A tragédia espanhola


Luís Naves,

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Dias de confusão

Era sábado, 18 de Julho de 1936, há 80 anos. As notícias, ainda confusas, começaram a surgir através das agências, indicando que decorria uma sublevação das tropas espanholas em Marrocos. Os jornais levaram vários dias a compreender o que verdadeiramente se passava. Começou assim, pelo menos do ponto de vista da opinião pública portuguesa, uma das mais brutais guerras civis europeias, que duraria três anos. A república espanhola já esperava um golpe das direitas, essa foi mesmo a notícia principal do Diário de Lisboa no dia 16. Era uma questão de tempo antes de haver uma rebelião, mas ninguém se prepara para um conflito prolongado e a guerra civil só foi possível porque o golpe falhou e, de súbito, a Espanha estava dividida em duas zonas, com dois exércitos (enfim, eram três zonas, porque o lado rebelde ocupava dois territórios sem continuidade). Nenhum lado se podia render.

Ao longo da primeira metade do ano de 1936 (o ano da morte de Ricardo Reis), a agitação em Espanha tinha sido tremenda. A 13 de Julho fora assassinado em Madrid um deputado monárquico, Calvo Sotelo, cuja família se refugiou em Portugal, recebida em Lisboa no meio de grande emoção. A figura de maior destaque na estação do Rossio, quando os exilados foram esperar a viúva do deputado e os seus quatro filhos, era indiscutivelmente o general Sanjurjo, infeliz exemplo do homem certo no sítio errado e no momento errado. A liderança da rebelião devia ter sido dele, mas à frente do golpe estavam outros generais, nomeadamente um relativamente desconhecido, Francisco Franco.

Soube-se mais tarde que o Exército Espanhol de Marrocos não teria atravessado o estreito de Gibraltar sem ajuda de uma ponte aérea da aviação da Alemanha nazi e também se sabe hoje que alguns aviões alemães fizeram escala para reabastecimento em território português. Salazar tinha de saber disto: no fundo, ajudou a salvar a rebelião, que esteve à beira de soçobrar naqueles primeiros dias frenéticos, marcados por fuzilamentos sumários dos militares apanhados no lado errado.

 

Acidente em Cascais

A 20 de Julho, Portugal foi palco de um dos episódios cruciais da Guerra Civil de Espanha. O general Sanjurjo, (ao centro na imagem), que vivia exilado no Estoril e era facilmente a figura militar mais prestigiada do lado rebelde, morreu num acidente de aviação que a imprensa portuguesa narrou em reportagens detalhadas. O general tentava chegar a Burgos e embarcou num pequeno avião que, à descolagem, não terá conseguido evitar as árvores no topo da pista de má qualidade, na actual quinta da marinha, em Cascais. O avião caiu, aparentemente por perder a hélice, e o piloto foi projectado da cabina, tendo ficado apenas com ferimentos ligeiros.

O general não teve tanta sorte: ia na parte de trás e levava uma pesada mala (com a farda), que impedia a sua movimentação naquele espaço exíguo. Testemunhas disseram que o avião pareceu levar demasiado peso e não conseguiu, por muito pouco, evitar as árvores, no entanto houve testemunhos contraditórios que não coincidem com esta história plausível, nos quais não se menciona o choque com o arvoredo, mas súbita perda de altitude. Estava um dia esplêndido. O voo para Burgos não apresentava dificuldade e a máquina voara anteriormente sem problemas. O piloto era um dos melhores, mas nunca se apurou se houve erro humano.

O facto é que Sanjurjo não conseguiu sair a tempo do aparelho, ou ficou preso pela mala ou teria ficado contundido na queda, não se sabe. Houve um incêndio, as pessoas que se tinham despedido do general não conseguiram correr a tempo para apagar as chamas. Enfim, Sanjurjo morreu carbonizado.

O Governo português teve dificuldade em demonstrar às autoridades de Madrid que desconhecia em absoluto aquele voo clandestino. O embaraço foi minimizado pela violência das notícias que chegavam de Espanha. Na altura, os rebeldes conspiravam em Lisboa, mas os republicanos tinham a sua presença. Aliás, muitos espanhóis estavam aqui de férias e ficaram retidos durante semanas, antes de conseguirem regressar à respectiva zona. Também havia muitos refugiados que não se metiam em política.

Ao longo da guerra civil de Espanha, Portugal manteria uma relação ambígua com os dois lados do perigoso conflito. Há um exemplo menos famoso dessa ambiguidade: no final do Verão, as autoridades não impediram que se instalassem cerca de mil refugiados num campo do lado de cá da fronteira, nos arredores de Barrancos. Fugiam da brutalidade (das forças marroquinas)  da coluna que acabaria por executar um massacre em Badajoz. No caso de Barrancos, foram todos salvos, transportados de comboio para Lisboa e depois por barco para território republicano, numa altura em que o conflito já era uma matança sem quartel. Houve na altura umas pequenas notícias sobre este episódio, mas foi tudo discreto. Recentemente, foi publicado um livro que conta a história deste campo de refugiados na Herdade da Coitadinha, Contra as Ordens de Salazar, de Pedro Prostes da Fonseca, ajudando a dar maior visibilidade a um tema cuja divulgação tem sido sobretudo académica.

O Governo de Cinco Minutos


Luís Naves,

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O Pedro Correia fez referência, mais abaixo, a um episódio da Primeira República, o governo de cinco minutos, e não resisto a publicar aqui um excerto de um texto que escrevi há dois anos (e que não publiquei antes) sobre este estranho acontecimento. O chefe de governo, Francisco Fernandes Costa (1857-1925), na imagem, foi nomeado pelo presidente e estava a realizar a primeira reunião com os ministros que escolhera quando uma turba excitada interrompeu os trabalhos. Sob ameaça, Fernandes Costa apresentou imediatamente a sua demissão. A situação política era volátil, o país estava em crise financeira e os radicais dificultavam a participação da direita no poder, neste caso de um especialista em finanças. O que provocou o protesto foi a inclusão de ministros ‘sidonistas’, ligados ao presidente Sidónio Pais, que fora assassinado meses antes. O texto baseia-se na leitura dos jornais do dia.

 

“Gastou-se demais. Gasta-se demais. Esta é, com efeito, a verdade incontroversa”, assim escrevia o editorialista do Diário de Notícias, na edição de 16 de Janeiro de 1920. Na véspera, 15 de Janeiro, Lisboa vivera um dia memorável, com a nomeação de um novo governo, chefiado por Francisco Fernandes Costa e que manifestações ruidosas forçaram a demitir-se mesmo antes de tomar posse, no que ficou conhecido como o episódio do “governo dos cinco minutos”. Vivia-se um período de grande instabilidade política, a ponto de nessa manhã terem corrido boatos sobre “nutrido tiroteio” na zona da Rotunda. Fora afinal um falso alarme, as descargas do motor de um automóvel avariado na Avenida da Liberdade.

Os partidos tinham organizado um governo liderado pela facção liberal dos republicanos, à direita, mas havia grupos que reclamavam um “gabinete nacional”, ou seja, sem sidonistas (partidários do falecido presidente Sidónio Pais). Apesar das fortes medidas de segurança, o presidente António José de Almeida perdeu o controlo da situação. Conhecido o elenco do governo, logo se organizaram comícios na Praça do Comércio e desfiles pela cidade, até ao Rossio, com cenas de pancadaria e até o atropelamento acidental de um pobre mendigo, que segundo o Diário de Notícias ficou muito maltratado nas pernas.

Os ministros reuniram pela primeira e última vez no gabinete do chefe do governo, na Junta de Crédito Público*. Segundo contou o próprio Fernandes Costa, na sua carta de demissão, “o edifício foi invadido, em tumulto, por muitas pessoas, enquanto muitas mais se aglomeravam nas portas do edifício, as quais, em altas invectivas contra o referido ministério, protestavam contra a sua constituição, reclamando a formação de um ministério nacional”. Foi assim inviabilizada à força a solução Fernandes Costa. O governo anterior, demissionário, de Sá Cardoso, manteve-se até Março de 1920, quando foi formado um gabinete independente, o 23º da Primeira República (descontando juntas revolucionárias e governos provisórios). Por sua vez, esse governo independente duraria três meses, o que era uma eternidade, em comparação ao efémero 22º, o mais curto de sempre”.

 

* O actual edifício do Ministério das Finanças

A Cruzada das Crianças (episódio da História do Fracasso)


Luís Naves,

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A cruzada das crianças mais parece tirada de um livro de ficção. Rodeada de lendas, motivo para romances e narrativas populares que distorceram um pouco o que se conhece da realidade, esta peregrinação aconteceu de facto no início do século XIII, quando a civilização europeia sofria vagas de ardor religioso, num tempo em que a vida era curta, marcada pela superstição, dominada pela doença e pela violência extrema do quotidiano.

Esta foi uma época de fé ilimitada, em que os poderes sobrenaturais explicavam o destino humano. Foi também um tempo de guerra religiosa, o que implicou tradicionalmente violência extrema e sem quartel. A história da Cruzada das Crianças envolveu vários milhares de jovens, mas eram de baixos estratos da população, o que significa que este enorme drama deixou rastos históricos ténues. De forma apropriada, um dos protagonistas era pastor, ocupação que do ponto de vista simbólico tinha ligação imediata ao cristianismo e à religião.

Em 1212, ocorreu uma vasta movimentação de europeus que tem intrigado os historiadores. Sendo difícil distinguir a parte factual da parte lendária, sabe-se que a Europa do início do século XIII viveu num clima de intensa religiosidade, que podia ter criado uma civilização fanatizada. Nesse mesmo ano, foi mobilizado um vasto exército cristão que combateu em Espanha, proporcionando ali uma vitória esmagadora sobre os sarracenos, em Navas de Tolosa, no Verão de 1212, onde ficou definitivamente estabelecido que os cristãos iriam dominar a Península. Curiosamente, nesta batalha participou um contingente português, embora sem a presença do rei, Afonso II, que era doente e enfrentava graves problemas internos. O monarca, cujo cognome é o Gordo ou o Gafo, era neto de Afonso Henriques e ascendera ao trono em 1211, aos 26 anos.

Em simultâneo, ocorreu uma mobilização militar cristã no centro da Europa, cujo objectivo foi o de sufocar uma perigosa heresia que ganhara vasto apoio popular. Conhecido por Cruzadas Albigenses, este episódio provocou grande mortandade no sudoeste da França. A guerra duraria entre 1209 e 1229, saldando-se pela eliminação dos heréticos Cátaros, uma seita maniqueísta que acreditava no poder do bem e do mal, portanto, também na capacidade criadora de Satanás. A Igreja recorreu a meios extremos para eliminar os hereges, que foram mortos, expulsos das suas propriedades ou convertidos à força. A inquisição, criada neste período, continuaria a reprimir as populações muito depois da guerra ter terminado. Houve extraordinária perturbação económica e muitas pessoas deambulavam sem rumo.

 

 

Foi neste ponto, em 1212, que surgiu o episódio da Cruzada das Crianças, que se estabeleceu mais tarde como lenda, reforçada sobretudo devido a textos românticos posteriores que lhe acrescentaram fábulas e fantasias. Sabe-se hoje que existe uma base autêntica na história, sendo verdadeiras as duas personagens principais referidas na tradição, um pastor francês chamado Estêvão (Etienne) de Cloyes, e um camponês alemão referido como Nicolau de Colónia. Do pastor francês conta-se uma história mirabolante, segundo a qual o jovem tentou entregar ao rei de França, Filipe Augusto, uma carta escrita pelo próprio Jesus Cristo, onde se exigia ao monarca que organizasse uma cruzada à Terra Santa.

A Europa estava entre duas cruzadas (a quarta, lançada em 1202, e a quinta, entre 1217 e 1221), mas também se debatia com problemas de sobrepopulação e revoltas camponesas. Ignorado ou rejeitado pelo rei, Estêvão começou a pregar e organizou uma grande movimentação de peregrinos, com cruzes, estandartes e regras próprias. Também no Verão de 1212, surgiu um fenómeno semelhante na Renânia alemã e os historiadores não conseguem explicar a impressionante coincidência. Estarão as duas marchas ligadas? Ninguém sabe ao certo, embora estes factos se possam explicar pela circunstância de existir em ambos os locais um clima religioso apropriado a fenómenos de exaltação e arrebatamento. Há quem defenda a tese de que houve mais peregrinações de menor dimensão, coagulando em dois grandes focos de “ansiedade comunitária”, os quais se podem até ter juntado um ao outro, embora seja mais provável a tese de existirem apenas dois grandes movimentos separados (1).

Os números da lenda afirmam que a peregrinação de Estêvão juntou 30 mil crianças e a de Nicolau talvez 20 mil, mas pode ter havido outros grupos e os números não são verificáveis. As fontes documentais sobre a cruzada identificam os peregrinos como “pueri”, palavra latina que significa “crianças”, mas sabe-se que estes grupos de peregrinos em vagabundagem incluíam adolescentes, também homens maduros e até idosos e raparigas. Na sua maioria, estes pueri eram camponeses sem trabalho e sem hipóteses de casar, pois na altura era preciso pagar o dote e a pobreza extrema dificultava os noivados. Alguns pormenores das crónicas dão a entender que Estêvão, sobretudo este líder, estaria já na idade viril.

Os historiadores franceses têm dúvidas sobre a possibilidade de 30 mil peregrinos atravessarem o sul de França sem deixarem rasto documental e autores como Christopher Tyerman não dão grande credibilidade às informações sobre a viagem de Estêvão até Marselha, sublinhando que estas procissões “desapareceram rapidamente dos registos”. As multidões em movimento apelavam a uma vida mais correcta e à libertação da Terra Santa. Os peregrinos participavam numa penitência colectiva, mas existe um possível motivo social para a concretização deste drama: “Alguns relatos afirmam que os participantes não eram provenientes das hierarquias habituais do poder social (jovens, raparigas, os solteiros, por vezes excluindo até as viúvas) ou do estatuto económico: pastores, lavradores, carreteiros, trabalhadores agrícolas e artesãos rurais sem estabelecimento fixo na terra ou na comunidade, desenraizados e nómadas” (2). Em resumo, estavam envolvidos os mais pobres e os excluídos, não havia liderança da hierarquia religiosa ou da aristocracia e os objectivos da peregrinação eram difusos e vagos.

 

Os documentos sobre este acontecimento sugerem que os grupos de peregrinos não tinham permissão para entrar nas cidades, devido ao medo das epidemias. Sem apoio, porventura até expulsos e hostilizados, sofriam fome e sede. Muitos “cruzados” foram atacados e espancados ou morreram no caminho. A enorme movimentação de gente transformou-se numa lenta agonia. O grupo alemão, chefiado por Nicolau, que segundo as crónicas terá tentado atravessar os Alpes, foi dizimado por avalanchas e pelo mau tempo. As crianças viajavam descalças e a maioria morreu de fadiga ou doença. Certamente, terá havido outros que abandonaram a peregrinação e, vencidos pelas dificuldades, foram ficando pelo caminho. Não se sabe o que lhes aconteceu, mas talvez tenha sobrevivido um número razoável, transformando a peregrinação também numa migração.

Segundo as crónicas e a tradição, chegaram sete mil peregrinos a Génova, não havendo referência ao número dos que conseguiram chegar a Marselha. A história da cruzada de Estêvão de Cloyes, na sua versão lendária, conta que as crianças francesas foram enfiadas em sete navios e seguiram pelo Mediterrâneo (seriam pelo menos algumas centenas de sobreviventes). Dois destes navios afundaram com todos os passageiros e os restantes cinco foram capturados por piratas da margem sul do Mediterrâneo (com a possível conivência dos armadores, que lhes tinham garantido transporte para o Levante).

