A diferença


Pedro Correia,

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Muitos comentam de manhã à noite nas televisões. Quase sempre trocando os factos por “cenários”: os canais de informação estão cheios de gente que confunde fantasia com realidade. É a tal bolha mediática agora tão em voga: falam uns para os outros, repetindo o que já ouviram noutros espaços de palração e emitindo palpites em coro que muitas vezes saem furados.

Aconteceu a propósito das alterações à lei laboral apresentadas pelo Governo no parlamento. Terça-feira à noite, na SIC Notícias, um desses bitaiteiros que nunca têm dúvidas e raramente se enganam garantia saber como tudo iria passar-se: «É evidente que André Ventura vai viabilizar o maior ataque feito aos trabalhadores desde a tróica.»

Ao fim da tarde de quinta-feira, na mesma estação, outro tudólogo declarou sem hesitar: «Surpresa nenhuma. Sempre disse, neste estúdio, que este pacote laboral seria aprovado pelo Chega.»

Valha a verdade que alguém remou em direcção contrária, expressando elementar bom senso. Alguém que consegue ver para lá da espuma dos dias e não confunde fezadas com factos. Refiro-me a Raquel Abecasis, também comentadora da SIC Notícias, que nessa tarde de quinta advertiu em tom esclarecido e precatado: «Vamos ver… com o André Ventura até ao lavar dos cestos é vindima.»

A advertência ficou registada. E tinha plena razão de ser, como se confirmou cerca de 17 horas depois, quando os deputados do Chega se uniram às bancadas parlamentares da esquerda no voto contra o chamado “pacote laboral”.

Raquel fez a diferença. Quem sabe, sabe. Quem não sabe, proclama “verdades” absolutas como se Ventura não fosse o cata-vento que todo o País já conhece. Todo? Não: na tal bolha mediática muitos continuam a levá-lo a sério, nem imagino porquê. E a espalhar-se ao comprido por causa disso.

Como no célebre western de John Ford, preferem imprimir a lenda em vez do facto.

Indignidade moral (na CNN portuguesa)


Pedro Correia,

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Há mais de quatro anos que o major-general Agostinho Costa insulta não apenas o Presidente Zelenski, mas todo o povo ucraniano – alvo de atrocidades por parte da Federação Russa, ininterruptamente, desde Fevereiro de 2022.

Mais do que isto: insulta também a inteligência dos espectadores da CNN Portugal, onde tem lugar cativo. 

Insulta ao entoar hossanas ao ditador russo, ecoando no canal português a mais sabuja propaganda do Kremlin. Desde o primeiro dia da invasão, com declarações infames sobre Zelenski, totalmente divorciadas da realidade. Anunciando “conquistas” que nunca se concretizaram. E procurando lançar lama sobre os resistentes à agressão russa, determinados a não se vergar ao invasor em confrontos que já se prolongam há mais tempo do que os 1569 dias de duração da I Guerra Mundial, entre 1914 e 1918.

Péssimo estratego, Putin enganou-se redondamente ao supor que conseguiria ocupar Kiev, derrubar o legítimo Governo da Ucrânia e assassinar Zelenski em duas semanas.

 

Em cega obediência ao déspota moscovita, Costa prossegue fiel à cartilha que tristemente o celebrizou. A 28 de Fevereiro de 2022 – escassos quatro dias após a invasão russa, quando ainda lhe davam palco na SIC Notícias, atreveu-se a bolçar esta infâmia, jamais confirmada: «Estou convencido que o senhor Zelenski já não está lá [em Kiev]. Senão a gente via-o na rua. Já não está lá. Está certamente em Lviv.»

Em Setembro de 2024, já no canal televisivo que depois o acolheu a tempo inteiro (e que, com ele em antena, mais parece réplica tuga da RT), imaginava «cogumelos nucleares» em cidades norte-americanas. E proclamava, com indisfarçável ódio aos ucranianos que ousaram sair em defesa da soberania e da integridade territorial do seu país: «No Donbass a situação é catastrófica para as forças ucranianas. Neste momento a Ucrânia está numa situação de emergência. O risco neste momento não é se a Ucrânia vai perder – é quando a Ucrânia vai perder, como vai perder e onde é que param os russos.»

