O Padre Vieira e a Coordenadora Martins


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(Catarina Martins) diz que pichagem na estátua do padre António Vieira visou descredibilizar movimento anti-racista.

Podemos concordar ou discordar dos conteúdos intelectuais e políticos do movimento anti-racista, ou das suas expressões públicas. Mas isso não nos impedirá de concordarmos no desagrado com os políticos que mentem. 

Ora estas afirmações da coordenadora Martins são uma óbvia mentira, e ela sabe-o. A alusão a conspirações e a agentes infiltrados, “provocatórios”, foi retórica constante no movimento comunista internacional. E se há proclamação que demonstra a continuidade da filiação daquela coligação no ideário comunista é esta falsária atoarda. Apesar de Martins andar por aí a apresentar-se como de “programa social-democrata”.

O escárnio gráfico (facilmente reparável) em peças de escasso valor patrimonial não é grave, apenas irritante. E os jovens que meio-militam neste meio-movimento dentro de 10 anos serão doutores, muitos dos quais trabalhando em organismos públicos e nisso ciosos do “seu” património, estatutário no funcionalismo, e o material-simbólico que esteja sob a tutela dos seus chefes. E, pois se agora já algo politizados, logo se inscreverão no PS do momento. Alguns, mais abonados, ainda andarão pelos movimentos que são BE até poderem ambicionar o posto de chefe de secção, e então passarão definitivamente à casa-mãe. Tudo isto sem ondas. Pois não há nada de novo sob este Sol, está escrito num texto que é património.

Mas o agora relevante é a aldrabice da coordenadora comunista, a demonstrar-lhe o âmago. De facto, as pirraças gráficas são um mimetismo do que vem sendo feito noutros países. Mas são também uma tradição portuguesa. E no caso deste movimento dito anti-racista, e que recentemente foi muito propagandeado pela coligação entre secessionistas do BE e plumitivos socratistas, é uma actividade consagrada, e até recomendada, como meio de afirmação. Não é, e Martins sabe-o, obra de “agentes provocadores”.

Exemplifico essa consagração deste meio de afirmação. Na imprensa nacional o jornal que mais tem acarinhado este movimento político é o “Público”. Em 2 de Fevereiro publicou um longo texto de autoria de 4 académicos “O Padre Vieira no país dos cordiais”, no qual, entre outras matérias, é zurzida a nova (e tão pobre) estátua. O artigo é interessante e levanta pontos de forma competente. Acima de tudo, para meu gosto, refere que as críticas ao “anacronismo” destes juízes da História estão também elas pejadas de anacronismos. E nisso têm razão os autores. Ainda que não consigam chegar à conclusão óbvia: as causas exacerbadas conduzem ao estupor argumentativo. Mas porventura nunca poderão aí chegar, devido a limites próprios.

Nesse artigo foi, implicita e intrinsecamente, louvada a acção de “recontextualização” das estátuas (a de Vieira e outras), “intervencionadas” pois “pichadas” com “mensagem (…) firme”. E foi refutada a acusação de “vandalismo” a tais práticas pois tratam-se de “dissidência cívica”: “Porém, trata-se daquilo a que Frédéric Gros chamou dissidência cívica (Désobéir, 2018). Aquilo que os pichadores fazem não é mais do que se reconhecerem a si mesmos como sujeitos políticos, no quadro da reinvenção de uma democracia que se quer crítica e interrogativa. A “merda” que os pichadores do Porto incordialmente demandam que seja retirada é uma estátua mas é também, e sobretudo, a materialidade dos consensos impostos no espaço público; o fim da hegemonia narrativa imposta pelos seus guardiães.”

Não estou a dizer que os 4 autores do artigo são instigadores ou responsáveis, ou vândalos. O que digo é que estes urros gráficos são uma constante neste movimento (e noutros) e que são uma expressão consagrada e louvada pelos intelectuais integrantes, esses com estatuto académico e militância política suficientes para acederem ao “Público”. E que, em assim sendo, é óbvio que as invectivas gráficas não são obras dos tais imaginários “agentes provocadores” que a coordenadora Martins vem brandir.

Uns rabiscos e uns palavrões numa estátuas a que poucos ligam não são relevantes – mostra-o o estado “grafitado” das cidades portuguesas. O relevante é termos dirigentes políticos que mentem com toda a desfaçatez. Isso é que é importante. E Martins está aqui a mentir com a boca toda, apesar da máscara que usa. E eu troco a patética estátua do Vieira, e mais algumas, por um dirigente, ou mesmo mais alguns, que não minta(m) com tamanha impudicícia. Este movimento, se não fosse apenas meio-movimento de jovens esparvoados e de académicos demagogos, poderia pensar nisso.

13 comentários em “O Padre Vieira e a Coordenadora Martins”

  1. https://www.google.com/amp/s/www.tsf.pt/portugal/politica/amp/lider-do-cds-acusa-extrema-esquerda-de-vandalizacao-da-estatua-de-padre-antonio-vieira-12304771.html

    Como é que se sabe terem sido brigadas vermelhas a pintarem de encarnado a estátua?

    https://www.google.com/amp/s/observador.pt/2020/06/12/portugal-e-branco-escola-eca-de-queiroz-nos-olivais-vandalizada-com-dizeres-racistas-diz-bloco-de-esquerda/amp/

    Como é que se sabe terem sido camisas pretas a pintarem de negro as paredes?

    Uma retórica abusada por todos.

  2. Inscrição “Antifa” em preto debruado, como convém, a vermelho. nos acessos do Metro Alameda à Escola Artística António Arroio. Um outro, novo, vírus que infecta certa camada da população. Convém igualmente manter distância social.

