Os palhaços macabros


Luís Naves,

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O fenómeno está a alastrar em cidades francesas, mas parece ter origem na Califórnia, também numa pequena cidade. Pessoas vestidas de palhaços surgem em poses suficientemente ambíguas para poderem ser consideradas arrepiantes. No fenómeno francês, apareceram palhaços nas ruas, armados e em atitudes ameaçadoras, naquilo que se poderia definir como brincadeira de mau-gosto, mas logo surgiram grupos de autodefesa anti-palhaços, também armados. Isto foi ao ponto de Lille não ter dado autorização para um desfile chamado zombie walk, no âmbito da festa americana conhecida por Halloween.

A tudo isto se pode juntar uma história de motins e histeria colectiva, também em França, durante a exibição de um filme de terror sobre uma boneca maléfica. As pessoas têm muita imaginação, mas há aqui mais qualquer coisa, talvez isto seja um sinal dos medos colectivos que as sociedades têm acumulado, medos esses que a fantasia do cinema de terror alimentou de forma particularmente eficaz com esta personagem do palhaço que esconde o psicopata. Vendo bem, é uma ideia particularmente criativa, pois transforma uma figura trágico-cómica, que fez rir as crianças durante séculos, no seu perfeito oposto. Como está ligado ao imaginário infantil, o palhaço é particularmente assustador.

 

Neste caso, a pergunta que devemos fazer é ‘o que se passa com as nossas sociedades’? O fenómeno francês parece ser importado dos Estados Unidos, em breve chegará aqui, pois tudo aquilo que é da cultura popular americana acaba por chegar aqui. Estamos perante uma brincadeira que expõe medos fundamentais, imprecisos e totalmente imaginários, que por sua vez produzem uma reacção de agressividade e de auto-defesa das pequenas comunidades supostamente ameaçadas (não há grandes cidades envolvidas).

No passado, havia histerias em torno de bruxas, vampiros, diabos à solta. Havia sempre vítimas, até as pessoas se cansarem de destruir as suas vidas com estas fantasias difusas. Vistos à distância, estes episódios são hoje interpretados como psicoses provocadas pela ignorância geral de cada época, mas os surtos eram ocasionais e temporários, pelo que deviam estar associados a um contexto qualquer de ameaça existencial.

Como nunca gostei de filmes de terror e conheço mal o género, sempre achei estranho o fascínio infantil que eles exercem sobre as massas. As pessoas gostam de se assustar e parecem tirar algum prazer da emoção do medo. Nas sociedades dos nossos antepassados, circulavam narrativas que serviam como base para as histórias de terror que se contavam às crianças. As bruxas são talvez o melhor exemplo, pois associavam a feminilidade e o mal, duas ideias contraditórias, tal como no caso dos palhaços, daí a sua eficácia. A cultura popular evolui e acreditar em bruxas deixou de ser uma opção, pelo que surgem novas personagens para encarnar esses medos colectivos. Mas o que parece certo é que, num contexto diferente, um palhaço em atitudes macabras (ou a sua simples sugestão) não teria levado a reacções tão abruptas e talvez não provocasse mais do que alguns sorrisos.

Existe, de facto, um clima de medo, e acredito que na sociedade francesa isso seja particularmente forte: não é por acaso que, à medida que aumentam as clivagens religiosas, a Frente Nacional tem votações crescentes. O contemporâneo medo económico, ou seja, o medo de perder o emprego, o que levará a prazo a um sentimento de humilhação, é uma das forças que criam o contexto necessário para a histeria. O outro vector pode ser a fragmentação dos media e o aparecimento de informação não filtrada por profissionais e que prolifera nas redes sociais, sobretudo no Facebook. Ontem, circulou uma notícia falsa, que os autores reclamavam ter sido sancionada pela NASA, e que provocou certo pânico. A invenção de rumores alarmantes não tem nada de novo, talvez seja consequência do humor negro de alguns, mas muitos acreditaram nesta falsa notícia, que não tinha pés nem cabeça.