 

Dois anos depois, como é óbvio, nada disto se confirmou. O que deve ter acentuado a raiva do comentador, que anteontem bateu um recorde pessoal de indignidade ao comparar Zelenski a Hitler. Anotei as palavras dele: «O Führer, quando estava no búnquer, também dizia que estava a ganhar a guerra. Zelenski há-de dizer que ganha a guerra até ao último dos seus dias como presidente.»

Linguagem totalmente inaceitável. Pela infâmia. E pela gritante distorção dos factos: quem invadiu um país vizinho e vive num búnquer é Putin.

O limite da decência foi de tal modo ultrapassado que a jornalista responsável pela condução daquele espaço informativo, com elegância mas firmeza, pôs de imediato fim ao tempo de antena do major-general.

O ódio até pode aumentar audiências, mas há um limite moral para tudo.

Bitaiteiros


Pedro Correia,

 

Curioso costume, o das nossas televisões: despacham uma entrevista com rapidez (excepto quando o entrevistado é André Ventura) e depois convocam tudólogos e bitaiteiros de turno para perorarem durante o triplo do tempo sobre tudo quanto foi dito e tudo quanto ficou por dizer.

Palração


Pedro Correia,

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«Há que reflectir sobre o paradigma deste futebol.»

«A boa colocação das linhas virtuais permite-nos fazer a avaliação certa dos lances.»

«O clube não conseguiu traduzir a intensidade do seu jogo.»

«Há jogos com outra intensidade competitiva.»

«Essa resignação pode ser uma projecção da falta de exigência mais acima e de uma liderança mais efectiva em termos de balneário.»

«A equipa não tem níveis de coesão suficientes para introduzir um jogador tão jovem.»

«Caiu numa zona de bloqueio da qual vai ter de sair.»

«Tem de integrar-se na filosofia colectiva da equipa que representa.»

«As grandes equipas da Europa conseguem atingir níveis exibicionais significativos.»

«O conceito do treinador baseia-se numa marcação mais subida.»

«Do ponto de vista do esqueleto táctico, a disposição no terreno faz sentido.»

«São dois jogadores verticais que dão mais profundidade à equipa.»

«O jogador X mostrou um ritmo baixo, mostrou alguns pormenores.»

«Queremos contribuir para um futebol menos macrocéfalo.»

«O futebol é uma lógica de conjunturas.»

 

Perceberam?

Eu também não. É uma espécie de dialecto autónomo, só praticado por alguma gente da bola e que tem como principal cultor um jornalista televisivo capaz de rivalizar em fôlego com Fidel Castro, que em 1998 falou sete horas e um quarto sem parar na Assembleia Nacional cubana, ou Hugo Chávez, que chegou a falar igualmente sem parar durante nove horas e meia no parlamento de Caracas.

Quem não seja iniciado neste jargão muito particular do “esqueleto táctico” e da “intensidade competitiva” mantém-se totalmente à distância. Porque o dialecto acima transcrito, ao contrário da esmagadora maioria dos restantes, não foi criado para comunicar: existe para cavar um fosso deliberado entre o seu inventor e o comum dos mortais.

A razão? Incutir respeito.

Ou respeitinho, mais à portuguesa.

 

É uma receita infalível. Porque, em regra, os portugueses só respeitam o que não entendem. E aqui entre nós: quem é que entende minimamente o que significa “filosofia colectiva”, “jogadores verticais” e “marcação subida”?

O respeitinho é muito bonito. Para evitar cair em zonas de bloqueio, sem níveis exibicionais significativos nem esqueletos tácticos – dentro ou fora dos balneários.

Andaluzia? Onde fica isso?


Pedro Correia,

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Pedro Sánchez de recuo em recuo: quatro derrotas em cinco meses 

 

Ontem, entre as oito e as nove da noite (uma hora mais tarde em Espanha), espreitei os telejornais da RTP e da TVI. Em vão: nem uma noticiazinha sobre as eleições na Andaluzia. Como se fosse coisa de somenos. Como se não fosse a região mais povoada do país vizinho: 8,7 milhões de habitantes. Como se não concentrasse cerca de um quinto dos eleitores de toda a Espanha.

