A Febre de Sábado à Tarde


Maria Dulce Fernandes,

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Coleccionar é meu costume desde pequena. Selos, moedas, postais, talões de entradas em transportes e locais diversos… e cadernetas de cartas e cromos, primeiro apenas com a Neta e agora também com o Neto e a maluquice dos “bonecos da bola”.

Com o advento do Mundial, começaram as cruzadas em busca da caderneta e seguidamente dos cromos. A distribuidora tem como estratégia de marketing oferecer cadernetas às crianças à saída das escolas, mas oferecem apenas vinte ou trinta, sabendo que uma escola não funciona com menos de duzentas crianças. O que acontece é que quem não foi contemplado com a oferenda vem para casa triste e a pedir para fazer a colecção.

É aqui que a porca torce o rabo, porque não há cadernetas para a venda, e dos cromos nem se fala.

Consegui a minha caderneta no princípio do mês de Maio, num obscuro quiosque perto de um Centro de Saúde onde fui fazer um rastreio de retinopatia diabética. Nesse dia trouxe a caderneta e um molhinho de saquetas de cromos. Nas semanas que se seguiram corremos todas as capelinhas conhecidas, o quiosque inclusive, mas de cromos, nada.

Num sábado à noite, passou no telejornal uma peça sobre um evento realizado aos sábados, a alguns metros da minha casa, numa lojinha para coleccionadores de um pequeno centro comercial, onde se compravam e trocavam cromos, de diversas categorias e variadas colecções. Não tardou que o toque do telefone interrompesse a nossa atenção à televisão. O Neto pedia para o levarmos à reunião de coleccionadores. Ficou combinado que iríamos no sábado seguinte.

Como o que é prometido, é devido, preparámo-nos e lá fomos. Com a grande publicidade obtida com a peça na TV, o número de pessoas que se propuseram participar no evento provavelmente decuplicou. No parque de estacionamento, na esplanada, nos passeios, nas escadas, no chão, por todo o lado, havia gente com cadernetas abertas, papéis com listas enormes, envelopes, bolsas, caixas, baús cheios de cromos, que compravam, vendiam e trocavam. O ambiente era de uma alegria contagiante, a música era envolvente, o convívio era total. Depois de três horas, de conseguirmos um lugar no chão e de conversarmos com sei lá quantas pessoas, cumprimos o nosso propósito e regressámos a casa com setenta novos cromos, trinta trocados e cinquenta comprados avulso.

Tivemos uma tarde bem passada, produtiva e divertida. Provavelmente voltamos no próximo sábado.

Falta muito para acabar a caderneta, mas sabemos agora que é possível chegar lá, sem ter de gastar centenas de euros e que as crianças encontram amigos e colegas, fazem novas amizades e divertem-se sem TVs ou telemóveis.

Relatores, relatadores, narradores


Pedro Correia,

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Fui tendo vários relatores (ou relatadores) de futebol preferidos, consoante as épocas. Do Artur Agostinho e do Fernando Correia, os primeiros que ouvi, até ao Miguel Belo, actualmente. Passando pelo Romeu Correia, o Manuel Fernandes (que morreu cedo, num acidente), o Nuno Brás, o Ribeiro Cristóvão, o Costa Martins, o David Borges, o Pedro Azevedo, o Pedro Sousa, o Fernando Eurico, o Carlos Daniel, o Paulo Sérgio…

Alguns – sobretudo os mais antigos – criaram expressões que fizeram escola e se incorporaram no vocabulário comum. “Bola à flor da relva”, “retenção de bola”, “tapete verde”, “no enfiamento da jogada”, “o pé que tem mais à mão”…

Houve uma época, aliás longa, em que o Jorge Perestrelo também era o que eu mais gostava de ouvir. Criou expressões que toda a gente passou a dizer, como a “revienga”, “ripa na rapaqueca”, “é disto que o meu povo gosta”, “o que é que é isso, ó meu?!” e “essa até eu marcava, com a minha barriguinha…”

Às vezes, nas partes mais chatas dos jogos, falava de outras coisas, como a deliciosa moamba que a mãe cozinhava. Era um espectáculo sonoro associado ao espectáculo visual.

 

Há histórias extraordinárias de relatores da bola – hoje gostam de intitular-se narradores. Lembro-me de uma do Artur Agostinho, nos velhos tempos em que andava “com a baliza às costas” – isto é, quando se trabalhava em precárias condições. Num jogo internacional, sem acesso à ficha com os nomes dos jogadores estrangeiros, inventou-os todos…

Hoje, claro, seria impossível. Aliás alguns passam mais tempo a olhar para o ecrã onde estão as estatísticas do que a ver o jogo. E não relatam nem narram. Só debitam nomes e números 

Se profissionalismo é isto, confesso sem hesitar que preferia o amadorismo anterior. 

Palração


Pedro Correia,

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«Há que reflectir sobre o paradigma deste futebol.»

«A boa colocação das linhas virtuais permite-nos fazer a avaliação certa dos lances.»

«O clube não conseguiu traduzir a intensidade do seu jogo.»

«Há jogos com outra intensidade competitiva.»