Não é preciso muito esforço para criar um clima eficaz de fim de mundo iminente. Não sei se os palhaços são um sinal do mal-estar civilizacional que acompanha as grandes mudanças, mas atrevo-me a pensar que vivemos num desses momentos: a aceleração do mundo excita as imaginações e o medo pode ser a ferramenta mais útil para travar certas mudanças.

 

Público e de preferência gratuito


Luís Naves,

 

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Por vezes lemos textos com os quais discordamos, mas que nos fazem pensar. Foi o caso deste artigo de Luís Valente Rosa, na Revista Visão, a propósito de um artista que assina com o pseudónimo Bansky e que se tornou famoso no Reino Unido devido às suas provocações. O texto da Visão parece apoiar a ideia da arte pública e da extrema democratização do acesso, esquecendo que os artistas precisam de ter rendimento ou não haverá obras de arte. O artigo levanta de forma indirecta outra questão, que tem mais a ver com os mecanismos da fama e os truques do comércio.

É curiosa a separação que o autor faz das diferentes expressões artísticas, omitindo que a pintura só é adquirida por pessoas extremamente ricas devido à circunstância de cada obra ser única (por isso se chamam coleccionadores e também há especuladores). As cópias nada valem, até podem dar prisão se forem vendidas como originais, e a boa pintura de autores desconhecidos tem valor quase nulo. A questão das reproduções aplica-se de igual forma na literatura ou na música. Podemos ouvir Bach na grafonola, mas é uma reprodução. Se quisermos ouvir o original, precisamos de uma orquestra, de um coro, de uma organização que forneça as partituras e pague aos artistas. Até podemos complicar: há quem só aceite a interpretação com instrumentos da época. Nem falo da música contemporânea, que é raramente tocada, pois os compositores importantes são desconhecidos do público. Quem é que ouviu obras de Sofia Gubaidolina, Arvo Part ou Gyorgy Kurtag? E só incluí os indiscutíveis*.

  

Na literatura, o manuscrito original leva anos a redigir e, tirando alguns casos, não tem valor: a reprodução dos livros é barata e exige minutos, mas o negócio de a fabricar implica altos riscos, pois um romance tem grande complexidade e é preciso encontrar leitores. A pintura necessita de museus e de coleccionadores que estejam dispostos a pagar os elevados custos da preservação dos quadros e da sua segurança. Bansky é, certamente, um caso singular de um pintor cuja provocação passa pelo uso de espaços públicos para colocar as obras, mas as pessoas só lhe dão muito valor depois de saberem que é um Bansky e ninguém conhece ao certo como vive o artista, se é rico, se é pobre. O que ele expõe não é tanto a obra em si, mas a interrogação da obra, sobretudo o que nos levou a gostar ainda mais, depois de sabermos que era um Bansky.

Deixemos as digressões e vamos ao ponto: muitas pessoas cultas defendem sem hesitar a democratização total da arte: toda a gente devia ter direito a ouvir Bach, ninguém deveria adquirir colecções que escondem a grande pintura do olhar da sociedade e precisamos de bibliotecas públicas em todo o lado. E, no entanto, poucos cidadãos estão dispostos a pagar os custos de manter as instituições necessárias, as bibliotecas, os museus, as orquestras que possam interpretar Bach ao vivo, pois não é a mesma coisa ouvir as gravações. Não discuto aqui a democratização em si, pois isto leva aos problemas de quem escolhe, que já são do domínio da política.