As crianças que sobreviveram a esta calamidade foram escravizadas. Ainda segundo a lenda, houve mártires que recusaram converter-se ao Islão, tendo 400 deles sido bem tratados por um califa bondoso. Enfim, ainda segundo os pequenos farrapos de informações, vários peregrinos acabaram o seu percurso a servir como intérpretes no Cairo. A cruzada dos jovens alemães também acabou mal, embora alguns tenham chegado a Roma. Dos sete mil que tinham chegado a Génova, restavam mil, que segundo uma crónica partiram por mar para Jerusalém, para nunca mais serem vistos. A tradição de um mosteiro alpino sustenta que Nicolau participou numa expedição à Terra Santa, tendo combatido na batalha de Damieta, junto ao Nilo, anos depois.

Enfim, talvez Estêvão e Nicolau não tivessem a importância que parecem possuir nos textos da época, talvez tudo isto não passasse de uma histeria colectiva, com dezenas ou centenas de grupos de crianças a percorrerem a Europa, pregando a guerra santa em troca de esmola, em grupos que se formavam e desfaziam, ao sabor das marés do acaso. Talvez tudo isto corresponda a uma história verídica, mas exagerada pela incerteza medieval. A história presta-se à imaginação e não admira que a Cruzada das Crianças tenha inspirado escritores românticos. Os conflitos de religião foram sempre motivados pelo fanatismo e o fervor, mas também pela ambição e a ganância. Neste caso, uma excepção, tudo parece bem mais infantil e ingénuo: os espíritos fracos são os primeiros a embarcar em guerras santas. Se aconteceu na realidade como contaram as crónicas, a Cruzada das Crianças sugere que a civilização europeia era bastante frágil e a sua sobrevivência e posterior triunfo tem sem dúvida um lado miraculoso. Do ponto de vista do longo drama da humanidade, esta é também uma terrível história sobre a inocência e a tolice.

 

(1) A Guerra de Deus, Uma nova história das Cruzadas, Christopher Tyerman, Aletheia

(2) idem

 

O imperador empalhado (episódio da História do Fracasso)


Luís Naves,

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O poder é demasiado transitório e há muitos exemplos de homens poderosos que quase chegaram aos píncaros da glória, perdendo tudo num único momento em que a sorte conspirou contra eles. Estes casos deviam ensinar que todos os projectos políticos contêm a semente do seu eventual fracasso e que a ambição tem um lado ilusório e, normalmente, uma relação próxima com a futilidade.

Na lista dos grandes fracassos onde os protagonistas eram os homens mais poderosos do seu tempo brilham os nomes de dois romanos, Marco Licínio Crasso e Públio Licínio Valeriano, separados um do outro por cerca de três séculos, o primeiro associado ao auge do poder de Roma e o segundo ao início do suave declínio desta civilização. Os exércitos romanos tiveram frequentes colisões com os persas, em torno do controlo do Médio Oriente, nomeadamente dos territórios da Síria e da Mesopotâmia que coincidem com a zona hoje contestada pelo autodenominado Estado Islâmico (curiosamente, os descendentes dos romanos, os ocidentais, e os descendentes dos persas, os iranianos, estão do mesmo lado no combate aos terroristas do autodenominado Estado Islâmico, que ninguém reconhece).

Os antigos persas eram difíceis de bater no seu terreno, como aprenderia Crasso, cuja cabeça cortada serviu de adereço teatral, e como aprendeu, três séculos mais tarde, o imperador Valeriano, cuja aventura acabou de forma ainda mais humilhante, na vergonha do cativeiro e, depois da morte, com o corpo empalhado e transformado em troféu de parede.

 

Comecemos por Marco Licínio Crasso. Em 53 a. C. ocorreu um dos episódios mais traumáticos da história romana, quando um exército comandado por este milionário e político, então o homem-forte de Roma, foi esmagado na batalha de Carras pelas forças do império Arsácida ou Império Parta. Este episódio teve grande impacto no seu tempo e deu origem a lendas que excitaram a imaginação das gerações seguintes, por exemplo, a da legião perdida, segundo a qual muitos prisioneiros de Carras foram utilizados nos confins das fronteiras do império captor. Não há provas concludentes de sobreviventes para além da escravatura, mas a genética e a arqueologia encontraram nos confins da China rastos que apontam para a possibilidade de ter sido usada em combate pelos persas uma legião de soldados romanos capturados.

Crasso, o general vencido, era um homem riquíssimo, movido pela avareza e a inveja, mas destruiu numa única campanha, através de uma série de erros catastróficos, tudo aquilo que acumulara ao longo de uma vida cuidadosa e calculista. O seu colega no primeiro triunvirato, Júlio César, devia-lhe uma fortuna, mas tanto César como Pompeu (o outro triúnviro) tinham a seu crédito vitórias militares importantes, enquanto Crasso apenas sufocara rebeliões, nomeadamente a perigosa insurreição de escravos liderada pelo gladiador Espártaco. Essa vitória brutal não lhe trouxera glória suficiente, por isso Crasso tentou submeter os Arsácidas, certamente para aumentar a sua riqueza.

Segundo o autor clássico Plutarco, Crasso acumulara uma vasta riqueza “à custa do fogo e do sangue, fazendo das calamidades públicas a sua maior fonte de renda” (1). O milionário era um bajulador e avarento, que soube aproveitar os leilões de propriedades de gente que caíra em desgraça durante a guerra civil na república, mas também a falta de escrúpulos que mostrou ao especializar-se na compra, por valores ridículos, de prédios contíguos a propriedades romanas que ardiam ou que estivessem à beira da ruína. A ambição de Crasso não podia ser contida. Embora já tivesse 62 anos, faltava-lhe um triunfo militar. A estabilização da fronteira oriental da república romana servia os seus interesses, pelo que reuniu um imponente exército de 40 mil homens, com sete legiões. A campanha no norte da actual Síria era extremamente complexa, devido às distâncias e ao terreno inóspito ou até desértico, que os romanos conheciam mal. Os Arsácidas utilizaram tácticas de guerrilha para cansar os romanos e esmagaram o exército invasor numa batalha de enormes dimensões onde as vantagens habituais do combate colectivo das legiões não puderam ser utilizadas.

A expressão “erro crasso”, que significa “erro grosseiro”, associou-se nos últimos séculos à tragédia deste milionário romano. Segundo o relato de Plutarco, a sua cabeça foi usada como adereço numa peça de teatro dada em honra do rei Orodes II. Carras foi um daqueles momentos da História cheios de interrogações. E se Crasso não tivesse atacado os persas? É bem possível que Júlio César não tivesse chegado ao poder ou que isso tivesse acontecido de forma mais rápida, sem a necessidade da guerra civil que o opôs a Pompeu. O filho mais novo de Crasso, Publius, que também morreu na expedição, teria possibilidade de seguir uma carreira política de destaque. Publius era amigo de César e o seu irmão sobrevivente foi um fiel companheiro do futuro ditador romano. Se tivesse triunfado, Crasso teria enorme influência naqueles anos decisivos entre a República e o império. Assim, foi o responsável pela maior derrota militar de Roma e tornou-se no mais famoso de uma longa lista de romanos poderosos que conheceram a derrota nas distantes fronteiras orientais.

Apesar de tudo, a sua humilhação ritual e lendária pode considerar-se relativamente suave em comparação à que sofreria um líder romano que viveu mais de 300 anos depois. Devido provavelmente a excesso de confiança, o imperador Valeriano foi capturado em 260 d. C. pelos persas do Império Sassânida (que sucedeu à dinastia Arsácida). Este episódio ocorreu na batalha de Edessa, agora no sul da Turquia. Os romanos perderam muitos homens numa peste e ficaram em dificuldades, sem capacidade para proceder a uma retirada estratégica. Quando tentou negociar uma saída política com o líder persa, Sapor I, o imperador terá sido atraiçoado em circunstâncias não muito claras, tendo sido feito prisioneiro. Valeriano foi o único imperador romano jamais capturado vivo em batalha, mas não sobreviveu muito tempo ao cativeiro. As crónicas afirmam que o seu corpo foi esfolado e a pele preservada, de forma a que o cadáver empalhado era exibido em público pelos captores, como esplendoroso troféu de parede.

No seu clássico Declínio e Queda do Império Romano, Edward Gibbon conta o que aconteceu ao infeliz imperador: “Diz-se que Valeriano, acorrentado, mas revestido da púrpura imperial, foi exposto à multidão num demorado espectáculo de grandeza derrubada; e que, sempre que o monarca persa montava a cavalo, apoiava o pé no pescoço de um imperador romano. Apesar de todas as advertências dos aliados, que repetidamente o aconselhavam a ter presente as vicissitudes da sorte, a temer o regressado poder de Roma e a fazer do seu ilustre prisioneiro o penhor da paz e não um objecto de insulto, Sapor manteve-se inflexível. Quando Valeriano sucumbiu ao peso da vergonha e da dor, a sua pele, empalhada e conservando uma forma humana, foi guardada durante séculos no mais famoso templo da Pérsia”. No mesmo livro, Gibbon coloca em dúvida alguns aspectos da derrota de Valeriano, mas não o seu triste fim, sobre o qual há outras versões que incluem elementos pouco prováveis, por exemplo, a história de que Sapor terá morto Valeriano forçando-o a engolir ouro líquido.

A captura do imperador ainda vivo é incontroversa. Numa inscrição encontrada em 1936, como se fosse uma frase do próprio Sapor, afirma-se o seguinte: “Tomámos César Valeriano prisioneiro com as nossas próprias mãos, como os restantes comandantes do exército. Conquistámos 36 cidades e os seus territórios” (2). Outro imperador, Numeriano, foi morto em batalha contra os Sassânidas, 24 anos mais tarde (perto da actual Homs, na Síria) e o corpo serviu para fabricar um objecto de luxo. A pele terá sido preservada em mirra, embora não haja descrições minuciosas do artefacto que, ao contrário do caso de Valeriano, não teria forma humana.

As guerras com os antigos persas prolongaram-se no tempo. As do século III foram especialmente ferozes, como demonstram os relatos da época. Os Sassânidas foram mais eficazes do que os antecessores na utilização dos recursos da região e, nesta fase, não há lendas sobre legiões perdidas. Os milhares de prisioneiros romanos foram usados como mão-de-obra escrava na construção de obras de irrigação que aumentaram o poder dos persas na região e o seu controlo sobre os potentados locais. Para os romanos, “a ascensão de uma potência rival foi um profundo choque estratégico. Teve repercussões não apenas nas regiões da fronteira leste, mas em todo o império” (3). Isto sugere que a derrota de Valeriano, o imperador que acabou empalhado, foi um prego no caixão do império romano. A sensação de insegurança levou os romanos a reforçarem as suas forças militares. Manter um exército de grandes dimensões, que se calcula poderia ter 400 mil soldados, era um terrível fardo para um império que tinha recursos limitados. Além disso, as perdas eram pesadas e regulares, o que aumentava a insegurança, implicando novos gastos militares, que seriam desperdiçados na campanha seguinte. A decadência foi inevitável e as guerras constantes com os persas eram aquilo que se podia definir como um erro crasso.

(1) A Vida de Crasso, Plutarco

(2) The Fall of the Roman Empire, Peter Heather

(3) idem

 

A Mortandade da Grande Paz (episódio da História do Fracasso)


Luís Naves,

 

Em todos os grandes países houve revoltas populares famosas, mas nenhuma se compara a um movimento que abalou a China entre 1850 e 1864, provocando a morte a mais de 20 milhões de pessoas e, segundo autores de referência, talvez a 30 milhões. A ser correcta esta estimativa, o número de vítimas terá superado o da Primeira Guerra Mundial. É um valor espantoso e difícil de imaginar. Conhecida por Taiping Tianguo, que significa ‘Reino Celeste da Grande Paz’, esta revolta começou no sul da China e foi uma resposta à profunda humilhação que o país (e a dinastia Qing, de origem manchu) tinha sofrido às mãos dos europeus, a começar pelos ingleses, na chamada Guerra do Ópio, entre 1839 e 1842.

Usando em combate um navio a vapor com rodas de pá, os britânicos devastaram com facilidade as fortalezas do Rio das Pérolas e destruíram a frota chinesa em Cantão. O conflito foi desigual, a ponto da China ainda hoje não ter digerido a derrota. Aliás, pode argumentar-se que a civilização chinesa sofreu uma humilhação e esteve perto do colapso. O desequilíbrio de forças tem uma explicação certamente complexa, onde cabe a incompetência do poder imperial, o azar e a inovação, mas o facto é que os ingleses actuaram com uma brutalidade que mesmo então era difícil de aceitar. Hoje, as razões da guerra seriam totalmente incompreensíveis, pois tratava-se de obrigar a China a importar ópio, droga cujo consumo sem restrições afectava a saúde de muitos chineses.

A tese das diferenças tecnológicas entre as duas forças não convence todos os autores. Segundo John Keay (1) “em canhões e navios, o fosso tecnológico não era assim tão grande”, a diferença maior esteve no que a “China pré-industrial e a Europa pós-industrial fizeram com essa tecnologia e a confiança com que foi manuseada”. Os dirigentes militares Qing tentaram um único contra-ataque naval, que se transformou num desastre: em poucos dias, foram destruídos 71 juncos e a baixa de Cantão foi arrasada. No tratado que se seguiu, os ingleses obtiveram o direito de erguer um porto em Hong Kong.

 

No início da guerra, na cidade de Sanyuanli, ocorrera um confronto entre tropas indo-britânicas e milícias de uma resistência chinesa espontânea. Esta batalha deu origem a um relato mítico que empolgou a opinião pública chinesa da época, tornando-se a inspiração de rebeliões populares. O sentimento anti-manchu na sociedade misturou-se com o sentimento de xenofobia e com o abalo profundo que provocava a evidente fraqueza do país. Tudo isto criou um caldo de cultura feito de pessimismo e revolta, alimentado por uma poderosa desconfiança em relação às autoridades. Foi esta a origem, nos anos 50 e 60, de vários protestos contra o regime imperial, cada um deles a provocar milhões de mortos, não necessariamente em combates, mas em fome provocada, colheitas perdidas, epidemias, convulsões e banditismo em larga escala. A lista inclui os denominados ‘Turbantes Vermelhos’, que defendiam a restauração Ming, insurreições separatistas muçulmanas (uma das quais terá provocado 10 milhões de mortos) e revoltas camponesas conhecidas por Nian. No meio, houve a calamidade das inundações do Rio Amarelo, em 1855, e motins organizados pelas tríades.

 

Nada disto se compara às desgraças provocadas pelo movimento taiping. A rebelião da Grande Paz surgiu num contexto que não existiria sem a Guerra do Ópio e é considerada uma consequência da intervenção dos ingleses, que abriu caminho ao comércio desigual mas também à evangelização cristã em larga escala. Foi por esta altura que as ideias bíblicas começaram a circular entre os chineses comuns, chegando a um obscuro candidato a burocrata, Hong Xiuquan, que nascera em 1814 e cuja juventude coincidiu com estes tempos de choque entre civilizações. Hong tentou por quatro vezes concluir o exame oficial da burocracia imperial (onde só passava um em cada vinte candidatos) e na derradeira tentativa estudou textos cristãos que o impressionaram e que tinham sido traduzidos em Singapura por uma organização evangélica inglesa.

Os protestantes europeus e americanos estavam por esta altura a usar uma nova estratégia de evangelização da China: dois séculos antes, os padres jesuítas (entre eles muitos portugueses) procuraram convencer as elites instruídas; em meados do século XIX, quando a China foi forçada a abrir as sua portas a uma vaga de missionários, a mensagem começou a chegar à população mais pobre de forma directa e através de resumos e textos simplificados.

