“Sem saírem de casa, os autores de novelas, mesmo os mais anónimos, podem viajar prescindindo da reserva de hotel ou de bagagens complicadas, basta-lhes ocupar a imaginação das personagens que inventam, podem até deslocar-se no tempo e ignorar as regras. Todos os que gostam de escrever viajam barato”.
Escrevi este parágrafo e depois retirei-o do texto onde estava. Na realidade, não sabia muito bem o que fazer com ele.
“Para que serve a União Europeia?”, perguntou a minha mulher imaginária, antes de explicar que a roupa não tinha tamanhos normalizados, as calças 44 eram diferentes das homólogas alemãs. Sem ter resposta lógica, saí da loja (chamem-lhe divórcio) caminhei pela rua Augusta e vi um homem estátua, a fazer de conquistador mongol. Subi ao pedestal e fiquei ali um pouco, sem pensar: de vez em quando, mudava de expressão e fazia cara de mau para os turistas, que achavam graça e deixavam uma moeda numa caixa de cartão que se abria mais abaixo. Pelo ar, pairava o cheiro a castanhas assadas.
Cansei-me depressa e continuei o caminho, se é que tinha algum. Logo ao fim da rua, cruzei-me com uma pessoa conhecida e o tipo desviou a vista, para não ter de falar comigo. Senti-me um intruso na vida dos outros, senti-me embaraçoso. Fiquei a pensar naquele desencontro, naquilo que eu fizera e que levara esse outro a desviar a vista para evitar cruzar-se comigo e ter de me apertar a mão, poupando assim duas palavras de falsa amabilidade, talvez até duas palavras de comiseração e pena, enfim, ia de qualquer forma referir que estava tudo bem, na normalidade habitual, mas ele deve ter pensado que não havia pachorra para ouvir desgraças e que as suas já lhe bastavam. Ninguém viu o meu aceno para a atmosfera, à excepção talvez do mongol, que mudou subitamente de expressão, de semblante neutro para aspecto aterrorizador.
Quando cheguei ao metro, ia a assobiar Here comes the sun, a tentar recordar a letra, havia uma réstia de calor, um farrapo que deslizava do sol envergonhado e, ao descer as escadas, cruzei-me com um doido cuja vida tentara imaginar no outro dia. Fui o tempo todo a observar as pessoas apressadas, os nervosos e os críticos, os impacientes e os que já desistiram, caras entristecidas e corpos cansados. Quando cheguei à minha estação, já me tinha esquecido da melodia que vinha a assobiar. Seria Across the Universe? Uma estrangeira não podia passar a cancela e dizia-me que tinha o bilhete pago para todo o dia, embora dissesse invalidado. Era jovem e simpática, uma personagem de novela romântica: abri-lhe a cancela com o meu bilhete e ela agradeceu-me com um sorriso que me pagou o dia.
Só mais tarde percebi que eu próprio já não podia passar a cancela. Insisti, mas o meu bilhete dava invalidado, assim dizia o visor, pois as máquinas são mais espertas do que pensamos e sabem que ninguém sai de um sítio duas vezes seguidas. Assim, estou preso no metro. Ando pelos corredores sombrios e vazios, entro nas composições e saio onde me apetece. Só não consigo passar pela cancela e isso impede-me de regressar à vida normal. Nos subterrâneos da cidade, as pessoas nunca se cumprimentam e, por isso, ainda não encontrei alguém que não me cumprimentasse de propósito. Estou a assobiar Across the Universe. Aqui, não há frio e não chove; há outros como eu, raros, que vão ficando neste labirinto. É isso o que fazemos, por aqui vamos ficando, com a vida invalidada.