Amor é…, Pólo Norte
(Álbum: Expedição, 1999)
Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.
Amor é…, Pólo Norte
(Álbum: Expedição, 1999)
Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.
Amor é fogo que arde sem se ver, Xornas
(EP: 1578 Camões Revisitado, 2023)
Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.
Monte Castelo, Legião Urbana
(Álbum: As Quatro Estações, 1989)
Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.
Arde Sem se Ver, Lina e Jules Maxwell
(Álbum: Terra Mãe, 2025)
Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.
Amor é Fogo que Arde Sem se Ver, Luís Represas e João Gil
(Álbum: Luís Represas e João Gil, 2011)
Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.
Memória de Meu Bem, Cristina Branco
(Álbum: Corpo Iluminado, 2001)
Memória de meu bem, cortado em flores
Por ordem de meus tristes e maus Fados,
Deixai-me descansar com meus cuidados
Nesta inquietação de meus amores.
Alma Minha, Gonçalo Salgueiro
(Álbum: No Tempo das Cerejas, 2002)
Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida descontente
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.
Alma Minha Gentil que te Partiste, Luís Cília
(Álbum: La Poésie Portugaise de nos Jours et de Toujours, 1967)
Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida descontente
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.
Alma Minha, Amália Rodrigues
(Álbum: Obsessão, 1990)
Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida descontente
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.
Tão Pequeno, Caetano Veloso e José Miguel Wisnik
(Álbum: Onqotô, 2005)
Onde pode acolher-se um fraco humano,
Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme e se indigne o Céu sereno
Contra um bicho da terra tão pequeno?
Aquela Cativa, Impana Kulkarni, Neil Anthony Fernandes e Maria Monteiro Meireles
(2022)
Aquela cativa
Que me tem cativo,
Porque nela vivo
Já não quer que viva.
Eu nunca vi rosa
Em suaves molhos,
Que para meus olhos
Fosse mais formosa.
Endechas a Bárbara Escrava, Sete Lágrimas
(Álbum: Folia Nova, 2023)
Aquela cativa
Que me tem cativo,
Porque nela vivo
Já não quer que viva.
Eu nunca vi rosa
Em suaves molhos,
Que para meus olhos
Fosse mais formosa.
Endechas a Bárbara Escrava, Miguel Calhaz
(Álbum: ContraCantos, vol. 2, 2025)
Aquela cativa
Que me tem cativo,
Porque nela vivo
Já não quer que viva.
Eu nunca vi rosa
Em suaves molhos,
Que para meus olhos
Fosse mais formosa.
Endechas a Bárbara Escrava, José Pedro Gil e Mônica Salmaso
(Álbum: Estrada Branca, 2021)
Aquela cativa
Que me tem cativo,
Porque nela vivo
Já não quer que viva.
Eu nunca vi rosa
Em suaves molhos,
Que para meus olhos
Fosse mais formosa.

Estátua de Vasco da Gama em Sines
Os Lusíadas, obra maior da nossa literatura, tem duas personagens principais: Vasco da Gama e o Velho do Restelo.
Lendo as alegadas redes sociais, por estes dias, diria que somos todos netos ou bisnetos do Velho do Restelo, não descendentes do heróico navegador que ligou Lisboa à Índia. Faz toda a diferença.
Eis uma reflexão para este 10 de Junho.

