Os comentários da semana


Pedro Correia,

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«Vieira era mestiço por parte de mãe, descendente de africanos.

A também defesa do povo indígena na época era para garantir a legitimidade destes e de sua cultura em seu território.

Não admira que os ignorantes que se atrevem a vandalizar a estátua de Vieira o façam por ignorância.

 

No Sermão do Bom Ladrão, Vieira alude a um facto histórico transversal e que importa reavivar:

“O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza; o roubar com pouco poder faz os piratas, o roubar com muito, os Alexandres. Mas Séneca, que sabia bem distinguir as qualidades e interpretar as significações, a uns e outros definiu com o mesmo nome: Eodem loco pone latronem et piratam, quo regem animum latronis et piratae habentem. Se o rei da Macedónia, ou qualquer outro, fizer o que faz o ladrão e o pirata, o ladrão, o pirata e o rei, todos têm o mesmo lugar, e merecem o mesmo nome.

Quando li isto em Séneca, não me admirei tanto que um filósofo estóico se atrevesse a escrever uma tal sentença em Roma, reinando nela Nero;…”

 

Tudo isto para dizer que também se assemelham nesta categoria os ladrões da história e vândalos da cultura.»

 

Do nosso leitor Vento. A propósito deste texto do Luís Naves.

 

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«Confesso que me faz imensa confusão a incapacidade actual de diferenciar o nível intelectual, humano, ético ou moral do indivíduo do século XXI com a do indivíduo dos séculos XVI, XVIII ou XIX.

Questiono quem será mais incapaz, aquele que pouco acesso teve à educação, que cresceu manietado e limitado no acesso ao conhecimento, ou aquele que a tudo tem acesso, que tem incontáveis fontes de informação e que tem ao seu dispor uma panóplia enorme de informação.

Questiono a diferença entre o homem do Renascimento, que por exemplo efectuava a queima de livros, por estes irem contra a ideologia reinante, fundamentalmente religiosa, como aconteceu em Granada, mesmo aqui ao lado, em 1499 e onde foram queimados mais de 5000 livros e manuscritos, na sua maioria árabes e que se tornaram insubstituíveis; em contraposição com o homem actual, que em vez de estar grato pelo conhecimento que lhe é disponibilizado, prefere destruir património histórico, como se tal acto corrigisse o passado.

Vi com espanto o presidente da Câmara de Londres assumir que as estátuas destruídas não serão recolocadas no seu lugar. Não serão reconstruídas e serão substituídas por outras mais de acordo com os ideais actuais.

Imaginemos no nosso país, mais concretamente na cidade do Porto, o edil da invicta aceitar a destruição da estátua do Infante D. Henrique, ou até alterar o nome da Praça do Infante.

É que, caso isto pegue moda no nosso Portugal, esta será uma estátua que terá os dias contados, pois foi sob a supervisão do Infante que se deu a primeira partilha de escravos documentada no nosso país, ocorrida em Lagos, no Algarve, nos idos de 1444.

O mesmo poderá acontecer em Lisboa com a estátua de Fernando Pessoa, que tem sido alvo de acusações de racismo por parte de uma facção da sociedade angolana, que o acusa de ser um escravopata racista, que terá justificado a escravatura e diminuído o africano como ser inferior.

 

Isto não assusta?

Não estaremos nós a contribuir para a limitação de conhecimentos das gerações futuras?

Será que é com o silêncio e ignorando o passado que construímos um futuro melhor?

Como poderemos formar as crianças para o bem, ou para melhor, se não lhes permitimos ter conhecimento sobre o pior? Como ter um termo de comparação?

 

Como o autor descreveu, teremos de riscar da história todo e qualquer autor, pintor, escultor, poeta, nascido e vivido antes do século XXI, pois todos teriam comportamentos racistas, xenófobos, machistas e misóginos. E teriam porque era uma ideia social, era o senso comum da época.

Li nestes dias artigos que defendem que Machado de Assis e principalmente Eça de Queirós diminuíam a mulher e sempre escreveram de um ponto de vista machista. Chega-se ao cúmulo de aconselharem as mulheres de hoje a evitarem ler as obras de Eça… Que incitamento à ignorância, diria eu.

Ora o homem evoluiu, tornou-se melhor, com melhores ideais e uma dessas evoluções deveria ser a capacidade de interpretar as épocas, mediante as próprias épocas e o statu quo vigente.

