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Luís Naves,

Ninguém está inteiramente satisfeito com o destino que lhe calhou em sorte. Toda a gente quer emagrecer ou perder um vício qualquer, toda a gente sonha com parceiros de fábula, viagens inesquecíveis, fortuna e felicidade. A vida de cada indivíduo parece cheia de falhas, incompleta. Em cada novo ano, surge aquele ritual um pouco pateta de dizer que melhores dias virão. Cada um acredita que pode despir a pele da sua personagem e mudar de vida como quem muda de fato. Não se trata exactamente de metamorfose, processo longo e planeado, mas de uma transformação instantânea, que nos renova e purifica num momento mágico. Infelizmente, os desejos em excesso têm geralmente o degrau onde tropeçamos e que não se deve confundir com as possibilidades de sonhar acordado. Enfim, às tantas é melhor olhar apenas em frente, esquecendo o passado, essa prisão guardada por fantasmas.

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Luís Naves,

A processo de destituição de Donald J. Trump parece ser um caso clássico de erro político, devido ao drama de enredo labiríntico, em linguagem que poucos entendem. No âmago do episódio estão pressões sobre um líder estrangeiro (what else is new?) para alegadas vantagens eleitorais, mas a partidarização das provas foi de tal forma grosseira que metade do país jamais aceitará a condenação. Isto discute-se sem poder tocar no embaraçoso negócio ucraniano de Hunter Biden, filho do candidato presidencial democrata Joe Biden. Fevereiro é decisivo para a escolha dos democratas e a corrida já se resume ao institucional Biden (que terá a Ucrânia para explicar) ou o rebelde Bernie Sanders, cujo movimento populista incomoda as oligarquias. O que nos leva ao essencial. Trump foi à bolha de Davos explicar aos senhores do mundo: vocês fartam-se de fazer dinheiro comigo; podem não gostar de mim, mas estão todos muito mais ricos. Neste processo de destituição, se olharmos para além do folclore, não vemos nenhuma ameaça à ordem liberal ou às instituições da república americana, apenas um partido a dar um tiro no pé e um presidente que prepara a sua reeleição.

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Luís Naves,

Há situações de violência na sociedade que não estão relacionadas com racismo, mas com classes sociais, pobreza, incerteza laboral, más condições de vida, alcoolismo, problemas mentais, desintegração familiar. E, no entanto, em cada dia que passa, assistimos a simplificações de rixas ou incidentes nos bairros duros. Foi um caso de racismo evidente, gritam uns, quando tudo indica que se tratou de algo mais complexo, sem dúvida ligado à vida dos subúrbios. Parece haver uma espécie de hipersensibilidade para a melanina, pigmento que protege do sol e existe em todo o mundo vivo. Do ponto de vista científico, ninguém sabe o que é isso da raça, pois a despigmentação ocorre nas populações, de forma natural, em dois ou três mil anos. Viemos todos de África, mas os marxistas contemporâneos (estou apenas a registar um facto curioso) abandonaram a explicação da luta de classes e insistem em criar caldinhos com base naquele milímetro da pele, fazendo borbulhar conflitos cujos motivos são outros: o desenraizamento das comunidades, a desagregação das culturas, a desigualdade económica. Não é possível sair desta chinfrineira: quem tiver dúvidas sobre o racismo como explicação universal, é racista. 

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Luís Naves,

O partido Livre não me interessa, mas foi impossível não reparar no patético espectáculo desta organização, no fim-de-semana, e preocupou-me a subserviência da comunicação social, que neste caso parece incapaz de fazer as perguntas certas. Foi extraordinária a hipocrisia do julgamento conceptual feito em público à deputada do partido, Joacine Katar-Moreira, que disse com toda a franqueza aquilo que os seus inquisidores mereciam ouvir. Este partido inenarrável parece estar agora envolvido num exercício cínico de fritar a deputada em fogo lento: dizem que só um milagre a salva de perder a confiança do partido, mas adiaram a decisão de lhe retirar a confiança. E ninguém pergunta o óbvio: para quê adiar uma decisão que está tomada e que só um milagre muda? A deputada foi eleita pelos votos do povo, não pelo partido, mas foi Rui Tavares (o verdadeiro líder do Livre) quem comentou os factos na RTP, num episódio de manipulação da opinião pública que devia envergonhar os contribuintes. A propósito de comentar as eleições primárias no PSD, Tavares falou mais de dez minutos sobre a tentativa de expulsão da deputada, num tom fariseu e sonso que não enganava ninguém. Joacine foi um instrumento útil para as ambições desta gente, mas perdeu os seus direitos e pode ser lançada aos lobos.

