A vida invalidada


Luís Naves,

“Sem saírem de casa, os autores de novelas, mesmo os mais anónimos, podem viajar prescindindo da reserva de hotel ou de bagagens complicadas, basta-lhes ocupar a imaginação das personagens que inventam, podem até deslocar-se no tempo e ignorar as regras. Todos os que gostam de escrever viajam barato”.

Escrevi este parágrafo e depois retirei-o do texto onde estava. Na realidade, não sabia muito bem o que fazer com ele.

 

“Para que serve a União Europeia?”, perguntou a minha mulher imaginária, antes de explicar que a roupa não tinha tamanhos normalizados, as calças 44 eram diferentes das homólogas alemãs. Sem ter resposta lógica, saí da loja (chamem-lhe divórcio) caminhei pela rua Augusta e vi um homem estátua, a fazer de conquistador mongol. Subi ao pedestal e fiquei ali um pouco, sem pensar: de vez em quando, mudava de expressão e fazia cara de mau para os turistas, que achavam graça e deixavam uma moeda numa caixa de cartão que se abria mais abaixo. Pelo ar, pairava o cheiro a castanhas assadas.

Cansei-me depressa e continuei o caminho, se é que tinha algum. Logo ao fim da rua, cruzei-me com uma pessoa conhecida e o tipo desviou a vista, para não ter de falar comigo. Senti-me um intruso na vida dos outros, senti-me embaraçoso. Fiquei a pensar naquele desencontro, naquilo que eu fizera e que levara esse outro a desviar a vista para evitar cruzar-se comigo e ter de me apertar a mão, poupando assim duas palavras de falsa amabilidade, talvez até duas palavras de comiseração e pena, enfim, ia de qualquer forma referir que estava tudo bem, na normalidade habitual, mas ele deve ter pensado que não havia pachorra para ouvir desgraças e que as suas já lhe bastavam. Ninguém viu o meu aceno para a atmosfera, à excepção talvez do mongol, que mudou subitamente de expressão, de semblante neutro para aspecto aterrorizador.

Quando cheguei ao metro, ia a assobiar Here comes the sun, a tentar recordar a letra, havia uma réstia de calor, um farrapo que deslizava do sol envergonhado e, ao descer as escadas, cruzei-me com um doido cuja vida tentara imaginar no outro dia. Fui o tempo todo a observar as pessoas apressadas, os nervosos e os críticos, os impacientes e os que já desistiram, caras entristecidas e corpos cansados. Quando cheguei à minha estação, já me tinha esquecido da melodia que vinha a assobiar. Seria Across the Universe? Uma estrangeira não podia passar a cancela e dizia-me que tinha o bilhete pago para todo o dia, embora dissesse invalidado. Era jovem e simpática, uma personagem de novela romântica: abri-lhe a cancela com o meu bilhete e ela agradeceu-me com um sorriso que me pagou o dia.

Só mais tarde percebi que eu próprio já não podia passar a cancela. Insisti, mas o meu bilhete dava invalidado, assim dizia o visor, pois as máquinas são mais espertas do que pensamos e sabem que ninguém sai de um sítio duas vezes seguidas. Assim, estou preso no metro. Ando pelos corredores sombrios e vazios, entro nas composições e saio onde me apetece. Só não consigo passar pela cancela e isso impede-me de regressar à vida normal. Nos subterrâneos da cidade, as pessoas nunca se cumprimentam e, por isso, ainda não encontrei alguém que não me cumprimentasse de propósito. Estou a assobiar Across the Universe. Aqui, não há frio e não chove; há outros como eu, raros, que vão ficando neste labirinto. É isso o que fazemos, por aqui vamos ficando, com a vida invalidada.

5 comentários em “A vida invalidada”

  1. Não há dúvida nenhuma, Luís, que os cidadãos europeus necessitam de um passe que lhes valide a vida.
    É que isto de andar a assobiar para o lado não só não é sistema como também pode ser contagiante.
    Será que de Bruxelas virão novos bilhetes para abrir as cancelas?

    Isto de um gajo ser simpático para com uma rapariga estrangeira, que até nem está habituada a usar os nossos números, tem os seus quês.

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