23


Luís Naves,

Sempre achei pouco credível o romance de Ray Bradbury Fahrenheit 451, uma distopia em que os livros foram banidos, são queimados e decorados por pessoas vivas. Observando o meu tempo, já não acho a ideia assim tão incrível. Em vários países cresce um movimento de contestação a figuras históricas e símbolos do passado. As estátuas são identificadas com tinta e segue-se um julgamento popular à maneira da revolução cultural. Depois, são derrubadas por uma turba feroz e qualquer tentativa de as repor será combatida com tumultos. Ao mesmo tempo, limita-se o acesso do público a obras de arte associadas a ideias que os manifestantes considerem perturbadoras. Pode ser uma pintura, um filme, um livro. O mecanismo de destruir estátuas não é novo, mas esteve sempre ligado a mudanças de regime. A prática de banir livros ou retirar filmes também não é nova, foi comum em épocas de intolerância e banalizada por fanáticos religiosos. A identidade das pessoas e dos povos está profundamente ligada à memória, por isso o novo radicalismo político não pretende fazer a revisão da história, mas apagá-la. É a melhor maneira de criar comunidades divididas e assegurar que numa época fragmentada se torne fácil abolir os factos. As diversas polícias do pensamento competem para impor a ortodoxia de vanguardas revolucionárias que dominam universidades e que procuram conquistar os meios de comunicação e as redes sociais. Sem ligações às origens, sem ideias próprias, desprovidos da alma, somos levados como crianças para onde eles nos quiserem levar. Para sítios desolados, como acontece na tirania comum.

25 comentários em “23”

  1. Dizem que são as gerações mais instruídas de sempre…

    II Revolução Cultural Marxista.

    A linguagem passa a ser newspeak de 1984 :

    Ir à praia é um perigo de transmissão devido ao COVID com controlo apertado e drones, mas protestos na rua já não.

    A polícia é cada vez mais polícia política faz contra uns mas não contra outros.
    Visitares a família noutro conselho foi proibido, mas manifestantes para o 1 de Maio puderam vir de vários…

    Falar é Violência, Nada pode ser dito que ofenda a narrativa.
    Uma palavra fora do sitio é uma agressão. Autores são escorraçados da Universidade, das TV’s e dos jornais.

    Já Violência é Liberdade.

    Até ao momento em que aparecer um competidor e for preciso fazer de vítima.

    lucklucky, o kulak

  2. Concordo.
    Eu já tenho receio de dizer piadas em grupos em que não estão só íntimos. Por uma razão simples: analisando bem, num dito ou piada encontra-se sempre algo com conotações homofóbicas, machistas, xenófobas, islamofóbicas ou …. qualquer cosa. O melhor é estar calado quando há desconhecidos por perto. E não sou uma figura pública, que faria se fosse!
    Vão-se diluindo os conceitos de tal modo que o verdadeiro homofobismo, machismo etc. etc. fica esquecido numa parafernália de palavras e os combates que interessam desaparecem ou esbatem-se.

    1. Por exemplo Asterix irá ser banido e só com passe especial passado pelos Guardas Revolucionários poderá ser lido.

      lucklucky

      1. Que raio de pergunta sr. Lavoura.
        O *algures* é muito vago.
        Se eu quiser ter uma estátua de Staline no quintal e uma estátua de Nossa Senhora ao lado e uns néons vermelhos e azuis, respectivamente, a enquadra-las, quem me impede?
        A quem tenho de pedir autorização para a estátua ser mantida, neste caso, as estátuas ou posso ficar com o Staline mas não com a Nossa Senhora ou vice-versa?

  3. Não entendo. Afinal como é?! Só a partir da morte bárbara e racista de Floyd é que toda a gente se tornou de repente avessa às estátuas dos ditos racistas e que estavam em praças e lugares públicos não pelo racismo (à época, comum) mas por serem beneméritos da cidade ou coisa que o valha?! Há quantos anos as estátuas estavam ali? Provavelmente alguma já têm séculos. Parece-me um atentado à história um bocado parvo.

