Borges: maior depois da morte


Pedro Correia,

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É possível fazer a lista dos cem melhores livros de todos os tempos? Parece que sim. Mesmo que se trate de uma lista como esta, que resultou de uma parceria entre Le Monde e a FNAC, o que talvez justifique a aparição do Astérix cinco lugares acima do Ulisses, de Joyce.

É possível fazer a lista das cem melhores frases iniciais de livros? Parece que sim: esta, por exemplo, da American Book Review. Que não esquece, entre outras, o inesquecível arranque d’ O Estrangeiro, de Camus: «Aujourd’hui, maman est morte. Ou peut-être hier, je ne sais pas. J’ai reçu un télégramme de l’asile: Mère décédée. Enterrement demain. Sentiments distingués. Cela ne veut rien dire. C’était peut-être hier.» Ou o insuperável começo d’ A História de Duas Cidades, de Charles Dickens: «It was the best of times, it was the worst of times, it was the age of wisdom, it was the age of foolishness, it was the epoch of belief, it was the epoch of incredulity, it was the season of Light, it was the season of Darkness, it was the spring of hope, it was the winter of despair.» Ou a célebre frase inicial d’ O Grande Gatsby, de Scott Fitzgerald: «In my younger and more vulnerable years my father gave me some advice that I’ve been turning over in my mind ever since.» Já para não falar do início da Lolita, de Vladimir Nabokov: «Lolita, luz da minha vida, fogo da minha virilidade, meu pecado, minha alma.» Ou do modo como Tolstoi começou a escrever a sua imortal Anna Karenina: «As famílias felizes são todas parecidas, mas cada família infeliz vive a infelicidade à sua própria maneira.»

 

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Sem dúvida um dos melhores começos é o dos Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez: «Muchos años después, frente al pelotón de fusilamiento, el coronel Aureliano Buendía había de recordar aquella tarde remota en que su padre lo llevó a conocer el hielo.» Mas sinto-me levado a concordar com Jorge Fernández Díaz, que escreve no diário argentino La Nación: o parágrafo inicial d’ O Aleph, de Jorge Luis Borges, fica-nos na memória para sempre: «La candente mañana de febrero en que Beatriz Viterbo murió, después de una imperiosa agonía que no se rebajó un solo instante ni al sentimentalismo ni al miedo, noté que las carteleras de fierro de Plaza Constitución habían renovado no sé que aviso de cigarrillos rubios; el hecho me dolió, pues comprendí que el incesante y vasto universo ya se apartaba de ella y que ese cambio era el primero de una serie infinita.» Verdadeiramente excepcional.

O autor de Ficciones morreu há 40 anos. Mas «Borges se agranda después de Borges», como justamente titulava o El País já em 2011. De quantos outros autores seus contemporâneos se pode hoje dizer o mesmo?

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Pedro Correia,

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Quais e quantos dos escritos póstumos de um autor devem ver a luz do dia? Problema que se pôs (e põe ainda, de alguma forma) com dois dos maiores escritores portugueses de todos os tempos: Eça de Queiroz e Fernando Pessoa. O primeiro viu parte significativa dos seus textos serem alterados pelo próprio filho, o segundo teve tantos “legatários” a revolver-lhe a arca que tarde ou nunca se fixará a sua obra completa em termos irrefutáveis.

Para não abandonar a língua portuguesa, recordo a enorme polémica que rodeou a publicação, no Brasil, dos “poemas eróticos” de Carlos Drummond de Andrade cinco anos após a morte do poeta que escreveu  «Oh! Sejamos pornográficos / (docemente pornográficos). / Por que seremos mais castos / Que o nosso avô português?»

Repare-se, a propósito, no que sucedeu com Ernest Hemingway, que morreu em 1961: os seus herdeiros têm publicado tudo quanto encontram, incluindo obras parcelares, incompletas, que o Nobel de 1954, sempre tão perfeccionista, jamais quereria ver editadas. Ou como o mercado editorial norte-americano se agita com a perspectiva de virem a ser lançados os 15 manuscritos que J. D. Salinger terá concluído durante as suas décadas de reclusão voluntária e guardado cuidadosamente num cofre.

