A cruzada das crianças mais parece tirada de um livro de ficção. Rodeada de lendas, motivo para romances e narrativas populares que distorceram um pouco o que se conhece da realidade, esta peregrinação aconteceu de facto no início do século XIII, quando a civilização europeia sofria vagas de ardor religioso, num tempo em que a vida era curta, marcada pela superstição, dominada pela doença e pela violência extrema do quotidiano.
Esta foi uma época de fé ilimitada, em que os poderes sobrenaturais explicavam o destino humano. Foi também um tempo de guerra religiosa, o que implicou tradicionalmente violência extrema e sem quartel. A história da Cruzada das Crianças envolveu vários milhares de jovens, mas eram de baixos estratos da população, o que significa que este enorme drama deixou rastos históricos ténues. De forma apropriada, um dos protagonistas era pastor, ocupação que do ponto de vista simbólico tinha ligação imediata ao cristianismo e à religião.
Em 1212, ocorreu uma vasta movimentação de europeus que tem intrigado os historiadores. Sendo difícil distinguir a parte factual da parte lendária, sabe-se que a Europa do início do século XIII viveu num clima de intensa religiosidade, que podia ter criado uma civilização fanatizada. Nesse mesmo ano, foi mobilizado um vasto exército cristão que combateu em Espanha, proporcionando ali uma vitória esmagadora sobre os sarracenos, em Navas de Tolosa, no Verão de 1212, onde ficou definitivamente estabelecido que os cristãos iriam dominar a Península. Curiosamente, nesta batalha participou um contingente português, embora sem a presença do rei, Afonso II, que era doente e enfrentava graves problemas internos. O monarca, cujo cognome é o Gordo ou o Gafo, era neto de Afonso Henriques e ascendera ao trono em 1211, aos 26 anos.
Em simultâneo, ocorreu uma mobilização militar cristã no centro da Europa, cujo objectivo foi o de sufocar uma perigosa heresia que ganhara vasto apoio popular. Conhecido por Cruzadas Albigenses, este episódio provocou grande mortandade no sudoeste da França. A guerra duraria entre 1209 e 1229, saldando-se pela eliminação dos heréticos Cátaros, uma seita maniqueísta que acreditava no poder do bem e do mal, portanto, também na capacidade criadora de Satanás. A Igreja recorreu a meios extremos para eliminar os hereges, que foram mortos, expulsos das suas propriedades ou convertidos à força. A inquisição, criada neste período, continuaria a reprimir as populações muito depois da guerra ter terminado. Houve extraordinária perturbação económica e muitas pessoas deambulavam sem rumo.
Foi neste ponto, em 1212, que surgiu o episódio da Cruzada das Crianças, que se estabeleceu mais tarde como lenda, reforçada sobretudo devido a textos românticos posteriores que lhe acrescentaram fábulas e fantasias. Sabe-se hoje que existe uma base autêntica na história, sendo verdadeiras as duas personagens principais referidas na tradição, um pastor francês chamado Estêvão (Etienne) de Cloyes, e um camponês alemão referido como Nicolau de Colónia. Do pastor francês conta-se uma história mirabolante, segundo a qual o jovem tentou entregar ao rei de França, Filipe Augusto, uma carta escrita pelo próprio Jesus Cristo, onde se exigia ao monarca que organizasse uma cruzada à Terra Santa.
A Europa estava entre duas cruzadas (a quarta, lançada em 1202, e a quinta, entre 1217 e 1221), mas também se debatia com problemas de sobrepopulação e revoltas camponesas. Ignorado ou rejeitado pelo rei, Estêvão começou a pregar e organizou uma grande movimentação de peregrinos, com cruzes, estandartes e regras próprias. Também no Verão de 1212, surgiu um fenómeno semelhante na Renânia alemã e os historiadores não conseguem explicar a impressionante coincidência. Estarão as duas marchas ligadas? Ninguém sabe ao certo, embora estes factos se possam explicar pela circunstância de existir em ambos os locais um clima religioso apropriado a fenómenos de exaltação e arrebatamento. Há quem defenda a tese de que houve mais peregrinações de menor dimensão, coagulando em dois grandes focos de “ansiedade comunitária”, os quais se podem até ter juntado um ao outro, embora seja mais provável a tese de existirem apenas dois grandes movimentos separados (1).
Os números da lenda afirmam que a peregrinação de Estêvão juntou 30 mil crianças e a de Nicolau talvez 20 mil, mas pode ter havido outros grupos e os números não são verificáveis. As fontes documentais sobre a cruzada identificam os peregrinos como “pueri”, palavra latina que significa “crianças”, mas sabe-se que estes grupos de peregrinos em vagabundagem incluíam adolescentes, também homens maduros e até idosos e raparigas. Na sua maioria, estes pueri eram camponeses sem trabalho e sem hipóteses de casar, pois na altura era preciso pagar o dote e a pobreza extrema dificultava os noivados. Alguns pormenores das crónicas dão a entender que Estêvão, sobretudo este líder, estaria já na idade viril.
Os historiadores franceses têm dúvidas sobre a possibilidade de 30 mil peregrinos atravessarem o sul de França sem deixarem rasto documental e autores como Christopher Tyerman não dão grande credibilidade às informações sobre a viagem de Estêvão até Marselha, sublinhando que estas procissões “desapareceram rapidamente dos registos”. As multidões em movimento apelavam a uma vida mais correcta e à libertação da Terra Santa. Os peregrinos participavam numa penitência colectiva, mas existe um possível motivo social para a concretização deste drama: “Alguns relatos afirmam que os participantes não eram provenientes das hierarquias habituais do poder social (jovens, raparigas, os solteiros, por vezes excluindo até as viúvas) ou do estatuto económico: pastores, lavradores, carreteiros, trabalhadores agrícolas e artesãos rurais sem estabelecimento fixo na terra ou na comunidade, desenraizados e nómadas” (2). Em resumo, estavam envolvidos os mais pobres e os excluídos, não havia liderança da hierarquia religiosa ou da aristocracia e os objectivos da peregrinação eram difusos e vagos.
