenários apresentados pela sondagem acima referida, algumas conclusões são inequívocas: i) Os portugueses não gostam de radicais; ii) Qualquer que seja o cenário dispensam Luís Montenegro; iii) Pedro Nuno Santos (PNS) não lhes merece o aval da confiança.
Quanto à primeira não constitui novidade. O país reconhece-se ao centro na extensa faixa que vai da democracia-cristã/liberalismo/social-democracia até ao socialismo democrático mais ou menos esquerdista.
Depois, em relação ao líder do maior partido da oposição, o PSD, verifica-se que apesar de tudo o que aconteceu com o Governo e com o PS, Luís Montenegro não consegue melhor do que um resultado sofrível qualquer que seja o cenário.
Não é de estranhar. Chegou a líder por ser tão anódino quanto foi deputado ao longo dos anos, sem um lampejo que o resgatasse à mediocridade carreirista da JSD ou da seita aventaleira que o ajudou a crescer. E agora que se vai apresentar a eleições traz consigo, como se viu no congresso do passado fim-de-semana, um camião com um atrelado de sarcófagos de onde vão saindo umas múmias que não deixaram saudades. Que seja castigado e as sondagens não lhe sejam particularmente favoráveis depois de tantos anos de PS no Governo não é uma fatalidade.
Mas se o teste havia de chegar com as eleições europeias ou com as autárquicas, o Presidente Marcelo fez o favor às hostes laranja de anteciparem o futuro e se livrarem de Montenegro e da sua tralha bem mais cedo, pois que quanto mais depressa o PSD iniciar a sua renovação e posicionar uma nova geração de líderes, que seja recrutada noutro lado que não seja entre as levas de imperiais do Ribadouro, menos difícil será construir uma alternativa na área política do seu eleitorado, colocando um ponto final na balbúrdia venturista à sua direita.
Em terceiro lugar, há o problema PNS para resolver. Este é um problema interno do PS e que só terá solução, acreditemos que sim, se nos próximos dias 15 e 16 de Dezembro os militantes socialistas o resolverem.
Os resultados da sondagem explicam por que razão é que PNS não quer debates com os outros candidatos à liderança do partido. Não se trata, evidentemente, de evitar dar trunfos à direita, mas sim de evitar o debate político e fugir do confronto com as suas próprias contradições, com o cataventismo socratista e a vacuidade petulante e oportunista do discurso.
Em 2017 (não vale a pena recuar mais), PNS, que já era crescidinho, afirmou que “O PS nunca mais irá precisar da direita para governar“. Em 2018 sublinhou que “o PS não está refém da direita para governar“. Depois, quando anunciou a sua candidatura, começou por atacar o candidato José Luís Carneiro, acusando-o de não ser suficientemente combativo contra a direita e vincando que com ele “o PS não vai ser muleta de ninguém“, esclarecendo que o seu foco e o da sua candidatura “é derrotar a direita e não mais do que isso”, antes de entrar na contabilidade cacical de saber quem apoia quem. Como se esta tivesse interesse para alguém com excepção dos bípedes que ficam com insónias ante a perspectiva de não saberem quem apoiar para manterem os tachos dentro do partido e fora dele.
Bastou passarem dois dias, depois de acusar JLC de desvio direitista, e logo começou, de mansinho, a chegar-se para o centro, não fosse o diabo tecê-las. Daí que tivesse saído a terreiro para dizer que “o diálogo à direita e ao centro é fundamental” e que “há matérias onde o entendimento com o PSD é desejável e importante” (quais?), ao mesmo tempo que dizia que “a memória da geringonça é boa”. Ora bem. E ainda disse que até a uma coligação pré-eleitoral não fecha portas. Colocou a primeira cereja no topo do bolo da coerência, qual franciscano, com que pretende desfilar nos próximos dias.
Em rigor, para PNS o que é preciso é estar em todas, com todos “e com todas” desde que isso lhe garanta o poder. E se possível também com “todes”, que foi para isso que o talharam, no “berço de oiro”, na humilde loja do sapateiro, e em especial no albergue onde lhe construíram as ambições conforme as ocasiões.
Percebe-se, ademais, qual o motivo para que directas abertas, como mostram as sondagens, também sejam dispensadas por PNS, pois que é muito melhor deixar a escolha do líder do PS nas mãos dos caciques que controlam as concelhias e o aparelho do que confiar na decisão dos simpatizantes que não têm tempo para a militância e dos quais dependem os resultados eleitorais do partido.
Como lá mais acima dizia, se os militantes socialistas quiserem dar um contributo ao país poderão começar por se livrarem de PNS, mandando-o tomar conta das empresas familiares, de maneira a que não mais tenha necessidade de esconder os carros quando for para a campanha eleitoral. Esta é uma oportunidade única e irrepetível.
Seria uma pena se os portugueses, que de uma assentada se podem livrar do neo-socratismo e do basismo cavaquista e passista, encetando um caminho de renovação das suas elites políticas, não aproveitassem os ventos fortes que sopram de todos os quadrantes, e a chuvada que se prepara nos próximos dias, para lavarem o terreiro e removerem de lá toda a barracada de feira que se foi instalando, dispensando os vendedores de tapetes, ligaduras e sarcófagos, os milhares de arrumadores e de traficantes de influências, os penduras de ocasião, a malta das sementes dos vários tipos de relva, enfim, livrando-se de toda a tralha de gigantones, coristas e emplastros acumulada nos últimos carnavais.
(créditos: daqui)
Nos bons e nos maus momentos esteve com todos e contra todos, com inteligência, ignorância e muito cinismo.
Uma vez convidaram-me para estar presente num dos seus doutoramentos honoris causa. Até hoje não estou certo se acreditava numa palavra do que pensava, do que dizia e do que escreveu.
Mas o seu legado é incontornável. Outros o julgarão. Não faltarão entendidos a dissertarem nos próximos dias, em todos os canais de rádio e de televisão, em tons laudatórios, sobre as suas múltiplas qualidades. Eu limito-me a certificar o óbito do século XX. E olhando à minha volta, para o que se passa no mundo, também não sei se isso será bom.
Ninguém tem o dom de adivinhar o futuro. Ele também não o teve, e por várias vezes tentou interromper o curso da história, treslendo e ignorando os sinais.
Apesar disso foi capaz de escrever muitos sumários. Alguns péssimos. Em Timor não deixará saudades. Outros, felizmente, como no caso português, não se concretizaram. Não ficámos entre Santiago e Havana. Voltámos a ser europeus. De corpo inteiro. E não lhe devemos isso.
Que descanse em paz.
É natural que a Procuradora-Geral da República possa dizer com toda a naturalidade “Não me sinto responsável por coisa nenhuma“, o que aliás parece não ser coisa nova lá para os lados do rectângulo.
E estou em crer que é uma visão partilhada, comungada e subscrita por todos os que por ali tudo cumprem escrupulosamente sem que ninguém seja responsável por coisa nenhuma.
Veja-se, por exemplo, o Conselho de Estado de onde sai tudo, ninguém confirma, todos se desmentem, sem que ninguém viole as suas obrigações de sigilo.