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Luís Naves,

Estava a ver um jogo de futebol pela televisão e, a certo ponto, disse em voz alta que o treinador devia tirar o jogador fulano. Passados dois ou três minutos, o tal jogador marcou um grande golo que deu a vitória à minha equipa. É simples: não percebo nada de futebol. Claro que sei distinguir uma obra de arte, aquela finta inesperada, seguida do pontapé perfeito que mais parece um poema. Mas, por favor, não levem a sério as minhas opiniões sobre quem deve jogar. Se isto é tão evidente no futebol (ou na medicina), qual a razão de não ser óbvio nas artes? O amador não é entendido e os artistas trabalham para o esquecimento, pois só um felizardo em mil sobreviverá ao juízo do tempo, com sorte à mistura, como aconteceu por exemplo a Fernando Pessoa. Imaginem que Pessoa escrevia ao gosto da época, sem a liberdade artística que teve por ser quase anónimo; que ouvia os conselhos de amigos que sabiam tanto de poesia como eu de futebol (os heterónimos são um disparate, Fernando); ou que, em vez de ser conhecido apenas por um punhado de artistas, o poeta decidisse seguir as modas. Felizmente, ele decidiu a nosso favor, as gerações futuras: o pouco que publicou em vida era inacessível para as massas e muito do que não publicou era demasiado estranho, mesmo para entendidos. Ainda hoje nos parece um milagre.

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Luís Naves,

Uma escultura encomendada por uma autarquia foi vandalizada, altura em que surgiu um clamor em relação ao custo, com muitos comentários sobre a inexistência de qualquer elemento estético. O autor, Pedro Cabrita Reis, veio a terreno defender o seu trabalho e explicou o que devia ser óbvio: o artista define o que é ou não é arte, mas essa ideia continuou a chocar alguns indignados, para quem o julgamento cabe apenas a quem observa a obra. Ora, só o artista pode fazer arte; só ele tem a capacidade de criar algo inteiramente novo naquela circunstância; o crítico ou o amador podem ter opiniões, podem olhar para outro lado, podem apreciar, rejeitar, aceitar, mas isso não altera nada. Quando a encomenda usou dinheiro público, podemos penalizar eleitoralmente quem a fez, temos essa liberdade, mas o tempo é o único grande crítico. Se a obra não for boa, não sobreviverá a esse julgamento. Aqueles que defendem o fim da liberdade artística deviam ponderar no que verdadeiramente afirmam: confundem o seu gosto com o da sociedade e têm uma bola de cristal que lhes diz como a obra será vista pelas gerações do futuro. Desta forma, impedem toda a arte futura, pois impõem o seu gosto limitado. 

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Luís Naves,

Vem isto a propósito de um post mais abaixo, do José Teixeira (jpt) sobre a censura no Facebook a um blogue controverso. Alguém comentou que o Facebook é uma empresa privada e tem o direito de reservar o acesso aos seus serviços, mas a questão infelizmente não é assim tão simples. Aceita-se o poder monopolista da empresa e, sobretudo, a influência ideológica que esta terá, se puder seleccionar as ideias difundidas. Que controlo exerce a sociedade sobre um serviço que, na prática, influencia a política e reduz os cidadãos a produto de negócio? Por outro lado, poucos têm reparado no extraordinário poder acumulado pelos híper-capitalistas, outrora empresários que não faziam prisioneiros e agora transformados em pacíficos defensores das causas puras, que financiam através de instituições de aparência inócua, distribuindo dinheiro e prémios a intelectuais e outros bem-pensantes que ficam a dever favores. Estes magnatas são gente discreta, cujas verdadeiras intenções não conhecemos, e o fenómeno tem qualquer coisa de inédito: no século passado, a esquerda costumava criticar com unhas e dentes os capitalistas que se metiam em política; agora, a hipocrisia não incomoda uma alma.