Os documentos sobre este acontecimento sugerem que os grupos de peregrinos não tinham permissão para entrar nas cidades, devido ao medo das epidemias. Sem apoio, porventura até expulsos e hostilizados, sofriam fome e sede. Muitos “cruzados” foram atacados e espancados ou morreram no caminho. A enorme movimentação de gente transformou-se numa lenta agonia. O grupo alemão, chefiado por Nicolau, que segundo as crónicas terá tentado atravessar os Alpes, foi dizimado por avalanchas e pelo mau tempo. As crianças viajavam descalças e a maioria morreu de fadiga ou doença. Certamente, terá havido outros que abandonaram a peregrinação e, vencidos pelas dificuldades, foram ficando pelo caminho. Não se sabe o que lhes aconteceu, mas talvez tenha sobrevivido um número razoável, transformando a peregrinação também numa migração.
Segundo as crónicas e a tradição, chegaram sete mil peregrinos a Génova, não havendo referência ao número dos que conseguiram chegar a Marselha. A história da cruzada de Estêvão de Cloyes, na sua versão lendária, conta que as crianças francesas foram enfiadas em sete navios e seguiram pelo Mediterrâneo (seriam pelo menos algumas centenas de sobreviventes). Dois destes navios afundaram com todos os passageiros e os restantes cinco foram capturados por piratas da margem sul do Mediterrâneo (com a possível conivência dos armadores, que lhes tinham garantido transporte para o Levante).
As crianças que sobreviveram a esta calamidade foram escravizadas. Ainda segundo a lenda, houve mártires que recusaram converter-se ao Islão, tendo 400 deles sido bem tratados por um califa bondoso. Enfim, ainda segundo os pequenos farrapos de informações, vários peregrinos acabaram o seu percurso a servir como intérpretes no Cairo. A cruzada dos jovens alemães também acabou mal, embora alguns tenham chegado a Roma. Dos sete mil que tinham chegado a Génova, restavam mil, que segundo uma crónica partiram por mar para Jerusalém, para nunca mais serem vistos. A tradição de um mosteiro alpino sustenta que Nicolau participou numa expedição à Terra Santa, tendo combatido na batalha de Damieta, junto ao Nilo, anos depois.
Enfim, talvez Estêvão e Nicolau não tivessem a importância que parecem possuir nos textos da época, talvez tudo isto não passasse de uma histeria colectiva, com dezenas ou centenas de grupos de crianças a percorrerem a Europa, pregando a guerra santa em troca de esmola, em grupos que se formavam e desfaziam, ao sabor das marés do acaso. Talvez tudo isto corresponda a uma história verídica, mas exagerada pela incerteza medieval. A história presta-se à imaginação e não admira que a Cruzada das Crianças tenha inspirado escritores românticos. Os conflitos de religião foram sempre motivados pelo fanatismo e o fervor, mas também pela ambição e a ganância. Neste caso, uma excepção, tudo parece bem mais infantil e ingénuo: os espíritos fracos são os primeiros a embarcar em guerras santas. Se aconteceu na realidade como contaram as crónicas, a Cruzada das Crianças sugere que a civilização europeia era bastante frágil e a sua sobrevivência e posterior triunfo tem sem dúvida um lado miraculoso. Do ponto de vista do longo drama da humanidade, esta é também uma terrível história sobre a inocência e a tolice.
(1) A Guerra de Deus, Uma nova história das Cruzadas, Christopher Tyerman, Aletheia
(2) idem


Obrigada por trazer para aqui este tema, por mim também já referido (não de maneira tão completa) no meu blogue. Sem dúvida um dos episódios mais nebulosos da já de si nebulosa Idade Média.
O século XIII seria, no seu todo, marcado por extremismos religiosos, que inclui o fenómeno das emparedadas. Nós temos o nosso próprio símbolo: a rainha Santa Isabel. De facto, a consorte de D. Dinis era, por assim dizer, uma criança do seu tempo, em que as damas piedosas se sujeitavam aos mais variados sacrifícios. Não é por acaso que uma sua parente afastada, também chamada Isabel (Elisabete), foi igualmente canonizada, depois de ter morrido muito jovem, sujeita a jejuns e sacrifícios impostos pelo seu confessor e que lhe devem ter dado cabo da saúde. Ficou conhecida como Santa Isabel da Hungria e da Turíngia e confunde-se muitas vezes com a nossa Santa Isabel, pois também lhe é atribuído um milagre das rosas. Exulta-se o seu espírito de sacrifício e a sua caridade, mas raramente se pensa no facto de ela ter deixado duas pequenas crianças órfãs.
Enfim, também não deixa de ser curioso que Santa Isabel fosse a mãe de um rei responsável por um dos episódios mais trágicos da nossa História (já em pleno século XIV): D. Afonso IV, que teria mandado executar Inês de Castro. Muitas vezes penso que é curioso que uma mãe tão perfeita e caridosa não conseguisse transmitir esses mesmos valores ao próprio filho.
Muito haveria para dizer sobre o século XIII, o século de São Francisco de Assis e Santa Clara, que se iniciou com este episódio lamentável da Cruzada das Crianças.
Se por acaso quiser ler (o pouco) que escrevi sobre o tema, a propósito de um romance histórico alemão, pode fazê-lo aqui:
http://andancasmedievais.blogspot.de/201 1/07/cruzada-das-criancas.html
Agradeço muito esta referência e parabéns pelo seu excelente blogue.
Obrigada.