Do nevoeiro vinha o gemido melancólico de um monstro desconhecido, uma espécie de choro sem lágrimas, prolongado, de alguém que pedia misericórdia. Nunca tinha pensado que os monstros também tivessem assim grandes tristezas. Este devia ser o último da sua espécie. Escondia-se na névoa do rio e lamentava-se ali, julgando que ninguém ouvia os seus queixumes, sentindo o fim próximo, e que não era apenas certeza da extinção da sua própria consciência, mas a de todas as criaturas semelhantes que tinham existido por milhões de anos e cujas vidas, culminando na sua, seriam em breve para sempre esquecidas, à excepção de uns quantos fósseis enigmáticos que podiam dar a uma praia para que os encontrasse um outro descendente desta Terra. Na derradeira solidão, a mais completa, o monstro lamentou-se durante horas, depois o nevoeiro dissipou, o sol brilhou sobre o largo rio e não se ouviu mais aquela lástima. Era o último da espécie, nenhum osso deu à costa, por certo o cadáver do monstro afundou-se no lodo e ali ficou.
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Luís Naves,

até que, com tanto lamento e sem estrago algum, esfumado no nevoeiro, fiquei eu a lamentar não ter conhecido esse último espécime sofrendo de solidão planetária.