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Luís Naves,

Vejamos as principais potências da União Europeia: o Reino Unido confirmou nas urnas a sua saída do clube; em Espanha, há um novo governo progressista, com maioria de dois votos, que depende das cedências que forem feitas aos independentistas catalães e que serão inaceitáveis para mais de metade do país; em Itália, a direita na oposição tem ampla maioria nas sondagens e um governo chefiado pelo populista eurocéptico Matteo Salvini pode estar à distância de escassos meses; em França, um presidente impopular enfrenta protestos de rua contra reformas urgentes, que a cada dia se mostram mais improváveis; na Alemanha, a chanceler Merkel perdeu autoridade e o seu partido está fraco nas sondagens, pelo que, se houver eleições, o país pode ficar numa situação ainda mais pantanosa; entretanto, na Europa Central, cresce uma aliança de países liderada pela Polónia, em contestação da ortodoxia de Bruxelas. Os europeus continuam a depender da energia russa e da protecção militar americana. Em pleno abrandamento económico, a União Europeia demonstrou mais uma vez, na crise iraniana, que deixou de contar na ordem global. E, apesar de tudo, os noticiários continuam a dizer que a Europa se prepara para liderar isto e dar cartas naquilo.

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Luís Naves,

No maravilhoso mundo da nova comunicação, o futuro pede escala, fragmentação e vazio. O consumidor de informação passou a ser o produto e, em troca, nem sequer recebe informação, mas entretenimento. O poder está nas plataformas agregadoras. Os jovens deixaram de ler e já só vêem vídeos; em média, as pessoas olham sete horas e meia por dia para ecrãs de todo o tipo. É aqui que está o negócio, milhões a seguirem histórias inexistentes, como o cão com a cauda na cabeça ou a irritação das massas com a vedeta que não mencionou os fogos na Amazónia do ponto de vista das alterações climáticas. Activismo, celebridades, política light, esta é a mistura para as próximas décadas, numa espécie de revolução cultural descerebrada e pós-moderna, em que multidões em fúria vão agitar o pequenino livro vermelho das banalidades. Um cretino terá mais força do que o maior especialista. Os factos deixaram de importar, o voto deixou de contar. A internet é a verdadeira realidade.

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Luís Naves,

Há pessoas que se incomodam muito com tudo aquilo que sai da narrativa oficial. Preferem as versões confortáveis e as versões habituais. É natural, a sociedade portuguesa é profundamente conservadora, tem horror a mudanças e desconfia de imediato de todas as ideias que não sejam conforme aquilo que é o costume, ou seja, as ideias que não repitam a lengalenga folclórica, as banalidades regimentais, as barbaridades da praxe. Em Portugal, sempre se incineraram os pensamentos divergentes. Nada mudou. A diferença irrita e merece o exílio. A controvérsia é sempre uma escolha de trincheiras. É por isso que não temos debates nem sociedade civil. Qualquer pensamento que não tombe no conformismo é logo confrontado com críticas incompreensíveis e ataques que torcem a argumentação até que esta esteja docilmente domesticada. Isto explica em grande parte a nossa vocação para cauda da Europa.

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Luís Naves,

Os defensores da União Europeia na linha de Bruxelas costumam ter quatro argumentos: UE e Europa são sinónimos; sem UE não haverá paz no continente; as limitações do poder europeu não estão no excesso de Europa, mas na falta dela; todos os problemas são criados pelo nacionalismo. Ora, estes argumentos parecem frágeis. A paz nos últimos 70 anos explica-se pela protecção americana; na questão do sinónimo, a ideia de Europa não exclui Rússia ou Grã-Bretanha, mas o projecto político da UE pode passar sem as duas; não há maneira de verificar o terceiro argumento, mas as limitações terão outros motivos, por exemplo, dependência energética, irrelevância militar e a incapacidade de liderar as recentes transformações tecnológicas; por último, o nacionalismo não foi a causa directa de nenhuma das três calamidades europeias no anterior milénio (peste negra do século XIV, guerras religiosas do século XVII ou fascismo e comunismo no século XX). Embora sem a rivalidade dos impérios não se possa compreender o grande suicídio europeu na Primeira Guerra Mundial, também podemos dizer que o poder das nações foi uma das alavancas no milagre da ascensão europeia nos últimos 250 anos.