O jovem Hong foi uma das pessoas expostas a estas ideias cristãs, mas só mais tarde teve a sua epifania. Ele pertencia à minoria Hakka do sul da China e, após fracassar no ingresso na burocracia imperial, tornou-se professor numa localidade sem importância. Foi ali que teve as primeiras alucinações e estas convenceram-no de que era irmão de Cristo e filho de Deus. Após converter um núcleo inicial de seguidores, valendo-se de forte carisma, Hong expandiu rapidamente o seu domínio. A partir de inícios tímidos na província de Guangdong, a rebelião Taiping iniciou uma ‘cruzada’ que durou dois anos, entre 1851 e 1853, cuja inspiração era a resistência espontânea de Sanyuanli. Embora tivesse conhecimento rudimentar do cristianismo, Hong nunca foi baptizado e a sua seita não era exactamente cristã, mas um movimento político que pretendia libertar a China da ocupação estrangeira (sobretudo dos manchus), destruindo os velhos ídolos do budismo e confucionismo. Curiosamente, nessa destruição, os revoltosos nunca pouparam as imagens católicas que tanto tinham impressionado o líder.

 

Não é fácil descrever o que aconteceu, pois esta história foi sobretudo contada pelos vencedores. A rebelião transformou-se numa espécie de ‘guerra santa’ ou ‘Longa Marcha’. Esta expressão remete para o que aconteceria 80 anos mais tarde com os comunistas chineses, que retiraram inspiração dos taiping. Mao Tsé-Tung era admirador do movimento da Grande Paz e a sua estratégia terá sido influenciada pelos erros e pelas iniciativas de um grupo que os comunistas consideravam precursor da sua própria ideologia. As diferenças entre os taiping e os comunistas são evidentes, mas há curiosas semelhanças: a propriedade era colectiva e também se verificou a apropriação dos bens comuns por uma elite; existia igualdade entre homens e mulheres, pelo menos teórica, associada a um puritanismo sexual muito disciplinado.

Tal como os comunistas chineses, os taiping quase foram eliminados no início da rebelião, em 1850. Os avanços militares iniciais dos insurrectos foram lentos e só em 1853 tiveram uma enorme vitória, ao conquistarem Nanquim, onde instalaram a sua capital. Diferentes exércitos do ‘Reino Celeste da Grande Paz’ continuaram a avançar para norte e uma destas forças chegou a estar próxima de Pequim, mas houve hesitações fatais e divisões internas, que a liderança resolveu com banhos de sangue. Os taiping tinham milhões de membros, eram fanáticos e procediam a massacres nas cidades que capturavam, não poupando ninguém de etnia manchu. Usavam cabelos longos e eram extremamente disciplinados. As suas tropas incluíam mulheres combatentes e havia uma suposta igualdade entre classes sociais, embora a liderança (reis e vice-reis) vivesse num luxo que incluía concubinas e outras amenidades.

Inicialmente, os ocidentais tiveram uma atitude ambígua em relação aos rebeldes (2): alguns missionários acreditavam estar perante um grupo cristão, mas na realidade tratava-se de uma teocracia intolerante, que apenas usava certos elementos superficiais do cristianismo. Ignorantes e supersticiosos, os rebeldes rompiam com os símbolos do passado e procuravam destruir o conhecimento antigo. As bibliotecas foram incineradas tão depressa como os templos. A maré revolucionária virou em 1861, após nova guerra desigual contra as potências ocidentais e a morte prematura do imperador Xianfeng, dando origem a um novo regime, sob a imperatriz Cixi, figura anacrónica que sempre fascinou os europeus e que os historiadores ainda hoje discutem apaixonadamente.

 

Perante as ameaças internas e para consolidar o seu poder, Cixi fez grandes concessões aos invasores ocidentais, através de novos tratados que beneficiavam largamente a posição de ingleses, franceses, russos, japoneses ou americanos, entre outros. Para poderem explorar as vantagens conquistadas, as potências apoiaram a formação de exércitos imperiais capazes de esmagar a revolta taiping, sendo uma destas forças comandada por uma personagem que já encontrámos noutro episódio, Charles Gordon. Em 1862, quando os taiping tentaram conquistar Xangai, ocorreu um fenómeno raríssimo na região: nevou durante 58 horas e o seu exército não conseguiu mover-se (3). O que se seguiu foi uma série muito rápida de massacres colossais. As cidades tomadas pelas forças chinesas enchiam-se de corpos decapitados e não havia prisioneiros entre os rebeldes, antes rios de sangue.

Hong morreu um mês antes da tomada de Nanquim, em 1864, evento que se transformou num morticínio de proporções épicas. Na cidade cercada não havia comida e o profeta prometeu que cairia maná do céu, mas para espanto dos seguidores não houve milagre. Acredita-se que o profeta, desesperado pela fome, tenha morrido após comer ervas venenosas. Aos crentes foi dito que Hong morrera por causas sobrenaturais. Sem liderança e sem rumo, a rebelião foi sufocada. Onde quer que houvesse fugitivos, seguia-se uma perseguição até à morte. Os taiping sobreviventes foram caçados até ao último e os registos da sua existência foram incinerados. No meio do tumulto, os camponeses sofreram com a fome e ocorreram novas inundações catastróficas, pois durante anos os diques tinham sido negligenciados. A China demorou décadas, talvez um século, a despertar totalmente deste pesadelo cruel, cuja memória se foi transformando numa nuvem parecida com as divagações do ópio.

 

(1) China, a History, John Keay, 2008

(2) idem

(3) History of Modern China, Jonathan Fenby, 2009

 

A Tragédia de um Homem Honesto (episódio da História do Fracasso)


Luís Naves,

  

No século XVI, um dos maiores prémios da exploração asiática era o controlo das ilhas Molucas, onde se produziam algumas especiarias importantes. Aquele arquipélago (na actual Indonésia e que surge muitas vezes escrito como Ilhas Malucas) era distante e sobre ele pouco se sabia na Europa, como pouco se sabia sobre a Ásia e o Índico, o que explica o enorme interesse no Tratado dos Descobrimentos, livro escrito pelo português António Galvão e publicado em 1563, já depois da morte do autor. A obra, a primeira do seu género, tornou-se muito famosa no século XVII e foi traduzida para inglês em 1601, quando as outras potências europeias começavam a interessar-se em estabelecer os seus próprios impérios.

Galvão foi um militar exemplar e participou em múltiplas acções de combate na Índia Portuguesa e nas costas de África. Tinha uma carreira irrepreensível, foi governador das Molucas e, apesar da coragem e honestidade dos seus serviços, regressou a Portugal, para viver na pobreza e até o seu funeral foi pago por esmolas. O editor do livro, Francisco Sousa Tavares, lamentava o tratamento dado ao autor seu amigo e a “fraqueza da natureza humana, que vindo ele  (António Galvão) a Portugal com grande confiança, que pelo que tinha feito devia ser mais favorecido e honrado, que só trouxera cem mil cruzados, se achou muito enganado, porque nele não achou outro favor ou honra, senão a dos pobres miseráveis, quero dizer, o do hospital: onde o tiveram dezassete anos, até que dele morreu e dele lhe deram o lençol para o amortalhar” (1).

  

Em resumo, esta é uma história sobre como servir a pátria e acabar com uma mão à frente e outra atrás. Entre os livros que António Galvão escreveu no final da vida estará um volume sobre A História das Molucas, perdido total ou parcialmente, do qual existe um esboço ou uma cópia parcial que o militar e cronista não terá escrito pelo seu punho. O texto sobrevivente, chamado Tratado sobre as Ilhas Molucas (2), tem informação preciosa sobre as sociedades nativas, as condições de vida e também sobre o curto período em que Galvão esteve a comandar aquele distante e crucial pedaço do império. Pela primeira vez, são associadas as descrições da geografia e do contexto histórico, um princípio que o capitão português viria a desenvolver na sua obra máxima, o já referido Tratado sobre os Descobrimentos, que teve enorme influência na compreensão europeia do mundo.

No documento que sobreviveu sobre as Molucas a geografia exótica é sempre comparada a zonas mais familiares: “O mar é quente e não do de Espanha diferente” escreve o autor, antes de explicar até que ponto o arquipélago está repleto de especiarias cujos preços atingiam fortunas nos mercados da Europa: “A noz, maça, pimenta-longa, gengibre e cravo”, entre outras.

A riqueza das plantas locais era imensa, com nomes estranhos, como sagueiros, nipas, arequeiras, jaqueiras, catapas, mangueiras, caramboleiras, canárias, lanceiras, cada uma com frutos sumarentos e ricos, doces ou nutritivos. O escritor descreve minuciosamente os insectos, as colheitas, os peixes e os pássaros, as cobras no mar e as feições dos homens, que são, segundo diz, “forçosos, manhosos, desenvoltos e bem dispostos (…) grandes nadadores (…) dados muito aos vícios e pouco aos trabalhos”. Nada escapava à atenção do narrador, dos costumes às minúcias políticas, a religião, a justiça, a maneira como as pessoas locais trabalhavam e combatiam: “São de grandes ardis, ciladas e homens destros nas armas e têm por costume ou leis não ferir nem matar os reis”.  

A escassa cultura científica das elites não académicas é exemplificada neste trecho, no qual o autor se espanta com a informação de que a Ilha de Ternate fica na latitude de São Tomé, sendo a segunda insalubre e a primeira gozando de boas condições: “A causa disto eu não a posso entender, senão se é São Tomé ser de todas as partes cercada de terra firme e receber os maus vapores dela”. As ilhas estariam em pólos opostos da Terra e isso introduzia um problema insolúvel: “Porque parece estarem contrapostos [os homens] e que devem andar com os pés uns para os outros (…) Causa disto fique a quem melhor entender”.

Tirando curiosidades como neste excerto, para mais em frases relativamente confusas, o Tratado sobre as Ilhas Molucas (atribuído a António Galvão ou escrito por alguém que o transforma em personagem central) está repleto de informação etnográfica e detalhes sobre a história dos territórios. De resto, Galvão devia ser um homem instruído, tendo em conta o seu tempo e profissão. O militar tinha boas ligações familiares, pois era filho bastardo do cronista Duarte Galvão, ele próprio um português cuja vida dava um filme e que morreu em 1517, quando chefiava uma embaixada à Etiópia.

Para além da origem familiar, pouco mais se sabe sobre a infância e juventude de António Galvão, nem sequer o ano em que nasceu ou o nome da mãe. A incerteza sobre a data de nascimento não permite saber que idade tinha em 1522, quando embarcou rumo à Índia, num navio que era comandado por um primo seu. Sabe-se que fez uma viagem de regresso a Portugal e que voltou à Índia, onde se distinguiu como um dos comandantes militares mais capazes, a ponto de ganhar a confiança do governador Nuno da Cunha, que o nomeou em 1536 para liderar a presença portuguesa na ilha de Ternate, no arquipélago das Molucas. Conhecendo todos os recantos do império, Galvão dispunha de muita informação e conhecia as grandes histórias que viriam a constar do seu famoso livro sobre os descobrimentos.

 

Na década de 20 do século XVI, as ilhas Molucas eram reclamadas por Portugal e por Castela, que não se entendiam em torno da divisão do mundo acordada em 1494 em Tordesilhas, e que dependia da dimensão da Terra. Fernão de Magalhães, ao serviço dos castelhanos, tentara demonstrar que a fonte das especiarias estava na esfera castelhana, mas a rota de Magalhães era mais difícil do que a portuguesa, pois as distâncias tinham sido subestimadas pelo navegador português, cuja frota saiu de Sevilha em 1519.

Tordesilhas definira um meridiano que passava a 370 léguas de Cabo Verde, na direcção do poente, mas o tratado era vago sobre a posição exacta do respectivo prolongamento oriental, que devia definir os dois hemisférios, o português e o castelhano.      

Em 1524, houve um acordo, que envolveu um pagamento português e deu a Portugal o comércio das Molucas, mas pouco antes, em 1522, os portugueses tinham entrado em força na região, erguendo em Ternate uma fortaleza e construindo uma pequena colónia que se dedicava ao controlo do comércio internacional de cravo, produto abundante na ilha e muito apreciado na Europa. A presença portuguesa foi contestada pelos habitantes e na década seguinte houve guerras e rebeliões, com uma actuação inábil dos invasores, que exerceram grande violência.

 

António Galvão chegou ao Maluco em Outubro de 1536, achando a fortaleza de São João Baptista de Ternate “ainda pior e mais desbaratada do que dela contava, a ilha despovoada e os lugares queimados, tudo destruído, muita gente portuguesa e escravos mortos” (3). Através de um misto de força e diplomacia, Galvão submeteu as ilhas rebeldes, tendo inclusivamente casado com uma princesa de Tidore, para evitar o prolongamento da guerra, e “mandou à princesa muitas peças ricas em que ia uma cadeia, manilhas e uma espera de ouro, cheias de âmbar, para os ter mais contentes; assim que por todas as vias este casamento não lhe custou pouco, o qual foi celebrado com muitas festas, prazeres e triunfos”.

A reconstrução foi penosa e não havia recursos para o fazer. A certo ponto da narrativa, o autor do Tratado sobre as Ilhas Molucas queixa-se que António Galvão mantinha a fortaleza “quase às suas custas, emprestando dinheiro a el-rei”, pois tinham sido tirados “quatro mil bares de cravo” e ele, Galvão, não ganhara “um só arrátel”. Nos quatro anos em que exerceu o cargo de governador, o militar e cronista podia ter acumulado uma enorme fortuna, mas pagou do próprio bolso as despesas do Estado. Não havia dinheiro para manter o poder português naquela zona ou as verbas ficavam pelo caminho. Na prática, Lisboa abandonara Ternate à sua sorte.

Mesmo assim, Galvão não apenas pacificou as ilhas, mas mandou construir um seminário e promoveu a colonização de cristãos e isso também lhe custou dinheiro. O capitão estava obcecado com a evangelização dos nativos e tomou decisões que o arruinaram, promovendo a construção de novos edifícios, comprando mantimentos para as tropas, exigindo a honestidade absoluta nas contas do comércio. Em última análise, Galvão entrou em conflito com os mercadores que o tentaram subornar e acabou por ser recambiado para Lisboa em 1540.

O capitão caíra em desgraça e regressou à Pátria crivado de dívidas. O militar tinha atingido interesses poderosos, talvez ao recusar permitir o comércio de feitores que pretendiam enganar a coroa e contavam com um governador corrupto que aceitasse receber a sua comissão nos lucros. Tinha também feito alguns amigos e dedicou-se à escrita, para ganhar dinheiro. Estes auxílios permitiram-lhe sobreviver 17 anos no Hospital Real (na imagem), onde ajudava a tratar os doentes, apesar dele próprio estar debilitado pelos efeitos das doenças tropicais. Os homens poderosos do seu tempo faziam fortuna pessoal, mas Galvão tentou defender os lucros da monarquia e quis travar a corrupção do império.

O cronista viveu um heroísmo efémero e acabou por se transformar num doente embaraçoso. António Galvão morreu em 1557, na maior miséria. Teve um funeral de indigente e dizem que deixou uma dívida de dois mil cruzados.

 

 

(1) Tratado sobre os Descobrimentos, introdução do editor Francisco Sousa Tavares, Lisboa, 1563.

 

(2) Tratado sobre as ilhas Molucas (António Galvão nas Molucas), manuscrito no Arquivo Geral das Índias, em Sevilha, de autor desconhecido, transcrição para português actual de Maria da Graça Pericão, edição de Luís Albuquerque.

 

(3) idem

 

O Regicida (episódio da História do Fracasso)


Luís Naves,

 

Na geografia da aventura, é por vezes difícil distinguir os heróis dos falhados e os patriotas dos traidores. Estas incertezas existem em muitas figuras do passado, talvez à excepção dos regicidas, que eram os criminosos mais detestados entre todos, mesmo em forma tentada, pouco importava, esses eram crimes demasiado graves. Matar ou tentar matar o rei mereceu sempre máxima violência na justiça estatal, de forma a que não houvesse rasto dos corpos dos assassinos ou sequer dos seus motivos.

