Na geografia da aventura, é por vezes difícil distinguir os heróis dos falhados e os patriotas dos traidores. Estas incertezas existem em muitas figuras do passado, talvez à excepção dos regicidas, que eram os criminosos mais detestados entre todos, mesmo em forma tentada, pouco importava, esses eram crimes demasiado graves. Matar ou tentar matar o rei mereceu sempre máxima violência na justiça estatal, de forma a que não houvesse rasto dos corpos dos assassinos ou sequer dos seus motivos.
Um dos mais importantes regicidas portugueses foi o esquecido escrivão Domingos Leite Pereira, executado em Lisboa em 1647, após tentar assassinar o rei D. João IV. O seu motivo parece ter sido banal (ciúmes), e estes seriam ainda por cima infundados, pelo que a história oficial carece de certa consistência ou teremos de avaliar o protagonista como homem pouco inteligente e muito manipulável.
Se resultasse, o atentado podia ter mudado a História do país: o rei teria morrido numa altura em que a independência de Portugal era periclitante. A conjura teve ramificações externas e o caso incluiu um pouco de tudo: sexo, espionagem, guerra e traição.
Em meados do século XVII, Portugal estava envolvido numa luta difícil pela sobrevivência como nação independente. A restauração, em 1640, tivera amplo apoio popular, mas a guerra da independência implicava o isolamento internacional e conflitos permanentes nas colónias e nas regiões da fronteira, as primeiras atacadas por holandeses e as segundas a serem alvo das rapinas dos exércitos Habsburgos estacionados na Extremadura espanhola.
Domingos Leite Pereira, natural de Guimarães, era uma personagem relativamente apagada do novo regime, com o ofício de escrivão do cível da coroa, mas apesar de tudo teria alguma influência social, pelo menos nos patamares inferiores. Participara na conspiração de 1640 e podia ter seguido uma vida pacata se não lhe constassem certos rumores sobre a infidelidade da sua esposa, alegadamente envolvida em paixões funestas com um padre, um tal Luís Álvares. O marido enganado associou-se a uma personagem sinistra (também presente nas violências de 1640), Manuel Roque da Cunha, e o padre foi apanhado numa emboscada e morto com requintes de malvadez.
Esta parte da crónica não aparece em todas as fontes. Os documentos da época (1) iniciam o relato colocando Leite Pereira já em Madrid, associado a Manuel Roque e sem qualquer referência às origens desta segunda personagem fundamental, que provavelmente era um facínora em fuga ou um agente português em Castela. O escrivão foi aliciado a trair o seu país quando se encontrava refugiado em Madrid. Há referências explícitas a “ministros de Castela”, mas historiadores mais recentes indicam que na origem do atentado estiveram conspiradores portugueses, nomeadamente o marquês de Porto Seguro e o conde de Figueiró (2) que, no exílio, combatiam a nova elite nacional.
Ao homicida tinham chegado rumores (talvez plantados) de que a sua mulher trocara como amante o falecido padre pelo próprio rei. No exílio em Madrid, Domingos Leite Pereira estava sem perspectivas de regressar a Lisboa e sobretudo sem dinheiro ou ocupação. Tudo o que dizia respeito a Portugal interessava aos espanhóis. A guerra assumira contornos de extrema crueldade, com as tropas de ambos os lados a cometerem excessos pouco habituais, os portugueses tratados como rebeldes, os castelhanos maltratados em retaliação.
Não há documentação que esclareça o que se passou em Madrid, embora seja pouco credível que a ideia de matar o rei português tenha surgido sem envolvimento das autoridades espanholas, pois o regicida obteve dinheiro e um salvo-conduto que lhe permitiu atravessar a zona militar. Domingos era impulsivo e vingativo, padecia de ciúmes loucos e tinha pouca confiança no cúmplice, a quem não disse qual era o objectivo do regresso a Portugal. Esta é a versão posterior de Manuel Roque: foi a Lisboa julgando que a intenção de Domingos era vingar a traição da mulher adúltera, Maria Luísa, conhecida por Traga Malhas, mas sem saber que o verdadeiro alvo seria o monarca.
Assim, no Verão de 1647, Domingos Leite dirigiu-se para Lisboa com Roque da Cunha, passando por Badajoz, trazendo consigo uma espingarda, munições e jarros de veneno para impregnar as balas. A sua missão clandestina era a de matar D. João IV. Em Lisboa, o regicida alugou três casas no caminho da procissão de Corpo de Deus e desfez paredes, para obter mais espaço no interior. As casas ficavam na paróquia de São Nicolau, em local estreito por onde passaria necessariamente a procissão, e numa delas o regicida fez um pequeno buraco para o exterior, onde cabia o cano de uma espingarda.
A procissão decorreu a 20 de Junho de 1647. O rei participou, mas o tiro nunca partiu. Na altura, D. João IV nem soube que tinha escapado ao abraço da morte. Sem disparar, o regicida fugiu e Roque tinha cavalos à espera. Seguiram os dois cúmplices para Espanha e ali, estranhamente, foi organizado novo atentado, embora sem plano fixo. Desta vez, Roque conheceu o objectivo, mas escondeu do amigo a sua oposição. Os dois cúmplices estavam já nesta altura à beira da ruptura, pois Domingos desconfiava da traição de Roque e a certo ponto teve mesmo uma atitude patética, agarrando-se às pernas do outro, implorando-lhe que não o denunciasse.
