Curioso é que em qualquer noticiário televisivo só se ouve falar dos que passam mal, dos que “gozam” férias em casa ou não as têm, dos que só compram carne da mais barata, daqueles cuja criançada vai para a escola com a barriga a dar horas, ou dos que abandonam idosos nos hospitais, etc, etc.
De raspão, sabemos que “grandes vedetas” televisivas ou do futebol ou meramente das revistas cor-de-rosa viajam volta e meia para lugares exóticos, deram uma festa de arromba com centenas de convidados, etc…
Eu confesso que não fazia a menor ideia e abri a boca de espanto com estes dados estatísticos, manchete na edição de hoje do JN. O consumismo está de volta – e em larga escala. Resta ver até que ponto isto constitui de facto um bom indício.
Não me surpreende nada. Os portugueses, em geral, são muito atreitos aos “gadgets” e novas tecnologias. Mesmo alguns daqueles que passam dificuldades, alguns que se queixam à minha frente. Eu que hoje estou “bem”, mas que já passei por dificuldades, supostamente quando isto era tudo muito bom e não havia cá pobreza, ainda não tenho, nem penso vir até este ano. Sou atípicamente português nalguns sentidos.
Também é verdade que quando se fala de smartphones pensamos em brinquedos que podem custar meia dúzia de centenas de euros, mas há-os muito mais baratuchos…
Não será impossível, creio, ter um smartphone e estar económica e financeiramente mal. Entre o pagamento em prestações e os descontos por pontos acumulados, as operadoras encarregam-se de tornar a coisa suportável. Não falo, claro, de quem esteja na indigência, mas acima do limite da pobreza que dói de facto no estômago, não é impossível – nem será sem mais e automaticamente censurável – ter um smartphone .
É possível não ter – ter deixado de ter, não saber quando (ou se) se voltará a ter – as centenas ou milhares de euros mensais necessários para honrar os compromissos noutro tempo assumidos por conta da casa ou do carro, e dispor todavia das poucas dezenas mensais para ir pagando o smartphone . Poucas dezenas que, perante o pesadelo dessas dívidas, que se calhar já levaram à perda da casa ou do carro (permanecendo as suas dívidas, claro), seriam gotas lançadas inutilmente num gigantesco fogo que se sabe nunca se poder extinguir. Pura e simplesmente não fariam diferença alguma na dimensão da desgraça e o telefonezito dito inteligente sempre devolve alguma ilusão de estatuto, de poder, de modernidade. Dá para ir ao facebook escrever umas coisas aos “amigos”. Para esquecer a realidade.
Dir-se-á que a honra que o falido deveria saber guardar o deveria inibir dessas opções. Mas passou há muito o tempo em que o falido vestia luto enquanto durasse essa condição, tanto dos falidos o são hoje por culpa de quem por aí anda impune e ufano, no poder ou com fundadas razões para crer que lá voltará, e são tantos os falidos (ou insolventes), tão vulgar é essa circunstância, que terá deixado de ter, para as mentes mais leves, um tão pesado significado. Se os tempos condenam as pessoas à condição largamente generalizada de incumpridoras, as pessoas habituam-se e nessa condição refazem como podem as suas vidas. Mera legítima defesa.
Não sei se será de facto uma luz ao fundo do túnel (a não ser na medida em que permita a esperança de que a miséria absoluta e generalizada não estará exactamente ao virar da esquina), se um sinal da resistência das pessoas que, contra tudo e quem nos pastoreia – e que naturalmente saca o generoso impostozinho sobre esses telefones – cerram os dentes e tentam ainda levar uma vida normal. E um smartphone , num país dito do primeiro mundo (tento não rir), será um acessório banal, numa vida normal.
Posto isto ver, como ainda ontem, dezenas de smartphones ligados e gente “agarrada” a eles durante uma sessão de cinema, assusta. Mas a questão não é aí de economia.
É precisamente por a culpa ser sempre dos outros e os próprios terem sempre justificações para tudo, como transparece do seu comentário, que nunca saímos ou sairemos desta apagada e vil tristeza.
E nunca saíremos porque este não é um problema com 3 anos (deste Governo), com 10 anos (do Governo anterior),com 40 anos (do 25A) ou com 90 anos (do Estado Novo) ou do que seja que os antecedeu.
É um problema do “modo de estar na vida e no mundo”, como a nossa História nos ensina e todos os que tiveram e ainda têm uma vida rica de experiências bem sabem.
A sua frase “… num país dito do primeiro mundo (tento não rir)…” nem classifico, para mim é uma ofensa a todos que continuam a tentar fazer disto tudo um sítio onde se pode e se possa viver.
A sua única desculpa será, de facto, não conhecer mais nenhum país (como turista não conta, turista português acha tudo lindo a partir de Badajoz)…
Antes de mais permita-me notar que só não o incito a desabafar amiúde por aqui porque, bem vê, sou neste blogue um mero leitor assíduo e ocasional comentador. E “comentador”, entenda, porque se chama “comentário” ao que por aqui você e eu escrevemos; não porque eu seja especialista no que quer que seja que me confira a autoridade de comentador. Não tenho por isso legitimidade para encorajar aqui os seus desabafos. Mas se o que acima escrevi lhe suscitou um, por mim tanto melhor: é geralmente aceite que o desabafo faz bem. E quem sabe V. estaria francamente necessitado disso.
Mas adiante. Permita-me quanto ao conteúdo do que escreveu, e tentando seguir a sua estrutura, algumas notas:
1) Em lado algum do que escrevi, lado algum, pode V. fundamentar a afirmação de que eu sustente que a culpa é sempre dos outros. Ou que do meu comentário se possa sem mais fundamentar tal postulado.
Não ignoro – seria uma estupidez que não cometo nem admito que me atribua; não partindo daquilo que escrevi – que houve e há entre nós quem actue de forma irresponsável, iludida, dolosamente imprudente. Há sim senhor, por cá e em todo o lado, e em tempos de abundância como de crise. Gente que se meteu em despesas excessivas, injustificáveis. Despesas que era logo de início evidente seriam insustentáveis. Ou passariam a sê-lo, de tal forma esgotavam os recursos disponíveis, ao menor contratempo. Milhares de cidadãos e, sobre todos eles, o estado português: o maior e mais impune (na pessoa dos seus agentes) irresponsável de todos.