  3. Eu nisto sigo o instinto de Emmanuel Todd. Anda por aí muita gente saudosa das batalhas de rua entre extremistas e fanáticos de polos opostos. Daí até aos actos provocatórios vai um passo de anão.

  4. Antes de iniciar meu comentário, permita aqui deixar uma ligação com o discurso do Senhor Cardeal Tolentino de Mendonça nas comemorações do 10 de Junho de 2020 bem como, no seguimento do reavivar da memória do grande António Vieira, um breve excerto de seu pensamento.

    https://www.youtube.com/watch?v=i-Be1Hfr7MU

    Sobre Vieira, e ainda no contexto do Sermão do Bom Ladrão, deixo:

    “Suponho finalmente que os ladrões de que falo não são aqueles miseráveis, a quem a pobreza e vileza de sua fortuna condenou a este género de vida, porque a mesma sua miséria, ou escusa, ou alivia o seu pecado, como diz Salomão: Non grandis est culpa, cum quis furatus fuerit: furatur enim ut esurientem impleat animam (Prov. 6,30). O ladrão que furta para comer, não vai, nem leva ao inferno; os que não só vão, mas levam, de que eu trato, são outros ladrões, de maior calibre e de mais alta esfera, os quais debaixo do mesmo nome e do mesmo predicamento, distingue muito bem S. Basílio Magno: Não são só ladrões, diz o santo, os que cortam bolsas ou espreitam os que se vão banhar, para lhes colher a roupa: os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões, ou o governo das províncias, ou a administração das cidades, os quais já com manha, já com força, roubam e despojam os povos. (…)”

    Concluirei aqui que a história da nossa expansão por mares nunca dantes navegados e por terras desconhecidas foi feita sobretudo por aqueles que em razão da pobreza semeada por poucos – em tudo semelhante ao que os séculos vindouros até hoje nos revelaram – se atreveram a sonhar e a aspirar que uma aventura os tiraria de tal condição. E são estes, pelo conhecimento de sua miséria, que a outros miseráveis também se ajuntaram; e com estes combaterem e ainda combatem a miséria.
    Camões soube enaltecer isto, reproduzindo e descodificando uma cosmografia da alma, e deixou bem patente nos velhos do Restelo (que não simbolizam uma faixa etária mas um modo de pensar) que o Portugal envelhecido era e é aquele produzido por doutos ignorantes que com falta de coragem e resignados se submeteram e submetem a frouxos pensadores que ou já o têm ou aguardam o seu quinhão.
    E nesta cosmografia resiste a esperança e a capacidade em não desistir, naqueles que sabem, e souberam, fazer Portugal grande, deixando os velhos e as velhas do Restelo papaguear um refrão imundo que só a esses desconcerta.

    1. “Adorei” a entrevista mal amanhada do Pedro Santos Guerreiro ao cardeal Tolentino, em especial quando não lhe apanhou a peta sobre madre Tereza de Calcutá que não passou de uma fraude bem desmascarada pelo Christopher Hitchens num vídeo no YouTube. Muito fraquinho o jornalista e quanto ao Tolentino tem uma grande saia!

  5. Tal como aquele rapaz do cartaz era um agente infiltrado para descredibilizar o movimento.
    Valha-nos o Bloco para nos Educar.

    1. Eles agora os agentes infiltrados são emancipados entram muito novos….
      Esta Catarina é cá uma encomenda….

      O problema é que não foi só esse cartaz como alguém quer dizer, foram muito cartazes de insulto e apelo a violência..

  6. E essas formas inferiores de vida, “coordenadora” ( há outras designações, em português corrente…) incluída, já têm planos de acção quanto ao busto do grande Ricardo Chibanga na Golegã ?

    JSP

  7. Eu gostava de ir passar umas férias ao Egipto (Egito?), mas a visão daqueles monumentos erigidos por mão de obra escrava fere a minha sensibilidade.
    Onde está o abaixo-assinado para demolir aquele símbolo da opressão?

  8. Com um discurso muito irritante e ostensivo a Coordenadora Martins pode dizer o que muito bem lhe apetecer, mas todos sabemos que mente… Muito mal.

  9. Sinceramente eu não sei o que é que estes jovens andam apreender nas escolas nas faz faculdades.
    Provavelmente nada!!!
    Em vez de uma hipócrita marcha do racismo, sim digo hipócrita, deviam preocupar-se por exemplo com as condições indignas que vivem algumas pessoas como no bairro bastante falado da Jamaica. etc…
    A história é história que deve ser preservada e respeitada, concordemos com ela ou não, faz parte do que somos hoje.
    Perseguições as bruxas fez-se no tempo da inquisição,e acho que devemos pensar que tudo teve o seu tempo o seu contexto, e é mesmo isso a sua história.
    Querer apaga-la só quer dizer uma coisa, que é criar uma nova ordem, uma nova autoridade e impor também pela força uma nova ditadura seja ela de pensamento ou o que quer que seja.
    Sim a democracia tem que ser cuidada, pois os perigos espreitam ,e há sempre gente pronta a derrubá-la.
    O passado é passado, o que temos é o hoje, e o hoje não pode ser uma revanche contra tudo o que faz parte de nós.

  10. Eu gostava era de saber o que a camarada coordenadora do BE tem a dizer e sobretudo o que vai fazer sobre o “pedido” de mais uma tranche para o Novo Banco e já agora também o que pensa fazer o 1º ministro, o ministro das finanças e o PR.
    Quanto ao “resto” não é por berrarem alto que passam a ter razão.

    WW

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