Pensamento da semana


Pedro Correia,

 

Andamos o tempo todo a tropeçar em eufemismos, induzidos em larga medida por canais noticiosos que evitam chamar as coisas pelos seus nomes. Agora, por exemplo, ninguém morre: limita-se a “partir”. Como se fosse num cruzeiro às Maldivas.

 

Este pensamento acompanha o DELITO DE OPINIÃO durante toda a semana

25 comentários em “Pensamento da semana”

    1. O compositor Olivier Messiaen dizia que quando morresse iria dar umas voltas – certamente de foguetão – por toda aquele universo que passou a vida a representar nas suas obras, subindo “Des canyons aus étoiles” e sempre na busca de “Éclairs sur l’au dela”…

  1. Juntem-se-lhe os inglesismos, com todo o cretino a sustentar argumentos em ‘backgrounds’ e ‘leverages’.

  2. “Para os que crêem em Vós, Senhor, a vida não acaba; apenas se transforma…”. Por isso, mesmo não concordando com os eufemismos e a preocupação alienante de “não traumatizar”, etc… eu, que lido regularmente com estas situações, penso que a palavra “morrer” é demasiado forte pois significa “acabar”, “falhar”, sei lá, o que não é verdade… Já agora, para os que não saibam, a palavra “cemitério” significa “dormitório”… e por isso, dizemos com razão, crentes ou não crentes: “Descanse em Paz”…

  3. O Cruzeiro Eterno das Maldivas

    Convés de um paquete de luxo, algures nas águas cristalinas das Maldivas. Dois senhores de meia-idade, vestindo calções de banho com padrão floral e camisas de manga curta abertas, estão refastelados em espreguiçadeiras.
    Um deles, o Artur, tem marcas de pneus de um autocarro cravadas no peito. O outro, o Lemos, tem três buracos de bala perfeitamente alinhados na testa. Bebem caipirinhas.

    Artur: (A cuspir um bocado de palha para o chão) Ó Lemos, esta merda sabe a formol. E o gajo da animação turística não se cala com a Macarena. Se eu soubesse que “partir” era isto, não me tinha mandado para a frente daquele autocarro da Carris.

    Lemos: Tu não reclames, Artur. Segundo os pivôs da CMTV estás nas Maldivas. Olha para mim: levei com três balázios nos cornos lá na Amadora e o jornalista das oito teve a distinta lata de dizer que eu “fui descansar”. Fui descansar uma merda, fui assassinado à queima-roupa! Mas pronto, deram-me esta pulseira com tudo incluído.

    Artur: Tudo incluído, sim senhor. Ontem fui ao buffet tentar comer um camarão tigre e ele caiu-me direto nas sandálias porque, repara lá na ironia, já não tenho tubo digestivo.

    Lemos: Detalhes. É o vocabulário moderno, Artur. A morte agora ofende. Dizer que um gajo “bateu as botas” ou “foi fazer tijolo” dá cabo das audiências, as velhas engasgam-se com a camomila. Agora somos “viajantes”.

    Artur: Viajante? Onde é que anda a minha bagagem de porão, então? A cabra da minha Cremilde no velório, cheia de lágrimas falsas a dizer: “Ai, o Artur deixou-nos…”. Deixou-vos?! Eu fui ejetado contra a montra do Pingo Doce a 120 à hora! Não fui a lado nenhum!

    Lemos: A tua sorte é que foste pelo pára-brisas. Foste promovido a “estrela no céu”. Foi o que li no Facebook da tua filha. “O papá agora é uma estrelinha”.

    Artur: Uma estrelinha. Exato. Com traumatismo craniano e três costelas perfuradas, mas com muita luz própria.

    Lemos: (A apontar com o charuto) Olha lá para a água. Estás a ver aquele gajo ali a boiar de barriga para baixo, roxo que nem uma beringela?

    Artur: Aquele que está a largar pedaços de pele na piscina?

    Lemos: Esse mesmo. É o ex-Ministro das Obras Públicas. Teve um enfarte fulminante a meio de um jantar de comício. Comia que nem uma besta, entupiu as artérias todas com colesterol. No telejornal disseram que “cessou funções num ato de recolhimento súbito”.