Este ponto da história oficial pode significar que Manuel Roque mentiu às autoridades. A alternativa é que o episódio seja verdadeiro, mostrando que na segunda expedição Domingos já estava em descontrolo emocional, mas isso também pode ser significativo, pois ninguém o teria mandado numa missão tão perigosa se estivesse num estado psicológico de pouca utilidade. O regresso a Portugal, em Julho, parece ser uma acção desesperada do próprio e não caucionada pelos conspiradores madrilenos. Enquanto Domingos ficou numa estalagem no Alentejo, o seu cúmplice foi a Lisboa arranjar uma casa. Em vez de desenvolver o plano, Roque denunciou Domingos Leite, foi falar com um magistrado e com um ministro, tendo de imediato sido enviados militares para prender o regicida.
Esta é uma parte misteriosa do episódio: o que levou Roque subitamente a trair? Patriotismo, medo? E qual o motivo de Domingos se esconder numa estalagem alentejana? E a pergunta fundamental: por que razão falhou o atentado de 20 de Junho?
No documento (3) baseado no interrogatório das testemunhas (as confissões eram geralmente obtidas sob tortura), o regicida explicou não ter conseguido disparar pois vira o rei envolto numa luz mística que brotava do céu, dando ao monarca uma extraordinária magnificência. Domingos admitiu que falhara por intervenção divina e o milagre era útil em benefício da causa nacional. Talvez ele estivesse a dizer o que os seus interrogadores queriam ouvir. Para efeito de propaganda, a narrativa miraculosa esclarecia todas as dúvidas e de forma demasiado conveniente, passados dois meses, ainda estavam na casa as provas do atentado: as balas, o veneno, o buraco na parede por onde devia passar o cano da espingarda. Ninguém entrara ali? O abandono não despertara qualquer interesse do proprietário?
A verdade será talvez um pouco mais prosaica do que a oficial. Nos autos afirma-se que o atirador se ajoelhou, pois nessa posição conseguia disparar melhor. As armas daquela época eram longas, imprecisas e pesadas, disparavam-se a partir da posição ajoelhada ou com um apoio que permitia ao soldado ficar de pé. Isto parece indicar que o buraco na parede estaria colocado num plano relativamente baixo em relação à rua onde passou a procissão, talvez a meio metro de altura.
Embora o autor do atentado tenha dito que viu o rei (não disparou devido à tal experiência mística), é possível que houvesse muitas pessoas à volta da procissão, a ver e a desfilar, sobretudo a impedir um ângulo de tiro. Pode especular-se que ocorreu um azar tão simples quanto este: alguém se encostou à parede da casa, para ver dali a procissão, de costas para o cano da espingarda, tapando completamente a visão do assassino. Um basbaque salvou a vida a D. João IV.
Contar a história desta forma não teria qualquer valor de propaganda e, por isso, até hoje permanece o mistério do atentado falhado.
Este caso foi suficientemente rocambolesco para interessar autores do século XIX, como Pinheiro Chagas e Camilo Castelo Branco. Este último escreveu um romance histórico, O Regicida, que teve uma continuação muito popular, A Filha do Regicida. Baseando-se na documentação disponível, inventando mais pormenores, o romancista fez uma interpretação livre, tornando credível a eventual resposta ao enigma do que impediu Domingos Leite de disparar contra o rei. Camilo resolveu o problema com um golpe de asa narrativo: o verdadeiro milagre fora o assassino ver a beleza das mulheres que rodeavam o monarca, o medo de falhar e de atingir uma donzela inocente.
Domingos Leite Pereira foi executado em Agosto de 1647. Deceparam-lhe as mãos, houve jorros de sangue e gritos de dor antes do enforcamento que lhe tirou a vida. O corpo foi transformado em cinzas. No local onde estavam as casas, nas Olarias, mandou a rainha construir um convento, para agradecer o milagre, mas o edifício não sobreviveu ao terramoto do século seguinte. Dizem que tudo isto aconteceu na actual Rua dos Fanqueiros e que havia ali um beco chamado Ponce de Leão, baptizado com o nome do navegador espanhol a quem foi atribuída a descoberta da fonte da juventude.
(1) Relaçam do Assassínio Intentado por Castella contra a magestade de el-rey D. João IV e impedido miraculosamente, Francisco Brandão, 1647,
ou ainda Duas sentenças proferidas no tempo da guerra da aclamação, primeira contra o aleivoso Domingos Leite Pereira, 1647
(2) Os Maus da História de Portugal, Ricardo Raimundo, a Esfera dos Livros, 2014. Neste ponto, o autor cita a Crónica Inédita de D. João IV, de António Coelho, 1942.
(3) Relaçam do Assassínio Intentado por Castela


Morreu de morte natural cruel, e danado, como diziam as Filipinas e, já antes, as Manuelinas!
Grande série esta. Vai dar livro. Segue em frente, Luís.
Já há livro. Aé dois. “O Regicida” e “A filha do Regicida”
Leu romance? Pois se leu deve saber, segundo o Camilo, q o potencial regicida não atirou no rei por causa das belas donzelas q o acompanhavam na procissão, mas pela visão q teve de uma: a sua filha Ângela.
Fica reposta a verdade camiliana.