Constantinopla, hoje Istambul, era uma cidade esplendorosa e imensamente rica para os padrões do século VI. A capital do Império Bizantino sobrevivera por milagre às invasões bárbaras, que tinham transformado o ocidente da Europa numa zona de devastação. No tempo do imperador Justiniano, Constantinopla fez a derradeira tentativa militar, pelo menos a última considerada séria, para recuperar a metade perdida do velho império romano. As expedições foram lideradas por um general notável, Belisário, mas a maré que arrastava para o fundo era demasiado forte e todos estes esforços deram em pouco. Bizâncio viria a controlar a Itália ainda durante um curto período, mas já não escondia a sua própria fraqueza.
A queda da civilização romana teve motivos complexos, por exemplo, a natureza violenta da época e a fragilidade dos regimes imperiais, elementos que saltam à vista num incidente que ocorreu no início do reinado de Justiniano e ao qual o imperador sobreviveu com dificuldade. Conhecido por revolta de Nika, este episódio de histeria teve vários protagonistas, incluindo o general Belisário e a imperatriz Teodora. A revolta terminou em banho de sangue e mostrou os efeitos da febre do desporto, neste caso, também dos malefícios do excesso de rivalidade entre duas claques: verdes e azuis.
No Império Bizantino havia uma paixão louca por corridas de cavalos, geralmente quadrigas (carroças de quatro cavalos) associadas a equipas apoiadas por claques que usavam bandeiras de uma determinada cor. As divisões sociais reflectiam-se nos grupos que assistiam às corridas e que ocupavam secções específicas do hipódromo. Originalmente, havia quatro cores, mas no início do século VI os vermelhos e os brancos tinham sido absorvidos pelos verdes e azuis, que se transformaram gradualmente em facções políticas, vagamente ligadas ao povo (verdes) e aos aristocratas (azuis), embora isso não seja assim tão linear. As claques (ou facções) tinham lideranças informais, influência social e estavam frequentemente envolvidas em episódios de violência, a propósito de muitos temas diferentes, incluindo questões teológicas que incluíam ramificações políticas. Verdes e azuis disputavam os favores do imperador, a quem era exigida uma espécie de neutralidade que pairava acima das tradicionais rivalidades.
O descontentamento deste período tinha origem sobretudo no nível elevado dos impostos, consequência do custo de guerras prolongadas com a Pérsia mas também da perda mais recente de receitas do comércio, evidente consequência das invasões bárbaras. Na altura, havia um surto de inflação que penalizava as classes sociais mais baixas, bem como escassez de produtos alimentares. Justiniano, que sucedera ao seu tio Justino, tinha cinco anos no cargo e ainda não consolidara o poder. O regime não era popular, pois a repressão de heresias fora especialmente dura no reinado anterior.
Neste contexto, as claques odiavam-se e havia lutas cada vez mais violentas, que o imperador decidiu limitar, após ocorrerem perturbações de invulgar intensidade. Foram assim condenados à morte membros das claques azul e verde, mas alguns condenados fintaram a execução refugiando-se numa igreja. A opinião pública seguiu o caso com emoção, exigindo a absolvição incondicional dos fugitivos, algo que o imperador não estava disposto a conceder. A 13 de Janeiro de 532, a corda partiu-se e o conflito entrou numa fase mais perigosa, quando as claques se uniram para contestar o próprio imperador. Nesse dia, no momento em que Justiniano entrou no hipódromo e ocupou o seu lugar para assistir às corridas, verdes e azuis juntaram-se num grito único, “Nika, Nika”, palavra que em grego significa ‘vitória’. Terá sido espontâneo ou organizado? Não se sabe.