    1. Mas quem lhe garante que a morte de Floyd foi racista? A morte de Floyd foi fruto de um exagero por parte de um polícia. Teve o singularismo de ter sido filmado, de ter sido um polícia branco contra um negro e de na presidência estar um trump.
      Floyd morreu porque um polícia não cumpriu com o princípio da proporcionalidade. Um polícia não foi capaz de adequar a força aplicada à ameaça… e exagerou. Esse polícia, à partida, não premeditou a morte, não a planeou. Logo, o caso reveste-se de um crime de homicídio por negligência, em segundo grau no sistema americano.
      Este polícia já tinha tido duas situações anteriores que resultaram na morte de criminosos, ambos brancos, tinha alguns processos por desobediência a ordens diretas por superiores, superiores brancos. Era casado com uma asiática. Todos os seus colegas de trabalho não brancos, referiram que este polícia nunca manifestou comportamentos racistas.
      Dizer que isto foi um homicídio racista é fomentar a violência, o estigma e a lavagem cerebral.

      1. “Dizer que isto foi um homicídio racista é fomentar a violência, o estigma e a lavagem cerebral.”

        È pior, é criar racismo onde pode não existir.

        lucklucky, o kulak.

      2. Que é mau polícia, é indubitável. E, se já tinha morto dois homens – brancos ou negros, não interessa para o caso – era de retirar das forças policiais. E já não matava mais ninguém (talvez). Aquilo que se viu é selvagem, seja contra quem for perpetrado. No caso de o ser contra um negro, é racismo sim. E deve ser duplamente castigado. Mas ser contra o racismo não é vandalizar estátuas e fazer uma interpretação torpe da história que só mostra o lado mais degradante e crassamente ignorante de quem o faz. E esses também são criminosos, lesam toda a humanidade na história que lhe pertence, retiram ao país onde os crimes são perpetrados um pedaço da sua história. E, do que não há dúvida é que os povos sem história, se existirem, a nada se atêm, vale tudo. Será este o ponto de chegada de mais de dois mil anos de civilização?!

    2. Qual a prova que a morte de Floyd foi racista e não incúria, incompetência, cretinismo?

      Vejo as pessoas serem tão tão sociais que já nem pensam pela própria cabeça, já pegam no pensamento a andar do momento sem sequer dedicarem um tempo a reflectir.

      lucklucky, o kulak.

  4. Bradbury escreveu “Fahrenheit 451” durante (e a propósito) do Macarthismo: «Bradbury said that he wrote Fahrenheit 451 because of his concerns at the time (during the McCarthy era) about the threat of book burning in the United States.» (https://en.wikipedia.org/wiki/Fahrenheit_451#Censorship/banning_incidents).

    Revolução cultural? ««limita-se o acesso do público a obras de arte associadas a ideias que os manifestantes considerem perturbadoras. Pode ser uma pintura, um filme, um livro»?

    Diz-se (https://www.vox.com/policy-and-politics/2020/1/16/20991816/impeachment-trial-trump-bannon-misinformation), citando o conceituado jornalista Michael Lewis que, Steve Bannon (que, entre outras coisas, já foi o “cabeça” da Breitbart News e tb o da estratégia triunfante da anterior campanha presidencial do Trump) uma vez, em 2018, lhe terá confessado que «The Democrats don’t matter. The real opposition is the media. And the way to deal with them is to flood the zone with shit. »… para os que percebem pouco, ou nada, de inglês, cá vai a tradução feita pelo Google Translate: “Os democratas não importam. A verdadeira oposição é a mídia. E a maneira de lidar com eles é inundar a zona com merda.»

    Nesta altura, um esclarecimento essencial e necessário: mídia aqui, quer dizer os jornais e as TVs… ie, todos esses órgãos de comunicação social não-alucinados que, como sabemos, até podem incorrer em campanhas de desinformação ideológicas mas até não querem entrar nas da História «Sem ligações às origens, sem ideias próprias, desprovidos da alma» que nos levam «como crianças para onde eles nos quiserem levar. Para sítios desolados, como acontece na tirania comum»…

    Sobre o que então disse o Bannon, julgo ser evidente que ele apenas, mesmo sem querer, se referia em particular ao significado no ponto 3 do que o dicionário Priberam (https://dicionario.priberam.org/merda) enuncia como alguns dos (muitos outros possíveis) significados do tal pouco decente vocábulo…

    1. Este comentador vem aqui fazer provocações aos meus posts. A perseguição é sistemática e não entro em diálogo. Os assuntos que levanta não me interessam e os seus comentários não serão a partir de agora aprovados. Estive em silêncio durante três meses por causa de comentários deste género, apetece-me escrever livremente e sem ter de aturar questões laterais que só visam chatear ou aborrecer. Não gosta o que eu escrevo, tem bom remédio, vá ler outras coisas.