Um dos mais importantes regicidas portugueses foi o esquecido escrivão Domingos Leite Pereira, executado em Lisboa em 1647, após tentar assassinar o rei D. João IV. O seu motivo parece ter sido banal (ciúmes), e estes seriam ainda por cima infundados, pelo que a história oficial carece de certa consistência ou teremos de avaliar o protagonista como homem pouco inteligente e muito manipulável.

Se resultasse, o atentado podia ter mudado a História do país: o rei teria morrido numa altura em que a independência de Portugal era periclitante. A conjura teve ramificações externas e o caso incluiu um pouco de tudo: sexo, espionagem, guerra e traição.

  

Em meados do século XVII, Portugal estava envolvido numa luta difícil pela sobrevivência como nação independente. A restauração, em 1640, tivera amplo apoio popular, mas a guerra da independência implicava o isolamento internacional e conflitos permanentes nas colónias e nas regiões da fronteira, as primeiras atacadas por holandeses e as segundas a serem alvo das rapinas dos exércitos Habsburgos estacionados na Extremadura espanhola.

Domingos Leite Pereira, natural de Guimarães, era uma personagem relativamente apagada do novo regime, com o ofício de escrivão do cível da coroa, mas apesar de tudo teria alguma influência social, pelo menos nos patamares inferiores. Participara na conspiração de 1640 e podia ter seguido uma vida pacata se não lhe constassem certos rumores sobre a infidelidade da sua esposa, alegadamente envolvida em paixões funestas com um padre, um tal Luís Álvares. O marido enganado associou-se a uma personagem sinistra (também presente nas violências de 1640), Manuel Roque da Cunha, e o padre foi apanhado numa emboscada e morto com requintes de malvadez.

Esta parte da crónica não aparece em todas as fontes. Os documentos da época (1) iniciam o relato colocando Leite Pereira já em Madrid, associado a Manuel Roque e sem qualquer referência às origens desta segunda personagem fundamental, que provavelmente era um facínora em fuga ou um agente português em Castela. O escrivão foi aliciado a trair o seu país quando se encontrava refugiado em Madrid. Há referências explícitas a “ministros de Castela”, mas historiadores mais recentes indicam que na origem do atentado estiveram conspiradores portugueses, nomeadamente o marquês de Porto Seguro e o conde de Figueiró (2) que, no exílio, combatiam a nova elite nacional.

 

Ao homicida tinham chegado rumores (talvez plantados) de que a sua mulher trocara como amante o falecido padre pelo próprio rei. No exílio em Madrid, Domingos Leite Pereira estava sem perspectivas de regressar a Lisboa e sobretudo sem dinheiro ou ocupação. Tudo o que dizia respeito a Portugal interessava aos espanhóis. A guerra assumira contornos de extrema crueldade, com as tropas de ambos os lados a cometerem excessos pouco habituais, os portugueses tratados como rebeldes, os castelhanos maltratados em retaliação.

Não há documentação que esclareça o que se passou em Madrid, embora seja pouco credível que a ideia de matar o rei português tenha surgido sem envolvimento das autoridades espanholas, pois o regicida obteve dinheiro e um salvo-conduto que lhe permitiu atravessar a zona militar. Domingos era impulsivo e vingativo, padecia de ciúmes loucos e tinha pouca confiança no cúmplice, a quem não disse qual era o objectivo do regresso a Portugal. Esta é a versão posterior de Manuel Roque: foi a Lisboa julgando que a intenção de Domingos era vingar a traição da mulher adúltera, Maria Luísa, conhecida por Traga Malhas, mas sem saber que o verdadeiro alvo seria o monarca.

Assim, no Verão de 1647, Domingos Leite dirigiu-se para Lisboa com Roque da Cunha, passando por Badajoz, trazendo consigo uma espingarda, munições e jarros de veneno para impregnar as balas. A sua missão clandestina era a de matar D. João IV. Em Lisboa, o regicida alugou três casas no caminho da procissão de Corpo de Deus e desfez paredes, para obter mais espaço no interior. As casas ficavam na paróquia de São Nicolau, em local estreito por onde passaria necessariamente a procissão, e numa delas o regicida fez um pequeno buraco para o exterior, onde cabia o cano de uma espingarda.

A procissão decorreu a 20 de Junho de 1647. O rei participou, mas o tiro nunca partiu. Na altura, D. João IV nem soube que tinha escapado ao abraço da morte. Sem disparar, o regicida fugiu e Roque tinha cavalos à espera. Seguiram os dois cúmplices para Espanha e ali, estranhamente, foi organizado novo atentado, embora sem plano fixo. Desta vez, Roque conheceu o objectivo, mas escondeu do amigo a sua oposição. Os dois cúmplices estavam já nesta altura à beira da ruptura, pois Domingos desconfiava da traição de Roque e a certo ponto teve mesmo uma atitude patética, agarrando-se às pernas do outro, implorando-lhe que não o denunciasse.

Este ponto da história oficial pode significar que Manuel Roque mentiu às autoridades. A alternativa é que o episódio seja verdadeiro, mostrando que na segunda expedição Domingos já estava em descontrolo emocional, mas isso também pode ser significativo, pois ninguém o teria mandado numa missão tão perigosa se estivesse num estado psicológico de pouca utilidade. O regresso a Portugal, em Julho, parece ser uma acção desesperada do próprio e não caucionada pelos conspiradores madrilenos. Enquanto Domingos ficou numa estalagem no Alentejo, o seu cúmplice foi a Lisboa arranjar uma casa. Em vez de desenvolver o plano, Roque denunciou Domingos Leite, foi falar com um magistrado e com um ministro, tendo de imediato sido enviados militares para prender o regicida.    

 

Esta é uma parte misteriosa do episódio: o que levou Roque subitamente a trair? Patriotismo, medo? E qual o motivo de Domingos se esconder numa estalagem alentejana? E a pergunta fundamental: por que razão falhou o atentado de 20 de Junho?

No documento (3) baseado no interrogatório das testemunhas (as confissões eram geralmente obtidas sob tortura), o regicida explicou não ter conseguido disparar pois vira o rei envolto numa luz mística que brotava do céu, dando ao monarca uma extraordinária magnificência. Domingos admitiu que falhara por intervenção divina e o milagre era útil em benefício da causa nacional. Talvez ele estivesse a dizer o que os seus interrogadores queriam ouvir. Para efeito de propaganda, a narrativa miraculosa esclarecia todas as dúvidas e de forma demasiado conveniente, passados dois meses, ainda estavam na casa as provas do atentado: as balas, o veneno, o buraco na parede por onde devia passar o cano da espingarda. Ninguém entrara ali? O abandono não despertara qualquer interesse do proprietário?

A verdade será talvez um pouco mais prosaica do que a oficial. Nos autos afirma-se que o atirador se ajoelhou, pois nessa posição conseguia disparar melhor. As armas daquela época eram longas, imprecisas e pesadas, disparavam-se a partir da posição ajoelhada ou com um apoio que permitia ao soldado ficar de pé. Isto parece indicar que o buraco na parede estaria colocado num plano relativamente baixo em relação à rua onde passou a procissão, talvez a meio metro de altura.

Embora o autor do atentado tenha dito que viu o rei (não disparou devido à tal experiência mística), é possível que houvesse muitas pessoas à volta da procissão, a ver e a desfilar, sobretudo a impedir um ângulo de tiro. Pode especular-se que ocorreu um azar tão simples quanto este: alguém se encostou à parede da casa, para ver dali a procissão, de costas para o cano da espingarda, tapando completamente a visão do assassino. Um basbaque salvou a vida a D. João IV.

Contar a história desta forma não teria qualquer valor de propaganda e, por isso, até hoje permanece o mistério do atentado falhado. 

Este caso foi suficientemente rocambolesco para interessar autores do século XIX, como Pinheiro Chagas e Camilo Castelo Branco. Este último escreveu um romance histórico, O Regicida, que teve uma continuação muito popular, A Filha do Regicida. Baseando-se na documentação disponível, inventando mais pormenores, o romancista fez uma interpretação livre, tornando credível a eventual resposta ao enigma do que impediu Domingos Leite de disparar contra o rei. Camilo resolveu o problema com um golpe de asa narrativo: o verdadeiro milagre fora o assassino ver a beleza das mulheres que rodeavam o monarca, o medo de falhar e de atingir uma donzela inocente.

Domingos Leite Pereira foi executado em Agosto de 1647. Deceparam-lhe as mãos, houve jorros de sangue e gritos de dor antes do enforcamento que lhe tirou a vida. O corpo foi transformado em cinzas. No local onde estavam as casas, nas Olarias, mandou a rainha construir um convento, para agradecer o milagre, mas o edifício não sobreviveu ao terramoto do século seguinte. Dizem que tudo isto aconteceu na actual Rua dos Fanqueiros e que havia ali um beco chamado Ponce de Leão, baptizado com o nome do navegador espanhol a quem foi atribuída a descoberta da fonte da juventude. 

 

 

(1) Relaçam do Assassínio Intentado por Castella contra a magestade de el-rey D. João IV e impedido miraculosamente, Francisco Brandão, 1647,

ou ainda Duas sentenças proferidas no tempo da guerra da aclamação, primeira contra o aleivoso Domingos Leite Pereira, 1647 

 

(2) Os Maus da História de Portugal, Ricardo Raimundo, a Esfera dos Livros, 2014. Neste ponto, o autor cita a Crónica Inédita de D. João IV, de António Coelho, 1942.

 

(3) Relaçam do Assassínio Intentado por Castela

 

As duas mulheres de Rackam, o Terrível (episódio da História do Fracasso)


Luís Naves,

A história das duas mulheres piratas é contada num livro primoroso publicado em 1724, The General History of the Pirates, assinado por um capitão Charles Johnson, com várias edições e também conhecido por Uma História Geral de Roubos e Crimes de Piratas Famosos (1). O autor tinha tal domínio da técnica literária que existiu durante muito tempo a suspeita de ser o pseudónimo de Daniel Defoe, o autor de Robinson Crusoe. Parece que não é assim: o livro terá mesmo sido escrito por um antigo pirata. As suas fontes não são conhecidas, mas grande parte da narrativa baseou-se em factos ou em lendas que circulavam entre os marinheiros, talvez até em histórias vividas. 

Num dos capítulos do livro do capitão Johnson apareciam os nomes de duas mulheres, Mary Read e Anne Bonny, que integravam a tripulação do temível capitão John Rackam, que assolou os mares das Caraíbas por volta de 1720. De início, toda a gente pensava que neste relato o autor deixara à solta a fantasia, mas as duas mulheres piratas existiram mesmo. Johnson conta como ambas se defenderam em tribunal mostrando os ventres inchados. A justiça britânica não executava grávidas e foi assim que elas evitaram o enforcamento.

  

Mary Read (2) tinha 32 anos quando enfrentou a ameaça de pena capital na Jamaica. Vivera muito tempo sob disfarce masculino, a começar nos primeiros anos de vida, ainda em Inglaterra. A sua mãe mentiu, dizendo à família que tinha um filho, obrigando a filha ilegítima a fazer-se passar por uma criança anterior, do sexo masculino, que morrera pouco antes dela nascer.

Este detalhe é importante para perceber a mentalidade da pirata e exige alguma explicação: a mãe de Mary era casada com um capitão da marinha inglesa e o casal teve um filho, que morreu na infância, numa altura em que o marinheiro estava fora de casa. A senhora não informou o marido sobre o que sucedera. Ela era jovem e bonita, tivera um descuido do qual resultou uma outra bebé, mas do sexo errado. Não podendo aparecer à família com uma menina nos braços, Mary era disfarçada de rapaz, assumindo de alguma forma a aparência da criança falecida.

O pai de Mary (pai no papel, naturalmente) nunca regressou a Inglaterra, por motivos que não são referidos, presumindo-se que tenha morrido durante as suas perigosas expedições. A família do marinheiro acreditava na existência de um descendente masculino e tentava ajudar a viúva, enviando regularmente algum dinheiro. Este era o principal motivo do disfarce e foi sem dúvida o início apropriado de uma vida rebelde.

 

Desde cedo, Mary teve o gosto da aventura. Após uma passagem por França, ao serviço de uma senhora muito rica, a rapariga disfarçou-se de homem e partiu para a guerra na Flandres (Guerra da Sucessão Espanhola). Durante este conflito, sempre a fazer-se passar por homem, a intrépida inglesa lutou na infantaria e num regimento de cavalaria, mas apaixonou-se por um camarada de armas e, segundo o relato do capitão Johnson, isso tornou-se incompatível com os deveres dos soldados, “pois parece que Marte e Vénus não podem ser servidos ao mesmo tempo”.

Esta enorme frase podia servir de epitáfio a Mary Read, que perdeu o marido no momento de máxima felicidade, já terminada a guerra, quando ambos geriam uma estalagem perto de Breda, nos Países Baixos. A inglesa deve ter ficado abalada com a morte do amante e certamente hesitou sobre o futuro. Num primeiro tempo, tentou o regresso à vida militar, no entanto a guerra terminara. Então, decidiu emigrar para as Índias Ocidentais, sempre disfarçada de homem, mas o barco em que viajava foi capturado pelo pirata John Rackam, conhecido por Calico Jack.

Vários episódios demonstram que John Rackam não era propriamente um terror dos sete mares, antes um capitão hesitante e fraco, que não teria saído da segunda divisão da pirataria nas Caraíbas se não tivesse capturado o navio holandês em que viajava Mary Read. A prisioneira era uma mulher invulgar, uma verdadeira força da natureza: o navio foi pilhado e seguiu viagem, mas Read (fazendo-se passar por homem) viu ali uma oportunidade e juntou-se à tripulação dos piratas, mantendo o disfarce.

Rackam nunca foi o Terrível, isso veio mais tarde, quando o pirata das Caraíbas serviu de inspiração para uma das personagens mais impetuosas das aventuras de Tintim, a banda desenhada do belga Hergé. No seu tempo, o verdadeiro John Rackam viria a ficar famoso sobretudo devido à ligação com outra mulher, Anne Bonny, e ao facto de ter usado uma bandeira com um desenho original, que incluía uma caveira cruzada por dois sabres, em fundo preto, já muito próximo do ícone que viria a dar grande fama à pirataria do século XVIII, a chamada Jolly Roger, bandeira também de fundo preto, com uma caveira e duas tíbias cruzadas (3). 

 

Está na altura de conhecermos Anne Bonny, que também seguia a bordo e que se juntara à tripulação pirata em circunstâncias que se desconhecem. Ela era uma irlandesa com pouco mais de vinte anos, filha de um negociante rico que a viria a proteger no momento de maior aflição. Bonny achou graça ao suposto rapaz do navio capturado que se juntara aos piratas e só mais tarde descobriu que este era de facto uma mulher. Como guardou o segredo, o capitão Rackam começou a ficar ciumento das cumplicidades entre Bonny e o recém-chegado e, a certo ponto, perdeu as estribeiras e ameaçou cortar o pescoço ao suposto namorado. Foi assim que Bonny o informou sobre o verdadeiro sexo do alegado rival. O relato do capitão Johnson não dá mais explicações sobre estes equívocos picantes, apenas nos informa que as duas mulheres eram muito amigas, que se vestiam como os outros tripulantes e que sabiam combater.