«Essa resignação pode ser uma projecção da falta de exigência mais acima e de uma liderança mais efectiva em termos de balneário.»

«A equipa não tem níveis de coesão suficientes para introduzir um jogador tão jovem.»

«Caiu numa zona de bloqueio da qual vai ter de sair.»

«Tem de integrar-se na filosofia colectiva da equipa que representa.»

«As grandes equipas da Europa conseguem atingir níveis exibicionais significativos.»

«O conceito do treinador baseia-se numa marcação mais subida.»

«Do ponto de vista do esqueleto táctico, a disposição no terreno faz sentido.»

«São dois jogadores verticais que dão mais profundidade à equipa.»

«O jogador X mostrou um ritmo baixo, mostrou alguns pormenores.»

«Queremos contribuir para um futebol menos macrocéfalo.»

«O futebol é uma lógica de conjunturas.»

 

Perceberam?

Eu também não. É uma espécie de dialecto autónomo, só praticado por alguma gente da bola e que tem como principal cultor um jornalista televisivo capaz de rivalizar em fôlego com Fidel Castro, que em 1998 falou sete horas e um quarto sem parar na Assembleia Nacional cubana, ou Hugo Chávez, que chegou a falar igualmente sem parar durante nove horas e meia no parlamento de Caracas.

Quem não seja iniciado neste jargão muito particular do “esqueleto táctico” e da “intensidade competitiva” mantém-se totalmente à distância. Porque o dialecto acima transcrito, ao contrário da esmagadora maioria dos restantes, não foi criado para comunicar: existe para cavar um fosso deliberado entre o seu inventor e o comum dos mortais.

A razão? Incutir respeito.

Ou respeitinho, mais à portuguesa.

 

É uma receita infalível. Porque, em regra, os portugueses só respeitam o que não entendem. E aqui entre nós: quem é que entende minimamente o que significa “filosofia colectiva”, “jogadores verticais” e “marcação subida”?

O respeitinho é muito bonito. Para evitar cair em zonas de bloqueio, sem níveis exibicionais significativos nem esqueletos tácticos – dentro ou fora dos balneários.

Uma interpretação do Sporting-Arsenal


jpt,

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Qual de nós o aventaria? Até mesmo o sonharia? Abandonados pelo (ex?)mago Rúben Amorim, amputados do bombardeiro Gyokeres, e – afinal (!) – eis-nos nos quartos-de-final da Liga dos Campeões (a “Champions” dizem os guturais). 43 anos depois!, e tão mais difícil o é agora do que o era então…

Quanto ao jogo? Começo pelo melhor em campo: Rui Borges! Grande lição dada. Pois desprovido de vaidade teve a competência de se saber adaptar, desnecessitou de afixar o seu “selo”, a sua “marca d’água”, nisso poisou o seu tiki-tasca que tanto se vem impondo e face ao melífluo e competente Arsenal trancou a equipa. Não a esta fazendo expectante, “pequena” diante do Golias John Bull, mas injectando-a de venenoso contra-ataque, nisso supreendendo o adversário. Mas a sorte não protegeu os audazes, logo no inicial estoiro à barra do Maxi Araújo – que grande jogo!, será melhor começarmos a despedir-nos dele, algum colosso o levará… – e em mais meia dúzia de jogadas. Os adversários ficaram meio manietados, sem grandes hipóteses mesmo sendo uma tropa de artistas que num ápice desencantam fragilidades alheias.

Entretanto o nosso moçambicano Geny Catamo foi reafirmando que é a alegria do povo (não pode ser transferido…!), Trincão que está um jogador fantástico, muito para além do habilidoso que sempre foi, e o quase-velho Morita flanando excelente. Enfim, o Sporting foi muito competente, mesmo. E nem vale a pena procurar um bode expiatório, apesar de quatro ou cinco péssimos passes de um dos centrais (que não nomearei, pois “é a equipa que ganha, é a equipa que perde”), o qual durante o jogo me pareceu acabrunhado, vá-se lá saber porquê, talvez assuntos da sua vida pessoal. E aquele buraco na defesa aos 90 minutos?, raisparta…

Mas logo após o golo, doloroso, sofrido no último minuto, houve Sporting! Ainda a bola estava no centro, pronta para o recomeço, e todos em pé a aplaudir a equipa – mostrando o óbvio: a gente vai lá, à Pérfida Albion, e ganha! Pois “Borges Rules!”, lamentar-se-ão eles… E o apêndice. Soado o apito final Gyokeres com honra (e coragem) sai sozinho para uma volta ao estádio e é acolhido com os aplausos devidos. A zanga conjugal foi feia, no “divórcio” os “advogados” dele foram péssimos (e não lucraram com isso, uma lição que lhes foi dada…). Mas agora as pazes estão feitas, o amor é assim quando entre gentes de bem.