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Luís Naves,

O esforço humano anda ligado à desilusão, mas a vida contemporânea parece esquecida dessa regra. Deixou de haver tempo para as coisas amadurecerem, desapareceu a paciência e as pessoas exigem não menos do que a hipnose sublime, de preferência sem terem de pagar. Tudo é espectáculo, floreado retórico, hipérbole, ou dito de outra forma, nada é o que parece, nem na política, nem na cultura. De certa maneira, voltámos um pouco à época barroca, visualmente exagerada, mas relativamente pobre de conteúdo. As elites de então viviam numa bolha, queriam construir um mundo utópico, de cima para baixo, e adoravam fogo-de-artifício, espécie de arte vistosa que dez minutos depois se esqueceu facilmente, tal como hoje nos esquecemos da falsa realidade que preenche as nossas televisões. Com todas as suas qualidades, esse tempo acabou em desilusão, como acabam todos.

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Luís Naves,

Do nevoeiro vinha o gemido melancólico de um monstro desconhecido, uma espécie de choro sem lágrimas, prolongado, de alguém que pedia misericórdia. Nunca tinha pensado que os monstros também tivessem assim grandes tristezas. Este devia ser o último da sua espécie. Escondia-se na névoa do rio e lamentava-se ali, julgando que ninguém ouvia os seus queixumes, sentindo o fim próximo, e que não era apenas certeza da extinção da sua própria consciência, mas a de todas as criaturas semelhantes que tinham existido por milhões de anos e cujas vidas, culminando na sua, seriam em breve para sempre esquecidas, à excepção de uns quantos fósseis enigmáticos que podiam dar a uma praia para que os encontrasse um outro descendente desta Terra. Na derradeira solidão, a mais completa, o monstro lamentou-se durante horas, depois o nevoeiro dissipou, o sol brilhou sobre o largo rio e não se ouviu mais aquela lástima. Era o último da espécie, nenhum osso deu à costa, por certo o cadáver do monstro afundou-se no lodo e ali ficou.

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Luís Naves,

Por razões que não são inteiramente claras, vivemos na era da incerteza. Ideias sobre a natureza imprecisa da realidade passaram para a consciência popular, foram absorvidas, por assim dizer, por uma sociedade cada vez mais fragmentada, onde muitas pessoas se sentem inseguras. Essa ambiguidade produz desconfiança em relação às instituições, que estão geralmente em declínio. Talvez isso explique que nos países desenvolvidos o eleitorado prefira líderes que parecem ter tudo sob controlo e que, por isso, são criticados pelos poderes mediáticos em perda de graça. A descrença contemporânea pode estar ligada ao envelhecimento da população ou à infantilização da juventude, mas também parece que os antigos conflitos entre classes deixaram de ser percebidos como tal e são hoje interpretados como a insatisfação injustificada de pessoas cuja opinião não conta. A cultura é hoje dominada por sentimentos de culpa, mitologias identitárias e lutas simplificadas entre o bem e o mal.

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Luís Naves,

Quando no supermercado saímos para pagar, a fila do lado é sempre mais rápida. Em todos os restaurantes os empregados servem sempre primeiro as mesas dos clientes que chegaram depois de nós. Aliás, o trânsito é menos intenso no outro lado da autoestrada, os comboios que vemos viajam no sentido oposto ao do nosso comboio e as rosas do vizinho são mais viçosas, apesar do nosso quintal ter melhor solo e melhor exposição solar. Há outras regras gerais no mundo: as mulheres dos outros são mais bonitas e os carros dos amigos são mais luxuosos. No emprego, o tipo que trabalha ao nosso lado, e que é imbecil, recebe mais elogios da chefia, a qual prefere gabar o seu talento e desprezar o nosso. Para piorar uma situação já de si péssima, os pingos da chuva, que se deviam espalhar de forma uniforme, concentram a sua queda sobre o nosso corpo. Felizmente, porque tudo se compensa, no nosso caso o tempo passa mais depressa do que para os outros.

Alguns argumentos sobre a questão catalã


Luís Naves,

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Decorre neste blogue um debate sobre a interpretação dos resultados da consulta popular na Catalunha e queria acrescentar alguns argumentos. Peço antecipadamente desculpa pela dimensão do texto, mas as questões são complexas.

Como afirma Luís Menezes Leitão, em texto anterior, os catalães têm todo o direito de se tornarem independentes, se assim o quiserem. Podemos, no entanto, duvidar que o queiram. Os resultados da consulta são, no mínimo, ambíguos. A votação pela independência foi esmagadora, mas o facto é que dois em cada três eleitores não se deram ao trabalho de ir votar. Para os independentistas, trata-se de um mau resultado. Para quem queira negociar com o poder central, foi um triunfo. Comparando com o referendo escocês, onde a participação rondou 80%, a consulta catalã sugere que apenas votaram eleitores já convencidos.