 

Publicar ou não publicar? Eis a questão.

Franz Kafka pediu a Max Brod que lhe queimasse os originais. Felizmente o amigo traiu a promessa: se o desejo de Kafka tivesse sido acolhido, o mundo ficaria privado de algumas obras-primas indiscutíveis da literatura universal.

Só há mesmo um método infalível para um escritor evitar indesejáveis lançamentos post mortem: queimar ele mesmo os manuscritos. Caso contrário arrisca-se a que sejam editadas «até as suas contas de mercearia», como costumava dizer Vergílio Ferreira com certeiro sarcasmo.

Quantos destes cem?


Pedro Correia,

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Tenta ser uma lista canónica. Conseguirá alcançar este objectivo? Os leitores que julguem. Os cem melhores romances de autores britânicos de todos os tempos – títulos escolhidos por 82 críticos de vários países anglófonos espalhados pelo mundo a pedido expresso da BBC. 

Entre os quinze primeiros, figuram sete obras escritas por mulheres: Middlemarch (George Eliot), To the Lighthouse e Mrs. Dalloway (Virginia Woolf), Jane Eyre (Charlotte Brontë), Wuthering Heights (Emily Brontë), Frankenstein (Mary Shelley) e Pride and Prejudice (Jane Austen). Merecem ou não este destaque? Que outros títulos deviam aqui figurar mas estão ausentes?

E, dos cem aqui seleccionados, quantos vocês já leram?

Quem quiser, responda.

Eu já contei, revelo depois. 

Cobardia física e miopia moral


Pedro Correia,

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Salman Rushdie fotografado por Murdo Macleod

 

Como era óbvio, mais um ano transcorrido, Salman Rushdie não foi distinguido com o Prémio Nobel da Literatura. Nem o será. O Comité Nobel está infectado há muito tempo pelos vírus da cobardia física e da miopia moral. Se dois tradutores foram assassinados por terem ousado verter os Versículos Satânicos para outros idiomas, mais ameaçados ficariam os membros do aludido comité se prestassem justiça a um escritor que já merece o galardão desde 1981, quando publicou esse extraordinário romance que é Os Filhos da Meia-Noite

Como premiar um autor que caminha há décadas sob o fio da navalha, condenado à morte pelos inquisidores islâmicos e alvo de um miserável atentado em Agosto de 2022 que o deixou cego de um olho? Ninguém se atreverá a tanto. Sem desconsiderar Jon Fosse, o norueguês distinguido este ano, a sua reiterada omissão da lista de galardoados acaba por enobrecer o romancista britânico nascido em Bombaim — «o sobrevivente», como acertadamente lhe chamou a revista Le Point.

Está muito bem acompanhado nesta vergonhosa omissão, integrando um longo cortejo dos melhores do século XX, de Joyce a Borges, de Ibsen a Kafka, de Tolstoi a Orwell, de Malraux a Virginia Woolf. Todos superaram o maior dos desafios: o decurso do tempo. «Se conseguir passar no teste de mais uma ou duas gerações, poderá perdurar», escreveu Rushdie, precisamente n’Os Filhos da Meia-Noite, a propósito de outro assunto. Os prémios passam, os júris eclipsam-se, a obra fica.

Os cobardes


Pedro Correia,

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Notável peça jornalística da revista Le Point desta semana: entrevista exclusiva com Salman Rushdie. O grande escritor está de volta após ter sido quase assassinado a 22 de Agosto de 2022, em Nova Iorque, por um extremista islâmico armado com um cutelo. Em 27 segundos levou 15 naifadas, sobreviveu quase por milagre. Mas não saiu ileso: ficou cego do olho direito, como a fotografia de capa documenta.