(Excerto com as partes mais “técnicas” do meu postal “Fui à bola” no meu blog)

(O Mundo Sabe Que, bicampeões 24/25)

Futebol


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O ano passado adormeci três ou quatro vezes enquanto via jogos do Sporting. Afligi-me com isso, atribuindo o acontecido à crescente vetustez, já ascendida aos então 58 anos, isto da sonolência insone, do desmemoriar, da tensão alta, mais o pingo no nariz, a mão trémula, a corcunda descendente, as cáries viçosas, o lacrimejar involuntário, as unhacas recurvadas, a plural variz túrgida, a azia constante – a gástrica e a existencial -, o pesadelo com a “Mitra”, o “ai se fosse no meu tempo” quando passam as beldades cinquentonas, as notícias dos (sobrinhos-)netos já adultos, o timorato ao volante, o “Sô Doutor” médico de família num “vá lá à Champalimaud inspeccionar os pulmões”, e mais a vasculha da próstata e de restantes vísceras, o já entrever ao longe, desbotado o olho de águia (salvo seja…) que sempre foi o meu e, talvez mais do que tudo, o omnipresente “já não vale a pena”…, seja lá diante do que for.

 

Hoje percebi o quanto estava errado. Desperto estava, e bem, a ver um jogo do Sporting, deslocado à sempre Cidade-Berço, reduto dos vimaranenses. Saiu na rifa um penalti fajuto contra “nós”, apesar de toda a parafernália videográfica… Passei logo ao Aston Villa-Arsenal, num “que se lixe tudo isto”. O Villa veio a ganhar, para meu gáudio, (quase)sempre a defender o “abaixo de cão”. Depois jantei com amigos uns bons bifes à moda açoriana, feitos por quem sabe. Bebeu-se um belo tinto “Grous”. Entretanto o telefone disse-me que o Sporting perdeu, coitados. Os velhos que se preocupem com isso.

 

Pois nós, os novos, somos audiência de espectáculos a sério.

Lição de futebolês (para que saibam)


Pedro Correia,

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É um quatro-dois-três-um mas muitas vezes é mais um quatro-cinco-um de uma equipa que não se desorganiza nem se desposiciona muito e que sai bem na transição sobretudo nas bolas a passar em momentos de definição dessa transição ofensiva com alguma criatividade e alguma atenção à bola parada e ao jogo aéreo muito forte com os laterais a centrar nessa circunstância pois quando pressionada em bloco meio alto a equipa vai jogar tendencialmente em bloco baixo sobretudo quando os alas não são jogadores de largura e têm dificuldade nas acções de construção e a contratransição é vital porque quando se perde a bola em zona ofensiva se o pressing foi imediato pode ser recuperada instantaneamente e a contratransição numa equipa que a faça bem e que tenha qualidade de finalização muitas vezes é fatal e este é um jogo em que interessa revelar capacidade de pressionar alto e de recuperar alto e de meter grandes intensidades sobretudo na primeira parte sem deixar o adversário trocar a bola naqueles dois metros de construção da zona defensiva nem jogar no risco pois quando se recupera mais atrás eles encontram-se lá todos.

 

Fui suficientemente claro ou preferem que faça um desenho?

Taremi e a sonolência da Entidade Reguladora para a Comunicação Social


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O iraniano Taremi, avançado do Futebol Clube do Porto, é um bom avançado. E é manhoso, perito naquela consagrada tarefa de “cavar penalties” – e os mais-velhos lembrar-se-ão do sempre entusiástico Paulo Futre, então ainda jogador, a declarar qualquer coisa como “fui para a área para cavar o penalti”. Nisto das grandes penalidades a nossa percepção, opinião, convicção, muito depende das marés que os trazem. Nos finais de 1983 o grande Chalana mergulhou para a grande área do (literalmente seu) estádio da Luz, o herói Rui Manuel Trindade Jordão converteu o justíssimo penalti, a malvada União Soviética foi assim arrasada, perestroikada / glasnostada avant la lettre, e a Pátria seguiu à bela campanha do Euro-84, 18 anos após a primeira (e então única) qualificação para um torneio de selecções. Já em 2000 um falsário árbitro inventou um penalti aos 119 minutos da meia-final do campeonato da Europa, afirmando ser mão a óbvia coxa de Abel Xavier e assim possibilitando que as potências do pérfido Eixo discutissem o triunfo final.

São apenas exemplos maiores do que acontece todos os fins-de-semana – aliás, todos os dias, nesta era digital, em que é preciso encher de bola os milhares de canais televisivos globalizados. E todos os adeptos, sem excepção, tendem a “puxar a brasa à sua equipa”. Uns mais descaradamente, outros menos. Mas, repito, todos… Ainda assim nas últimas décadas algo vem mudando: primeiro com mudanças nos regulamentos disciplinares, com punições aos saltimbancos menos talentosos. E depois através da disseminação das ajudas tecnológicas às arbitragens, associada à tal globalização da televisão digitalizada, o que tornou as escandaleiras muito mais… escandalosas. Ou seja, a aldrabice dentro de campo passou a ser mais punida, menos produtiva e – exactamente por estas razões – menos respeitada.

Neste âmbito e nesta época Taremi será um dos “últimos moicanos”, até um item de património cultural intangível, pois um lídimo representante de eras passadas. Pois atira-se para o chão sem rebuço e colhe lucros com a risonha desfaçatez com o que o faz. O que lhe será facilitado pelo seu enquadramento laboral, protegido que está pelo truculento e histriónico falso azedume regionalista do seu patrão e das massas a este congregadas.