Como se não fizesse fronteira com Portugal. 

Havia notícia, claro. Mas os telediários tugas ignoraram-na. Espanha, por estes dias, só parece interessar como próximo destino profissional do inefável José Mourinho.

Eis a notícia: Pedro Sánchez – que mentes delirantes cá no burgo enaltecem como suposta «consciência moral» do continente europeu – acaba de registar ali a sua quarta derrota consecutiva em escrutínios regionais.

 

Este descalabro teve início a 21 de Dezembro na Extremadura, onde o Partido Socialista Operário Espanhol recuou 14 pontos percentuais e viu o Partido Popular alcançar uma confortável maioria (43,2% contra apenas 25,7%) no conjunto das duas províncias, Badajoz e Cáceres.

Seguiram-se, a 8 de Fevereiro, as eleições em Aragão: outra clamorosa derrota do partido de Sánchez, que recuou 5,3 pontos e estacionou a menos dez do que o PP, ali também vencedor. Com domínio nas três províncias: Huesca, Saragoça e Teruel.

A 18 de Março, outro escrutínio autonómico, desta vez em Castela e Leão. O filme repetiu-se, embora sem recuo eleitoral do PSOE, que se manteve pelos 30% mas com menos cinco pontos percentuais do que o PP, também aqui vencedor – tal como em sete províncias da região: Ávila, Burgos, Palência, Salamanca, Segóvia, Valladolid e Zamora. O PSOE só foi primeiro em Leão e Sória.

 

Agora, Andaluzia. Novo triunfo eleitoral do PP, que regista ligeiro recuo mas conserva um sólido primeiro lugar. Com quase mais 20 pontos do que o PSOE. E triunfos nas oito províncias: Almeria, Cádis, Córdova, Granada, Huelva, Jaén, Málaga e Sevilha. 

Balanço: vitória dos populares em vinte das 22 províncias do país vizinho mobilizadas para as urnas em cinco meses.

Vale mais do que qualquer sondagem. E torna inequívoco o enorme desgaste de Sánchez, cada vez mais impopular. Registando a maior derrota de sempre dos socialistas em território andaluz, que durante quatro décadas foi o maior bastião eleitoral do PSOE. Com Felipe González, o partido da rosa e do punho chegou a ter ali 66 deputados autonómicos. Restam-lhe 28. 

O facto de a lista socialista ter sido encabeçada pela número dois do Governo central – a ministra cessante das Finanças, María de Jesús Montero, torna ainda mais evidente o declínio do consulado de Sánchez. O próprio González – a mais relevante figura viva do socialismo espanhol – já revelou que não votará no PSOE enquanto o actual presidente do Governo se mantiver em funções. 

 

E, no entanto, quase nada disto foi notícia por cá quando a actualidade se impunha. A Andaluzia, pelos vistos, só justifica destaque nas televisões deste terrunho quando os portugueses lá vão atestar o depósito das viaturas.

Com tanta ignorância, não admira que alguns ainda ululem por aí em louvor e hossana ao tetraderrotado Sánchez. Fingindo não ver o enorme pântano político e moral em que se transformou o PSOE sob o seu domínio.

Portinglês, à boleia da guerra: vale tudo


Pedro Correia,

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À boleia da guerra – de qualquer guerra – as pantalhas têm vindo a ser invadidas por chusmas de comentadores que mandam o nosso idioma às urtigas. Fazendo gala de falar amaricano. Como se isto lhes conferisse certificado suplementar de sabedoria.

A coisa não começou agora, longe disso. Mas tem-se agravado com os ímpetos belicistas de Donald Trump, notório homicida do inglês padrão. Há um efeito de contágio: se o suposto homem mais poderoso do planeta tortura a língua, por aqui aposta-se em fazer o mesmo com a nossa. Macaqueando-a numa espécie de jargão luso-amaricano, naquilo a que no DELITO chegámos a chamar portuguesing, quando Zeinal Bava, antigo gestor da defunta PT, compareceu numa comissão de inquérito parlamentar palrando de modo propositadamente incompreensível. Na altura, causou celeuma e foi alvo de um caudal de críticas, ridicularizando-o.