Em democracia só contam os votos expressos, é verdade, mas aqui temos outros elementos a considerar: a consulta não era legal e os eleitores não tinham obrigação cívica de votar, a primeira pergunta continha forte ambiguidade e os interesses económicos em jogo são demasiado complexos. Numa reportagem que fiz na Catalunha, há uns anos, perguntei a uns empresários (catalães) sobre a independência e eles fugiram da pergunta como o diabo da cruz. Não era bem o que queriam, pois dependiam do mercado espanhol. Outro exemplo: Barcelona é a capital da indústria editorial em língua castelhana, que controla um dos maiores mercados mundiais do sector livreiro. Os escritores catalães escrevem em castelhano, a diferença entre vender mil livros ou cem mil. A questão linguística catalã é tão folclórica como a escocesa.

 

A Catalunha nunca existiu como Estado independente, mas Aragão (a origem histórica da Catalunha) foi um dos reinos mais influentes do seu tempo e chegou a ter um império no Mediterrâneo. Estas memórias permanecem. No século XIV, Portugal e Aragão foram aliados contra Castela, o que aliás levou a várias derrotas militares portuguesas e quase à nossa perda de independência. Em comparação, a Eslováquia, satélite da Alemanha nazi durante a II Guerra Mundial, ou a Croácia, sempre ligada ao Reino da Hungria, ao Império Austro-Húngaro ou à Jugoslávia, terão porventura menos pergaminhos nacionais.

Isto leva-nos ao argumento de que Espanha-fraca é bom para Portugal e Espanha-forte é mau. A ideia não tem sustentação: Espanha-fraca sempre foi mau para Portugal, isso é claro; e, no novo ambiente europeu, Espanha-forte é favorável, pois representa mercado para os produtos portugueses, investimento e emprego, sem implicar qualquer ameaça de anexação. Conclusão óbvia: a independência catalã seria objectivamente má para Portugal, pois afectava a economia espanhola, da qual dependemos.

 

Como refere José Gomes André, mais abaixo, os europeus não têm grande memória das guerras que devastaram o continente, apenas histórias de família contadas pelos mais velhos. Como escrevi em texto anterior, os europeus não sentem qualquer ameaça externa e a União Europeia alterou quase tudo na velha Europa. Há vários exemplos de populações ou até de nações que não se revêem inteiramente nos países a que pertencem, mas os ressentimentos e a noção de injustiça histórica deram origem a mero desconforto. Antes da UE, estas entidades separatistas foram combatidas com dureza. Hoje, não faz qualquer sentido que o Estado soberano resista pela força a uma tentativa de separação.

No entanto, se a Europa é uma vasta zona de liberdade, também se verifica que a independência não implica mais liberdade, tendo vantagens pouco claras para quem se separa. Esta parte do argumento é complicada e exige explicação: a legislação de cada país membro da UE tem de estar de acordo com critérios europeus muito exigentes em matéria de liberdade individual e direitos de minorias. Nas regiões da Europa onde há grupos separatistas ou minorias étnicas, a adesão comunitária reduziu as discriminações e conferiu autonomia a essas populações. Há ainda problemas, sobretudo com as minorias, mas a situação tende a melhorar. Assim, a única liberdade que podia ser obtida com a eventual independência seria a económica, mas mesmo aqui haveria vencedores e perdedores. No caso catalão, os empresários perdiam algum acesso ao seu principal mercado e os trabalhadores teriam mais desemprego.

 

O cerne do conflito está nas transferências financeiras e na ideia de que a Catalunha, sendo rica, sustenta as regiões mais pobres de Espanha. No caso escocês, havia algo de semelhante, o dinheiro do petróleo do Mar do Norte, com os escoceses a pedirem uma maior fatia. Na Bélgica, o problema é ainda o mesmo, não havendo separação por causa de Bruxelas, cujo estatuto de sede das comunidades europeias representa uma fonte de rendimento e de emprego que nenhuma das duas comunidades pode perder.

A Catalunha sente que, na prática, sustenta regiões mais pobres. O reverso da moeda é a circunstância de muitos catalães serem hoje emigrantes de regiões mais pobres de Espanha. Estas pessoas não querem a independência e fizeram um boicote à consulta popular, recusaram-se a votar, mas se houver um referendo a sério vão certamente votar contra. Quantos são? Não sabemos. O que farão em caso de independência? Não sabemos.