É óbvio que os adeptos do seu clube sobre ele pensam, sentem e opinam de modo diferente – por questões da mera bola mas também “animados” pela propalada “alma” regional, essa que nos campos de futebol se imagina gritando até à exaustão “São Jorge!” contra os “mouros” ditatoriais, totalitários, cleptocratas, os centralistas que colonizam e esmagam o sacro Portucale. Por isso as quedas de Taremi são-lhes sempre naturais, legitimamente causas de castigos à Besta Alheia, pois efeitos de intencionais acções dos demónios coloniais, essas energias eólicas, hídricas, fósseis, animais, mesmo metafísicas. E, por  vezes, até humanas.

Mas, de facto, o homem vem exagerando nas suas coreografias. Como aqui narrei há algumas semanas, fartei-me de rir ao vê-lo num Porto-Arouca, jogo que ficou celebrizado pelos 20 e tal minutos de descontos dados, a ver se o Porto não perderia o jogo, tamanha a desfaçatez com que ia fingindo ser alvo de incorrecções alheias. Seria até ridículo se os árbitros, sempre temendo as influências portistas e o crivo crítico do batalhão portista de comentadores radiotelevisivos e da imprensa escrita, não tendessem a aceitar as evidentes pantominas. Assim, pura e simplesmente, falsificando… as apostas desportivas, acção que julgo punível por lei extra-futebolística.

Leio agora que Carlos Xavier – antigo excelente jogador do Sporting e agora comentador do canal televisivo desse clube – “passou-se” com as constantes trapaças taremianas. E disse na televisão o que os adeptos dizem quando entre amigos. Qualquer coisa como o sacaninha deste estrangeiro veio para cá e agora é um fartar vilanagem…. Mas em vez de estrangeiro chamou-lhe “muçulmano”, no que foi um verdadeiro autogolo. Cai o Carmo e a Trindade, hoje em dia entidades ecuménicas… E logo se conhecem invectivas de instituições consagradas na abjecta ditadura iraniana, que apresentam queixas de “racismo”. Os mariolas regionalistas (de retórica secessionista) do FC Porto associam-se a esta inadmissível intervenção. Em vez de matizarem, como seria curial, a situação, para melhor entendimento estrangeiro do mero “fait-divers”…

Entretanto o agora comentador Carlos Xavier retractou-se (e não “retratou-se”, como escrevem os patetas do AO 90, pois isso trata-se de outra coisa completamente diferente). Ainda assim a Federação Portuguesa de Futebol – essa instituição tutelada pelo Estado e que deste vem recebendo inúmeros apoios, o que não a impede de tentar descaradamente tornear o regime fiscal quando contrata trabalhadores – tem o atrevimento, decerto que inconstitucional, de instaurar um processo contra o canal televisivo do Sporting por causa do que um comentador disse. Estamos em 2023, nas vésperas do 50º aniversário do 25 de Abril. E a FPF instaura um processo destes. E o Dr. Fernando Gomes, seu presidente, não só não é rispidamente chamado à atenção por parte dos eleitos para os órgãos de soberania máximos da República, como decerto é e continuará a ser anfitrião e visita, muito cumprimentável, do PR, do PM, do PAR, de ministros, deputados, juízes, procuradores e etc. Se assim é para quê comemorar os 50 anos do regime? Para que irão gastar bons dinheiros em exposições, livros, conferências dos professores Fernando Rosas, José Pacheco Pereira e outros, sobre censura, e etc.

E entretanto uma tal de Entidade Reguladora para a Comunicação Social – sobre a qual apenas sei o que era a Alta Autoridade para a Comunicação Social, coisas risonhamente contadas pelo meu grande amigo Aventino Teixeira, que a essa pertenceu durante anos – tem também o desplante de anunciar que está “a analisar” as declarações de Carlos Xavier. Sobre o clima de guerra no comentariado futebolístico que grassa há tantos anos, e sua influência nas mundivisões mas também nas acções violentas do público dos espectáculos desportivos, nada diz a tal de ERC. Sobre o aldrabismo militante do jornalismo futebolístico, tantas vezes obviamente encomendado pelos agentes económicos envolvidos, nada diz a tal de ERC. Sobre o ataque à liberdade de imprensa efectivado pelo inaceitável processo instaurado pela FPF – como se esta fosse um Estado (ditatorial, censório) dentro do nosso Estado – nada diz a ERC. Está sim a analisar uma “gaffe” deselegante, inapropriada, excitada, do bom e íntegro Carlos Xavier.