E deve ser tudo tão natural que até é um juiz, titular de órgão de soberania e sindicalista, quem vem publicamente fazer de defensor oficioso da actuação do Ministério Público, não obstante as minhas dúvidas sobre se isso será compatível com o dever de reserva que sobre ele impende e decorre do respectivo estatuto.
Mas depois de ver magistrados jubilados, um deles conselheiro, a exercerem funções pouco compatíveis com o seu estatuto e, pelo menos num caso, sem o conhecimento do CSM, em Macau, presumo que tudo isso devam ser apenas consequências menores de frases infelizes, minudências, bizarrias e disfuncionalidades sistémicas da alegre vida das corporações e dos partidos que cuidam de nós.
P.S. Então e o Sócrates publica as memórias antes ou depois de ser julgado? Temo que, entretanto, ao tempo que as coisas duram, também fiquem todos afectados pelo Alzheimer, como o outro.

(créditos: Leonardo Negrão/Global Imagens/DN)
Com directas marcadas para Dezembro, congresso para Janeiro e eleições legislativas em Março de 2024, toda a casta de dependentes do patriarcado socialista começou a movimentar-se para segurar o melhor lugar junto às diversas manjedouras que os senhores do Largo do Rato têm espalhadas pelo país.
É isso que neste momento justifica a corrida desenfreada do eterno jovem fedayin, Pedro Nuno Santos, e da sua trupe, perante a perspectiva de faltarem acólitos, de os fiéis necessários ainda não estarem garantidos, e a tão desejada entronização acabar num rodízio para sambistas de fio dental.
O andor não saiu da igreja para chegar ao adro e o candidato a papa da seita já envergou o pluvial e saiu porta fora para ver quantos são os fiéis que aguardam a passagem do cortejo.
Foi por essa razão que o ouvimos dizer, naquele estilo que o tornou célebre de terrorista a ameaçar banqueiros, ter num curto espaço de tempo reunido o apoio de “199 coordenadores concelhios socialistas em território continental, num total de 277, o que representa cerca de 77%”. Notável.
Para quem a arrumação das contas sempre foi uma versão do inferno, uma coisa que só atrapalha a acção da comissão de festas e a organização do arraial dos santos populares, não deixa de ser curiosa a sua recente preocupação com os números.
Ao invocá-los, Pedro Nuno Santos (PNS), que na verdade aspira a ser o novo Kim Jong-un do socratismo kimilsunguista, mais não está do que a apelar às células prenhes de gula de alguns camaradas que ainda com o prato cheio de lentilhas se apressam a ver como hão-de garantir a próxima ração, não vá antes sair-lhes um carneiro na rifa que lhes dê cabo do pasto.
O candidato PNS está convencido de que é por reunir muitos apoios fora do templo e nos seus anexos que vai ser o sacerdote-mor, esquecendo-se de que Sócrates em 2004 conseguiu quase 80% dos votos, em 2006 foi reeleito com 95%, quando nem adversários tinha nas Federações, em 2009 obteve 96,43%, sendo de novo reeleito em 2011 com 93,3%, isto exactamente antes de lhe oferecerem um ábaco, o fulano ficar sem rebanho, se dedicar à ciência, começar a encomendar teses e a pedir que lhe esgotassem os livros nos escaparates.
Esses apoios são, aliás, muito enganadores, bastando para tal ouvir o pregador Assis e recuperarmos, igualmente, o que aconteceu com Vítor Constâncio, eleito com 83% dos votos, e com Seguro, de quem diziam ter o apoio da maioria das distritais e se fez eleger com 70% dos votos dos militantes. De que lhes serviu? Veja-se o que fizeram com tanto apoio, como fizeram, e o que no fim lhes fizeram os apoios dos gangues que os rodeavam.
O jovem fedayin estará, apesar disso, ignorando a história a que apela para reerguer o templo e dar asas à imaginação, entusiasmado como está a iniciar a sua subida vertiginosa debaixo de tanto holofote, empurrado por milhares de cavalos, não tanto por uma rampa em cujo cimo encontrará um olimpo recheado com dezenas de virgens à espera de uma boleia na desengonçada traquitana a vapor em que se faz transportar, e com que se propõe reformar a geringonça do antecessor e assim dar boleia aos pastores reconvertidos de outras seitas que o aguardam na berma da estrada, à sua esquerda, mas para o inevitável espalhanço que se segue a quem vai atestar o depósito e, à semelhança de um genial Bava, se esquece de engatar a máquina e puxar o travão de mão enquanto vai receber a comenda que ostentará na descida.
É, pois, verdade ser ainda muito cedo para se perceber quem no fim rirá melhor, qual dos candidatos chegará ao altar com as vestes inteiras.
Mas de uma coisa, estou já convencido, poder-se-á PNS com razão orgulhar na contabilidade que faz: é que em matéria de sacristãos, vendilhões e arguidos, se a minha contagem não estiver errada, pelo menos em relação aos que recusando de Conrado o prudente silêncio, entretanto, se manifestaram em praça pública, é ele quem segue à frente. Muito à frente.
E isto não é de todo despiciendo – para quem torce o nariz às contas – na hora de se preparar o orçamento para a forragem que o Presidente Marcelo quer que se distribua antes do final do Inverno.
Nessa altura ainda os prados não terão voltado a estar verdes, floridos e cheirosos, com pasto suficiente para todo o gado que haverá que alimentar e que, com IVA, sem IVA, com caixas de vinho cheias de notas, às cavalitas do Moedas ou à pendura do Mais Habitação e das argoladas dos videntes do Ministério Público, vem a reboque da traquitana.

A proposta do governo para subir o IUC aos veículos mais antigos e poluentes não vai mesmo acontecer. O PS, que tem a maioria do Parlamento, apresentou uma proposta para eliminar a medida do Orçamento do Estado para 2024 (OE2024), defendendo que é “uma questão de justiça social e proteção dos cidadãos com maior vulnerabilidade económica”.
Na proposta de alteração apresentada esta terça-feira pelo grupo parlamentar do PS, os socialistas defendem que “o veículo ligeiro é em muitos casos ainda a principal forma de deslocação para o trabalho ou para deslocação até ao meio de transporte público mais próximo, principalmente fora das principais cidades do país e em zonas de média e baixa densidade, onde a oferta de transportes públicos é reduzida e desadequada às necessidades diárias de mobilidade”.
“Nestes casos, em que o carro é uma absoluta necessidade, acresce o facto de muito cidadãos não terem meios financeiros para a substituição por um veículo mais recente. Assim considera-se importante por uma questão de justiça social e proteção dos cidadãos com maior vulnerabilidade económica, retificar a proposta de OE neste sentido”
O primeiro-ministro tinha anunciado no debate na generalidade do Orçamento, no parlamento, que em 2024 e 2025 haverá um travão que limita o aumento do IUC a um máximo a 25 euros, acusando a oposição de querer assustar os portugueses com o imposto.
Já o ministro das Finanças tinha remetido esta terça-feira para o grupo parlamentar do PS um eventual recuo na subida do IUC para veículos mais antigos, defendendo que o Governo apresentou a sua posição no Orçamento.” (via Executive Digest)
Era mesmo necessário chegar até aqui? Isto serviu para quê? Para ajudar o grupo parlamentar a mostrar serviço?