O que sabemos é que se a Catalunha se tornar independente, terá grandes problemas com a sua integração europeia, pois a UE baseia-se em tratados internacionais e tudo teria de ser renegociado. Sendo inédita, a situação implicaria certamente um pesadelo legal e burocrático. Também por aqui se prejudicava Portugal. A Escócia sentiu o mesmo dilema e preferiu não arriscar. Parece assim evidente que os grupos soberanistas europeus terão cada vez menos incentivos para lutar pela independência. Os ganhos são incertos e podem perder tudo.

 

O muro e a transição


Luís Naves,

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A queda do Muro de Berlim não foi um acontecimento estritamente alemão, antes o símbolo da reunificação da própria Europa. Ao longo dos últimos 25 anos assisti à transição dos países do bloco socialista para o sistema liberal. Vi como era antes da mudança, testemunhei episódios revolucionários e fui assistindo às vicissitudes da transformação, sobretudo na Hungria. Apesar de ter proporcionado desenvolvimento e liberdade, a transição foi um processo também traumático, ainda mal compreendido em Portugal. Na primeira década, uma geração perdeu a segurança no emprego e muita gente mergulhou na pobreza. Empresas socialistas foram compradas por tuta-e-meia, nomeadamente pela concorrência ocidental, através de testas-de-ferro, só para serem desmanteladas. Os ocidentais ficavam com menos um competidor, os testas-de-ferro ganhavam dinheiro com os terrenos e as luvas. Assim se fizeram fortunas de conhecedores que souberam aproveitar a privatização apressada da economia, passando directamente do aparelho repressivo para a burguesia capitalista.

 

O mexilhão pagou de muitas maneiras, pela inflação ou pelas leis imprecisas que tornavam os investimentos arriscados, engolindo as poupanças. O novo poder não era exactamente novo, pois o antigo regime tinha forte inércia. Os agentes da polícia secreta continuaram tranquilamente a fazer as suas negociatas. Escrevi um romance sobre o tema, com o título Territórios de Caça, editado pela Quetzal, tentativa de extrair dessa história algumas impressões sobre a natureza humana. O regime comunista não desapareceu de um dia para o outro, as pessoas que tinham apoiado a ditadura continuaram a fazer a sua vida. Já não prendiam dissidentes, mas há outras formas de perseguir. Curiosamente, alguns amigos que tinham sido opositores do regime (artistas, professores, intelectuais) ficaram desempregados e em dificuldades, enquanto prosperava a nova classe de empresários ex-comunistas travestidos de capitalistas. As minorias étnicas foram altamente prejudicadas, pois o empobrecimento atingia primeiro os que tinham menor influência. Na Hungria, as maiores vítimas foram os ciganos, grupo discriminado, que já vivia em pobreza, pois os comunistas tinham proibido o nomadismo.

 

As fábricas foram reconvertidas. No campo, muitos agricultores iludiram-se e acabaram na falência. Os ocidentais investiram enormes somas, mas também fizeram grandes lucros, alguns duvidosos, aproveitando ao máximo os corruptos que iam sendo eleitos, sobretudo pós-comunistas, que se reciclaram em formações ditas socialistas, usando parte do aparelho do antigo regime. Estas formações continuam a ser escutadas com respeito deste lado da antiga cortina de ferro. Houve também colapsos financeiros, antes e depois da adesão europeia, sendo que esta incluiu restrições estranhas, sobretudo no acesso ao dinheiro da agricultura e na circulação de pessoas.

Enfim, passaram 25 anos e estes países superaram os traumas devido à sua forte identidade nacional. O balanço da transição é para eles positivo, ganharam democracia e liberdade, mas muitas críticas ocidentais não escondem forte sobranceria, omitindo sacrifícios que explicam a crispação nos debates políticos, o quase desaparecimento da esquerda pós-comunista, a desconfiança em relação à UE e o cinismo do eleitorado. A absorção da RDA (onde os pós-comunistas ainda têm razoável votação) foi feita à custa de uma gigantesca injecção de capital, que de forma indirecta mobilizou todos os países europeus, mas o resto da Europa de Leste não teve as mesmas facilidades. Muitas pessoas esquecem-se disto. Espera-se destes países que andem na linha e não guardem ressentimentos.