2) Eis onde quis chegar: que há uma vastíssima legião de gente que agiu de boa fé, que fez contas e, contas feitas, concluiu que podia chamar a si responsabilidades que hoje não consegue honrar. Foi muita dessa gente demasiado optimista? Talvez. Mas não foi toda, nem remotamente poderá afirmá-lo. E, se o foi, teve para tanto o encorajamento do estado e da banca que anos a fio fomentaram esse comportamento, essa busca prematura, exagerada, insustentável, de bens materiais. Depois, quando o desastre, a seu tempo previsível, se deu, e em nome do tal “ajustamento”, o estado agiu como agiu e age e, com desconcertante leveza, chegámos onde estamos: um desemprego assustador e uma férrea, brutal, cega e perene política de redução de rendimentos, seja por uma (que de talvez necessária passou a arrogante) desvalorização do trabalho, seja por uma fiscalidade sem escrúpulos, seja pela paulatina demissão do estado de considerável parte das suas funções. Sem aliás um frémito de vergonha, antes o contrário.
E isso teve como (uma) consequência, uma multidão de incumpridores que a tal situação e vergonha chegaram, foram empurrados, sem culpa alguma. Repito, sem culpa alguma. Haverá quanto muito responsabilidade objectiva e, perante a crueldade da alteração superveniente de circunstâncias entretanto verificada, até essa responsabilidade, num plano ético pelo menos, resultará bem mitigada. Essa multidão é hoje metodicamente triturada pela máquina fiscal, pela justiça, pela coisa pública, enfim. Não é espectáculo que se goste de testemunhar, esse em que gente fundamentalmente inocente mas apanhada numa armadilha gigantesca, se vê arrastada à desonra. Consulte os jornais de maior circulação e veja o interminável cortejo de anúncios de insolvências, dia após dia publicado (que serão apenas parte do desastre). Será toda essa gente “culpada”?
Mas a culpa, na grande ordem das coisas, tem você razão, não é dos outros. É nossa, de todos nós, como nação. A sua expiação estará é, talvez, muito desproporcionadamente distribuída. Eu acho que está. Mas aí, evidentemente, poderemos ter posições bem diversas, você e eu, e defendê-las animosamente. Creio contudo não ser esse o âmbito desta nossa troca de impressões.
Permita-me também notar, já agora – e só o faço porque será licito admitir que você parece apontar-me como um desses que, a seus olhos, sempre procuram justificações para tudo (entenda-se, para os seus próprios erros) – que felizmente me não incluo, ainda pelo menos, nessa multidão sacrificada aos erros de uns tantos que ficam impunes e ainda peroram de púlpitos privilegiados.
3) «A sua frase “… num país dito do primeiro mundo (tento não rir)…” nem classifico, para mim é uma ofensa». É uma ofensa para si e é para mim.
Para si será pelas razões que entender, para mim é porque eu integro esse grupo que anda a pagar isto tudo, sujeito a uma fiscalidade verdadeiramente criminosa, insaciável, absolutamente cega, apostada em nivelar por baixo custe o que custar, arruinando expectativas e objectivos que, se eram algo, eram prudentes. Uma fiscalidade que não tem qualquer contrapartida que a torne meritória.
Uma actuação do poder que desgraçadamente legitima cada vez mais a afirmação de que em Portugal a fiscalidade é escandinava e a acção do estado em prol do indivíduo e da comunidade é norte-africana. E não é, lamento, do primeiro mundo um país que dá fundamento a afirmações que se deveria rejeitar por, pelo menos, populistas e demagógicas. Até poderá sê-lo na asséptica frieza da estatística. A tal que afirma que havendo um frango e duas pessoas, ambas comem meio frango. Que até é, convenhamos, uma boa refeição.
As coisas, caro senhor, são como são.
4) Não tenho que esperar de si desculpas, muito menos de pedi-las. Nem você de me desculpar pelo que seja. Pela simples razão de que nada do que escrevi me coloca em posição de ofensor perante si. Manifestei uma opinião e fundamentei-a. A primeira coisa (a liberdade do seu exercício) é-lhe se calhar hostil; a segunda talvez maçadora. Tanto pior.
Falta-me conhecer muito mundo, mas tenho a ventura de conhecer já algum. Bem para lá de Badajoz. Tive e tenho a felicidade de visitar número apreciável de países, de estar em quatro continentes, seja por razões profissionais seja, até ver e não tanto quanto gostaria, em turismo. A coisa, o turismo de um português, parece ser-lhe sumamente irritante. Uma vez mais, tanto pior.
O que lhe tomo por inadmissível é o paternalismo dessas suas últimas palavras. Ao senhor não reconheço qualquer autoridade para julgar do meu maior ou menor cosmopolitismo ou paroquianismo. Ao reduzir você o outro, liminarmente, a uma espécie de parolo deslumbrado, ao desconsiderar assim o seu oponente numa troca de opiniões que, por muito legitimamente vivaz e acalorada que fosse, sempre deveria ser civilizada, educada, parece-me que de facto um de nós dois é devedor de um pedido de desculpas.
Li-o mas nada de novo trouxe ao que eu já pensava da sua prosa, a confusão que vai por aí é mais que muita, nem sabe o que é a Escandinávia nem sabe o que é o norte de África (eu sei, tenho filhos quarentões que trabalharam nos dois sítios, eu só trabalhei no Japão, pouco sei).
Tenho pouca paciência para a choradeira, defeito de quem nunca se chorou.
Passe V. Exa. muito bem.
PS – Anda V.Exa a pagar ? Também eu e quase de certeza muitíssimo mais. Mas isso não me torna obtuso.
Longe da minha intenção, creia, chamar apenas a mim essa condição de pagante.
Nem comparar-me em nível de rendimentos com tão elevada figura como V. cuidou necessário indiciar. Por Deus, não (eu nem tenho carros de gama alta, mesmo que usados…).
