Um traidor de alto nível (episódio da História do Fracasso)


Luís Naves,

 

Uma das mais extraordinárias histórias de espionagem ocorreu nos pacatos salões vienenses, em vésperas da Primeira Guerra Mundial. A personagem principal do drama, o coronel Alfred Redl, traiu o seu país durante uma década, foi desmascarado e pagou com a vida, mas o fracasso caiu inteiramente sobre o exército traído. É um mistério como este caso foi possível: por vezes, uma estranha teimosia impede as pessoas inteligentes de verem o óbvio.   

O escândalo rebentou em Maio de 1913, devido a uma notícia incómoda sobre o suicídio de um coronel do exército austro-húngaro, Alfred Redl. A informação, que incluía o picante de alusões veladas à homossexualidade da vítima e à sua eventual traição, fora obtida por um jornal regional na Boémia, embora o furo jornalístico fosse consequência de mero acaso: segundo a lenda, o jornalista que redigiu essa primeira notícia era dono de um clube de futebol onde jogava uma das testemunhas acidentais do suicídio do coronel, testemunha essa que foi ameaçada de despedimento se não contasse a história. Apesar de tudo, o jornal falhava no essencial, a verdadeira posição do militar, mas desencadeou o interesse da imprensa de Viena, que conseguiu ligar os fios, lançando um escândalo político de enormes proporções, que enlameava os altos escalões militares austríacos e a própria monarquia.

A razão era simples: até ao ano anterior ao obituário, o coronel Redl tinha sido chefe dos serviços de informação militares austro-húngaros, sendo o responsável máximo pela contra-espionagem, ou seja, pela detecção de eventuais agentes inimigos nas fileiras, além de ter acesso ao conhecimento de redes de espionagem no exterior e planos militares do Estado-maior. Aliás, Redl chefiara a investigação sobre a existência de uma possível toupeira de alto nível, que se verificou ser ele próprio.

  

Anos antes, uma fonte diplomática inglesa em Sampetersburgo garantira ao embaixador austríaco que a Rússia mantinha em Viena um espião com acesso aos maiores segredos militares. Redl concluíra que a informação dos ingleses era falsa e mandou arquivar o caso, mas  a informação era verdadeira, os serviços secretos do Czar, Okhrana, tinham um agente activo, o chefe da espionagem militar austríaca, Alfred Redl. Julga-se que o recrutamento terá ocorrido em 1903, numa altura em que o traidor começou a ostentar sinais de riqueza incompatíveis com a sua patente e que, na época da captura, já incluíam um automóvel e cavalos dispendiosos.

Considerando a natureza meteórica da sua carreira, Redl tinha origem social relativamente modesta. O pai fora oficial do exército, mas forçado a abandonar a sua comissão, embora obtendo uma função civil ao serviço do império, em Lemberg, na Galícia (Lvov, na actual Ucrânia). Dessa forma, enquanto jovem ambicioso, Redl cresceu num ambiente provinciano onde coabitavam várias comunidades (polacos, judeus, alemães e rutenos) e falava fluentemente polaco, tendo mais tarde dominado o russo. O domínio de línguas eslavas deu forte impulso à sua ascensão, feita em ambientes frequentados por generais com influência política.

Em segredo, o coronel Redl era homossexual, o que em caso de exposição seria considerado crime, implicando a desgraça. Este era também o seu ponto mais fraco e os russos descobriram a vulnerabilidade que escapara aos austríacos. O resto foi simples questão de preço.  

 

Mas voltemos à informação diplomática sobre a toupeira de alto nível. O chefe dos espiões austríacos julgou que tinha arquivado o caso, mas isso não acontecera totalmente. A primeira reacção dos líderes militares foi de pura perplexidade. Era impossível tal traição, mas a fonte inglesa garantia que os russos tinham conhecimento detalhado dos planos militares para invadir a Sérvia e essa alegação continha detalhes que a tornavam demasiado credível. Houve um pequeno pânico e foi lançada pelo governo uma investigação policial paralela à militar, para procurar o espião que se infiltrara nos quadros do exército. Entretanto, Redl deixara a chefia da contra-espionagem, sem que houvesse desconfiança em relação aos seus sinais exteriores de riqueza. O coronel era um homem doente, atingido por uma infecção de sífilis, nesse tempo sem cura. 

