O caminho das dúvidas


Luís Naves,

caminho1.png

Vivemos em tempos conturbados de política polarizada, como acontece em períodos de transformação rápida. O caminho parece denso e repleto de sombras, a nova crise económica é imprevisível, agigantam-se os estrondos da guerra, mas talvez a dificuldade mais longa seja a grande mudança de mentalidades que acompanha o estertor da ordem vigente. No fundo, são contestadas as regras impostas pela hegemonia ocidental. A ordem triunfante inclui globalização do comércio, o poder financeiro, a força militar mais poderosa da história, o domínio da língua inglesa, o todo-poderoso dólar norte-americano, as ideias de Hollywood e a internet.
O Ocidente tenta impor a todas as sociedades esta visão de uma ordem baseada nas suas regras. É messiânico, os tradicionalistas devem ver a luz, têm de abandonar as maneiras desprovidas de equidade que os levaram à submissão. A política ocidental usa sanções e narrativas noticiosas, aparentemente não tem ideologia, mas lembra o comunismo de antigamente, com as suas manhãs que cantavam. Não há dúvidas sobre a justiça e perfeição do nosso modelo, quem se questionar é um radical. Os outros países devem alterar o que lhes resta da parte fossilizada das suas defuntas civilizações, nomeadamente autoritarismo, estrutura familiar, superstições, a própria noção do belo.
Nós também teremos de mudar, precisamos de ter vergonha da religião dos nossos pais, de pagar indemnizações pelo tráfico de escravos, de sentir o tom pálido da pele como um ferrete de injustiça passada, de renunciar às imposições biológicas de género. Teremos de aceitar que os transexuais acabem com o desporto feminino em nome da equidade, que as crianças sejam educadas na escola com grandes confusões sobre a sexualidade. A correcção política implica que os próprios resultados eleitorais possam ser revertidos quando ganharem os partidos maus que só querem andar para trás. As massas precisam de ser ensinadas por gente iluminada. A revolução cultural pode começar em coisas pequenas, mas as revoluções nunca sabem parar.

imagem Dall-E, IA

Desigualdades e guerra


Luís Naves,

rise.jpg

As elites ocidentais beneficiaram durante as últimas três décadas da prosperidade gerada pela chamada ordem liberal, que triunfou após a queda do Muro de Berlim, em 1989. Muitos países enriqueceram imenso, mas as desigualdades internas aumentaram em cada um deles. A questão da distribuição desigual dos benefícios da globalização tem sido muito discutida (por exemplo, aqui, onde se fala da derrota da classe média). Os EUA mostram números impressionantes. A riqueza cresceu de forma espectacular, mas a metade mais pobre da população empobreceu em termos reais: a média de 21 mil dólares em 1989 baixou para 16 mil em 2016. Os 10% do topo amealhavam 67% da riqueza total em 1989, mas essa fatia crescera em 2016 para 77% do bolo americano, que entretanto se tornara muito maior. Formaram-se fortunas que, em proporção, rivalizam com os Crassus e Herodes da antiguidade.
Vemos os gráficos sobre a distribuição da riqueza e é difícil acreditar, embora estes sejam cruciais para explicar o fenómeno Trump. Os homens de Davos controlaram o planeta, mas a mudança da ordem global provocada pela guerra da Ucrânia e a rivalidade comercial com a China afectou de forma directa os numerosos interesses destas elites. Os dois conflitos perturbaram o sistema financeiro e mudaram o comércio internacional, há uma vaga de reindustrialização na Europa e nos Estados Unidos. O sistema está a fragmentar-se em dois blocos e cada nação terá de escolher o seu lado. A partir daqui, torna-se difícil travar o passo da mudança. O comércio global vai recuar, a energia e as matérias-primas serão mais caras.
Países de África, América Latina ou Médio Oriente parecem pouco dispostos a seguir as regras anteriormente impostas pelos interesses das grandes fortunas euro-americanas. Isto é visível no regime de sanções financeiras, que não prejudica apenas a Rússia, mas quase toda a gente. Muito do que ouvimos dos dirigentes ocidentais corresponde a um lamento atrás do outro, como quem diz que seria bom que se pudesse voltar para o antigamente.
Torna-se também mais compreensível a insistência numa guerra que, no mínimo, deixa a Ucrânia destruída, e que, no pior dos cenários, nos pode conduzir a um holocausto nuclear. Basta um erro, uma má interpretação do resultado de uma batalha, basta que alguém perca o sangue-frio, e teremos ogivas nucleares em voo. Se houver sobreviventes, a guerra nuclear funcionará como um grande mecanismo de igualdade, o rico igualzinho ao pobre.
Não sabemos bem o que vai acontecer, se teremos escalada ou processo de paz. Os sinais são contraditórios. Ninguém diz com clareza o que pretende, embora do lado ocidental uma das intenções seja certamente a preservação de um sistema económico que durante trinta anos trouxe muita prosperidade, mas sobretudo aos milionários. Essa ordem global beneficiou desproporcionadamente uma classe que não pode nem quer abdicar do privilégio.