Isto não é uma Entidade Reguladora para a Comunicação Social filiada ao actual “wokismo”. É apenas a sua sonolência. A sonolência dos pequenos mandarins avençados, ali instalados pelos poderes…

Deixemo-nos de coisas. Taremi é um sacaninha, um jogador estrangeiro que no nosso país constantemente aldraba o jogo – mas em outros não o faria, pois seria constantemente castigado se fizesse coisas destas. Quer ele continuar assim, quer o seu patrão que continue assim? Ok, então faça-se isso sem queixumes, invectivas ao “racismo” e “xenofobia” alheia… Façam-no com elegância, até humor… Há trinta anos o grande avançado Jurgen Klinsmann tinha a fama (e o proveito) de se atirar para o chão nas grande-áreas adversárias, de “mergulhar”. Foi contratado pelo Tottenham para a então ainda inicial, mas já milionária, Premier League. Logo se estreou a marcar. E introduziu este “mergulho” comemorativo – esse que ainda tanto se vê, mundo afora… Nessa festiva ironia mostrando que em nada se restringia à mera aldrabice, abjecta.

Nem à tal sonolência bem-remunerada dos pequenos mandarins.

(Jurgen Klinsmann’s first Tottenham goal)

Taremi e o Resto


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Ele é o meu mais antigo amigo em exercício. Pois nos conhecemos na primária no Valsassina. E, depois, sendo vizinhos olivalenses, assim fomos continuando, até agora, ambos nas vésperas da era sexagenária. Apesar das andanças austrais, mais prolongadas as minhas do que as dele… Entretanto o pós-Covid foi-nos fixando fora de Lisboa, e vão escasseando os encontros – ainda que ele seja dos que vão aparecendo em nenhures quando sobe até ao Tejo.

 

E ontem aportou ele, vindo dos Algarves, onde vai maturando com a sua Senhora. Fui à gaveta buscar um velho cachecol, apanhei o metro, uma dupla via, calcorrei do Santo António até casa dele. Recebeu-me ele vestido com uma também velha camisola do clube. Dedicámo-nos, com reciprocidade simétrica, umas violentas imprecações – que há coisas que nunca podem mudar. Depois falou-se um bocado da vida que vai sendo. E, até, um pouco daquela que esperamos ainda vir a ser, que a expectativa é a última a morrer (e não a esperança, como dizem os tolos). Comemos um pacote de batatas fritas, a acompanhar uma boa garrafa de vinho tinto, isto tudo à varanda para que fosse eu fumando. Entretanto na sala a televisão mostrava o Long Goodbye do Porto-Arouca. Levantámo-nos para ir ver um penalti às duas horas de jogo, ou coisa parecida. Rimo-nos, eu disse umas valentes bojardas (sou mais loquaz do que ele), rejuvenescidos – pois regressados à era dos Adrianos Pintos, Lourenços Pintos e outros Pintos, na qual éramos bem mais vivazes do que neste tempo de Rui Moreiras e quejandos. Depois ele abriu outra garrafa de vinho, viu-se o Braga-Sporting, ao intervalo partilhámos uma pizza. Recebi um querido e bem-humorado telefonema do Minho. Aventámos que esta semana próxima, na qual por cá estaremos, ainda nos reveremos para um jantar, talvez com amizades comuns, talvez não… Um brasileiro na UBER trouxe-me tranquilamente a casa.

 

O futebol é uma coisa porreira. Pois só isto conta.

 

(E as boas jogadas do Taremi…).

Salif Keita


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Viver é ver morrer os nossos, os queridos e os ídolos, um contínuo desmate afectivo. Morreu agora Keita (o Keitá! dos locutores radiofónicos de então, Salif Keita Traoré), o enorme jogador maliano, uma estrela daquela época – e hoje seria uma macro-estrela global… – que o Eterno Presidente, Senhor João Rocha, teve artes de trazer para o Sporting.

Na época o divino Vítor Damas partira para a malvada Espanha, de onde nada de bom vinha, o herói Agostinho andava pelas Franças aos (gloriosos) terceiros lugares, e o nosso Hermes Carlos Lopes fora ultrapassado pelo finlandês Viren. E Yazalde transferira-se – pela fortuna de 12 500 contos (60 mil euros) – para Marselha, bem antes do malandrete Tapie lá mandar. O nosso panteão estava um bocado desertificado, enquanto os atrevidos lampiões controlavam o Portugal do PREC como o haviam feito no ocaso do Estado Novo, e a diabólica parelha Pedroto-Pinto da Costa começava as suas tétricas manigâncias, que ainda hoje perduram.

Mas no José de Alvalade ascendeu uma Trindade, em avatar de “tridente” (como então não se dizia), a preencher-nos o culto. Eram o sempre nosso “Manel” (Fernandes), o fabuloso Rui Manuel Trindade (lá está) Jordão – o que teria este avançado hoje em dia, um génio do futebol! E Keita! Chegado já trintão, veterano de inúmeras pelejas, fugido de Espanha – tal como Jordão – por razões de maus-tratos rácicos na imprensa (os tempos de então eram bem piores do que os de hoje). Classe pura, distribuindo júbilo pelas bancadas – ainda me lembro, ele, mesmo já o tal veterano, a meter a bola por um lado do defesa e a ir buscá-la pelo outro, que jogador é que faz isso hoje, todos amarrados às tácticas, à “posse de bola” e às “coberturas”?… Era o Maior!