Quanto ao resto, guardarei eu então a minha choradeira, fraco exemplar de gente, envergonhado na minha infinda ignorância e muito justamente disciplinado, desmascarado – que digo, trespassado! – pela sua tão tempestiva e clarificadora intervenção; e V., intrépido e viajado bastião da mais lúcida cidadania, que já não tanto de educação, guardará as suas certezas.
A choradeira de um; as certezas do outro. Está muito bem assim. Cá ficarei, atento e venerador leitor das suas palavras.
Costa
Mais uma vez o li, leio sempre.
Mas por favor: não me leia, é um favor que me faz.
Não lhe desejo que seja feliz porque isso manifestamente não me parece estar ao seu alcance.
Mas viva a vida que lhe resta o melhor possível.
Honra-me V. com essa revelação de que me lê sempre. Ora do que percebo desta nossa troca de impressões, isso constituirá para si um padecimento atroz. Não o imagino masoquista, pelo que só me resta agradecer-lhe penhoradamente por uma consideração que manifestamente não merecerei. Rogo-lhe pois que se liberte dessa penosíssima prática.
Quanto à felicidade, que lhe posso dizer? Mentiria se lhe ocultasse que alinho por um apreciável pessimismo antropológico. A esse propósito remeto para uma frase constante de um “link” que é feito uns “posts” acima, aqui no blogue (perdoe-me, suplico-lhe, pelo recurso a estes termos estrangeiros): «Ninguém tem naturalmente a ilusão de que os homens serão alguma vez felizes. Desde que não padeçam de doença, fome, frio, podem, quando muito, ter momentos de felicidade.»
E eu tendo a concordar, que se há-de fazer? O que não significa gostar que assim seja. E deixe-me dizer-lhe que, talvez por isto, procuro sempre usufruir o mais profundamente que posso, de deles guardar as mais ternas memórias, de cada um desses momentos de felicidade. Pois que os tomo como um frágil privilégio que se algo nos deve despertar é um sentimento de humildade.
Mas a seus olhos devo com isto tudo ficar absolutamente irrecuperável. Só poderá ser assim.
Faça-me por isso também o favor de não mais me ler. Afinal é de elementar reciprocidade. E sigamos as nossas vidas.
Costa
Pois mais uma vez o li. A si e a toda a gente que se me dirige.
Pois se alinha por um pessimismo antropológico que lhe hei-de fazer?
Eu não alinho por pessimismo nenhum. Quando se tem uma filha que foi das 1ªas crianças operadas ao coração e mais de 30 anos depois ainda está aí a sorrir-me, quando se é casado com alguém que passou recentemente pela prova mais dura em termos de saúde que alguém pode passar na vida e nem aos filhos contou para não os preocupar, quando um dos meus filhos estava numa reunião no World Trade Center meia hora antes do ataque e entretanto saíu, que lhe hei-de dizer?
A felicidade está aqui, nestas coisas que a vida nos dá e a mim deu-me estas todas.
Os carros usados de gama média-alta não foi a vida que me deu, fui eu que os conquistei – a pulso – mas não são a felicidade, são apenas a maneira de viajar em segurança para quem faz 40 mil kms por ano, muitas vezes com o carro cheio de netos.
Mas continuarei a lê-lo, toda a gente tem coisas para dizer que me interessam, concorde ou não com elas.
Uma excelente noite para si
Nada faça, caro senhor, contra esse meu pessimismo. Uns são-no, outros não e sobre ele, validando-o ou negando-o, outros com bem mais autoridade do que eu (falo apenas por mim) elaboraram já.
Aliás vai sendo tempo, creio eu (o silêncio é de facto de ouro, embora nem sempre seja fácil – ou possível – mantê-lo), de pôr fim a esta nossa troca de palavras por aqui.
O meu propósito foi o de apresentar um ponto de vista “geral e abstracto” (para usar certo jargão) a partir de certo facto apresentado à comunidade de leitores deste blogue, pelo autor do texto aqui comentado. E continuar a sua discussão, se para tanto surgisse leitor interessado, sempre nessa perspectiva generalizadora. As coisas evidentemente são em grau maior ou menor sempre sujeitas ao crivo da personalidade e experiência de cada um, mais não seja na invocação e no peso relativo conferido aos argumentos que elenca e exemplos que suscita, mas não me pareceu – não neste caso, perante o tema e a forma como ele foi apresentado – ser este o terreno para ir mais longe no afastamento do que seria uma visão, ainda que evidentemente perfilhando certo ponto de vista, tão generalizadora quanto possível do assunto.
Suponho que a vida deu-nos e dá a todos, mais tarde ou mais cedo, a uns, claro, mais do que a outros (e nunca entrarei em competições de sofrimento ou estoicismo) provas e momentos que nos modelam. Ninguém tem o exclusivo disso e acredito que se deva usar de especial cuidado na sua invocação. Serão coisas, mesmo as más, talvez especialmente as más, que nos merecerão demasiado respeito para ser trunfos lançados facilmente na mesa. De igual modo acredito que os nossos sucessos devem ser apresentados – a ter que o ser – com especial parcimónia, e na exacta medida em que sejam de facto relevantes para a discussão e o momento da mesma, por uma questão de decoro, de respeito, para com os outros. Nem toda a gente que não consegue sair, se lá chegar, de uma anónima mediania é um fraco a quem uma “lição de vida” se aplica muito bem.
Sucede que as coisas evoluíram de outra forma e o debate, a defesa e crítica da minha visão do assunto tomaram um rumo pessoal. Bem mais a crítica, permita-me notar, que optou, em termos francamente claros (não irei mais longe na sua qualificação, porque isso seria ir mais longe na de quem os empregou; e já o fiz antes), por me reduzir brusca, taxativa e liminarmente à condição de ignorante desautorizado e até de indigno dos desafios da vida.
E com esse rumo afastámo-nos do tema e tornámos pessoal e menos cordato este “post”. Prosseguir seria abusar (mais ainda) da paciência do autor e dos outros leitores.