imagem Night Café, IA

Analogias


Luís Naves,

war1.jpg

Na análise da situação internacional, encontramos muitas analogias com 1938, Neville Chamberlain e o acordo de Munique. Julgo que esta é uma forma eficaz de eliminar à nascença qualquer possibilidade de paz na Ucrânia, pois não se negoceia com um ditador como Hitler, conversa acabada, não se faz um acordo com o diabo. Estas interpretações omitem um facto da maior importância: o erro de Chamberlain não foi ter assinado um acordo de paz, mas ter recusado um entendimento com outro tirano, Estaline, semanas antes de aceitar a cedência de território checoslovaco aos nazis. Os aliados chegaram a Munique em desvantagem e, claro, foram enganados.
Chamberlain era um homem extremamente conservador e foi incapaz de conceber a ideia de se aliar ao dirigente comunista, cercando a Alemanha em 1938, o que provavelmente teria levado os generais alemães a tentarem um golpe contra Hitler. O PM britânico não negociou com Estaline por achar que Hitler era mais razoável do que o georgiano. Isto foi uma escolha, pelo menos na versão inglesa, que pode ser lida aqui. Do ponto de vista de Londres, a URSS era uma ameaça maior do que a Alemanha. Os polacos concordaram. Depois de Munique, os checos pediram ajuda a Moscovo, mas a oportunidade perdera-se e as tropas soviéticas não tinham por onde passar.

 

O que pensavam os soviéticos? As fontes ocidentais dizem que isso é pouco claro. Facto: Estaline não confiava em Chamberlain. O biógrafo Stephen Kotkin, que analisou o arquivo do próprio Estaline (isto vem no segundo volume da monumental biografia Stalin, Waiting for Hitler), diz que o Kremlin queria uma aliança com as potências ocidentais, a qual deveria incluir polacos e checos. Chamberlain e polacos recusaram as tentativas diplomáticas, a URSS nem sequer participou na conferência de Munique. A decisão foi um erro e quase arruinou o Reino Unido e a URSS. Aliás, Estaline fez mais tarde um pacto com Hitler, sem qualquer ilusão de que seria atacado: pensou que tinha três anos de folga, foram só dois.
O que é melhor, paz ou guerra? Prolongar a paz, em 1938, quase destruiu os defensores do adiamento do conflito. Mas, vendo melhor, as semelhanças com a actualidade são fracas. Havia duas ditaduras e as nações democráticas tinham de pactuar com uma delas e escolheram mal o parceiro. A URSS era um país isolado e Hitler jogava com as ambiguidades e os ressentimentos: a ordem europeia baseava-se em regras definidas pelo Tratado de Versalhes, que tinha uma base étnica e nacionalista. Estas regras favoreciam Hitler e o antiquado Chamberlain dava alguma razão ao líder nazi.
Para explicar a actualidade, a analogia adequada é 1914. Os europeus não pensavam numa guerra generalizada, a economia era próspera, após anos de globalização acelerada e mudança tecnológica que favorecia a qualidade de vida das populações. Desencadear uma guerra era o domínio de líderes que ainda viviam no século anterior e que achavam que o conflito entre impérios duraria escassas semanas. As guerras coloniais eram fáceis e pouco dispendiosas. Por isso, os combates duraram quatro anos e destruíram a Europa. Há quem diga que essa guerra, na realidade, só terminou em 1945. Ninguém pensou que os piores pesadelos podiam ser concretizados.
Hoje, nas notícias, parece que estamos a ler os capítulos do livro de Christopher Clark Sonâmbulos, Como a Europa foi para a Guerra em 1914, obra que explica os colossais erros políticos cometidos por uma elite fora da realidade. Havia cinco potências, mais quatro secundárias, mas a grande rivalidade era entre Alemanha e Grã-Bretanha. França, Rússia e Áustria-Hungria também afiavam as facas e competiam na expansão imperial.
No nosso caso, há três potências nucleares à beira de um choque e duas delas já se enfrentam quase directamente, numa situação extremamente perigosa. A grande rivalidade é entre China e Estados Unidos. A guerra da Ucrânia deverá definir a fronteira entre os impérios americano e russo, mas está a provocar uma separação económica entre dois grandes blocos, com as potências menores a terem de afinar as suas alianças e interesses (Irão, Índia, Brasil). A guerra generalizada não é inevitável: tem havido intervenções claras a avisar para os perigos, também análises lúcidas a explicar o que podemos perder. Infelizmente, estas vozes são pouco escutadas.
A Europa suicidou-se em 1914 e quatro impérios colapsaram. O número de mortos foi tremendo, talvez 40 milhões de pessoas em quatro anos, o que dá uma média de 27 mil por dia. Hoje, um conflito semelhante teria armas nucleares e, se tudo corresse mal, seria o provável fim da civilização e talvez até o suicídio da humanidade.

Crimeia


Luís Naves,

fronteira.jpg

Qualquer interpretação sobre a guerra da Ucrânia que não acompanhe a visão dominante dos meios de comunicação é recebida com intolerância, mas vamos lá tentar sair um bocadinho da lenda. A Ucrânia arrisca-se a ser um estado falhado ou um protectorado euro-americano que levará 40 anos a sair da pobreza. Em Abril do ano passado, houve uma hipótese de paz desigual, mas pressões ocidentais acabaram com o processo. Isto, por exemplo, ainda não está explicado. Entretanto, morreram pelo menos outras cem mil pessoas. O conflito terminará provavelmente num armistício segundo o modelo coreano, com uma fronteira mais ou menos igual à que se negociava há um ano, mas é difícil escrever estas coisas sem receber insultos.
A Rússia não pode abdicar da Crimeia nem retirar o apoio aos russófonos separatistas. Esta é uma questão histórica complexa, (há muita literatura, mas quem estiver interessado deve ler isto). A Crimeia está empapada de sangue russo derramado ao longo de três séculos. Não há nenhum líder do Kremlin que possa abdicar daquele território, sobretudo entregue de bandeja aos Estados Unidos. É como perguntar em Washington que interesses vitais da América podem ser cedidos à China (Florida, Porto Rico, o Panamá?).