Esta palração banalizou-se a tal ponto de então para cá que já parece não surpreender ninguém. Indignar, muito menos. Agora quase todos fazem gala em tagarelar assim.

Mas não se torna menos caricata por isso. Merece até ficar aqui registada por escrito. Para mais tarde recordar.

Eis alguns exemplos que fui anotando:

 

«O Irão deixa de ser um bully no Médio Oriente.»

«Há um player fundamental, que é Israel.»

«Israel é bom nas missões underground

«Permite fazer o offset das sanções ao regime.»

«Isto acabou por circular no backstage diplomático.»

«Vamos ter um problema muito grave, que pode levar a um spillover do conflito.»

«Qualquer dirty bomb pode atingir mais países.»

«Esta é uma guerra de regime change

«Israel está preparado para qualquer day after

«É um hardliner do aiatola.»

«O Irão viu os seus proxies ficarem degradados.»

«Tem uma base social enorme no hinterland inteiro do país.»

«Houve uma mudança de endgame na administração.»

«Para o planeamento dos alvos há os targeteers

«O Irão tem assets dispersos pela região.»

«O Paquistão fez de honest broker para este cessar-fogo.»

«Não temos a certeza se isso vai determinar o outcome das negociações.»

«No início das operações militares nós tivemos um statement da Casa Branca.»

«As forças americanas na região não têm shelters

«Os americanos precisariam de uma staging area para as suas forças.»

 

Alguns destes palradores merecem ser identificados. A fim de receberem o Prémio Zeinal, pelo seu inestimável contributo para a difusão do portinglês. Troféu em forma da cabeça de um certo animal, dotado de um enorme par de orelhas.

Não perdem por esperar. Fica para a próxima.

 

ADENDA. Sou capaz de apostar: alguns dos tais terão batido palminhas em 2019, quando a UNESCO proclamou 5 de Maio como Dia Mundial da Língua Portuguesa.

O jornalismo dos “cenários”


Pedro Correia,

Cenários e mais cenários e mais cenários. Os canais informativos abdicam cada vez mais da informação enchendo os estúdios de jornalistas que preferem dedicar-se ao comentário. Quando não sabem, inventam. Quando não têm certezas, especulam. Quando lhes falta informação, debitam uma narrativa ficcional.

“Cenarizam”, como agora se diz. 

É também telenovela, embora com outro nome. No fundo, há poucas diferenças. A principal é sentarem-se em cadeiras em vez de sofás. 

 

Parece que foi combinado…


Pedro Correia,

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… mas garanto que não foi. Isabel Moreira, insuspeita de ser hostil para Pedro Nuno Santos, seu companheiro de bancada parlamentar, também se espantava ontem numa rede social – tal como eu aqui – contra esta moda, inaugurada na SIC Notícias, de ter em estúdio comentadores encarregados de comentar outros comentadores da mesma estação. Dividindo-os assim entre comentadores de primeira (os que são comentados) e os de segunda ou quinta categoria (quem não usufrui desse insólito privilégio).

Muito endogâmico: a bolha dentro da bolha dentro da bolha. Tal como se comprova igualmente no facto de agora quase todos se tratarem por tu durante a palração televisiva: formam a selecta irmandade da pantalha. 

Quanto mais íntimos parecem, mais põem os telespectadores à distância. Depois não se queixem das fracas audiências. Nada disso acontece por acaso.

Arrancar – não sabem dizer outra coisa


Pedro Correia,

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De repente, palavras claras, genuínas e consagradas da nossa bela língua portuguesa parecem ter desaparecido do mapa.

 

Já mencionei noutro lado o ominipresente colocar, que por influência brasileira mandou borda fora o mais simples e directo verbo pôr. Como se estivesse amaldiçoado.

Uma praga também denunciada pelo escritor e linguista Manuel Monteiro no seu livro O Mundo Pelos Olhos da Língua (Objectiva, 2022), aqui recomendado. Em que reproduz várias frases que se tornaram ridículas desde que esta absurda tendência foi sendo imposta:

– «Não colocar os pés, obrigado.»

– «Colocaram as nossas vidas em perigo.»

