A Mortandade da Grande Paz (episódio da História do Fracasso)


Luís Naves,

 

Em todos os grandes países houve revoltas populares famosas, mas nenhuma se compara a um movimento que abalou a China entre 1850 e 1864, provocando a morte a mais de 20 milhões de pessoas e, segundo autores de referência, talvez a 30 milhões. A ser correcta esta estimativa, o número de vítimas terá superado o da Primeira Guerra Mundial. É um valor espantoso e difícil de imaginar. Conhecida por Taiping Tianguo, que significa ‘Reino Celeste da Grande Paz’, esta revolta começou no sul da China e foi uma resposta à profunda humilhação que o país (e a dinastia Qing, de origem manchu) tinha sofrido às mãos dos europeus, a começar pelos ingleses, na chamada Guerra do Ópio, entre 1839 e 1842.

Usando em combate um navio a vapor com rodas de pá, os britânicos devastaram com facilidade as fortalezas do Rio das Pérolas e destruíram a frota chinesa em Cantão. O conflito foi desigual, a ponto da China ainda hoje não ter digerido a derrota. Aliás, pode argumentar-se que a civilização chinesa sofreu uma humilhação e esteve perto do colapso. O desequilíbrio de forças tem uma explicação certamente complexa, onde cabe a incompetência do poder imperial, o azar e a inovação, mas o facto é que os ingleses actuaram com uma brutalidade que mesmo então era difícil de aceitar. Hoje, as razões da guerra seriam totalmente incompreensíveis, pois tratava-se de obrigar a China a importar ópio, droga cujo consumo sem restrições afectava a saúde de muitos chineses.

A tese das diferenças tecnológicas entre as duas forças não convence todos os autores. Segundo John Keay (1) “em canhões e navios, o fosso tecnológico não era assim tão grande”, a diferença maior esteve no que a “China pré-industrial e a Europa pós-industrial fizeram com essa tecnologia e a confiança com que foi manuseada”. Os dirigentes militares Qing tentaram um único contra-ataque naval, que se transformou num desastre: em poucos dias, foram destruídos 71 juncos e a baixa de Cantão foi arrasada. No tratado que se seguiu, os ingleses obtiveram o direito de erguer um porto em Hong Kong.

 

No início da guerra, na cidade de Sanyuanli, ocorrera um confronto entre tropas indo-britânicas e milícias de uma resistência chinesa espontânea. Esta batalha deu origem a um relato mítico que empolgou a opinião pública chinesa da época, tornando-se a inspiração de rebeliões populares. O sentimento anti-manchu na sociedade misturou-se com o sentimento de xenofobia e com o abalo profundo que provocava a evidente fraqueza do país. Tudo isto criou um caldo de cultura feito de pessimismo e revolta, alimentado por uma poderosa desconfiança em relação às autoridades. Foi esta a origem, nos anos 50 e 60, de vários protestos contra o regime imperial, cada um deles a provocar milhões de mortos, não necessariamente em combates, mas em fome provocada, colheitas perdidas, epidemias, convulsões e banditismo em larga escala. A lista inclui os denominados ‘Turbantes Vermelhos’, que defendiam a restauração Ming, insurreições separatistas muçulmanas (uma das quais terá provocado 10 milhões de mortos) e revoltas camponesas conhecidas por Nian. No meio, houve a calamidade das inundações do Rio Amarelo, em 1855, e motins organizados pelas tríades.

 

Nada disto se compara às desgraças provocadas pelo movimento taiping. A rebelião da Grande Paz surgiu num contexto que não existiria sem a Guerra do Ópio e é considerada uma consequência da intervenção dos ingleses, que abriu caminho ao comércio desigual mas também à evangelização cristã em larga escala. Foi por esta altura que as ideias bíblicas começaram a circular entre os chineses comuns, chegando a um obscuro candidato a burocrata, Hong Xiuquan, que nascera em 1814 e cuja juventude coincidiu com estes tempos de choque entre civilizações. Hong tentou por quatro vezes concluir o exame oficial da burocracia imperial (onde só passava um em cada vinte candidatos) e na derradeira tentativa estudou textos cristãos que o impressionaram e que tinham sido traduzidos em Singapura por uma organização evangélica inglesa.