Estas atitudes que temos visto actualmente mais não são do que ignorância, fracos valores intelectuais e humanos, apesar de tentarem fazer crer que são precisamente o contrário.»

 

Do nosso leitor Guarda Serôdio. A propósito deste texto do JPT.

14 comentários em “Os comentários da semana”

  1. Se existe de facto um Guarda Serôdio que em serviço age como descreveu noutros comentários e nos tempos livres escreve com o desassombro com que escreveu este comentário ainda vale a pena acreditar que somos gente e num País decente.

  2. Por vezes as ascendências dizem muito pouco. Almada Negreiros era preto e sabemos bem o que representou e a que ideologia esteve associado o Futurismo.

    Concordando no geral, apenas direi que a Ordem de Jesus pretendeu constituir no Brasil, e na América do Sul, um reino de deus governado por homens (jesuítas) , o que lhe valeu a inimizade das cortes espanholas, portuguesas e do próprio Vaticano.

    Dito isto Vieira era um génio.

    1. Que misteriosa ideologia foi essa?
      Encontra mais teorias raciais nos Progressistas e Fabians que no Fascismo de inspiração Italiana directamente ligado ao Movimento Futurista.

      E não é por acaso que o eugenismo só tem sucesso nos países não católicos.

      De acordo com Vieira.

      lucklucky

  3. A diferença entre um conquistador e um ladrão estará em quem relata o conto.

    A censura, seja de livros ou estátuas, tem à partida um “pequeno” problema, que é o de definir os parâmetros aceitáveis.
    Lá o senhor dos states que era um esclavagista é bom a estatueta ir abaixo, mas quando decidirem decapitar o Jefferson, também é de bem? É que o pai da democracia tinha escravos, possuía uma concubina, e teve filhos em cativeiro. Não parece aceitável com os valores anti-racistas.
    Depois há sempre a questão de quem determina que livros queimar ou estátuas decapitar. Nos tempos idos seria um qualquer comité, hoje essa tarefa pode ser executada pelos chamados movimentos sociais. O poder ao povo, portanto.

    Em tudo isto, o comum é a ignorância e a intolerância. As calorias que alimentam uma boa ditadura.

  4. Não tarda muito e teremos de novo a inquisição em Portugal torturando e matando em nome do apregoado racismo.

  5. E ainda não perceberam a natureza do Marxismo.
    Não são ignorantes, sabem muito bem o que andam a fazer.

    É preciso acabar com o Passado, para nascer o Género Novo.

    lucklucky

  6. Guarda Serôdio, não pense que nessas idades passadas não houve gente que se indignou com a imoralidade das más práticas, tomadas, naquela altura, moeda corrente. A esses poucos, esperou-lhes o escárnio, o degredo, a miséria, o cadafalso. Assim os ares dos tempos não eram suficientes para qualquer fatalidade.

    O que trama os europeus, sobretudo aqueles com pouco acesso aos livros, é que a sua história é uma epopeia de guerras de expansão, conquista e exploração em larga escala. Confira, em contraponto a história asiática, sobretudo a chinesa.

    Refiro Bartolomeu de Las Casas, outra vez. E outros houve. Mas isto de ser o único, nestas brandas, dá um trabalho do caraças.

  7. Adenda :

    Este “revisionismo” histórico não é novo. Apenas o é para os portugueses com pouco acesso a livros. Um dos primeiros a desmontar a nossa “heróica” história foi Joaquim Oliveira Martins (conferir História de Portugal).
    Sim, Vasco da Gama e Afonso de Albuquerque, cometeram atrocidades, mesmo para os padrões culturais da época, pois muitos foram os coevos que escreveram em indignação. Já agora vejam o número de ruas com o nome Conde Ferreira. No Porto até existe um hospital com o seu nome. Alguém sabe como famigerado homem arrebanhou tamanha fortuna? Estudassem

  8. Derrubar estátuas!??…

    Esta gente precisa é de um novo corte de cabelo, isto é tudo gente que não tem
    nada que fazer e pensar.
    É a criatividade imbécil de gente oca e bacoca.

    O passado é passado, bom ou mau faz parte de nós da nossa História, apagá-lo é o mesmo que perder parte daquilo que fomos e que explica em parte o que somos
    hoje.

    Miguel Nunes

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