A sorte é o rapaz do Ribadouro ser um perfeito desastre. O azar é que se não o apearem a tempo o PSD ainda arrisca chegar a Março atrás do Venturinha.
É lá com eles.

(créditos: Tiago Petinga/LUSA)
Já era de esperar. À ameaça sucedeu o anúncio. A concretização chegou à hora marcada com a formalização da candidatura de Pedro Nuno Santos à liderança do PS.
O ex-ministro, enfant terrible da jotinha socialista, o terror dos banqueiros e da troika, e qualquer dia também dos justiceiros do Ministério Público e dos juízes de instrução criminal, há muito que não conseguia esconder a sua ansiedade por este momento. Fico satisfeito por ele. Depois do anúncio da localização do novo aeroporto, em que tanto se empenhou, embora tivesse durado pouco, o rosto maior, e mais alto, do nunismo pode finalmente dar largas à sua euforia e facúndia sem os constrangimentos do costismo.
Em relação aos melões costuma dizer-se que só se sabe se são bons depois de abertos. Não é o caso do candidato Pedro Nuno Santos. É melão grande e que não engana.
Aqui estamos perante um melão vistoso que se tentou abrir várias vezes e como que por artes mágicas fechava-se de cada vez que o queriam cortar. Ou porque se percebia logo que estava a ser cortado pelo lado mais verde, ou porque a faca tinha dificuldade em entrar, ou porque começavam logo a sair umas sementes com formas curiosas que besuntavam tudo e mais ninguém queria continuar com a cirurgia. O resultado é que, como não podia ficar ao ar para não se estragar, enfiavam-no de novo dentro do frigorífico, onde já não teria qualquer hipótese de voltar a amadurecer. Esse processo durou vários anos sem que, todavia, à primeira vista, produzisse melhorias substanciais, com excepção de um aumento de pilosidade na casca.
A consequência dessas tentativas de servirem o melão antes do tempo foi que, entretanto, não só não amadureceu como o bom presunto com cura de 40 meses que havia sido oferecido por algumas empresas para lhe servirem de acompanhamento, quando fosse a inauguração do novo aeroporto de Lisboa, acabou devorado por alguns camaradas mais esfomeados na festa de passagem de ano 2022/2023, assim que perceberam que com os Reis chegariam tempos difíceis.
Após sucessivas galambadas e marcelices, eis que trazem de novo o melão para a mesa numa altura em que escasseiam o presunto e as facas. Pois bastou abrirem a porta do frigorífico e o danado do melão rolou pelo chão da cozinha, depois de olimpicamente resistir à queda da terceira prateleira do frigorífico sem se desmanchar no contacto com o soalho. Milagre, é milagre, gritaram em Belém.
A partir daí, logo Francisco Assis doutoralmente filosofou sobre a qualidade do melão e aquilo que ainda se poderia esperar dele, estando eu neste momento convencido de que muitos dos apóstolos que comungaram com José Sócrates, traíram Seguro e enganaram Costa vão aparecer a toda a velocidade para se sentarem na grande mesa corrida onde vão servir o melão aos fedayin que fizeram carreira na JS.
Ninguém sabe se o melão chegará para todos, nem de onde virá o presunto, se de Sines se do Palácio Palmela, mas começaram os empurrões para ver quem consegue chegar primeiro aos bancos onde se vão sentar os elementos do novo Secretariado. Mais os cônjuges, os filhos, os enteados, as noras, os primos, os netos e os vizinhos.
Enquanto isso, José Luís Carneiro, ciente de que os portugueses estão cansados de tanto melão, tantas foram as vezes em que lhes saíram uns exemplares farinhentos e com sabor a robalo, está a tratar de ver se consegue arranjar uma equipa capaz de preparar umas saborosas pataniscas de bacalhau, sequinhas, sem o óleo daquela mercearia do Largo do Rato onde ultimamente se têm abastecido, acompanhadas por um arroz de tomate malandrinho, a fugir pelo prato, que sem grande cozedura permita aproveitar um dos vinhos correntes e populares que o autarca Isaltino prometeu oferecer ao próximo secretário-geral do PS.
Neste momento ninguém sabe qual dos dois, se Pedro Nuno Santos ou José Luís Carneiro, acabará no Master Chef a mostrar os seus talentos ao provador de vichyssoises, acompanhado pelo candidato que virá do Ribadouro – e anda em todo o lado a prometer, à pala de Marques Mendes, camarão de Espinho e postas mirandesas à fartazana sem encargos para o pessoal –, mais o liberal das lampreias, o pirilampo rabeador do Algueirão, a padeira bloquista e o camarada dos paios alentejanos.
Na verdade, essa ignorância em que os portugueses estão não traz nada de novo. E tem um lado positivo, para além do de colocar os banqueiros, e não só os alemães, a tremer. É que se no fim o melão for intragável, não houver camarão, lampreia, doçaria de feira, queques ou broa para todos, o melhor será escreverem ao Secretário-Geral da ONU, que nos deixou à guarda de um infantário em autogestão, com a lotação esgotada, onde os cães alçam a perna em qualquer lugar sabendo que gozam da protecção do PAN, e não há limoeiro que escape, para ver se o cavalheiro arranja algum sítio, mas longe da Urbanização da Coelha, onde nos possam acolher e preencher as declarações do IRS. Com tudo a zeros.

(créditos: Miguel Figueiredo Lopes/Presidência da República)
Sobre o espectáculo de feira que tem vindo a ser dado nos últimos dias pelos principais protagonistas do regime não valerá a pena perder tempo. Qualquer observador, nacional ou estrangeiro, facilmente percebe que o grau de corrosão das instituições ameaça ruína e é incompatível com uma actuação séria, responsável e credível. E o que se pode dizer relativamente à acção do primeiro-ministro demissionário aplica-se à oposição, ao Presidente da República, ao Ministério Público. Por aí, quem quiser que se dedique a escarafunchar na lama.
Preocupa-me bem mais perceber em que estado este Governo, o Presidente da República e a Assembleia da República chegarão a 10 de Março.
Reis Novais, António Barreto e mais alguns, incluindo aqui neste blogue o Luís Menezes Leitão, chamaram a atenção para os atropelos à Constituição e o exercício de contorcionismo que o PR se propôs fazer, como se fosse política, jurídica e eticamente aceitável que o principal garante do cumprimento da máxima lei do país se satisfizesse com a esperteza da sucessão de formalidades desfasadas no tempo e em claríssima violação das regras de funcionamento do sistema jurídico-político-constitucional, numa tentativa espúria de redenção de um regime que tem sido tão mal tratado pelos partidos políticos.
Lobo Xavier, numa intervenção que me pareceu bastante equilibrada para o que aconteceu, manifestou a sua perplexidade e tristeza pelo que António Costa foi dizer para aquela inenarrável intervenção na sequência da sua demissão, no que aqui o acompanho, atribuindo eu mais esse inexplicável deslize, admitamos que sim, ao desnorte do momento e à sua impulsividade, que tem sido tão má companheira quanto o aconselhamento e apoio que lhe tem sido dado nos últimos dias pela sua entourage.