 

No início do conflito, o presidente Biden foi claro: o objectivo do Ocidente é mudar o regime do Kremlin. Outros dirigentes de topo têm afirmado que a intenção é desmembrar a Rússia e criar uma confederação domesticada que sirva para cercar a China (explicado aqui). A estratégia do urso de circo parece ter falhado. O Kremlin não ruiu, as sanções tiveram impacto limitado e a qualidade dos armamentos fornecidos chegou aos seus limites. Se o arsenal à disposição dos ucranianos subir de patamar, há risco de uso de armas nucleares.
Quando entramos nas subtilezas, o assunto torna-se ainda mais complicado. Antes da invasão russa, o exército ucraniano estava a ser armado e a intenção era expandir a NATO, colocando a fronteira da aliança a escassos 400 quilómetros de Moscovo. Em Março de 2021, o presidente Zelensky da Ucrânia assinou um decreto a ordenar ao seu exército que recuperasse os territórios perdidos (Crimeia e repúblicas separatistas); em Novembro de 2021, houve um acordo com os Estados Unidos de apoio militar, onde se dizia que a Crimeia “jamais” seria russa. Em 2014, ocorrera a chamada “revolução de Maidan” que foi, na realidade, o derrube de um governo eleito, no âmbito de um conflito antigo entre nacionalistas e pró-russos. Na argumentação a preto e branco, é geralmente omitido que existia uma guerra civil na Ucrânia desde essa data e que o governo bombardeava a sua própria população.
A ideia de um regime democrático exemplar é um mito: companhias ocidentais estavam num processo de compra de terras (as mais férteis da Europa), e havia na Ucrânia muitos nostálgicos do nacionalismo de Stepan Bandera, a Ucrânia para os ucranianos. Isto significa apenas metade da população de 1991 (agora talvez dois terços), o resto emigra ou aceita. Escrever estas coisas é hoje equivalente a ser comunista e merece imediata conotação com os reaccionários de Moscovo.
Não se pode escrever que em 2022 o maior partido da oposição foi proibido na Ucrânia, televisões russófonas foram encerradas, que a igreja ortodoxa tradicional (dependente do patriarcado de Moscovo) é perseguida sem luvas, como são destruídos os livros em russo. Também não se pode dizer que os serviços secretos ucranianos prendem meia dúzia de pessoas por dia (por dia!) acusadas de “colaboracionismo” ou de “espionagem”, para não falar do recrutamento forçado ou da desmoralização dos soldados enviados para o talho do Donbass.
Em Moscovo, este é um conflito existencial: em caso de derrota, o império será desmembrado, por isso a derrota não é um cenário. A Rússia vai separar-se do Ocidente e os europeus perdem acesso a energia, fertilizantes, comida e minerais baratos. O comércio será limitado. O gasoduto que levava gás natural a preços ultra-competitivos da Rússia para a Alemanha pelo Báltico foi destruído à bomba. A Europa sai de tudo isto dividida e humilhada e a Ucrânia é o campo de batalha entre dois impérios.

Nostalgia


Luís Naves,

cinema.jpg

Apesar de tudo, resta-nos a nostalgia. Nos anos 80, as raparigas eram magricelas e apenas um bocadinho mandonas. Nos amores e na vida, não havia os exageros desta nossa época de plástico, de bebés-chorões e autênticos-falsos. As questões de identidade ainda não dominavam a vida das sociedades e, embora o assunto fosse discutido, não havia terrores climáticos. As velhas fotografias encheram-se de um estranho cor-de-rosa a envolver o grão, mas ainda conseguimos ver o cabelo esquisito e as roupas descoloridas e os carros, cujos motores ronronavam como gatos felizes. Lembro-me de quase tudo: as pessoas sorriam umas para as outras, pois era assim naquele tempo, de jornais a preto e branco e televisores todos com o mesmo programa. Não era crime ser conservador, tínhamos medo da guerra nuclear, ao contrário do que sucede nesta nossa época irreflectida que, tendo perdido o medo, anda a acender fósforos nos paióis. Havia pânico nos mercados, a inflação doía, mas os eleitos tinham mais autoridade e as instituições pareciam sólidas. Hoje, autoridade tornou-se uma palavra suja e os políticos descrevem-se em frases curtas. Nos anos 80, os nossos computadores eram brinquedos complicados, ainda recém-nascidos, pouco se fazia com eles. Agora, temos máquinas inteligentes que cabem no bolso do casaco, frigoríficos pensativos e caixinhas com bibliotecas, mas já não temos tempo para pensar ou escrever um poema que não seja sintético, nem discutimos as dúvidas calmamente sentados à mesa. Vamos ao cinema e vemos umas películas violentas, com fogo-de-artifício e nenhuma ideia, ao contrário daquele tempo, quando o escuro da sala servia também para namorar jovens magricelas. Ganhámos em cinismo e solidão, deixámos de saber se aquilo que vemos é verdade ou mentira. Perdemos em quase tudo: a música era mais inocente e genuína, a liberdade tinha mais sonho e ousadia, a vida não precisava de ser aumentada.