Justiniano saiu apressadamente do hipódromo e a multidão lançou-se numa orgia de destruição. Durante cinco dias, Constantinopla mergulhou no caos e os incêndios fora de controlo ateados pelos rebeldes arrasaram muitos edifícios do centro. As elites refugiaram-se no palácio, mesmo ao lado do hipódromo, mas o imperador temia uma conspiração do senado e ponderou abandonar o poder e fugir de barco para um local mais seguro. O tumulto estava tão próximo dele, que deve ter parecido um acontecimento tremendo, mas no momento crucial o imperador foi travado pela sua mulher, Teodora, uma personagem extraordinária para a época, tendo em conta o facto das mulheres terem um papel político menor no Império Bizantino e a origem humilde, até indecente, da imperatriz. Teodora tinha sido actriz (profissão indecorosa) e, segundo algumas crónicas do tempo, na juventude chegou a trabalhar num bordel. Sobreviveram vários relatos sobre ela, ora mostrando uma mulher influente e poderosa, ora uma figura implacável. Na sua velhice, Justiniano tinha um enorme respeito pela memória da mulher. No motim de Nika, a estratégia de repressão parece ter sido concebida pela própria imperatriz, que tomou a palavra num conselho de emergência e convenceu o marido a lutar, usando o argumento de que a abdicação do imperador era impossível. Nesta intervenção decisiva, é atribuída a Teodora uma frase lendária onde alude à cor do manto imperial: “Púrpura é a mortalha mais nobre”.
A revolta de Nika falhou porque o imperador conseguiu explorar as contradições dos amotinados, dividindo as claques inimigas enquanto elas ocupavam as bancadas do hipódromo, pois o motim consistiu também na ocupação de um espaço emblemático. Enquanto ganhava força, Justiniano expulsou do palácio todos aqueles que podiam ameaçar o seu poder, incluindo dezenas de senadores e o sobrinho do antigo imperador Anastásio, o ex-cônsul Hipácio, que era um dos mais ilustres membros dos verdes. Hipácio foi forçado a regressar à sua casa, onde um grupo de amotinados o procurou, levando-o para o hipódromo. Foi ali proclamado imperador, durante uma assembleia popular onde não teve qualquer escolha, apesar de surgir em alguns relatos deste caso como estando na origem da revolta.
No seu contragolpe, o imperador agiu com extrema cautela e aproveitou a inconsequência dos amotinados. Após negociações que duraram dias, fazendo promessas que não tinha intenção de honrar, Justiniano foi dividindo as hostes dos rebeldes, comprando a lealdade de alguns azuis proeminentes. O imperador reclamou-se até adepto da claque azul, lembrando igualmente que o usurpador Hipácio era um destacado membro dos verdes. Usando um eunuco da sua confiança, que conseguia entrar e sair do recinto, Justiniano subornou um número suficiente de amotinados, depois preparou um ataque militar e aguardou: ao fim de cinco dias de motim, a multidão estava cansada e foi neste momento que os azuis, manipulados pelos adeptos que tinham sido comprados, abandonaram ostensivamente o hipódromo, deixando os verdes entregues à sua sorte. Foi o momento escolhido para os militares sufocarem a rebelião. O hipódromo foi invadido por uma força de elite de mercenários godos sem simpatias entre os amotinados. Os soldados, comandados por Belisário, entraram no recinto e não deram quartel.
Os verdes não tinham hipótese contra tropas profissionais. Ainda esboçaram ténue resistência, mas foram massacrados. Segundo Procópio, morreram mais de 30 mil pessoas nesse dia em Constantinopla, incluindo o usurpador Hipácio. Talvez 30 mil seja um número exagerado, mas é provável que tenha havido milhares de vítimas. Segundo narra o historiador bizantino, muitos amotinados morreram esmagados, na fuga em pânico, quando tentavam escapar por uma porta estreita. O massacre criou ódios que levaram tempo a sarar, mas também teve consequências no futuro do império, pois muitas das vítimas eram comerciantes e o seu desaparecimento enfraqueceu a economia. O poder passou a desconfiar destes eventos desportivos, que a igreja já condenava e que foram passando de moda. O fanatismo nas corridas perdeu-se definitivamente e o próprio império bizantino entrou num longo ocaso, que iria durar séculos, mantendo acesa a chama da civilização, mas em equilíbrio precário, alternando o declínio com momentos de breve esperança que as circunstâncias do mundo iam desmentindo.


É por isso que eu sou encarnado.
De resto excelente crónica. Muito interessante.
Excelente, Luís, muito interessante.
Conheci este episódio dos verdes e dos azuis há uns cinquenta anos. Depois esqueci. Quando o quis recordar, tive dificuldade em encontrar informação. Obrigado por o ter aqui colocado, assim pude recordar os pormenores e já tenho história para contar.