Guardemos então as nossas verdades, concordemos em que discordamos, preservemo-nos do insulto.
Fiquemos por aqui.
Costa
Nunca devemos usar de especial cuidado para nos gabarmos daquilo que tivemos a imensa sorte de receber da vida sem para isso termos demonstrado mérito especial nem para nos gabarmos daquilo que nós conseguimos tirar à vida tendo para isso demonstrado o nosso mérito.
Quererá dizer que ter a imensa sorte de ter várias das pessoas a quem mais quero comigo são “coisas más” que devo guardar púdicamente e que dizer que compro carros usados de gama média ou média alta num país onde há 5 milhões de viaturas ligeiras com seguro inscritas no ISP (portanto a andar) são exibições de “sucesso”?
Na blogosfera somos (quase) todos anónimos e no entanto as pessoas têm vergonha de mostrar que têm uma vida real e sentimentos bem definidos, o seu porquê e as lutas que travaram, que ganharam ou que perderam. Como já sou técnicamente idoso e “vivi” bastante eu sei porquê, mas não será a si que o digo, não vá levá-lo à conta de algo de pessoal pois não o seria.
Ficam-se assim pelas declarações grandiosas ou panfletárias invocando os seus elevados sentimentos mas, como depois não dizem se são novos ou velhos, solteiros ou casados, pobres ou ricos, com filhos ou sem filhos, aventureiros ou burocratas de toda a vida, ninguém lhes liga muito.
Claro que também ninguém acreditaria mais por dizerem isto ou aquilo sobre si próprios (como se depreende do que pensa do que eu escrevi) mas aí qualquer pessoa que não ande cá só por ver andar os outros fácilmente lhes descobria a careca e lhes passava a dar a merecida atenção (no limite nenhuma).
As pessoas são esquisitas, se nem aqui mostram um pouco do que realmente são e até ficam incomodadas que os outros mostrem, fácilmente se percebe porque é que o mundo se tornou um local perigoso, cheio de solidões egoístas.
Quanto às conclusões que resposta atrás de resposta tira sobre a sua própria pessoa acusando-me a mim de as ter pronunciado, pois são as “suas” conclusões. Muita coisa me disse e eu não me senti insultado, sei que fui eu que o interpelei mas esses são os riscos que corremos quando escrevemos aqui, desde os conselhos para ter carros melhores por menos dinheiro até aos discursos sobre o mundo que nos cerca e no qual, é evidente, os próprios são sempre os defensores dos pobres e desprotegidos, quando a maior parte das vezes estão só a pensar no que é que podem ganhar á pala daquilo!
A paciência do autor eu sei que é imensa pois não ando por aqui há 15 dias e ele sabe bem com o que conta daqui. De resto o nosso caro Pedro Correia fez o favor a certa altura de pôr em evidência um comentário meu em que eu explicava claramente – entre outras coisas – como é que as opções mais ou menos complicadas que fiz na vida me tinham trazido onde hoje estou como pessoa. O “Penso Rápido” anterior a este tem algo também a ver com o que digo.
Quanto à paciência dos leitores também não é risco que se corra pois há muito deixaram de se ralar connosco, acho que está um pouco enganado sobre a importância do que nós escrevemos por aqui.
Uma boa tarde para si
PS – Escrevi “quase” no sermos todos anónimos aqui porque inúmeros leitores do blog são gente que cá vem a meu conselho ou que me reconheceu através da sigla “rmg” pela qual fui conhecido durante mais de 40 anos por todos os sítios por onde passei e me contactaram entretanto a confirmar. Isto para lhe dizer que não minto sob pena de algum deles (nem todos meus íntimos e mesmo assim nunca fiando…) vir aqui sob a capa de “Anónimo” ou não chamar-me aldrabão e dizer porquê.
Um carro novo é o dinheiro mais mal gasto do mundo, desvaloriza 40% no mínimo nos 3 primeiros anos, mas essas contas ninguém faz nem parecem contar para os orçamentos familiares, a opinião dos vizinhos conta mais.
Imaginemos um carro de 15 mil euros, em 3 anos perderam-se 6 mil euros ou 2 mil por ano ou quase 170€ por mês, isto se nenhum empréstimo tiver sido contraído.
Pela parte que me toca, não fosse a saída de divisas, isso até é simpático pois há 40 anos que compro carros em 2ª mão da gama média e até média-alta com relativamente poucos kms e nos representantes das marcas (portanto com garantias sérias)pelo preço de carros mais vulgares, carros esses que com mais 100 mil kms em cima ainda estão melhores que os outros estariam ao fim de 100 mil kms ( e não promovo a saída de divisas por aí).
Há carros estupendos aí espalhados pelo país em que ninguém pega, não tendo a mania dos carros mas sendo um curioso dessas coisas aconselho o “estudo” da matéria a eventuais interessados.
Quanto ao tema aqui em questão e como costumo dizer cá me mantenho fiel ao meu “stupidphone”, até tenho um de reserva para quando este pifar…
Os dados mais recentes da Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição (APED) indicam que no primeiro semestre de 2014 foram gastos cerca de 123 milhões e 261 mil euros em smartphones.
Concordo em absoluto ! E porque não? Eu, por exemplo estou a dormir há 2 noites na 5a Avenida, a aguardar ansiosamente o dia 19 para poder ser umas das primeiras a adquirir o novo iCoiso! E nem sequer podemos contestar o facto de que a estatística prova inequivocamente que a maioria dos portugueses tem algo smart consigo…
Eu não vejo nenhuma “luz ao fundo do túnel” neste consumismo de produtos importados. Foi esta coisa que trouxe Portugal até à triste situação em que se encontra.
Esta é mesmo luminosa, Pedro.
‘Fiat lux’!
Curioso é que em qualquer noticiário televisivo só se ouve falar dos que passam mal, dos que “gozam” férias em casa ou não as têm, dos que só compram carne da mais barata, daqueles cuja criançada vai para a escola com a barriga a dar horas, ou dos que abandonam idosos nos hospitais, etc, etc.