Observando com mais cuidado, o pirata Rackam fez bem em não tentar cortar o pescoço ao suposto namorado da sua Bonny. Em primeiro lugar porque não havia namoro algum e, depois, Mary Read era militar profissional, como revela uma das pequenas historietas dentro desta história: Read, já sem disfarce, embora com direitos de combatente, apaixonara-se por um dos tripulantes e, em certo dia, soube que este teria de combater em duelo até à morte. Era assim o código de honra dos piratas, que exigia a reparação de insultos através do sangue. Ora, o amante de Mary tinha escassas hipóteses de sobreviver a essa luta, por isso ela insultou gravemente o mesmo adversário e combinou um combate duas horas antes do duelo em que o amante estaria envolvido e na mesma praia. Mary combateu com espada e matou o opositor, salvando assim a vida do namorado.

 

Tudo indica que John Rackam era um capitão bastante incompetente e, em Outubro de 1720, foi surpreendido com metade da tripulação num estupor alcoólico. Atacado pelas autoridades navais britânicas, a resistência foi mínima, excepto a de um grupo onde estavam as duas mulheres, que tentaram em vão incentivar os restantes piratas à luta. Este facto complicaria mais tarde a sua defesa em tribunal. Ficou provado que eram lutadoras voluntárias e não simples cativas. O que as salvou da forca foi o facto de estarem grávidas.

Por especial favor do tribunal, Calico Jack, antes de morrer, ainda teve uma conversa com a sua amante, Anne Bonny. Esta disse-lhe que lamentava a situação em que ele se encontrava, mas “se tivesse lutado como um homem, não haveria necessidade de morrer como um cão”.

Assim aconteceu: Rackam foi enforcado a 18 de Novembro de 1721 e o seu corpo pendurado à entrada de Port Royal, na Jamaica. Tinha 32 anos. A irlandesa sobreviveu a todas estas aventuras, com aparente ajuda dos pais ricos. Johnson afirma saber que ela não foi executada e mais tarde surgiram provas documentais de que, na realidade, a amante de John Rackam morreu na Carolina do Sul, em 1782, com quase 90 anos, o que era uma idade extremamente avançada nessa época. Ela teve pelo menos dez filhos, pelo que haverá muitos descendentes seus nos Estados Unidos.

Mary Read não teve tanta sorte. Morreu na prisão em Abril de 1721, de uma febre não especificada. Não se sabe se teve a criança ou o que aconteceu ao amante que salvara na praia, mas presume-se que ele tenha seguido o mesmo fim que os outros piratas, o enforcamento. Tanto tempo depois, o que se sabe é que Rackham não era assim tão terrível, que houve mesmo duas mulheres entre os piratas das Caraíbas, e que uma delas, Mary Read, foi uma incomparável mistura de Vénus e de Marte, de amor e de guerra. 

 

 

(1) O livro do Capitão Johnson foi recentemente editado em Portugal pela Cavalo de Ferro, História Geral dos Piratas, trad. de Nuno Batalha. 

(2) A história de Mary Read tem interessado a literatura. Em português, existe uma biografia romanceada, A Pirata, da autoria de Luísa Costa Gomes (D. Quixote, 2006).

(3) A grande fama dos piratas das Caraíbas veio sobretudo deste livro do capitão Johnson, que inspirou muitos autores durante dois séculos e tem preciosa informação sobre a pirataria da época e os seus efeitos, nomeadamente no caso de Portugal. Há muitos relatos históricos sobre as sucessivas vagas de pirataria e os seus protagonistas, geralmente náufragos de guerras ou fugitivos de injustiça. As façanhas mais sinistras foram sendo envolvidas em lenda e certa dose de romantismo. A pirataria tornou-se tema de romances e sustentou o género literário das aventuras.

 

Canais de Marte (episódio da História do Fracasso)


Luís Naves,

Sabemos hoje que Marte é um planeta inóspito e deserto, com uma superfície avermelhada devido à presença de óxido de ferro e com atmosfera demasiado fina para conseguir captar calor. Distante do Sol em média 50% mais do que a Terra, as suas temperaturas são extremamente baixas e nos pólos chegam a ser inferiores ao ponto de congelação do dióxido de carbono (-190 graus centígrados). A fraca densidade da atmosfera marciana é um mistério, talvez efeito da extinção do campo magnético que permitiu a acção dos ventos solares, havendo a possibilidade de um impacto catastrófico ter arrancado uma fatia da antiga atmosfera.

O quarto planeta do sistema solar tem exercido forte fascínio. Observado já pelos egípcios e gregos, foi baptizado com o nome do deus da guerra dos romanos. Na Era Moderna, houve gerações de astrónomos que tentaram desvendar os seus segredos, mas no final do século XIX uma falsa descoberta excitou a imaginação do mundo científico, contaminando de forma irreversível a cultura popular. Em 1877, houve excelentes condições para a observação do planeta Marte. Foi nesse ano que se descobriram dois pequenos satélites, Deimos e Fobos (Terror e Medo) que serão possivelmente asteróides capturados pela força da gravidade do planeta. Nesse mesmo ano, um eminente astrónomo do Observatório de Milão, Giovanni Schiaparelli, descreveu o que lhe pareciam ser “canais” na superfície marciana. Schiaparelli fez desenhos pouco detalhados onde havia zonas escuras, a que chamou mares, e zonas claras, que denominou continentes. E, entre os dois, aquilo a que chamou “canali”, linhas finas que pareciam ligar as diferentes zonas.

  

Esta observação tornou-se célebre e a palavra italiana canali foi traduzida para o inglês canals, que ao contrário do vocábulo italiano sugeria artificialidade. Este pequeno detalhe bastou para criar um frenesim que rapidamente se converteu numa ideia capaz de concentrar as fantasias da época: a descoberta parecia indicar a existência de vida no planeta vizinho. Bastava olhar por um telescópio e lá estavam as áreas escuras e claras. Ninguém desconfiou da circunstância de não haver dois mapas idênticos ou de ser difícil obter fotografias nítidas das formas.

A observação de Schiaparelli foi popularizada por um matemático e astrónomo americano, o milionário Percival Lowell, que esticou ainda mais o conceito. Onde Schiaparelli vira depressões que podiam ser vales alongados, Lowell encontrou um sistema de irrigação, produzido por uma civilização cuja míngua de água tinha levado a extremos de engenho.

Lowell era uma figura influente e sabia escrever com estilo. O astrónomo americano descreveu com detalhe aspectos “não-naturais” na superfície de Marte, nomeadamente canais construídos para levar água dos pólos para o equador. Viu também oásis, zonas escuras entre canais. Tudo isto sugeria vegetação e inteligência. Estas teses foram discutidas em detalhe pela imprensa e entraram rapidamente no imaginário popular. Entre 1895 e 1908, Lowell escreveu três livros de popularização científica sobre as características artificiais dos canais marcianos e construiu um telescópio que na altura era o mais sofisticado do mundo (na realidade, foi o primeiro edificado a grande altitude), em Flagstaff, no Arizona. Foram feitos mapas detalhados da civilização marciana e especulou-se furiosamente sobre a engenharia em causa.

Nos textos de Lowell os canais e oásis surgiam com sugestivos nomes clássicos. O autor escreveu que havia linhas de vegetação, algumas duplas, e que o fluxo de água das calotes para o equador não podia ser explicado pela gravidade. Origem artificial, água escassa e interferência inteligente foram algumas das expressões que usou. O sistema visava distribuir água e o astrónomo concluía que a forma de vida inteligente era pacífica, pois os povos setentrionais e equatoriais estavam a cooperar para o mesmo fim, tentando travar o declínio do planeta.

Os canais de Marte deram consistência ao género literário hoje conhecido por ficção científica. Em 1898, o escritor britânico H. G. Wells publicou o seu fenomenal A Guerra dos Mundos, livro que descreve uma cruel invasão de marcianos. Em 1912, o americano Edgar Rice Burroughs lançou a sua série de histórias sobre as aventuras marcianas de John Carter, que fez as delícias de mais do que uma geração de jovens. Aliás, o tema da vida inteligente em Marte dominou o género ao longo de todo o século XX, com destaque para clássicos como Crónicas Marcianas, de Ray Bradbury (1951) ou Areias de Marte, de Arthur C. Clarke (1951), onde surgem marcianos inteligentes e os humanos podem respirar na superfície do planeta. Em Martian Time-Slip, de Philip K. Dick ((1964) ou Estranho numa Terra Estranha, de Robert Heinlein (1961), a paisagem já é mais inóspita, uma espécie de deserto, mas as pessoas circulam com respiradores e as temperaturas são aceitáveis. Até há agricultores no livro de Dick.

 

Se estas ideias tinham entrado com força na cultura popular, na comunidade científica havia cépticos que já no início do século XX tinham demolido a tese dos canais e da civilização alienígena. Todas as tentativas de desenhar o tal sistema davam resultados diferentes, conforme o autor da observação ou o dia em que era feita.

Schiaparelli faleceu em 1910 e Lowell em 1916, antes de surgir a explicação da ilusão de óptica. Na realidade, os astrónomos eram enganados pela sua própria visão, pois os seres humanos têm tendência para formar padrões onde estes não existem. Não havia canais, mas uma superfície irregular que a imprecisão dos telescópios, as deformações atmosféricas e a má visão humana transformavam num imaginário sistema de irrigação. Também havia entusiasmo em excesso e alguns autores estavam apenas a encontrar os seus desejos.

O segundo livro de Lowell, Mars and Its Canals, mereceu em 1907 a crítica demolidora de Alfred Russell Wallace (1823-1913), um dos maiores cientistas do seu tempo e que já em 1902 tentara refutar a teoria dos canais. Num livro intitulado Marte É Habitável?, Wallace explicava que não havia vapor de água, que a pressão atmosférica era demasiado débil e a temperatura demasiado baixa para permitir água no estado líquido. Este livro é considerado um percursor de um ramo novo, a astrobiologia. Wallace é uma das figuras mais extraordinárias (e modestas) da história da ciência. Este biólogo fez observações em todo o mundo e concebeu a teoria da evolução na mesma altura em que Charles Darwin a propôs publicamente, embora o seu mecanismo de diversificação das espécies não tenha usado o termo “selecção natural”, que ficou mais famoso. Darwin tem assim a primazia da teoria da evolução, mas deu sempre a Wallace o devido mérito e os dois homens mantiveram uma longa e frutuosa amizade.

 

Apesar destes esforços, a ideia de Lowell sobre os canais em Marte só foi totalmente rejeitada na década de 60 do século XX, quando a NASA enviou as sondas automáticas Mariner. Apesar de tudo, Lowell é uma figura marcante da astronomia e dedicou parte da sua vida à procura do misterioso planeta X, em órbita além de Neptuno, investigação que levou à descoberta de Plutão em 1930. As duas primeiras letras são uma homenagem ao seu nome, Percival Lowell. O nono planeta do sistema solar foi entretanto despromovido a planeta anão, categoria que poderá ter mais de 20 objectos no sistema solar.

Os marcianos reapareceram em 1996, quando foram observadas pequenas estruturas no interior de um meteorito encontrado na Antártida e que um impacto ejectara de Marte num passado remoto. Alguns cientistas viram nessas estruturas micróbios fossilizados, mas a ideia tem sido contestada. Marte foi entretanto estudado por sondas automáticas, sobretudo da NASA, Viking (1976), Mars Pathfinder (1997), Spirit e Opportunity (2004) e a mais recente Curiosity (2012), todas com resultados sensacionais. As sondas demonstraram que no passado do planeta (há milhões de anos) houve água em estado líquido na superfície. Se existir vida, ela será precária e estará enterrada profundamente no solo marciano, ao abrigo dos raios ultravioleta. No entanto, os autênticos marcianos poderão no futuro ser da espécie humana. É muito discutida a ideia de terraformar o planeta vermelho, algo que teria enormes dificuldades e custos, mas que será tecnicamente possível. Uma eventual colonização humana de Marte não começará antes de 2030. Os nomes até já existem: foram sugeridos por Lowell (Elysium, Fons Immortalis, Arcadia, Tharsis). 

 

Gordon em Cartum (episódio da História do Fracasso)


Luís Naves,

No início de 1885, no auge do Império Britânico e da Era Vitoriana, ocorreu uma famosa derrota militar que inflamou os jornais do mundo civilizado e o coração de muitos jovens ambiciosos com sonhos de seguir a carreira das armas. O herói desta história, Charles Gordon, foi brutalmente morto e degolado no final do cerco de Cartum, mas o império viria a vingá-lo anos mais tarde, condenando ao esquecimento o vencedor da batalha.

De forma perturbadora, e apesar do contexto ser outro, certos elementos da saga de Gordon são imitados por situações do presente. O general inglês estava ao serviço do governo egípcio, liderado por uma elite de origem otomana, mas na realidade orientado do exterior, pois o Egipto era na época um protectorado inglês, embora tivesse desde 1819 o seu próprio pequeno império africano. A insustentável dívida pública egípcia era gerida pelos credores, os ingleses, que nomeavam o ministro das Finanças egípcio e controlavam todas as despesas. Este protectorado foi alargado ao exército em 1882. O Quediva do Cairo, supostamente tributário do Império Otomano, pertencia na realidade ao Império Britânico.

Entretanto, os interesses egípcios no Sudão estavam a ser contestados por uma rebelião fundamentalista islâmica chefiada por um homem chamado Mohammed Ahmed, que se reclamava descendente do Profeta e dizia ser o Mahdi (as correntes messiânicas sunitas acreditam na profecia de que haverá um enviado, sucessor de Maomé). Os Mahdistas estavam em plena Jihad (guerra santa) e estavam até a vencê-la. O Sudão encontrava-se já sob seu controlo, à excepção da capital, Cartum, cidade criada pelos egípcios na confluência do Nilo Azul e do Nilo Branco, e onde havia uma poderosa guarnição.

O cerco de Cartum, iniciado em 1884, tinha grande importância para as duas partes. As vidas paralelas de Mohammed Ahmed e Charles Gordon convergem na noite de 25 para 26 de Janeiro de 1885, quando, pressionado pela chegada iminente de um exército de resgate, o Mahdi decidiu dar o golpe final na cidade, que resistira 320 dias. Consta que não houve sobreviventes na guarnição egípcia de 7 mil homens, mas talvez essa informação seja propaganda posterior. O general Gordon tinha 52 anos, o Mahdi 44.

 

Neste episódio da História do Fracasso não há muitas versões do vencedor. Pelo contrário, os factos foram contados pelos perdedores, quase sempre de forma tendenciosa, com notáveis excepções, como é o caso de Slatin. Em 1896 foi publicado em Londres um livro, Fire and Sword in the Sudan, escrito por um oficial do exército egípcio, o barão austríaco Rudolf Slatin, que fora durante dez anos prisioneiro dos Mahdistas e que conhecera o próprio Mohammed Ahmed. Conhecido por Slatin Paxá, este oficial escapara do cativeiro com ajuda de um membro dos serviços de inteligência britânicos e conseguira regressar a segurança. As suas aventuras são sensacionais e o livro (disponível na internet) está repleto de pérolas, mas o relato vale sobretudo pela descrição desapaixonada da ascensão do Mahdi.

A rebelião no Sudão começara no início da década de 80. Pressionados pelos ingleses, os egípcios tentavam conter o tráfico de escravos e havia forte repressão das tribos mais envolvidas nesta prática, o que era o grande motivo do forte descontentamento com a péssima administração colonial.

Mohammed Ahmed era um obscuro religioso de origem humilde que, ao revoltar-se contra o seu mentor, afirmou ser descendente do Profeta. Após um período de reclusão e oração, o discípulo desprezado começou a espalhar uma doutrina purificada e fundamentalista, que atraiu numerosos seguidores. A sua mensagem de libertação engrossou o movimento religioso e, após a recusa desta comunidade em pagar impostos, ocorreu uma displicente reacção egípcia, que acabou em desastre militar. Na sequência do combate, em 1881, Mohammed Ahmed, de acordo com as profecias, declarou-se o Mahdi e nomeou quatro califas. O seu exército cresceu rapidamente e conquistou quase todo o Sudão.