– «As pessoas que comem peixe grelhado e depois colocam dois litros de azeite.»

– «Secretário-geral da ONU apela a Putin para colocar fim à invasão.»

– «Presidente da Sociedade Portuguesa de Virologia coloca água na fervura.»

Enfim, um modismo que redundou num monumental disparate. Sucedem-se as frases abstrusas com este verbo em regime de monopólio. Debitadas até por forças políticas que se proclamam antimonopolistas.

 

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Outros verbos que parecem cada vez mais fora de uso são começar ou iniciar. Substituídos ambos pelo feio e ambíguo arrancar. Este, agora, serve para tudo.

Ainda ontem ouvi, num noticiário da SIC: «A equipa minhota somou 1-0 e arrancou o campeonato com três pontos.»

Dois erros nesta frase. O primeiro, a utilização do verbo somar numa vitória futebolística de um-a-zero. O segundo, mais grave: este descabelado abuso do arrancar (que, não esqueçamos, significa puxar, partir, fugir, sair, extrair, colher, extirpar, remover, desenraizar, guilhotinar) como sinónimo exclusivo de começar.

Será atracção pelo erre dobrado? 

Ignoro. Mas não tenho a menor dúvida em concluir que estamos perante mais um disparate generalizado.

Cada ignorante copia o outro – e o resultado é este.

Teme-se o pior


Pedro Correia,

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Todos os dias docentes universitários – quase sempre os mesmos – acampam durante horas nas pantalhas, perorando sobre a mais vasta gama de temas, da guerra soviética na Ucrânia às alterações climáticas, passando pela desflorestação da Amazónia e das pequenas peripécias da política doméstica. Tanto faz: qualquer coisa lhes serve de motivo para longa prelecção televisiva.

Ficamos mais sábios ao escutá-los? Não. Espantosamente, estes professores parecem pouco ou nada ter para ensinar. Alguns distinguem-se por falar português de forma deficiente, parecendo cópias de carne e osso do rudimentar Google tradutor.

Uma senhora com pergaminhos académicos proclamava há dias a intenção de se pronunciar com «accuracy» a propósito já não me lembro de que assunto. Confirmando que em certas universidades cá da terra o idioma dominante se tornou o crioulo luso-“amaricano”. 

Outra, também com lugar cativo em estabelecimento de ensino alegadamente superior, dizia que «quaisqueres» garantias estariam a ser dadas por alguém, irrelevante para o caso. E um cavalheiro, igualmente docente universitário, assegurava que «vão haver» surpresas num futuro próximo.

Quando os professores falam assim, admira quase nada que os alunos passem o tempo a grunhir inanidades, sem conseguirem debitar três frases seguidas de modo inteligível. Oiço-os nos transportes públicos: em cada cinco palavras, dizem «bué»; em cada três, dizem «tipo». Quase sempre rematado com o onomatopaico «iá»

São as supostas elites do futuro. Estão a ser formadas por «quaisqueres» especialistas em ignorância de alto nível. Teme-se o pior.

Abjecto


Pedro Correia,

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Diálogo ontem à noite, na CNN Portugal:

Jornalista – Aqui neste mesmo estúdio, quando começaram os problemas entre o ministério russo da Defesa e o grupo Wagner, perguntei-lhe se havia ou não dissonâncias entre estes dois. E respondeu-me que não: «Isso são fantasias.» Enganou-se nesta análise?

Major-general Agostinho Costa – Não. Uma coisa é o que parece. Outra coisa é o que é. (…) Temos de analisar e não nos iludirmos pelas aparências. Então temos um golpe de Estado e o cabecilha do golpe de Estado vai passar férias para a Bielorrússia? 

Jornalista – Mas também referiu que o grupo Wagner «é uma concepção de Gerassimov [comandante das forças armadas russas], é preciso ler a doutrina de guerra híbrida, e está a funcionar muito bem.» Está?

Major-general Agostinho Costa – Está.

Jornalista – Isto tem aparência de normal funcionamento?

Major-general Agostinho Costa – Reitero tudo quanto disse. Reitero tudo quanto disse. 

