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Luís Naves,

António Vieira foi um dos maiores prosadores da língua portuguesa e uma das figuras marcantes do século XVII. Em várias ocasiões, enfrentou os poderosos e arriscou a vida com as suas críticas da escravatura e da brutalidade da colonização do Brasil. Apesar da grandeza evidente da obra, o padre tem em Lisboa uma estátua pindérica, que foi vandalizada por uns bárbaros que não compreendem nada. Pelo mundo civilizado proliferam hoje uns grupos minoritários que estão a lançar a moda da destruição das identidades nacionais: eles atacam símbolos, vandalizam o que lhe dá na veneta, desrespeitam as autoridades e desafiam as instituições democráticas. É um método de atacar liberdades e começa-se pela auto-estima de quem se pretende arrasar. Confunde-se protesto com rebelião, a crítica transforma-se em perseguição e assédio. As interpretações da história não são imutáveis e a nossa leitura do passado muda com as gerações, mas a revisão não pode ser feita por levianos. É um disparate aplicar a nossa grelha moral a pessoas do passado, que viveram em contextos diferentes. Um país que sempre menorizou ou perseguiu os seus maiores em vida, quer apagá-los de novo depois de mortos. António Vieira foi um grande escritor que devemos ler e admirar e foi também uma figura do seu tempo, que podemos tentar compreender melhor. A profanação da sua estátua em nome do anti-racismo é uma barbaridade imbecil, um crime contra o património da nossa nação. (E não tentem contestar a nossa liberdade de ter um património colectivo). Claro que estas guerras de cultura servem apenas para nos distrair das verdadeiras crises. Temos problemas de pobreza e má distribuição de rendimento, temos muito desemprego e teremos em breve ainda mais, vem aí uma hecatombe económica e não precisamos destas discussões parvas. Ou serão distracções oportunas?

Nota: Não vivemos em tempos de desistências. Sendo os meus textos aqui sistematicamente alvo de provocações de alguns comentadores que não apreciam o estilo, aviso que passarei a usar o privilégio de não aprovar comentários que, confundindo crítica com assédio, procuram condicionar ou distorcer as opiniões do autor.

23 comentários em “25”

  1. Assim de relance, parece-me uma réplica do célebre Sermão de Sto. António aos Peixes. Que poucos irão entender e a que os trolls residentes sempre se oporão, quanto mais não seja porque sim.

    Sim, “90% das pessoas são ignorantes e 50% são ainda mais ignorantes”, uma realidade confrangedora a que a net, que veio dar voz aos imbecis, segundo Umberto Eco, presta agora homenagem. Infelizmente não é só a net, é também a realidade.

    Ponha mais sal nisso, numa referência ao aludido sermão. E vista-se de vermelho, ou disfarce-se de Mefistófoles, que as marradas dos trolls ficam desde logo justificadas.

  2. António Vieira […] enfrentou os poderosos e arriscou a vida com as suas críticas da escravatura e da brutalidade da colonização do Brasil.

    Segundo a minha mãe, que era educada nessas coisas, me ensinou, isso não foi nada assim: António Vieira criticou o prejuízo que os colonizadores faziam aos indígenas, mas apoiou a escravatura de africanos. Ele atuava em interesse próprio: o interesse de António Vieira era evangelizar os indígenas, e como tal ele defendia-os, enquanto que os africanos não lhe interessavam pevas, e ele estava de acordo que fossem utilizados como escravos.

    Para António Vieira, os ameríndios eram seres humanos com almas para salvar, os africanos eram símios irrelevantes.

    1. Um modo de ver um pouco vesgo da senhora sua mãe. Vieira era um homem do seu tempo. A escravização dos índios era intolerável e proibida pelo Papa desde o século XVI. E era feita pelos colonizadores. Os escravos negros, tinham sido reduzidos a escravos pelos povos com quem os colonizadores negociavam. Era moralmente indefensável, é certo, mesmo à luz dos valores de então. Mas dos valores cristãos e ocidentais. Pelos valores africanos, ainda hoje são toleráveis. Ainda hoje se pratica a escravatura em África. Vieira tentava salvar o que era possível salvar. Omitir a escravatura negra, porque lhe faltavam as armas para o fazer, é uma coisa. Dizer que ele a defendia é uma zarolhice.

    2. Que ignorante você é nesta matéria, Lavoura, e quem lhe ensinou tal. Vieira era mestiço por parte de mãe, descendente de africanos.
      A também defesa do povo indígena na época era para garantir a legitimidade destes e de sua cultura em seu território.
      Não admira que os ignorantes que se atrevem a vandalizar a estátua de Vieira o façam pelos mesmos motivos: ignorância.

      No Sermão do Bom Ladrão, Vieira alude a um facto histórico transversal e que importa reavivar:
      “O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza; o roubar com pouco poder faz os piratas, o roubar com muito, os Alexandres. Mas Séneca, que sabia bem distinguir as qualidades e interpretar as significações, a uns e outros definiu com o mesmo nome: Eodem loco pone latronem et piratam, quo regem animum latronis et piratae habentem. Se o rei da Macedónia, ou qualquer outro, fizer o que faz o ladrão e o pirata, o ladrão, o pirata e o rei, todos têm o mesmo lugar, e merecem o mesmo nome.
      Quando li isto em Séneca, não me admirei tanto que um filósofo estóico se atrevesse a escrever uma tal sentença em Roma, reinando nela Nero;…”

      Tudo isto para dizer-lhe que também se assemelham nesta categoria os ladrões da história, e vândalos da cultura.