Fiquei a saber, lendo o excelente blogue de Maria do Rosário Pedreira, que alguma luminária com assento no Instituto Camões decidiu carimbar com o rótulo palavras mortas «todas aquelas que não tenham sido utilizadas nos últimos três anos».
Não imagino como os burocratas desse instituto irão averiguar tal coisa. Sei, isso sim, que o tal organismo existe para preservar e valorizar a língua portuguesa, não para emitir certidões de óbito às palavras do nosso idioma. Se tivesse competência para tal, aliás, o Instituto Camões começaria por decretar «mortas» centenas de palavras impressas na obra maior do poeta que lhe dá nome. Palavras como ditosa [pátria], ínclita [geração], infidas [gentes], benignidade [real], avena [agreste], valerosos [feitos], procelosa [tempestade], fermosas [Ninfas], terríbil [Albuquerque].
Nem é necessário recuar tanto no tempo. No próprio século XX, muitas páginas escritas por Aquilino Ribeiro, Vitorino Nemésio, Tomaz de Figueiredo, Agustina Bessa-Luís e outros escritores estarão pejadas de «palavras mortas» à luz do tal critério daqueles anónimos burocratas.
«A redução de vocabulário nos últimos anos tem sido dramática. Não apenas do vocabulário culto que, não há muito tempo, faria parte do dia-a-dia numa família medianamente instruída. Mas daquele que transportava uma tradição ancestral», alertou-nos Mário de Carvalho no seu luminoso manual de escrita intitulado Quem Disser o Contrário é Porque Tem Razão.
Maria do Rosário Pedreira dá exemplos de vocábulos que, segundo o mesmo padrão, já podem ser considerados letra morta: flausina, mastragança, bazulaque, amásia, lambisgóia. Aguarda-as o tal carimbo? Se isso acontecer, outros irão merecer extrema unção a um ritmo cada vez mais acelerado, como a escritora antecipa aqui. E não apenas palavras: também expressões idiomáticas.
De purga em purga, de depuração em depuração – até toda a riqueza semântica do nosso idioma, alicerçada num lastro de muitos séculos, se dissolver no básico linguajar de cafres que já polui o quotidiano, começando pelo das televisões e dos jornais. Que geram títulos como estes, encontrados na imprensa de hoje: «O dark side do Porto, anos 90»; «Sítio abre cowork em Aveiro»; «Como escapar ao burnout?»; «Traficantes go fast condenados por associação criminosa»; «58% dos trabalhadores remotos sentem-se engaged.».
Parecemos condenados, em grau crescente, a balbuciar e rabiscar broken english: talvez isto mereça medalha do Instituto Camões.
P. S. – Sugiro aos leitores que escrevam aqui palavras raras, de que gostem, evitando assim que lhes seja emitida certidão de óbito.

Sobre a minha proposta aqui expressa ontem, de alteração da letra do Hino Nacional, substituindo os versos de Lopes de Mendonça por um poema de Camões, houve quem concordasse e discordasse.
Fica um resumo.
«Nos dias que correm, o que faria sentido seriam versos de Bocage.»
Sampy
«Não sei se há textos de Camões cujo ritmo e métrica acertem com o ritmo e métrica da música de Alfredo Keil. Os textos de Camões já musicados, de Os Lusíadas ou quaisquer outros, não tiveram muita sorte quanto a música…»
JAB
«Excelente sugestão. Tudo o que nos livrasse desta cópia bera da Marselhesa (a música também não é a ideal, mas a coisa de “marchar contra os canhões” é bem pior).»
JPT
«Seria também pertinente e justo conter passagens de Pessoa… e, premiando a justiça da coisa, de Saramago. Poderá alguém achar que estarei a desprestigiar o poeta [Camões], mas acho que estou a elevá-lo, colocando-o com uma importância semelhante àqueles dois personagens das artes e de valor incomensurável.»
El Profesor
«Assim em abstracto, sem uma proposta concreta de quais os versos a utilizar, e a que passo da música, o pensamento do Pedro Correia de nada vale. Mais valera não o exprimir.»
Luís Lavoura

Penso há muito que o Hino Nacional devia ter versos de Camões. Sendo o Dia de Portugal assinalado a 10 de Junho, em evocação da data da morte do nosso maior poeta, faz todo o sentido.
Não desfazendo, claro, no vate Lopes de Mendonça, autor da letra do presente hino. Mas entre Camões e Mendonça, prefiro o primeiro.
A música de Alfredo Keil, naturalmente, deve manter-se.

(Getty Images)
“Porque na sociedade portuguesa actual, o medo, a reverência, o respeito temeroso, a passividade perante as instituições e os homens supostos deterem e dispensarem o poder-saber não foram ainda quebrados por novas forças de expressão da liberdade.
Numa palavra, o Portugal democrático de hoje é ainda uma sociedade de medo. É o medo que impede a crítica. Vivemos numa sociedade sem espírito crítico – que só nasce quando o interesse da comunidade prevalece sobre o dos grupos e das pessoas privadas. (…)
Portugal conhece uma democracia com um baixo grau de cidadania e liberdade” – José Gil, Portugal, Hoje – O Medo de Existir, Relógio D’Água, 2004, pp. 40-41
Combatamos, pois, o medo. Sejamos cidadãos de corpo inteiro. Sejamos melhores portugueses. Onde quer que estejamos.