Jornalista – Também referiu aqui que «o grupo Wagner corresponde, na Rússia, às forças especiais norte-americanas, é mais ou menos a mesma coisa». Foi isso que referiu neste estúdio. Arrepende-se de comparar o grupo Wagner a exércitos regulares?

Major-general Agostinho Costa – De maneira nenhuma!

Jornalista – O Wagner não é uma força regular. 

Major-general Agostinho Costa – É uma força de assalto. É uma força especial de assalto. As forças de assalto têm várias missões. O Wagner, quando é enviado para o exterior, combate ao lado dos países para onde vai. Por isso é que tem tido este sucesso.

Jornalista – Há ou não, nestas últimas 24 horas, um dano reputacional para Vladimir Putin, bastante visível à própria opinião pública russa?

Major-general Agostinho Costa – Não o acompanho, não o acompanho. 

Momento patético de televisão


Pedro Correia,

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Pacheco Pereira, dizem, é historiador. Presume-se que um historiador seja rigoroso. Tudo ao contrário – lamento dizê-lo – do que foi a intervenção dele faz hoje oito dias, no programa de comentário político O Princípio da Incerteza, na CNN Portugal.

Falava-se nos cartazes exibidos na manifestação de protesto dos professores, no 10 de Junho, que visavam o primeiro-ministro e o ministro da Educação. Pacheco, cada vez mais próximo do Governo, considerou tratar-se de algo «praticamente obsceno», num acto de protesto «sem ponta por onde se pegue». E concluiu, severo e categórico: «Aquilo é de facto racista!» Ignoro se dizia o mesmo quando Passos Coelho, então primeiro-ministro, era recebido em sessões públicas com coelhos enforcados.

Sobre a autoria, que considerou anónima, também não vacilou: «Isto não é a Fenprof, isto é STOP. E Chega! Porque o Chega tem também um papel nas manifestações dos professores. No meio desta onda de radicalização, por estranho que pareça, as estruturas sindicais [da CGTP] e o PCP são dos menos imunes a essa radicalização completamente perigosa para a nossa democracia.»

É assim que se lançam os boatos. É assim que se espalha desinformação.

 

Sucede que os cartazes que mostravam uma caricatura grosseira e de mau gosto do primeiro-ministro não surgiram só no 10 de Junho: há muito que eram exibidos em manifestações de professores promovidas pela Fenprof.

Sucede também que não têm autor anónimo. Está identificado, deu entrevistas a vários órgãos de informação. Pertence não ao STOP, certamente não ao Chega. É um docente filiado – imagine-se – no Sindicato dos Professores da Zona Sul, da Fenprof. Contrariando em toda a linha a tese conspirativa desenvolvida na CNNP por Pacheco Pereira. Que devia pedir desculpa pelos vários erros, involuntários ou deliberados, que levou à antena no domingo passado.

Mas quem tiver essa ilusão é melhor aguardar sentado.

 

No mesmo programa, espantosamente, o presumível historiador fez o seguinte apelo após dizer o pior possível das tais caricaturas que ele considera racistas: «Eu gostava de ter um cartaz para a colecção da Ephemera. Agora não vão queimá-los e deitá-los todos fora! Guardem pelo menos um.»

Momento patético de televisão. 

Aqui não há transgénero


Pedro Correia,

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Chantal Goya no filme Masculin Féminin, de Jean-Luc Godard (1966)

 

Oiço muitas vezes por aí chamar “o” Iniciativa Liberal ao quarto maior partido parlamentar português. No seu programa de domingo à noite, Ricardo Araújo Pereira pôs a ridículo este absurdo desnorte gramatical exibindo excertos de noticiários televisivos (incluindo da própria SIC) que mencionavam a IL, alternadamente, como pertencente aos géneros feminino e masculino. Chegando-se ao ponto de ouvir jornalistas diferentes, no mesmo telediário, usarem as duas fórmulas. Questiono-me se não haverá livros de estilo e editores que assegurem o controlo de qualidade nestes canais para impedir esta algaraviada sem senso algum.

A norma gramatical é clara: artigo e substantivo concordam em género e número. Aqui não há transgénero: masculino é masculino, feminino é feminino. Nem há transnúmero: singular é singular, plural é plural.