Que António Costa se rodeou, voluntariamente, de gente do pior e do mais medíocre que o PS pariu nas últimas décadas, e de mais alguns habituados a passarem entre os pingos da chuva sem qualquer vergonha, depois de terem contribuído para a desgraça que conduziu à actual situação de Macau, ao mesmo tempo que enchiam os bolsos, escovavam os fatos e engraxavam os sapatos de um governador sem ponta de vergonha, era um dado adquirido há muito tempo. Que não fosse capaz de perceber os problemas que isso lhe iria causar, assim como ao partido e ao país, já me suscitava dúvidas sobre se seria uma questão de simples temeridade política ou se de inconsciência e confiança nalgum vidente próximo.
O que eu não estava de todo à espera era que o constitucionalista que neste momento exerce funções em Belém fosse capaz de engendrar uma situação que não resolvendo coisa alguma contribuirá para uma ainda maior confusão a partir de 10 de Março.
Fico, aliás, sem perceber, que diferença faz aceitar a demissão do PM e mantê-lo em funções durante mais umas semanas, como se estivesse na plenitude daquelas, e só publicar o diploma correspondente que formalizará e regularizará a situação de exoneração no final de Novembro, ainda que com referência a 7 de Novembro, como referiu Reis Novais, em vez de publicar esse mesmo diploma daqui a dois anos, o que seria mais benéfico, na perspectiva da sua argumentação, se levada a sério (o que para mim se afigura cada vez mais impossível, tal como os comunicados e algumas promoções do Ministério Público que parecem copiar o estilo e os argumentos da “jornalista do lítio”); com o que, ademais, iria ao encontro das expectativas de muitos portugueses que na sua boa fé ainda confiavam nas capacidades de António Costa, apesar de tudo, e num governo de maioria absoluta até ao final da legislatura, assim dando mais tempo e estabilidade ao galambismo para despachar todos os assuntos que tem entre mãos. As condições em que este Governo chegará a Março de 2024 não seriam certamente diferentes daquelas que previsivelmente teria se visse o seu mandato estendido por mais dois anos.
Parafraseando Barreto, tratava-se tão só de prolongar este “extraordinário período de terra de ninguém e de tempo de todos” e continuar a adiar a publicação do diploma de exoneração no Diário da República. Estaríamos assim, repescando a lição de Gomes Canotilho e Vital Moreira, numa espécie de 3.º período “plus” do ciclo normal de vida do Governo, à semelhança do que acontece com as classes de algumas companhias aéreas: ou seja, até que fosse publicado o diploma de exoneração estaríamos com um Governo demissionário com poderes limitados “plus“.
Não que eu defenda esta solução, longe de mim, que teria tanto de irracional, ilógica e fraudulenta quanto teve a semana passada a proposta de uns iluminados socialistas de se reeditar um governo do tipo Santana Lopes com o mesmo argumento que antes se considerou inaceitável aquando da fuga de Durão Barroso. Não; somente quero enfatizar a desvergonha de tudo isto, a desfaçatez com que se fazem propostas destas, como se as pessoas não tivessem memória e os figurões não fossem os mesmos há um ror de anos.
Dir-se-ia que em Belém e em S. Bento há muito tempo que se deixou de pensar, se passou a decidir à flor da pele, com toda a sorte de malabarismos, trapalhadas e cambalhotas, conduzidas por “animais ferozes” que não medem as palavras nem o alcance dos seus actos, sem que se meçam as consequências institucionais e políticas a médio e longo prazo, numa espécie de país do faz-de-conta que importa preservar a qualquer preço enquanto não deixarem a governação nas mãos de juízes, de procuradores e de arrumadores de automóveis capitaneados pelo senhor Ventura. Se é esse o objectivo estão quase lá.
“É uma lástima este secretário de estado da internacionalização. Não serve para nada.”; (…) “Não serve para nada. Não nenhuma capacidade politica. Nenhuma. Nem nada. (impercetível) uma coisa horrível.”
Sem querer entrar na discussão, cumpre-me apenas assinalar o juízo constante de fls. 6235, do NUIPC 581/19.5TELSB, acima transcrito e já ontem à noite destacado num canal televisivo, feito pelo “melhor amigo” do Primeiro-Ministro em relação a uma das suas escolhas, ou por si avalizada, e que me chegou à vista a milhares de quilómetros de Portugal em mais uma prova do funcionamento eficaz do segredo de justiça e do recorrente alto nível de investigação do Ministério Público.
Não sei como nos iremos safar de mais esta alhada em que políticos, procuradores, polícias, juristas e bandidos respeitáveis meteram o país, nem se o que está a acontecer contribuirá para a extinção de uma vez por todas das juventudes partidárias – uma espécie de claques organizadas, à semelhança dos clubes de futebol, de onde, salvo raríssimas excepções, tem saído a pior espécie de dirigentes –, mas servirá certamente para de novo comprovar que um juízo de “lástima” é compatível com o exercício de funções políticas.

Depois das belas mistelas que têm andado a fazer na cozinha e na copa desde que a despensa ficou à sua guarda, e em que ainda não se percebeu o que esteve o Chef a preparar durante quase dois anos, é natural que a louça suja se acumule, os copos estejam um nojo e cheios de dedadas e marcas de batom, as baratas corram vertiginosas de um lado para outro, haja restos de comida pelo chão, as luvas se apresentem com cortes, todas encharcadas por dentro e a cheirar mal, os puxadores das gavetas impregnados de restos de comida e o chão pingado e pegajoso, onde são visíveis as marcas das pegadas dos ajudantes da copa com restos de farinha e massa, sendo impossível no meio de tanta falta de higiene e ausência de limpeza distinguir os panos que servem para limpar a bancada dos que são usados para enrolar as tortas.
Não obstante, há sempre um figurão de roupão e pantufas, que chegou com o anti-ciclone dos Açores e passa a vida a entrar e a sair da cozinha enquanto vai espreitando para dentro do frigorífico a ver se já lá estão as lampreias e os fios de ovos, não escondendo nesse ínterim o afã dos dedinhos sapudos na recolha de umas lascas de presunto caídas na banca, perguntando a todos aqueles com quem se cruza e que envergam avental se a mesa já está posta e o vinho escolhido.
Não, não está e já não vai estar.
Porque com o lote de ajudantes respeitáveis, com experiência de alta culinária, doçaria conventual e salgados que arranjaram, os únicos que se alambazam são os ratos que de quando em vez são pulverizados com insecticida pelos especialistas do Palácio Palmela, razão que os motiva a continuarem as suas frequentes e prolongadas incursões às gavetas dos pacotes de bolachas e afins quando vislumbram junto ao fogão e ao forno mais movimento dos barões de polainas e das duquesas de cores garridas.
De qualquer modo, enquanto os empregados da tasca da esquina, chefiados pelo chefe de sala do Ribadouro, correm à procura de bandejas, se afadigam a colocar aventais novos e apertam os laçarotes pretos na ânsia de iniciarem funções, talvez seja melhor arranjarem uma máquina para cortar a pasta, não vá a supervisão do Banco de Portugal abrir uma investigação para apurar a razão de não guardarem, na falta de lei especial, o fundo de maneio no porta-luvas do BMW. Ou, por causa dos assaltos, no bolso do avental.

