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Luís Naves,

A pandemia podia ter destruído preconceitos sobre aquelas profissões invisíveis que antes nem eram consideradas, mas que se revelaram cruciais para a sobrevivência. Bastava sair à rua durante a quarentena para perceber a importância dos trabalhadores dos supermercados, que corriam risco diário; era finalmente possível compreender a importância dos motoristas de transportes ou dos profissionais de saúde (tantas vezes maltratados); ou dos agricultores que continuaram a produzir os alimentos ou dos comerciantes de bairro que os distribuíam e vendiam. Houve um pequeno período em que se aplaudiram os esforços dos médicos e enfermeiros, mas essa fase emocional já passou. Quem é que hoje quer saber das condições de trabalho nos hospitais? Enquanto os dirigentes se protegiam, funcionários mal pagos e sem qualificações estavam nos sítios mais expostos, a arrumar produtos de supermercado, a conduzir viaturas, a proteger cidadãos, a recolher o lixo, a limpar resíduos perigosos e a assegurar a segurança das infra-estruturas. Muitos eram os mesmos indivíduos sem estudos que o neoliberalismo transformou em gente descartável. As pessoas comuns são melhores do que pensam os seus dirigentes, mas o povo continua a ser visto como o burro de carga que tudo consegue tolerar. É gente dispensável e sem influência, frequentemente precária e pobre, cuja voz não interessa. Os da linha da frente não pertenciam a castas instaladas, não formaram clientelas políticas e vão continuar a vergar a mola sem que alguém lhes agradeça.

14 comentários em “27”

  1. É verdade, e bem merecem o nosso agradecimento, com vírus ou sem ele. Todos precisamos de todos. Exceptuando talvez metade da função pública e dois terços dos políticos…

  2. Calhou que hoje à tarde, até estive a ver um documentrário sobre os Beatles… onde às tantas aparece uma cena em que uma tipa se vira para o Ringo Starr e lhe pergunta se ele era “Mod” ou “rocker” ao que ele respondeu, “mocker” – um perfeito exemplo de aproveitamento saudável que o grupo sempre fez do humor típico dos “Marx Brothers”.

    Um outro Marx que até nada tinha a ver com os tais “brothers” com o mesmo apelido, com a ajuda de um amigo de apelido Engels, saiu-se com um outro tipo de humor um pouco mais sério: «Proletários de todo o mundo, uni-vos!»

    E, apesar de factualmente até não ser uma verdade, houve em tempos, pelo menos, 2 partidos – um italiano e o outro alemão – que subscreveram a variante, “insignificante”, dos «Proletários da “X” (Alemanha/Itália), uni-vos (em torno do partido)!”

    Não fosse o caso de até “conhecer” o Luís Naves aqui do blogue, até estaria tentado a o julgar como apenas mais um “Marx”… ou como humorista “nonsense”, ou como filósofo preocupado com os “proletários”!

  3. Essas inúmeras e silenciosas peças da máquina que é a nossa sociedade eram ignoradas e continuam esquecidas.
    O neo-liberalismo (continuo sem entender o prefixo neo) seria sim o mau da fita se estivesse no poder.
    Quem governa, e não há pouco tempo, apresenta-se como quem irá corrigir os excessos que afinal resultam apenas das suas decisões.
    As peças anónimas que refere consubstanciam o conceito de dever a um nível que ultrapassa em muito o dos seus dirigentes.
    Um quinto dos portugueses vive na miséria ou no seu limiar. Já viviam antes desta nova crise e a sua coluna agora engrossará. São efectivamente o burro de carga deste regime, que se emociona quando fala em liberdade, mas não lhes permite decidirem por si.

    1. Paulo Sousa.
      Desculpe meter catana em lavra alheia, mas a curiosidade é mais forte.
      Quando diz:
      “São efectivamente o burro de carga deste regime, que se emociona quando fala em liberdade, mas não lhes permite decidirem por si.”
      E do outro regime, o que eram?
      E de qualquer outro regime, o que serão?
      E extravasando fronteiras, qual o regime que lhes permite decidirem por si?

      1. Sempre que se critica os resultados do regime, lá vem sempre dizer que o anterior era bem pior, como se isso fosse suficiente para nos encher a barriga.
        Já escrevi sobre isso. Pode ler aqui https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/dedicado-as-beatas-do-regime-11505650.
        A liberdade de escolha tem também a ver com o dinheiro que se tem na carteira. Se compararmos por exemplo o ordenado mínimo da Irlanda que é de cerca de 1800€ com o nosso, podemos ver onde há mais liberdade de escolha. Se quiser comprar o ordenado média chegamos à mesma conclusão.