Os protestantes europeus e americanos estavam por esta altura a usar uma nova estratégia de evangelização da China: dois séculos antes, os padres jesuítas (entre eles muitos portugueses) procuraram convencer as elites instruídas; em meados do século XIX, quando a China foi forçada a abrir as sua portas a uma vaga de missionários, a mensagem começou a chegar à população mais pobre de forma directa e através de resumos e textos simplificados.

O jovem Hong foi uma das pessoas expostas a estas ideias cristãs, mas só mais tarde teve a sua epifania. Ele pertencia à minoria Hakka do sul da China e, após fracassar no ingresso na burocracia imperial, tornou-se professor numa localidade sem importância. Foi ali que teve as primeiras alucinações e estas convenceram-no de que era irmão de Cristo e filho de Deus. Após converter um núcleo inicial de seguidores, valendo-se de forte carisma, Hong expandiu rapidamente o seu domínio. A partir de inícios tímidos na província de Guangdong, a rebelião Taiping iniciou uma ‘cruzada’ que durou dois anos, entre 1851 e 1853, cuja inspiração era a resistência espontânea de Sanyuanli. Embora tivesse conhecimento rudimentar do cristianismo, Hong nunca foi baptizado e a sua seita não era exactamente cristã, mas um movimento político que pretendia libertar a China da ocupação estrangeira (sobretudo dos manchus), destruindo os velhos ídolos do budismo e confucionismo. Curiosamente, nessa destruição, os revoltosos nunca pouparam as imagens católicas que tanto tinham impressionado o líder.

 

Não é fácil descrever o que aconteceu, pois esta história foi sobretudo contada pelos vencedores. A rebelião transformou-se numa espécie de ‘guerra santa’ ou ‘Longa Marcha’. Esta expressão remete para o que aconteceria 80 anos mais tarde com os comunistas chineses, que retiraram inspiração dos taiping. Mao Tsé-Tung era admirador do movimento da Grande Paz e a sua estratégia terá sido influenciada pelos erros e pelas iniciativas de um grupo que os comunistas consideravam precursor da sua própria ideologia. As diferenças entre os taiping e os comunistas são evidentes, mas há curiosas semelhanças: a propriedade era colectiva e também se verificou a apropriação dos bens comuns por uma elite; existia igualdade entre homens e mulheres, pelo menos teórica, associada a um puritanismo sexual muito disciplinado.

Tal como os comunistas chineses, os taiping quase foram eliminados no início da rebelião, em 1850. Os avanços militares iniciais dos insurrectos foram lentos e só em 1853 tiveram uma enorme vitória, ao conquistarem Nanquim, onde instalaram a sua capital. Diferentes exércitos do ‘Reino Celeste da Grande Paz’ continuaram a avançar para norte e uma destas forças chegou a estar próxima de Pequim, mas houve hesitações fatais e divisões internas, que a liderança resolveu com banhos de sangue. Os taiping tinham milhões de membros, eram fanáticos e procediam a massacres nas cidades que capturavam, não poupando ninguém de etnia manchu. Usavam cabelos longos e eram extremamente disciplinados. As suas tropas incluíam mulheres combatentes e havia uma suposta igualdade entre classes sociais, embora a liderança (reis e vice-reis) vivesse num luxo que incluía concubinas e outras amenidades.

Inicialmente, os ocidentais tiveram uma atitude ambígua em relação aos rebeldes (2): alguns missionários acreditavam estar perante um grupo cristão, mas na realidade tratava-se de uma teocracia intolerante, que apenas usava certos elementos superficiais do cristianismo. Ignorantes e supersticiosos, os rebeldes rompiam com os símbolos do passado e procuravam destruir o conhecimento antigo. As bibliotecas foram incineradas tão depressa como os templos. A maré revolucionária virou em 1861, após nova guerra desigual contra as potências ocidentais e a morte prematura do imperador Xianfeng, dando origem a um novo regime, sob a imperatriz Cixi, figura anacrónica que sempre fascinou os europeus e que os historiadores ainda hoje discutem apaixonadamente.