Isto também se aplica à literatura. Em Portugal são publicados 120 romances por ano (o dobro da produção que existia no final da década de 80), sem contar com a auto-publicação. Uma pessoa muito culta lê talvez meia dúzia de obras desta colheita anual de romances portugueses. Os leitores podem achar que há livros a mais, mas esse é um pensamento errado, nunca há livros em demasia, uma literatura nacional é sempre um conjunto. E, no entanto, esta pujante produção de romance e novela perde-se numa enxurrada de mais de mil livros publicados em cada mês, sobre os mais variados assuntos, todos eles tão importantes como a ficção. É por isso que nove em cada dez escritores trabalham de forma praticamente gratuita, sem direitos de autor, como aparentemente faz Bansky. E, tal como é regra em qualquer das três grandes expressões artísticas, comércio e transcendência não andam sempre de mãos dadas **.

O público pouco se preocupa com isso, não é o seu departamento. As pessoas exigem arte gratuita e da melhor qualidade, não toleram falhas no desenho, na afinação ou na escrita. E, no entanto, na hora de pagar, o bilhete do concerto devia ser oferecido, o museu podia ter entrada livre e o livro, a cópia do manuscrito, é sempre demasiado caro. Ninguém tem destas dúvidas quando vai à bola.

 

* Os três compositores são muito considerados no meio musical, não tenho a ousadia de os compreender; Kurtag conheci pessoalmente, devido a um acaso.

** Na semana passada, Modiano andava nos saldos e tinha dado prejuízo às editoras.

 

Crónica que sempre desejei escrever sobre George Clooney sem nunca ter o pretexto


Luís Naves,

Fiquei feliz com o casamento de George Clooney, que é um rapaz da minha criação. Todo aquele ambiente de Hollywood clássico, o amor tirado de um livro de Hemingway, tudo isto encanta. Eu e o George nascemos no mesmo dia e, tendo em conta a diferença horária, julgo que nascemos mais ou menos à mesma hora. Somos gémeos de ascendência gémeos e no signo chinês ambos búfalo, mas desconheço os detalhes e as implicações, julgo que estarão envolvidos o yin, a água e o metal. Ambos temos aspecto de pessoas felizes e, se fôssemos cantores de ópera, ele seria o barítono que tentava impedir o meu amor com a soprano (felizmente, não canto, mas sou tenor).

Pelos meus cálculos, nasceram 380 mil pessoas nesse dia, mais ou menos um par de milhares e algumas centenas. Isto inclui apenas aqueles que sobreviveram ao primeiro ano de vida e é naturalmente uma estimativa grosseira. Muitos dos rapazes e raparigas da nossa criação já faleceram, vítimas de doença, acidentes, conflitos, mas julgo que haverá dezenas de milhares ainda vivos. É natural que os últimos morram algures na década de 70 deste século.

Se eu e o George nascemos no mesmo segundo, o que não sendo provável é apesar de tudo possível, haverá duas outras pessoas no planeta que também nasceram nesse segundo. Não sei se estarão vivas, mas teria sido bem pensado enviar um convite para o casamento. Nunca estive em Veneza. 

 

Eu e o George somos também primos afastados. Na pior das hipóteses tivemos um antepassado comum que viveu talvez há uns dois mil anos, mas é provável que os nossos laços familiares sejam mais recentes, com apenas alguns séculos. A noiva, a minha prima Amal, de deslumbrante beleza, também partilha comigo uma ascendência de Médio Oriente mas, no caso do meu ramo da família, emigrámos mais cedo para a Europa e por aqui ficámos.

Nas cimeiras europeias, no centro de Imprensa, costumava ser cumprimentado por jornalistas que não conhecia de lado nenhum, e em várias línguas. Era um clássico inexplicável. Até que encontrei o meu sósia, um jornalista italiano muito mais popular do que eu. Ficámos a olhar um para o outro, a tentar descobrir as diferenças e, a partir daí, sempre que nos víamos, inclinávamos a cabeça, num cumprimento simpático que parecia alguém a ver-se ao espelho. Quando fui ao Paquistão, as pessoas achavam que era iraniano. Comprei uma roupa local, chamada shalwar kameez, muito confortável e que me ficava a matar. Dizia que era europeu e as pessoas olhavam para mim, desconfiadas, identificando logo o ar de iraniano, apesar da elegante kameez. 