Um romance sobre o primeiro Trump


Luís Naves,

kane.jpg

Gore Vidal (1925-2012) publicou em 1987 o romance Império, sobre a forma como os EUA subiram de patamar no poder internacional, em 1898. O livro conta a história de famílias da elite americana e o próprio Vidal fazia parte desse núcleo, o que facilitou o seu trabalho de misturar personagens de ficção com pessoas que existiram. Uma das figuras reais do livro, William Randolph Hearst, inspirou o filme Citizen Kane, de Orson Welles (na imagem), e ainda hoje é uma lenda tão fascinante como a do seu imitador, Donald Trump. Hearst nasceu em 1863 e, na altura da intriga do romance, rondava os 40 anos. Ele pode ser considerado um dos fundadores do império americano, pois as ambições coloniais dos EUA foram estimuladas pela imprensa da época, que por essa altura se tornou uma influente indústria de massas.
Hearst tinha muito dinheiro e nos anos 90 do século XIX criou uma rede nacional de jornais que partilhavam colunas e noticiário sensacionalista. Em 1904, o magnata tentou ser presidente e quase conseguiu, entrando numa rivalidade política e simbólica com Theodore Roosevelt, que viria a ser eleito. Aqui, convém recuar um pouco no tempo: Roosevelt foi outro dos fundadores do império, famoso pelo seu papel na batalha de San Juan, em Cuba, durante a Guerra Hispano-Americana de 1898.

Este conflito com o império espanhol foi alimentado pela rivalidade entre Hearst e o outro magnata da imprensa, Joseph Pulitzer. O tema domina o romance de Vidal, que abrange vários anos, sendo que uma das consequências da guerra foi a aquisição das Filipinas, onde uma rebelião nativa seria depois suprimida com grandes atrocidades do lado americano.
Uma das questões do livro de Vidal é o aparecimento da nova forma de jornalismo desenvolvida por Pulitzer e Hearst, que nos EUA é conhecida por ‘Imprensa amarela’. Por outro lado, havia diferenças de classe: Pulitzer era emigrante, Hearst pertencia a uma das melhoras famílias da América e podia ser candidato a presidente. Em 1904, tinha adoptado toda a linguagem dos populistas democratas e os seus jornais empurravam a candidatura, mas cometeu o erro de subestimar a força da máquina partidária. Embora fosse milionário, Hearst aderiu ao partido das massas e falhou a nomeação por pouco. De outra forma, teria enfrentado o candidato das elites, Theodore Roosevelt, e talvez ganhasse.
Vendo bem, o romance de Gore Vidal é dominado por estas duas personagens secundárias da intriga, mas sobretudo pelo magnata da imprensa. Hearst surge nos diálogos dos aristocratas americanos como um verdadeiro traidor da classe dominante. O autor até parece ter tido receio no uso excessivo da figura, como se existisse uma maldição a aguardar quem o tentasse fazer (Orson Welles vem à memória).
No final de Império, há uma cena entre Roosevelt e Hearst, que na vida real aconteceu sem testemunhas. Vidal imaginou o diálogo entre os dois, mas ao leitor fica a sensação de que o capitalista, mesmo assim, não foi bem explicado pelo autor.
Quando publicou Império, Gore Vidal não podia saber que haveria um segundo Hearst no romance da América. Essa personagem surgiu com toda a força em 2016, já depois da morte do escritor: Chama-se Donald Trump, é um milionário de Nova Iorque, capaz de manipular emoções e notícias, traidor da sua classe social e líder de uma ameaçadora onda populista. Criado pela televisão e mestre da frase curta, Trump compreendeu o descontentamento das massas acumulado pela crise financeira e concebeu um movimento irresistível, que tomou conta do Partido Republicano (que até aí sempre fora das elites). A imprensa achou que ele era uma piada, mas o candidato venceu as presidenciais e, na Casa Branca, foi atacado como nenhum outro presidente antes dele, nem sequer Theodore Roosevelt.
Os poderosos da América odeiam Trump intensamente, como odiaram Hearst. Após a derrota humilhante de 2020 e uma travessia do deserto, o segundo populista milionário é de novo candidato à nomeação pelos republicanos. Hoje, será também o primeiro ex-presidente acusado de um crime, num caso com méritos duvidosos que lançou um circo mediático. O medo também se repete, no caso de Hearst na fase ascendente da América, com Trump no início da queda desta grande nação. No Partido Republicano a luta pela nomeação ficou mais estreita e, tendo em conta a crise financeira que parece inevitável, Trump pode vencer em 24. A acusação judicial divide o país, metade da América está irritada com aquilo que vê como perseguição política do seu ídolo, a outra metade parece fascinada com o capítulo Vingança, do excelente romance Declínio.

Um conflito entre bons e maus


Luís Naves,

O interesse pela guerra da Ucrânia está a diminuir e parte da opinião pública começa a ter dúvidas sobre a narrativa dominante, segundo a qual estamos perante um simples conflito entre bons e maus. Tem sido difícil interpretar os factos de outra forma, pois as dúvidas sobre a natureza da realidade são rapidamente transformadas em colaboracionismo e apoio a ideias totalitárias. Alguém que se atreva a enunciar a perspectiva russa procura um novo tratado de Munique. O problema é que já passou um ano desde que a Rússia ia perder a guerra na semana seguinte e os combates continuam; passou um ano desde que a Rússia ia à falência na semana seguinte e a sua economia continua a funcionar, aliás, está transformada numa economia de guerra.