Felizmente Rushdie é daqueles que não desistem. Aos 76 anos, tem outro livro já ao encontro dos seus numerosos leitores: A Cidade da Vitória, romance histórico, ambientado na Índia do século XIV, mas obviamente com a intenção de retratar os dias de hoje. «Este mundo imaginário fala do nosso mundo real, o que sempre acontece com os romances, a pretexto da ficção», assinala na entrevista.

Testemunho desassombrado: nem seria de esperar outra coisa dele. Arrasa os dogmas da correcção política, critica sem rodeios a esquerda e a direita que ameaçam a liberdade de expressão com o mesmo ímpeto censório, afirma a necessidade de militarmos em defesa dos direitos fundamentais pois nenhum está garantido a título perpétuo – muito longe disso. «Quando se trata da democracia, não estamos num salão de chá, temos de nos bater por ela.»

Perseguido, injuriado, ameaçado, alvo de tentativas de homicídio pelo criminoso regime de Teerão desde a publicação dos Versículos Satânicos, em 1988, ele não se verga. Evidenciando coragem física e moral. Em contraste absoluto com os cobardes membros do júri do Prémio Nobel da Literatura – que ano após ano o ignoram. Quando bastaria esse fabuloso romance intitulado Os Filhos da Meia-Noite, de 1981, para lhe valer este galardão que já distinguiu tanto autor medíocre.

«De que necessita realmente um ser humano quando vem ao mundo? De ser alimentado, de estar em segurança, de ser amado se tiver possibilidade disso. Mas que pede ele aos pais quando já comeu e se sente aconchegado na cama? “Conta-me uma história…” Esta necessidade de histórias acompanha-nos desde a origem.» Sabe do que fala, este escritor que tanto admiro. Tem fibra de resistente. É um exemplo para todos nós.

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Pedro Correia,

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Tanto se fala agora em literatura feminina. Ou em livros escritos por mulheres, mais secamente, numa tentativa – inexplicável para mim – de expurgar o adjectivo feminino da linguagem corrente, como se soasse a condescendência masculina.

Tenho a mania de elaborar listas. Num destes dias, pus-me a pensar quais terão sido os 50 melhores livros que já li escritos por mulheres – ou senhoras, para usar uma linguagem antiquada mas que era corrente durante as vidas de grande parte delas. 

Lembrei-me destas que aqui deixo, por ordem cronológica, partilhando-as convosco. Talvez possam evocar boas memórias das vossas próprias leituras. 

Uma evidência: quase todos estes livros são romances ou novelas. Abri raras excepções, que se justificam pela qualidade das obras: os volumes de contos de Katherine Mansfield e Alice Munro, e as memórias de Karen Blixen. Estas, aliás, podem ler-se como um romance. Não incluo poesia, nem história, nem ensaio.

Outra anotação: esta lista só abrange, de propósito, autoras estrangeiras. As portuguesas merecem menção especial, por diversos motivos. Constarão, portanto, de outra lista que divulgarei em breve.

 

Orgulho e Preconceito, Jane Austen (1813)

Jane Eyre, Charlotte Brontë (1847)

O Monte dos Vendavais, Emily Brontë (1847)

O Tesouro, Selma Lagerlöf (1904)

Numa Pensão Alemã, Katherine Mansfield (1911)

O Regresso do Soldado, Rebecca West (1918)

A Idade da Inocência, Edith Wharton (1920)

Mrs. Dalloway, Virginia Woolf (1925)

O Assassinato de Roger Ackroyd, Agatha Christie (1926)

Rumo ao Farol, Virginia Woolf (1927)

A Mãe, Pearl Buck (1934)

Um Crime no Expresso do Oriente, Agatha Christie (1934)

E Tudo o Vento Levou, Margaret Mitchell (1936)

África Minha, Karen Blixen (1937)

Rebecca, Daphne du Maurier (1938)

Convite Para a Morte, Agatha Christie (1939)

Coração, Solitário Caçador, Carson McCullers (1940)