O texto é relativamente curto, com pouco mais de cem páginas, deixando-se ler tranquilamente, sem altos nem baixos. Como é típico dos livros de memórias, remete-nos para um passado próximo, com os corpos ainda quentes da memória, de recordações de infância, de deliciosos momentos do quotidiano, todos acabando por conviver com a chegada da nostalgia da lembrança, espécie de nevoeiro que vai tomando conta da luz das horas e dos dias mais soalheiros à medida que se recuperam lembranças.
Rodrigo, irmão de Gonzalo, não é Gabo, mas sendo filho recupera alguns dos melhores momentos de seus pais numa altura em que as despedidas se aproximam e a consciência da aproximação à partida torna tudo ao mesmo tempo mais subtil e mais denso.
Cada dia que vivemos, bem ou mal, alegre ou triste, aproxima-nos mais da morte e esta, como ele escreveu, “não é um acontecimento a que uma pessoa se possa habituar”.
A habituação jamais ocorrerá quando se fala de quem nos quis e que foi querido, e que por essas mesmas razões tende a fixar-se no essencial que nos marcou e que com gosto depois se recorda.
Uma despedida entre entes queridos tem tudo para não ser um momento feliz; o que todavia não impediu o autor de nos trazer um pouco mais de luz sobre os últimos anos de Gabriel García Márquez e sua mulher Mercedes.
Fê-lo num estilo simples, sem arabescos e sem a prosápia de outros filhos, mantendo as distâncias e os protagonistas no local que merecem e que a vida lhes proporcionou, assegurando-lhes a dignidade no momento em que as primeiras folhas de Outono caem para nos prepararem para a invernosa solidão do fim.
Um conjunto de fotografias torna-nos cúmplices dos relatos, aqui e ali pontuados com notas de humor que reflectem a genialidade do homem – no me las puedo tirar todas é um desses momentos mágicos – e o ambiente que o rodeou os seus últimos tempos, prova inequívoca de que mesmo quando se está “sempre embriagado com a vida e as vicissitudes da existência” é em casa que “a maior parte das coisas que vale a pena aprender continua a aprender-se“.
Verdade que nos dias de hoje não será igual para todos, e para muitos é mentira, mas que no caso de Rodrigo se confirma plenamente, pese embora os engulhos que o malfadado Acordo Ortográfico de 1990 continua a provocar em quem traduz e em quem lê. Uma pena a que Rodrigo, Gabo e Mercedes são totalmente alheios e a que só não escapa o leitor português.
Um blogue sobre livros é sempre uma boa opção quando se trata de encontrar alguma informação sobre o que se vai publicando.
Poderá não ser tão regular quanto aqueles em que se escreve sobre o quotidiano, mas tem a vantagem de nos manter atentos ao que se vai escrevendo, traduzindo e editando ente nós.
Escolhi, por isso mesmo, o blogue de rltinha para ser a estrela desta semana, mais conhecido como Os Heretónimos da Peçonha.

Depois da recente visita a Portugal, da condecoração com a Ordem do Infante, e das juras de amor no Dez de Junho à “lealdade e empenho dos portugueses“, estava na hora de uma vez mais se demonstrar o apego à secular amizade e a tanta ternura.
Não havendo dúvidas de que a Declaração Conjunta e a Lei Básica continuam a ser exemplarmente cumpridas, pese embora de quando em vez apareça um ou outro pé descalço que se põe a cantar na rua e coloca em risco a segurança nacional, merecendo por isso adequado tratamento, a equiparação dos portugueses que queiram viver e trabalhar em Macau às trabalhadoras domésticas e ao pessoal que faz segurança nos casinos é um bom sinal de que a integração na mãe-pátria segue a todo o vapor e ninguém é discriminado.
É claro que isso acaba por dar algum trabalho ao Cônsul-Geral, mas pode ser que agora, com a injecção de sangue novo no Conselho Consultivo do Consulado e na Fundação da Escola Portuguesa de Macau, tudo possa ser feito com patriotismo e o devido cuidado. Tirar a Escola do local onde está e, finalmente, fazer render aquele terreno parece-me uma hipótese capaz de desbloquear estes pequenos milandos e dar novo fôlego ao ensino do português e à presença lusa no Oriente.
É evidente que não há aqui nenhum problema de bipolaridade. Nem se trata de haver um discurso para os amigos de Belém e São Bento ao mesmo tempo que se vão dando, assim como quem não quer a coisa, umas caneladas por debaixo da mesa no momento dos brindes.
Não custa perceber que quem se colocou de cócoras, a ver se apanhava as migalhas e umas cerejas que caiam da mesa, ao fim de algum tempo, com os músculos doridos, tenha mais dificuldade em levantar-se, havendo sempre o risco, ao tentar fazê-lo, de levar com um piparote dos outros que tendo chegado mais tarde estejam a tentar ajeitar-se ao lado. Ou que uma pequena brisa deixada pelo último tufão, a quem está nesse estado depauperado, seja o suficiente para lhe fazer perder o equilíbrio e ficar a fazer figura de panda para os comensais.
Não se vê nada disto em França, no Canadá, na Austrália, no Brasil, no Chile, em Cabo Verde ou no Luxemburgo, que ainda há dias levou 9-0 na bola e teria fortes razões de queixa, por exemplo, mas não é por isso que a música e o baile não devem continuar.
Desde que não seja na rua, obviamente.
Isso seria muito mau para os que já não conhecem outra posição a seguir à de cócoras que não seja de gatas, mas também para a segurança nacional e para os lucros de alguns elefantes que não obstante a vetustez e a obesidade continuam a deambular por aí à procura dos frutos da Dillenia indica como se tivessem acabado de chegar. Tudo causas nobres e que dignificam uma secular relação de amizade.
Em Fevereiro de 2000, o Brasil assinou o compromisso de adesão ao Tribunal Penal Internacional, cujo estatuto foi depois publicado e entrou em vigor na ordem interna brasileira pelo Decreto 4388, de 25 de Setembro de 2002, assinado pelo então Presidente Fernando Henrique Cardoso. Ou seja, há mais de 20 anos que o Estatuto de Roma se aplica no Brasil.
Entre 1 de Janeiro de 2003 e 1 de Janeiro de 2011, Lula da Silva foi presidente do Brasil. E este ano voltou a tomar posse para um novo mandato.
As declarações que proferiu, ignorando o princípio da separação de poderes e o Estado de direito, e as dúvidas que levantou, não só não dignificam o Presidente da República Federativa do Brasil, como o diminuem, bem como ao país, passando uma versão cada vez mais básica e atrozmente ignorante de quem ascendeu ao cargo.
A adesão ao TPI não é uma questão de “Maria vai com as outras”. E não é pelo facto de outros não aderirem, por razões egoístas e de puro e recalcado nacionalismo, que deve orientar as escolhas racionais de estados soberanos civilizados que respeitam o Direito Internacional Público.
O chorrilho de inanidades que tem vindo a ser debitado por Lula da Silva, que ainda não está senil, começa a parecer acompanhar o nível dos seus amigos Maduro e Putin; mas o mais grave nem é isso.
O pior é o Brasil ter-se libertado do cabo de esquadra Bolsonaro, visando recuperar a sua dignidade e o respeito internacional, e para isso reelegeu Lula da Silva, para se colocar agora, quase diariamente, na esquina errada da democracia, dos direitos humanos, do conhecimento, da civilização, do progresso e do desenvolvimento, enveredando pela mais aberrante a aterradora das versões populistas.