 

Não acreditam nesta parte? Também tenho dúvidas. Quando estou no estrangeiro, sou frequentemente abordado e fazem-me imensas perguntas: onde é a estação de comboios, onde é o museu, onde fica a rua não-sei-quê. Em Portugal, isso nunca acontece, ninguém me pergunta coisas a que sei responder. Na Hungria, as mulheres bonitas até olham para mim com interesse (isto é rigorosamente verdadeiro). Em Portugal, nunca olham, a ponto de achar que há qualquer coisa de errado com estas novas gerações. Certa vez, em Copenhaga, um cavalheiro cumprimentou-me ‘Salam Alaikum’ na rua e fiquei sem saber o que responder e só consegui dizer ‘salam’ em troca, o que julgo me denunciou de imediato, talvez por causa da pronúncia. Sei que estava escuro, mas o aeroporto do Cairo parecia bem iluminado por um sol esplendoroso quando perguntei a um funcionário onde era o terminal da Lufthansa e ele me devolveu a questão: ‘Você é Sírio?’

Ainda hoje não sei o que é que a Lufthansa tem a ver com a Síria, mas percebi a alusão do funcionário ao ver o George Clooney no filme Syriana, a fazer de mim, um bocadinho mais gordinho e desmazelado, cabelo e barba compridos, com aquele seu ar bonzinho e descontraído, num não te rales muito próprio dos rapazes e raparigas da minha criação, tirando aquele momento final do filme em que percebíamos toda a humanidade da personagem, quando esta compreendia que tinha falhado tão completamente.

É a diferença maior entre a fantasia dos filmes e o que imaginamos da realidade, pois aqui do outro lado, o falhanço não é bem assim, tão cinematográfico. É o viver que importa, maneira de conceber a mesma coisa, mas de forma diferente. Como dizia um amigo meu, isto anda tudo ligado, e como diria o meu sósia italiano, sendo tempo de encontrar um remate para esta confissão obscura: ‘tanti auguri, George’.

 

Um encontro feliz


Luís Naves,

 

No mais recente livro de Patrícia Reis, O que nos Separa dos Outros, o narrador tem 54 anos. Eu tenho 53 e, tal como o protagonista, vejo com espanto e certa melancolia os efeitos do tempo na vida que passa.

A afinidade entre leitor e livro é um encontro feliz a que chamamos habitualmente qualidade literária. Por isso decidi escrever esta nota de leitura. A novela foi ontem apresentada em Lisboa, lê-se sem dificuldade, sinal inconfundível de boa escrita. A autora escolheu uma forma simples, o monólogo interior, mas o tema é complexo: perda, sensação de fracasso, a ideia de que se gastou uma vida inteira para quase nada. O narrador, um professor de escrita ou talvez escritor falhado, enfrasca-se em Macau a observar a empregada chinesa de um bar anónimo, a falar com ela em imaginação (como se a rapariga pudesse perceber as palavras dele). Temos ali o cansaço e o desencanto, a impossibilidade de comunicar, a fantasia sobre a vida dos outros.

O livro de Patrícia Reis tem uma escrita transparente e despretensiosa, sem floreados ou excesso de imagens, deixando aos leitores amplo espaço para imaginar as omissões do enredo. Em O Que nos Separa dos Outros por causa de um copo de Whisky (na versão longa do título) há pequenas passagens de grande intensidade dramática e personagens apenas esboçadas, mas que sentimos em toda a sua riqueza humana. A mãe do narrador, por exemplo, que vemos aflita durante um funeral e depois, senil, num lar de idosos: “Quando se vê ao espelho, será que pensa em alguma coisa?”. Ou o falecido irmão, um solitário, cujo desespero nunca chegamos a perceber.

