Andamos o tempo todo a tropeçar em eufemismos, induzidos em larga medida por canais noticiosos que evitam chamar as coisas pelos seus nomes. Agora, por exemplo, ninguém morre: limita-se a “partir”. Como se fosse num cruzeiro às Maldivas.
Este pensamento acompanha o DELITO DE OPINIÃO durante toda a semana

Por isso é quando eu partir quero ir de foguetão para ver se chego mais rápido ao destino.
O compositor Olivier Messiaen dizia que quando morresse iria dar umas voltas – certamente de foguetão – por toda aquele universo que passou a vida a representar nas suas obras, subindo “Des canyons aus étoiles” e sempre na busca de “Éclairs sur l’au dela”…
Esticar o pernil.
Pernil é no forno.
Mais respeito pelo barco de Caronte.
Barco ou barca?
«estamos na lista de espera» ou «o freguês que se segue»
Quem espera sempre alcança.
«nem que seja um pontapé na pança»
Juntem-se-lhe os inglesismos, com todo o cretino a sustentar argumentos em ‘backgrounds’ e ‘leverages’.
Americanismos, melhor dizendo.
Até os ingleses os detestam.
“Para os que crêem em Vós, Senhor, a vida não acaba; apenas se transforma…”. Por isso, mesmo não concordando com os eufemismos e a preocupação alienante de “não traumatizar”, etc… eu, que lido regularmente com estas situações, penso que a palavra “morrer” é demasiado forte pois significa “acabar”, “falhar”, sei lá, o que não é verdade… Já agora, para os que não saibam, a palavra “cemitério” significa “dormitório”… e por isso, dizemos com razão, crentes ou não crentes: “Descanse em Paz”…
O Cruzeiro Eterno das Maldivas
Convés de um paquete de luxo, algures nas águas cristalinas das Maldivas. Dois senhores de meia-idade, vestindo calções de banho com padrão floral e camisas de manga curta abertas, estão refastelados em espreguiçadeiras.
Um deles, o Artur, tem marcas de pneus de um autocarro cravadas no peito. O outro, o Lemos, tem três buracos de bala perfeitamente alinhados na testa. Bebem caipirinhas.
Artur: (A cuspir um bocado de palha para o chão) Ó Lemos, esta merda sabe a formol. E o gajo da animação turística não se cala com a Macarena. Se eu soubesse que “partir” era isto, não me tinha mandado para a frente daquele autocarro da Carris.
Lemos: Tu não reclames, Artur. Segundo os pivôs da CMTV estás nas Maldivas. Olha para mim: levei com três balázios nos cornos lá na Amadora e o jornalista das oito teve a distinta lata de dizer que eu “fui descansar”. Fui descansar uma merda, fui assassinado à queima-roupa! Mas pronto, deram-me esta pulseira com tudo incluído.
Artur: Tudo incluído, sim senhor. Ontem fui ao buffet tentar comer um camarão tigre e ele caiu-me direto nas sandálias porque, repara lá na ironia, já não tenho tubo digestivo.
Lemos: Detalhes. É o vocabulário moderno, Artur. A morte agora ofende. Dizer que um gajo “bateu as botas” ou “foi fazer tijolo” dá cabo das audiências, as velhas engasgam-se com a camomila. Agora somos “viajantes”.
Artur: Viajante? Onde é que anda a minha bagagem de porão, então? A cabra da minha Cremilde no velório, cheia de lágrimas falsas a dizer: “Ai, o Artur deixou-nos…”. Deixou-vos?! Eu fui ejetado contra a montra do Pingo Doce a 120 à hora! Não fui a lado nenhum!
Lemos: A tua sorte é que foste pelo pára-brisas. Foste promovido a “estrela no céu”. Foi o que li no Facebook da tua filha. “O papá agora é uma estrelinha”.
Artur: Uma estrelinha. Exato. Com traumatismo craniano e três costelas perfuradas, mas com muita luz própria.
Lemos: (A apontar com o charuto) Olha lá para a água. Estás a ver aquele gajo ali a boiar de barriga para baixo, roxo que nem uma beringela?
Artur: Aquele que está a largar pedaços de pele na piscina?
Lemos: Esse mesmo. É o ex-Ministro das Obras Públicas. Teve um enfarte fulminante a meio de um jantar de comício. Comia que nem uma besta, entupiu as artérias todas com colesterol. No telejornal disseram que “cessou funções num ato de recolhimento súbito”.
