Em jeito de apresentação


imagenscomhistoria,

Chego tarde e a más horas à inauguração do Delito de Opinião. A culpa  foi de uns quantos fusos horários, apostados em dar de mim uma imagem distorcida.

Como não conheço a maioria dos que me vão acompanhar neste Delito e não gosto de ficar mal na fotografia , passo sem mais delongas à apresentação.

Nasci no Porto, vim para Lisboa com o objectivo de tirar o curso de Direito, mas rapidamente me apercebi que caíra num logro e virei andarilho. Depois de uns anos em Inglaterra, onde cultivei o gosto pela pontualidade, fui experimentando a vida em latitudes europeias  mais a norte. Não gostei do clima, nem das noites longas de Inverno e dei um salto até aos Balcãs, depois atravessei o Atlântico e dei por mim ancorado em Washington. Cansei-me e rumei a Leste, lancei âncora em Macau, apaixonei-me pelo Oriente. Um dia, em Hong Kong, o coração traiu-me e levou-me para sul, onde me  casei com a Argentina.

Já fiz um pouco de tudo na vida. Vendi livros, gastei tardes de sábado da minha juventude a fazer catálogos para editoras, fui jornalista, fui editor de revistas, andei nas vindimas, trabalhei em ONG’s e organizações internacionais, fiz voluntariado e tentei levar conforto aos sem-abrigo, criei associações e cooperativas, fui funcionário público, assessor de ministro, trabalhei em escolas como formador de professores, vi nascer, florir e morrer, projectos que criei em variadas áreas.  Estudei e fingi que estudei, percorri o mundo à descoberta de mim e acabei por encontrar-me, algures na Patagónia, entre o Chile e a Argentina, onde fui ABSOLUTAMENTE feliz.

Profissionalmente sinto-me bem na pele de jornalista “free lancer”, mas não espalhem a notícia, porque não gosto de servir de saco de boxe ao Pacheco Pereira.  “Last but not the least”: sou Dragão empedernido e, apesar de viver em Lisboa, continuo ligado umbilicalmente à cidade do Porto  que deixei aos 17 anos e onde, por acaso, nunca fui feliz…

Tenho também uma vida virtual. Iniciei-a num blog colectivo intercontinental, Além do Bojador,  mas foi no meu Rochedo que descobri o verdadeiro sentido da blogosfera. É que o meu Rochedo fica num blogobairro muito bem frequentado, onde a vizinhança  interpreta a blogosfera como um espaço de partilha. Por ali arranjei novas amizades e tenho sido alvo de imerecidas cortesias, mas quando o meu bom amigo Pedro Correia me lançou o desafio de fazer parte desta equipa, aceitei de bom grado, porque sei que ele partilha o mesmo espírito.

Feita a apresentação, resta-me dizer que espero entrar na liça diária das postagens a partir do próximo fim de semana. Sem fusos horários a atrapalhar-me e reconfortado pelo ambiente do meu Rochedo que me serve de inspiração. É que em mim, as marcas das paixões nunca se apagam. Por isso, apaixonado, entrarei nesta nova aventura.

No reino dos cobardes


Pedro Correia,

 

Um empresário basco foi assassinado há dias numa vila da província de Guizpúcoa com dois tiros – um na cabeça, outro no peito – disparados à queima-roupa a poucos metros do restaurante onde se deslocava diariamente para almoçar. Os assassinos foram dois membros da ETA que se puseram de imediato em fuga. Sucede que o empresário, de 70 anos, era dono de uma empresa à qual está adjudicada a construção da linha férrea de alta velocidade no País Basco, ligando as três capitais bascas – Bilbau, Vitória e San Sebastian – a Madrid e Paris. A ETA rejeita esta obra, delineada pelo Governo madrileno, alegando que irá descaracterizar o País Basco e torná-lo mais dependente de Castela. Em vez de discutir, mata. É o que tem feito nos últimos 40 anos, durante os quais assassinou mais de 800 pessoas.

Este último crime – o quarto do género em 2008 – confirmou que o País Basco vive mergulhado num clima de medo que trespassa o quotidiano até aos mais ínfimos pormenores. Enquanto o empresário agonizava junto ao restaurante, com a ambulância e as viaturas da polícia já concentradas no local, os seus habituais parceiros de cartas, lá dentro, continuaram a jogar tranquilamente, como se nada tivesse acontecido e nada lhes dissesse respeito. Eram conterrâneos e amigos do assassinado, mas procederam como se não o conhecessem nem lhes sobrasse um pingo de comoção humana.

“A sociedade basca está doente”, reclama o cineasta Iñaki Arteta, autor de documentários sobre as vítimas da ETA. É um diagnóstico certeiro, como ficou agora tristemente comprovado pelo episódio dos cobardes jogadores de cartas, alheios ao sangue de um amigo que acabava de jorrar a poucos metros, naquela tarde triste e chuvosa que parece pressagiar novos crimes numa escalada sem fim.