Ao tomar posse como primeiro-ministro do XVIII Governo Constitucional, em Outubro de 2009, José Sócrates retomou uma antiga tradição da política portuguesa citando um verso de Camões que andava um pouco esquecido: «Esta é a ditosa pátria minha amada.»
Vem n’ Os Lusíadas, um clássico que ainda seduz políticos contemporâneos da mesma forma que seduziu o Rei D. Sebastião quando, segundo se julga, Luís de Camões lho leu pela primeira vez, no início da década de 1570, no paço real. «Esta é a ditosa pátria minha amada, / À qual se o Céu me dá que eu sem perigo / Torne com esta empresa já acabada, / Acabe-se esta luz ali comigo», escreveu Camões no canto III, 21ª oitava, d’ Os Lusíadas. É uma das mais belas quadras desta obra matricial da língua portuguesa cujo grau de popularidade se afere bem pela presença de muitos dos seus versos na nossa linguagem de todos os dias.
Com efeito, é vulgar aludirmos à «ocidental praia lusitana»(canto I-1), àqueles que foram «dilatando a fé e o império» (I-2), aos que «se vão da lei da Morte libertando» (I-2), ao «engenho e arte» (I-2) ou ao «peito ilustre lusitano» (I-3). São igualmente familiares, até a quem não leu uma só linha do vasto poema, versos como estes: «Cesse tudo o que a Musa antiga canta, / Que outro valor mais alto se alevanta!» (I-3); «Vós, poderoso Rei, cujo alto Império / O Sol, logo em nascendo, vê primeiro» (I-8); «(…) julgareis qual é mais excelente, / Se ser do mundo rei, se de tal gente” (I-10); “Duma austera, apagada e vil tristeza» (canto X-145).
Os Lusíadas é uma obra marcante também pelas figuras que cria ou recria.
As Tágides («E vós, ó Tágides minhas, pois criado / Tendes em mim um novo engenho ardente», I-4); Vasco da Gama, o «forte capitão» (I-44); a deusa Vénus, defensora dos portugueses, que «novos mundos ao mundo irão mostrando» (canto II-45), pois «se mais mundo houvera, lá chegara» (canto VII-79); Inês de Castro, aquela «que depois de ser morta foi rainha» (III-118); o Velho do Restelo com as suas imprecações («Ó glória de mandar! Ó vã cobiça / Dessa vaidade a que chamamos fama», canto IV-95); ou o sinistro Adamastor («Cheios de terra e crespos os cabelos, / A boca negra, os dentes amarelos», canto V-39).
Já para não falar das incursões autobiográficas do autor no seu poema, como aquela em que se retrata como alguém que tem «numa mão sempre a espada e noutra a pena» (VII-79).
Ou quando, projectado em interposto navegador no célebre episódio da Ilha dos Amores, nos ensina que «Melhor é experimentá-lo que julgá-lo / Mas julgue-o quem não pode experimentá-lo»(canto IX-83).
Camões foi um mestre na arte do aforismo em forma de verso, como Os Lusíadas bem testemunham.
Eis alguns desses aforismos: “É fraqueza entre ovelhas ser leão” (I-68); «Sempre por via irá direita / Quem do oportuno tempo se aproveita»(I-76); «Quanto mais pode a fé que a força humana» (III-111); «Um baixo amor os fortes enfraquece» (III-139); «É grande dos amantes a cegueira» (V-54); «Contra o Céu não valem mãos» (V-58); «Quem não sabe a arte, não na estima» (V-97); «Fraqueza é dar ajuda ao mais potente» (IX-80).
Não admira que o nosso maior poeta continue a seduzir políticos: foi ele quem ensinou que «toda a terra é pátria para o forte» (canto VIII-63). Foi ele que tão bem soube cantar essa «ínclita geração» (IV-50) que se aventurou no ponto exacto «onde a terra se acaba e o mar começa» (VIII-78).
Foi no entanto também Camões quem ensinou – aludindo a D. Fernando I – que «um fraco rei faz fraca a forte gente» (III-138).
Este é um verso que não imaginamos em nenhum discurso de posse. O que não quer dizer que não seja igualmente digno de reflexão.
Texto reeditado