Em Novembro de 1883, o Mahdi destruiu um exército considerável, comandado por oficiais europeus. A partir daí, o seu movimento triunfara. Como escreveu Winston Churchill em River War, livro onde relata a campanha do Sudão, “não sei como é que se distingue um profeta genuíno de um falso, a não ser pela medida do seu sucesso. Os triunfos do Mahdi foram, durante a sua vida, bem maiores do que aqueles do fundador da fé maometana. E a principal diferença entre a fé muçulmana ortodoxa e o mahdismo foi que o impulso original se confrontou com sistemas decadentes da governação e da sociedade, enquanto o movimento recente entrou em contacto com a civilização e a maquinaria da ciência” (*). Churchill conhecia o seu tema, pois como jovem oficial de cavalaria participou em 1896 no esmagamento do movimento mahdista ou do Império Dervixe. Este excerto de um livro que tornou famoso o jovem político inglês ainda hoje tem actualidade, podendo ser aplicado a movimentos fundamentalistas islâmicos mais recentes e que se confrontam com a modernidade e a civilização.

 

O general Gordon, representante da civilização da época e da maquinaria da ciência, era um figura lendária, soldado profissional que se distinguira na Guerra da Crimeia e depois seguira uma carreira com momentos de glória durante a rebelião Taiping, na China, ou em anteriores acções no Sudão. Gordon tinha fama comparável à das modernas estrelas rock e era a personificação das virtudes do império britânico. Por isso, estava pouco disposto a receber ordens e esse foi o seu maior problema.

Em plena Guerra Santa, as tribos sudanesas ameaçavam a capital, Cartum. Os ocidentais e a administração egípcia, com as respectivas famílias e elites nativas tinham-se concentrado na única cidade que restava sob controlo ‘civilizado’. A Inglaterra não queria meter-se num conflito tão incerto e Gordon, ao serviço do governo egípcio, mas sempre oficial britânico, foi enviado em Fevereiro de 1884 com instruções para evacuar a cidade, usando uma pequena frota de embarcações que subiam e desciam o Nilo.

Na realidade, o general decidiu desobedecer às instruções que lhe dera o Quediva do Cairo. Procedeu à evacuação de mulheres e crianças, mas ficaram em Cartum 15 mil pessoas, incluindo um forte dispositivo militar, que Gordon rapidamente verificou ser insuficiente para impedir o cerco dos Mahdistas.

O general fortificou Cartum mas não confiava nas suas tropas e recusou converter-se ao Islão (o que Slatin fizera no Darfur, para escândalo de Gordon, mas essa é outra história). Houve assim constantes deserções e traições, o entusiasmo dos soldados era mínimo e os melhores oficiais foram sendo mortos em combates no exterior, que resultaram em derrotas, redução do perímetro e perda de armas. Quase até ao final do cerco, o general Gordon podia ter evacuado Cartum, mas resistiu teimosamente, apesar de também desconfiar da população.

 

Entretanto, em Londres, o governo de William Gladstone estava sob forte pressão para enviar uma força de resgate, mas durante meses foi adiando a decisão. A opinião pública considerava esta atitude escandalosa e a própria rainha Vitória manifestou a sua indignação. Gladstone acabou por ceder. A expedição de socorro tinha dez mil homens, mas as dificuldades logísticas eram tremendas, os barcos tinham de ser operados para lá das cataratas, com correntes fortíssimas, e o contingente que progrediu pelo deserto teve forte oposição.

Os combates para retardar o exército britânico foram ferozes, mas a força que atravessara o deserto conseguiu chegar ao Nilo e um pequeno contingente embarcou em lanchas que Gordon mantinha mais a norte de Cartum. No entanto, esta força chegou à cidade apenas a 27 de Janeiro de 1885, dois depois dos dervixes a terem conquistado. Ainda havia colunas de fumo, mas era demasiado tarde.

Perante a aproximação da expedição de socorro, o Mahdi apressara-se. Cartum fora tomada de assalto em poucos minutos. Gordon ainda tentou resistir, mas em vão. Foi apanhado pelos assaltantes no pátio do palácio. Rodeado por dezenas de homens armados e excitados, perguntou “onde está o vosso chefe?”, mas a tentativa de intimidação era inútil: o general mais famoso do seu tempo foi rapidamente morto e decapitado. Depois, os rebeldes levaram a cabeça de Gordon ao Mahdi.

Os ingleses já não tinham objectivo e retiraram do Sudão, que durante uma década ficou fora do mundo civilizado. O governo Gladstone foi culpado pelo desastre. Por ter abandonado Gordon à sua sorte, o primeiro-ministro teve de se demitir. Mohammed Ahmed tinha criado o Império Dervixe, mas morreu apenas cinco meses depois do seu triunfo, vítima de febre tifóide. Dez anos mais tarde, os ingleses recuperaram o Sudão e destruíram o movimento fundamentalista. Churchill participou nessa campanha e relatou o banho de sangue em páginas memoráveis.

 

*(River War, A Reconquista do Sudão, Winston Churchill, pág. 41) 

 

Verdes contra azuis (episódio da História do Fracasso)


Luís Naves,

Constantinopla, hoje Istambul, era uma cidade esplendorosa e imensamente rica para os padrões do século VI. A capital do Império Bizantino sobrevivera por milagre às invasões bárbaras, que tinham transformado o ocidente da Europa numa zona de devastação. No tempo do imperador Justiniano, Constantinopla fez a derradeira tentativa militar, pelo menos a última considerada séria, para recuperar a metade perdida do velho império romano. As expedições foram lideradas por um general notável, Belisário, mas a maré que arrastava para o fundo era demasiado forte e todos estes esforços deram em pouco. Bizâncio viria a controlar a Itália ainda durante um curto período, mas já não escondia a sua própria fraqueza.

A queda da civilização romana teve motivos complexos, por exemplo, a natureza violenta da época e a fragilidade dos regimes imperiais, elementos que saltam à vista num incidente que ocorreu no início do reinado de Justiniano e ao qual o imperador sobreviveu com  dificuldade. Conhecido por revolta de Nika, este episódio de histeria teve vários protagonistas, incluindo o general Belisário e a imperatriz Teodora. A revolta terminou em banho de sangue e mostrou os efeitos da febre do desporto, neste caso, também dos malefícios do excesso de rivalidade entre duas claques: verdes e azuis.

No Império Bizantino havia uma paixão louca por corridas de cavalos, geralmente quadrigas (carroças de quatro cavalos) associadas a equipas apoiadas por claques que usavam bandeiras de uma determinada cor. As divisões sociais reflectiam-se nos grupos que assistiam às corridas e que ocupavam secções específicas do hipódromo. Originalmente, havia quatro cores, mas no início do século VI os vermelhos e os brancos tinham sido absorvidos pelos verdes e azuis, que se transformaram gradualmente em facções políticas, vagamente ligadas ao povo (verdes) e aos aristocratas (azuis), embora isso não seja assim tão linear. As claques (ou facções) tinham lideranças informais, influência social e estavam frequentemente envolvidas em episódios de violência, a propósito de muitos temas diferentes, incluindo questões teológicas que incluíam ramificações políticas. Verdes e azuis disputavam os favores do imperador, a quem era exigida uma espécie de neutralidade que pairava acima das tradicionais rivalidades.

 

O descontentamento deste período tinha origem sobretudo no nível elevado dos impostos, consequência do custo de guerras prolongadas com a Pérsia mas também da perda mais recente de receitas do comércio, evidente consequência das invasões bárbaras. Na altura, havia um surto de inflação que penalizava as classes sociais mais baixas, bem como escassez de produtos alimentares. Justiniano, que sucedera ao seu tio Justino, tinha cinco anos no cargo e ainda não consolidara o poder. O regime não era popular, pois a repressão de heresias fora especialmente dura no reinado anterior.

Neste contexto, as claques odiavam-se e havia lutas cada vez mais violentas, que o imperador decidiu limitar, após ocorrerem perturbações de invulgar intensidade. Foram assim condenados à morte membros das claques azul e verde, mas alguns condenados fintaram a execução refugiando-se numa igreja. A opinião pública seguiu o caso com emoção, exigindo a absolvição incondicional dos fugitivos, algo que o imperador não estava disposto a conceder. A 13 de Janeiro de 532, a corda partiu-se e o conflito entrou numa fase mais perigosa, quando as claques se uniram para contestar o próprio imperador. Nesse dia, no momento em que Justiniano entrou no hipódromo e ocupou o seu lugar para assistir às corridas, verdes e azuis juntaram-se num grito único, “Nika, Nika”, palavra que em grego significa ‘vitória’. Terá sido espontâneo ou organizado? Não se sabe.

 

Justiniano saiu apressadamente do hipódromo e a multidão lançou-se numa orgia de destruição. Durante cinco dias, Constantinopla mergulhou no caos e os incêndios fora de controlo ateados pelos rebeldes arrasaram muitos edifícios do centro. As elites refugiaram-se no palácio, mesmo ao lado do hipódromo, mas o imperador temia uma conspiração do senado e ponderou abandonar o poder e fugir de barco para um local mais seguro. O tumulto estava tão próximo dele, que deve ter parecido um acontecimento tremendo, mas no momento crucial o imperador foi travado pela sua mulher, Teodora, uma personagem extraordinária para a época, tendo em conta o facto das mulheres terem um papel político menor no Império Bizantino e a origem humilde, até indecente, da imperatriz. Teodora tinha sido actriz (profissão indecorosa) e, segundo algumas crónicas do tempo, na juventude chegou a trabalhar num bordel. Sobreviveram vários relatos sobre ela, ora mostrando uma mulher influente e poderosa, ora uma figura implacável. Na sua velhice, Justiniano tinha um enorme respeito pela memória da mulher. No motim de Nika, a estratégia de repressão parece ter sido concebida pela própria imperatriz, que tomou a palavra num conselho de emergência e convenceu o marido a lutar, usando o argumento de que a abdicação do imperador era impossível. Nesta intervenção decisiva, é atribuída a Teodora uma frase lendária onde alude à cor do manto imperial: “Púrpura é a mortalha mais nobre”.  

A revolta de Nika falhou porque o imperador conseguiu explorar as contradições dos amotinados, dividindo as claques inimigas enquanto elas ocupavam as bancadas do hipódromo, pois o motim consistiu também na ocupação de um espaço emblemático. Enquanto ganhava força, Justiniano expulsou do palácio todos aqueles que podiam ameaçar o seu poder, incluindo dezenas de senadores e o sobrinho do antigo imperador Anastásio, o ex-cônsul Hipácio, que era um dos mais ilustres membros dos verdes. Hipácio foi forçado a regressar à sua casa, onde um grupo de amotinados o procurou, levando-o para o hipódromo. Foi ali proclamado imperador, durante uma assembleia popular onde não teve qualquer escolha, apesar de surgir em alguns relatos deste caso como estando na origem da revolta.

 

No seu contragolpe, o imperador agiu com extrema cautela e aproveitou a inconsequência dos amotinados. Após negociações que duraram dias, fazendo promessas que não tinha intenção de honrar, Justiniano foi dividindo as hostes dos rebeldes, comprando a lealdade de alguns azuis proeminentes. O imperador reclamou-se até adepto da claque azul, lembrando igualmente que o usurpador Hipácio era um destacado membro dos verdes. Usando um eunuco da sua confiança, que conseguia entrar e sair do recinto, Justiniano subornou um número suficiente de amotinados, depois preparou um ataque militar e aguardou: ao fim de cinco dias de motim, a multidão estava cansada e foi neste momento que os azuis, manipulados pelos adeptos que tinham sido comprados, abandonaram ostensivamente o hipódromo, deixando os verdes entregues à sua sorte. Foi o momento escolhido para os militares sufocarem a rebelião. O hipódromo foi invadido por uma força de elite de mercenários godos sem simpatias entre os amotinados. Os soldados, comandados por Belisário, entraram no recinto e não deram quartel.

Os verdes não tinham hipótese contra tropas profissionais. Ainda esboçaram ténue resistência, mas foram massacrados. Segundo Procópio, morreram mais de 30 mil pessoas nesse dia em Constantinopla, incluindo o usurpador Hipácio. Talvez 30 mil seja um número exagerado, mas é provável que tenha havido milhares de vítimas. Segundo narra o historiador bizantino, muitos amotinados morreram esmagados, na fuga em pânico, quando tentavam escapar por uma porta estreita. O massacre criou ódios que levaram tempo a sarar, mas também teve consequências no futuro do império, pois muitas das vítimas eram comerciantes e o seu desaparecimento enfraqueceu a economia. O poder passou a desconfiar destes eventos desportivos, que a igreja já condenava e que foram passando de moda. O fanatismo nas corridas perdeu-se definitivamente e o próprio império bizantino entrou num longo ocaso, que iria durar séculos, mantendo acesa a chama da civilização, mas em equilíbrio precário, alternando o declínio com momentos de breve esperança que as circunstâncias do mundo iam desmentindo. 

 

 

Um traidor de alto nível (episódio da História do Fracasso)


Luís Naves,

 

Uma das mais extraordinárias histórias de espionagem ocorreu nos pacatos salões vienenses, em vésperas da Primeira Guerra Mundial. A personagem principal do drama, o coronel Alfred Redl, traiu o seu país durante uma década, foi desmascarado e pagou com a vida, mas o fracasso caiu inteiramente sobre o exército traído. É um mistério como este caso foi possível: por vezes, uma estranha teimosia impede as pessoas inteligentes de verem o óbvio.   

O escândalo rebentou em Maio de 1913, devido a uma notícia incómoda sobre o suicídio de um coronel do exército austro-húngaro, Alfred Redl. A informação, que incluía o picante de alusões veladas à homossexualidade da vítima e à sua eventual traição, fora obtida por um jornal regional na Boémia, embora o furo jornalístico fosse consequência de mero acaso: segundo a lenda, o jornalista que redigiu essa primeira notícia era dono de um clube de futebol onde jogava uma das testemunhas acidentais do suicídio do coronel, testemunha essa que foi ameaçada de despedimento se não contasse a história. Apesar de tudo, o jornal falhava no essencial, a verdadeira posição do militar, mas desencadeou o interesse da imprensa de Viena, que conseguiu ligar os fios, lançando um escândalo político de enormes proporções, que enlameava os altos escalões militares austríacos e a própria monarquia.

A razão era simples: até ao ano anterior ao obituário, o coronel Redl tinha sido chefe dos serviços de informação militares austro-húngaros, sendo o responsável máximo pela contra-espionagem, ou seja, pela detecção de eventuais agentes inimigos nas fileiras, além de ter acesso ao conhecimento de redes de espionagem no exterior e planos militares do Estado-maior. Aliás, Redl chefiara a investigação sobre a existência de uma possível toupeira de alto nível, que se verificou ser ele próprio.

  

Anos antes, uma fonte diplomática inglesa em Sampetersburgo garantira ao embaixador austríaco que a Rússia mantinha em Viena um espião com acesso aos maiores segredos militares. Redl concluíra que a informação dos ingleses era falsa e mandou arquivar o caso, mas  a informação era verdadeira, os serviços secretos do Czar, Okhrana, tinham um agente activo, o chefe da espionagem militar austríaca, Alfred Redl. Julga-se que o recrutamento terá ocorrido em 1903, numa altura em que o traidor começou a ostentar sinais de riqueza incompatíveis com a sua patente e que, na época da captura, já incluíam um automóvel e cavalos dispendiosos.

Considerando a natureza meteórica da sua carreira, Redl tinha origem social relativamente modesta. O pai fora oficial do exército, mas forçado a abandonar a sua comissão, embora obtendo uma função civil ao serviço do império, em Lemberg, na Galícia (Lvov, na actual Ucrânia). Dessa forma, enquanto jovem ambicioso, Redl cresceu num ambiente provinciano onde coabitavam várias comunidades (polacos, judeus, alemães e rutenos) e falava fluentemente polaco, tendo mais tarde dominado o russo. O domínio de línguas eslavas deu forte impulso à sua ascensão, feita em ambientes frequentados por generais com influência política.