Assim, dizemos os Verdes ao aludirmos a um partido que integra a actual coligação governamental na Alemanha – no plural. E a UNITA ou a FRELIMO quando mencionamos estes partidos políticos, um em Angola (União para a Independência Total de Angola), outro em Moçambique (Frente de Libertação de Moçambique). 

A sigla IL só deve ser lida com artigo feminino – por a primeira letra ser abreviatura de Iniciativa. Ninguém diz “o FRELIMO” ou “o UNITA”. Diferente é se disserem “o partido Iniciativa Liberal” – só aí o artigo é masculino. Mas faz pouco sentido usar 24 letras para aquilo que pode ser dito só com duas.

Enfim, regras que deviam ser fixadas desde as aulas da instrução primária, mas que jornalistas supostamente com formação universitária são incapazes de aplicar. O que diz muito sobre a qualidade do nosso ensino. E sobre a qualidade do nosso jornalismo.

Da «seca extrema» ao «mau tempo»


Pedro Correia,

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Os canais de televisão que passam meses a fio soltando angustiados sinais de alarme sobre a «seca severa» ou a «seca extrema» em Portugal são os mesmos que, ao fim de um banal dia de chuva, desatam a aludir ao «mau tempo» – precisamente como sinónimo de clima chuvoso.

Voltou a acontecer ontem. Sem qualquer surpresa minha, devo confessar. Devia haver limites à hipocrisia, nem que fosse no plano atmosférico e em nome da mais elementar coerência jornalística. Mas pelos vistos não há.

O que diz Rentes de Carvalho


Pedro Correia,

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Esta semana, um pouco ao acaso, dei ordem ao comando para ir saltitando de canal em canal. Por sorte, fixou-se na RTP 3, quando começava uma entrevista a José Rentes de Carvalho conduzida por Fátima Campos Ferreira, jornalista que consegue ser mais que entrevistadora: é uma verdadeira conversadora. 

Foi talvez o melhor trabalho jornalístico que vi até hoje sobre o inspirado autor de obras que tanto me cativaram, como Montedor e Ernestina. Tendo em pano de fundo a aldeia ancestral do escritor – Estevais, no concelho de Mogadouro, emoldurada pelas milenares fragas transmontanas.

Com a sabedoria dos seus 92 anos, e sem necessidade de fazer vénia seja a quem for, Rentes de Carvalho fala livremente do que pensa sobre os mais diversos assuntos. E desenrola o fio da memória, recordando os dias remotos da infância, quando a viagem entre o Porto e a aldeia exigia doze penosas horas de comboio. Hoje não é possível: o edifício da estação ainda lá se encontra mas os carris desapareceram e o transporte ferroviário há muito abandonou aquelas paragens descuradas pelos sucessivos titulares do poder político. Na última década, Mogadouro perdeu cerca de 20% da sua população.

 

Anotei algumas frases deste homem que foi guitarrista de Hermínia Silva, exerceu jornalismo no Brasil, deu aulas e publicou livros na Holanda, conheceu celebridades como Luis Buñuel e Vittorio de Sica em Paris, e se tornou um verdadeiro cidadão do mundo. Sem esquecer a voz do sangue nem as raízes onde forjou a identidade.

Aqui as reproduzo, com o devido aplauso a este nosso prezado confrade da blogosfera, fundador e prolífico autor do Tempo Contado:

 

«No escritor, o talento está em ter muitas pepitas de ouro, que são as palavras da língua portuguesa, e aproveitar uma ou outra com jeitinho.»

«O jornalismo ensina a ser rápido e breve, a simplificar, a não fazer farfalhas.»

«Eu vivi da língua portuguesa, nasci com a língua portuguesa, alimentei-me da língua portuguesa, ensinei a língua portuguesa. A língua portuguesa deu-me tudo aquilo que tenho.»

«O que mais me prende ao meu país é a língua. As pessoas em segundo lugar, mas a língua em primeiro.»

«Sou português portuguesíssimo, até à medula. Sou tão português que até dói.»

 

Para quem não viu, fica a sugestão. Esta entrevista, inserida na rubrica Primeira Pessoa, pode ser revisitada na página digital da RTP. Bem merece.