De raspão, sabemos que “grandes vedetas” televisivas ou do futebol ou meramente das revistas cor-de-rosa viajam volta e meia para lugares exóticos, deram uma festa de arromba com centenas de convidados, etc…
Há decididamente dois países.
PS – tenho “laptop”, smartphone não.
Eu confesso que não fazia a menor ideia e abri a boca de espanto com estes dados estatísticos, manchete na edição de hoje do JN. O consumismo está de volta – e em larga escala. Resta ver até que ponto isto constitui de facto um bom indício.
Não me surpreende nada. Os portugueses, em geral, são muito atreitos aos “gadgets” e novas tecnologias. Mesmo alguns daqueles que passam dificuldades, alguns que se queixam à minha frente. Eu que hoje estou “bem”, mas que já passei por dificuldades, supostamente quando isto era tudo muito bom e não havia cá pobreza, ainda não tenho, nem penso vir até este ano. Sou atípicamente português nalguns sentidos.
Também é verdade que quando se fala de smartphones pensamos em brinquedos que podem custar meia dúzia de centenas de euros, mas há-os muito mais baratuchos…
Espero que os bancos não estejam já a fazer empréstimos para aquisição de smartphones…
Não será impossível, creio, ter um smartphone e estar económica e financeiramente mal. Entre o pagamento em prestações e os descontos por pontos acumulados, as operadoras encarregam-se de tornar a coisa suportável. Não falo, claro, de quem esteja na indigência, mas acima do limite da pobreza que dói de facto no estômago, não é impossível – nem será sem mais e automaticamente censurável – ter um smartphone .
É possível não ter – ter deixado de ter, não saber quando (ou se) se voltará a ter – as centenas ou milhares de euros mensais necessários para honrar os compromissos noutro tempo assumidos por conta da casa ou do carro, e dispor todavia das poucas dezenas mensais para ir pagando o smartphone . Poucas dezenas que, perante o pesadelo dessas dívidas, que se calhar já levaram à perda da casa ou do carro (permanecendo as suas dívidas, claro), seriam gotas lançadas inutilmente num gigantesco fogo que se sabe nunca se poder extinguir. Pura e simplesmente não fariam diferença alguma na dimensão da desgraça e o telefonezito dito inteligente sempre devolve alguma ilusão de estatuto, de poder, de modernidade. Dá para ir ao facebook escrever umas coisas aos “amigos”. Para esquecer a realidade.
Dir-se-á que a honra que o falido deveria saber guardar o deveria inibir dessas opções. Mas passou há muito o tempo em que o falido vestia luto enquanto durasse essa condição, tanto dos falidos o são hoje por culpa de quem por aí anda impune e ufano, no poder ou com fundadas razões para crer que lá voltará, e são tantos os falidos (ou insolventes), tão vulgar é essa circunstância, que terá deixado de ter, para as mentes mais leves, um tão pesado significado. Se os tempos condenam as pessoas à condição largamente generalizada de incumpridoras, as pessoas habituam-se e nessa condição refazem como podem as suas vidas. Mera legítima defesa.
Não sei se será de facto uma luz ao fundo do túnel (a não ser na medida em que permita a esperança de que a miséria absoluta e generalizada não estará exactamente ao virar da esquina), se um sinal da resistência das pessoas que, contra tudo e quem nos pastoreia – e que naturalmente saca o generoso impostozinho sobre esses telefones – cerram os dentes e tentam ainda levar uma vida normal. E um smartphone , num país dito do primeiro mundo (tento não rir), será um acessório banal, numa vida normal.
Posto isto ver, como ainda ontem, dezenas de smartphones ligados e gente “agarrada” a eles durante uma sessão de cinema, assusta. Mas a questão não é aí de economia.
Costa
Isto é só um desabafo.
É precisamente por a culpa ser sempre dos outros e os próprios terem sempre justificações para tudo, como transparece do seu comentário, que nunca saímos ou sairemos desta apagada e vil tristeza.
E nunca saíremos porque este não é um problema com 3 anos (deste Governo), com 10 anos (do Governo anterior),com 40 anos (do 25A) ou com 90 anos (do Estado Novo) ou do que seja que os antecedeu.
É um problema do “modo de estar na vida e no mundo”, como a nossa História nos ensina e todos os que tiveram e ainda têm uma vida rica de experiências bem sabem.
A sua frase “… num país dito do primeiro mundo (tento não rir)…” nem classifico, para mim é uma ofensa a todos que continuam a tentar fazer disto tudo um sítio onde se pode e se possa viver.
A sua única desculpa será, de facto, não conhecer mais nenhum país (como turista não conta, turista português acha tudo lindo a partir de Badajoz)…
Caro sr . sra ?) rmg,
Antes de mais permita-me notar que só não o incito a desabafar amiúde por aqui porque, bem vê, sou neste blogue um mero leitor assíduo e ocasional comentador. E “comentador”, entenda, porque se chama “comentário” ao que por aqui você e eu escrevemos; não porque eu seja especialista no que quer que seja que me confira a autoridade de comentador. Não tenho por isso legitimidade para encorajar aqui os seus desabafos. Mas se o que acima escrevi lhe suscitou um, por mim tanto melhor: é geralmente aceite que o desabafo faz bem. E quem sabe V. estaria francamente necessitado disso.
Mas adiante. Permita-me quanto ao conteúdo do que escreveu, e tentando seguir a sua estrutura, algumas notas:
1) Em lado algum do que escrevi, lado algum, pode V. fundamentar a afirmação de que eu sustente que a culpa é sempre dos outros. Ou que do meu comentário se possa sem mais fundamentar tal postulado.
Não ignoro – seria uma estupidez que não cometo nem admito que me atribua; não partindo daquilo que escrevi – que houve e há entre nós quem actue de forma irresponsável, iludida, dolosamente imprudente. Há sim senhor, por cá e em todo o lado, e em tempos de abundância como de crise. Gente que se meteu em despesas excessivas, injustificáveis. Despesas que era logo de início evidente seriam insustentáveis. Ou passariam a sê-lo, de tal forma esgotavam os recursos disponíveis, ao menor contratempo. Milhares de cidadãos e, sobre todos eles, o estado português: o maior e mais impune (na pessoa dos seus agentes) irresponsável de todos.