Não sei o que Lula deve ao ditador e facínora Putin, mas mais de duzentos anos após ter conquistado a sua independência, o Brasil não merecia tão grande enxovalho.
A água é um bem escasso e precioso. A água dos oceanos é património de todos e a todos tem de servir, mesmo àqueles que não têm acesso ao mar ou a água potável e precisam dos recursos daquele e desta para sobreviver.
A libertação das águas retidas pelo acidente nuclear de Fukushima começou a ser realizada sob a supervisão e controlo da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA). Este processo prolongar-se-á por trinta anos e está sujeito a constante monitorização.
A AIEA é um organismo internacional estabelecido sob a égide da Organização das Nações Unidas, que conduz as suas actividades de acordo com a carta e os princípios da ONU, e de que a Coreia do Sul e a China fazem parte, esta última desde 1984.
Nos últimos dias, e aliás na sequência do que aconteceu nos últimos meses, têm-se multiplicado as declarações e comunicados de representantes desses dois países sobre a inconveniência da libertação das águas em questão, ainda que tenham sido objecto de tratamento.
Não tenho dúvida de que este é um problema que merece a atenção e a reflexão de todos.
O que de todo não compreendo é a histeria colectiva que por aí vai com a proibição de importação de produtos japoneses ou a sujeição de alguns deles a fiscalizações mais rigorosas.
Se quanto a estas parece-me que isso pode fazer sentido, pois que cautela e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém, já quanto à proibição pura e simples de importação de produtos parece-me mais um pretexto político, tal como afirmou um empresário local, na minha perspectiva destinado a exacerbar ódios, inimizades antigas e a desviar a atenção das pessoas do essencial.
Se quando a AIEA chama a atenção para a gravidade das situações e impõe limitações estão todos de acordo e se corre a citar os seus relatórios e as afirmações dos seus responsáveis, não se percebe agora qual o motivo para se atacar os relatórios, sem qualquer evidência científica alternativa, o acompanhamento da situação e a monitorização que está a ser feita das águas tratadas e descarregadas.
Li o que foi escrito, também vi e ouvi o que foi dito pela AIEA, e retive as declarações de um dos mais conceituados especialistas portugueses sobre a matéria, Pedro Sampaio Nunes, que afirmou ser o nível de radioactividade não só muito inferior ao esperado como negligenciável, perfeitamente seguro para humanos e animais, como muito mais baixo, por exemplo, do que os níveis de radioactividade registados no rio [em] Manaus. Será preciso beber 3,5 litros da água de Fukushima para se ter o nível de radioactividade desta última (a partir do minuto 8:05).
O presidente da AIEA referiu com toda a clareza que a monitorização e partilha da informação em tempo real é fundamental. E é isso que tem sido feito, não havendo razão para duvidar que as coisas se processassem de outra forma, de má fé ou destinadas a prejudicar os humanos, os animais e os oceanos em geral, numa palavra a própria Humanidade.
Compreendo que para países onde tudo é pouco transparente, secreto, confidencial, constantemente manipulado por motivos políticos e onde se está permanentemente a esconder a informação ao povo e aos parceiros internacionais, muitas vezes colocando em risco a saúde global, seja difícil perceber que os outros países e as agências internacionais não se comportam da mesma forma, não são organismos autocráticos e não funcionam no mesmo registo.
Não se pode invocar o que diz a AIEA e o seu presidente quando nos convém, quando apontam um risco, e desvalorizar o que essas mesmas entidades e os seus peritos dizem quando tal foi objecto de aturado estudo científico e não nos é politicamente conveniente.
Felizmente que em Macau há gente consciente e informada, como se viu numa reportagem da TDM, e que sabe que a desinformação só serve o obscurantismo.
As questões sérias devem ser tratadas com racionalidade, bom senso e boa fé. Não podem estar a ser distorcidas e manipuladas por circunstancialismos politicos.
E entre a propaganda estupidificante, a simples ignorância, o nacionalismo bacoco, o agitar pouco sério de fantasmas ou a ciência, feita por gente séria e qualificada, não tenho dúvida nenhuma de que opto pela última.
E confio tanto na ciência como acredito na independência de raciocínio, na transparência de processos, no acesso livre à informação, na seriedade de quem não teme o acesso a essa mesma informação por parte de terceiros, à sua divulgação atempada, à sua testagem e análise em tempo real, não colocando entraves à entrada e circulação de cientistas estrangeiros e aos seus equipamentos, nem condicionando a acção das agências e dos peritos internacionais por razões políticas.
(créditos: Palácio do Planalto/Ricardo Stuckert)
Se outras razões não houvesse, para além da ausência de Vladimir Putin, a cimeira dos BRICS que está a decorrer na África do Sul está a revelar-se um verdadeiro fiasco.
A ausência de Putin indicava, desde logo, que a bazófia do cobardolas russo não era suficiente para que pudesse confiar nas autoridades sul-africanas. Sem garantias de que poderia exibir-se em segurança e sem ser detido, o carniceiro do Kremlin enviou Lavrov, o seu amestrado serventuário, cão de fila para todo o serviço, optando por discursar em modo de pré-gravação e retransmissão audiovisual no habitual registo distópico sobre a comunidade internacional, fazendo eco de lamúrias e lamentações pelas consequências de uma catástrofe provocada ao seu povo e à Ucrânia por si próprio.
A África do Sul, integrando o Tribunal Penal Internacional, com as linhas da sua política externa claramente definidas, e objecto de reajustamento pelo presidente Cyril Ramaphosa, após o afastamento de Zuma, não poderia dar-se ao luxo de condescender com a Rússia, não cumprindo um mandado de detenção internacional para satisfação do senhor Putin, o que traria problemas acrescidos a quem já tem muitos para resolver, colocaria em causa o desenvolvimento do país e em risco a sua respeitabilidade internacional.
Por outro lado, se é verdade que o presidente chinês se deslocou à cimeira, o facto de não ter discursado, estando previsto que o fizesse, entregando o seu discurso a um subalterno, suscitou de imediato muitas dúvidas e questões, designadamente em Hong Kong, as quais ainda aguardam esclarecimento.
Atendendo à posição proeminente da China nesse fórum e no mundo actual não é normal que fosse o ministro do Comércio chinês, Wang Wentao, a ler o discurso do presidente Xi, pelo que algo de muito grave deve ter acontecido para que a substituição tivesse ocorrido e ninguém apresentasse justificação para ela. De tal forma foi inesperado que, embora o presidente Xi não discursasse, uma porta-voz do MNE chinês, Hua Chunying, divulgou na rede Twitter que o presidente tinha discursado, assim contribuindo para a disseminação de “fake news” à escala global e com chancela oficial.
A situação económica do país e a crise de confiança instalada na China, seja por razões atinentes ao colapso do sector imobiliário ou à gigantesca dívida dos governos locais e das empresas estatais, não pode ser razão suficiente para a mudança. Daí, também, as palavras do antigo embaixador do México na China quando escreveu na mesma rede social que “[u]ma ausência sem aviso prévio, especialmente num fórum multilateral (ao qual a RPC raramente falta), depois de todo o trabalho de base com a Índia, é verdadeiramente digna de notícia. A ser verdade, algo está certamente errado“.