Moscovo estabeleceu uma parceria com a China e os efeitos económicos no Ocidente ameaçam tornar-se permanentes, a energia e a comida serão mais caras. Onde está a prometida mudança de regime no Kremlin? Em lado nenhum, pelo contrário, Vladimir Putin parece mais forte do que nunca. As notícias dos triunfos iminentes do lado ucraniano são agora mais raras, pois não há nada para ver: As vítimas ucranianas, civis e militares, podem ultrapassar 300 mil, mortos talvez mais de 100 mil; o país está de rastos, com 8 milhões de refugiados, seis milhões de deslocados internos, 18 milhões de cidadãos dependentes da ajuda externa, grande parte da infra-estrutura destruída, economia reduzida a menos de metade. Se isto continua outro ano, a Ucrânia será um estado inviável, na melhor das hipóteses um protectorado ocidental. Houve negociações no ano passado, quase um acordo que, agora, será improvável (milhares de pessoas morreram para nada). Do campo de batalha, emergem por vezes vislumbres de uma realidade sombria: as forças de Kiev estão em desvantagem numérica de 2 para 1 em soldados, de 3 para 1 em carros de combate; as tropas são inexperientes e com muitos velhos nas fileiras, não há mais recrutas e quase não resta aviação. A imprensa tenta ao máximo esconder os problemas, como por exemplo a perseguição religiosa da igreja ortodoxa russa ou a destruição de livros russos. Na narrativa oficial não existe lugar para qualquer subtileza histórica, o simples facto de em 2022 subsistir uma guerra civil de oito anos durante a qual o governo de Kiev bombardeou a sua própria população no Donbass. A guerra da Ucrânia parece ser um conflito entre os impérios americano e russo, a intenção de Washington era derrubar o poder em Moscovo e desmantelar a Rússia criando estados aliados que serviriam para cercar a China. O plano falhou e a primeira vítima foi a Ucrânia, transformada em campo de batalha, os seus habitantes usados como carne para canhão. No plano internacional, há uma rebelião de países pouco entusiasmados com a hegemonia americana e que gostariam de diversificar as suas relações. A China é para já a maior beneficiária do conflito: evitou o cerco americano e está em condições de se aproximar de Moscovo, criando um bloco euro-asiático auto-suficiente. A Europa, que mergulhou no apoio a Kiev com um entusiasmo incompreensível, parece ser a grande perdedora, pois terá de repensar toda a sua economia. Os europeus estão divididos e procuram criar condições para a segurança alimentar e a autonomia energética, mas não parece haver nenhuma solução rápida, para mais as exportações para os mercados asiáticos dependem da China. Nada disto é discutido de forma séria. A Alemanha não pode levantar a questão da destruição do gasoduto Nord Stream 2, ninguém critica a iniciativa comunitária de compras de munições, falar nas ameaças nucleares é cobardia, considera-se normal que Washington interfira na política interna de democracias e toda a gente quer gastar uma pipa de massa em armamentos. A Terceira Guerra Mundial já começou, mas isto é entre bons e maus, não há nada a fazer.

28


Luís Naves,

As democracias têm muitas formas de entrar em declínio. Podem fossilizar, podem ser controladas por fanáticos ou oligarquias, podem não conseguir modernizar-se a tempo. Há exemplos de sistemas democráticos que não sobreviveram a desastres económicos ou quando as instituições do seu país começaram a esboroar-se por qualquer razão humana. Os regimes não são eternos e o sistema democrático pode no futuro tornar-se um anacronismo, porventura substituído por algo melhor que, por defeito de imaginação, ainda não concebemos. As democracias morrem quando não há escolha, quando nos impingem as mesmas mentiras, ditas pelas mesmas pessoas; quando os velhos partidos já não se renovam por senilidade e os novos começam a cometer os erros dos antigos. A democracia morre quando o que devia ser debatido livremente passa a ser discutido com pedras no bolso, com a intolerância a falar mais alto. As democracias morrem quando deixa de haver responsáveis e ninguém quer saber; quando se faz descaradamente o mesmo que antes se criticou aos adversários. A democracia está condenada quando há regras para os poderosos e outras regras para a maioria, quando deixa de haver escrutínio e equilíbrio, quando se instalam realidades manipuladas, mas é sobretudo durante crises económicas, feitas de insegurança e desespero, que crescem os piores sintomas da febre: falta de transparência, diabolização do outro e supressão de ideias.

27


Luís Naves,

A pandemia podia ter destruído preconceitos sobre aquelas profissões invisíveis que antes nem eram consideradas, mas que se revelaram cruciais para a sobrevivência. Bastava sair à rua durante a quarentena para perceber a importância dos trabalhadores dos supermercados, que corriam risco diário; era finalmente possível compreender a importância dos motoristas de transportes ou dos profissionais de saúde (tantas vezes maltratados); ou dos agricultores que continuaram a produzir os alimentos ou dos comerciantes de bairro que os distribuíam e vendiam. Houve um pequeno período em que se aplaudiram os esforços dos médicos e enfermeiros, mas essa fase emocional já passou. Quem é que hoje quer saber das condições de trabalho nos hospitais? Enquanto os dirigentes se protegiam, funcionários mal pagos e sem qualificações estavam nos sítios mais expostos, a arrumar produtos de supermercado, a conduzir viaturas, a proteger cidadãos, a recolher o lixo, a limpar resíduos perigosos e a assegurar a segurança das infra-estruturas. Muitos eram os mesmos indivíduos sem estudos que o neoliberalismo transformou em gente descartável. As pessoas comuns são melhores do que pensam os seus dirigentes, mas o povo continua a ser visto como o burro de carga que tudo consegue tolerar. É gente dispensável e sem influência, frequentemente precária e pobre, cuja voz não interessa. Os da linha da frente não pertenciam a castas instaladas, não formaram clientelas políticas e vão continuar a vergar a mola sem que alguém lhes agradeça.