O narrador, silencioso e fatigado, observa uma chinesa ligeiramente estrábica, tenta adivinhar a vida dela e vai desfiando memórias, num fluxo de pensamento falsamente aleatório. Por vezes, interroga-se sobre a personagem muda que julga observar: “Não consigo perceber que idade tens. É intrigante”. Em ruído de fundo da sua mágoa está o suicídio do irmão (que talvez seja acidente), o casamento nulo e a falta de amor, o desaparecimento do pai (porventura outra história complicada).

A escritora conseguiu ligar os diferentes fios da intriga num conjunto harmonioso e um leitor não pode deixar de sentir a solidão destas figuras dispersas. A melhor paisagem para confessar o que ninguém ouve é um lugar estrangeiro. Num bar do outro lado do planeta, na companhia de um copo de whisky, a personagem tenta recordar o que durante a inexorável passagem do tempo se perdeu na sua vida: “Esse desconhecido é-me confortável. Faço o copo rodar na minha mão, as pedras de gelo a diluírem-se, e tenho pena dessa morte lenta da água”.

Controlar o passado


Luís Naves,

As interpretações mais comuns sobre o livro de George Orwell, 1984, centram-se nos perigos da tecnologia e na omnipresença da vigilância. Segundo essa visão, a maior originalidade do romance está na personagem do Grande Irmão (Big Brother) que vê e controla tudo aquilo que as pessoas fazem.

Há outra forma de olhar para este livro, como crítica arrasadora do estalinismo e da dupla linguagem que define o combate político, fenómeno que existiu nas ditaduras comunistas. O romance tenta reflectir sobre o totalitarismo e o esmagamento do indivíduo pelo colectivo, mas a maior originalidade estará porventura na novilíngua que o regime tenta criar, sobretudo na ideia de que a simplificação da linguagem é um mecanismo de limitação da liberdade.

O romance gira também em torno da alteração do passado, que assegura a longevidade da ditadura. A personagem principal, Winston Smith, tem essa função, actualizar os documentos, ou seja, a rescrita das fontes históricas, mas a vigilância continua a ser o elemento mais citado do livro, sempre como exemplo, quando surgem inovações tecnológicas que sugerem acumulação de poder (acções policiais, a espionagem que intercepta chamadas, as teorias de conspiração sobre grupos de influência). E, no entanto, as tecnologias têm funcionado contra a ideia de Big Brother, muito mais no sentido da fragmentação, dificultando o controlo da informação por um único utilizador. A questão do controlo da privacidade é fundamental no livro, mas não representa a lição central para o nosso tempo.

Onde o livro se torna mais inquietante e até presciente é no tema da novilíngua ao serviço do poder e do duplopensar, ou seja, na capacidade da política de dizer uma coisa e o seu contrário. A actualidade tem excesso de dados, mas as tecnologias digitais facilitaram a alteração do passado. No tempo em que o livro foi escrito, 1948, mudar uma fotografia exigia uma técnica elaborada, mas agora trata-se de uma banalidade. Por outro lado, a realidade é incerta, pois determinada informação pode ou não ter sido manipulada, sendo difícil detectar as fraudes. Esse é o autêntico Grande Irmão que sobrevive do romance de Orwell: quem controla o passado, controla o futuro.

Há outros elementos de génio em 1984, por exemplo o uso da guerra para reforçar o controlo das elites sobre as massas, a destruição do amor e a eliminação de palavras, sem as quais deixa de ser possível formular certas ideias.