 

Ilustração: Jogadores de Cartas, de Cézanne (1890)

As pedras não dão votos


Pedro Correia,

O país do TGV, do novo aeroporto de Mário Jamé Lino e dos fatinhos Armani da classe dirigente é o mesmo que deixa morrer o património histórico e cultural. Percebe-se: reabilitar monumentos não dá votos. Mais vale inaugurar cento e oitenta e quatro rotundas e quatrocentos e sessenta e três fontanários. O que vale a janela do Convento de Cristo comparada com o computador Magalhães, distribuído como bacalhau a pataco?

Quantos deputados são precisos?


jmmcc,

As faltas dos deputados às sessões parlamentares voltam a ser notícia. O grupo parlamentar do PSD, não sendo a maior representação, consegue ganhar em tudo: maior número de faltas no total e maior número de faltas injustificadas.

Sei que a redução do número de deputados à Assembleia da República tem o risco de reduzir a diversidade das representações parlamentares. Porém, quem falta não representa coisa alguma. Por isso, se não houver outra solução e se o tema das faltas volta à ordem do dia, talvez seja também de voltar a pôr em agenda o número de deputados de que o País precisa de facto…

A página em branco


cronicasnofeminino,

 

A angústia da página em branco. A incerteza do texto. A indecisão das palavras que se querem certeiras e eloquentes. E procuro. Escrevo sobre mim? Escrevo sobre outro assunto? Apresento-me? E vou oscilando na incerteza do texto, o texto primeiro que abrirá a minha participação neste projecto que abraço de alma cheia e que, mesmo sem conhecer pessoalmente nenhum dos meus companheiros de escrita, estou certa de que, além do delito diário que aqui será cometido, me dará um enorme prazer. Escrevo sobre mim? Escrevo sobre outro assunto? Apresento-me?

Pelo delito de opinar


josegomesandre,

Ao longo dos séculos, muitas vezes a opinião encontrou resistência entre os seus alvos ou simplesmente entre aqueles que tinham poder para a restringir. A crítica de personalidades públicas foi proibida na Grã-Bretanha em 1606, sendo então definida como “libelo sedicioso”. Em 1798, os Estados Unidos – campeões da liberdade de imprensa – baniram nos jornais os comentários negativos tecidos ao seu Presidente, John Adams. Também a nossa história recente está repleta de circunscrições ao pensamento e à livre crítica.

 

Gosto de recordar, todavia, que muitos outros – com menos recursos do que nós – lutaram contra o delito de opinião. Como John Peter Zenger, que viveu encarcerado dez meses em 1735 por criticar o Governador de Nova Iorque, afirmando, no fim do seu julgamento, que “nenhuma nação perdeu o direito de expressar livremente os seus sentimentos sem que perdesse também a sua liberdade em geral”. Como James Madison, que lutou como nenhum outro americano pela promoção da opinião pública, entendendo-a como instrumento fundamental para vigiar a acção governativa e denunciar as insuficiências do sistema político e social. Ou como George Hay, que perante a discussão sobre os limites da crítica pública, afirmou: “a liberdade de imprensa, como a castidade, ou é absoluta, ou não existe de todo”.

 

O meu anterior cantinho blogosférico era encimado pelo célebre dito de Ella Wheeler Cox: Cometer o pecado de ficar em silêncio quando devíamos protestar torna os homens cobardes”. Evitar esse pecado é também aqui o meu compromisso, pois julgo que uma sociedade só se pode considerar verdadeiramente emancipada se nela existir uma plena liberdade de expressão. Dito isto, mãos à obra…

Olá, então por aqui


oanonimoanonimo,

O curioso do caso propriamente dito é que entro nesta aventura sem conhecer – fisicamente – qualquer dos outros companheiros de estrada. De alguns, sei o que deles leio e sei da amabilidade e do entusiasmo do Pedro Correia, que foi quem me convidou para fazer parte desta delinquência. Aceitei. Com muito gosto. E espero que com entusiasmo não excessivo, porque o tempo que vai sobrando não é muito.

Previno, desde já, que não sou muito cuidadoso com a escrita, porque escrevo muito depressa e porque não releio o que escrevo. Foi sempre assim. Tentarei mudar. Não sei se com êxito.

Dizendo donde venho, recordo-me que fui jornalista nos tempos áureos de O Comércio do Porto. Estive no Semanário quando ainda era um jornal de ponta. Fiz crónicas na Rádio Nova. Comentei política na TSF. Escrevi crónicas noutros jornais. Saí do jornalismo para não voltar, razão pela qual tive uma passagem fugaz pelo gabinete de Luís Filipe Menezes na secretaria de Estado dos Assuntos Parlamentares. Dediquei-me à advocacia a tempo inteiro e, aqui, tenho uma história ligada a casos de delitos de opinião. Passo de vez em quando pela RTP (para comentários essencialmente de casos jurídicos) e resolvo as faltas de última hora no Porto Canal (para comentário político).