26


Luís Naves,

Para se compreender o que se passa no mundo, julgo que é necessário considerar dois fenómenos aparentemente separados, a fragmentação das sociedades e a revolução mediática. Nos últimos quarenta anos, nos países avançados, o poder dependeu de uma classe média cuja satisfação era a prioridade de qualquer governante competente. Este grupo maioritário decidia eleições e confiava em meios de comunicação tradicionais que controlavam a circulação de ideias. Em cima da vasta alteração tecnológica que acabou com a estabilidade laboral, surgiu em 2008 uma crise que minou a confiança nas instituições e criou uma economia endividada e mais instável. Agora, chega o terceiro golpe consecutivo, a paragem económica completa por dois meses, que dará origem a falências e desemprego. A classe média, que era uniforme, divide-se actualmente entre uma metade que enriquece e outra que empobrece. Uns sentem-se inseguros, os outros mais confiantes do que nunca. A tudo isto, acresce o segundo fenómeno, que tem a ver com o controlo da circulação de ideias (ou de perspectivas da realidade). Os meios de comunicação tradicionais perderam esse controlo. Toda a gente tem um smartphone e pode filmar uma atrocidade na rua. As imagens espalham-se como um vírus, mesmo quando os fragmentos são incompletos ou fora do contexto. Já não há realidade única, mas muitas, algumas que se desmentem entre si, o que força a sociedade a dividir-se em bolhas, onde se refugiam tribos incapazes de aceitar pontos de vista alternativos. Com a pandemia e os seus efeitos, esta mudança geral só pode acentuar-se. A fragmentação torna difíceis as coligações, vai enfraquecer instituições e dividir alianças. A grande mudança não estará na relação entre potências, mas nas tensões internas de cada uma, alimentadas por descontentamento, guerras culturais e a percepção de insegurança. O tempo das potências é mais lento, mas todas terão problemas internos. Os EUA continuarão a liderar o mundo, a China terá dificuldade em contornar os obstáculos à sua ascensão, a UE depende da Alemanha para formar um núcleo duro de países e a Rússia precisa de gerações para superar as suas limitações demográficas.

25


Luís Naves,

António Vieira foi um dos maiores prosadores da língua portuguesa e uma das figuras marcantes do século XVII. Em várias ocasiões, enfrentou os poderosos e arriscou a vida com as suas críticas da escravatura e da brutalidade da colonização do Brasil. Apesar da grandeza evidente da obra, o padre tem em Lisboa uma estátua pindérica, que foi vandalizada por uns bárbaros que não compreendem nada. Pelo mundo civilizado proliferam hoje uns grupos minoritários que estão a lançar a moda da destruição das identidades nacionais: eles atacam símbolos, vandalizam o que lhe dá na veneta, desrespeitam as autoridades e desafiam as instituições democráticas. É um método de atacar liberdades e começa-se pela auto-estima de quem se pretende arrasar. Confunde-se protesto com rebelião, a crítica transforma-se em perseguição e assédio. As interpretações da história não são imutáveis e a nossa leitura do passado muda com as gerações, mas a revisão não pode ser feita por levianos. É um disparate aplicar a nossa grelha moral a pessoas do passado, que viveram em contextos diferentes. Um país que sempre menorizou ou perseguiu os seus maiores em vida, quer apagá-los de novo depois de mortos. António Vieira foi um grande escritor que devemos ler e admirar e foi também uma figura do seu tempo, que podemos tentar compreender melhor. A profanação da sua estátua em nome do anti-racismo é uma barbaridade imbecil, um crime contra o património da nossa nação. (E não tentem contestar a nossa liberdade de ter um património colectivo). Claro que estas guerras de cultura servem apenas para nos distrair das verdadeiras crises. Temos problemas de pobreza e má distribuição de rendimento, temos muito desemprego e teremos em breve ainda mais, vem aí uma hecatombe económica e não precisamos destas discussões parvas. Ou serão distracções oportunas?

Nota: Não vivemos em tempos de desistências. Sendo os meus textos aqui sistematicamente alvo de provocações de alguns comentadores que não apreciam o estilo, aviso que passarei a usar o privilégio de não aprovar comentários que, confundindo crítica com assédio, procuram condicionar ou distorcer as opiniões do autor.