Ferocidade


Luís Naves,

Se o autor não é vedeta da TV ou poeta fofinho, a assinatura é provavelmente irritante. Falo por mim, o que escrevo não é dirigido a leitores que partem para a leitura com preconceitos inabaláveis. Li um texto muito inteligente de uma autora que escreve no Jornal de Negócios, Eva Gaspar, e ela falava deste maldizer pouco informado que tomou conta do espaço mediático e que se espalha nas redes sociais como uma infestação de cogumelos tóxicos. Há pessoas que não entendem a diferença entre discordar com argumentos e discordar sem eles. Há comentadores que dão palpites sobre tudo e mais alguma coisa, com sentenças definitivas sobre temas que desconhecem, ideias vagas sobre coisas complexas; há também muitos que contestam o outro apenas pela cor da gravata, pelo respectivo lado na trincheira e por julgarem o opositor irritante ou ainda porque lhes apetece, por terem acordado com os pés fora da cama e com azia no estômago. Não faltam razões para a maledicência superficial e cruel, mas julgo que um dos motivos da crispação é razoavelmente racional: foi criado um clima pessimista e negativo, as notícias trazem sistematicamente o lado mau da sociedade e visam sempre a vertente escandalosa dos supostos factos. Algumas pessoas acreditam ingenuamente que, sendo o mundo assim, a liberdade de expressão deve funcionar como valor absoluto, incluindo apenas a irresponsabilidade e o vazio.

 

Não há verdadeiros diários


Luís Naves,

Não há verdadeiros diários, apenas o impulso de escrever todos os dias. Não seria possível colocar a verdadeira existência nestas linhas, embora seja possível tentar a representação aproximada de certas impressões e detalhes – o mapa do metro de Londres; um dicionário de língua húngara, daqueles com ilustrações de objectos; o capitão Haddock a espreitar pelo ombro de Tintim, num avião que vai a cair; pilhas de livros mal arrumados; longos cabelos castanhos da beldade burguesa numa gravura barata (como é que se chama o quadro original?); a pintura em seda que comprei em Islamabad, sobre as delícias do vinho, em pseudo-estilo Mogul; a minha gata de três cores que interrompe estas linhas (acho que está com fome ou a pedinchar carinho) – pois, não há verdadeiros diários, só combates com as palavras, a busca dos rumores do mundo, a insensatez das coisas, vozes na multidão, o romance que não anda, dúvidas, as dúvidas. Só há fragmentos do dia, livros fabulosos que outros escreveram, há hipócritas, azarados e bondosos, há o que não vale a pena e o que interessa, memórias desencontradas, murmúrios e conversas, amores e desilusões, tragédia e continuidade. Há textos insuficientes e títulos impossíveis, pois não se resume assim, dia a dia, o que nos passa pela cabeça.

Incerteza


Luís Naves,

Na sociedade portuguesa instalou-se um mal-estar que está a levar os políticos a ensaiar a fuga para a frente, feita de promessas que não poderão ser cumpridas. O País empobreceu e está crivado de dívidas que não consegue pagar. Os Portugueses adquiriram uma profunda noção de humilhação nacional e o pior é que a doença não passa, os sintomas não aliviam, gritam-se diagnósticos alucinados.

O clima de incómodo insustentável não se limita a dividir a sociedade, mas cria na vida uma sensação de falta de soluções. Portugal tem hoje uma política mais crispada, crescente descrédito das instituições e da democracia. Já ninguém discute o futuro, pois ninguém acredita que ele exista. O declínio parece irreversível.

O País continua a enfrentar problemas recorrentes. As crises do último século estiveram ligadas a desequilíbrios orçamentais ou problemas financeiros com base em incerteza nas contas públicas. Foi o que nos afundou também desta vez e é o que ninguém deseja debater de forma séria.

No actual regime democrático tem aumentado a estabilidade do sistema (os governos parecem sobreviver mais tempo), mas no passado, quando se deparou com crises difíceis, Portugal escolheu caos ou ditadura, matando à nascença qualquer ímpeto reformista.

Não teremos contas públicas equilibradas sem a reforma corajosa do Estado Providência, mas se todos os nossos problemas forem encarados como enigmas insolúveis, não haverá saída. O mal-estar pode conduzir ao impasse, levar a escolhas erradas, populismo ou revolução, que implicam o isolamento do País e a sua condenação à pobreza por muitas décadas.