A polícia centrou o inquérito na correspondência internacional enviada por posta-restante, ou seja, entregue ao destinatário na própria estação de correios. Foi um trabalho de paciência, que acabou por compensar. A certo ponto, nos correios de Viena, foi interceptada uma carta suspeita, proveniente da fronteira russa e que, aberta em segredo, se verificou conter dinheiro para um destinatário de nome desconhecido.

A polícia admitiu que se tratava do pagamento ao traidor e ficou à espera que alguém reclamasse a carta. Isso aconteceu num dia e hora em que, por azar, o polícia de serviço saíra para comer uma bucha matinal. O homem que levantou a carta saiu dos correios à pressa, num fiacre, e foi nesse ponto que a polícia voltou a ter sorte.

Em Viena, os fiacres eram limpos em cada estação de paragem e o empregado que fazia o serviço junto ao edifício dos correios tivera o cuidado de anotar o número da viatura que acabara de sair. Seguiu-se a perseguição. No final, os agentes interrogaram o condutor e conseguiram a descrição do passageiro e o destino final. O espião cometera outro erro, deixando no fiacre uma faca de abrir cartas.

Em resumo, o suspeito dirigira-se para um hotel, onde foi rapidamente identificado. Era o coronel Alfred Redl, ex-chefe da contra-espionagem militar austríaca. Um dos agentes abordou o militar, mostrando-lhe a faca: “O senhor esqueceu-se de alguma coisa”, disse. O traidor podia ter negado, mas rendeu-se.

 

Quando foi apanhado, Redl tinha 49 anos. Os relatórios russos sobre ele eram ingratos, diziam que se tratava de um “cínico”, que apenas queria dinheiro. O traidor vivia no luxo e, portanto, devia ter sido detectado anos antes. É estranho que os austríacos nunca tivessem investigado a vida do seu chefe da espionagem, em busca de fraquezas tão óbvias como preferências sexuais. E de onde viera a riqueza para comprar um automóvel? Parece incrível que ninguém tivesse questionado a vida luxuosa, os cavalos.

Os erros são ainda mais extraordinários após a captura. Em vez de interrogarem o coronel para saberem a extensão dos estragos ou para o usarem como agente duplo, as autoridades militares (que entretanto se tinham apoderado da investigação) deram ao traidor a possibilidade de suicídio. Redl foi colocado dentro de um quarto do hotel e recebeu uma pistola com uma bala na câmara. Passadas algumas horas, os guardas que estavam no exterior ouviram o tiro. A causa da morte era evidente, uma bala na cabeça, mas a autópsia revelou que a sífilis entrara em fase adiantada, já a afectar o cérebro. O espião durara mais de dez anos e, se daquela vez tivesse escapado aos polícias, morreria da doença daí a alguns meses.

A imprensa debateu com escândalo as inconsistências deste caso sensacional, mas ninguém desconfiou da extensão dos estragos. No ano seguinte, sem o saber, a Áustria embarcou numa guerra perdida. O conhecimento dos planos de invasão da vizinha Sérvia permitiram que este pequeno país se preparasse e em 1914 os austríacos sofreram pesadas baixas contra um adversário muito inferior.

Mas o pior efeito foi o de tornar vulneráveis as fortificações na fronteira oriental do império. Ainda hoje são relativamente inexplicáveis as estrondosas derrotas sofridas pelos austríacos nos primeiros meses do conflito. O conhecimento russo da disposição de forças, pontos fracos e planos tácticos pode ter sido decisivo nestes combates.

Os russos também sabiam os nomes dos agentes que trabalhavam para os austríacos, todos ele presos, fuzilados ou forçados a jogo duplo. Por outro lado, Viena possuía informação errada sobre o verdadeiro poderio do exército russo, que era mais forte do que pensava o Estado-maior austríaco. Isso conduziu a uma má avaliação do adversário e à decisão catastrófica de avançar para a guerra em 1914, usando o pretexto do assassinato do arquiduque Francisco Fernando em Sarajevo.

Se Alfred Redl tivesse sido interrogado, os austríacos teriam compreendido os terríveis riscos que corriam. Não se apercebendo que os seus planos estavam comprometidos, não precisavam de tempo para os alterar. Se Redl falasse, a guerra não teria talvez começado em 1914, embora tudo isso seja especulativo, pois nunca saberemos as motivações escondidas neste caso de traição, que envolveu dinheiro, incompetência, sorte, azar, sabe-se lá mais o quê, pequenos detalhes com grandes consequências.

 

 

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