24


Luís Naves,

Esta não será uma simples transformação nem foi apenas a quarentena que pôs as pessoas meio loucas. Isto vai mais fundo. O liberalismo parece condenado ou estará, no mínimo, em fase terminal. O nosso futuro inclui sobretudo a expansão das legiões da intolerância, como vemos em todos estes episódios da aplicação de uma moralidade contemporânea ao passado e, talvez ainda mais perigoso, o triunfo da intransigência na política e da mentira no pensamento. As discussões que antes pertenciam ao domínio das velhas instituições democráticas saltam para a rua e perdeu-se a transparência que ainda havia, a favor de maquinações feitas por organizações misteriosas sobre as quais sabemos muito pouco, nomeadamente sobre quem as financia e porquê. Os meios de comunicação (e era aqui que queria chegar) tendem a ser trincheiras militantes ou baratas tontas. É ocultado tudo aquilo que possa sair da narrativa conveniente. O próximo ciclo político vai ter menos referências do jornalismo e mais aldrabices, com guerras de cultura mais aceleradas e incivilizadas. As redes sociais serão os palcos privilegiados da política, os campos de batalha que vão determinar quem passa ao nível seguinte. O caos económico global beneficia meia dúzia de homens já estupidamente ricos, como nunca houve em tempo algum, donos das empresas que venceram a grande ruptura digital. Cada um é génio ou filantropo e alguns têm dinheiro para ir à lua. Toda esta comoção, que as suas criações amplificam, é como se não fosse nada com eles.

23


Luís Naves,

Sempre achei pouco credível o romance de Ray Bradbury Fahrenheit 451, uma distopia em que os livros foram banidos, são queimados e decorados por pessoas vivas. Observando o meu tempo, já não acho a ideia assim tão incrível. Em vários países cresce um movimento de contestação a figuras históricas e símbolos do passado. As estátuas são identificadas com tinta e segue-se um julgamento popular à maneira da revolução cultural. Depois, são derrubadas por uma turba feroz e qualquer tentativa de as repor será combatida com tumultos. Ao mesmo tempo, limita-se o acesso do público a obras de arte associadas a ideias que os manifestantes considerem perturbadoras. Pode ser uma pintura, um filme, um livro. O mecanismo de destruir estátuas não é novo, mas esteve sempre ligado a mudanças de regime. A prática de banir livros ou retirar filmes também não é nova, foi comum em épocas de intolerância e banalizada por fanáticos religiosos. A identidade das pessoas e dos povos está profundamente ligada à memória, por isso o novo radicalismo político não pretende fazer a revisão da história, mas apagá-la. É a melhor maneira de criar comunidades divididas e assegurar que numa época fragmentada se torne fácil abolir os factos. As diversas polícias do pensamento competem para impor a ortodoxia de vanguardas revolucionárias que dominam universidades e que procuram conquistar os meios de comunicação e as redes sociais. Sem ligações às origens, sem ideias próprias, desprovidos da alma, somos levados como crianças para onde eles nos quiserem levar. Para sítios desolados, como acontece na tirania comum.

22


Luís Naves,

Ao longo da vida, assisti do camarote a quatro grandes mudanças no mundo. A primeira chegou tardiamente a Portugal, sob a forma de revolução. Na altura, não entendi quase nada, mas agora percebo que houve uma espécie de tsunami social, económico e político que trouxe o país para a normalidade contemporânea. A segunda alteração foi simbolizada pela queda do Muro de Berlim e marcou o fim da Guerra Fria. Vieram depois o 11 de Setembro de 2001, que mudou o nosso sentido de segurança física, e a grande recessão de 2008, que abalou a segurança económica, mas estes dois movimentos estavam ligados a perturbações tecnológicas mais complexas. Não parece ousado dizer que a nossa vida vai levar outra volta. Muitas mudanças podem ser boas, as duas primeiras foram-no, mas esta vai atingir uma sociedade envelhecida e habituada a certos privilégios. Não coloca ponto final numa guerra que nos podia aniquilar nem abre os costumes a novas ideias, antes vem na sequência das outras duas mudanças, a encerrar-nos um pouco mais no medo: o que se aproxima ameaça erodir a abundância, fechar os portões de algumas liberdades, promete dividir ainda mais as gerações e as classes. Os historiadores do futuro talvez olhem para os 50 anos anteriores a 2020 como uma interessante anomalia, onde por acidente estávamos nós, entretanto esquecidos.

21


Luís Naves,

Samuel Pepys escreveu no seu diário, um dos mais famosos da literatura inglesa, páginas muito citadas sobre o incêndio de Londres de 1666 e tem entradas terríveis sobre a peste de 1665: é fácil perceber que não houve medidas de mitigação; o ceifeiro fazia a sua colheita e a sociedade arrastava-se na melancolia de contemplar a mortandade, sem imaginar como combater aquilo. No romance de Albert Camus, A Peste, Orão está isolada, em quarentena, mas a vida mantém-se, apesar da calamidade pública: os cafés estão abertos, é possível ir ao cinema. Em consequência, a doença alastra durante uma eternidade. No livro de José Saramago, Ensaio Sobre a Cegueira, as vítimas de epidemia são colocadas num campo de concentração, uma espécie de zona vermelha mais próxima do que estamos a viver. A quarentena que calhou ao nosso tempo, e que terá a sua própria literatura, vai um passo além, separando cada indivíduo o mais possível de todos os outros. Somos ilhas num arquipélago, mas a vida prossegue, ligada à velocidade da luz, através de meios de comunicação que superam o contacto físico. Estamos separados uns dos outros e muito perto, o que é paradoxal.