(N)o estrangeiro é que é bom


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Nestas ambivalências correntes uma das mais estuporadas é mesmo a confluência entre a resmunguice xenófoba (avessa a “estes gajos” que cá chegam) e a desvairada autocrítica (“isto lá fora nunca acontece”). E nisso vai vingando a pateta ideia de que “no estrangeiro é que é bom”, outros comportamentos, outras éticas, outra racionalidade. Vem-me isto a propósito da convocatária para os jogos da selecção nacional de futebol, inseridos no apuramento para a fase final do Campeonato Europeu. Não serão jogos particularmente difíceis (sim, eu sei, há décadas que os comentadores dizem, como se fosse novidade, “já não há jogos fáceis”), diante da Eslováquia e do Luxemburgo. Mas é a selecção nacional, a trabalhar para se apurar e (sempre) a preparar-se para o futuro. E para o presente.

Acontece que o novo seleccionador nacional – o espanhol Martinez, solução até excêntrica numa era em que os treinadores portugueses são um “must” mundo afora (veja-se o Brasil, a milionária Arábia Saudita, a própria Inglaterra, para além de tantos outros compeonatos), uma “escola” privilegiada mas preterida pela tão abonada Federação Portuguesa de Futebol – acaba de anunciar os seleccionados para os dois embates. E se seria normal que colhesse o apreço ou a desconfiança oriunda do “no estrangeiro isto não acontece”, o que se vê é que Martinez é o perfeito avatar do conservadorismo mesclado de servilismo clubístico do anterior seleccionador Santos. Pois para dois jogos relativamente fáceis – e com o apuramento muito bem encaminhado – Martinez não abre o jogo, não avança com jovens ou com consagrados de segunda linha. Chama, como Santos sempre fez, os oriundos do Benfica, independentemente do estado deles. Cancelo é um excepcional lateral. João Félix é um belíssimo jogador – é o João Vieira Pinto desta geração, insuficiente para um “grande” europeu mas precioso para o futebol português. Mas neste momento estão no limbo de não terem clube, decerto que treinando menos e nunca jogando. São assim chamados por “estatuto” e não por mérito actual. Martinez, o estrangeiro cooptado, mostra-se assim um homem do Antigo Regime, um homem da sociedade das ordens… Os “nobres” tem lugar cativo (porventura até “direito de pernada”). Os outros que se aguentem. Alternativas? Não é comigo, não sou profissional da poda. E não estou aqui a “puxar a brasa à minha sardinha” sportinguista. Apenas noto uma coisa: ao chamar gente que não está a jogar (que nem sequer tem clube) Martinez mostra que é um erro “de casting”, como se diz. Infelizmente, só no final do mais do que provável medíocre futuro campeonato isso será institucionalmente reconhecido. É apenas mais uma etapa de uma velha história, no futebol e não só. Isto do clientelismo, amiguismo, “clubismo” neste caso. Ou mesmo “agentismo”. 

Enfim, ganhar-se-ão, por mais ou menos, estes jogos fáceis. Pois há muitos bons jogadores em Portugal. Só falta mesmo… bom seleccionador. 

A ponta do iceberg


Cristina Torrão,

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Mariana Cabral, treinadora do Sporting, diz que “futebol precisa de mudar a perspectiva que tem sobre as mulheres na modalidade”.

 

“É lamentável e foi extremamente inapropriado o que aconteceu. Uma pessoa com o cargo de presidente da Federação espanhola nunca poderia ter um gesto daqueles. Faz parte da sociedade em que vivemos e que é muito machista. O futebol precisa de mudar um bocadinho a perspectiva que tem sobre as mulheres na modalidade”.

 

A técnica do conjunto leonino, de 36 anos, considera que o que sucedeu à vista de todos a 20 de Agosto, quando, no final do jogo que consagrou a selecção feminina espanhola campeã do mundo de futebol, em Sydney, é apenas um dos muitos casos em que as mulheres são vítimas em todo o mundo, incluindo Portugal.

 

“Se assim acontece, imaginemos as coisas que acontecem nos bastidores e que ninguém pode provar. Também em Portugal acontecem. Por um lado, é uma pena, mas acaba por ser um momento interessante por chamar a atenção por poder ter as jogadoras da seleção espanhola e todas as que se juntaram a dizer que isto não está certo e é preciso mudar”.

O Beijo Espanhol (2)


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Mais um capítulo na polémica! Vídeo mostra Jenni Hermoso a rir-se do beijo de Rubiales

A plataforma SAPO publica um curto vídeo (que não é integrável em blog – e não compreendo como uma plataforma que acolhe blogs não inclui uma opção “incorporar” nos vídeos noticiosos que publica, como fazem várias outras plataformas) em que se vê a futebolista Jenni Hermoso e as suas colegas, recém-campeãs, a rirem-se, com humor e sem preocupações ou mágoas, da beijoca entre o presidente da Federação de Futebol e essa futebolista durante a cerimónia final do Campeonato de Mundo de futebol. É evidente o júbilo, brotado da vitória história, mas ressaltado para as brincadeiras entre várias jogadoras que, em coro, referem o brevíssimo episódio. O filme, que decerto muito em breve estará em plataformas que permitem a sua captação para blogs, está aqui.