Nascido em Marco de Canaveses (1960), dirigi jornais locais ainda não tinha 20 anos, fui vereador da Cultura nos primeiros anos de Avelino Ferreira Torres (imagine-se!) e, mais tarde, afastei-me a correr. Em 2001 – num atribulado embuste – fui candidato à Câmara local pelo PSD (de que sou militante desactivado). Perdi. Ainda bem para mim. De outro modo, hoje devia ser um tipo bem mais chato do que já sou.

O primeiro blogue em que participei foi nos Cordoeiros, lançado por magistrados ilustres, que, depois, deu origem ao Incursões (que ainda mexe). Pelo meio, fui animando blogues locais (ainda o Marco), estabeleci-me por contra própria n’O Anónimo (uma magnífica tertúlia que mais parece uma família) e, no dia 1, criei com um amigo o Marco 2009. Vida dura, como vêem, para quem tem de ganhar a vida todos os dias e, além disso, sofre de insónias.

Apesar da minha ligação à blogosfera ser intensa, sou obrigado a confessar que leio poucos blogues. Já estou a ver a minha dificuldade na rubrica o blogue da semana.Lá iremos. Para além disso, trabalho no Porto (e por onde calha) e vivo numa pontinha de Gaia, virado para o Porto.

Não esperem de mim grandes dissertações sobre política e cultura. Nem sobre nada. Penso pela minha cabeça e desenvolvo umas teses um bocadinho provocadoras. Mas tenho um trato fácil. Não prevejam situações desagradáveis comigo, mesmo quando sou teimoso.

Vamos então a isto, companheiros.

Ó TMN, põe-te a pau!


jmmcc,

Creio que foi a 29 de Dezembro que me entrou a seguinte mensagem no telemóvel (os erros são do remetente): «Waiting Ring gratis – Poe os Gato Fedorento a atender as tuas chamadas. Oferta da 1a mensalidade! Caso nao aceites, responde NAO p/ o 22700 ate 30/12  Remetente: tmn». Decidi que não me apetecia responder, mas o tratamento por ‘tu’ tocou-me e optei por guardá-la.

No dia 31, recebi nova mensagem: «Waiting Ring – O servico encontra-se activo(mensalidade EUR 0,89). P/receber SMS gratis sobre o servico, SMS p/12700 c/texto NOTICIAS ACTIVAR  Remetente: 12700». O tratamento menos familiar deixou-me desconfiado. Experimentei ligar para mim mesmo e fiquei a saber que, antes de eu atender uma chamada no meu telemóvel, tinha os Gato Fedorento a atendê-la com um escarcéu inacreditável.

Entrei em contacto com a TMN para desactivação imediata daquele serviço idiota e que não pensassem em qualquer cobrança. Acrescentei ainda dois pontos: nunca mais quero receber mensagens a tratarem-me por ‘tu’ e nunca mais quero receber mensagens com ofertas de serviços a que eu tenha de responder que não quero.

Não sei como irão tirar-me do sistema quando lançarem mensagens automáticas, mas o problema não é meu. A dúvida que retenho é que ficou sem resposta: por que raio pensará a TMN que toda a sua clientela é garotada?

Voltem a tratar-me por ‘tu’ e a exigir-me que responda que não quero uma coisa que não pedi e verão com quem se meteram…

Primeiro delito


Pedro Correia,

DELITO DE OPINIÃO, como o nome indica, é um blogue apostado na reflexão e na análise dos mais diversos temas relacionados com a actualidade, sem receio de exprimir convicções claras e fortes, nem de confrontar opiniões numa sociedade onde se regista um défice permanente de debate.

  1. É um blogue não programático, o que não significa ausência de convicções. E é um blogue que considera o exercício da crítica um valor permanente numa sociedade democrática.
  2. É um blogue que acompanha os assuntos políticos, numa perspectiva não doutrinária, mas que não esgota aqui os seus focos de interesse. As artes e as letras, a cultura em geral, e todos os aspectos relevantes da vida quotidiana merecerão a nossa atenção.
  3. É um blogue aberto a comentários, que pretende acolher e estimular, na convicção de que a interactividade com os leitores é indissociável deste meio de comunicação. Mas sem confundir a livre troca de ideias com a tolerância perante insultos ou expressões difamatórias, que não terão aqui acolhimento.
  4. É um blogue que acredita na diversidade de ideias, sem contemporizar com extremismos de qualquer espécie, e que congrega autores oriundos de diferentes formações académicas, múltiplas áreas profissionais e várias zonas do País.
  5. É um blogue que considera a língua portuguesa um património a defender, preservar e valorizar. E que faz da boa utilização do nosso idioma uma das suas prioridades.