20


Luís Naves,

Estas coisas acontecem de cem em cem anos. Ainda estávamos em Janeiro e discutia-se o processo de destituição do inquilino da Casa Branca. Nessa altura, muita gente escreveu que a morte de um general iraniano ia custar caro aos americanos, que no mínimo seriam expulsos do Médio Oriente. Tudo isto agora nos parece anterior à guerra anterior. No Irão, país comandado por gente do século XIV, morre-se à porta do hospital; já ninguém quer saber da campanha eleitoral na América, muito menos da independência da Catalunha; e já ninguém se lembra dos temas fracturantes que entre nós se discutiam com emoção (que temas eram esses, exactamente?). O mundo mudou e vai mudar ainda mais: muitos vão defender os muros que ontem criticavam, seja para migrantes sírios ou turistas espanhóis; muitos vão condenar os políticos que ontem consideravam geniais ou indispensáveis; muitos vão pedir mais segurança, mais distância em relação aos outros, mais repressão de comportamentos irreflectidos, menos tolerância para açambarcadores e outros parasitas. Depois, a grande vassoura da opinião pública vai remover os governantes que falharam e será reconstruida uma economia menos dependente da globalização, das fábricas chinesas e das decisões dos burocratas de Bruxelas.

19


Luís Naves,

Tentei recordar-me das coisas que pensei cinco dias atrás, dos excertos brilhantes de um livro que li, de uma conversa interessante, do filme fantástico que passou na televisão e que eu não conhecia; tentei recordar-me dos sonhos e das pessoas com quem me cruzei nas ruas e que me pareceram irrepetíveis e fascinantes; tentei fixar as memórias que me escapavam como a água a escorrer pelos dedos, mas das quais só me restam gotas. Ficaram os farrapos daquilo que vivi nesse dia e que talvez tenha sido um dos dias mais repletos da minha vida, não sei. Tudo se evaporou e diluiu na atmosfera invisível, o que se vive é a matéria que se esquece, aquele rosto, aquela sensação, aquela ideia única que nunca mais nos vai ocorrer, todos os sinais do tempo, não das coisas imutáveis, como a luz tépida da primavera que surge em cada ano durante uma manhã, mas os momentos únicos que as palavras não podem definir e que se perdem para sempre.

18


Luís Naves,

Parem o planeta, que saio nesta paragem. É um salve-se quem puder, a total falta de vergonha, o delírio e a gritaria histérica. Não me recordo de nada assim, nem nos piores momentos da Guerra Fria, quando podíamos ser todos incinerados em dez minutos, nem quando entrou em colapso o bloco comunista e os perigos pareciam imensos, nem durante os momentos mais severos da última crise financeira, não me recordo de ver estas massas de gente em movimento, o psicodrama das epidemias, a demagogia e o pânico de mãos dadas, este horror mascarado, a repugnância pelos outros e o medo da própria sombra. Sou muito jovem, sem memória daqueles séculos de que só ouvi falar, quando a civilização deslizava para o abismo sem motivo aparente. Sim, sei que tudo isto é superficial, o exagero do mundo mediático em que vivemos, sei que no fundo os humanos pertencem a uma espécie com inteligência, que o bem no fim triunfa, mas custa a acreditar, custa manter alguma crença nesta actualidade hipócrita que se olha ao espelho.

17


Luís Naves,

O líder do PSD, Rui Rio, não acredita que o seu partido seja de direita e quer conquistar o centro. Rio está a ver o que mais ninguém vê ou anda incrivelmente iludido. Na realidade, nos países europeus, o centro implodiu. Os eleitores vivem inquietos, recusam a uberização do trabalho, detestam ser a classe precária, e votam cada vez em maior número contra a estabilidade, que interpretam como estagnação. Em França e Alemanha, dois países traumatizados pelo passado das suas direitas, foi desenvolvido um sistema de cordão sanitário que começou por excluir partidos extremistas que não passavam dos 10 por cento. Só que os descontentamentos somam hoje 30 a 40 por cento e não é possível excluir tanta gente. Os partidos dos extremos crescem com os votos que as formações centristas rejeitaram durante anos, ao não reconhecerem os problemas da antiga classe operária, agora empobrecida e sem futuro. Os extremos ocupam o lugar vago e ganham terreno, apesar da resistência dos sistemas de poder, dos meios de comunicação, das elites académicas e das pressões financeiras. O eleitorado do centro é aquele que quer mais do mesmo e, nos tempos que vamos viver, será a minoria. Por isso, Rio parece ter ficado na guerra anterior, a lutar por um eleitorado que já não existe.

16


Luís Naves,

Tornou-se moda dizer que isto ou aquilo equivale a fascismo ou nazismo. Aplica-se a acusação a presidentes e deputados escolhidos em eleições livres, dirigentes partidários menores, comentadores de tuítes, enfim, a quem não tiver sólidas credenciais para se proclamar moralmente superior a tudo o resto. As pessoas que se dedicam a este exercício de ignorância estão na realidade a negar a história e a desculpar as ditaduras. Julgam prevenir o mal, mas banalizam o horror. Se o CDS é nazi, então o nazismo não pode ter sido assim tão mau; se Donald Trump, Salvini ou Bolsonaro são fascistas, Mussolini está desculpado. Acima de tudo, isto impede-nos de discutir as questões do nosso tempo. A relativização do antissemitismo ou do Holocausto, as comparações absurdas com épocas diferentes da nossa, a equivalência racional entre ideias banais e ideias genocidas ou ainda a crença não democrática de que os eleitores podem e devem ser ignorados, tudo isto vai além da tese estúpida para entrar nos territórios do perigosamente estúpido.