Como é sabido, passados dias, após a estratégica intervenção de ministras socialistas espanholas – decerto que influenciadas pelo confronto com os peculiares discursos sobre este tipo de temáticas emanados do partido rival VOX, e isto sublinhado por se estar em pleno processo de formação de governo coligado no país – a jogadora apareceu a lamentar-se do caso, depois secundada pelas colegas. E por todo o lado – desde a patética intervenção do porta-voz da ONU até ao próprio Delito de Opinião, passando pelo primeiro-ministro espanhol até aos patetas televisivos nacionais do costume – cai o “Carmo e a Trindade”, denunciando o caso de “assalto”, “assédio sexual”, de machismo empedernido que teria conduzido a tamanha violência. A própria SAPO destaca hoje um postal lacrimejante sobre o assunto, que remete – dando-lhe estatuto de prova – para um texto de jornalista espanhola que afirma haver machismo e falta de educação entre os membros da federação espanhola de futebol. Nem duvido que haja, mas a questão é outra: o que aconteceu ali, durante a cerimónia?

aqui botei sobre o assunto: o que o homem fez – ainda por cima sendo ele não um “doutor” tutelando a bola nacional, mas um antigo jogador -, é mesmo o inverso, tratou a jogadora “como um homem”, replicando um gesto tantas vezes feito pelos praticantes quando em júbilo. Para não me repetir sumarizo: é um gesto assexuado (no sentido de desprovido de erotismo). Basta ver. Voltei ao assunto aqui, diante da histriónica incapacidade analítica de propalados intelectuais. Esse tipo de gente para quem é porreiro surfar as vagas em voga, e botar umas coisas na imprensa…

O assédio sexual (laboral e não só), a violência sexual, o mais abrangente machismo, são temas fundamentais. A combater, pela lei, pelas instituições, pela opinião pública, pela sensibilização. Profissionalmente cruzei casos tétricos disto. Até incríveis, de inacreditáveis, passe a aparente redundância. Mas quando uma mulher feita e realizada, trintona bem sucedida, campeã mundial, se ri a bandeiras despregadas, quando um conjunto de mulheres feitas e realizadas, profissionais campeãs mundiais, se riem a bandeiras despregadas, isso a propósito de um gesto que bem entendem desprovido de qualquer violência ou ameaça, não  podem depois invocar terem estado sob “assalto”, “assédio”, “violência”. Nem há argumentos convocando contextos “infalsificáveis” (a la Popper) que justifiquem estas inflexões interpretativas. Ou seja, entenda-se, como prevalece um machismo violento e desrespeitador aquele gesto é violento e desrespeitador. Isso é um acto falsário, um silogismo aldrabão. E contestar essa evidência, em nome de uma qualquer “boa causa”, é apenas desvalorizar, apagar, superficializar, as abissais realidades do “assédio”, da “violência sexual”, do “machismo”, mundo afora. É uma pantomina abjecta. Matéria-prima por excelência para políticos demagogos e para os “activistas” de agora. Mas uma vergonha para quem se veste (ou traveste, melhor dizendo) de intelectual, de militante. Ou, pior do que tudo, de professor. Uma vergonha intelectual. E uma vergonha moral.

E isto tudo independe de Rubiales.

Pornográfico


Pedro Correia,

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Neymar à chegada a Riade, após um voo de seis horas em que foi passageiro único

 

Neymar, contratado por 98 milhões de dólares pelo Al-Hilal, número inédito na Liga da Arábia Saudita, viajou como único passageiro para este reino árabe num luxuoso Boeing 747-400 de 344 lugares que num só voo contamina 32 vezes mais a atmosfera do que uma pessoa comum num ano inteiro.

Nesta rota de seis horas entre Paris e Riade, o aparelho custa ao meio ambiente 230.000 kg de emissões de CO2, enquanto um cidadão comum, em 365 dias, é responsável por 7.000 kg. Cada hora de voo deste avião custa 23 mil euros, além dos danos ambientais causados.

A ler


Cristina Torrão,

Antes de se ter aproveitado da euforia das novas campeãs, esta criatura do machismo sem complexos, ainda na tribuna presidencial do estádio da final em Sydney, ao lado da rainha Letizia, da princesa Sofia, e do presidente da FIFA, Gianni Infantino, depois de levantar os braços em gesto eufórico, baixou as duas mãos para, sobre o tecido das calças agarrar os genitais.

Da crónica de Francisco Sena Santos no Sapo24

O melhor texto que li sobre este episódio confrangedor é de autoria de um homem. O que, ao contrário do que muitos possam pensar, me encanta.

O Bejio Espanhol


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Espanha é campeã do mundo de futebol feminino. Na cerimónia no estádio o presidente da Federação exulta e beija uma jogadora. Logo ministras saem à liça dizendo que se trata de um assalto, os defensores das boas causas manifestam-se irados, a internet está cheia de acusações de “assédio” (assim mesmo). E pululam imagens – nem são fotografias, são fotogramas, que dão a impressão de um beijo sensual, o velho “french  kiss”, esse nosso linguado. O homem vê-se obrigado a desculpar-se, sinal dos tempos, mas não chega! Pois agora é o próprio primeiro-ministro Sanchez que vem considerar “inaceitável” o gesto e exigir mais do que desculpas – decerto que a demissão do presidente da federação.