Reflexos nuns Olhos de Oiro, Carson McCullers (1941)

Laura, Vera Caspery (1943)

Gigi, Colette (1944)

Nada, Carmen Laforet (1945)

O Desconhecido do Norte-Expresso, Patricia Highsmith (1950)

Memórias de Adriano, Marguerite Yourcenar (1951)

A Colina da Saudade, Han Suyin (1952)

O Preço do Sal / Carol, Patricia Highsmith (1952)

Preconceito Racial, Pearl Buck (1953)

Ciranda de Pedra, Lygia Fagundes Telles (1954)

O Talentoso Mr. Ripley, Patricia Highsmith (1955)

Mataram a Cotovia, Harper Lee (1960)

Primeira Memória, Ana María Matute (1960)

A Campânula de Vidro, Sylvia Plath (1963)

Vasto Mar de Sargaços, Jean Rhys (1966)

O Olhar Mais Azul, Toni Morrison (1970)

Malina, Ingeborg Bachmann (1971)

Ressurgir, Margaret Atwood (1972)

As Meninas, Lygia Fagundes Telles (1973)

O Conservador, Nadine Gordimer (1974)

A Casa dos Espíritos, Isabel Allende (1982)

O Amante, Marguerite Duras (1984)

Turista por Acidente, Anne Tyler (1985)

Corações de Pedra, Ruth Rendell (1986)

O Quinto Filho, Doris Lessing (1988)

O Deus das Pequenas Coisas, Arundhati Roy (1997)

Harry Potter e a Pedra Filosofal, J. K. Rowling (1997)

Pequenas Infâmias, Carmen Posadas (1998)

A Louca da Casa, Rosa Montero (2003)

Instruções para Salvar o Mundo, Rosa Montero (2008)      

Telex de Cuba, Rachel Kushner (2008)

Coonduz o Teu Arado sobre os Ossos dos Mortos, Olga Tokarczuk (2009)

Amada Vida, Alice Munro (2012)

A quase extinção do homem analógico


João Pedro Pimenta,

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Confesso: apesar de o meu Pai me garantir que era (até há dias, evidentemente) o maior escritor americano vivo, nunca li um livro de Cormac McCarthy e tanto quanto sei só vi um filme adaptado de uma obra dele – o famigerado No Country for Old Men. Este artigo de in memoriam de Paulo Faria (excelente tradutor, já agora), que em “leitura aberta” para não assinantes só se consegue ler o início, revela-nos um escritor que não só cresceu em viva comunhão com a natureza mas que acima de tudo NUNCA usou a net para absolutamente nada, recorrendo sempre, até morrer, à sua máquina de escrever.

 

Isto é absolutamente extraordinário, e traz-nos à memória antigos correspondentes de jornais, de mangas arregaçadas, por vezes fumando copiosamente, teclando furiosamente as suas Remingtons, para deixar pronto a tempo o artigo do dia seguinte com o melhor tratamento possível da língua. Não sei se seria o caso de McCarthy, mas não posso deixar de pensar em todas as discussões, críticas e debates exclusivamente na net sobre a sua obra e as respectivas adaptações que ele nunca viu nem imaginou. Era, pois, um ser em vias de extinção: uma pessoa absolutamente analógica. Isto escrevo eu, no meu computador, na net, da qual dependo imensamente, como a maioria das pessoas, com um tudo de nada de inveja e muita admiração.

Mais cem escritores indispensáveis (99)


Pedro Correia,

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«Um ser humano deve ser capaz de mudar uma fralda, planear uma invasão, comandar um navio, arquitectar um prédio, escrever um soneto, fazer contas, erguer um muro, ajustar um osso, consolar um moribundo, receber ordens, dar ordens, cooperar, agir na solidão, resolver equações, programar um computador, confeccionar uma saborosa refeição, lutar com eficácia, morrer com garbo. A especialização é para os insectos.»

Robert A. Heinlein (1907-1988)