
Gore Vidal (1925-2012) publicou em 1987 o romance Império, sobre a forma como os EUA subiram de patamar no poder internacional, em 1898. O livro conta a história de famílias da elite americana e o próprio Vidal fazia parte desse núcleo, o que facilitou o seu trabalho de misturar personagens de ficção com pessoas que existiram. Uma das figuras reais do livro, William Randolph Hearst, inspirou o filme Citizen Kane, de Orson Welles (na imagem), e ainda hoje é uma lenda tão fascinante como a do seu imitador, Donald Trump. Hearst nasceu em 1863 e, na altura da intriga do romance, rondava os 40 anos. Ele pode ser considerado um dos fundadores do império americano, pois as ambições coloniais dos EUA foram estimuladas pela imprensa da época, que por essa altura se tornou uma influente indústria de massas.
Hearst tinha muito dinheiro e nos anos 90 do século XIX criou uma rede nacional de jornais que partilhavam colunas e noticiário sensacionalista. Em 1904, o magnata tentou ser presidente e quase conseguiu, entrando numa rivalidade política e simbólica com Theodore Roosevelt, que viria a ser eleito. Aqui, convém recuar um pouco no tempo: Roosevelt foi outro dos fundadores do império, famoso pelo seu papel na batalha de San Juan, em Cuba, durante a Guerra Hispano-Americana de 1898.
Este conflito com o império espanhol foi alimentado pela rivalidade entre Hearst e o outro magnata da imprensa, Joseph Pulitzer. O tema domina o romance de Vidal, que abrange vários anos, sendo que uma das consequências da guerra foi a aquisição das Filipinas, onde uma rebelião nativa seria depois suprimida com grandes atrocidades do lado americano.
Uma das questões do livro de Vidal é o aparecimento da nova forma de jornalismo desenvolvida por Pulitzer e Hearst, que nos EUA é conhecida por ‘Imprensa amarela’. Por outro lado, havia diferenças de classe: Pulitzer era emigrante, Hearst pertencia a uma das melhoras famílias da América e podia ser candidato a presidente. Em 1904, tinha adoptado toda a linguagem dos populistas democratas e os seus jornais empurravam a candidatura, mas cometeu o erro de subestimar a força da máquina partidária. Embora fosse milionário, Hearst aderiu ao partido das massas e falhou a nomeação por pouco. De outra forma, teria enfrentado o candidato das elites, Theodore Roosevelt, e talvez ganhasse.
Vendo bem, o romance de Gore Vidal é dominado por estas duas personagens secundárias da intriga, mas sobretudo pelo magnata da imprensa. Hearst surge nos diálogos dos aristocratas americanos como um verdadeiro traidor da classe dominante. O autor até parece ter tido receio no uso excessivo da figura, como se existisse uma maldição a aguardar quem o tentasse fazer (Orson Welles vem à memória).
No final de Império, há uma cena entre Roosevelt e Hearst, que na vida real aconteceu sem testemunhas. Vidal imaginou o diálogo entre os dois, mas ao leitor fica a sensação de que o capitalista, mesmo assim, não foi bem explicado pelo autor.
Quando publicou Império, Gore Vidal não podia saber que haveria um segundo Hearst no romance da América. Essa personagem surgiu com toda a força em 2016, já depois da morte do escritor: Chama-se Donald Trump, é um milionário de Nova Iorque, capaz de manipular emoções e notícias, traidor da sua classe social e líder de uma ameaçadora onda populista. Criado pela televisão e mestre da frase curta, Trump compreendeu o descontentamento das massas acumulado pela crise financeira e concebeu um movimento irresistível, que tomou conta do Partido Republicano (que até aí sempre fora das elites). A imprensa achou que ele era uma piada, mas o candidato venceu as presidenciais e, na Casa Branca, foi atacado como nenhum outro presidente antes dele, nem sequer Theodore Roosevelt.
Os poderosos da América odeiam Trump intensamente, como odiaram Hearst. Após a derrota humilhante de 2020 e uma travessia do deserto, o segundo populista milionário é de novo candidato à nomeação pelos republicanos. Hoje, será também o primeiro ex-presidente acusado de um crime, num caso com méritos duvidosos que lançou um circo mediático. O medo também se repete, no caso de Hearst na fase ascendente da América, com Trump no início da queda desta grande nação. No Partido Republicano a luta pela nomeação ficou mais estreita e, tendo em conta a crise financeira que parece inevitável, Trump pode vencer em 24. A acusação judicial divide o país, metade da América está irritada com aquilo que vê como perseguição política do seu ídolo, a outra metade parece fascinada com o capítulo Vingança, do excelente romance Declínio.