Controlar o passado


Luís Naves,

As interpretações mais comuns sobre o livro de George Orwell, 1984, centram-se nos perigos da tecnologia e na omnipresença da vigilância. Segundo essa visão, a maior originalidade do romance está na personagem do Grande Irmão (Big Brother) que vê e controla tudo aquilo que as pessoas fazem.

Há outra forma de olhar para este livro, como crítica arrasadora do estalinismo e da dupla linguagem que define o combate político, fenómeno que existiu nas ditaduras comunistas. O romance tenta reflectir sobre o totalitarismo e o esmagamento do indivíduo pelo colectivo, mas a maior originalidade estará porventura na novilíngua que o regime tenta criar, sobretudo na ideia de que a simplificação da linguagem é um mecanismo de limitação da liberdade.

O romance gira também em torno da alteração do passado, que assegura a longevidade da ditadura. A personagem principal, Winston Smith, tem essa função, actualizar os documentos, ou seja, a rescrita das fontes históricas, mas a vigilância continua a ser o elemento mais citado do livro, sempre como exemplo, quando surgem inovações tecnológicas que sugerem acumulação de poder (acções policiais, a espionagem que intercepta chamadas, as teorias de conspiração sobre grupos de influência). E, no entanto, as tecnologias têm funcionado contra a ideia de Big Brother, muito mais no sentido da fragmentação, dificultando o controlo da informação por um único utilizador. A questão do controlo da privacidade é fundamental no livro, mas não representa a lição central para o nosso tempo.

Onde o livro se torna mais inquietante e até presciente é no tema da novilíngua ao serviço do poder e do duplopensar, ou seja, na capacidade da política de dizer uma coisa e o seu contrário. A actualidade tem excesso de dados, mas as tecnologias digitais facilitaram a alteração do passado. No tempo em que o livro foi escrito, 1948, mudar uma fotografia exigia uma técnica elaborada, mas agora trata-se de uma banalidade. Por outro lado, a realidade é incerta, pois determinada informação pode ou não ter sido manipulada, sendo difícil detectar as fraudes. Esse é o autêntico Grande Irmão que sobrevive do romance de Orwell: quem controla o passado, controla o futuro.

Há outros elementos de génio em 1984, por exemplo o uso da guerra para reforçar o controlo das elites sobre as massas, a destruição do amor e a eliminação de palavras, sem as quais deixa de ser possível formular certas ideias.

3 comentários em “Controlar o passado”

  1. Tenho de reler esta obra agora com olhos de adulto e distante da mentalidade jovem e das esperanças no futuro para Portugal ainda vivas do 25 de Abril. Curiosamente, estou a ler uma obra de um autor que para muitos complementa Orwell: “A Ilha” de Aldous Huxley, ainda é cedo para saber como acabará, mas para um livro de 1962, começam a surgir-me muitos alertas previdentes sobre os riscos para a liberdade e a felicidade neste mundo globalizado de hoje. Nomeadamente o problema de um Estado como o nosso estar atado por forças mais fortes.

  2. O grande mérito de George Orwell (de quem sou grande fã e que referi em vários posts) foi expor de forma muito clara alguns dos mecanismos de manipulação da informação usados pelos governantes da URSS dessa época, mecanismos que sempre existiram, nos governantes e no povo em geral, mas cuja intensidade estava a aumentar perigosamente.

    Um bocado como o aumento do grau das diferenças entre o que os políticos prometem antes das eleições e o que fazem quando as ganham, grau esse que foi levado a patamares nunca atingidos pelo actual governo.

    Na luta de significado é exemplo o termo muito actual “buraco no orçamento criado pelo Tribunal Constitucional”, como se o Tribunal Constitucional fosse responsável pelas incontitucionalidade das normas aprovadas pelo governo.

    A deriva do significado das palavras, que não se faz de forma unívoca em todas as línguas, como referi neste post (http://imagenscomtexto.blogspot.pt/search?q=esquisito) é a prova da existência dessa luta, mesmo em temas apolíticos como na palavra “esquisito”.

    Na tradução dos textos sagrados essa deriva coloca problemas muito complicados como referi aqui (http://imagenscomtexto.blogspot.pt/2008/04/adeso-da-turquia-ao-alfabeto-latino.html).

    E o passado sempre foi objecto de algum controlo se bem que em dimensão mais modesta do que nos regimes totalitários. Um exemplo que me ocorre é o dos livros de História por que passei no liceu em que existia a data de conquista de uma dada terra alentejana, e uma data posterior da reconquista dessa mesma terra. Existia pudor em referir a data da nossa derrota intermédia, que era pudicamente omitida.

    Outro exemplo simples de tentar controlar o passado é a afirmação que o contabilista do GES (enfim, de algo ligado aos Espírito Santo) tinha ocultado um déficit de 1300 milhões de euros. Dada a grande inverosimilhança da afirmação, isto constitui um forte indício de tentativa de alterar o nosso conhecimento do passado.

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