 

As luzes que se acenderam na Europa


Luís Naves,

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O dia 9 de Novembro de 1989 teve enorme importância simbólica. A meio do Verão desse ano, dezenas de milhares de alemães de leste aproveitaram as primeiras brechas na chamada ‘Cortina de Ferro’ para fugir do seu país e a onda de refugiados atingiu tal dimensão, que o regime comunista da Alemanha Oriental não podia resistir muito tempo. Devido ao pânico da hierarquia, tudo se precipitou a 9 de Novembro. A dissolução da fronteira entre dois sistemas políticos antagónicos teve o seu ponto culminante no derrube do muro que dividia em dois a cidade de Berlim, mas o campo socialista estava já em pleno colapso e a Rússia perdia a Guerra Fria.

O muro era uma ferida com origem na divisão que resultou da Segunda Guerra Mundial. A sua destruição permitiu a reunificação da Alemanha, que 25 anos depois se tornou a força dominante da União Europeia. O dia crucial de 9 de Novembro de 1989 corresponde a um capítulo fundamental de outra narrativa, esta mais extensa, sobre a supremacia na Europa. Nos últimos 500 anos, o assunto mais importante da política europeia tem sido a definição do controlo de uma faixa de territórios onde se concentra a riqueza, a população e o principal património do continente. Esta faixa é perfeitamente visível do espaço, sobretudo de noite, e vai desde o sul de Inglaterra e dos Países Baixos ao norte de Itália, de Paris até Varsóvia ou Budapeste. No passado, quem controlou esta região, controlou a Europa.

Durante a Guerra Fria, uma fatia substancial da zona central do Continente esteve sob controlo soviético. Esta extensão do império russo entrou em graves dificuldades nos anos 70, incapaz de prosseguir a competição económica e militar com os Estados Unidos e respectivos aliados. Moscovo não conseguiu manter sob seu controlo países mais ricos do que a Rússia e foi o descontentamento crescente das populações submetidas que levou ao colapso da Cortina de Ferro. Os oprimidos resolveram o assunto, sendo interessante observar que a Alemanha, como potência, foi a maior beneficiária de um processo que não iniciou e no qual as autoridades embarcaram, de início, com algum temor.

Passaram 25 anos sobre a Queda do Muro de Berlim e podemos observar que este foi sem dúvida um dos episódios mais felizes da História recente. Nos chamados países de leste, cem milhões de europeus vivem agora em sociedades livres e prósperas. A Alemanha reunificada é a maior potência europeia, mas está firmemente ligada à França, Holanda, Itália e Polónia, sem esquecer a NATO. Existe portanto um equilíbrio: a Alemanha não é demasiado forte nem demasiado fraca, necessita dos seus parceiros e estes necessitam dela. Pela primeira vez na sua História, não tem inimigos nas fronteiras. Em vez de um cerco de hostilidade, há um cerco de alianças. Ninguém esquece que foi nos momentos de extrema fraqueza ou de hegemonia alemã que, segundo a poderosa imagem de Edward Grey (ministro britânico em 1914), “as luzes se apagaram na Europa”. A frase foi proferida há cem anos, quando começou a I Grande Guerra, e seria necessário esperar por 1989 para que a luz tivesse de novo uma verdadeira oportunidade. 

Terra Distante


Luís Naves,

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Em Terra Distante, um agradável western de Anthony Mann, de 1954, Jimmy Stewart interpreta um individualista sem causa, de psicologia complexa, com um lado negro e cujas motivações não são de todo claras. As restantes figuras estão divididas entre cínicos e vítimas. Os primeiros movem-se pela ganância, que é a origem do mal, como vai recitando um dos mineiros mais pessimistas. No final, o bem triunfa, mas assistimos com certo fascínio às transformações episódicas do nosso herói, que pode ser cruel e violento ou fingir sem hipocrisia uma inocência que não possui.

Os mineiros procuram ouro numas montanhas perto do Alasca e que pertencem ao Canadá. A propósito de geografia, vemos o contraste entre a ordem de um país tutelado pelo Estado de direito e outro onde só existe a desordem, o território do capitalismo selvagem, onde reina a injustiça do mais forte. É interessante verificar como Hollywood foi sempre fortemente ideológica, mesmo num banal western: aqui, encenava-se o confronto entre uma comunidade trabalhadora e os interesses estreitos da minoria exploradora e sem escrúpulos, que não hesitava em recorrer à maior violência.