        1. Uma questão de escolha, entre o mau e o menos mau, porque de resto todos os regimes são iguais. O pobre continuará sempre pobre e o rico cada vez mais rico.
          Foi isso que eu disse. Com este ou outro regime, a liberdade de escolha ou decisão de quem trabalha será sempre a mesma. Nenhuma.
          O exemplo que me dá da Irlanda é bem significativo. Antes deste outro regime houve e os ordenados por comparabilidade com os nossos não mostraram significativa diferença. Aliás, nenhuma.
          O que nos remete para o início. “São efectivamente o burro de carga deste regime, (todos os regimes) que se emociona/m quando fala/m em liberdade, mas não lhes permite/m decidirem por si.”

  4. “Muitos eram os mesmos indivíduos sem estudos que o neoliberalismo transformou em gente descartável.”

    Aha!
    Foram os jornais que passaram a vida na propaganda aos estudos.
    Diga-me qual o carpinteiro que escreve num jornal? Mas temos muitos artigos de “especialistas culturais e de género” …

    É a cultura, e o movimento da Esquerda para fora do mundo real e para o mundo das palavras que tira valor às pessoas “sem estudos” não é o neoliberalismo.

    Devido ao neoliberalismo os trabalhadores de supermercado têm tecnologia hoje que nem um milionário poderia ter há 10 anos.

    Mais, muitas empresas têm fundos secretos para pagar a pessoas essenciais com estudos inferiores a outras mas sem tanta importância para a empresa.

    Num pais de doutores os poucos que limpam casas de banho deveriam ser milionários. Seria o resultado normal do mercado “neoliberal”. Porque não são? porque a cultura que não lhes dá valor.

    lucklucky

  5. Não destruiu nada…
    Carteiros, homens do lixo, pessoal de limpeza (hospitais não é só pessoal médico), polícia, bombeiros, entre outros.

    Baixos salários, pouco reconhecimento, nula progressão de carreira, nenhumas aspirações.

    Siga.

  6. aquelas profissões invisíveis que antes nem eram consideradas, mas que se revelaram cruciais para a sobrevivência

    Não acho que essas profissões sejam invisíveis, pelo contrário, elas são altamente visíveis: todos nós vemos regularmente empregados de supermercado, varredores de ruas, pessoal de limpeza de edifícios, etc.

    E também é falso que elas não sejam consideradas, pelo contrário, há muitos estudos económicos que mostram que muitas dessas profissões são mais essenciais e mais difíceis de substituir por robôs do que outras profissões mais prestigiadas.

    Aliás, é sabido que muitos países desenvolvidos recorrem abundantemente a imigrantes precisamente para preencher essas profissões, que são essenciais.

  7. ” e vão continuar a vergar a mola sem que alguém lhes agradeça “

    Pois vão. E já antes vergavam, e sempre vergaram com o mesmo agradecimento. Nenhum, nem reconhecimento.
    Antes pandemia, durante pandemia e infalivelmente depois pandemia.
    Para ser mesmo verdadeiro, não vejo o que o postal quis mostrar.

  8. A sua reflexão não preenche os cânones da liberalidade existente. Porém identifica os da verticalidade geométrica que as sociedades têm revelado.

    Quer os liberais quer os propagandistas igualitários traduziram nos seus discursos ilusórios a vontade de manter a sedimentação do status quo, garantindo a si mesmos os postos privilegiados da hierarquia que designam por liderança. Se outrora a posição era garantida pela força bruta, não menos bruta é a força da manipulação que se usa para fingir ser igual a diferença que desejam manter e promover.

    O avanço civilizacional revelou-nos a falsidade da universalização do saber dito científico, em prol da humanização dos constituintes, como solução dos problemas outrora existentes. Esta, traduzindo-se em ainda mais exclusão e em não menos frustração, encapotou que só se é humano porque se tem consciência, valor distintivo do humano no reino animal.
    Assim, o saber dito útil diante de um fenómeno que o transcende demonstrou-nos a inutilidade do saber como factor de humanização.

    Entende-se como factor de humanização o papaguear sentenças e vocábulos; e tentando criar uma monossemia social busca-se consolidar a estratificação de uma sociedade que tão desigual se mantém por lhe faltar a humanidade.

    Nessa mesma linha, procuram criar-se soluções e uniões entre nações com base no utilitarismo do número e da quantidade em detrimento do valor transcendente da consciência que devia emergir e imergir no “objecto” que se controla, domina e usa-se como se de um utilitário fosse.

    Assim, o valor desse trabalho que revela em sua reflexão confirma que esses que o desempenham fazem parte do utilitário que na sociedade se criou: utilitários para os que os contratam e também para os que deles se animam para garantir o status.

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