Tentei recordar-me das coisas que pensei cinco dias atrás, dos excertos brilhantes de um livro que li, de uma conversa interessante, do filme fantástico que passou na televisão e que eu não conhecia; tentei recordar-me dos sonhos e das pessoas com quem me cruzei nas ruas e que me pareceram irrepetíveis e fascinantes; tentei fixar as memórias que me escapavam como a água a escorrer pelos dedos, mas das quais só me restam gotas. Ficaram os farrapos daquilo que vivi nesse dia e que talvez tenha sido um dos dias mais repletos da minha vida, não sei. Tudo se evaporou e diluiu na atmosfera invisível, o que se vive é a matéria que se esquece, aquele rosto, aquela sensação, aquela ideia única que nunca mais nos vai ocorrer, todos os sinais do tempo, não das coisas imutáveis, como a luz tépida da primavera que surge em cada ano durante uma manhã, mas os momentos únicos que as palavras não podem definir e que se perdem para sempre.
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Luís Naves,

A condição humana…
JSP
Talvez tenha sido o comum dos dias seguintes que fez evaporar a memória desse dia.
Se procurar lembrar-se de seu próprio rosto ao espelho esta manhã, ocorrerá o mesmo fenómeno.
Nem sempre, nem sempre. Feliz todo aquele a quem o esquecimento conforta.
Amargura sem fim de todo aquele, mesmo por vezes vivendo uma aparente tranquilidade, ouve a voz acusadora: por que o fizeste?
Nunca esquece, nunca deixa esquecer e vive o Inferno em vida.