As dezenas de países que pelas mais variadas razões gostariam de se associar aos BRICS – Arábia Saudita, Argélia, Argentina, Indonésia, Irão, México, Emirados Árabes Unidos, Congo, Comores, Cazaquistão ou Nigéria, por exemplo – mostra como será difícil um novo alargamento. E que a ocorrer bloqueará de vez qualquer hipótese de sucesso do grupo. Por agora, depois de muitas promessas, os BRICS navegam entre a simples propaganda, as declarações de intenções grandiloquentes, as peregrinas propostas de Lula e Dilma e muita incerteza.
A disparidade de interesses políticos, económicos e ideológicos entre os actuais membros – China vs Índia, Índia vs. Rússia, África do Sul vs. Rússia – e os que ali pretendem entrar, mostra com toda a evidência que embora o grupo tenha muitas hipóteses de vir a ser uma verdadeira plataforma comercial alternativa e um dinamizador de relações bilaterais entre os seus membros, tudo o mais que anseie corresponder a uma acção concertada e de carácter mais global estará condenado ao fracasso.

Que por esse Portugal fora, e há dezenas de anos, as autarquias têm sido pasto fértil para a produção das nossas elites políticas, não constitui facto novo.
Que, muitas vezes, os respectivos titulares têm estado envolvidos em múltiplos casos judiciais, de má gestão de dinheiros públicos, de clientelismo, nepotismo, compadrio, favorecimento de familiares e amigos, e em milhares de investigações e processos de natureza criminal, que vão do abuso de poder ao peculato, à falsificação de documentos, ao branqueamento de capitais e à corrupção pura e dura, também não é nada, infelizmente, que seja novo para os portugueses. Tudo isso tem feito parte dos quase cinquenta anos de democracia que levamos.
Também é verdade que alguns autarcas, e muitos deles praticamente desconhecidos, têm feito trabalho exemplar nas autarquias, não raro sem alarido e de modo mais ou menos discreto, junto das comunidades que servem, beneficiando o país e as populações, resolvendo problemas, fazendo o que o Estado centralista e despesista não consegue fazer.
E depois há os outros. E dos outros, de quando em vez, lá se vai sabendo qualquer coisa.
Uma notícia e uma reportagem publicadas hoje na revista Sábado vieram lembrar-nos que para lá do país real, dos que não têm dinheiro para pagar as contas em casa ou suportarem os encargos com a saúde e as escolas dos filhos, há um outro país que vive, literalmente, à pala das autarquias, do “tacho”. Há uns que só por serem do partido A ou B têm trabalho e salário garantido, mesmo depois de perderem eleições, e outros que fazem vidas de rico com “salários de miséria”.
No primeiro caso, em Sesimbra, temos o ex-deputado comunista Miguel Tiago, a quem a Câmara continua a oferecer anualmente um contrato de trabalho para prestação de serviços de “assessoria técnica na área do ambiente e desenvolvimento sustentável“, à razão de cerca de 3.000 euros brutos por mês. Relata a Sábado que o Miguel foi contratado após “consulta” a três entidades, mas ninguém foi capaz de dizer quem mais foi consultado para prestar esse serviço (p. 20).
A outra situação é bem mais escabrosa e reveladora da falta de vergonha, do desplante, da dimensão do abuso e dos gostos de novo-rico de alguns servidores da causa pública.
Repare-se que não tenho nada contra o conforto, o luxo ou o gosto por coisas boas e caras, desde que se tenha dinheiro para elas sem andar a roubar, a esfolar o erário público, a enganar o próximo, ou a abusar da posição que transitoriamente se ocupa, embora considere que a ostentação é exemplo de muito mau gosto, coisa para labregos e laparotos.
Mas mais grave do que os almoços de trabalho – é o que está em causa na reportagem – de Isaltino Morais e seus muchachos (páginas 43 a 46), porque também os há em qualquer latitude, e muitas vezes são imprescindíveis, é verificar que essas refeições ocorrem com uma regularidade impressionante, nos melhores restaurantes de Oeiras e Lisboa, e incluem, pelas facturas a que a revista teve acesso, invariavelmente, quantidades generosas de frutos do mar e da terra, de lagostas a gambas, ostras e refinados presuntos, santola, lavagante, leitão, robalos, peixes-galo, queijos de Azeitão, sushi, sapateiras, caranguejos, camarão-tigre de Moçambique, sem esquecer os muitos gelados para a sobremesa, que ali é tudo gente de alimento, gulosa e lambona.
É natural que quem assim tem necessidade de almoçar para poder trabalhar e resolver os problemas dos outros, por vezes tenha de estar a comer até depois das 20 horas, altura em que pede a conta, e seja obrigado a consumir “saké afrodisíaco“, os melhores vinhos, e bebidas espirituosas em quantidade suficiente para que ninguém se esqueça da agenda de trabalho nem do motivo do repasto.
O resultado, está claro, são refeições de centenas de euros pagas com o dinheiro da autarquia noutros tantos milhares de refeições ao longo de cinco ou seis anos. Um “almoço de trabalho” a mais de 140 euros por cabeça não é um almoço de trabalho. É um “banquete de trabalho”. Daí que se veja como normal que uma vereadora se tenha alapado com 450 refeições, o presidente, o chefe de gabinete, o vice-presidente e uma adjunta com cerca de 300 refeições cada um, e até o antigo secretário de Estado da Cultura do poupado Passos Coelho, Barreto Xavier, se alambazou com 77 refeições de 2019 para cá.
Evidentemente que a inclusão de tabaco na conta (charutos?) foram “lapsos”, a corrigir oportunamente, mas fico com dificuldade em perceber como é possível arranjar apetite para se chegarem a fazer quatro, três e até dois almoços no mesmo dia! As facturas não devem mentir.
Onde é que aquela gente “enfiará” tanta comida? Ou será que aproveitam para levar alguma para casa para depois convidarem os amigos e distribuírem à família e aos vizinhos?
Confesso, todavia, que o que me faz mesmo mais confusão é a lata desta malta, pois que a maioria se não estivesse nos lugares em que está não seria com os seus ordenados de “políticos” e de funcionários públicos remediados que ao longo de anos encheriam as suas vistosas protuberâncias com tais iguarias.
Porque não seria, certamente, com os “salários de miséria” que se poderiam dar ao luxo de terem tantos almoços de trabalho, a ponto de haver necessidade de em três facturas de outras tantas refeições, a cerca de 300 euros cada, se ser obrigado a rabiscar no verso “Saladas Sr. Presidente”, sinal de que nesses dias Sua Excelência estaria de dieta, ou, quem sabe, ainda a recuperar do almoço de trabalho do dia anterior.
Sempre ouvi dizer que quem não tem dinheiro não tem vícios. E que a discrição é uma virtude, até para não se ofender ninguém. Mais a mais quando se ocupa um cargo público. E que há que respeitar os sentimentos dos outros, por vezes, também, a desgraça alheia, pois que nem todos têm a mesma sorte na vida. Mas pelos exemplos que diariamente nos chegam das nossas elites políticas e empresariais não terá sido essa a cartilha de muitos.