2) Eis onde quis chegar: que há uma vastíssima legião de gente que agiu de boa fé, que fez contas e, contas feitas, concluiu que podia chamar a si responsabilidades que hoje não consegue honrar. Foi muita dessa gente demasiado optimista? Talvez. Mas não foi toda, nem remotamente poderá afirmá-lo. E, se o foi, teve para tanto o encorajamento do estado e da banca que anos a fio fomentaram esse comportamento, essa busca prematura, exagerada, insustentável, de bens materiais. Depois, quando o desastre, a seu tempo previsível, se deu, e em nome do tal “ajustamento”, o estado agiu como agiu e age e, com desconcertante leveza, chegámos onde estamos: um desemprego assustador e uma férrea, brutal, cega e perene política de redução de rendimentos, seja por uma (que de talvez necessária passou a arrogante) desvalorização do trabalho, seja por uma fiscalidade sem escrúpulos, seja pela paulatina demissão do estado de considerável parte das suas funções. Sem aliás um frémito de vergonha, antes o contrário.
E isso teve como (uma) consequência, uma multidão de incumpridores que a tal situação e vergonha chegaram, foram empurrados, sem culpa alguma. Repito, sem culpa alguma. Haverá quanto muito responsabilidade objectiva e, perante a crueldade da alteração superveniente de circunstâncias entretanto verificada, até essa responsabilidade, num plano ético pelo menos, resultará bem mitigada. Essa multidão é hoje metodicamente triturada pela máquina fiscal, pela justiça, pela coisa pública, enfim. Não é espectáculo que se goste de testemunhar, esse em que gente fundamentalmente inocente mas apanhada numa armadilha gigantesca, se vê arrastada à desonra. Consulte os jornais de maior circulação e veja o interminável cortejo de anúncios de insolvências, dia após dia publicado (que serão apenas parte do desastre). Será toda essa gente “culpada”?
Mas a culpa, na grande ordem das coisas, tem você razão, não é dos outros. É nossa, de todos nós, como nação. A sua expiação estará é, talvez, muito desproporcionadamente distribuída. Eu acho que está. Mas aí, evidentemente, poderemos ter posições bem diversas, você e eu, e defendê-las animosamente. Creio contudo não ser esse o âmbito desta nossa troca de impressões.
Permita-me também notar, já agora – e só o faço porque será licito admitir que você parece apontar-me como um desses que, a seus olhos, sempre procuram justificações para tudo (entenda-se, para os seus próprios erros) – que felizmente me não incluo, ainda pelo menos, nessa multidão sacrificada aos erros de uns tantos que ficam impunes e ainda peroram de púlpitos privilegiados.
(cont.)
cont .)
3) «A sua frase “… num país dito do primeiro mundo (tento não rir)…” nem classifico, para mim é uma ofensa». É uma ofensa para si e é para mim.
Para si será pelas razões que entender, para mim é porque eu integro esse grupo que anda a pagar isto tudo, sujeito a uma fiscalidade verdadeiramente criminosa, insaciável, absolutamente cega, apostada em nivelar por baixo custe o que custar, arruinando expectativas e objectivos que, se eram algo, eram prudentes. Uma fiscalidade que não tem qualquer contrapartida que a torne meritória.
Uma actuação do poder que desgraçadamente legitima cada vez mais a afirmação de que em Portugal a fiscalidade é escandinava e a acção do estado em prol do indivíduo e da comunidade é norte-africana. E não é, lamento, do primeiro mundo um país que dá fundamento a afirmações que se deveria rejeitar por, pelo menos, populistas e demagógicas. Até poderá sê-lo na asséptica frieza da estatística. A tal que afirma que havendo um frango e duas pessoas, ambas comem meio frango. Que até é, convenhamos, uma boa refeição.
As coisas, caro senhor, são como são.
4) Não tenho que esperar de si desculpas, muito menos de pedi-las. Nem você de me desculpar pelo que seja. Pela simples razão de que nada do que escrevi me coloca em posição de ofensor perante si. Manifestei uma opinião e fundamentei-a. A primeira coisa (a liberdade do seu exercício) é-lhe se calhar hostil; a segunda talvez maçadora. Tanto pior.
Falta-me conhecer muito mundo, mas tenho a ventura de conhecer já algum. Bem para lá de Badajoz. Tive e tenho a felicidade de visitar número apreciável de países, de estar em quatro continentes, seja por razões profissionais seja, até ver e não tanto quanto gostaria, em turismo. A coisa, o turismo de um português, parece ser-lhe sumamente irritante. Uma vez mais, tanto pior.
O que lhe tomo por inadmissível é o paternalismo dessas suas últimas palavras. Ao senhor não reconheço qualquer autoridade para julgar do meu maior ou menor cosmopolitismo ou paroquianismo. Ao reduzir você o outro, liminarmente, a uma espécie de parolo deslumbrado, ao desconsiderar assim o seu oponente numa troca de opiniões que, por muito legitimamente vivaz e acalorada que fosse, sempre deveria ser civilizada, educada, parece-me que de facto um de nós dois é devedor de um pedido de desculpas.
E não serei eu.
Costa
Li-o.
Sr/Srª Costa (?)
Li-o mas nada de novo trouxe ao que eu já pensava da sua prosa, a confusão que vai por aí é mais que muita, nem sabe o que é a Escandinávia nem sabe o que é o norte de África (eu sei, tenho filhos quarentões que trabalharam nos dois sítios, eu só trabalhei no Japão, pouco sei).
Tenho pouca paciência para a choradeira, defeito de quem nunca se chorou.
Passe V. Exa. muito bem.
PS – Anda V.Exa a pagar ? Também eu e quase de certeza muitíssimo mais.
Mas isso não me torna obtuso.
Longe da minha intenção, creia, chamar apenas a mim essa condição de pagante.
Nem comparar-me em nível de rendimentos com tão elevada figura como V. cuidou necessário indiciar. Por Deus, não (eu nem tenho carros de gama alta, mesmo que usados…).