Artur: Recolhimento súbito. Claro que sim. Nota-se bem o recolhimento dele ali na boia do flamingo, de cu para o ar.
Lemos: A televisão já não suporta cadáveres, Artur. Ninguém morre. Ninguém apodrece. Ninguém vai para a terra ser comido por bichos. A gente “ausenta-se”.
Artur: Sabes que mais? Vou mandar vir outro cocktail. Achas que se eu pedir um com cianeto eles trazem? Ou vão dizer que é uma “bebida com um desfecho em si mesma”?
Lemos: Pede logo dois. Já que “partimos”, ao menos que a gente apanhe uma valente “indisposição hepática prolongada”. E mete protetor solar nessas marcas de pneu, que o sol das Maldivas não perdoa e eu não quero partilhar a cabine com um defunto a cheirar a borracha queimada.
Artur: Defunto não, Lemos. Passageiro em trânsito eterno. Tem mais respeito pela semântica.
hoje o Carlos Sousa parece una cancion de Los Suaves
Com a “partida” do SAPO Blogs, continuo sem saber o que colocar nos meus favoritos para Julho em matéria de delito de opinião….
Vai saber não tarda nada.
Andamos mas é o tempo todo a tropeçar em postais sem conteúdo algum.
Se dúvidas houvessem que o povo que temos é o principal problema, bastaria ver os que estão aqui a comentar acriticamente o que vale nada, para as dúvidas desaparecerem. E divertem-se!
“Houvessem”?
Falando em burros…
Este se lesse “se dúvidas houvera” pensava que era gralha e corrigia logo, eheheh.
A alguns, vai crescendo o nariz.
A este, crescem as orelhas.
Sim, sim, ainda por cima, supremo desaforo, atrevem-se a divertir-se!
O Anónimo é a reencarnação do Frade Jorge, o Ceguinho Maléfico, que pegou fogo à abadia por embirração ao riso e a todas as faltas de siso não é? Adivinhei, aposto!
Hoje ficámos a saber pelo Correio da Manhã que é possível reverter um óbito…
“…Ao que o CM conseguiu apurar, o carro em que a vítima seguia terá sofrido uma avaria, o homem encostou à berma e colocou o triângulo. Foi depois à bagageira buscar água para colocar no carro e foi abalroado quando se dirigia para a frente da viatura. Foi projetado para a via.(…)
Os Bombeiros Voluntários de Barcelos foram acionados, mas não foi possível reverter o óbito.”
Essa é mesmo de morte!
Eu gosto particularmente do “já não está entre nós”… Já assisti a alguma comédia d’enganos com a tirada, até quem conhece a expressão nem sempre a liga imediatamente a funeral, eheheh.
E a comédia está exactamente ali, naquele espacinho do “imediatamente” (“Ai não? Mas emigrou, foi?”, ou coisa assim), seguido pelos contorcionismos verbais dos “compères”, um a explicar, o outro a explicar-se…
Na ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA dizem “Faleceu (nome da pessoa e c. v.).
Vamos fazer um minuto de silêncio.”. As Deputadas e os Deputados
levantam-se, em sinal de respeito e em memória da pessoa falecida,
mesmo que não a tenham conhecido pessoalmente, e fazem o referido
“minuto de silêncio”. Normalmente, o “voto de pesar” é expresso por
unanimidade.
Em relação ao uso da palavra “partiu” em vez da palavra “faleceu”
ou da palavra “morreu”, trata-se de um uso quase generalizado
nos noticiários televisivos. Depende de quem escreveu o texto
para ser lido por quem apresenta o noticiário, podendo ser a mesma
pessoa (jornalista). Normalmente é a primeira notícia ou a última,
dependendo da importância social da pessoa falecida.
Algumas pessoas (apresentadoras de televisão) (jornalistas “pivots”)
dizem “faleceu” ou “morreu”, outras dizem “partiu”.
Dizer “partiu”, em relação a informar que uma pessoa faleceu, é errado.
A crença, a educação ou a fé religiosa da pessoa que informa influi na informação.
A deontologia da nobre profissão de jornalista recomenda a isenção na actividade.
A ex-jornalista Dina Aguiar (R. T. P.) despedia-se assim:
“Até amanhã, se Deus quiser.”.
“Até Segunda-Feira, se Deus quiser.”.
Clara falta de isenção.
Contra a sua vontade, foi afastada da apresentação do noticiário.
Deixou a R. T. P. …
Na Maçonaria, quem morre vai para o Oriente Eterno…
Saúde.
João Barros da Costa