Em segredo, o coronel Redl era homossexual, o que em caso de exposição seria considerado crime, implicando a desgraça. Este era também o seu ponto mais fraco e os russos descobriram a vulnerabilidade que escapara aos austríacos. O resto foi simples questão de preço.  

 

Mas voltemos à informação diplomática sobre a toupeira de alto nível. O chefe dos espiões austríacos julgou que tinha arquivado o caso, mas isso não acontecera totalmente. A primeira reacção dos líderes militares foi de pura perplexidade. Era impossível tal traição, mas a fonte inglesa garantia que os russos tinham conhecimento detalhado dos planos militares para invadir a Sérvia e essa alegação continha detalhes que a tornavam demasiado credível. Houve um pequeno pânico e foi lançada pelo governo uma investigação policial paralela à militar, para procurar o espião que se infiltrara nos quadros do exército. Entretanto, Redl deixara a chefia da contra-espionagem, sem que houvesse desconfiança em relação aos seus sinais exteriores de riqueza. O coronel era um homem doente, atingido por uma infecção de sífilis, nesse tempo sem cura. 

A polícia centrou o inquérito na correspondência internacional enviada por posta-restante, ou seja, entregue ao destinatário na própria estação de correios. Foi um trabalho de paciência, que acabou por compensar. A certo ponto, nos correios de Viena, foi interceptada uma carta suspeita, proveniente da fronteira russa e que, aberta em segredo, se verificou conter dinheiro para um destinatário de nome desconhecido.

A polícia admitiu que se tratava do pagamento ao traidor e ficou à espera que alguém reclamasse a carta. Isso aconteceu num dia e hora em que, por azar, o polícia de serviço saíra para comer uma bucha matinal. O homem que levantou a carta saiu dos correios à pressa, num fiacre, e foi nesse ponto que a polícia voltou a ter sorte.

Em Viena, os fiacres eram limpos em cada estação de paragem e o empregado que fazia o serviço junto ao edifício dos correios tivera o cuidado de anotar o número da viatura que acabara de sair. Seguiu-se a perseguição. No final, os agentes interrogaram o condutor e conseguiram a descrição do passageiro e o destino final. O espião cometera outro erro, deixando no fiacre uma faca de abrir cartas.

Em resumo, o suspeito dirigira-se para um hotel, onde foi rapidamente identificado. Era o coronel Alfred Redl, ex-chefe da contra-espionagem militar austríaca. Um dos agentes abordou o militar, mostrando-lhe a faca: “O senhor esqueceu-se de alguma coisa”, disse. O traidor podia ter negado, mas rendeu-se.

 

Quando foi apanhado, Redl tinha 49 anos. Os relatórios russos sobre ele eram ingratos, diziam que se tratava de um “cínico”, que apenas queria dinheiro. O traidor vivia no luxo e, portanto, devia ter sido detectado anos antes. É estranho que os austríacos nunca tivessem investigado a vida do seu chefe da espionagem, em busca de fraquezas tão óbvias como preferências sexuais. E de onde viera a riqueza para comprar um automóvel? Parece incrível que ninguém tivesse questionado a vida luxuosa, os cavalos.

Os erros são ainda mais extraordinários após a captura. Em vez de interrogarem o coronel para saberem a extensão dos estragos ou para o usarem como agente duplo, as autoridades militares (que entretanto se tinham apoderado da investigação) deram ao traidor a possibilidade de suicídio. Redl foi colocado dentro de um quarto do hotel e recebeu uma pistola com uma bala na câmara. Passadas algumas horas, os guardas que estavam no exterior ouviram o tiro. A causa da morte era evidente, uma bala na cabeça, mas a autópsia revelou que a sífilis entrara em fase adiantada, já a afectar o cérebro. O espião durara mais de dez anos e, se daquela vez tivesse escapado aos polícias, morreria da doença daí a alguns meses.

A imprensa debateu com escândalo as inconsistências deste caso sensacional, mas ninguém desconfiou da extensão dos estragos. No ano seguinte, sem o saber, a Áustria embarcou numa guerra perdida. O conhecimento dos planos de invasão da vizinha Sérvia permitiram que este pequeno país se preparasse e em 1914 os austríacos sofreram pesadas baixas contra um adversário muito inferior.

Mas o pior efeito foi o de tornar vulneráveis as fortificações na fronteira oriental do império. Ainda hoje são relativamente inexplicáveis as estrondosas derrotas sofridas pelos austríacos nos primeiros meses do conflito. O conhecimento russo da disposição de forças, pontos fracos e planos tácticos pode ter sido decisivo nestes combates.

Os russos também sabiam os nomes dos agentes que trabalhavam para os austríacos, todos ele presos, fuzilados ou forçados a jogo duplo. Por outro lado, Viena possuía informação errada sobre o verdadeiro poderio do exército russo, que era mais forte do que pensava o Estado-maior austríaco. Isso conduziu a uma má avaliação do adversário e à decisão catastrófica de avançar para a guerra em 1914, usando o pretexto do assassinato do arquiduque Francisco Fernando em Sarajevo.

Se Alfred Redl tivesse sido interrogado, os austríacos teriam compreendido os terríveis riscos que corriam. Não se apercebendo que os seus planos estavam comprometidos, não precisavam de tempo para os alterar. Se Redl falasse, a guerra não teria talvez começado em 1914, embora tudo isso seja especulativo, pois nunca saberemos as motivações escondidas neste caso de traição, que envolveu dinheiro, incompetência, sorte, azar, sabe-se lá mais o quê, pequenos detalhes com grandes consequências.

 

 

A colónia escocesa (episódio da História do Fracasso)


Luís Naves,

Dentro de semanas, a Escócia votará em referendo se pretende manter-se ligada ao Reino Unido ou se prefere a independência. O resultado da consulta é incerto. A união com a Inglaterra teve momentos em que quase ocorreu a ruptura, tendo a última rebelião armada, dos clãs das Terras Altas, Highlander, terminado apenas em 1746, 39 anos após o acto da união.

Na realidade, Inglaterra e Escócia tiveram relações conflituosas durante séculos, mas a formação de cada um dos reinos não se explica sem a interacção com o vizinho. Nas décadas anteriores à união, consumada em 1707, a economia escocesa sofrera com a concorrência do comércio inglês e com uma sucessão de más colheitas. Os conflitos entre clãs eram endémicos.

Os motivos que conduziram à união das duas coroas são numerosos e complexos, mas um deles destaca-se pelo insólito: em 1698, a Escócia tentou estabelecer uma colónia no actual Panamá, na baía de Darien, mas o fracasso da iniciativa consumiu grandes quantidades de capital e levou muita gente à falência. Darien ajuda a explicar o apoio da aristocracia feudal escocesa à união com os ingleses e o fracasso do império escocês foi, sem dúvida, uma das bases para três séculos de Reino Unido.

 

No final do século XVII, as potências europeias estavam activamente envolvidas na expansão ultramarina. As colónias eram caras, tinham enormes incertezas e perigos, mas prometiam lucros milionários. As nações ibéricas tinham avanço significativo na matéria, mas contavam naquele momento com a concorrência muito eficaz de ingleses, franceses e, sobretudo, dos holandeses, que estavam a utilizar um modelo de companhias capitalistas para financiar a exploração colonial.  

Em 1695, os escoceses tentaram imitar o modelo holandês, criando a Companhia do Comércio da Escócia na África e nas Índias, com garantia de monopólio nacional nas trocas com estas regiões e a intenção explícita de criar uma colónia no Istmo do Panamá.  A ideia era do banqueiro William Patterson (1658-1719), que viria mais tarde a ser um dos fundadores do Banco de Inglaterra. Patterson conhecia as Bahamas e inspirara-se na observação do mapa do mundo: o istmo do Panamá era de tal forma estreito junto à baía de Darien, que parecia fácil construir uma ligação entre Atlântico e Pacífico.

 

O banqueiro procurou investidores, mas a companhia teve de se basear exclusivamente em capital escocês (e consumiu imensas quantidades), pois as tentativas de encontrar dinheiro em Inglaterra, Holanda e França esbarraram com dificuldades políticas.

Ninguém pensou em construir um canal, ideia que viria mais tarde. A intenção era levar mercadorias pelo Atlântico, desembarcar o navio na costa e transportar os produtos por terra até ao Pacífico, onde seriam embarcados de novo, rumo à Índia, reduzindo em muitos dias o tempo de viagem entre Europa e Ásia. Em teoria, era possível inverter o processo, trazendo da mesma forma produtos asiáticos para a Europa. A companhia que controlasse este negócio ficaria imensamente rica, mas até que isso fosse possível, a colónia teria de viver com magros recursos agrícolas. Havia dificuldades, naturalmente, pois a província era uma possessão espanhola desabitada, que a Espanha, embora enfraquecida, não pretendia entregar de mão beijada aos escoceses.

 

O que não constava dos planos era a circunstância de Darien ser também insalubre e intransponível. Este território é ainda hoje um local pouco habitado e perigoso, mas Patterson convenceu o público e arranjou o dinheiro. A companhia tinha capital, mas o banqueiro foi afastado da direcção antes da primeira expedição, tendo sido substituído na liderança por indivíduos igualmente ambiciosos, mas muito menos competentes.

Assim, a empresa que viria a ser conhecida por Companhia de Darien foi inteiramente paga por investidores escoceses. Os historiadores calculam que os navios e equipamento terão exigido um quinto ou mesmo um quarto do capital total existente na Escócia. O país estava a esticar perigosamente os seus recursos limitados. 

Os primeiros 1200 colonos viajaram numa frota que passou pela Ilha da Madeira e que chegou à Baía de Darien em Novembro de 1698. A bordo estava o próprio Patterson, que viria a perder a mulher e o filho durante esta tentativa de colonização.

Baptizada de Caledónia, a colónia consistia numa pequena povoação, Nova Edimburgo, protegida por um forte com 50 canhões. O empreendimento fora mal planeado e teve períodos de péssima liderança. A zona era perigosa e havia índios hostis, florestas densas e extensos pântanos, com solo impróprio para a agricultura. À beira da fome e do desespero, a Caledónia foi atacada pelos espanhóis e sofreu uma série de terríveis epidemias, cujos efeitos devastadores foram agravados pela deficiente nutrição dos colonos.

Uma segunda expedição que incluía mil pessoas foi enviada em 1699, e partiu da Escócia antes de ali chegarem as informações sobre o primeiro fracasso. Em 1700, um cerco espanhol acabou em rendição e abandono: no final, tinham morrido quase duas mil pessoas.

Os escoceses sonhavam com um império autónomo e acabaram endividados. O desastre viria a reflectir-se no próprio desaparecimento da Escócia como nação independente, pois o Acto de União com a Inglaterra, sete anos mais tarde, resultou em grande medida da desilusão que atingira as elites escocesas. A opinião pública passou a aceitar a ideia de um Reino Unido que fosse além de uma simples união das coroas, juntando as duas economias e somando as ambições externas. Não deixa de ser curioso que um dos grandes defensores da união tenha sido William Patterson.

Não podendo criar um império autónomo, a Escócia viria a participar activamente na criação do império britânico. Mais de 40% dos militares, médicos, funcionários de topo e até das mulheres que acompanhavam os aventureiros coloniais britânicos eram de origem escocesa, o que representa forte distorção a favor da Escócia.

 

Darien ficou ligado ao imaginário escocês e foi certamente inspiração para as aventuras de um curioso mitómano que daria um romance, Gregor MacGregor, que afirmava ser descendente de um dos sobreviventes da colónia de Darien. Este mercenário escocês viria a causar uma crise financeira internacional.

MacGregor combateu do lado luso-britânico na guerra peninsular, como major de um regimento português e tentou a sua sorte na América espanhola, onde obteve fama nos exércitos de Simão Bolivar. Em 1820, concebeu em Londres uma extraordinária fraude, afirmando-se cacique de um país fictício, Poyais.

O principado ficava na América Central, numa região das Honduras e Nicarágua hoje conhecida por Costa de Mosquitos. Não passava de um folheto e de um esforço da imaginação, mas possuía uma capital, São José (com ópera), e possibilidades infinitas de lucros, incluindo a exploração de florestas e minas de ouro e prata, além de cem mil quilómetros quadrados de terras disponíveis e férteis. Era tudo imaginação.

MacGregor apresentava-se como “Príncipe de Poyais” e conseguiu emitir obrigações da sua companhia com taxas de juro de 6%, semelhantes ao rendimento da dívida de países autênticos, recém-nascidos, tais como Chile ou Grande Colômbia.

A venda de terras era lucrativa e o aventureiro escocês conseguiu enganar muitos crédulos, que tentaram criar a colónia que tinham comprado, encontrando ali a selva e a miséria, em vez das terras esplendorosas que apareciam nos folhetos. Na tentativa, morreram centenas de pessoas e os poucos sobreviventes foram levados pelos ingleses para o Belize.

Os investimentos nos novos países independentes da América transformaram-se depressa numa bolha especulativa que rebentou em 1825 e 1826, provocando até 1828 a primeira grande crise de dívida na América Latina. MacGregor iniciara a bolha, ficou imensamente rico e, apesar de processado, conseguiu escapar à justiça, morrendo em Caracas em 1845. Talvez para ele toda aquela fantasia elaborada fosse uma espécie de resistência.

 

O poder do Sol (episódio da História do Fracasso)


Luís Naves,

Em Março de 1951, o presidente da Argentina, general Juan Perón, anunciou ao mundo que o seu país conseguira o extraordinário feito tecnológico de obter “libertação controlada de energia atómica”, o que significava o domínio da mesma energia produzida no interior do Sol. Perón era um dos líderes mais admirados no mundo, um populista que fazia uma equipa imbatível com a sua mulher, Eva, mais conhecida por Evita Perón, actriz que, seis anos antes, salvara a carreira política do marido convocando um protesto popular que lhe abriu caminho à presidência. O casal tinha carisma invulgar e tentava criar uma potência sul-americana, rival dos dois grandes, misturando políticas sociais, independência económica, nacionalizações, corporações, acções de massas e uma boa dose de autocracia.

Quando o general anunciou que o seu país domara a energia das estrelas, a notícia era credível, pois se havia alguém capaz desse milagre era mesmo Perón. A Argentina teria acesso a energia barata e abundante, seria uma potência industrial, mas infelizmente o anúncio foi prematuro e a notícia era falsa: em vez de conseguir a fusão termonuclear, Perón embarcara num dos episódios mais bizarros e dispendiosos da história da ciência.

 

 

A quimera nuclear argentina teve uma personagem principal, Ronald Richter, o austríaco a quem chamavam ‘El Alemán’ e que montou um ambicioso programa de investigação atómica na ilha de Huemul, no lago Huapi, perto de Bariloche, local paradisíaco que o próprio Richter escolhera em 1948, após ter convencido Perón de que seria possível obter energia termonuclear barata. Richter, de 39 anos, estudara física em Praga. Fora apresentado a Perón por um dos refugiados nazis que a Argentina acolheu por esta altura, o engenheiro aeronáutico Kurt Turk, que viria a desenhar o primeiro jacto de caça de concepção argentina e que nunca chegou à produção.

Embora não tivesse trabalho científico publicado, Richter passava por génio da física: os relatos que existem sobre a sua personalidade sugerem um homem calado e pensativo, capaz de dizer de súbito coisas espantosas, que entusiasmavam qualquer interlocutor. A sua ideia era produzir energia a partir da fonte inesgotável do hidrogénio, usando fusão nuclear, através de um processo teorizado por cientistas alemães, com base na concentração de ondas de choque e que, segundo pensavam erradamente estes teóricos, poderia ocorrer a temperaturas e pressões acessíveis à tecnologia existente. 