    Artur: Recolhimento súbito. Claro que sim. Nota-se bem o recolhimento dele ali na boia do flamingo, de cu para o ar.

    Lemos: A televisão já não suporta cadáveres, Artur. Ninguém morre. Ninguém apodrece. Ninguém vai para a terra ser comido por bichos. A gente “ausenta-se”.

    Artur: Sabes que mais? Vou mandar vir outro cocktail. Achas que se eu pedir um com cianeto eles trazem? Ou vão dizer que é uma “bebida com um desfecho em si mesma”?

    Lemos: Pede logo dois. Já que “partimos”, ao menos que a gente apanhe uma valente “indisposição hepática prolongada”. E mete protetor solar nessas marcas de pneu, que o sol das Maldivas não perdoa e eu não quero partilhar a cabine com um defunto a cheirar a borracha queimada.

    Artur: Defunto não, Lemos. Passageiro em trânsito eterno. Tem mais respeito pela semântica.

  4. Andamos mas é o tempo todo a tropeçar em postais sem conteúdo algum.
    Se dúvidas houvessem que o povo que temos é o principal problema, bastaria ver os que estão aqui a comentar acriticamente o que vale nada, para as dúvidas desaparecerem. E divertem-se!

    1. Sim, sim, ainda por cima, supremo desaforo, atrevem-se a divertir-se!

      O Anónimo é a reencarnação do Frade Jorge, o Ceguinho Maléfico, que pegou fogo à abadia por embirração ao riso e a todas as faltas de siso não é? Adivinhei, aposto!

  5. Hoje ficámos a saber pelo Correio da Manhã que é possível reverter um óbito…

    “…Ao que o CM conseguiu apurar, o carro em que a vítima seguia terá sofrido uma avaria, o homem encostou à berma e colocou o triângulo. Foi depois à bagageira buscar água para colocar no carro e foi abalroado quando se dirigia para a frente da viatura. Foi projetado para a via.(…)

    Os Bombeiros Voluntários de Barcelos foram acionados, mas não foi possível reverter o óbito.”

  6. Eu gosto particularmente do “já não está entre nós”… Já assisti a alguma comédia d’enganos com a tirada, até quem conhece a expressão nem sempre a liga imediatamente a funeral, eheheh.
    E a comédia está exactamente ali, naquele espacinho do “imediatamente” (“Ai não? Mas emigrou, foi?”, ou coisa assim), seguido pelos contorcionismos verbais dos “compères”, um a explicar, o outro a explicar-se…

  7. Na ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA dizem “Faleceu (nome da pessoa e c. v.).
    Vamos fazer um minuto de silêncio.”. As Deputadas e os Deputados
    levantam-se, em sinal de respeito e em memória da pessoa falecida,
    mesmo que não a tenham conhecido pessoalmente, e fazem o referido
    “minuto de silêncio”. Normalmente, o “voto de pesar” é expresso por
    unanimidade.

    Em relação ao uso da palavra “partiu” em vez da palavra “faleceu”
    ou da palavra “morreu”, trata-se de um uso quase generalizado
    nos noticiários televisivos. Depende de quem escreveu o texto
    para ser lido por quem apresenta o noticiário, podendo ser a mesma
    pessoa (jornalista). Normalmente é a primeira notícia ou a última,
    dependendo da importância social da pessoa falecida.

    Algumas pessoas (apresentadoras de televisão) (jornalistas “pivots”)
    dizem “faleceu” ou “morreu”, outras dizem “partiu”.

    Dizer “partiu”, em relação a informar que uma pessoa faleceu, é errado.

    A crença, a educação ou a fé religiosa da pessoa que informa influi na informação.

    A deontologia da nobre profissão de jornalista recomenda a isenção na actividade.

    A ex-jornalista Dina Aguiar (R. T. P.) despedia-se assim:
    “Até amanhã, se Deus quiser.”.
    “Até Segunda-Feira, se Deus quiser.”.
    Clara falta de isenção.
    Contra a sua vontade, foi afastada da apresentação do noticiário.
    Deixou a R. T. P. …

    Na Maçonaria, quem morre vai para o Oriente Eterno…

    Saúde.

    João Barros da Costa

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