 

ADENDA: Acabo de saber, visitando o seu blogue, que Rentes de Carvalho está hospitalizado com covid-19. Daqui lhe envio votos de boas e rápidas melhoras.

O respeitinho é muito bonito


Pedro Correia,

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“Há que reflectir sobre o paradigma deste futebol.”

“A boa colocação das linhas virtuais permite-nos fazer a avaliação certa dos lances.”

“O clube não conseguiu traduzir a intensidade do seu jogo.”

“Há jogos com outra intensidade competitiva.”

“Essa resignação pode ser uma projecção da falta de exigência mais acima e de uma liderança mais efectiva em termos de balneário.”

“A equipa não tem níveis de coesão suficientes para introduzir um jogador tão jovem.”

“Caiu numa zona de bloqueio da qual vai ter de sair.”

“Tem de integrar-se na filosofia colectiva da equipa que representa.”

“As grandes equipas da Europa conseguem atingir níveis exibicionais significativos.”

“O conceito do treinador baseia-se numa marcação mais subida.”

“Do ponto de vista do esqueleto táctico, a disposição no terreno faz sentido.”

“São dois jogadores verticais que dão mais profundidade à equipa.”

“O jogador X mostrou um ritmo baixo, mostrou alguns pormenores.”

“Queremos contribuir para um futebol menos macrocéfalo.”

“O futebol é uma lógica de conjunturas.”

 

Perceberam?

Eu também não. É uma espécie de dialecto autónomo, só praticado por alguma gente da bola e que tem como principal cultor um jornalista televisivo capaz de rivalizar em fôlego com Fidel Castro, que em 1998 falou sete horas e um quarto sem parar na Assembleia Nacional cubana.

Quem não seja iniciado neste jargão muito particular dos “níveis exibicionais”, do “esqueleto táctico” e da “intensidade competitiva” mantém-se totalmente à distância. Porque o dialecto acima transcrito, ao contrário da esmagadora maioria dos restantes, não foi criado para comunicar: existe para cavar um fosso deliberado entre o seu inventor e o comum dos mortais. A razão? Incutir respeito. Ou respeitinho, mais à portuguesa.

É uma receita infalível. Porque, em regra, os portugueses só respeitam o que não entendem. E aqui entre nós: quem é que entende minimamente o que significa “filosofia colectiva”, “zona de bloqueio”, “jogadores verticais” e “marcação subida”?

O respeitinho é muito bonito.

Os papagaios de Putin (3)


Pedro Correia,

 

24 de Fevereiro, Record TV Europa:

«Na óptica de Moscovo, esta ofensiva está a ser conduzida porque Moscovo reconhece quer Lugansk quer Donetsk como dois estados soberanos. À luz do direito internacional – e eu tenho uma tese de doutoramento sobre a Rússia e a Ucrânia, portanto posso falar de direito internacional – não existe nenhuma regra que nos diga quais são as condições para que um estado passe a ser soberano. Desde que consiga manter relações internacionais com outros estados, como é o caso destas duas repúblicas, isso indica que já podem ser reconhecidas como estados soberanos.»

«Moscovo está a dar resposta, à luz do direito internacional, a um direito de defesa que estas autoridades soberanas têm enquanto estados soberanos. Logo, não está a invadir qualquer país terceiro: está a neutralizar uma ameaça contra estas duas repúblicas, que neste momento precisam de ajuda.»

«Não existe nada que diga que aquilo que Putin está a fazer é deveras proibido.»

«A óptica de Moscovo é atacar os alvos militares, nunca atacar alvos civis e apenas neutralizar a capacidade ucraniana de poder contra-atacar quer as duas repúblicas que pediram ajuda a Moscovo quer mesmo conduzir uma retaliação contra Moscovo.»

«Putin tem procurado seguir todo o processo formal, todo o legalismo que o direito internacional prevê.»

«Isto à luz do direito internacional está totalmente imaculado.»

«A Rússia já está habituada a lidar com sanções. (…) Indiferença total. O rublo vai aguentando.»

«Quem é que vai conseguir garantir o pão na mesa dos portugueses? É a NATO? Isto é que é importante perguntar.»