 

Provavelmente, foi desta forma que Richter convenceu o líder argentino e o seu núcleo restrito de militares, fazendo aprovar um projecto nuclear de onde estavam à partida excluídos os cientistas do próprio país, que teriam desacreditado facilmente os planos do austríaco, caso os pudessem ter estudado. A fusão nuclear necessitava de temperaturas e pressões elevadíssimas, que não podiam ser obtidas com a metodologia indicada, mas esta possibilidade coincidia com os planos de Perón, que procurava levar a Argentina por uma via alternativa aos dois lados da Guerra Fria. O general pretendia autonomia económica, criando uma sociedade com mais justiça social e amplo apoio popular.

Com este contexto, o projecto de Huemul foi envolvido numa atmosfera de conspiração e paranóia. Os contratempos eram atribuídos a sabotagem e o trabalho tornou-se progressivamente mais secreto e restrito, devido ao medo dos espiões. Talvez para ganhar tempo, Richter mandou desfazer o sarcófago de betão do reactor, para poder recolocar tubagens que considerou mal executadas. Os equipamentos eram caros e os custos não paravam de aumentar. Para os recursos do país, o projecto estava a ficar demasiado dispendioso.

Quando finalmente se realizou a primeira experiência, houve uma forte explosão que afectou a própria estrutura do reactor. Richter reclamou imediatamente ter atingido o objectivo e o próprio Perón fez um sensacional anúncio público, com repercussão mundial. Finalmente, concretizava-se o sonho da energia barata e virtualmente ilimitada.

Em 1951, ainda havia apenas três potências atómicas (EUA, URSS e Grã-Bretanha) e os próprios Estados Unidos estavam a dois anos de conseguir detonar a sua primeira bomba termonuclear. Aparentemente, a Argentina conseguira uma ruptura tecnológica que a colocava décadas à frente dos países mais poderosos do mundo.

Embora fosse notícia de primeira página, o anúncio da fusão termonuclear controlada foi recebido com cepticismo pela comunidade científica, incluindo pelos mais destacados cientistas argentinos. A experiência parecia ter falhas e, acima de tudo, não havia provas concludentes do resultado. O triunfalismo transformou-se em preocupação e o governo formou uma comissão científica independente para analisar o projecto.

Logo após a primeira inspecção, Richter caiu em desgraça. A sua reclamação não passava de uma fraude científica. As condições de temperatura eram milhões de graus inferiores às necessárias. Fora gasta uma fortuna e os militares livraram-se do embaraçoso cientista. Não se sabe por onde andou nos anos seguintes, havendo rumores de que passou pela Líbia. Tendo regressado à Argentina, Ronald Richter faleceu em 1991, praticamente esquecido.

 

Juan Perón, que estivera nos píncaros do poder, foi reeleito com facilidade, mas o projecto da fusão coincidiu com o início do seu declínio político. Evita estava debilitada por um cancro e morreria em 1952. O general era um político hábil, mas foi perdendo o controlo, sempre muito contestado pelos conservadores. Em 1955, seria derrubado, num golpe com episódios de grande violência. Perón escapou com dificuldade e passou os 18 anos seguintes no exílio, tendo regressado à Argentina em 1973, fazendo-se eleger para um terceiro mandato, que durou apenas dez meses. O general morreu na presidência, em 1974, e foi substituído pela mulher, Isabel, por sua vez derrubada dois anos mais tarde num novo golpe militar que deu origem a um período de terror, ‘a guerra suja’, durante a qual os militares tentaram decapitar os movimentos da esquerda peronista e comunista, fazendo mais de 30 mil vítimas.  O peronismo sobreviveu à ditadura militar e domina ainda hoje a política argentina, mantendo a sua forma populista, com elementos de socialismo e doutrina social católica.

Huemul deu origem a projectos de investigação séria, mas permanece como um símbolo das quimeras pseudo-científicas e um aviso para os perigos de confundir a política com os desejos mais profundos.

 

Passados 60 anos, o sonho da energia barata e abundante não desapareceu. No sul de França está em construção um protótipo de central de fusão termonuclear, o projecto ITER, que junta as maiores potências mundiais.

O objectivo é criar uma máquina complexa, usando ideias apenas testadas em escalas muito menores. No centro, está uma câmara (Tokamak) onde o combustível é aquecido a 150 milhões de graus centígrados, transformando-se em plasma, que não poderá tocar nas paredes da máquina. Para se ter um termo de comparação, as temperaturas atingidas por Richter, na sua experiência em Huemul, foram 1500 vezes inferiores. O ITER tem custo de 13 mil milhões de euros e visa provar a viabilidade desta tecnologia, que será então desenvolvida numa nova geração de centrais, capazes de multiplicar por dez a energia necessária para conseguir a fusão controlada. Se isto será possível, só saberemos na próxima década. 

  

 

   

 

Um insulto a Gengis Khan (episódio da História do Fracasso)


Luís Naves,

Na história universal do fracasso, o Xá da Corásmia permanece como um dos grandes exemplos trágicos de monarcas que, num único erro, perderam tudo o que tinham, neste caso um império que podia ter sido marcante e que, por um azar incrível, merece lugar eterno nos anais do esquecimento.

Hoje poucos sabem o que foi o Império Corásmio, mas na época em que Portugal se formou, esta era uma das forças políticas mais importantes da Ásia Central e talvez uma das mais promissoras em todo o mundo conhecido. Em 1218, foi ali que ocorreu um dos grandes ‘ses’ da História. E se Mohamed II não tivesse insultado o grande Gengis Khan? Quando se verificou este funesto episódio, o império tinha dois séculos de fértil existência e ocupava o actual Irão, parte do Afeganistão e do Cazaquistão e a totalidade do Uzbequistão e Turquemenistão. Era, pois, um território enorme para o seu tempo, governado por uma dinastia sunita de língua turca, que descendia de um antigo escravo. Tudo acabou muito depressa, como se fosse engolido pelas areias do deserto e pelo recuo do Mar Aral.

 

O último monarca da dinastia, Ala ad-Din Mohamed II, devia rondar os 50 anos quando cometeu o seu maior erro. Era um líder dominador, que fizera conquistas recentes, incluindo Samarcanda, onde uma revolta fora sufocada com 10 mil mortos, no que talvez seja exagero das crónicas da época. Esta famosa cidade centro-asiática, hoje no Uzbequistão, era já na altura tema de lendas. Há uma história muito antiga, provavelmente persa, sobre o encontro com a morte em Samarcanda: um homem poderoso tinha um escravo que, ao passear no mercado, viu a morte, que lhe fez um sinal significativo; assustado, contou ao seu amo e este ordenou-lhe que fugisse para Samarcanda, para longe, onde a morte não o encontraria. Dias depois, o amo encontrou-se com a morte no mercado e esta ficou surpreendida de o ver: ‘É estranho encontrar-te nesta cidade, pois tenho um encontro marcado com o teu escravo, amanhã, em Samarcanda’, disse a morte. A história tem várias versões, mas em todos os casos mantém-se o nome da cidade e a expressão encontro marcado.

Mas voltemos ao império Corásmio. No final do século XII, nas planícies da Mongólia, estava a formar-se uma nova entidade política resultante da união entre tribos guerreiras, um império agressivo especialmente interessado em expandir-se para a China. Segundo os historiadores modernos, o seu líder, Gengis Khan, não tinha ambições sobre o império Corásmio, mas Mohamed II não acreditou nas boas intenções desse perigoso vizinho, que na altura estava envolvido numa guerra contra os chineses.

Em 1218, uma caravana com 500 comerciantes, proveniente da Mongólia, foi interceptada por um governador corásmio, que acusava os seus membros de espionagem. Para tentar resolver o assunto a bem, Gengis Khan enviou três embaixadores a Mohamed II, com um pedido de livre comércio. Desconfiando de alguma armadilha, o Xá reagiu sem diplomacia e com violência. O muçulmano da delegação de embaixadores foi decapitado e aos dois mongóis cortaram o cabelo, o que constituía um insulto (há fontes que garantem a morte dos três embaixadores). Os comerciantes anteriormente detidos foram massacrados, embora o número de vítimas varie conforme as crónicas.

Um ponto é certo: o líder mongol viu neste episódio uma humilhação intolerável. Muito irritado, Gengis Khan reuniu um exército de 150 mil homens e invadiu o Império Corásmio, onde pela primeira vez usou tácticas de destruição sistemática. O enorme território foi conquistado em apenas 3 anos. As principais cidades foram aniquiladas, incluindo a capital, Urgench (ou Gurjandj, em persa), da qual restam vestígios no actual Turquemenistão. Em Samarcanda, após um cerco que culminou numa falsa retirada, foram mortos todos os habitantes que se tinham refugiado na mesquita e na cidadela. Os restantes terão sido poupados, o que não impediu a eliminação da elite local, que levou um século a recuperar deste golpe.

Ala ad-Din Mohamed II morreu em fuga, numa ilha do mar Cáspio (a imagem retrata o fim do Xá), e a poeira do seu império foi espalhada aos sete ventos. Quanto ao líder mongol, não se sabe até que ponto esta campanha inesperada mudou os seus planos de domínio, mas tudo indica que o azar da Pérsia foi a sorte da China. A sua intenção inicial seria apenas manter boas relações comerciais com o vizinho, mas após a campanha militar, Gengis controlava o vasto território da Ásia Central e as principais rotas da ligação entre Oriente e Ocidente, que assim ficaram interrompidas durante séculos.

Embora o império mongol tivesse o seu próprio padrão de conquista, destruição, união efémera e colapso, houve nesta parte do mundo um processo distinto daquele que ocorreu nas restantes civilizações. O historiador britânico John Darwin explica, em After Tamerlane, que o domínio das hordas nómadas “impediu no mundo islâmico aquilo que aconteceu na Europa: a consolidação gradual do território dos Estados cuja população foi submetida a um controlo feudal mais intenso”. Estes impérios efémeros durariam até ao século XV, após a morte de Timur, o Coxo, conhecido por Tamerlão, outro grande senhor de Samarcanda. Em resumo, este episódio teve enorme importância para o posterior triunfo do Ocidente e ajuda a explicar a fragmentação e fraqueza das nações muçulmanas, mesmo as contemporâneas.

 

A guerra do futebol (episódio da História do Fracasso)


Luís Naves,

Estava a ver um jogo entre o Equador e as Honduras quando me lembrei que este último país esteve envolvido num dos mais bizarros incidentes da História recente, conhecido por ‘Guerra das 100 Horas’ ou ‘Guerra do Futebol’. O conflito foi travado em Julho de 1969 e envolveu dois países vizinhos da América Central: El Salvador e Honduras. Nos combates e bombardeamentos, que duraram apenas quatro dias, morreram mais de 3 mil pessoas e tudo começou com um simples jogo de futebol entre selecções que procuravam classificar-se para o Campeonato do Mundo do ano seguinte.

Na origem do conflito esteve uma rivalidade regional que se alimentou de um problema económico profundo: as Honduras (dispondo de mais território) tinham na altura 350 mil imigrantes salvadorenhos, sobretudo na zona de fronteira, e estes camponeses estavam a ser maltratados pelo regime do general Lopez Arellano, que era sustentado por grandes proprietários agrícolas, entre estes a poderosa multinacional United Fruit Company, que possuía 10% do território hondurenho. 

A questão da emigração salvadorenha para as Honduras tornara-se um assunto muito emocional dos dois lados, para mais alimentado por histerias nacionalistas. A 8 de Junho de 1969, os dois países enfrentaram-se na ronda de qualificação para o Campeonato do Mundo que se realizaria no México. No primeiro jogo, em Tegucigalpa, as Honduras venceram por 1 a zero, mas houve violência contra cidadãos salvadorenhos. A resposta, a 15 de Junho, em San Salvador, envolveu grande brutalidade: os adeptos hondurenhos foram espancados em plena rua e os jogadores foram vítimas de ameaças físicas. No final do encontro, os jogadores da equipa diziam ter sido uma sorte a derrota por 3 a zero. Seguiu-se um jogo de desempate, em terreno neutro, na Cidade do México, e El Salvador venceu por 3 a 2, após prolongamento.

 

Entretanto, o futebol servira de pretexto para criar um clima de extrema tensão entre os dois governos. No próprio dia do terceiro jogo, a 26 de Junho, El Salvador cortou relações diplomáticas com as Honduras. Os dois vizinhos estavam a mobilizar soldados e a adquirir armas, sobretudo aviões americanos comprados no mercado privado, para contornar o embargo que existia à compra de armamentos. Os aviões utilizados eram da Segunda Guerra Mundial e bastante obsoletos, o que contribuiu para que não houvesse ainda mais vítimas.

El Salvador atacou as Honduras a 14 de Julho. O país mais pequeno dispunha de uma força militar numerosa e bem comandada. A invasão visou zonas montanhosas de fronteira, a norte do país invadido, e pretendia obter ganhos territoriais também no Golfo de Fonseca, partilhado pelos dois países.

Este golfo da Costa do Pacífico tem o nome de um arcebispo espanhol do século XVI, Rodriguez de Fonseca, que foi confessor de Isabel a Católica e famoso adversário de Cristóvão Colombo, além de ter sido o homem que financiou a expedição de Fernão de Magalhães. Fonseca tinha origem portuguesa e pertencia a uma família nobre que se refugiara em Castela por ter apoiado o lado vencido na batalha de Aljubarrota.

O Golfo de Fonseca e os territórios da fronteira foram ocupados facilmente pelos salvadorenhos logo nas primeiras horas da Guerra do futebol, mas seguiu-se a ressaca da falta de estratégia. Incapaz de usar a sua aviação demasiado primitiva, o exército salvadorenho começou a enfrentar o problema da falta de munições e de combustível, sobretudo após um eficaz ataque da aviação hondurenha a uma das suas bases.

Com os dois lados num impasse, a 18 de Julho de 1969 foi negociado o cessar-fogo, mas o tratado de paz só seria concluído em 1980.

 

As consequências do conflito foram terríveis. Do lado hondurenho houve mais de duas mil vítimas, sobretudo civis. Os salvadorenhos tiveram menos baixas, mas os efeitos a prazo foram bem mais pesados.

Os militares tinham ganho uma influência desmedida nos dois países. Honduras e El Salvador envolveram-se depois numa dispendiosa corrida aos armamentos. Centenas de milhares de imigrantes salvadorenhos foram expulsos das Honduras, na conclusão rápida  de um processo que começara anos antes. O regresso destes refugiados representou uma desestabilização económica irremediável para El Salvador. Quando se deu o choque petrolífero, em 1973, a subida dos preços aumentou o descontentamento, que se tornaria insustentável após fracassar uma tentativa de fazer a reforma agrária. Em 1977, um general de linha dura, Carlos Romero, venceu as eleições com apoio americano e uso extenso de fraude eleitoral. No dia 28 de Fevereiro desse ano, um protesto pacífico na capital foi reprimido pelo exército salvadorenho, com um balanço de 1500 mortos. A violência intensificou-se e dois anos depois, El Salvador mergulhou numa longa guerra civil na qual morreram mais de 75 mil pessoas.

Dizem que a bola é redonda e que o futebol tem certa lógica, mas este episódio sugere o contrário. A guerra talvez pudesse ter sido evitada, se El Salvador e Honduras não tivessem jogado a ronda de qualificação naquelas datas e num momento de grande tensão política. Ou talvez a luta não pudesse ser evitada e o futebol tenha sido apenas o rastilho que incendiou a pólvora. O pretexto de um jogo era demasiado útil para acender as brasas das paixões nacionais. A guerra foi usada cinicamente por políticos que nunca quiseram resolver uma questão que diplomatas medianos teriam solucionado com facilidade.