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Luís Naves,

Para se compreender o que se passa no mundo, julgo que é necessário considerar dois fenómenos aparentemente separados, a fragmentação das sociedades e a revolução mediática. Nos últimos quarenta anos, nos países avançados, o poder dependeu de uma classe média cuja satisfação era a prioridade de qualquer governante competente. Este grupo maioritário decidia eleições e confiava em meios de comunicação tradicionais que controlavam a circulação de ideias. Em cima da vasta alteração tecnológica que acabou com a estabilidade laboral, surgiu em 2008 uma crise que minou a confiança nas instituições e criou uma economia endividada e mais instável. Agora, chega o terceiro golpe consecutivo, a paragem económica completa por dois meses, que dará origem a falências e desemprego. A classe média, que era uniforme, divide-se actualmente entre uma metade que enriquece e outra que empobrece. Uns sentem-se inseguros, os outros mais confiantes do que nunca. A tudo isto, acresce o segundo fenómeno, que tem a ver com o controlo da circulação de ideias (ou de perspectivas da realidade). Os meios de comunicação tradicionais perderam esse controlo. Toda a gente tem um smartphone e pode filmar uma atrocidade na rua. As imagens espalham-se como um vírus, mesmo quando os fragmentos são incompletos ou fora do contexto. Já não há realidade única, mas muitas, algumas que se desmentem entre si, o que força a sociedade a dividir-se em bolhas, onde se refugiam tribos incapazes de aceitar pontos de vista alternativos. Com a pandemia e os seus efeitos, esta mudança geral só pode acentuar-se. A fragmentação torna difíceis as coligações, vai enfraquecer instituições e dividir alianças. A grande mudança não estará na relação entre potências, mas nas tensões internas de cada uma, alimentadas por descontentamento, guerras culturais e a percepção de insegurança. O tempo das potências é mais lento, mas todas terão problemas internos. Os EUA continuarão a liderar o mundo, a China terá dificuldade em contornar os obstáculos à sua ascensão, a UE depende da Alemanha para formar um núcleo duro de países e a Rússia precisa de gerações para superar as suas limitações demográficas.

7 comentários em “26”

  1. Foi Jornalismo e educação Marxistas, que transformaram um caso de brutalidade policial num caso racial.

    Só foi a espoleta, a cultura já estava traçada pela narrativa.

    É o jornalismo e educação Marxista que quer destruir estátuas, queimar livros, filmes e séries, força despedimentos e punição de quem diz diferente, ataca quem resiste e ou diz algo de que discordam.

    É o jornalismo Marxista que chama de Activistas quem faz violência, destrói e ataca em nome da Esquerda. Já os outros são Extremistas como o Tea Party que nada violento fez.

    É jornalismo Marxista que censura os números da violência policial e civil nos aspectos raciais que não convêm à narrativa Marxista.

    No caso dos EUA, não continuarão a “liderar” o mundo.
    Como é óbvio um sistema educativo e mediático completamente politizado já não pela esquerda mas pela extrema esquerda não tem a prazo condições para o fazer. A cultura de defenestração de quem discorda expande-se a todos os aspectos como acontece em qualquer movimento revolucionário e entre os próprios revolucionários.
    A entropia que já era importante só vai acentuar-se.
    Esperem quando os Democratas cheguem ao poder a Revolução Cultural seja ainda mais acentuada. E desta vez vão se assegurar que não há surpresas eleitorais.

    Como sempre em Revoluções não será permitido dizer Não.
    Não é obviamente a palavra da Liberdade.

    lucklucky

    1. Apoiado. Os EUA estão a destruir-se, por dentro. Gigantismo, centralismo.
      Poderá inclusivé ocurrer alguma fragmentação.
      Aquela Guerra da Secessão Norte/Sul, guerra civil, foi demasiado secessão, guerra, e pouco a resultante União.
      Gigantismo, centralismo, históricamente nunca resistiram ao tempo.
      Como nesta mal condimentada UE. Esperemos que sem as usuais guerras sempre “vitoriosas”, para um dos lados.