  5. Hitler e Goebbels, mais tarde também outros, pretenderam a pureza cultural e não se inibiram de levá-la ao extremo:
    https://www.dw.com/pt-br/1933-grande-queima-de-livros-pelos-nazistas/a-834005
    https://www.megacurioso.com.br/artes-cultura/113374-o-que-foi-grande-queima-de-livros-feita-pelos-nazistas.htm

    O culto do purismo usa todos os meios e todas as formas, incluindo a ostentação de uma bondade maldosa que é também, à semelhança, uma parte da ala farisaica maldosa que hoje se constitui e cultua em variados sinédrios.

    Assim, não admira que também hoje se ostente essa bondade maldosa para demonstrar que se está in e que se possui uma avanço civilizacional impar. Todavia, este avanço civilizacional impar simplesmente recorda-me o resultado do significa em economês do termo imparidade.
    Portanto, o resultado do balanço é nauseabundo e à semelhança da bondade maldosa revela que in quer dizer out.
    Não existe contraditório onde já existe contradição. Esses e essas julgam-se a si mesmo(a)s por seus próprios actos.

  6. Claro que não, claro que não…

    Gone with the Wind’ pulled from HBO Max until it can return with ‘historical context’

  7. o novo radicalismo político não pretende fazer a revisão da história, mas apagá-la

    Destruir uma história não pretende apagar a história.

    Há uma diferença crucial entre lembrar a história e honrá-la. As estátuas procuram honrar figuras históricas – não somente recordá-las. Quem destrói as estátuas não pretende que se esqueça a história – pretende simplesmente que se deixe de a honrar.

  8. O Luís Naves, pels vistos, não está muito de acordo que a estátua de Sadam Hussein no centro de Bagdade tenha sido derrubada. Nem que as estátuas de Lenine em diversos países de Leste também o tenham sido.

    1. Onde é que isso está escrito? Por sistema, há pessoas que gostam de vir aqui dizer que eu digo coisas que não digo. Está lá escrito com toda a clareza que o derrube de estátuas é comum em mudanças de regime. Se eu gosto ou não gosto é irrelevante. Os novos regimes fazem releituras da história. É normal. Só que nos países ocidentais (que eu saiba) não houve nenhuma mudança de regime. Este fenómeno é novo ou pouco habitual.

  9. É a tentativa bacoca de criar um ou vários Ministérios da Verdade de cariz popular e com ideias extremistas , cuja principal função é “apagar” o que ( ou até quem) não interessa.
    São uns tristes, Luis Naves.

    1. É a tentativa bacoca de criar um ou vários Ministérios da Verdade

      Quem constrói uma estátua é que está a tentar criar um Ministério da Verdade.

      Quem edifica uma estátua está a tentar inculcar a ideia de que “este foi um grande homem, este foi um acontecimento magnífico, estas foram pessoas boas”.

      Quem destrói uma estátua não cria Ministério da Verdade nenhum. Apenas destrói os Ministérios da Verdade que outros erigiram anteriormente.

      Por exemplo, quem erigiu uma estátua de Guerra Junqueiro em Lisboa pretendeu convencer-nos de que Guerra Junqueiro fez excelente poesia e/ou que ele defendeu excelentes ideais políticos e religiosos. Se essa estátua fôr um dia derrubada, isso quer dizer que deixam de nos tentar convencer disso, não significa que nos tentam convencer de que Guerra Junqueiro foi um mau poeta e/ou de que defendeu maus ideais. As pessoas continuarão a ser livres de ler Guerra Junqueiro, deixarão é de ser instruídas a pensar, a priori, que ele foi muito bom.

      1. Assim de repente vem-me à ideia a estátua da Sereia de Copenhaga , que foi edificada para convencer as pessoas que ela era muito boa!
        Ou a estátua da águia do Benfica, ou a Spider, o Baloon Dog, the Kelpies, os Sapatos da Joana, tudo estátuas ou esculturas erigidas para a convencer as massas tacanhas da grandiosidade e magnificência do representado ( ou simbolizado) , que no fundo não valia um chavo, mas era necessário que o adorassem.
        Sempre o mesmo Lavoura a distorcer as coisas à sua maneira.
        Over and out.

        1. O Luís Lavoura deve querer destruir o Coliseu de Roma….

          E então as estátuas do D.Afonso Henriques esse islamofóbo além de ter guerreado a mãe logo anti-feminista.

          lucklucky, o kulak

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