Quanto ao resto, guardarei eu então a minha choradeira, fraco exemplar de gente, envergonhado na minha infinda ignorância e muito justamente disciplinado, desmascarado – que digo, trespassado! – pela sua tão tempestiva e clarificadora intervenção; e V., intrépido e viajado bastião da mais lúcida cidadania, que já não tanto de educação, guardará as suas certezas.
A choradeira de um; as certezas do outro. Está muito bem assim. Cá ficarei, atento e venerador leitor das suas palavras.
Costa
Mais uma vez o li, leio sempre.
Mas por favor: não me leia, é um favor que me faz.
Não lhe desejo que seja feliz porque isso manifestamente não me parece estar ao seu alcance.
Mas viva a vida que lhe resta o melhor possível.
Honra-me V. com essa revelação de que me lê sempre. Ora do que percebo desta nossa troca de impressões, isso constituirá para si um padecimento atroz. Não o imagino masoquista, pelo que só me resta agradecer-lhe penhoradamente por uma consideração que manifestamente não merecerei. Rogo-lhe pois que se liberte dessa penosíssima prática.
Quanto à felicidade, que lhe posso dizer? Mentiria se lhe ocultasse que alinho por um apreciável pessimismo antropológico. A esse propósito remeto para uma frase constante de um “link” que é feito uns “posts” acima, aqui no blogue (perdoe-me, suplico-lhe, pelo recurso a estes termos estrangeiros): «Ninguém tem naturalmente a ilusão de que os homens serão alguma vez felizes. Desde que não padeçam de doença, fome, frio, podem, quando muito, ter momentos de felicidade.»
E eu tendo a concordar, que se há-de fazer? O que não significa gostar que assim seja. E deixe-me dizer-lhe que, talvez por isto, procuro sempre usufruir o mais profundamente que posso, de deles guardar as mais ternas memórias, de cada um desses momentos de felicidade. Pois que os tomo como um frágil privilégio que se algo nos deve despertar é um sentimento de humildade.
Mas a seus olhos devo com isto tudo ficar absolutamente irrecuperável. Só poderá ser assim.
Faça-me por isso também o favor de não mais me ler. Afinal é de elementar reciprocidade. E sigamos as nossas vidas.
Costa
Pois mais uma vez o li.
A si e a toda a gente que se me dirige.
Pois se alinha por um pessimismo antropológico que lhe hei-de fazer?
Eu não alinho por pessimismo nenhum.
Quando se tem uma filha que foi das 1ªas crianças operadas ao coração e mais de 30 anos depois ainda está aí a sorrir-me, quando se é casado com alguém que passou recentemente pela prova mais dura em termos de saúde que alguém pode passar na vida e nem aos filhos contou para não os preocupar, quando um dos meus filhos estava numa reunião no World Trade Center meia hora antes do ataque e entretanto saíu, que lhe hei-de dizer?
A felicidade está aqui, nestas coisas que a vida nos dá e a mim deu-me estas todas.
Os carros usados de gama média-alta não foi a vida que me deu, fui eu que os conquistei – a pulso – mas não são a felicidade, são apenas a maneira de viajar em segurança para quem faz 40 mil kms por ano, muitas vezes com o carro cheio de netos.
Mas continuarei a lê-lo, toda a gente tem coisas para dizer que me interessam, concorde ou não com elas.
Uma excelente noite para si
Nada faça, caro senhor, contra esse meu pessimismo. Uns são-no, outros não e sobre ele, validando-o ou negando-o, outros com bem mais autoridade do que eu (falo apenas por mim) elaboraram já.
Aliás vai sendo tempo, creio eu (o silêncio é de facto de ouro, embora nem sempre seja fácil – ou possível – mantê-lo), de pôr fim a esta nossa troca de palavras por aqui.
O meu propósito foi o de apresentar um ponto de vista “geral e abstracto” (para usar certo jargão) a partir de certo facto apresentado à comunidade de leitores deste blogue, pelo autor do texto aqui comentado. E continuar a sua discussão, se para tanto surgisse leitor interessado, sempre nessa perspectiva generalizadora. As coisas evidentemente são em grau maior ou menor sempre sujeitas ao crivo da personalidade e experiência de cada um, mais não seja na invocação e no peso relativo conferido aos argumentos que elenca e exemplos que suscita, mas não me pareceu – não neste caso, perante o tema e a forma como ele foi apresentado – ser este o terreno para ir mais longe no afastamento do que seria uma visão, ainda que evidentemente perfilhando certo ponto de vista, tão generalizadora quanto possível do assunto.
Suponho que a vida deu-nos e dá a todos, mais tarde ou mais cedo, a uns, claro, mais do que a outros (e nunca entrarei em competições de sofrimento ou estoicismo) provas e momentos que nos modelam. Ninguém tem o exclusivo disso e acredito que se deva usar de especial cuidado na sua invocação. Serão coisas, mesmo as más, talvez especialmente as más, que nos merecerão demasiado respeito para ser trunfos lançados facilmente na mesa. De igual modo acredito que os nossos sucessos devem ser apresentados – a ter que o ser – com especial parcimónia, e na exacta medida em que sejam de facto relevantes para a discussão e o momento da mesma, por uma questão de decoro, de respeito, para com os outros. Nem toda a gente que não consegue sair, se lá chegar, de uma anónima mediania é um fraco a quem uma “lição de vida” se aplica muito bem.
Sucede que as coisas evoluíram de outra forma e o debate, a defesa e crítica da minha visão do assunto tomaram um rumo pessoal. Bem mais a crítica, permita-me notar, que optou, em termos francamente claros (não irei mais longe na sua qualificação, porque isso seria ir mais longe na de quem os empregou; e já o fiz antes), por me reduzir brusca, taxativa e liminarmente à condição de ignorante desautorizado e até de indigno dos desafios da vida.
E com esse rumo afastámo-nos do tema e tornámos pessoal e menos cordato este “post”. Prosseguir seria abusar (mais ainda) da paciência do autor e dos outros leitores.