O juiz Carlos Alexandre, exemplo que também me pareceu extremo e de muito mau gosto para o ter confessado a um jornalista, atenta a sua posição no universo dos profissionais pagos pelo Estado, ainda que com estatuto especial, pode não ter dinheiro para mudar a fechadura da porta de casa depois de ter sido visitado por desconhecidos mais do que uma vez. E muitos mais haverá como o tal juiz, por Portugal fora, que não só não têm para a fechadura como para comer decentemente e alimentarem os seus filhos. O que constitui uma tragédia que a todos nos envergonha. Porém, para alguns autarcas, pese embora esse universo desigual e a necessidade dos outros portugueses terem de partilhar com eles o mesmo país, não há-de faltar o Pêra Manca e o lavagante à custa das autarquias, isto é, dos outros e dos impostos que estes pagam. Não era preciso serem como o miserável do Botas ou como o Cunhal, mas fossem muitos deles a pagar do seu bolso e continuariam nos croquetes, nos bitoques e nas febras.
E não interessa se trabalham muito ou pouco; não é isso que está em causa.
Podem ter bom gosto, e ultimamente mais caro e refinado, que serão sempre uns pacóvios e umas deslumbradas que dão mau nome às autarquias, à classe política em geral, sempre à espera de uma oportunidade para se armarem em finórios. E que são, por muito que nos custe, o espelho das nossas miseráveis e ignorantes elites.
Uma democracia consolidada, sim, é verdade; não deixando de ser um país de isaltinos, de venturas e de “só-cretinos”.

(créditos: Miguel A. Lopes/Pool via Reuters)
Embora educado de acordo com os seus valores, e de uma vez, estando de férias em casa de uns tios, me terem posto a ajudar à missa, da qual rapidamente me afastaram depois de ter ido, mais o outro sacristão estival, provar a vinhaça do cura, há muito que me afastei da Igreja Católica Apostólica Romana, da missa dominical e dos seus ritos.
Do clero, em geral, sempre desconfiei, até porque o meu irmão teve a infelicidade, a que eu escapei por ser mais novo e contar com a sua ajuda, de passar por um colégio interno gerido por um louco, acompanhado de outros dementes, que impunham castigos medievais, e eu próprio conheci alguns que me inspiravam tudo menos confiança.
E apesar de algumas vezes, ao longo da vida, me cruzar com um ou outro mais mundano, civilizado e bem disposto que passava lá por casa para tomar chá com a Mélita, a quem até quase ao final da adolescência, e mesmo depois, muito mais tarde e mais velho, acompanhava à missa para ela não ir sozinha, nunca gostei da “padralhada”. E do Cerejeira nem é bom falar.
Todavia, não foi isso que me impediu de ir acompanhando a sua vida, de ver como muitos faziam o seu percurso opondo-se à ditadura, mantendo-se firmes na defesa dos verdadeiros valores da instituição que serviam, lutando contra e denunciando as atrocidades do colonialismo; ou de eu próprio voar para Roma mais do que uma vez, de percorrer o Vaticano, de numa ocasião ter ido a Castel Gandolfo, de continuar a entrar nos seus templos espalhados por Itália e pelo mundo, e aí me recolher para, à minha maneira, ir conversando com Ele, até porque a fé não se explica, cada um tem a sua e as pessoas não são todas iguais e dotadas de igual racionalidade.
Depois, as posições conservadoras do Papado, as ideias ultra-radicais de uns quantos padres, a forma como a Igreja se ia afastando da sociedade, protegendo bandidos ricos e ignorando pobres e desvalidos, ao mesmo tempo que através dos seus membros se envolvia em negociatas pouco recomendáveis, com mafiosos e gente estruturalmente desonesta, e o modo como muitos dos seus se comportavam, tão depressa fazendo de empreiteiros como de ladrões, antes mesmo dos sucessivos escândalos que abalaram as paredes milenares do seu edifício, do Banco Ambrosiano à pedofilia e à protecção durante anos de mentecaptos de batina e de toda a canalhada pedófila, tudo isso contribuiu para olhar para ela não com um mas com os dois pés atrás. Dali nunca vinha coisa boa. Até há pouco.
A ascensão de Francisco, a inteligência e a franqueza com que iniciou o seu caminho, a leitura que fiz da sua encíclica Laudato Si’ e de outros textos, as suas sucessivas intervenções, que não se afastando daquela que será a própria lógica da Igreja imprimiram uma marca distintiva de humanidade e de uma maior aproximação ao mundo real e aos problemas do quotidiano, tentando mudar por dentro, firmemente, contra toda a resistência de muitos no seu interior, fizeram-me olhar para ele, enquanto Papa e ocupante do trono de S. Pedro, com outros olhos.
Verdade seja dita que de alguém que tomou o nome de Francisco pelas razões que logo nos deu a saber, que jogou futebol e gosta de futebol, que se apaixonou e namorou na juventude antes de fazer a sua escolha, que é capaz de apreciar os pequenos prazeres desta vida, e de olhar para os outros como se nunca tivesse saído do mundo, já faziam dele um tipo diferente.
Mas ver como foi capaz de reaproximar a Igreja das pessoas, de que a JMJ de Lisboa constitui inequívoco exemplo, de compreendê-las, de se envolver com todos, devolvendo fraternidade, candura e ternura de onde estas se tinham eclipsado, despojando-se de muita da pompa e da ostentação cultivada pelos seus antecessores, mostrando ao seu rebanho e aos outros, dos mais crentes aos menos crentes, aos agnósticos e aos ateus, que nem tudo está perdido e que há um caminho comum a percorrer com todos, incluindo com os que não acreditam e com os seguidores de outros credos, para a construção de um mundo melhor, mais justo, mais equilibrado, mais verde e mais inclusivo, fazem dele um homem diferente.
Acompanhando à distância a visita de Francisco – e também alguns excessos do Estado laico e dos seus representantes de ocasião –, vi, não obstante as suas limitações físicas e o natural cansaço, próprios de uma pessoa adoentada e com a sua idade, o seu empenho em chegar a todos, em dar uma imagem diferente da Igreja, em deixar o exemplo, em lançar uma semente que possa frutificar saudável. Como vi a sua aposta num diálogo franco e aberto, sem que isso o obrigue a mudar de convicções, de valores ou de princípios.
Não creio, ainda que quisesse acreditar, que alguma vez mudarei a minha relação com a Igreja e o clero, ou a forma como olho para Deus. Todo o sofrimento que vi, e o que ao longo da vida fui obrigado a acompanhar, não me permitem pensar de outra maneira. Porque há sofrimentos absolutamente inexplicáveis, injustiças inauditas e crimes que nenhum Deus poderoso, se existisse, no seu perfeito juízo permitiria. E não me venham com as vossas justificações, poupem-me à estupidez.
Não obstante, do homem que por momentos está como Papa, daquele que diz, e repete, que a Igreja é de todos – embora eu ainda não consiga alcançar que Igreja será essa, nem quando será de todos –, e que diz aos fiéis que “sejam surfistas do amor”, linguagem que sou capaz de entender, só posso dizer que não existe. Este Papa não existe.
Francisco sim. E este parece-me ser, com todos os seus defeitos, nos dias que correm, um tipo absolutamente excepcional.
Quem sabe se por isso, por uma vez, não deverei dar graças a Deus?