O bem geral triunfa, mas só depois de o herói compreender que tem de se colocar do lado da justiça. O amor perde, de certa maneira, pois não é possível conciliar a o fundo bondoso do aventureiro com a paixão algo irracional da sua alma-gémea, Ruth Roman. Também não podemos concluir que o poder do Estado seja a solução ideal, pois a autoridade canadiana tem falta de meios, hoje diríamos que parece sofrer políticas de austeridade, forçando homens com a vocação de solitários, como é o caso de Stewart, a tomarem conta da questão. Tirando estas ideias mais datadas, o filme tem a alma do cinema clássico americano, com ritmo e estrutura, densidade de personagens, diálogos sem tiradas literárias e a inexcedível credibilidade dos actores.

A vida invalidada


Luís Naves,

“Sem saírem de casa, os autores de novelas, mesmo os mais anónimos, podem viajar prescindindo da reserva de hotel ou de bagagens complicadas, basta-lhes ocupar a imaginação das personagens que inventam, podem até deslocar-se no tempo e ignorar as regras. Todos os que gostam de escrever viajam barato”.

Escrevi este parágrafo e depois retirei-o do texto onde estava. Na realidade, não sabia muito bem o que fazer com ele.

 

“Para que serve a União Europeia?”, perguntou a minha mulher imaginária, antes de explicar que a roupa não tinha tamanhos normalizados, as calças 44 eram diferentes das homólogas alemãs. Sem ter resposta lógica, saí da loja (chamem-lhe divórcio) caminhei pela rua Augusta e vi um homem estátua, a fazer de conquistador mongol. Subi ao pedestal e fiquei ali um pouco, sem pensar: de vez em quando, mudava de expressão e fazia cara de mau para os turistas, que achavam graça e deixavam uma moeda numa caixa de cartão que se abria mais abaixo. Pelo ar, pairava o cheiro a castanhas assadas.

Cansei-me depressa e continuei o caminho, se é que tinha algum. Logo ao fim da rua, cruzei-me com uma pessoa conhecida e o tipo desviou a vista, para não ter de falar comigo. Senti-me um intruso na vida dos outros, senti-me embaraçoso. Fiquei a pensar naquele desencontro, naquilo que eu fizera e que levara esse outro a desviar a vista para evitar cruzar-se comigo e ter de me apertar a mão, poupando assim duas palavras de falsa amabilidade, talvez até duas palavras de comiseração e pena, enfim, ia de qualquer forma referir que estava tudo bem, na normalidade habitual, mas ele deve ter pensado que não havia pachorra para ouvir desgraças e que as suas já lhe bastavam. Ninguém viu o meu aceno para a atmosfera, à excepção talvez do mongol, que mudou subitamente de expressão, de semblante neutro para aspecto aterrorizador.

Quando cheguei ao metro, ia a assobiar Here comes the sun, a tentar recordar a letra, havia uma réstia de calor, um farrapo que deslizava do sol envergonhado e, ao descer as escadas, cruzei-me com um doido cuja vida tentara imaginar no outro dia. Fui o tempo todo a observar as pessoas apressadas, os nervosos e os críticos, os impacientes e os que já desistiram, caras entristecidas e corpos cansados. Quando cheguei à minha estação, já me tinha esquecido da melodia que vinha a assobiar. Seria Across the Universe? Uma estrangeira não podia passar a cancela e dizia-me que tinha o bilhete pago para todo o dia, embora dissesse invalidado. Era jovem e simpática, uma personagem de novela romântica: abri-lhe a cancela com o meu bilhete e ela agradeceu-me com um sorriso que me pagou o dia.

Só mais tarde percebi que eu próprio já não podia passar a cancela. Insisti, mas o meu bilhete dava invalidado, assim dizia o visor, pois as máquinas são mais espertas do que pensamos e sabem que ninguém sai de um sítio duas vezes seguidas. Assim, estou preso no metro. Ando pelos corredores sombrios e vazios, entro nas composições e saio onde me apetece. Só não consigo passar pela cancela e isso impede-me de regressar à vida normal. Nos subterrâneos da cidade, as pessoas nunca se cumprimentam e, por isso, ainda não encontrei alguém que não me cumprimentasse de propósito. Estou a assobiar Across the Universe. Aqui, não há frio e não chove; há outros como eu, raros, que vão ficando neste labirinto. É isso o que fazemos, por aqui vamos ficando, com a vida invalidada.