  3. Não tem que ver com ‘atacar liberdades’. Isto é tudo ressentimento. Tudo.

    O que, aliás, é a génese de todos os marxismos.

    Hoje o ressentimento é identitário.

    Substima-se terrivelmente o poder avassalador do ressentimento.

  4. “que foi vandalizada por uns bárbaros que não compreendem nada.”

    Compreendem, compreendem como se obtém poder sobre os outros.
    Adicionar a competição/autopromoção/defesa dentro do seu grupo.

    Uma pessoa, sociedade que sente culpa, não resiste.
    É esse o objectivo Marxista, neutralizar.

    E como praticamente todas as revoluções, esta é mais uma revolução dos privilegiados. São os meninos ricos que estão em mais uma vez em transe:
    Universidade e Jornais/TV’s

    Na Russia dos Czares toda a extensa violência anterior ao Golpe Comunista não foi iniciada ou feita pelo maioritariamente pelo povo, mas por parte da aristocracia, nobreza e profissões liberais.

    lucklucky

    1. E melhor abrir todos os armários que tem em casa, é bem capaz de haver marxistas misturados com algumas gravatas. Continua a ver marxistas por tudo o que é sítio, ou são muitos ou você inventa. É melhor prevenir os donos da Bolsa de NY com certeza que lá haverá muitos e, principalmente, nas TVs (não é TV’s).
      Não invente teorias, que ainda cá anda muita gente viva que sabe muito bem como tudo aconteceu.

  5. Abaixo a estátua do Marquês, que expulsou os jesuítas.
    O D. Afonso massacrou árabes.
    D João de Aviz atirou um espanhol pela janela.
    Os reis eram traficantes de escravos, exploraram o indígena brasileiro ou mataram mouros e indianos

    De pé, fica somente a estátua do Eusébio.

  6. Boa noite.
    Li o conteúdo deste post, vale o que vale, merece-me todo o respeito e, por ser um “Artigo de Opinião”, abstenho-me de fazer um juizo de valor, para não ferir a verdade do seu autor. Porque a verdade de cada um é sagrada e intocável. Ponto.
    Entretanto, tomo a liberdade de, sobre a “Nota”, no fim do post, dizer o seguinte: um dos motivos porque ando na “Blogosfera”, não é para ver “passar os combóios”…, mas sim para aprender, para me educar e, eventualmente dizer algo que eu pense acrescentar ao debate. Neste momento considero-me, pois, “em jogo” e, como em todos os jogos em que entro, mais do que “marcar golos…”, interessa-me não ser expulso do mesmo. A comentar também me educo. Muita saúde. fl

  7. Como é que há gente que se aproveita de uma ideia que é boa, a luta contra o racismo, para destruir as marcas da história, apagando não apenas a representação dos personagens como também os artistas que a conceberam e não podem recriá-la . Talvez a história não lhes interesse, queiram reescrevê-la sem os seus humanos heróis mas um povo que apaga a sua identidade, apaga-se a si mesmo, anula-se como força viva e inteligente. Parecem hordas de bárbaros a que as forças da ordem se submetem limitando-se a retirar estátuas que possam ser vandalizadas. Há aqui qualquer coisa de profundamente errado.

    1. E sempre assim, o aproveitamento em qualquer situação de revolta.
      Como diria o outro (abrangendo outras situações) o que é queria que se fizesse? Resolvia-mos o assunto com um: ó sr. agente faz o especial obséquio de tirar o seu joelhinho do pescoço desse cidadão.
      Conta-se que na época da ditadura militar no Brasil um preso foi julgado em tribunal por insultar um polícia militar. Então você berrou a este militar insultando a mãe dele, disse o juiz, não meritíssimo eu apenas disse ao policial para fazer o especial favor de não me apertar os tomates com um alicate, respondeu o preso.

  8. Pois.
    Deveria-mos ter criticado com grande veemência os desordeiros que apareceram à pala dos coletes amarelos em Paris, a violência dos revoltosos de Hong-Kong e os desordeiros amigos dos polícias em Barcelona.
    Com esses, até tinham piada.
    Estas revoltas dos afro-americanos nos EUA são cíclicas e têm sido sempre de grande violência, mas desta vez as imagens do joelho no pescoço e a pandemia fez extravasar e alastrar por todo lado. A questão da destruição das estátuas de antigos colonizadores é uma atitude ‘deixa ver o que isto vai dar’ para haver um grande contra-ataque. Vemos ver.
    A grande chatice nos EUA é que todos os antigos Presidentes, praticamente até aos anos 20, tiveram escravos.
    Agora tem que haver uma grande informação ao povinho a dizer que era a moda da época ter um criado pretinho.
    Por cá até há poucos anos era moda ter uma sopeira que vivia na casa dos patrões como uma escrava.

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