  2. A Alemanha já demonstrou ser incapaz de formar um núcleo duro de países. Esta incapacidade espelha-se também no tão conhecido Brexit que nunca será uma verdadeira exit na medida em que uns e outros necessitarão manter as suas economias a navegar. Mas politicamente esfrangalhou.
    O problema da Alemanha incapaz disto não reside nessa incapacidade em formar núcleos duros, mas presumir ser capaz de impor dureza onde mesmo não tem força bastante.
    Portanto a UE é uma Europa de submissos. Europa esta que também permitiu revelar que as ditas forças revolucionárias e “farturantes” chegadas ao poder acomodam-se aos tostões miseráveis para sobreviver. E como é necessário garantir a carteira, finge-se que com discursos sociais, rácicos, generalistas de género e outros mais se alimentam barrigas e criam-se condições.

    Portanto, os reinos dos submissos a única coisa que fizeram foi legalizar discursos para encobrir a fome e a miséria.

    Todavia, a história revela que é quando as fraquezas internas se expõem, em particular nas grandes ou poderosas nações, que as soluções extremas ocorrem: as guerras.
    A guerra sempre foi uma solução para manter o poder de alguns apoiados por uma massa convencida que daí viria alimento e sustento.

  3. O grande golpe que abriu as portas a todas as crises e alterações no funcionamento das sociedades foi a revogação do Glass-Steagall Act por Clinton, em 1999. Pela primeira vez, desde 1933, a banca passou a poder especular com as economias dos depositantes. Esta alteração do funcionamento do sistema financeiro ( correntemente mencionada como o fim da separação obrigatória entre bancos de depósitos e bancos de investimento ) foi depois objecto de acordo por parte dos cerca de 180 bancos centrais membros do BIS ( Bank of International Settlements) em Basileia.
    Enquanto não for reposta a disposição do Glass-steagall act, a economia continua a obedecer à finança, a criação de moeda vai toda para as empresas supranacionais, alimentando o crescimento das bolsas e os lucros e valor dessas mesmas empresas. E não haverá fundos suficientes para desenvolver a economia das PME’s e o emprego.
    Neste cenário, qualquer acontecimento pode criar ou não uma crise, consoante os interesses dos meios financeiros.

      1. Foi Nixon quem acabou com a ligação do dólar ao ouro definida nos acordos de Bretton Woods e a crise que se seguiu em 1973/74 foi provocado pela repentina subida brutal do preço do petróleo. Foi o fim dos 30 gloriosos anos de desenvolvimento do pós-guerra, e o começo de um período com inflação, estagnação e desemprego. A então chamada estagflação. Ao contrário do que se estudava, a inflação foi provocado pelo aumento generalizado dos custos e não pelo aumento da massa monetária. A indústria ocidental sofreu com a concorrência do leste, sobretudo do Japão, e o nível da fiscalidade atingia níveis elevadíssimos, sobretudo os rendimentos mais elevados. Foi então que primeiro Tatcher e depois Reagan decidiram fazer uma revolução fiscal e libertar a economia de grande parte da tutela do estado. O Mercado Comum alargou-se ( eram 6 países fundadores ) a Efta foi desaparecendo, as trocas intensificaram-se, fecharam-se indústrias não competitivas e o crescimento retomou. Houve uma pequena crise na bolsa de NY em 1987 e depois uma pequena crise econômica em 1992/94. Se a memória não me engana, só houve problemas com dois pequenos bancos, na Alemanha (? ), nos anos 70. O sistema financeiro era sólido, inspirava confiança e financiava a economia. Com o fim do glass-steagall e, para nós, a introdução do euro tal como está arquitectado a história passou a ser outra. Está que conhecemos agora.

  4. O “pessoal” quando começar a perceber que “isto” são métodos de controlo já vai ser tarde.
    As “crises” são acções que geram reacções e o pior é quando as reacções são as que se pretendem com as acções iniciais.

    WW

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