Guardemos então as nossas verdades, concordemos em que discordamos, preservemo-nos do insulto.
Fiquemos por aqui.
Costa
Nunca devemos usar de especial cuidado para nos gabarmos daquilo que tivemos a imensa sorte de receber da vida sem para isso termos demonstrado mérito especial nem para nos gabarmos daquilo que nós conseguimos tirar à vida tendo para isso demonstrado o nosso mérito.
Quererá dizer que ter a imensa sorte de ter várias das pessoas a quem mais quero comigo são “coisas más” que devo guardar púdicamente e que dizer que compro carros usados de gama média ou média alta num país onde há 5 milhões de viaturas ligeiras com seguro inscritas no ISP (portanto a andar) são exibições de “sucesso”?
Na blogosfera somos (quase) todos anónimos e no entanto as pessoas têm vergonha de mostrar que têm uma vida real e sentimentos bem definidos, o seu porquê e as lutas que travaram, que ganharam ou que perderam.
Como já sou técnicamente idoso e “vivi” bastante eu sei porquê, mas não será a si que o digo, não vá levá-lo à conta de algo de pessoal pois não o seria.
Ficam-se assim pelas declarações grandiosas ou panfletárias invocando os seus elevados sentimentos mas, como depois não dizem se são novos ou velhos, solteiros ou casados, pobres ou ricos, com filhos ou sem filhos, aventureiros ou burocratas de toda a vida, ninguém lhes liga muito.
Claro que também ninguém acreditaria mais por dizerem isto ou aquilo sobre si próprios (como se depreende do que pensa do que eu escrevi) mas aí qualquer pessoa que não ande cá só por ver andar os outros fácilmente lhes descobria a careca e lhes passava a dar a merecida atenção (no limite nenhuma).
As pessoas são esquisitas, se nem aqui mostram um pouco do que realmente são e até ficam incomodadas que os outros mostrem, fácilmente se percebe porque é que o mundo se tornou um local perigoso, cheio de solidões egoístas.
Quanto às conclusões que resposta atrás de resposta tira sobre a sua própria pessoa acusando-me a mim de as ter pronunciado, pois são as “suas” conclusões.
Muita coisa me disse e eu não me senti insultado, sei que fui eu que o interpelei mas esses são os riscos que corremos quando escrevemos aqui, desde os conselhos para ter carros melhores por menos dinheiro até aos discursos sobre o mundo que nos cerca e no qual, é evidente, os próprios são sempre os defensores dos pobres e desprotegidos, quando a maior parte das vezes estão só a pensar no que é que podem ganhar á pala daquilo!
A paciência do autor eu sei que é imensa pois não ando por aqui há 15 dias e ele sabe bem com o que conta daqui.
De resto o nosso caro Pedro Correia fez o favor a certa altura de pôr em evidência um comentário meu em que eu explicava claramente – entre outras coisas – como é que as opções mais ou menos complicadas que fiz na vida me tinham trazido onde hoje estou como pessoa.
O “Penso Rápido” anterior a este tem algo também a ver com o que digo.
Quanto à paciência dos leitores também não é risco que se corra pois há muito deixaram de se ralar connosco, acho que está um pouco enganado sobre a importância do que nós escrevemos por aqui.
Uma boa tarde para si
PS – Escrevi “quase” no sermos todos anónimos aqui porque inúmeros leitores do blog são gente que cá vem a meu conselho ou que me reconheceu através da sigla “rmg” pela qual fui conhecido durante mais de 40 anos por todos os sítios por onde passei e me contactaram entretanto a confirmar.
Isto para lhe dizer que não minto sob pena de algum deles (nem todos meus íntimos e mesmo assim nunca fiando…) vir aqui sob a capa de “Anónimo” ou não chamar-me aldrabão e dizer porquê.
Eu não tenho nenhum!
Notícia a conjugar com esta, da semana passada:
http://www.rtp.pt/noticias/index.php?art icle=763791&tm=6&layout=122&visual=61
Um carro novo é o dinheiro mais mal gasto do mundo, desvaloriza 40% no mínimo nos 3 primeiros anos, mas essas contas ninguém faz nem parecem contar para os orçamentos familiares, a opinião dos vizinhos conta mais.
Imaginemos um carro de 15 mil euros, em 3 anos perderam-se 6 mil euros ou 2 mil por ano ou quase 170€ por mês, isto se nenhum empréstimo tiver sido contraído.
Pela parte que me toca, não fosse a saída de divisas, isso até é simpático pois há 40 anos que compro carros em 2ª mão da gama média e até média-alta com relativamente poucos kms e nos representantes das marcas (portanto com garantias sérias)pelo preço de carros mais vulgares, carros esses que com mais 100 mil kms em cima ainda estão melhores que os outros estariam ao fim de 100 mil kms ( e não promovo a saída de divisas por aí).
Há carros estupendos aí espalhados pelo país em que ninguém pega, não tendo a mania dos carros mas sendo um curioso dessas coisas aconselho o “estudo” da matéria a eventuais interessados.
Quanto ao tema aqui em questão e como costumo dizer cá me mantenho fiel ao meu “stupidphone”, até tenho um de reserva para quando este pifar…
Não 12 mas 123 milhões!
Do JN:
Os dados mais recentes da Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição (APED) indicam que no primeiro semestre de 2014 foram gastos cerca de 123 milhões e 261 mil euros em smartphones.
Obrigado pelo reparo e parabéns pela perspicácia: de facto, o teclado tinha-me “comido” o 3 final. São 123 milhões(!)
Vou corrigir.
Concordo em absoluto ! E porque não? Eu, por exemplo estou a dormir há 2 noites na 5a Avenida, a aguardar ansiosamente o dia 19 para poder ser umas das primeiras a adquirir o novo iCoiso!
E nem sequer podemos contestar o facto de que a estatística prova inequivocamente que a maioria dos portugueses tem algo smart consigo…
Eu não vejo nenhuma “luz ao fundo do túnel” neste consumismo de produtos importados. Foi esta coisa que trouxe Portugal até à triste situação em que se encontra.