É impossível não reduzir tudo isto a uma patética hipérbole discursiva, colonizadora e deturpadora de problemas sociais efectivos – o tal “assédio sexual”, a violência masculina, a violência doméstica. E mais ainda, torna-se óbvio que Sanchez vampiriza o facto para uma posição política, sendo sabido que na campanha para as recentes eleições o partido de extrema-direita Vox assumiu uma excêntrica linha discursiva, avessa às questões da luta contra os efeitos perversos do machismo e da violência doméstica. O mundo, a Europa, a própria Espanha seguem como seguem e aquela gente enrodilha-se nestas questões, e vistas deste paupérrimo e histriónico modo. Se a maluquice grassa nas redes sociais e a demagogia acampa nas tais ministras, esta intromissão de Sanchez é mesmo sinal do traste político que o homem é. 

É que nem se justifica argumentar, basta ver o filme – e não ficar agarrado ao fotograma. Trata-se de um efusivo beijo nos lábios, num ápice, seguido de duas vigorosas pancadas nas costas. É um gesto de celebração que os homens hetereossexuais também fazem entre si – e bem me lembro de que quando o lateral-direito Miguel Garcia aos 119 minutos, na sequência de um canto, marcou o golo que apurou o Sporting para a final da então Taça UEFA, saltei da mesa do “Eagles” em Maputo para o colo do amigo Rui B. e trocámos vários beijos destes, tamanha era a nossa felicidade. E inúmeras pancadas nas costas… Há meses, num almoço de amigos ali perto do rio Sousa, bem nos rimos com esta memória.

Andam os espanhóis, por enquanto entregues a este Sanchez bem mariola, e tantos outros a discutir o sexo dos anjos. E o “beijo espanhol”. Algo está podre no reino da… Europa. Daí o mau hálito que grassa…

Negócios pagos com sangue


Pedro Correia,

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Os profissionais do futebol são também cidadãos. Muitos deles, com experiência de trabalho em vários países, são autênticos cidadãos do mundo. Incluo neste lote o treinador Paulo Fonseca, que sempre mereceu a minha simpatia pela competência e pela atitude cordata, dentro e fora de campo.

Este ex-técnico do clube ucraniano Shakhtar Donetsk e agora ao serviço do Lille, em França, acaba de lançar um apelo firme aos dirigentes do Sport Lisboa e Benfica e do Sporting Clube de Braga, pedindo-lhes para não fazerem negócios com emblemas russos visando transferir para o país de Putin os jogadores Chiquinho e Tormena.

Diz Paulo Fonseca – e é difícil não lhe dar razão – que tais negócios, a concretizar-se, serão pagos com preço de sangue.

«Uma coisa eu sei: se o Benfica e o meu Braga fecharem negócio com os clubes russos, esse dinheiro virá a pingar com o sangue das crianças que morrem todos os dias na Ucrânia. E muitas dessas crianças amavam o futebol.» Palavras do antigo técnico do FC Porto e Braga, casado com uma ucraniana.

Tem toda a razão, o treinador do Lille. Basta reparar nas notícias mais recentes da criminosa invasão russa da Ucrânia: sete pessoas, incluindo um bebé com apenas 25 dias de vida, foram mortas no domingo por mísseis de Moscovo na região de Quérson: uma família inteira ficou desfeita.

Dois dias antes, mísseis hipersónicos russos tinham assassinado um menino de oito anos na região de Ivano-Frankivsk. 

Civis indefesos perante o mal absoluto que vem do Kremlin, traiçoeiro e homicida. O meu aplauso solidário ao Paulo Fonseca pelas palavras sentidas e desassombradas que escreveu.

Navegadoras?


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Uma das más cenas actuais é este ambiente em que convém “ter cuidado com o que se diz”, não vá “parecer mal” ou “ofender” susceptibilidades… Não há paciência.

 

Enfim, a imprensa (e a FPF) lá tentou induzir um “sobressalto patriótico” com o Mundial de futebol, os governantes lá viajaram aos antípodas para ver as mulheres em acção, e até deu para nisso enfrentarem o Presidente (ele próprio comentador futebolístico). Nisso o comum do mortal murmurou um “grande interesse”…

 

Nunca consegui ver um jogo de futebol feminino, sempre me canso e abandono. É uma questão de comparação com o que conheço do jogo – e assim estes surgem lentos, falhos, até sem arte. Como espectáculo – que não como prática desportiva, que isso é outra coisa – são desinteressantes, uma chatice. Alguns patetas dirão que isto é machismo e eu responderei isso mesmo, que são patetas.

 

Mas a nossa selecção lá foi. A copiar o pior do futebol masculino. Tanto que até se fizeram chamar “Navegadoras”. As próximas serão as “Viriatas”, as “Conquistadoras” ou outra deambulação histórica pelo patrioteirismo. Espero que os do marketing federativo, sempre atreitos aos cognomes bélicos imperiais, na sua pobre visão da história não venham a chamar “Vivandeiras” a uma das próximas selecções. É que se não se sai daquele tempo…