 

Perante as ameaças internas e para consolidar o seu poder, Cixi fez grandes concessões aos invasores ocidentais, através de novos tratados que beneficiavam largamente a posição de ingleses, franceses, russos, japoneses ou americanos, entre outros. Para poderem explorar as vantagens conquistadas, as potências apoiaram a formação de exércitos imperiais capazes de esmagar a revolta taiping, sendo uma destas forças comandada por uma personagem que já encontrámos noutro episódio, Charles Gordon. Em 1862, quando os taiping tentaram conquistar Xangai, ocorreu um fenómeno raríssimo na região: nevou durante 58 horas e o seu exército não conseguiu mover-se (3). O que se seguiu foi uma série muito rápida de massacres colossais. As cidades tomadas pelas forças chinesas enchiam-se de corpos decapitados e não havia prisioneiros entre os rebeldes, antes rios de sangue.

Hong morreu um mês antes da tomada de Nanquim, em 1864, evento que se transformou num morticínio de proporções épicas. Na cidade cercada não havia comida e o profeta prometeu que cairia maná do céu, mas para espanto dos seguidores não houve milagre. Acredita-se que o profeta, desesperado pela fome, tenha morrido após comer ervas venenosas. Aos crentes foi dito que Hong morrera por causas sobrenaturais. Sem liderança e sem rumo, a rebelião foi sufocada. Onde quer que houvesse fugitivos, seguia-se uma perseguição até à morte. Os taiping sobreviventes foram caçados até ao último e os registos da sua existência foram incinerados. No meio do tumulto, os camponeses sofreram com a fome e ocorreram novas inundações catastróficas, pois durante anos os diques tinham sido negligenciados. A China demorou décadas, talvez um século, a despertar totalmente deste pesadelo cruel, cuja memória se foi transformando numa nuvem parecida com as divagações do ópio.

 

(1) China, a History, John Keay, 2008

(2) idem

(3) History of Modern China, Jonathan Fenby, 2009

 

3 comentários em “A Mortandade da Grande Paz (episódio da História do Fracasso)”

  1. Significa isto, Luís, que a China dos novos imperadores, consciente dessas vicissitudes históricas, não abrirá mãos para a ocorrência de novas catástrofes. Antes, preveni-las-á com mão de ferro.

    Parece-me que Hong Kong servirá de exemplo.

  2. Caro Luís Naves
    Para quem se interessa pela história da humanidade (a história “preversa”…) talvez tenha interesse ler Oliver Thomson – “A History of Sin”.
    Abraço
    Jose Julio

  3. Grande “fracasso” terá sido esse acontecimento ter motivado uma série de artigos de Marx e Engels no New York Daily Tribune:
    http://www.marxists.org/archive/marx/works/1853/china/
    … e assim estar na génese de ideais marxistas, socialistas e comunistas.

    Este “fracasso” não deixou de formar raiz para nova revolta Boxer, igualmente esmagada com a invasão de Pequim por uma coligação de potências ocidentais.
    Esse facto, omitido no texto, é importante para entender a persistência ocidental em subjugar a China, ora pelo comércio, ora pelo tráfico de drogas, ora pela força.

    Estes “fracassos”, como bem se refere no texto, deixaram raízes no movimento maoísta da Longa Marcha, e acabaram por levar à conquista do poder completo na China, dos que se reclamaram herdeiros do movimento de revolta das populações.

    Uma visão míope deste acontecimento particular pode vê-lo como fracasso, mas é pena que à custa do objectivo do tema – compilar pseudo-fracassos, não se enfatize que no cômputo geral, os aparentes fracassos não foram fracassados se daí germinaram movimentos que se implantaram.
    Seria como ver fracassados os esforços dos mártires cristãos às mãos romanas, sem notar que o cristianismo cresceu em nome desses mártires.

    Estes seus textos são um completo sucesso, como são aliás quaisquer outros textos de qualquer pessoa, desde que disponibilize a crítica ao seu trabalho.
    Se o texto é criticado, essa crítica cola-se ao texto, e o que está mal ou menos bem, fica assim corrigido. Por outro lado, se os textos não forem criticados, fica isento de críticas, e pode ver sucesso em não ser refutado.

    Entendi que prefere a ausência de críticas, e que ignora assuntos importantes propositadamente – como deixou claro no último texto, sobre António Galvão.
    Portanto, se prefere ignorar o que não lhe interessa, estes textos aparecem como um servicinho interessado.

    Doravante deixo-o então com o sucesso de ficar imune a observações críticas – às minhas, pelo menos. É algo que até agradeço, porque dá algum trabalho contribuir com um comentário informado.
    Passe bem.

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